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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Yo no creo en brujas...

...y que no las hay, no las hay. Mas hoje é Dia do Saci e Dia da Noite das Bruxas. Segue uma compilação temática GR faunística para celebrar as efemérides.

Morcegos vampiros. São três espécies. O vampiro comum (Desmodus rotundus), o de perna-peluda (Diphylla ecaudata) e de asas-brancas (Diaemus youngi), todos de ocorrência neotropical e formando um grupo monofilético (todos têm um mesmo ancestral em comum exclusivo entre as espécies conhecidas de morcego atuais), Desmodontinae. Pertencem à família Phyllostomidae, a mais diversas da ordem Chiroptera, que apresenta uma ampla variedade de hábitos alimentares entre seus membros. A hematofagia parece ter se desenvolvido a partir de ancestrais insetívoros. Um modelo evolutivo para a evolução do hábito de se alimentar de sangue de mamíferos (De. rotundus e Dia. youngi) e de aves (Dip. ecaudata) podem ser aves bufagídeas, que se alimentam de carrapato nas savanas africanas - elas se alimentam não apenas de carrapatos, mas também do próprio sangue dos hospedeiros.

Há um morcego da espécie Vampyrum spectrum, morcego espectral, cujos indivíduos curiosamente não se alimentam de sangue - são carnívoros, caçando roedores, aves e até outros morcegos.

Tentilhão vampiro ("vampire finch") - Geospiza difficilis septentrionalis. Indivíduos desta subespécie ocasionalmente alimentam-se de sangue de aves marinhas - que escorrem de feridas provocadas pelo próprio tentilhão. Elas se alimentam também de insetos parasitas como no caso dos bufagídeos mencionados acima.

Lula-vampiro (Vampyroteuthis infernalis). Não é um sugador de sangue. Seu nome é inspirado na aparência algo morcegosa - com membranas que se estendem por entre os tentáculos.

Peixe-bruxa ou feiticeira (várias espécies de agnatos do grupo Myxini). Alimentam-se de animais mortos ou moribundos*. Não possuem mandíbulas ou coluna vertebral, mas têm notocorda e crânio. Têm também dentes córneos que usam para arrancar pedaços de carne das carcaças. Vivem no fundo dos oceanos de todo o globo - exceto nas regiões polares.

Tubarão-gnomo ou tubarão-duende (Mitsukurina owstoni), seu nome em inglês é mais amedrontador: goblin shark. Vivem em águas com profundidade de cerca de 250 m ou mais alimentando-se de peixes, moluscos e crustáceos, localizando-os com a ajuda de uma espátula eletrossensível que se projeta acima de suas maxilas superiores e lhe confere sua aparência distinta.

Diabo-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii), marsupial carnívoro da... sim, Tasmânia. Caçado por ser tido como ameaça aos animais de criação, passou a ser considerado sob ameaça de extinção e, desde 1941, está sob proteção oficial. Mas a partir de 1990, um tumor facial transmissível tem levado a uma drástica redução do tamanho da população.

Siri-fantasma (espécies do gênero Ocypode), também conhecido como maria-farinha - ambas as denominações populares pela coloração clara.

Um anfíbio fóssil foi batizado de Eucritta melanolimnetes, grego latinizado para 'monstro da lagoa negra'. A criatura é do Carbonífero escocês, não, infelizmente, da região amazônica.

Um dinossauriforme descoberto em Agudos-RS ganhou o nome de Sacisaurus agudoensis pelo fato de apenas um dos fêmures ter sido recuperado (seria mais engraçado se tivesse sido o esquerdo), junto com fragmentos de outras partes do corpo.

*Upideite(02/nov/2011): Mas podem ser caçadores ativos também. (Via Samir Elian no G+)

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Barriga da fortuna: uma paráfrase a Tolstoi

"Все счастливые семьи похожи друг на друга,
каждая несчастливая семья несчастлива по-своему."
["Todas as famílias felizes são parecidas,
já as famílias infelizes são cada qual infelizes a seu modo."]
Leo Tosltoi
Anna Karenina

Esta postagem era para ser parte do Blog Action Day (que tem o terrível acrônimo: BAD) em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação (16 de outubro, data da fundação da FAO), mas por motivos diversos acabou por não ficar pronta a tempo.

O acesso aos alimentos e o estilo de alimentação (comida mais rica ou menos rica em carboidratos e gorduras, p.e.) certamente são fatores importantes (embora não os únicos, fatores genéticos e o estilo de vida: sedentarismo x atividade física, p.e.) na determinação do IMC.

Na Figura 1 estão plotados a prevalência na população de pessoas com sobrepeso/obesidade (IMC igual ou acima de 25) e com subpeso/magreza excessiva (IMC abaixo de 18,5) pelo PIB per capita (em paridade de poder de compra, PPP): nota, os valores compilados variam de 1985 a 2009 (tanto quanto possível busquei os valores mais recentes disponíveis para os países no Banco de Dados Mundial de IMC da OMS, com os valores de PIB per capita dos anos correspondentes disponíveis no Economy Watch e no index mundi).

Figura 1. IMC x PIB per capita. Sobrepeso/obesidade (IMC ≥ 25),
subpeso/magreza excessiva (< 18,5).

Na Figura 2 é apresentada a relação entre PIB per capita e a prevalência de IMC normal (abaixo de 25 e igual ou acima de 18,5).

Figura 2. Prevalência de IMC normal (≥ 18,5 e < 25) x PIB per capita nos países.

Em relação à magreza excessiva (fortemente associada à subnutrição), a riqueza tem uma relação bastante forte: em países com renda mais alta, há poucos casos de IMC abaixo de 18,5. O que não significa que países com renda mais baixa apresentem menos casos de IMC acima do grau de sobrepeso e obesidade, quase que ao contrário, os maiores índices de prevalência de sobrepeso/obesidade tendem a ser encontrados em países mais pobres (bem como os maiores índices de prevalência de subpeso).

Na verdade, ocorre uma maior dispersão dos valores de IMC entre os países com PIB per capita mais baixo (e uma menor dispersão entre os países com PIB per capita mais elevados). Os EUA, sempre citados quando se fala em epidemia de obesidade, são um ponto fora da curva: para países com alta renda, os valores de IMC na faixa do sobrepeso/obesidade parece tender a um valor em torno de 10%.

Quando se analisa o gráfico de prevalência de IMC na faixa da normalidade, essa tendência a valores intermediários aparece mais claramente - mas isso entre *países*. E *dentro* de cada país? Usando o índice de Shannon (na verdade, um pseudoíndice - não ajustei para ln 2, de modo que não correspondem a bits) para os valores de prevalência de IMC de subpeso/magreza excessiva, normalidade, sobrepeso/obesidade, temos o gráfico da Figura 3, em que, novamente, vemos que países mais ricos tendem a se parecer mais entre si, mas não necessariamente países mais ricos são internamente mais homogêneos (eles são relativamente heterogêneos, como um alto índice de Shannon mostra).

Figura 3. Índice de Shannon da prevalência de três classes de IMC (sobrepeso/obesidade, normalidade, subpeso/magreza excessiva) x PIB per capita.

A explicação desses padrões não deve ser muito simples. Em países mais ricos, de modo geral, há uma maior abundância de alimentos, sobretudo os mais energéticos; mas também há mais acesso a educação alimentar e mesmo a tratamentos contra a obesidade e magreza. Há ainda que se levar em conta a questão da distribuição de renda. Além disso, famílias pobres podem ter acesso a uma boa alimentação se tiverem espaço para cultivar seu próprio alimento (em terreno suficientemente fértil e não forem assoladas por pragas e instabilidades climático-meteorológicas). Na África subsaariana não se observam países pobres com alta prevalência de obesidade, ao contrário do que pode ocorrer em países do Mediterrâneo Oriental e do Pacífico Ocidental - serão fatores genéticos? culturais? ambos?

Mas creio que possamos dizer (com o devido pedido de desculpas a Tolstoi), em relação à obesidade/magreza e a riqueza, que todos os países ricos se parecem, enquanto que nos pobres há obesos e magros cada qual a sua maneira.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

O que o Google nos diz sobre a interesse do brasileiro em ciência?

Voltando à ferramenta do Google Trends, podemos comparar os temas incluídos na pesquisa sobre Percepção Pública de Ciências do MCTI.

Algumas notas de precaução: O universo é distinto, a pesquisa do MCTI inclui uma amostra representativa de todos os brasileiros com 16 anos ou mais; o Google Trends inclui apenas os brasileiros com acesso à internet (por volta de 74 milhões em março de 2011; sendo em torno de 145 milhões os brasileiros com 15 anos ou mais em 2010) e, claro, que usaram o sistema de buscas da empresa (creio que se aproxime dos 100% dos usuários brasileiros de internet). E a motivação da busca não envolve apenas interesse/afinidade pessoal - as buscas podem se dar (e parece ser bem o caso de termos relacionados às ciências), p.e., para resolução de tarefas escolares e outras necessidades.

Mas as figuras abaixo comparam as buscas por 'ciência' e outros termos.


Para fins de comparação, em 2010, para a pesquisa do MCTI, os brasileiros responderam ter interesse ('muito interessado' ou '' interessado') por (entre parênteses o índice relativo de volume de buscas):
meio ambiente: 83% (3,30);
medicina e saúde: 81% (medicina - 4,40, saúde - 5,50);
religião: 74% (1,10);
economia: 71% (3,90);
ciência e tecnologia: 65% (1 - ciência, 3,50 - tecnologia);
esportes: 62% (16,5);
arte e cultura: 59% (arte - 7,00, cultura - 8,70);
moda: 44% (6,80);
política: 29% (1,40);

O gráfico abaixo plota os dados sobre o interesse declarado contra o volume de buscas sobre os temas. O ponto em vermelho corresponde à C&T (usando um valor médio para o índice de volume de busca entre ciência e tecnologia).


Não há nenhum padrão óbvio. Mas aparentemente valores intermediários de interesse declarado ligam-se a um maior volume de busca. Se esse padrão não for um artefato, uma explicação possível é que temas de grande interesse geram uma saturação de informação, diminuindo a busca ativa por mais detalhes; enquanto temas de baixo interesse não geram motivação para a busca.

Mas digno de nota que todos os temas apresentam um volume de busca maior do que o termo 'ciência' (ou 'ciências'). É de se perguntar se parte significativa do interesse declarado no quesito 'ciência e tecnologia' na pesquisa do MCTI não se refere mais à parte de 'tecnologia'.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nem tudo que doureja é lúzio 3

Um pouco mais da gaiata ciência.
  • Cyr, C. & Lanthier, L. 2007. One giant leap for mankind? A cost-utility of abolishing the law of gravity. (Um estudo sobre o quanto seria economizado em saúde se por uma simples canetada fosse possível diminuir a intensidade do campo gravitacional terrestre. Inspirado por uma proposta galhofa do Neo Rhino Party do Canadá - sim, eles têm o Cacareco deles.) (via @Cardoso)
  • Dickison, M.R. 2009? Paedomorphic flightlessness and taxonomic affinities of a enormous Recent bird of What, if anything, is Big Bird?
  • (Afinal, qual a afinidade taxonômica de Garibaldo (Grandicrocavis viasesamensis)?) (via @john_s_wilkins)

  • Kamp, M.A.; Slotty, P.; Sarikaya-Seiwert,S.; Steiger, H.J. & Hänggi, D. 2011. Traumatic brain injuries in illustrated literature: experience from a series of over 700 head injuries in the Asterix comic books. Acta Neurochir (Wien) 153(6):1351-5. (Uma análise de golpes na cabeça em 34 livros dos valentes gauleses de Goscinny e Uderzo e os fatores de riscos associados à severidade dos traumas.) (via @carlosom71)
  • Hurlber, S.H. 1990. Spatial Distribution of the Montane Unicorn. Oikos 58(3): 257-71. (Populações da fictícia espécie recém-descoberta do unicórnio de Montana - Monoceros montanus - serve como base para uma crítica a respeito dos critérios analíticos usados na caracterização da distribuição espacial de organismos.)
  • Johnsgard, P.A. & Jonsgard, K. 1992. Dragons & Unicorn: A Natural History. St. Martin Press. 76 pp. (Professor emérito em Ciências Biológicas da Universidade de Nebraska em Lincoln, Paul Jonsgard traça no livro toda a história natural - biologia, anatomia, ecologia e evolução - de dragões e unicórnios.)
  • Sandvik, H. & Baerheim, A. 1994. [Does garlic protect against vampires? An experimental study]. Tidsskr Nor Laegeforen 114(30): 3.583-6. (Artigo em norueguês sobre o efeito do alho na ação de sanguessugas, que foram usadas no lugar de vampiros. Infelizmente o tamanho amostral - n = 3 - é bem pequeno.. (via @scienceblogsbr e astropt)

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