SOS - ESPÍRITO SANTO

Como ajudar as vítimas da enchente no Espírito Santo.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Gene Repórter ano 3

Hoje (sim, dia 27 de novembro) completa dois anos da primeira postagem do Gene Repórter.



A entrega do prêmio poderá demorar de acordo com o tempo que o fornecedor levar para confeccioná-lo.

O vencedor (ou a vencedora) será anunciado neste blogue em data oportuna (oportuna para mim, claro).

Upideite(04/12/2010): O resultado já foi apurado, para saber a resposta veja esta postagem.

domingo, 21 de novembro de 2010

Discutindo ciências palpiteiramente: leitor comenta (2)

Luiz Bento, do Discutindo Ecologia, respondeu à minha postagem nos comentários.

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Acho que o problema está em correr atrás deste estado. Não existe o "suficientemente bem informado" sobre o tema. A minha crítica principal está em focar nisso.

Se procurarmos este estado vamos cair no mesmo problema dos americanos. Qual conhecimento é o mais importante? Num mundo onde a tecnologia avança cada vez mais rápido estaríamos correndo atrás de algo que nunca alcançaríamos. Melhor seria que as pessoas fossem críticas e soubessem receber a informação e não absorver de forma direta.

Um exemplo interessante é em relação ao que nós da academia sentimos a ler um artigo de fora da nossa área específica de conhecimento. Nós não temos total base para discutir esses assuntos, mas sabemos onde procurar, a quem recorrer, um "sentimento" se aquela pesquisa está parecendo estranha demais ou que ainda faltam outros artigos para embasar. Temos uma visão crítica, independente da área que está sendo discutida.

Temos advogados para nos ajudarem a entender a complexa legislação. Engenheiros para montarem nossas casas. Porque o público comum precisaria ter um conhecimento tão vasto de todas as áreas da ciência? Acho que precisamos focar na formação crítica e menos no conteúdo. Isso é o que importa cada vez mais para mim.

Abraços.
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sábado, 20 de novembro de 2010

Discutindo ciências palpiteiramente: resposta (2)

Luiz Bento do Discutindo Ecologia deu prosseguimento à discussão. Respondo abaixo.

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Luiz,

Certamente há um bom dinamismo nas ciências, mas, de um lado, há núcleos que têm uma permanência maior - por exemplo, em essência, a teoria atômica continua válida, a teoria da evolução como formulada por Darwin e Wallace também; de outro, os programas não precisam ter um caráter permanente: isto é, o dinamismo do conhecimento científico leva ao dinamismo do ensino de ciências (ou, no caso, da autoaprendizagem de ciências) e não à inutilidade de apreensão de qualquer conteúdo.

Mas vamos partir do princípio de que houve um fracasso geral dos modelos dos anos de 1960 a 2000 de ensino de ciências - e vamos aceitar que isso indique que o mesmo modelo fracassaria de igual modo em uma situação de autoalfabetização. Tem um problema nas críticas feitas: cada autor acha que sabe exatamente o que deu errado - em muitos casos, seria "essencialmente tudo". O problema é que o modelo não é algo simples - há diversas pressuposições assumidas: o que as pessoas sabem, como elas absorvem o conhecimento, como elas se apropriam do conhecimento, como elas reagem a determinada metodologia, etc. (E tanto não é simples que aparentemente cada crítico do chamado "modelo do déficit" tem seu próprio "modelo do déficit" a criticar...)

Embora eu não seja um especialista, do pouco que tenho acompanhado, parece que não há bons estudos isolando cada pressuposto. Uma dificuldade séria que encontro em minha busca pelos trabalhos sobre divulgação científica é a escassez de trabalhos quali-quantitativos. Há vários de conceituação e de modelagem a partir de princípios - mas não é fácil de se encontrar trabalhos que procurem validar (ou melhor, refutar) modelos com base em sua aplicação em grupos testes e comparação com o resultado em grupos controle. Em que pese a limitação natural de se estudar seres humanos e seu processo de aprendizagem e enculturação, são dados essenciais para que possamos tentar escapar um pouco de achismos.

A respeito de "não se ensinar método científico de forma clássica" porque "as pseudociências podem usar as regras em benefício próprio". Bem, é possível se criticar o ensino de um "método científico", mas não pelo aproveitamento dos pseudocientistas - eles irão se aproveitar mesmo da ausência do ensino de um "método científico" ou de um "ensino em forma não-clássica".

Quanto a creditar ao "modelo do déficit" as crises de credibilidade das ciências... Não vou dizer que seja uma crítica injusta. Mas me parece que seja uma crítica precipitada. Novamente, há poucos estudos quali-quantitativos que permitam sustentar essa relação. Na verdade, os dados atuais sugerem até que a relação seja invertida: quanto mais as pessoas conhecem os processos científicos, *menos* elas confiam nas ciências (certamente isso depende do ambiente pró ou anticiência em que as pessoas vivam).

Bom deixar claro que, com o dito acima, *não* se deve concluir que seja melhor então não se ensinar às pessoas como o processo científico se dá. Apenas que me parece haver motivo de reticiências quanto a se imaginar que o conhecimento do processo aumente a confiança no conhecimento científico.

Até por toda essa complicação que não propus como desafio um programa de alfabetização científica e sim de *auto*alfabetização científica - entre outras etapas, a questão da motivação já está superada (quem quer se alfabetizar já tem alguma noção da importância - ao menos pessoal - das ciências).

O desafio é: - uma pessoa pensa "
oquei, gosto de ciências ou as acho suficiente importantes para dispensar tempo para aprender sobre isso; agora, o que eu devo saber sobre ciências para poder me considerar suficientemente bem informado/a sobre o tema? e como devo proceder para atingir esse estado de conhecimento?"
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Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 14 (parte 2 de 2)

Continuando a anotação do trabalho de Burns et al. 2003.

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Comunicação sobre ciências: uma definição contemporânea

Os termos consciência pública de ciências ("public awareness of science" - PAS), compreensão pública de ciências ("public understanding of science" - PUS), alfabetização científica ("scientific literacy" - SL) e cultura científica ("scientific culture" - SC) não são sinônimos, mas há muitos elementos em comum.

*PAS - objetiva estimular a consciência e as atitudes positivas (ou opiniões sobre ciência;
*PUS - é focada na compreensão da ciência: seu conteúdo, processos e fatores sociais;
*SL - situação ideal em que as pessoas estão conscientes ("aware"), interessadas e envolvidas, têm opiniões e buscam compreender as ciências;
*SC - é um ambiente de toda a sociedade que aprecia e apoia as ciências e a alfabetização científica. Tem aspectos social e estético (afetivo) importantes.

Os objetivos da consciência, compreensão, alfabetização e cultura científicas podem ser divididos em cinco respostas pessoais mais amplas às ciências. Se um número suficiente de pessoas tiverem tais respostas, então estas podem ser consideradas como aplicáveis ao público. Essas respostas pessoais podem ser agrupadas sob a sigla AEIOU: Consciência ("awareness") sobre ciências, Apreciação ("enjoyment") ou outras respostas afetivas às ciências; Interesse ("interest") em ciências; a formação, mudança e confirmação de Opiniões ("opinions") ou outras atitudes relacionadas às ciências; e Compreensão ("understanding") de ciências.

A COMUNICAÇÃO SOBRE CIÊNCIAS ("Science Communication" - SciCom) pode ser definida como o uso de habilidades, meios, atividades e diálogos apropriados para produzir uma ou mais das seguintes respostas pessoais às ciências:
Consciência ("awareness"), incluindo familiaridade com novos aspectos das ciências;
Apreciação ("enjoyment") ou outras respostas afetivas, e.g. apreciação das ciências como entretenimento ou arte;
Interesse ("interest"), indicado pelo envolvimento voluntário com ciência ou sua comunicação;
Opiniões ("opinions"), a formação, alteração ou confirmação de atitudes relacionadas às ciências;
Compreensão ("understanding"), seu conteúdo, processos e fatores sociais.

A comunicação sobre ciências pode envolver praticantes de ciências, mediadores e outros membros do público geral tanto entre pares quanto entre grupos distintos.

Focando na comunicação sobre ciências

Modelando comunicação sobre ciências: uma analogia com alpinismo

Koballa, Kemp & Evans propuseam um modelo para a alfabetização científica individual: uma paisagem com picos e vales em três dimensões.
Eixo y: domínio ou área de alfabetização: conhecimento em ciências físicas, da Terra, história das ciências, etc.
Eixo z: nível da realização pessoal em um domínio em particular (mais alto o pico, maior o grau de alfabetização nesse domínio).
Eixo x: valor que o indivíduo associa ao domínio: maior a área x-y mais importante o domínio para a pessoa.

A Figura 2 utiliza a mesma analogia em um quadro mais amplo a respeito da ciências e da sociedade, incluindo contextos de aprendizagem informal.


1. A comunicação sobre ciências não irá causar sempre um aumento imediato na alfabetização científica. Muitos participantes terão um aumento no interesse, uma mudança de atitude sobre ciências que poderá mais tarde melhorar sua alfabetização.
2. Em geral é incorreto assumir que a comunicação sobre ciênicas é apenas para o benefício do público-leigo. Cientistas e mediadores, bem como outros grupos relacionados às ciências: empresas científicas, políticos, tomadores de decisão e membros da mídia podem se beneficiar ao utilizarem as ferramentas da comunicação sobre ciências para partilhar as mensagens científicas. A necessidade de explicar questões complexas em termos leigos pode levar a novas perspectivas sobre o tópico e uma compreensão mais profunda da área pelo profissional.
3. As ciências na verdade são uma cadeia de montanhas em expansão (i.e., de múltiplas alfabetizações), não um pico único. Há várias áreas diferentes de C&T bem como outras alfabetizações culturais espalhadas pelo plano horizontal de domínios e cada um pode ser considerada como uma montanha à parte. Paisley identificou pelo menos 44 alfabetizações tópicas em jornais e mídias populares americanas em áreas como negócios, computadores, saúde, informação, média, política, religião e tecnologia.
4. Um perfil de montanha para um indivíduo é único e muda com o tempo conforme a pessoa: "aprende ou esquece de habilidades e conhecimentos científicos ou vem a valorar diferentes áreas de modos diferentes".
5. Os cientistas não estão no topo das montanhas, nem o público no vale. Enquanto alguns cientistas possam estar no topo de uma ou duas montanhas, estará na base de muitas outras.

A consciência ("awareness") pública de ciências inicia a subida na alfabetização científica. A consciência de que existe uma montanha (um domínio científico) pode levar à adoção subsequente de habilidades e métodos necessários para a escalada.

A compreensão pública de ciências é a consequência de indivíduos (e, assim, a sociedade a que os indivíduos pertencem) a partir de sua consciência ("awareness") buscarem alcançar níveis mais elevados de compreensão e aplicação de matéria científica.

O cume da alfabetização científica é um objetivo bastante ambicioso. A proposição de que relativamente poucas pessoas a alcançarão na prática tem sido fonte de crítica à alfabetização científica. Na sociedade, a alfabetização científica pode ser considerada como a altitude média das pessoas dentro da cadeia de montanhas científicas. Assim, algum grau de alfabetização científica é alcançável por todas as pessoas.

A cultura científica (na figura representada pelas nuvens) é a atmosfera que envolve a tudo e que motiva e sustenta os alpinistas (como a dimensão dos "valores" de Koballa. Sem a atmosfera vital da cultura científica, as pessoas não achariam que seria social, política e pessoalmente aceitável iniciar a escalada.

Comunicadores de ciências (mediadores) podem ser vistos como os guias da montanha. Eles podem ensinar as pessoas a como subir (habilidades), providenciar escadas (mídias), ajudar no próprio ato da escalada (atividades) e manter os alpinistas informados sobre o progresso, possíveis perigos e outras questões relativas à escalada (diálogo).

Escadas e comunicação sobre ciências funcionam em duas vias: para subida e para descida - permitindo o acesso entre pessoas em níveis diferentes: cientistas, mediadores e outros grupos com níveis mais elevados de alfabetização científica podem aprender algo com grupos em níveis mais baixos. O compartilhamento de conhecimento podem desenvolver a habilidade de comunicação dos cientistas, clarificar sua compreensão e fornecer-lhe feedbacks úteis e perspectivas renovadas em várias questões.
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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 14 (parte 1 de 2)

Burns, T.W.; O'Connor, D.J. & Stocklmayer, S.M. 2003. Science communication: a contemporary definition. Public Understanding of Science 12: 183-202.

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O público

Público:
toda pessoa na sociedade. Seis grupos sobrepostos cada qual com suas necessidades, interesses, atitudes e níveis de conhecimento.
Cientistas: na indústria, comunidade acadêmica e governo;
Mediadores: comunicadores (incluindo comunicadores de ciências, jornalistas e outros membros da mídia), educadores, formadores de opinião;
Tomadores de decisão: definidores de políticas em instituições governamentais, científicas e educacionais;
Público geral: os três grupos acima, mais outros setores e grupos de interesse como alunos e trabalhadores de entidades assistenciais;
Público atento ("attentive public"): parte da comunidade geral que já tem interesse em (e é razoavelmente bem informado sobre) ciência e atividades científicas;
Público interessado ("interested public"): composto por pessoas interessadas, mas não necessariamente bem informadas sobre ciências e tecnologia.

Público leigo: pessoas, incluindo cientistas, que não são especialistas em uma dada área;
Comunidade científica ou praticantes de ciência: pessoas diretamente envolvidas com algum aspecto da prática científica.

Participantes

Participantes
: pessoas do público direta ou indiretamente envolvidas na comunicação sobre ciências. (Não é o mesmo que agentes - stakeholders - pessoas com interesses pessoais em resultados particulares, nem clients - pessoas que pagam por um serviço.)
Participante direto: e.g. quem visita um centro científico, assiste a um filme científico, escreve uma carta para o editor de um jornal sobre uma matéria relacionada às ciências.
Participante indireto: e.g. locatário do espaço de um evento científico, patrocinadores e prootores.

Resultados e respostas

Consequências ("outcomes"): os resultados de uma ação.
Respostas: ação, sentimento, movimento, mudança, etc. eliciados por estímulos ou intereferência. A resposta é mais pessoal e imediata do que as consequências.

Ciência

O Painel de Questões Públicas da Sociedade Americana de Física (Panel on Public Affairs of the American Physical Society) define ciências como:
"Empreendimento sistemático de acumular conhecimento sobre o mundo e organizá-lo e condensá-lo em leis e teorias testáveis."
"[...] o sucesso e a credibilidade das ciências são ancorados no desejo dos cientistas de exporem suas ideias e resultados ao teste e réplica independentes por outros cientistas [...e] abandonar ou modificar conclusões aceitas quando confrontadas com indícios experimentais mais completos e confiáveis." (Muitos identificam essa definição como referente às ciências puras.)

Muitos dicionários destacam o uso do método científico como um modo de identificar uma atividade como parte das ciências.

O relatório "Science for all Americans" identifica o fato de a ciência ser conduzida dentro de um contexto social ter como consequência, ela ser influenciada por este.

No contexto da comunicação sobre ciências, as ciências incluem ciências puras (como definida acima), matemática, engenharia, medicina, estatística, tecnologia e áreas afins.

Consciência ("Awareness")
A definição usual de dicionário "estar ciente, não ignorante de algo" não é suficiente no contexto de comunicação sobre ciências. É usado em um sentido mais amplo sobre a relação do público com as ciências.

Compreensão ("Understanding")
A compreensão não é algo binário - ou se tem ou não se tem -, mas é um entendimento em desenvolvimento tanto do significado quanto da implicação de certos conhecimento, ação ou processo baseados em princípios adequados comumente aceitos. No caso da compreensão de ciências, tais princípios são leis, teorias e processos identificados com a seção científica, bem como algumas de duas ramificações.
Há pouco discussão a respeito de que a compreensão seja em geral uma boa coisa, mas há indícios que sugerem que sob certas condições, as pessoas podem escolher deliberadamente pela ignorância: p.e., trabalhadores de usinas nucleares tendem a preferir confiar em seus colegas para proporcionar um ambiente seguro a eles mesmo entenderem os riscos da radiação.

Comunicação
Schirato & Yell 1997: "prática de produzir e negociar significados, sempre sob condições social, cultural e política específicas".

Consciência/Atenção Pública de Ciências ("Public Awareness of Science" - PAS)
Gilbert, Stocklmayer & Garnett 1999: "conjunto de atitudes positivas em relação às ciências (e tecnologia) que são evidenciadas por uma série de habilidades (skills) e intenções comportamentais (behavioral intensions) [...] As habilidades de acessar conhecimento científico e tecnológico e o sentido de posse desse conhecimento trará uma confiança para explorar suas ramificações. Isso levará, em algum momento, à compreensão de ideias e produtos-chave e de como eles surgiram, à avaliação do status do conhecimento científico e tecnológico e seu significado para a vida pessoal, social e econômica."

Consciência Pública de Ciências (PAS) e Compreensão Pública de Ciências (PUS) por vezes são usados como sinômicos, embora haja sobreposição de seus limites e objetivos, a PAS é predominantemente sobre atitudes. A PAS é um componente fundamental da PUS e da alfabetização científica.

Compreensão Pública de Ciências ("Public Understanding of Science" - PUS)
O relatório "Science and Society" da Câmara dos Lordes define:
"[...] compreensão de matérias científicas por não-especialistas. Isso não significa, claro, o conhecimento exaustivo de todos os ramos científicos. Isso pode, no entanto, incluir compreensão da natureza dos métodos científicos [...] consciência ("awareness") dos avanços científicos atuais e suas implicações. A compreensão pública de ciências tornou-se um termo que resume todas as formas divulgação (no Reino Unido) pela comunidade científica ou por outros em seu lugar (e.g., escritores de ciências, museus, organizadores de eventos), para o público afora, voltadas para melhorar essa compreensão."
Millar no contexto de educação científica propõe três aspectos - que podem ser generalizados para a definição da Compreensão Pública de Ciências:
1. Compreensão do conteúdo científico, ou conhecimento científico substancial (conhecido como conteúdo) - conceitual;
2. Compreensão dos métodos de pesquisa (chamados de processo) - procedimental;
3. Compreensão das ciências como um empreendimento social: consciência ("awareness") do impacto da ciência sobre indivíduos e a sociedade; uma dimensão extensa rotulada como fatores sociais - afetiva.

Alfabetização científica ("Scientific literacy" - SL)
A interpretação da alfabetização científica ao longo dos anos mudou de habilidade de ler e compreender artigos relacionados às ciências para a compreensão e aplicação dos princípios científicos no dia-a-dia.
Shen 1975 propôs três categorias mais amplas:
1. Alfabetização científica prática. Conhecimento científico aplicável na solução de problemas práticos.
2. Alfabetização científica cívica. Permite aos cidadãos "tornarem-se mais conscientes ("aware") da ciência e questões relativas às ciências de modo que eles ou seus representantes não se inibam de usar seu bom senso para apoiar tais questões e assim participar mais plenamente dos processos democráticos em uma sociedade crescentemente tecnológica".
3. Alfabetização científica cultural. Apreciação das ciências como uma grande realização da humanidade.
Miller desenvolve o conceito da SL cívica em três dimensões:
a. um vocabulário de construtos científicos básicos suficiente para ler relatos divergentes em um jornal ou revista (conteúdo);
b. compreensão do processo ou natureza da pesquisa científica (processo);
c. algum grau de compreensão do impacto das ciências e tecnologia sobre os indivíduos e a sociedade (fatores sociais).

Hacking, Goodrum & Rennie: "O fundamental para o quadro ideal é a crença que o desenvolvimento da alfabetização científica deve ser o foco da educação científica nos anos obrigatórios de estudo. A alfabetização científica é uma alta prioridade para todos os cidadãos, ajudando-os a se interessarem pelo mundo a sua volta e compreendê-lo, para participarem de discursos científicos, para serem céticos e questionarem as alegações feitas por outros sobre matéria científica, para serem capazes de identificar questões, investigar e tirar conclusões baseadas em indícios e para tomarem decisões informadas sobre o ambiente e sua própria saúde e bem-estar."
Embora o ideal de um nível alto e universal de alfabetização científica possa ser inalcançável, é um objetivo válido e criticamente importante para a sociedade moderna.

Cultura científica ("Scientific culture" - SC)
Há várias definições.
1. Conjunto de "valores e ethos, práticas, métodos e atitudes baseado no universalismo, pensamento lógico, ceticismo organizado e o caráter tentativo dos resultados empíricos" que existe dentro da comunidade científica/acadêmica.
2. Godin & Gingras: "cultura científica e tecnológica é a expressão de todos os modos através dos quais indivíduos e sociedade apropriam-se da ciência e da tecnologia".
3. A maioria dos países europeus usam "cultura científica" com o significado de PUS (no Reino Unido) e SL (nos EUA), com ênfase no ambiente cultural em que ciência e sociedade interagem. Sistema integrado de valores sociais que aprecia e promove a ciência, per se, e a alfabetização científica disseminada como objetivos importantes.
Os usos 1 e 2 contrastam no domínio: o primeiro restrito à comunidade científica, o segundo considerando o uso de toda a sociedade.

Ciência e sociedade: qual o lugar da comunicação sobre ciências?
Há um reconhecimento crescente de que vivemos em uma fase crítica da relação entre ciências e sociedade.

De um lado, as questões envolvendo ciências estão bastante excitantes, o público está mais interessado e as oportunidades mais patentes. De outro, a confiança do público nos conselhos científicos aos governos está abalada por um série de eventos, muitas pessoas estão incomodadas pelas grandes oportunidades trazidas pelas áreas científicas que parecem avançar muito além de sua consciência e consentimento.

As pesquisas indicam que o público não sabe muito de ciências, enquanto os cientistas não sabem muito sobre o público. O nível de interesse em ciências continua alto, mas o nível verificável de compreensão sobre ciências continua baixo.

O modelo do déficit nasce da interpretação das primeiras pesquisas, caracterizando-se por considerar o público com tendo conhecimento inadequado e a ciência a possuir todo o conhecimento necessário.

Críticos apontam que essas pesquisas podem não captar a verdadeira natureza complexa da questão: elas indicam um analfabetismo generalizado ou a ambivalência do público em relação as ciências (ou às questões realizadas)? é realístico testar o conhecimento do público sobre fatos científicos? por que se deve esperar que o público tenha mais conhecimento de ciências do que de política, arte, música ou literatura? como fatores sociais e culturais afetam os resultados?

A partir da década de 1990, Wynne, Irwin, Latour, Collins, Pinch, Jenkins, Layton, Yearley, McGill e Davey promoveram o modelo da abordagem contextual ("contextual approach"):
"O modelo do déficit é assimétrico, apresenta a comunicação como fluxo de via única: da ciência para o público [... enquanto que o] modelo contextual explora as ramificações de sua raiz metafórica completamente distinta, a interação entre a ciência e o público. Em consequência, o modelo contextual é simétrico: apresenta a comunicação como via de mão-dupla entre a ciência e o público. O modelo contextual implica em um público ativo: ele requer uma reconstrução retórica em que a compreensão pública é uma criação conjunta do conhecimento científico e local [...] Neste modelo, a comunicação não é apenas cognitiva, questões éticas e políticas são sempre relevantes."

No Reino Unido, no relatório "Science and Society" da Câmara dos Lordes, o título "Ciência e Sociedade" substituiu o rótulo PUS, identificando o comprometimento do país com a abordagem contextual. O objetivo é que ciência e sociedade comecem a trabalhar em conjunto de um modo positivo, inclusivo e produtivo. A comunicação sobre ciências é uma parte vital desse processo.
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