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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Takatafacts

La vendetta è un piatto che si serve freddo. Claro que o sapo não foi suficiente.

Povo do Twitter:
  1. oatila Quando Mendel estava propondo "acho que é 2,75 pra 1" o @rmtakata sugeriu "caro senhor, talvez seja 3 para 1"
  2. oatila Lamark não aprovou o comentário do Takata, e é conhecido até hoje como o cara que errou...
  3. Gabriel_RNAm Darwin. Galapagos. De repente, Takata: já reparou nos bicos, Charles?
  4. carloshotta A pedra roseta foi decifrada pq o Takata deixou comentários em todas as línguas
  5. paulabio Uma verdade inconveniente virou nome de filme depois que o Al Gore ligou pro Takata
  6. Gabriel_RNAm Ele olhou para a tripulação e disse: limões e laranjas, marujos... limões e laranjas.
  7. A Enciclopédia Brittanica era um folheto de duas páginas antes de receber uma correspondência com as observações de Takata.
  8. Deus disse: "faça-se a luz". Takata comentou: com que comprimento de onda?
  9. oatila Erwin Schrödinger: acho que o gato está morto @rmtakata : talvez ele não esteja, quais são as evidências?
  10. Gabriel_RNAm Ele olha para Sheldon e diz 'iiiióóóóóóóóóóóóóóóónnnn!!"
  11. Rafael_RNAm @Rafael_RNAm: @rmtakata: q tres fitas q nada. Elementar que são duas, meu caro Watson
  12. paulabio Foi o Takata quem espirrou na placa de cultura do Flemming
  13. Rafael_RNAm Takata: escreve esse artigo logo Wallace, senão alguem publica na sua frente hein...
  14. Takata para Moisseiff: calculou direito o índice de trepidação aeroelástica dessa ponte que você pretende construir em Tacoma?
  15. osamekinouchi Takata para Feynman: "Você está brincando comigo,Mr. Feynman?
  16. @Karl_Ecce_Med: Modified Godwin's Law: "as arguments with Takata growns longer, the probability to mention #takatafacts approaches one".
    16a.
    oatila @rmtakata nesse caso, tmáx =~ 6 twitts #takatafacts
    16b. Karl_Ecce_Med RT @rmtakata Modified Godwin's Law: as arguments with "anybody" growns longer, the probability to mention #takatafacts approaches one.
    16c.
    oatila Modified Godwin's Law: "as posts number growns longer, the probability to be a victim of #takatafacts approaches one".
    16c.1.
    Karl_Ecce_Med RT @oatila: Re-Modified Godwin's Law: "as twits number growns longer, the probability to be a victim of #takatafacts approaches one".
  17. carloshotta O @rmtakata comenta tanto que o @scienceblogsbr acha que é bot e bloqueia.
  18. ju_galak O @rmtakata faz a barba com a navalha de Ockham. #takatafacts
Salmos 10:7 "A sua boca está cheia de imprecações, de enganos e de astúcia; debaixo da sua língua há malícia e maldade."

Postagem em permanente atualização.

Uma história de João

O euclipo começou já na sexta. Eu, porém, tinha coleta (saída a campo para obtenção de material a ser estudado em laboratório) para fazer, de modo que só cheguei a Arraial do Cabo no sábado. Um bate e volta de São Paulo até Ubatuba, passando pelas cidades do litoral norte do estado (mas sem poder apreciar a paisagem... trabalho). Das sete da matina na USP, saindo às sete e meia, estrada toda vida, voltando às seis e meia da tarde à sampa, mais uma hora até a USP pelas marginais (engarrafadas, claro), descarregar o material. Oito e tanto da noite na pensão, ducha rápida para readquirir um pouco de humanidade (em que condições deploráveis ficamos nessas viagens), dez para as dez na rodoviária do Tietê. Ônibus das 22h45 para o Rio. 5h00 da matina no terminal Novo Rio. 5h15 partindo para Arraial do Cabo. Chegando lá finalmente às 8h30 da manhã de sábado. Fui estropiado ao evento (barba de oito dias...).

Mas quero falar um pouco da coleta. De um episódio dela.
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Seu João (nome fictício) saiu do fundo de sua casa para ver quem acabava de adentrar sua propriedade.

Meu colega se apresentou: "Somos da USP, a gente está procurando por bichinhos que dão na goiaba e nos frutos..."

- Eu me lembro de vocês, respondeu João.

De fato estivéramos ali ao fim do ano passado. Seu pequeno terreno fica em São Luís (ou Luiz) do Paraitinga, na região do Vale do Paraíba, SP, à beira da estrada. Como da primeira vez, em que ainda éramos estranhos desconhecidos, recebeu-nos com toda a cortesia. Rapidamente guiou-nos por seu pomar, ajudando-nos a recolher aqui e ali uns poucos frutos caídos a apodrecer. Não havia muitos - apenas dois caixotes (bandejas) -, mas uma certa surpresa que ainda houvesse laranjas na época.

Enquanto nos contava, todo orgulhoso, de seus cinco (acho que eram cinco) filhos - todos feitos e encaminhados na vida (um que é gerente em uma empresa, uma que é coordenadora de escola, outro que é dono de padaria...) -, começou a retirar laranjas do próprio pé.

- Mas, seu João, a gente quer só os frutos estragados, disse eu. (Pois é, há esse lado pouco glamoroso na vida de pesquisadores: botar a mão na massa, enfiar o pé na lama, catar frutos apodrecidos cheios de larvas de moscas...)

- É pra vocês levaram para casa.

Meio constrangidos - embora da outra vez também seu João fizesse questão de que levássemos para provar o, literalmente, fruto de seu trabalho - pegamos uma bandeja. Rapidamente ela ficou cheia e depois uma segunda.

- Seu João, muito obrigado!

- Calma que tem mais.

- Mas seu João, não queremos dar prejuízo para o senhor... falamos.

- Que prejuízo? Eu acabei de doar cinco sacas para uma creche da cidade.

E, quase tão orgulhoso quanto dos filhos, apresenta-nos o pomar. Já o víramos na vez anterior, mas as pequenas mudas agoram eram vigorosas e carregadas arvoretas. Vindo do mato-grosso, trabalhou a vida inteira em São Paulo como ajudante e depois pedreiro e mestre-de-obras. Com a lida e os ganhos honestos criou os filhos. Agora aposentado, fugindo do agito da cidade grande, estabeleceu-se no interior. Cidadezinha com seus pouco mais de 10 mil habitantes, pacata no mais das vezes. Só no carnaval, no famoso carnaval de rua de S. Luís do Paraitinga, que os turistas chegam às pencas a ponto de tornar a fuzarca um tanto insuportável aos locais - preferem alugar suas casas e sair enquanto duram as festas. (Infelizmente, no último carnaval, os foliões forasteiros andaram a quebrar os bens. Há dúvida sobre se vale a pena tudo isso.) Tenta convencer os filhos a irem para lá. Mas todos têm suas próprias vidas e parecem preferir o dinamismo da cidade grande. A alegria maior de João é quando eles o visitam com seus netinhos.

A casa dos fundos da propriedade, construído por ele mesmo, muito maior do que as necessidades de um homem solitário, é para receber a comitiva familiar.

No resto do tempo dedica-se ao seu cultivo - principalmente laranja, de todo tipo: pera, pera Rio, lima, uma que se parece com uma toranja no interior (arroxeado), mas menor... Pretende ainda plantar caqui. Ladeando as duas parcelas de laranjeiras, mudas de araucária - daqui a alguns anos, João planeja ter uma boa produção garantida de pinhões. Rodeando o terreno pelo lado mais alto, pinheiros que impede que o gado do terreno ao lado invadam a cerca e tentem pastar de sua plantação. Pelo lado da rodovia, mais abaixo, cerca viva de Hibiscus em plena floração. Com seu jeito pacato, cordato, João explica como capinou todo o terreno, à mão, sozinho. Cavou cada cova, curtiu serragem com esterco para preencher as covas e só depois de 30 dias para completar o processo é que plantou as mudas. Pela quantidade de laranjas que temos à mão - a essa altura já íamos pela quarta bandeja - toda a trabalheira valeu a pena.

- O senhor aluga colmeias para polinizar as laranjeiras? pergunto.

- Ah! Tem uma colmeia ali para cima, em um cupinzeiro. Já me picaram. Pensei em chamar os bombeiros para tirar, mas pensando melhor, elas ajudam aqui a produzir os frutos. Então, não tem problema me picarem de vez em quando. Dói bastante, mas não fico todo inchado, não.

Quase que como se tivesse entreouvido nosso diálogo, uma abelha abelhuda se intromete e adeja perto de meu rosto. Fico ligeiramente apreensivo, no entanto, ela logo se cansa e vai embora.

Apanhando mais frutos, seu João explica o sistema de irrigação que desenvolveu, de modo que a água não se perca escorrendo terreno abaixo - ele tem uma inclinação razoável (e o jardim e o pomar de seu João ajudam a estabilizar). Ela corre pelos canais e vai a todas as covas, que não foram enchidas de terra até o topo, de modo que cada uma retém a água para as plantas. Há ainda sulcos que impedem que a água da chuva também escoe diretamente para a rodovia. Retém a umidade no solo e diminui o escoamento superficial. Isso (o escoamento) seria terrível para seu João, toda a camada superficial do solo acabaria sobre a pista de rodagem.

Tudo isso aprendeu e aprende aqui e ali, em conversas com amigos e técnicos. Prudente, testa cada sugestão antes de aplicar em toda a cultura. Comento que os produtores de laranja aplicam ácido giberélico nos frutos de modo que sua casca permaneça verde, mas continue a amadurecer por dentro - evitando a infestação por moscas-das-frutas e obtendo uma produção mais valorizada (com um maior teor de Brix, o preço a ser pago pela indústria de sucos é maior). João acha interessante, toma nota mental. Vai procurar saber mais sobre isso e deixa escapar uma observação:

- Ah! Por isso que a laranja deles é diferente...

Estamos - sujeitos da cidade grande - com certa pressa para voltar. Pegaremos São Paulo bem na hora do rush, no anoitecer de sexta-feira...

Voltamos à sampa com cinco bandejas repletas da melhor laranja. Mas o melhor mesmo que levamos é a boa conversa de seu João.

Pé na lama, mão na massa, frutos podres... e gente de primeiríssima - sem glamor, mas quem precisa? Como é bom ser pesquisador e poder encontrar com pessoas como seu João. Tomara que a gente consiga - um dia (eu sei, distante) - controlar as moscas-das-frutas nos cultivos, especialmente dos pequenos produtores, que mais sofrem com essas perdas.
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Nota: os diálogos são reconstituídos a partir da memória, procuram ser fiéis aos acontecimentos, mas não são transcrições literais do que foi dito.

Post mortem (só para os euclipeiros)


Confira aqui, aqui e aqui. Para o marciano que boiou: aqui.

Claro, sempre meio triste quando morre um espécime de uma espécie rara.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Clipping e clipes do euclipo

- "Sim, eu sou nerd", diz o publicitário.

A galera vem abaixo, aplausos e apupos assovios.

Estaria eu no meio de uma sessão de NA ("nerds anônimos")? Hmmm, quase isso... tem mais letras e é menos pronunciável: EWCLiPo, soa algo ali pelo klingon* com sotaque ewoquês* - também conhecido como Encontro de Weblogs de Ciência Científicos** em Língua Portuguesa. E vai pelo segundo ano consecutivo.

*se você sabe do que estou falando, então deveria ter estado lá (se é que não esteve).

**Upideite (01/out/2009): correção nesta data.

Bem, não precisarei escrever muita coisa, já que o pessoal que foi lá fez e está a fazer um belo trabalho (que eu não faria melhor - e nem parecido):

VQEB
O primeiro dia do II Encontro de Blogs Científicos
O segundo dia do II Encontro de Blogs Científicos

Ciência e Ideias

O presente e o futuro da ciência em blogues
Mais sobre o EWCLiPo

SemCiênciaSemciência***
O II EWCLiPo acabou!
Cardoso no II EWCLiPo
Suzana Herculano no II EWCLiPo
Minha palestra no II EWCLiPo
@alesscar (Alessandra Carvalho) no II EWCLiPo
Lacy Barca no II EWCLiPo
Maria Guimarães no II EWCLiPo

***Upideite (02/out/2009): correção a esta data. Vide aqui.

A Educadora
Blogueiros cientistas no EWCLIPO
Escrita e sabinas na busca da criatividade e da inovação
Você sabe escrever?
A ciência de plantão na blogosfera
Ciencine: uma imersao na arte e na ciência
Blogueiros e Jornalistas: unidos na divulgação científica
Como ganhar dinheiro com seu blog?

Inclusão Digital
II Encontro de Weblog Científicos

Atlas
A terra dos meninos pelados
Depois do baile

Bala Mágica
Uma Balla (mágica) pelo mundo
As aventuras de Fernanda Balla (mágica) pelos quatro cantos do Rio de Janeiro

Karapanã
Ciência, jornalismo e paixões
Anticiência na web: dá para controlar isso?

Amiga Jane
EWCLiPo

Discutindo Ecologia
II EWCLiPo: um pequeno grande evento

Biossegurança em foco
II EWCLiPo – Cientistas Blogueiros ou Blogueiros Cientistas?

Ciência na Mídia
eu clipei!

Brontossauros em meu Jardim
Ideias que rolaram no EWCLiPo

Xis-Xis
Segundo encontro de blogs de ciência foi sucesso

Rastro de carbono
Ewclipo (hein?, eclipse?) 2009

Ciencine
Arraial do Cabo - II EWCLiPo

Ciência Hoje
Fala, blogueiro

A blogosfera científica por ela mesma from Ciência Hoje on Vimeo.


Confira ainda os tweets.

Polegaropositor
Auto-validação e a blogosfera científica

Ciência 2.0
Filosofia da Tecnologia - Ética e tecnologia: neutralidade (ou não) da tecnologia

(Obs: Novas inclusões deverão ser feitas à medida que novos textos forem publicados e eu tomar ciência deles.)

Bem, a mim só me restam então observações impertinentes e inúteis.

É uma sensação estranha - que já senti antes - estar em meio a tantas pessoas de tamanha capacidade intelectual. (Ok, a imagem batida é: me senti uma Penny. Mas sem ser gostosona.) Biólogo que versa sobre arte renascentista, químico que ataca de chef, publicitário que manja de física, físico que destrincha as redes sociais, educadora que inova na web, neurocientista que detona no Mario Galaxy... mais os jornalistas e agregados, todos na excelência de suas áreas e desenvoltura para além. Tirando esta besta que vos digita, uma plateia qualificadíssima. (Para diminuir a minha sensação de uma Penny de barba e esquálido - sim, não tente imaginar isso -, procurava eu, inutilmente, bolar alguma pergunta "inteligente". Pelo menos os palestrantes mantiveram a calma leonardiana, e não o desprezo sheldoniano para com o simples mortal - ao contrário, foram sempre solícitos e acessíveis.)

Mas irei revelar a verdade: não foi um encontro de blogueiros e afiliados sobre divulgação científica, foi uma reunião de polímatas para elaborar um plano de dominação do mundo (pobres Dudinka e Omski).

Sem comentários - rapidinha do euclipo 2

Depois tentarei falar mais sobre o 2o EWCLiPo, mas por ora quero apenas dizer que não foram apenas somente os sciblings que ganharam os prêmios ABC. O Gene Repórter não ganhou nenhum, no entanto, eu ganhei. Sim, um "prêmio" entre aspas: o de pentelho-mórmor da blogocúndia cientófila camonoglossiana - eufemisticamente denominado de "comentarista de destaque" (ou algo assim) - de todo modo com direito a um troféu, e muito simpático (foto abaixo).


Vai então um concurso cultural. Quem sugerir o melhor nome* para o troféu (não para o prêmio, que já tem um) ganhará o CD (original!) "Extraordinary Machine" da Fiona Apple. Pode participar qualquer pessoa de qualquer ponto do planeta (ou fora dele) - desde que não seja parente de até segundo grau meu -, mas o prêmio só será entregue (gratuitamente) em endereço coberto pelos Correios Brasileiros em primeiro porte nacional.

As sugestões deverão ser enviadas pelo sistema de comentários desta postagem. A data limite para participar do concurso é até às 23h59min (horário de Brasília) do dia 28 de outubro de 2009.

*Por "melhor nome" entenda-se um que, a meu exclusivo e arbitrário critério, seja tido como o mais apropriado.

Upideite (29/set/2009): O pessoal pode ser cruel às vezes, observem que maldade:
Aventaram um índice Takata, similar a que há o índice Bacon, o índice Ërdos e o índice Shusaku. Mas em vez de ver quem trabalhou com Bacon ou quem trabalhou com quem trabalhou com Bacon, publicou com Ërdos ou publicou com quem publicou com Ërods ou jogou com Shusaku ou jogou contra quem jogou com Shusaku, seria qual blog foi comentado por mim ou comentado por quem foi comentado por mim. Mas aí observaram que esse índice seria 1 para TODOS os blogues. Como disse, maldade.

Upideite (30/set/2009): Maldade 2.

Upideite(29/out/2009): Veja quem ganhou aqui.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Belo e estranho mundo

Kentaro Mori no Ceticismo Aberto já destrinchou a triste história da preguiça depelada tomada por ET.

Uma outra foto que correu o mundo é de uma cobra achada na cidade chinesa de Suining. Muita especulação sobre a perna que aparece em seu corpo. A alegação inicial é de que seria uma cobra mutante com uma perna só.

A perna, no entanto, destoa. Se fosse um caso de atavismo, esperaria que a perna tivesse uma orientação correta - mas ela parece apontar para o lado errado, além disso a posição não parece correta - a julgar por fósseis e o gancho sexual de jibóias, pernas atávicas deveriam surgir perto do ânus. O padrão da coloração, embora parecido, não bate muito bem. (Em sendo atavismo, talvez o mais normal fosse esperar duas pernas e não apenas uma, embora uma combinação com má-formação congênita pudesse explicar a unilateralidade.)

Eu chutaria que o pobre animal teve um rompimento lateral e a perna de sua última refeição ficou exposta. Ou melhor dizendo, o braço. Eu chutaria que é o braço de um sapo - sapos e anfíbios modernos com patas em geral possuem quatro dedos nos membros frontais e sem garras - talvez (especulando na especulação) um parente do sapo cururu (Bufo spp.). O posicionamento parece bater com uma presa engolida pela cabeça: como é de hábito das cobras. O corpo está mais expandido um pouco à frente e um pouco atrás de onde sai a perna/braço, sugerindo a presença de um objeto em seu interior: o restante da presa.

A cobra tem pouco mais de 40 cm, o que daria um sapo de cerca de 10 cm - uma estimativa bem grosseira: talvez algo entre 6-15 cm.

Não seria o primeiro registro de uma cobra que se rompe após uma refeição. Uma píton abandonada no Everglades engoliu um aligátor, mas acabou "explodindo".

Upideite (24/set/2009): Mori comenta o caso. Na opinião dele, o animal engolido pela cobra seria um pequeno crocodilo, não um sapo - o corpo seria comprido demais para um sapo. Pode ser: se a perna tiver mesmo garra como saiu em algumas reproduções da notícia, então pode mesmo não ser um sapo (embora haja sapos com garras, não são muitas as espécies conhecidas). Se for um crocodilo, deve haver um quinto dedo na pata. O aligátor chinês (Alligator sinensis) tem uma distribuição que pode ser não tão longe dali (longe em termos chineses, pelo menos): há uma cidade de Suining fica na província de Jiangsu, e o aligátor chinês é encontrado na província vizinha de Anhui. (Embora haja uma outra Suining na província de Sichuan e uma terceira em Hunan - ambas, um tanto mais distante. Mas como as notícias falam em sudoeste da China, é mais provável que seja de Sichuan. Upideite (24/set/2009): Segundo a ABC, é mesmo em Sichuan.) Mori lembra ainda que os casos de cobras com pernas vestigiais não são incomuns, mas os membros são, em geral, pouco desenvolvidos. Se for um filhote de A. sinensis é acrescentado um tom um pouco mais triste à nota, já que se trata de uma espécie ameaçada de extinção (não sei quão comum é a cobra morta). Aqui uma imagem de filhotes do crocodiliano. Eles possuem algo em torno de 20 a 30 cm de comprimento ao eclodirem.

Upideite (28/set/2009): Uma segunda foto da cobra.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 6

Interrompendo a porção de conceituação, um pouco de resultados práticos sobre o tema.

Infelizmente, os dados não são lá muito animadores para a blogocúndia filomática. Embora o tamanho amostral seja restrito (n=47 e, não, desta vez não são alunos de pós-graduação... mas de graduação as cobai... os sujeitos experimentais), é um indicativo a ser considerado: meios eletrônicos hipertextuais não são meios que ajudam muito na compreensão e assimilação das informações. Especialmente do tipo de configuração muito comum nas postagens deste blogue: textos longos interrompidos com figuras e informações complementares.

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Macedo-Rouet, M.; Rouet, J-F; Epstein, I & Fayard, P. 2003. Effects of Online Reading on Popular Science Comprehension. 25: 99-128. DOI: 10.1177/1075547003259209.

Resumo:
"The present study examines the effects of print and online presentations of a multiple document report on reader’s comprehension, perception of cognitive load, satisfaction, and attention. We hypothesized that users of online media would show poorer results compared with print users. An experimental protocol was used to assess readers’performance using print and online versions of a popular science magazine report. Hypertext led to higher perceived cognitive load and poorer comprehension of the complementary documents. The results suggest that presenting graphics in long hypertexts increases effort and reduces text legibility. The present data offer support for theories of disorientation and cognitive load in hypermedia learning."

Métodos:
Texto teste: Texto principal e documentos: figuras, tabelas e gráficos de reportagem publicada na revista Superinteressante em abril de 2001 sobre o aborto. Versão impressa e versão online.
Sujeitos experimentais: 47 alunos de graduação do 4o ano de jornalismo da USP (em aulas eletivas): 36 mulheres, 11 homens. Divididos em três grupos: hipertexto, impresso, controle (não leram a reportagem).
Questionário pré-teste: experiência prévia com a web; conhecimento prévio do tema; familiaridade com a revista Superinteressante e com o texto (os que haviam lido o texto antes foram excluídos); opinião geral sobre o aborto.
Questionário pós-teste: compreensão; percepção da carga cognitiva (facilidade/dificuldade de compreensão); satisfação com a experiência de leitura; percepção da importância de cada documento e atenção dada aos documentos durante a fase de teste.

Resultados
  • A compreensão tanto dos que leram a reportagem online quanto a impressa foi muito maior do que a do grupo controle. (Fig. 1)
  • A compreensão geral dos que leram o texto impresso foi maior do que a dos que leram o texto online - particularmente no que se refere aos documentos complementares (a compreensão do texto principal foi equivalente entre os dois grupos). (Fig. 1)
  • A atenção dada aos itens foi igual nos três grupos.
  • A atenção dada ao texto principal foi maior nos três grupos do que a atenção dada aos documentos complementares.
  • A satisfação com a leitura do texto foi similar entre os grupos.
  • A carga cognitiva foi bem maior entre os que leram a versão online (36,6±18,19), do que entre os que leram a versão impressa (20,48±12,41) e do que o grupo controle (17,19±13,82). (Fig. 2 - Figura 4, no original.)

Figura 1. Desempenho de compreensão de acordo com diferentes mídias (G1: hipertexto; G2: impresso; G3: controle). Fonte: Macedo-Rouet et al. 2003.


Figura 2. Carga cognitiva (facilidade/dificuldade percebida na compreensão). Porcentagem dos que concordam total ou parcialmente com: C8 - compreensão difícil do infográfico; C7 - difícil saber qual o conteúdo e extensão de cada texto da reportagem; C2 - sentiu-se perdido; C6 - tabela e gráficos difíceis de se ler e interpretar; C3 - os pontos principais não estavam claros nem coerentes; C4 - não estava claro o papel de cada informação no conjunto do texto; C1 - difícil de entender a coerência do conjunto do texto. (Retirado de Macedo-Rouet et al. 2003, figura 4.)

domingo, 20 de setembro de 2009

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 5

Nesta quinta parte da série sobre divulgação científica, apresento meu resumo da parte sobre jornalismo científico do texto disponibilizado gentilmente (é preciso conta no Google para acessar) pela Dra. Alessandra Carvalho, do Karapanã.

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Carvalho, A. 1999. A comunicação científica pública e o jornalismo científico: conceitos e funções.

Jornalismo científico.

Gênero jornalístico que consiste em divulgar a C&T através dos meios de comunicação em massa. Calvo Hernando 1988.

Conjunto de atividades jornalísticas dedicadas a assuntos de C&T direcionados ao grande público de não-especialistas por diversas mídias. Michael Thiollent 1983.

Processo social que se articula a partir de uma relação (periódica ou oportuna) entre organizações formais (editoras/emissoras) e coletividades (públicos/receptores) através de canais de difusão (jornal/revista/rádio/televisão/cinema) que asseguram a transmissão de informações (atuais) de natureza de C&T em função de interesses e expectativas (universos culturais e ideológicos). Wilson Bueno 1984.

Funções do JC

Não apenas de popularização científica, mas também de crítica: mostrar a ciência como não-neutra, trazer o público ao debate de C&T, relacionando à saúde e ao bem-estar dos cidadãos. Magali Izwa 1984.

Deve ser uma atividade educativa, dirigida às grandes massas, promover a popularização do conhecimento gerado pelas universidades, para contribuir para a superação dos problemas da população; utilizar uma linguagem acessível, despertar interesses para os processos científicos, discutir política científica, conscientizar a população, realizar um trabalho de iniciação (aos jovens) e de educação continuada (aos adultos). Marques de Melo 1982.

Três funções do JC, Calvo Hernando:
a) informativa: transmitir e tornar compreensível o conteúdo de ciências, estimular a curiosidade do público, sua sensibilidade e responsabilidade moral;
b) de intérprete: mostrar o significado e o sentido das descobertas e suas aplicações, especialmente as que afetam mais profunda e radicalmente nossas vidas;
c) de controle em nome do público: garantir que sejam tomadas decisões políticas que levem em conta o conhecimento científico visando ao bem-estar e enriquecimento cultural do ser humano.

Seis funções do JC, Wilson Bueno:
a) informativa: necessidade e interesse do cidadão/obrigação e compromisso do jornalista de C&T de divulgar dentro das necessidades e expectativas do cidadão;
b) educativa: responsabilidade do profissional de informar, formar e conscientizar o cidadão sobre questões e repercussões de C&T dado que o JC pode ser a única fonte de contato do cidadão com o tema; pressupõe um feeback pelo público, mesmo que indireto;
c) social: intermediação do jornalismo entre a ciência e a sociedade, humanização da ciência; debate dos temas de C&T à luz dos interesses da sociedade, coincidir os interesses da sociedade com os objetivos da produção e da divulgação científicas;
d) cultural: o JC deve ir além da transmissão de notícias sobre C&T, deve trabalhar em prol da preservação e da valorização da cultura nacional, tomando posições críticas sobre a difusão de ciências em culturas diferentes;
e) econômica: especialmente em países em desenvolvimento, o JC deveria enfatizar a divulgação das pesquisas locais, promovendo a conscientização dos empresários sobre o valor da pesquisa científica e dos benefícios do investimento privado no setor;
f) político-ideológica: identificação do jornalista científico com a sociedade em que vive, divulgar apenas a C&T que beneficiam a coletividade, impedir o favorecimento aos países hegemônicos em detrimento dos direitos dos cidadãos, criticar as informações recebidas de multinacionais e órgãos do governo; não divulgar o sensacional, o fantástico, o espetacular; o jornalista deve escrever para seu povo e país e não fomentar a ganância dos que investem em C&T visando à destruição dos seres humanos, dos povos e da natureza.

Disfunções do JC

Michel Thiollent:
- importância ao espetáculo, não à informação;
- passividade: informando apenas a atualidade, sem crítica e sem considerar aspecto pedagógico;
- ideologia: homem x natureza, e sempre o homem supera a natureza (especialmente em trabalhos de divulgação para o público jovem), ideologia do progresso, do desenvolvimento, do humanismo;
- promoção de produtos, de institutos de pesquisas, de "modas intelectuais" e de pessoas;
- promoção de ideologias e filosofias internas do campo científico.

Calvo Hernando:
- almanaquismo: redução da informação científica a piadas, curiosidades;
- ausência de conteúdo didático;
- desrespeito à correção científica na conceituação e nas medidas;
- atenção desproporcional aos elementos secundários para chamar a atenção do leitor;
- superficialidade e improvisão no uso das fontes.

Carl Sagan 1996:
- promoção das pseudociências.

Wilson Bueno:
- falta de divulgação de C&T produzida no país;
- prioridade de matérias sobre "big science";
- falta de poder de mobilizar a opinião pública;
- restrição da participação da comunidade científica nacional para opinar sobre fatos internacionais;
- visão preconceituosa sobre o conhecimento popular e suas aplicações.

Teoria vs. prática

Sérgio Adeodato 1987
"A teoria formulada por quem não vive o cotidiano de uma redação de jornal ganha no aspecto ético, filosófico, ideológico, mas perde na percepção prática, no entendimento das mudanças que dependem da organização do trabalho dentro da empresa editora, da mentalidade dos que decidem, da formação dos profissionais e também das relações da empresa jornalística e seu ambiente sócio-econômico-cultural..."

Alessandra Carvalho 1996:
- o modelo proposto pela academia não é implementada completamente pelas revistas de divulgação científica; a prática segue as leis do mercado e não a teoria acadêmica.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 4

Dando prosseguimento ao assunto, abaixo minhas anotações do trabalho de Rosa & Martins 2007. Embora alguns usem sinonimamente divulgação científica e alfabetização científica, parece ser melhor considerá-las distintas; mas são ligadas, de modo que é interessante fazer um tratamento sobre isso. (Alfabetização científica é mais apropriadamente um tema de educação, enquanto que divulgação é mais ligada à comunicação. Claro que muito da educação depende da comunicação e é difícil imaginar um ato comunicativo que não envolva algum objetivo educacional - uma comunicação quase sempre envolve a transmissão de uma informação nova, o que também ocorre na educação. Mas não são sinônimos: uma peça publicitária de um produto é um ato comunicacional, porém geralmente não educativo.)

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Rosa, Katemari & Martins, Maria Cristina. 2007. O que é alfabetização científica, afinal? In: XVII Simpósio Nacional do Ensino de Física, 2007, São Luís, MA. Anais do XVII Simpósio Nacional do Ensino de Física, 2007.

Alfabetização científica: primeiro contato com as ciências;

Letramento científico (literacia científica): compartilhamento de uma cultura científica.

Vários autores usam alfabetização científica no sentido de letramento.

(‘scientific litteracy’)

Dimensões da alfabetização científica (Kemp 2002):

a) conceitual: envolve a compreensão e conhecimentos específicos; saber o que se sabe em ciências.

b) procedimental: envolve os procedimentos, processos, habilidades e capacidades; aplicação dos conhecimentos científicos na vida cotidiana.

c) afetiva: envolve emoções, atitudes, valores e disposições; gostar de ciências, ter interesse por ela.

Temas de trabalhos sobre alfabetização científica:


(Nota: figura original do trabalho de Rosa & Martins, 2007)

a) independência intelectual: habilidade de procurar informações e tomar decisões próprias, de avaliar conselhos de especialistas e de aprender ciências após o período de educação formal.

b) comunicação em ciências: habilidade tanto para interpretar comunicações científicas via mídia, quanto de realizar tais comunicações: entender e se expressar sobre ciências.

c) conhecimento conceitual: conhecimento de uma gama de disciplinas científicas e não de apenas uma ou duas.

d) natureza da ciência: compreender o conceito de hipóteses, evidências, o caráter tentativo das ciências, a falibilidade do empreendimento científico e sua constante autocorreção.

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 3

Seguindo a série, farei aqui minhas anotações do já mencionado trabalho de Alberguini 2007 - de parte do capítulo 2.

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Alberguini, AC. 2007. A ciência nos telejornais brasileiros: o papel educativo e a compreensão pública das matérias de CT&I. Tese de doutorado – Comunicação Social. Universidade Metodista de São Paulo. 300 pp.

Comunicação midiática: comunicação realizada, fundamentalmente, através de algum suporte técnico-tecnológico de comunicação. Alberguini 2007.

Comunicação interpessoal ou grupal: modalidades de comunicação realizada na forma presencial, como congressos, aulas, peças de teatro ou museus, por exemplo, mesmo empregando aparatos de mídia. Alberguini 2007.

Compreensão pública da ciência: todas as formas de comunicação de CT&I que se realizam através de suporte midiático (TV, internet, jornal, revista, rádio, etc.) para um público de massa, caracterizado como heterogêneo. Alberguini 2007.

Difusão científica: missão do cientista de transmitir ao público os conhecimentos de sua área. Calvo Hernando 2006.

Todo e qualquer processo ou recurso usado para a comunicação de informação científica e tecnológica. Leitão e Albagli 19997.

Disseminação científica: envio de mensagens elaboradas em linguagens especializadas, para públicos selecionados e restritos. Comunicação interpares, do cientista para os próprios cientistas. Calvo Hernando 2006.

Comunicação primária/disseminação. Epstein 2002.

Disseminação intrapares: entre especialistas de uma mesma área de conhecimento. Bueno 1984.

Disseminação extrapares: para especialistas de outras áreas de conhecimento. Bueno 1984.

Divulgação científica: todo tipo de atividade de ampliação e atualização do conhecimento. Envio de mensagens elaboradas mediante a transcodificação da linguagem técnica para uma linguagem compreensível pelo público amplo. Calvo Hernando 2006.

Também se usam as expressões: vulgarização científica, popularização científica e alfabetização científica.

Comunicação secundária/divulgação. Epstein 2002.

Uso de recursos e processos técnicos para a comunicação de informação científica e tecnológica para o público em geral, vulgarização científica. Leitão e Albagli 1997.

Utilização de recursos, técnicas e processos para a veiculação de informações científicas e tecnológicas ao público em geral. Bueno 1984.

Jornalismo científico: transmissão ao público, por meio de notícias, reportagens, entrevistas e artigos, o sentido e o sabor do conhecimento científico, assim como suas crescentes implicações sociais, com papel informativo e formativo. Contribui para preencher lacunas escolares e para atualizar o cidadão. Reis 1984.

Conjunto das atividades jornalísticas que se dedica a assuntos científicos e tecnológicos e que se direciona para o grande público não-especializado, por meio de diversas mídias: rádio, televisão, jornais especializados e outras publicações de divulgação. Thiollent 1984.

Não se restringe à cobertura de assuntos específicos de CT&I, o conhecimento científico pode ser usado para compreender melhor qualquer fato, p.e. sobre uma enchente (divulgada na editoria de cidade), um jornalista pode conversar com meteorologistas para entender o fenômeno natural. Oliveira 2002.

[‘science communication’, ‘public understanding of science’, PUS*, 'public awareness of science'*, PAWS*, ‘public engagement’, 'public engament with science and technology'*, PEST*, ‘public communication of science’, 'public communication of science and technology'*, PCST*, 'science popularization'*, 'popular science'*, 'science outreach'*, 'public outreach'*, 'education and public outreach'*, EPO*, E/PO*, 'science and the media'*, 'science in society'*, ‘divulgación científica’, ‘vulgarización científica’, ‘alfabetización científica’, ‘comunicación científica’.]

*Upideite (18/set/2009)

Temas de trabalhos acadêmicos sobre a relação ciência e comunicação (Souza 2004):

a) interesse da mídia por C&T: medição da presença de temas de C&T na mídia (jornais, revistas, meios eletrônicos...), uso de fontes, temas de maior interesse, status (lugar ocupado), comparações entre veículos de mesma natureza;

b) tratamento discursivo: análise do discurso da mídia sobre C&T;

c) modelo de déficit (ou de formação): necessidade de melhor preparo dos divulgadores e dos cientistas em sua relação com a mídia;

d) relação custo/benefício: relação dos benefícios trazidos pela área de Comunicação às ciências;

e) dimensão pedagógica: alfabetização científica, transmissão de valores e conhecimentos científicos;

f) tipo ideal: soluções sobre como melhorar o relacionamento entre cientistas e mídia e diminuir a distância entre o público e as ciências;

g) relação CT&S: lugar da comunicação, principalmente midiática, na construção dos conhecimentos e da técnica e a apropriação destes pela sociedade;

h) dimensão ética: para Souza (2004), é um tema sempre presente, mas não de modo explícito.

Upideite (18/set/2009): A Profa. Alessandra Carvalho, do Karapanã, gentilmente disponibilizou texto com parte de sua dissertação de mestrado que trata da taxonomia e nomenclatura da comunicação de ciências, com ênfase na questão do jornalismo científico. Pode ser acessado por aqui (é preciso se cadastrar no Google). Publicarei em outra postagem resumo do trecho correspondente ao jornalismo de ciências.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Sing Along: Science is golden



Science is golden
The Grates

Infelizmente, a Universal não permite a incorporação do vídeo. Mas o clipe pode ser assistido no YouTube.

Sing Along: She blind me with science



She blind me with science
Thomas Dolby

Infelizmente, a EMI não permite a incorporação do vídeo. Mas o clipe pode ser assistido no YouTube.

Sing Along: Tiktaalik



Tiktaalik
The Indoorfins

Música encomendada para a apresentação "Your inner fish" de Neil Shubin no Penn Reading Project 2008.

Osame Kinouchi, no SemCiênciaSemciência*, promove a ideia do IFMPC.

*Upideite (02/out/2009): correção a esta data. Vide aqui.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 2

Continuando a pitacar sobre o tema.

Abaixo a figura que consta no artigo seminal de Claude Shannon: "A mathematical theory of communication".

O esquema é bastante genérico e, por isso, simplificado. Mas dá bem conta da maior parte das aplicações no estudo da transmissão de sinais. A comunicação é, em um sentido bastante lato, o processo de transmissão de informação de uma entidade à outra [Upideite (16/set/2009): Shannon & Weaver 1949, definem como: "all of the procedures by which one mind may affect another" ("todos os processos pelos quais uma mente pode afetar a outra"), essa definição, com restrições, será particularmente útil no caso da divulgação científica - os técnicos da informação ignoram o termo "mente" e se preocupam apenas com a transmissão de um sinal de um ponto a outro]. No caso da comunicação científica, o objeto é, claro, a informação científica. (Nota-se que o esquema é, propositadamente, unidirecional, antes que alguém objete que a comunicação humana é amplamente bi ou multidirecional, estamos aqui inicialmente fazendo uma simplificação.)

A se destacar a presença do ruído no caminho da transmissão do sinal. O ruído, grosso modo, interferências que levam à perda da informação durante o processo de transmissão, é um fato, tanto quanto sabemos, inevitável no fenômeno comunicacional. Infelizmente, ele não pode ser eliminado por completo, mas, felizmente, ele pode ser minorado (tanto quanto desejarmos, desde que não seja nulo).

Pode-se imaginar que o encadeamento de mais componentes, como no jogo do telefone sem fio, apenas aumenta a tendência da degradação do sinal. Em um sentido estrito, isso é verdade. Mas não se deve com isso interpretar que a presença de intermediários, como o jornalista científico, seja um mal a ser eliminado. Em muitas situações, embora haja perdas do sinal emitido pela fonte, a inclusão de um intermediário pode significar que o sinal chegue, de fato, ao receptor/destinatário. P.e., há perdas de sinal na linha de transmissão telefônica - quanto mais longa a linha, maior a perda de sinal. Quanto mais curta a linha, menor a perda. Mas não se deve imaginar que se não houver linha alguma então a perda será minorada: isso é verdade, porém ao custo de não haver transmissão alguma de sinal. Além disso, os componentes intermediários podem ser imprescindíveis para fazer a conversão do sinal. Se a emissão é em PAL-M, um televisor com codificação original NTSC que tenha um conversor apresentará uma pequena perda do sinal - que não estaria presente em um televisor com codificação original PAL-M -, mas a presença do conversor não é uma dificuldade, é uma *solução*: de outro modo, não haveria perda de sinais, mas tampouco ele poderia ser recebido adequadamente. Então, mesmo que haja uma introdução de nova fonte de ruído, isso pode significar que efetivamente a transmissão seja *mais* eficiente.

A vantagem do uso do modelo shannoniano da transmissão da informação é que podemos, de um lado, colocar em termos mais rigorosos elementos mais intuitivos, de outro, permite-nos entrever elementos mais surpreendentes. Que o jornalista de ciências desenvolve um papel importante na transmissão das informações dos cientistas para o cidadão comum é mais ou menos óbvio - tanto é que existe a figura do jornalista de ciências -, mas o fato de que algum ruído pode ser melhor do que nenhum é um ponto de vista menos óbvio: embora os dois fatos sejam ligados. (Com essas bases, p.e., um jornalista de ciências pode se defender da acusação de distorção de informações e justificar seu trabalho* - claro que dentro de limites: chamar adenina de proteína não é algo aceitável.)

*Essa acusação é uma constante por parte da comunidade científica, caricaturizado em trabalhos como este e este.

Esse modelo permite ainda, de um lado, congregar a variedade de estudos já feitos sobre o tema e, de outro, indicar caminhos para pesquisas futuras: que informações são necessárias para que possamos caracterizar o estado atual da comunicação científica, particularmente da divulgação científica, e progredirmos em direção a um estado desejável?

Podemos, por exemplo, destacar cinco seis tipos de estudos:
a) Questões relacionadas a fonte/emissor. Qual o grau de preparação dos cientistas em transmitir informações para o público em geral (incluindo intermediários)?
b) Questões relacionadas aos intermediários*. Qual o grau de preparação dos intermediários em captar as informações dos cientistas e transmiti-las ao público?
c) Questões relacionadas a destinatário/receptor. Qual o grau de entendimento do público em geral acerca dos temas de ciências? Como ele processa cognitivamente tais informações? O que o motiva?
d) Questões relacionadas ao canal. Qual a eficiência das diferentes mídias na transmissão de diferentes informações para diferentes públicos?
e) Questões relacionadas ao sinal/mensagem. Qual o efeito dos diferentes discursos sobre a qualidade da informação adquirida?
Upideite (16/set/2009): f) Questões relacionadas ao processo. Qual o efeito da interação entre os fatores acima?

*Upideite (16/set/2009): creio que se possa comparar, em vários casos, o intermediário com um transdutor; eventualmente como uma barreira, um modulador, um amplificador ou outro dispositivo em um circuito de informação.

Há já estudos que tangenciam ou abordam esses temas, mas ainda faltam informações relevantes e atualizadas. Diversas fontes nos indicam que o conhecimento geral de ciências da população em geral é muito ruim (tais dados podem ser recuperados de estudos sobre a alfabetização, letramento e educação científicos), há um estudo (antigo - Upideite(16/09/2009): Tatiana Nahas, do Ciência na Mídia, lembra de um estudo mais recente, de 2007) do MCT sobre a percepção do brasileiro sobre temas científicos e as fontes que consultam, há análises de veículos individuais quanto à correção dos conceitos transmitido, há também alguns estudos da relação entre os cientistas e os jornalistas... Mas não há muitos dados quali-quantitativos a respeito da qualidade da informação adquirida pelo público através das diversas mídias: há poucos estudos que nos permitam relacionar, p.e., o grau de aquisição de infomações corretas pelo público em função do tipo de mídia ou do subtema de ciências.

É preciso também estudos que concatenem todos esses aspectos para diagnosticar a situação atual da divulgação de ciências - no Brasil e no mundo. (Bem, pode ser que haja tal estudo já e eu apenas esteja a declarar aqui minha ignorância.)

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Debaixo dos caracóis dos teus cabelos...

Qual o pente que te penteia?

Mauro Rebelo do Você que é Biólogo não gostou do texto da coluna Espiral de Alysson Muotri nem do artigo científico comentado na coluna sobre a possível correlação entre o sentido do redemoinho capilar e a orientação sexual masculina.

Seguramente a homossexualidade (e a sexualidade de modo geral) é um tema um tanto sensível e muitas vezes causa incômodo quando trazida à luz do dia. É preciso tato ao abordá-la e não é muito fácil atingir-se esse equilíbrio.

O artigo não é propriamente novo (ao menos em termos jornalísticos): é de 2004. Mas a questão científica parece secundária nessa celeuma. Como Muotri nos informa, o autor tentou publicar seu trabalho na Science e foi recusado. Até aí, tudo bem, pode-se alegar que não tinha o impacto que a equipe editorial da revista busca; mas ao publicar em uma revista científica de baixo impacto, o autor, Amar Klar, não pode usar como referência o endereço do departamento em que trabalha, teve que dar seu endereço residencial. A pesquisa foi financiada com dinheiro do próprio bolso do pesquisador e não, como na grande maioria dos casos de pesquisadores lotados em uma instituição científica, por verbas de um fundo científico público (geralmente) ou privado.

Rebelo enumera os problemas que, em sua visão (visão dele), há no artigo de Klar:
1) falta de embasamento teórico;
2) seleção de observação;
3) baixo número amostral;
4) má aplicação de ferramentas estatísticas;
5) conclusões tendenciosas.

Eu tendo a discordar das restrições de Rebelo.
1) Klar cita trabalhos anteriores que mostram um fundo inato da homossexualidade: como o estudo com gêmeos; cita também trabalhos anteriores que correlacionam a homossexualidade ao fato da pessoa ser destra ou canhota. E cita o artigo do próprio Klar que correlaciona o sentido de rotação do redomoinho capilar com o lado da mão "boa". Então há uma contextualização geral para o trabalho feito. Há um embasamento teórico.

Porém, o embasamento teórico é mais ou menos imprescindível apenas na fase da justificação da pesquisa: mostrar ao órgão financiador que não se está atirando a esmo. Aqui temos então que mesmo que não houvesse tal embasamento - e acima vimos que de qualquer forma existe - isso não seria problema: a) a pesquisa não precisou de dinheiro público e b) existe um dado e o dado não depende de um embasamento teórico.

2) O autor procurou comparar os dados com um grupo de controle. A constituição do grupo controle foi também criteriosa:

"Clearly the combined value of 29.8% CC orientation of three samples with preponderance of gay men should not be compared to the 8.4% reported previously for the combined sample of both males and females (Klar 2003). To avoid the possibility of recording gay men also present among men relaxing in other, ‘non-gay’ areas of the beach, data for an unselected, control group of males were not collected from the same beach. Rather, visits were made to local shopping malls, grocery stores, barber shops, gas stations, fast-food restaurants, gyms and three airports in the states of Maryland, New Hampshire and Massachusetts to collect data on males (both men and boys) randomly chosen from the general public, without enquiring about their sexual orientation; a minority of them are expected to be gays. Only 8.2% of the males in the control group exhibited the CC pattern (table 1), a percentage strikingly similar to the 8.4% value reported for the combined male and female population at large (Klar 2003).

It is formally possible that men with counterclockwise hair-whorl orientation prefer to visit the beach more often than those with the clockwise orientation for reasons unrelated to their sexual orientation. Therefore, as another control, data on men relaxing at another beach frequented by the general public, in Atlantic City in the nearby state of New Jersey, were collected. In this sample only 10.7% men showed counterclockwise orientation, a result not significantly different from the sample of males at large."

3) O número amostral não é tão baixo. Para a população gay: 272 indivíduos (somando três "populações"); para a população não-gay: 328 homens (somando duas "populações"). Mas, mesmo que fosse pequena a amostra, apenas limitaria a extensão possível das conclusões. (Vide o bafafá da Ruth de Aquino.)

4) Klar usa o teste do qui-quadrado. É um teste apropriado para comparar proporções entre duas amostras/populações. A amostra/população controle nos indica a proporção esperada. Na amostra/população teste temos a proporção observada. O qui-quadrado mostra se há ou não desvio estatisticamente significativo da proporção observada em relação à proporção esperada.

5) Consideremos a afirmação final: "Thus, a genetic factor that controls the direction of hair-whorl rotation contributes to a significant proportion of gay man’s sexual preference." Não parece que seja uma conclusão tendenciosa dentro da linha de raciocínio adotada e dos indícios trazido em suporte ao argumento pelo autor do artigo. Pode-se argumentar contrariamente e procurar rebater essa conclusão, faz parte do sadio processo científico de análise e refutação. Rebelo lembra que correlação não prova causação: "eventual existência de correlação entre 'dias de chuva x número de homens calvos' em uma cidade não demonstra qualquer relação causal". De fato, não demonstra, mas Klar não se limita apenas a fazer a correlação, procura explicar como a ligação causal deve existir - algum gene a influenciar na lateralidade cerebral que também acaba por influenciar a orientação sexual e o sentido do redemoinho capilar. Não é uma relação direta de causa-e-efeito, mas é um bom argumento de que a correlação não é fortuita. E a vantagem é que tal proposição é testável. Se fosse fortuita, outros estudos não deveriam encontrar a mesma correlação. 'Taí um bom modo de tentar refutar a conclusão de Klar.

Então a mim parece mesmo que a questão do julgamento a respeito do trabalho de Klar não é estritamente científica. Sempre lembrando que isso não quer dizer que a análise seja ilegítima se não se der exclusivamente sob a óptica das ciências. Uma análise ética é perfeitamente factível e justificável: p.e. a questão da privacidade.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente


É apenas um quadro-ensaio com uma proposta das relações entre as diversas modalidades de comunicação científica - com ênfase na divulgação científica. (Verdade que haveria modos indiretos de comunicação cientista/cientista, cientista/governo e cientista/empresa, mas não me parece, ao menos por agora, tão relevantes.)

Em sendo válida essa disposição, poderemos proceder à taxonomia das formas de comunicação, entendendo melhor os elementos que estão envolvidos no processo de divulgação científica.

Em um quadro mais amplo, inseriríamos essas relações dentro do que poderemos chamar de aculturação científica (ou, não sinonimamente, enculturamento científico), que envolve a formação de uma cultura científica em uma sociedade. A aculturação científica inclui a comunicação científica que é uma das formas intencionais de difusão científica, mas não se restringe a ela: abrange ainda outras formas intencionais não-verbais, além das formas não-intencionais que levam à propagação não apenas do conhecimento científico, mas também do modo de pensar científico (a cultura científica).

Farei outras postagens com mais divagações sobre o tema - procurando abordar métodos e processos científicos de divulgar as ciências: isto é, levar em conta os conhecimentos científicos acerca dos processos envolvidos na divulgação científica que possam melhorar sua eficiência; incluindo modos de se avaliar essa eficiência. O objetivo por trás é mais ambicioso - embora eu esteja consciente de que é algo para ser construído com um esforço conjunto e a longo prazo -, sistematizar tais conhecimentos dentro de uma teoria coerente de divulgação científica. (Creio que a minha esperança oculta é que, lançando ideias um tanto esparsas e desconexas, elas possam aglutinar-se quase que espontaneamente em tal teoria - talvez um fenômeno de polimerização com cada ideia concatenando-se a outra.)

Upideite (11/set/2009): a Dra. Audre Alberguini incluiu um trabalho de taxonomia na área de Compreensão Pública de Ciências em sua tese de doutorado. Alessandra Carvalho, do Karapanã, sugere consulta à tese de doutorado do Dr. Wilson da Costa Bueno.

Upideite (12/set/2009): Uma modificação do quadro apresentado acima, incluindo informações presentes na tese da Dra. Alberguini. Nota-se que não há uma alteração substancial e é compatível com a proposta inicial. Parece que a taxonomia é robusta.
Particularmente não gosto apenas da opção dos pesquisadores em denominar de "disseminação científica" à comunicação entre os cientistas. "Disseminação", em português, espanhol ('diseminación') ou inglês ('dissemination'), não tem esse sentido restritivo.
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Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5, Parte 6, Parte 7.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Uma ideia... que cresce...

Lancei uma ideia no ar - os blogueiros de ciências juntarem esforços para criar e manter uma revista eletrônica de divulgação científica. Mas não é uma ideia mais minha, é de todos. Abaixo algumas contribuições.

Luiz Bento, do Discutindo Ecologia, sugere aproveitar que muitos bloguistas são professores universitários e pesquisadores para buscar financiamentos em órgãos de fomento para o projeto.

Osame Kinouchi, do SemCiênciaSemciência*, sugere ir além e fundar uma associação formal de blogueiros de ciências e ter uma versão impressa da revista. (Upideite (15/set/2009): Kinouchi corrige a informação nos comentários, não seria uma versão impressa, mas uma cópia em papel do PDF para os associados.)

*Upideite (02/out/2009): correção a esta data. Vide aqui.

Tatiana Nahas, do Ciência na Mídia, está em contato com os organizadores do 2o euclipo para tentar abrir um espaço no evento para que isso tudo seja discutindo com os participantes. Nahas é contra a sugestão de uma versão impressa, dada a origem do "movimento" blogueador baseada na tecnologia web, além dos custos extras envolvidos.

Mala influenza - 13

Número de casos - eixo principal:
25 confirmados em 24/abr/2009; 254.206 casos confirmados em 04/set/2009.
Mortes - eixo secundário:
7 em 27/abr/2009; 2.837 em 04/ago/2009 04/set/2009*.
(Como, seguindo recomendação da OMS, muitos países reportam apenas os casos graves, o índice de mortes por mil casos não será mais calculado. O total de países e territórios também deixará de ser divulgado por haver atingido a quase totalidade dos países da OMS.)

Fonte: OMS.

No Brasil:

Número de casos - eixo principal:
54 confirmados em 12/jun/2009; 6.592 casos confirmados em 31/ago/2009.
Mortes - eixo secundário:
0 em 12/jun/2009; 657 em 31/ago/2009.
(Como, seguindo recomendação da OMS, o Brasil reporta apenas os casos graves - a mudança no critério é indicado pela seta amarela -, o índice de mortes por mil casos não será mais calculado. O total de estados também deixará de ser divulgado por haver atingido a totalidade de unidades da federação.)

Fonte: MS.

*Upideite(17/nov/2009): corrigido a esta data.

II EWCLiPo: eu vou... eu vou?

Sim, eu vou clipar (isto é, se não tiver prova na semana...). Mas alguém vai de carro a partir de Sampa (ou passar por aqui a caminho)? Racho despesas, claro.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Aquecimento global (parte 2 de 3)

Dando continuidade à série sobre o aquecimento global antropogênico.

Vimos como os dados indicam claramente que há, de fato, um processo de aquecimento global - um aumento generalizado no decorrer dos anos da temperatura média das camadas mais baixas da atmosfera em todo o planeta.

A questão 2, aborda a causa desse aquecimento. Os negacionistas que não podem, diante dos dados, fingir que não há um aquecimento global partem, então para a estratégia de atribuir o fenômeno a outras causas que não a ação humana.

Aquecimento global é, em boa parte, causado pelos gases-estufa

Estações como o de Mauna Loa, Havaí, avaliam a composição atmosférica periodicamente. Ao longo dos anos, percebe-se um constante aumento na concentração de gases-estufa, como o próprio CO2.

Figura 1. Gráfico da concentração atmosférica de CO2 no Observatório de Mauna Loa, Havaí.

Os dados de Mauna Loa são os que formam a série histórica mais longa disponível. Mas a mesma tendência é encontrada em outros pontos. Para dados globais, vide a figura 2.

Figura 2. Gráfico da concentração atmosférica global anual de CO2. Fonte: NOAA/ESRL.

E não apenas a concentração de CO2 está a aumentar, mas também de outros gases-estufa como o metano (que mol a mol tem um efeito muito maior do que o CO2 de aumentar a temperatura atmosférica) como mostra a figura 3.

Figura 3. Gráfico da concentração atmosférica de diversos gases-estufa ao longo dos anos. Painel superior esquerdo, CO2; painel superior direito: NOx; painel inferior esquerdo: metano; painel inferior direito: CFCs. Fonte: http://www.esrl.noaa.gov/gmd/aggi/

Sim, correlação não significa causação. Mas experimentos em laboratório mostram que amostras de CO2 absorvem na faixa do infravermelho - com picos em ~200 nm e ~430 nm (um pico em ~260 nm se sobrepõe a um pico de absorção pela água): Figura 4. Isto é, a presença de CO2 faz com que mais energia entre no sistema (do que se houvesse menos CO2), o que provoca aumento da temperatura.

Figura 4. Espectro de absorção de alguns dos principais gases-estufa. (Upideite (09/set/2009): a página para a referência de Howard 1959 é 1.452 e não 1.459 como na figura.)

Oquei, então temos que em laboratório o CO2 mostra aumentar a temperatura. Mas o que ocorre em uma escala maior? Incluindo-se diversos fatores e o CO2, modelos podem ser simulados em computador e ver o que ocorre com a temperatura. Os cientistas do IPCC testaram e observaram que a variação da temperatura já ocorrida poderia ser predita desse modo. Vide Figura 5.



Figura 5. Comparação entre temperaturas observadas (linha preta) e as preditas: faixa vermelha e azul (a faixa azul é a predição que desconsidera a ação humana).*

Combinando-se, então, essas três linhas de indícios: a) correlação dos dados observados entre o aumento da temperatura global e da concentração dos gases-estufa; b) análises de laboratório do efeito desses gases na absorção de energia e c) modelos de computador do clima global que levam em conta o efeito desses gases na temperatura global - temos uma base sólida para ligar o aquecimento global a tais compostos: notadamente ao CO2.

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Upideite (13/set/2009): Parâmetros da atividade solar, ao contrário, não apresentam maiores correlações com o padrão de aquecimento (Figura 6). O fator solar, no máximo, deve contribuir com cerca de 30% do total da variação observada da temperatura global (Solanki & Krivova 2003; Fröhlich & Lean 1998).

a) b)Figura 6. Variação temporal da atividade solar. (a) Número de manchas solares. (b) Fluxo solar na faixa extrema do ultravioleta. Fonte: Nasa.

Upideite(21/jan/2011): Abaixo gráficos mostrando a correlação entre o teor de CO2 atmosférico e a temperatura global atmosférica média: de 1856 a 2005.
Figura 7. a) Covariação temporal da temperatura global e o teor de CO2 atmosférico. b) Correlação entre temperatura global e teor de CO2 atmosférico. (Fonte: Robert Johnston 2008.)

*Updeite(23/jun/2012): O endereço anterior da imagem atualmente encontra-se quebrado.
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Referências

Conway, Thomas & Tans, Pieter. 2008. Trends in carbon dioxide. Disponível em: http://www.esrl.noaa.gov/gmd/ccgg/trends/. Acessado em: 09 de setembro de 2009.

Fröhlich, Claus & Lean, Judith. 1998. The sun's total irradiance: cycles, trends and related climate change uncertainties since 1976. Disponível em: ftp://ftp.pmodwrc.ch/pub/publications/gl493w01.pdf. Acessado em: 13 de setembro de 1998.

Hofmann, David. 2008. The NOAA annual greenhouse gas index (AGGI). Disponível em: http://www.esrl.noaa.gov/gmd/aggi/. Acessado em: 09 de setembro de 2009.

IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2007. Fourth assessment report. Disponível em: http://www.ipcc.ch/ipccreports/ar4-syr.htm. Acessado em: 09 de setembro de 2009.

Solanki, SK. & Krivova, NA. 2003. Can solar variability explain global warming since 1970? Disponível em: http://www.mps.mpg.de/homes/natalie/PAPERS/warming.pdf. Acessado em: 13 de setembro de 2009.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Uma ideia...

Talvez eu lance verde lá no 2o euclipo (II EWCLiPo): a comunidade bloguista filomática (e adjacências) poderia fazer um mutirão para criar e manter uma revista de divulgação de ciências lusófonas (tanto a revista quanto as ciências).

Não, não é uma tarefa fácil, mas se cada um contribuir um pouco - com texto, trabalho de editoração e pesquisa, entrevistas e conhecimentos jornalísticos e de edição de imagens - creio que seria possível lançar uma revista eletrônica (em pdf para valorizar o visual) de caráter, digamos, bimensal ou trimestral.

Se fosse formalizada, permitiria até estágios para estudantes de jornalismo que queiram se especializar na área de jornalismo de ciências - ajudando na formação de profissionais qualificados para cobrir a área.

Seria distribuída em licença Creative Commons - das mais abrangentes: permitindo uso comercial e adaptação, bastando citar a autoria devida e a fonte. (Upideite (09/set/2009): ah, sim, claro, e a obra derivada também deve manter o tipo de licença original.)

É uma área um tanto carente. Superinteressante e Galileu não contam, são mais revistas de variedades juvenis do que especializadas em ciências. Há várias institucionais, com focos nos trabalhos desenvolvidos por pesquisadores vinculados às universidades e institutos de pesquisa patrocinadores ou agências de fomento. No Brasil, temos basicamente a família SciAm Brasil, mas em boa medida é uma tradução da matriz americana.

Claro que ainda assim haveria um custo envolvido. Mesmo com contribuição voluntária dos bloguistas, não seria justo não remunerar os estagiários - seja a título simbólico (sem falar nas garantias sociais legalmente exigidas). Haveria de ter inserção de páginas publicitárias para tentar cobrir parte dos custos. Cobrar pela distribuição não seria viável, mas poderiam se aceitar as esporádicas e escassas doações.

Enfim, é coisa que precisaria mesmo amadurecer. Poderiam ser feitas uma ou duas edições para testes - verificar a viabilidade técnica e econômica.

Haveria de ter alguns princípios fundamentais:
- morte ao sensacionalismo;
- portanto pseudociências passam longe;
- clareza *e* correção (se for inviável reduzir um conceito científico a um parágrafo, que se estenda em tantas páginas quanto necessárias; por outro lado, nada de pedantismo acadêmico: se um parágrafo é suficiente, nada de se estender por páginas em digressões verborrágicas);
- pluralidade temática (não, não é a senha para liberalidades com as pseudociências, devidamente barradas pelos dois primeiros princípios - primeiros na ordem de listagem, não de importância): falar de temas que normalmente não são abordados nas editorias de ciências das mídias convencionais, mas que sejam importantes (ou pelo caráter teórico ou pelas consequências na vida do cidadão comum) - sim, não quer dizer que não se vá cobrir as áreas de saúde, meio ambiente, astronomia, biotecnologia...
- foco na produção lusófona;
- destaque para as eventuais correções de informações equivocadas que tenham sido veiculadas pela revista;
- distinção tão cristalina quanto possível entre opinião e informação;
- total e radical separação entre o comercial e o editorial;
- corolário: distinção absolutamente clara entre páginas editoriais e publicitárias;
- veto à publicidade de bebidas alcoólicas e de fumígeros.

Upideite (09/set/2009): Várias ideias surgindo na discussão feita nos comentários (acho que irei subi-los em uma postagem - Upideite (15/set/2009): publicado aqui). A maioria excelente, uma... péssima, o que me faz incluir mais um princípio editorial fundamental:
- nunca, jamais, nem em pensamento, colocar eu, Roberto Takata, como editor.

Upideite (02/out/2009): mais aqui e aqui.

Patrulha purista vocabular 3

Manchete da seção de ciências do G1.com:
Rinoceronte de Sumatra ameaçada de extinção morre aos 21 anos nos EUA
"Emi teve papel importante em programa de reprodução em cativeiro.
Ela morava havia 14 anos no zoológico de Cincinatti."

Aqui eles misturaram espécie com indivíduo: quem se extingue ou pode se extinguir são espécies (ou populações) - um conjunto de indivíduos; quem morre ou pode morrer são indivíduos.

Emi morreu, ela mesma não estava ameaçada de extinção, mas sim a espécie dos rinocerontes de Sumatra, a qual pertencia. Claro, sua (da Emi) morte pode aproximar ainda mais a espécie da extinção, porém não são a mesma coisa.

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