SOS - ESPÍRITO SANTO

Como ajudar as vítimas da enchente no Espírito Santo.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Patrulha purista vocabular 8

ResearchBlogging.orgNotícia da EFE reproduzida por vários portais, como o UOL, o Terra, Yahoo! e outros:
"Dinossauros voadores pareciam-se com répteis, e não com aves".

A Folha.com também reproduziu a notícia e usava o termo "dinossauro voador", alertada, corrigiu para a designação correta: "pterossauros".

Pterossauros são um grupo de répteis voadores que conviveu com os dinossauros, mas não são eles mesmos dinossauros. Ainda que parentes relativamente próximos.

O grupo que inclui os crocodilos e as aves é chamado de Archosauria. Esse grupo inclui os dinossauros, parentes bem próximos das aves - na verdade, como o leitor (ou leitora) solitário(a) deste blogue já sabe (pelo menos desde Jurassic Park), aves *são* dinossauros, do mesmo modo como os humanos *são* mamíferos. Há alguns outros grupos menores, mas os pterossauros também estão incluídos. Pterossauros formam um grupo com os dinossauros (e alguns grupos menores) chamado de Ornithodira - os crocodilos (e alguns parentes) estão fora desse grupo .

A Figura 1 mostra um esquema simplificado das relações entre diversos grupos dos Amniotas.

Figura 1. Filogenia simplificada dos amniotos.

(A posição das tartarugas é mais discutível, mas dados moleculares parecem colocá-las como parentes vivas mais próximas dos crocodilos e jacarés.)*

Por que pterossauros não são dinossauros? Por definição. Na verdade há um grupo minoritário de paleontólogos que propuseram a inclusão dos pterossauros entre os dinossauros - e.g. Robert T. Bakker. Mas a maioria não aceita essa proposição, por razões eminentemente históricas - mas com algumas consequências práticas.

Dinosauria foi um termo criado pelo anatomista Richard Owen em 1842 em um trabalho em que descrevia fósseis de alguns répteis do Mesozóico totalmente diferente do que se conhecia até então: um Megalosaurus bucklandii, um Hylaesaurus armatus e um Iguanodon bernissartensis. Dentro do esquema rígido de classificação hierárquica, Dinosauria foi proposto como uma nova Ordem reconhecida dentro dos Reptilia. O termo Pterosauria foi criado antes, em 1834 por Joahann Jakob Kaup como uma Ordem específica dentro dos Reptilia.

Ampliar o grupo dos Dinosauria para abarcar os Pterosauria não seria de muita ajuda. Seria preciso criar um nome para o grupo formado pelos Saurischia e Ornithischia (os dois grandes grupos - ou Subordens - em que se dividem os dinossauros) - que a despeito da diversidade morfológica têm mais em comum entre si do que com os pterossauros.

Claro que seria útil um nome para se referir ao grupo formado pelos dinossauros+pterossauros e é, como dito antes, Ornithodira.

Há diversas definições dadas pelos cientistas para Dinosauria. Uma é como o grupo formado por Megalosaurus bucklandi, Iguanodon bernissartensis, o ancestral em comum mais recente entre eles e todos os descendentes desse ancetral. Uma outra definição segue os mesmos moldes, mas usa Passer domesticus e Triceratops horridus. Essas são as mais usadas nos trabalhos sobre dinossauros e, em consequência das relações evolutivas inferidas pelo estudo da morfologia dos organismos, os pterossauros ficam de fora, ainda que próximos nas árvores construídas.

Isto é, de acordo com o que se conhece até o momento, do ancestral mais recente que deu origem ao Megalosaurus (ou ao Passer) e ao Iguanodon (ou ao Triceratops) *não* surgiram os pterossauros. O ancestral dos dinossauros e os pterossauros, por sua vez, partilham um ancestral mais remoto que *não* deu origem aos crocodilos.

Aqui a já surrada comparação familiar é útil: Juca e seu irmão Pedro possuem um ancestral em comum (o pai Neco) que *não* partilham com o primo Zeca; mas Zeca e Juca (e Pedro) têm um ancestral mais remoto (o avô Noel, pai de Neco e da tia Lena, mãe de Juca) em comum.

Oquei. Mas a história não para na questão de pterossauros não serem dinossauros. O que querem dizer com "parecido com répteis, e não com aves"?

Se continuarmos com o rigor que passa o limite da rabugisserabugice, diríamos: aves são répteis! (Uma boa definição de Reptilia seria: todos os aminiotas com exceção dos Synapsida.) Sendo mais condescendentes, "répteis" estaria a se referir a "outros répteis". Hmm, ainda não temos o problema resolvido. Parecidos como? Se for pela presença de asa, efetivamente pterossauros se parecem com aves mais do que com os demais répteis. A pista da comparação a que se refere aparece só na última frase da reportagem: "Como até pouco tempo atrás eram poucos os exemplares fósseis obtidos dos pterossauros, 'as ideias sobre a biologia reprodutiva destes animais eram obtidas, em grande medida, por meio de comparações com as aves', revelou o estudo."

Esqueçamos o detalhe "até pouco tempo atrás eram poucos os exemplares de fósseis obtidos dos pterossauros" - não reflete bem a verdade (daria a impressão de que o estudo revelou um novo sítio com dezenas de milhares de espécimes de pterossauros). Mas a reportagem *não* diz de que modo a biologia reprodutiva dos pterossauros seriam mais parecidas com a dos demais répteis do que com a das aves.

Temos que ir até o site da Science para ler o estudo - e infelizmente não está disponível para todo o público. Mas creio que o resumo esclareça a questão:
"A sexually mature individual of Darwinopterus preserved together with an egg from the Jurassic of China provides direct evidence of gender in pterosaurs and insights into the reproductive biology of these extinct fliers. This new find and several other examples of Darwinopterus demonstrate that males of this pterosaur had a relatively small pelvis and a large cranial crest, whereas females had a relatively large pelvis and no crest. The ratio of egg mass to adult mass is relatively low, as in extant reptiles, and is comparable to values for squamates. A parchment-like eggshell points to burial and significant uptake of water after oviposition. This evidence for low parental investment contradicts the widespread assumption that reproduction in pterosaurs was like that of birds and shows that it was essentially like that of reptiles."

Os aspectos mais parecidos com os demais répteis são, então, a baixa relação massa do ovo/massa corporal e a casca provavelmente do tipo coriácea, presente em alguns outros répteis (mas não, por exemplo, em lagartixas), e não rígida como a das aves.

O título deveria ser mais algo como: "Ovo de pterossauro tinha casca flexível como de cobras". Claro, se não bancarmos o matemático da piada sobre ovelhas negras nos campos escoceses: "Pelo menos um ovo de pelo menos um indivíduo de uma espécie de pterossauro...".

Referência
Lu, J., Unwin, D., Deeming, D., Jin, X., Liu, Y., & Ji, Q. (2011). An Egg-Adult Association, Gender, and Reproduction in Pterosaurs Science, 331 (6015), 321-324 DOI: 10.1126/science.1197323
Upideite(01/fev/2011): Aproveitando o tema paleontológico e a citação sobre dinossauros, recentemente deu-se algum destaque a (mais) um estudo que indicaria que alguns dinossauros (não-avianos - lembremos, aves são dinossauros) teriam sobrevivido à extinção K/Pg. Mas tudo indica que a história não é bem essa. A técnica utilizada - com radioisótopos de urânio - não foi ainda validada para datar diretamente fósseis; átomos de urânio podem penetrar do meio para os fósseis 'rejuvenescendo'-o (ao recompor parte do urânio perdido que foi transformado em chumbo pelo decaimento radioativo); a amplitude de variação das datas também é grande: 64,8+/-0,9 x 106 de anos - o que na verdade faz com que o fóssil possa ser perfeitamente anterior ao evento K/Pg (datado em 65,5 milhões de anos atrás).

*Upideite(28/out/2012): @carloshotta indica um estudo recente com elementos ultraconservados que posiciona as tartarugas no ramo dos arcossauromorfos (como grupo-irmão dos arcossauros).

domingo, 23 de janeiro de 2011

O que pensam os cabeças da política científica brasileira?

Farei aqui uma compilação das entrevistas do ministro do MCT e dos órgãos vinculados para registro do pensamento sobre CT&S do governo Dilma Rousseff.

Aloizio Mercadante (MCT)
04/jan/2011 - Discurso de posse: Pronunciamento - posse no Ministério da Ciência e Tecnologia
05/jan/2011 - Estadão: Investimento em inovação exige que Finep vire banco, defende Mercadante
21/jan/2011 - Folha: Ministro da Ciência, Mercadante quer priorizar projetos de grande porte
**13/fev/2011 - Canal Livre: Canal Livre recebe Aloizio Mercadante
Parte 1


Parte 2


Parte 3



Parte 4


Parte 5


****22/jul/2011 - Correio Braziliense: Corrida contra o tempo para tornar o Brasil internacionalmente competitivo

Glaucius Oliva (CNPq)
22/jan/2011 - Estadão: 'Prioridade é criar um novo marco legal'
*27/jan/2011 - Discurso de posse: Discurso de Posse do Prof. Dr. Glaucius Oliva como Presidente do CNPq
*****11/mai/2011 - UnB Ciência: 'É hora de pensar o futuro', diz presidente do CNPq

Glauco Arbix (Finep)
*28/jan/2011 - Discurso de posse: Finep - Posse - Glauco Arbix
***02/mar/2011 - Folha: Patentear a esmo não ajuda universidade, diz presidente da Finep
****20/jul/2011 - Brasilianas.org: Entrevista: Glauco Arbix, presidente da FINEP

*Upideite(29/jan/2011): adido a esta data.
**Upideite(14/fev/2011): adido a esta data.
***Upideite(02/mar/2011): adido a esta data.
****Updeite(26/jul/2011): adido a esta data.
*****Upideite(17/set/2011): adido a esta data.
******Upideite(11/out/2011): adido a esta data.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

#twitciencia: uma proposta modesta (pra usar no twitter)

Vários filomatas estão presentes no twitter como podemos verificar pela listagem elaborada por Átila Iamarino no Rainha Vermelha.

Há intensas trocas de mensagens sobre ciências entre os tuiteiros, mas o mecanismo do twitter agora oculta tuítes endereçados a uma conta (ou grupo de contas) específica - somente quem segue a pessoa que envia o tuíte e a pessoa para quem o tuíte é endereçado pode acompanhar o diálogo em sua própria timeline. Isso torna os debates que ocorrem um tanto ocultos.

Para um debate mais amplo, porém, listar todas as pessoas a quem se pretende dirigir um tuíte torna-se proibitivo pela limitação do número de caracteres.

Uma solução seria o uso de uma hashtag temática. O #botequimtuitajoaquim, por exemplo, é uma tag bastante conhecida no twitter voltadoa para se compartilhar informações musicais.

Aí entra a proposta de se usar a hashtag #twitciencia para o mesmo tipo de compartilhamento via twitter voltado para temática científica. O #twitciencia seria uma tag permanente e genérica; eventualmente para um debate mais específico, poderia se usar variações como #twitciencia2011.

Upideite(23/jan/2010): É uma proposta e está aberta a sugestões de aperfeiçoamentos. Ou mesmo a críticas para que não se a adote. Irei aqui endereçar-me a alguns apontamentos feitos.

@kenmori, nos comentários, observa bem que tags ocupam caracteres e quanto mais curta melhor, @ciensinando, também nos comentários, no entanto, faz uma defesa da hashtag proposta: ela é descritiva e não tão longa. (Se alguém conseguir pensar em uma sugestão melhor, por favor, fique à vontade.)
@ciencianamidia, jocosa mas precisamente, resume o propósito da tag proposta.
@kntz sugere o uso de listas e do sistema de buscas, para o propósito da discussão aberta não me parece que seria o melhor mecanismo. Seria preciso primeiro pré-listar os interessados nos debates. E saber quais palavras usar - não haveria uma palavra-chave única.
@kntz sugere ainda o uso do TweetDeck. Mas isso, creio, seria limitar demais a liberdade dos usuários: ficaria otimizado somente para quem usa o programa.

Upideite(28/jan/2011):
@eduardomps sugere a tag #cienciabr. É uma ideia a se pensar. Um pequeno problema é que o perfil @cienciabr já está ocupado (para um blogue do mesmo nome). Não que hashtags tenham ligações diretas com alguma conta do twitter que tenha o mesmo nome, mas é bom tomar precauções. (Eu reservei o perfil @twitciencia com o propósito de não haver nenhum conflito.)

Upideite(04/mar/2011): A tag #twitciencia está em pleno funcionamento. Para pesquisar tweet mais antigos, há um histórico no Twapper Keeper.

Uma pequena linha do tempo segue abaixo.
22/jan/2011: @Be_Neviani é a primeira usuária a usar sistematicamente a tag;
24/jan/2011: @Conteudo_Livre é o segundo;
25/jan/2011: a tag atinge o 100o tweet;
06/fev/2011: 200o tweet;
10/fev/2011: @scienceblogsbr passa a usar a tag;
12/fev/2011: 300o tweet (this is Spartaaaaaaaaa!);
15/fev/2011: Entrevista da geneticista Lygia Pereira ao programa Roda Vida da TV Cultura gera o primeiro debate (live comments interativos) a usar a tag;
16/fev/2011: 400o tweet;
25/fev/2011: 500o tweet;
02/mar/2011: 600o tweet;
07/mar/2011: 700o tweet;
10/mar/2011: 800o tweet;
14/mar/2011: 900o tweet;
17/mar/2011: 1000o tweet;
17/abr/2011: 2000o tweet;
22/abr/2011: A promoção Prêmio Bê Neviani segunda edição torna-se a primeira promoção a se valer da tag;
04/mai/2011: 3000o tweet;
30/mai/2011: 4000o tweet;
09/jul/2011: 5000o tweet;
13/ago/2011: 6000o tweet;
Upideite(14/ago/2013): Durante uma semana, @sibelefausto coletou dados de uso e compartilhamento da hashtag no twitter. O resultado é o gráfico abaixo.
De cara, notamos a existência de dois conectores (hubs) destacados: @Be_neviani e @jlgoldfarb. Outros hubs importantes foram: @Cienctec1, @REDEMIS, @puc_sp, @RiodeLeitores, @scienceblogsbr, @estadoleitor, @ETC_Sampa, @ETC_Bienal.
Upideite(03/nov/2013): E o #twiciencia virou um trabalho acadêmico. O estudo que gerou o gráfico acima foi apresentado no Enancib 2013. Via @sibelefausto.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Como ajudar as vítimas da tragédia das chuvas

Para quem quiser ajudar há vários modos. Esta reportagem do jornal Extra do Rio indica os postos que arrecadação de mantimentos e as contas para doação em dinheiro.

A Cruz Vermelha em suas filiais também arrecada mantimentos (prioridade para água, alimentos não perecíveis, colchões e cobertores).

Para quem quer alguma perspectiva científica, Átila Iamarino, no Rainha Vermelha, dá uma motivação para doar.

Eu não tenho muito a falar a não ser repetir o que já disse no ano passado.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Blackawton é aqui. (To the infinity and beyond!)

Mais um pra coleção das histórias edificantes da educação científica. Não é um projeto tão de ciência pura como o das mamangabas de Blackawton, nem deve render uma publicação em revista científica de prestígio; mas é igualmente um exemplo de dedicação e envolvimento de diversos agentes em benefício da aprendizagem científica dos alunos.

Um grupo de estudantes do quinto ano da escola municipal Tancredo Neves, em Ubatuba-SP, sob orientação do professor de matemática e de outros, além do apoio de técnicos e de grupo de empresários está construindo um satélite didático para ser posto em órbita.

A história detalhada pode ser lida no site da Agência Fapesp (via @robelisario). E o relato Sergio Mascarenhas, diretor do IEA/USP no Blog do Chico (via @ciensinando)*.

Os satélites TubeSats devem começar a ser lançados pela empresa Interorbital por meio de foguetes próprios (aos aficionados em tecnologia de foguetes: modelo IOS N45) neste trimestre de 2011.

Claro que mesmo a ciência de foguetes não é ciência de foguetes - há vários fatores complicadores que podem tornar inviável um lançamento ou terminar em desastre (como os acidentes da corrida espacial e a tragédia de Alcântara nos ensinam) -, mas é uma tecnologia relativamente bem testada. E mesmo que o satélite dos alunos de Ubatuba nunca venha a ser lançado, certamente as crianças terão aprendido muito - não apenas sobre eletrônica, astronáutica e outras áreas de alta tecnologia: mas o papel fundamental do trabalho coletivo - deles, sobretudo, e de toda a comunidade que parece ter acolhido o projeto com entusiasmo.

A corrida espacial foi também um esforço coletivo - ou dois, dos americanos, de um lado, e dos soviéticos, de outro. Só os EUA investiam algo como 4% do PIB no programa espacial no auge da disputa pela primazia do espaço (no 100nexos, do Kentaro Mori, um resumo espetacular dessa aventura).

Os alunos de Ubatuba têm a oportunidade de vivenciar esse espírito - natural e felizmente sem o contexto de competição militar. Como no caso das mamangabas de Blackawton, temos o feliz encontro da curiosidade e motivação infantis e uma visão dedicada de um educador igualmente entusiasmado.

Tenho vontade de dizer "tomara que dê tudo certo", mas, sob uma certa perspectiva, já deu tudo certo - não importando o resultado final.

Se a indigência em que nos encontramos quanto à alfabetização científica nos assusta e o crescimento do interesse declarado na população por C&T nos alenta, iniciativas como a do Prof. Candido Osvaldo de Moura** e seus colaboradores (adultos e mirins) pode ser o passo a cerrar esse lapso entre o interesse e o conhecimento sobre ciências (e o uso do conhecimento científico).

E, se isso ocorrer, aí, mermão, é partir pro abraço, rumo ao infinito e além.

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Sim, claro que esse modelo em específico não é reprodutível em larga escala. Só o kit do satélite - incluindo o valor do lançamento - é coisa de 8 mil dólares; mas, como demonstram as abelhas de Blackawton, experimentos singelos - e mais baratos - também podem ser altamente recompensadores. O fator limitante é, assim, menos o dinheiro do que uma mentalidade aberta para além do ensino engessado predominante em escolas que pretendem ter nos alunos peças de uma linha de montagem.



(Vídeo via @clauchow. Tradução da transcrição aqui.)

*Upideite(12/jan/2011): Adido a esta data.
Upideite(29/mai/2013): Alunos do projeto participarão de simpósio no Japão.
**Upideite(29/mai/2013): As fontes divergem sobre o sobrenome do professor. Segundo alguns é Souza, pra outros é Moura.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Algumas ideias para o novo Ministro do MCT

Proponho aqui algumas ideias - não sei exatamente o quão facilmente elas poderiam ser implementadas - para o novo Ministro de Ciência e Tecnologia Aloizio Mercadante. Não estão em nenhuma ordem em particular.

- Realização periódica de pesquisa de compreensão e atitude sobre ciências da população brasileira. Um tanto nos moldes da realizada NSF americana. Naturalmente adaptada às condições nacionais. Se não de caráter anual, já que pesquisas assim são caras, ao menos bianual ou quinquenal. (São dados importantes para orientar as ações de divulgação e promoção das ciências, seria importante para orientar o MEC também - juntamente com dados como o PISA, o Enem e o Enade.)

- Criação de uma Agência Nacional de Importação de Insumos para a Pesquisa Científica. A burocracia dificulta e encarece a pesquisa brasileira, os cientistas não apenas não sabem preencher esses tipos de formulários segundo detalhes dos editais como não é sua função - além disso é inviável ter que reaprender as regras a cada alteração realizada. Seria mais racional se uma agência especializada ajudasse os pesquisadores - estes apenas preencheriam um formulário simplificado sobre o material necessário: os funcionários da agência cuidariam do levantamento do orçamento, dos prazos e outros detalhes, informando ao pesquisador, que escolheria dentre as opções a que mais bem servisse a seu projeto. Muitos insumos de consumo comum poderiam ser importados em quantidade maior, permitindo a negociação de condições mais vantajosas com os fornecedores. Isso faria também que as verbas não precisassem ser movimentadas muitas vezes: para o orçamento das agências financiadoras, para a conta dos projetos, para a conta dos fornecedores... - aumentando a racionalidade e diminuindo os custos de movimentação financeira.

- Esta ideia parece que já havia sido engatilhada, mas não sei em que pé está: uma Agência Brasileira de Notícias Científicas e Acadêmicas. Seria um grande portal, talvez no estilo do EurekAlert, que divulgaria as pesquisas financiadas pelo MCT e outras agências de fomento à pesquisa e os trabalhos das IES brasileiras: em especial das federais. Muitas IES possuem sua própria agência de notícias, e elas poderiam continuar a existir, a agência nacional filtraria as que teriam interesse em nível nacional e internacional. IES menores que não teriam como manter uma agência própria poderia se valer desse serviço, haveria uma maior visibilidade da pesquisa nacional e uma maior facilidade de acesso tanto pelos veículos noticiosos quanto pela população.

- Este projeto para ser tocado em conjunto com o MMA, o MME e outros órgãos relevantes: a substituição das lâmpadas incandescentes e fluorescentes por lâmpadas LED de alto brilho. As fluorescentes são ainda mais baratas do que as LED, mas a maioria são xing-lings sem certificação e poluentes; e mais, só uns 6% recebem tratamento adequado para descarte. As LED não levam pó de fósforo nem vapor de mercúrio, sendo totalmente recicláveis. Há pesquisa nacional para lâmpadas nanoLED mais eficientes: as lâmpadas poderiam ser produzidas aqui, gerando empregos; e um programa dessa natureza daria escala para reduzir os custos de produção e as lâmpadas poderiam até ser exportadas.

- Banco Online de Dados de Georreferenciamento de Espécimes Nativos. Um grande banco de dados online em que os pesquisadores forneceriam os dados padrões de espécimes coletados (como espécie, dados biométricos e fenéticos, local e data de coleta, local em que foi depositado e outros): os coletados em território nacional, os coletados com financiamento de órgãos brasileiros. Não necessariamente de caráter obrigatório. E poderia ser ampliado para a colaboração com outros países do Mercosul, da América Latina ou mesmo do resto do mundo. Isso seria importantíssimo para o mapeamento da biodiversidade brasileira, análise da dinâmica populacional, do impacto das atividades humanas, etc. *Roberto Berlinck, do Quiprona, nos comentários e pelo twitter, informa que o SIS-Biota terá um banco de dados georrerenciados - mas não sei se será fechado somente para os dados das pesquisas que fazem parte do projeto. A idéia seria um BD aberto para todos os pesquisadores que trabalharem com coleta de espécimes alimentarem o sistema com informações - como o GenBank em relação a dados biomoleculares. *** Outro projeto nacional similar é o SiBBr (Sistema de Informação sobre a Biodiversidade Brasileira). As instituições pedem como contrapartida verbas para proteção de suas coleções com melhorias de infraestrutura.

- Biblioteca Digital de Obras e Documentos Históricos e Científicos Raros. Diversas instituições possuem em suas coleções obras raras de inestimável valor histórico e científico. Por razões de conservação e segurança, são de acesso restrito. A digitalização delas permitiria a consulta sem riscos de danos à obra, e facilitaria a consulta pelos pesquisadores e daria acesso ao público em geral.

Upideite(06/jan/2011): - Em conjunto com o IBGE, criar um banco de dados estatísticos nos moldes do GSS, que permite a busca com cruzamento de parâmetros. A base são microdados de pesquisas de opinião que se pode consultar agregando-se os dados de modo mais livre - sem que seja possível acessar dados individualizados. O IBGE tem o SIDRA, um excelente instrumento, mas voltado para parâmetros econômicos e populacionais (e não tão versátil quanto a base do GSS). Todas as pesquisas de opinião encomendadas por órgãos governamentais seriam carregadas nessa base. Poderia incluir pesquisas de outra natureza também: por exemplo, integrando os dados do Enem e do Enade - seria possível fazer um cruzamento de dados entre desempenho e renda familiar, desempenho por cidade, comparar a razão sexual por faixa etária de estudantes, etc.

Upideite(08/jan/2011): Com a profusão de 'olimpíadas' de diversas áreas das ciências: física, química, biologia, matemática, etc., poderiam, em conjunto com o MEC, aproveitar a realização dos Jogos Olímpicos de Verão Rio 2016 para organizar aqui também uma Olimpíada Científica Multimodal - umas duas semanas concentrando as finais mundiais de todas as áreas. (Sei que muitos educadores têm restrições quanto ao caráter competitivo e 'conteudista' - e entendo a bronca deles - dessas iniciativas, mas seria uma boa oportunidade de fomentar a educação, a disseminação e a cultura científicas.) **Parece que a SBPC e a ABC estão levando essa proposta adiante (não sei se em caráter internacional ou nacional).

*Upideite(08/jan/2011): adido a esta data.

**Upideite(26/jun/2012): adido a esta data. Via @SangariBR.

***Upideite(27/mai/2013): adido a esta data. Via @scienceblogsbr.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

2011.0

Foram integrados dois novos serviços: as contas no twitter e no formspring do Gene Repórter - referidos também no menu à esquerda. São dois canais de comunicação que se somam à caixa de comentários de cada postagem aqui no blogue.

Outras novidades foram integradas ao longo do ano passado: os botões do sharethis - para comunicar as postagens individuais em vários serviços de rede social - e o LinkWithin - que indica outras postagens relacionadas do blogue.

Então se tiver alguma sugestão, crítica e elogio (sim, elogios são bem vindos também) agora tem vários modos de encaminhar à equipa (de um homem só) do Gene Repórter. (Sei que o sistema de comentários aqui no blogue é bem chatinho - precisa ter uma conta Google ou OpenID, infelizmente é o nível mais aberto disponível que não o totalmente aberto: o que me causaria problemas com spans - espero, assim, que os serviços adicionados deem mais oportunidades de interação.)

Um ótimo 2011 a todos!

Roberto Takata
Gene Repórter

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