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quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Humanas, demasiado Humanas: Nota de Repúdio da Sociedade Brasileira de Sociologia

A Sociedade Brasileira de Sociologia também emitiu nota criticando a postagem de Luis Nassif.

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Nota de Repúdio


A Sociedade Brasileira de Sociologia - SBS - vem, de público, manifestar veemente repúdio ao modo desrespeitoso com o que o jornalista Luis Nassif tratou a pesquisa em sociologia, mediante crítica grosseira e desqualificada ao trabalho do sociólogo e professor Dr. Josimar Jorge Ventura de Morais, da Universidade Federal de Pernambuco.
No último dia 16 do mês corrente, o jornalista publicou em seu blog um artigo com o título "O financiamento da masturbação sociológica pelo CNPq", no qual é posto em xeque, de forma improcedente, o processo de avaliação e financiamento da pesquisa na área de ciências sociais.
A SBS lamenta que assuntos com esse grau de relevância, que dizem respeito à pesquisa e aos métodos de julgamento e avaliação de projetos, sejam tratados de forma preconceituosa, contribuindo para reforçar estereótipos.
A desqualificação, além de abranger uma agência de fomento como o CNPq, reconhecedora da relevância do trabalho sociológico, atinge também consultores e pareceristas, ou seja, os profissionais que possuem o mérito e a autoridade para tecer julgamento sobre os projetos de sua área de competência.
No momento em que a sociologia adquiriu um patamar de legitimidade, sendo reconhecida como ciência dotada de regras e métodos peculiares de investigação, declarações dessa ordem são prova da permanência do obscurantismo e da percepção de que as ciências sociais constituem um campo que não supõe aprendizado e conhecimento especializado.

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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Humanas, demasiado Humanas: Prof. Túlio Velho Barreto

Entrei em contato com os Profs. Drs. Josimar Jorge Ventura Morais e Túlio Augusto Velho Barreto de Araújo. A resposta abaixo (reproduzida na íntegra) foi-me remetida pelo Prof. Túlio Velho Barreto.

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Prezado Roberto Takata,

A propósito do comentário "o financiamento da masturbação sociológica pelo CNPq", postado pelo blogueiro Luis Nassif, sobre o qual você me pediu que escrevesse algo, tenho a dizer o seguinte:
Voltando ao trabalho no último dia 18, após viagem aos Estados Unidos, onde fui participar da mesa-redonda 'Brazil: Soccer and Identity', no XI Congresso Internacional da Brazilian Studies Association (BRASA), realizado na Universidade de Illinois, em Urbana-Champaign – aliás, como único brasileiro convidado da referida mesa –, com o trabalho “Gilberto Freyre's contribution to the‘invention’ of Brazilian nationality: ‘Foot-ball mulato’ and other writings”, fui surpreendido com o seu e-mail tratando de comentário postado pelo blogueiro Luis Nassif na página dele. Como você estava interessado no trabalho citado pelo blogueiro, mas fez referências à violência do comentário postado, não tive como respondê-lo logo, pois não tinha lido o blog, o que, aliás, por falta de absoluto interesse e tempo, jamais o fiz.

Para minha surpresa maior, ao ler o comentário do blogueiro, vi que se tratava, de fato, de despropositado ataque contra o nosso – de Jorge Ventura de Morais e meu – trabalho no campo da Sociologia dos Esportes. Na verdade, o blogueiro cita uma das atuais pesquisas de Jorge Ventura, que possibilita o pagamento de sua bolsa de produtividade, e alguns trechos pinçados de um artigo nosso sobre outra temática, ainda que na área da Sociologia dos Esportes. Frise-se que o artigo em tela resultou de projeto de pesquisa submetido e aprovado pelo CNPq, que o financiou parcialmente, e foi publicado em periódico acadêmico de programa de pós-graduação em Sociologia. Artigo, aliás, que compôs o relatório final da referida pesquisa, igualmente aprovado por comitê científico do CNPq.

Ao ler o comentário e conversar com Jorge Ventura, logo ficou claro que, na verdade, fingindo interesse em discutir o financiamento público de pesquisas na área das Ciências Sociais, tratava-se de retaliação do blogueiro em função de desentendimentos dele com Jorge Ventura, que havia dito, em seu Facebook, que achava “ruim” o blog dele. Infelizmente, muitas pessoas entraram na discussão sem conhecer os trabalhos citados nem as trajetórias acadêmicas de seus autores, e mais: sem conhecer as verdadeiras motivações do blogueiro. Com efeito, os comentários foram apenas ataques pessoais com uma motivação: alguém apontou legítimo desinteresse por um determinado blog. Assim, abusando da confiança e fidelidade que seus leitores depositam nele, o blogueiro agiu como alguns dos veículos de imprensa que fazem 'tabula rasa' da verdade e da reputação das pessoas.

Finalmente, aqui, não vou perder meu tempo, nem fazer com que os leitores de seu blog percam o deles, tratando da validade ou não de determinados objetos de estudos na área das Ciências Sociais. Quanto à Sociologia dos Esportes, para usar uma expressão cara a um clássico como Pierre Bourdieu, já é um campo de pesquisa consagrado mundialmente desde os anos 1960, após os estudos originais e seminais entabulados por Norbert Elias e Eric Dunning, e seus discípulos, sobre o tema. Isso para não citar os estudos anteriores de Johan Huizinga, Anatol Rosenfeld, entre tantos outros. Bem como os estudos acerca do cotidiano, como apontado em 'Nota de Desagravo a Jorge Ventura de Morais do PPGS-UFPE' (acessar: http://miliano.blogspot.com.br/2012/09/nota-de-desagravo-ao-professor-jorge.html, entre outros sítios).

Entretanto, para quem se interessar por nossos trabalhos ou desejar conhecer nossas trajetórias acadêmicas, basta acessar a Plataforma Lattes do CNPq (www.cnpq.br). Dessa forma, ficará sabendo que, criado em 2006, o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Sociologia do Futebol (Nesf), uma colaboração entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), instituição em que trabalho – diferentemente do que escreveu o blogueiro –, já deu origem a trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses, a artigos publicados em livros e periódicos (impressos e eletrônicos) no Brasil, Argentina, México e Inglaterra e a artigos apresentados em eventos acadêmicos nacionais e internacionais (Chile, Colômbia, Inglaterra, Estados Unidos e Argentina). E mais: que, após a criação do Nesf, coordenamos Grupo de Trabalhos em encontros de Ciências Sociais do Norte e Nordeste (Ciso), da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e da Asociación Latinoamericana de Sociología (Alas), promovemos seminários nacionais e internacionais e, finalmente, realizamos várias pesquisas, todas parcialmente financiadas pelo CNPq.

Como se vê, realizar pesquisas na área das Ciências Sociais, qualquer que seja o campo e objeto de estudos, tem um alto custo pessoal e profissional, sobretudo porque é necessário atender aos rigorosos critérios dos comitês científicos das revistas e dos eventos acadêmicos, e das agências de fomento, que nos julgam de forma sistemática e contínua. E, no meu caso, pelo menos, realmente não sobra muito tempo para dar crédito a idiossincrasias de alguns blogueiros, que imaginam que a Internet é terra de ninguém ou o perdido paraíso... Por isso, apenas em respeito ao insistente interesse que você tem demonstrado desde a segunda-feira passada em obter alguma posição minha em relação ao episódio em tela, é que me dispus, uma semana depois, a quebrar o silêncio. Mas fico por aqui. Em definitivo.

Túlio Velho Barreto
Cientista político e pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco
Vice-coordenador do Nesf (UFPE/Fundação Joaquim Nabuco)

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Upideite(25/set/2012): Estou tentando esclarecer com o jornalista Luís Nassif essa questão do desentendimento via Facebook.

Humanas, demasiado Humanas: Nota de Desagravo do Colegiado de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE


Publico abaixo o posicionamento do colegiado de pós-graduação em Sociologia da UFPE em relação às críticas de Luís Nassif ao trabalho dos professores Jorge Ventura Morais e Túlio Araújo. (Mais tarde publicarei texto 

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Nota de Desagravo ao Professor Jorge Ventura de Morais

Com grande estranheza leitores do blog de Luis Nassif defrontaram-se com o texto intitulado “O financiamento da masturbação sociológica pelo CNPq” no último dia 16 do corrente mês. Nele, o autor, mediante o recurso a excertos pinçados e descontextualizados, põe em xeque a relevância do estudo da relação entre o uso da tecnologia e as regras do futebol sob o argumento de sua obviedade, tomando como exemplo os trabalhos do Professor Jorge Ventura de Morais, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco.

Ora, como é sabido, a Sociologia constitui campo de conhecimento que busca compreender a realidade social na sua complexidade – constituição, manutenção, transformação – em especial, processos sociais relativos ao compartilhar significados, valores, símbolos, conhecimento, cultura, tecnologia. Também é sabido que, para tanto, o estudo do cotidiano, em suas diversas dimensões, tem contribuído para fazer avançar o conhecimento sobre a sociedade, bastando mencionar os aportes da Etnometodologia, de Erving Goffman, Aaron Cicourel, dentre muitos outros. Subjacente a todos eles, há a questão das regras que orientam o comportamento coletivo, aspecto que certamente pode ser aprofundado mediante o estudo do futebol como uma das práticas sociais que atrai multidões e que ganhou vida própria, como se revela nos trabalhos de Norbert Elias e Pierre Bourdieu. O autor do texto, além de citar trechos que não mostram o sentido do trabalho criticado em sua inteireza, parece revelar ignorância do campo da sociologia. Demonstra não vislumbrar que os trabalhos do referido professor focalizam temas de enorme importância científica, como as relações entre a tecnologia e as distintas práticas sociais e a relevância das normas e da sua interpretação para o funcionamento das sociedades. Finalmente, na sua estreiteza, o blogueiro não compreende que a produção do conhecimento científico envolve aspectos tanto “puros” quanto “aplicados”.

Não vá o sapateiro além dos seus sapatos.

Colegiado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco
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Upideite(27/09/2012): A Sociedade Brasileira de Sociologia também emitiu nota condenando a postagem de Nassif..

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Como é que é? - "Tornados" de fogo são raros?

A Folha Online manchetou:

Outros sites noticiosos foram na mesma linha

E não apenas no Brasil:

*

"Tornados" ou redemoinhos de fogo são eventos impressionantes, plasticamente belos, e muito perigosos - milhares de pessoas já morreram ao longo do último século por ação direta e indireta do fenômeno.

Seu núcleo é repleto de material combustível (gás e partículas sólidas), enquanto a região externa é relativamente empobrecida. Eles podem contribuir para o alastramento rápido de um incêndio dadas sua dimensão, velocidade e dinâmica. Seu diâmetro pode chegar a 360 m e a altura atingir 1,2 km e se deslocar como um tornado classe F5 da escala Fujita [1] - assim além do próprio poder destrutivo, pode espalhar fagulhas e escombros em chamas, originando novos focos de incêndio ao redor. Sua temperatura interna de combustão também é elevada ao concentrar o fogo, o que pode pôr em ignição material próximo mesmo sem tocá-lo diretamente.**

As condições para sua origem e manutenção em um incêndio são: vorticidade ambiental (geralmente fornecida pelo vento, mas também a rotação da Terra pode ocasionar a vorticidade por efeito Coriolis), mecanismo de concentração (deslocamento vertical de ar - pelo ar aquecido pelo calor do sol ou pelo próprio incêndio ou por uma frente de tempestade). O deslocamento vertical aliado à vorticidade faz com que o torvelinho se estique e, assim, o diâmetro se reduza. A conservação de momento faz com que a redução de diâmetro leve a uma aceleração do movimento rotatório, criando uma redução de pressão, sugando o ar ao redor que traz mais vorticidade, acelerando ainda mais a velocidade de rotação. Isso cria uma estrutura dinâmica relativamente estável que impede que o material no núcleo se disperse com a rotação. [1]

Não são condições muito restritivas, até porque elas podem ser autogeradas - por exemplo, o próprio fogo produz o mecanismo de concentração ao aquecer o ar - e são relativamente ubíquas - como os ventos moderados. E mais, incêndios florestais e campestres são extremamente frequentes: cerca de 150.000 por ano nos EUA; 30.000/ano na Rússia; 130.000/ano no Brasil.

Além disso há vários casos registrados, inclusive na mídia, em diversos pontos do globo (quase sempre acompanhado com o adjetivo 'raro'):
1871, Chicago, EUA. (cidade) [1]
1871, Peshtigo, Wiscosin, EUA. (floresta) [1]
1906, São Francisco, Califórnia, EUA. (cidade) [1]
1923, Tóquio, Japão. (cidade) [1]
1926, San Luis Obispo, Califórnia, EUA. (óleo) [1]
1945, Michoacán, México. (vulcão) [1]
1947-1948, Islândia. (vulcão) [1]
1950-1953, 28 eventos no noroeste da costa do Pacífico, EUA. (floresta) [1]
1954, Ilha Myojin, Japão. (vulcão) [1]
1964, Polo, Santa Barbára, Califórnia. (floresta) [3]**
1965, Hokkaido, Japão. (óleo) [1]
1989, Califórnia, EUA (floresta).
1999, Winnemuca, Nevada, EUA. (floresta) [1]
2000, Hamilton, Montana, EUA. (floresta) [1]
2001, Doyle, Califórnia, EUA. (floresta) [1]
2002, Durango, Colorado, EUA. (floresta) [1]
2003, Califórnia, EUA. (floresta)
2003, Canberra, Austrália. (campo)***
2007, Griffith Park, Los Angeles, EUA. (floresta)
2007, Corona, Califórnia, EUA. (campo)
2008, Brea, Califórnia, EUA. (floresta)
2009, Califórnia, EUA. (campo)
2009, Austrália.(floresta) [2]
2010, Araçatuba-SP, Brasil. (campo)
2010, Havaí, EUA. (floresta)
2011, Budapeste, Hungria. (óleo)
2012?, Stayton, Oregon, EUA. (campo)
2012, Califórnia, EUA. (campo?)
2012, EUA?. (campo)
2013, Tetlin Junction, Alaska, EUA. (floresta)***
2014, San Marcos, Califórnia, EUA. (floresta)***

Esse não é, claro, nem de longe, um levantamento exaustivo, ainda assim parece forçado dizer que seja um fenômeno raro, pior ainda "dos mais raros fenômenos naturais".

Mas não podemos culpar os jornalistas pela conversa da raridade. Artigos técnicos afirmam isso: "Fire whirls are a typically rare but potentially catastrophic form of fire" [1].

**Por outro lado, outros textos dizem o contrário: "Firefighters frequently report that whirlwinds develop in and adjacent to the intensely burning fires." [3] "Fire whirls appear frequently in and around wildland fires.". Em um texto da National Geographic sobre o "tornado" de fogo na Austrália reporta: "Also known as fire whirls, fire devils, or even firenados, these whirlwinds of flame are not really rare, just rarely documented, Jason Forthofer, a mechanical engineer at the U.S. Forest Services's Missoula Fire Sciences Laboratory in Montana, said in 2010." (Provavelmente a NatGeo se refere ao trabalho de Forthofer & Butler 2010 apresentado em uma conferência sobre comportamento de fogo e combustíveis. Forthofer & Goodrick 2011 revisam a dinâmica de formação de torvelinhos verticais e horizontais associados a incêndios.)

De todo modo seria preciso um levantamento mais sistemático dos "tornados" de fogo para se ter uma ideia mais clara de quão realmente raro ou frequente são.

Referências:
[2] Hartl, K.A. & Smits, A. J. 2012.
[3] Countryman, C.M. 1964.**
[4] Countryman, C.M. 1971.**

*Upideite(21/set/2012): acrescentado a esta data.
**Upideite(24/set/2012): acrescentado a esta data.
***Upideite(16/mai/2014): acrescentado a esta data.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Humanas, demasiado Humanas

Eu mesmo tenho lá meus preconceitos com a área das Humanidades e Ciências Humanas e Sociais, mas é um campo do conhecimento que é vítima de muita incompreensão.

Luis Nassif chama bem a atenção para o fato de que é preciso um olhar crítico em relação ao financiamento de pesquisas em Ciências Sociais - e eu ampliaria dizendo que é preciso o mesmo olhar crítico para o financiamento público de todas as áreas: Biológicas e Saúde, Ciências Exatas e da Terra... Nassif, porém, pega desnecessariamente pesado, carregando nas tintas de sua crítica ema um trabalho proposto pelos Profs. Drs. Josimar Jorge Ventura de Morais, da UFPE, e Túlio Augusto Velho Barreto de Araújo da UFPEFundação Joaquim Nabuco: "As regras do futebol e o uso das tecnologias de monitoramento".

Duncan Watts, pesquisador da Microsoft, físico de formação que migrou para o estudo sociológico por meio de análise de redes, frente às propostas de corte de financiamento de estudos em áreas como Ciências Políticas, acredita que essa visão depreciativa das Ciências Sociais se deve a terem como objeto de estudos nós mesmos. Como todas as pessoas têm experiência direta em ser... bem, humano, todo mundo tende a ter uma opinião a respeito do que os cientistas sociais estudam. Uma visão altamente contaminada por subjetividades e o que forma o senso comum - o que as pessoas tomam por bom senso.

É o mesmo espírito que parece ter atacado outra jornalista, Ruth de Aquino, não se restringindo, porém, apenas às Ciências Sociais, mas de todo modo as críticas foram centradas em pesquisas a respeito do ser humano.

O próprio Watts escreveu um livro somente para atacar essa que talvez possamos denominar de "síndrome do desdém ao óbvio": "Tudo é óbvio*. *Desde que você saiba a resposta. (Como o senso comum nos engana.)" (2011. Ed. Paz e Terra, 328 pp.)

Como humano e como cidadão do país do futebolbalípodo, pode parecer óbvio para mim o que pode sair da discussão a respeito das visões e opiniões das pessoas sobre o emprego da tecnologia no futebol. Mas há dimensões para além da análise superficial: p.e. que implicações isso teria a respeito do chamado "jeitinho brasileiro"? teria alguma ligação com a tecnofobia manifestada por uma parte não desprezível da sociedade? da desconfiança de tecnologias de monitoramento como chips em automóveis, bafômetro, pontos eletrônicos?

Nassif ironiza a respeito do "papel do 'juiz ladrão'", mas lhe passa despercebido exatamente o paradoxo: o brasileiro (como a maioria dos cidadãos de outros países) critica as injustiças, então por que parte substancial crê que isso seja defensável no contexto esportivo?

Não me parece que a consideração superficial de um único estudo e de modo tão desrespeitoso seja uma contribuição positiva para a questão da qualidade da pesquisa e do financiamento público.

Obs: Estou tentando contato com os pesquisadores mencionados para uma entrevista.

Upideite(22/set/2012): Nassif volta ao tema em mais duas postagens. Em uma, anuncia que abrirá o blogue dele para a resposta dos pesquisadores (e inclui algumas perguntas); em outra, sobe um comentário que reproduz texto opinativo publicado em outro sítio web, criticando o funcionamento atual da pesquisa em universidades.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sing Along: Challenge Accepted

Há algumas boas músicas de divulgação científica sobre evolução. Tratei de uma aqui (onde também comento sobre o samba-enredo da União da Ilha em 2011).

Mas poucas conhecidas em português. Frente a um clipe antievolucionista postado no YT, @Rafael_RNA, lamentou que tenhamos chegado atrasados.

Tomei isso como desafio e escrevi umas pseudorredondilhas.

Evolua sua cabeça.
Por mais incrível
Que lhe pareça,
Somos só macacos
Sem pelagem espessa.

Evolua seu conhecimento.
Ardi, Australo, habilis, erectus,
Em algum evento,
Deram o ar da graça.
E, com neander, deu casamento.

Evolua sua mente.
São os mesmos ossos
No mico e na gente;
Não se espanta nada,
É nosso parente.

Evolua seu coração.
O lindo chimpanzé
É nosso primo-irmão;
E mais afastados:
Gorila, orango e gibão.

Evolua sua alma.
Preste muita atenção,
Nesta hora muita calma,
Há semelhanças
Nas unhas e na palma.

Evolua o seu ser.
Em nossos DNAs
Podemos ver
De novo a história
Se desenvolver.

Evolua sua pessoa.
Não é por disserem Darwin
e tanta gente boa;
O que importa mesmo
É o que o fato apregoa.

Evolua sua cabeça.
Por mais incrível
Que lhe pareça,
Somos só macacos
Sem pelagem espessa.

Não é a versão definitiva, aceito sugestões para alterações dos versos e estrofes, e também para o título da composição (obviamente "Challenge Accepted" não se encaixa como tal). Se alguém quiser musicar e fazer um video pra subir no YT, podemos combinar.

E, claro, desafio os demais cientófilos a criarem também suas composições infantis com o tema da evolução. (Avisem-me para botar os links para suas criações - epa! - nesta postagem.)

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Forrobodó Universitário: a polêmica do RUF

"To say that dinosaur classification is contentious is like saying that the Atlantic Ocean is a bit damp. The number of different dinosaur classifications operational at any time can be described by the formula
C = (N + A) - 1
where C is the number of classifications, A is the number of amateur paleontologists, and N is the number of dinosaur paleontologists. The '-1' represents the true classification, which we shall never know (part of Durham's law)." (p. 62)
Farlow, J.O. & Brett-Suman, M.K. (eds.) 1997. The Complete Dinosaur. Indiana University Press. 752 pp.


Não falamos aqui de dinossauros (apesar da opinião eventualmente em contrário de alguns), mas de universidades - instituições surgidas entre o fim do século 9 e começo do 10, algumas das pioneiras resistem até hoje (como a Universidade de Al-Azhar, fundada no Cairo em cerca de 970) - e classificações ou rankings.

Já oO hábito de classificação certamente precede em muito as primeiras universidades. Junte a necessidade de categorização dos objetos (como por exemplo, coisas que se pode comer e coisas que não se pode), a necessidade de quantificação (quanto de alimentos foi produzido nesta safra, será o suficiente para sustentar a população?) e o hábito competitivo (razão da existência de tantos esportes) e, presto, eis os rankings: listas ordenadas de acordo com alguma qualidade (normalmente por diferenças quantitativas).

Os rankings invariavelmente vêm acompanhados de polêmicas e contestações. Em boa parte porque a criação de rankings é motivada justamente pela existência de divergência de opiniões sobre quem (ou o quê) é melhor do que quem (ou o quê) - naturalmente o resultado final irá frustrar expectativas.

Então todo ranking é inútil no fim das contas? Não exageremos. Eles são úteis na medida em que deixam suas metodologias transparentes - quem contesta poderá apontar mais objetivamente (ou menos subjetivamente) os pontos de divergência e ainda poderá tentar reproduzir o processo (ou introduzir-lhe modificações) e verificar se resultados similares são obtidos (ou mais próximo do que se esperava). Então qualquer ranking é útil? Não exageremos tampouco por este extremo. Há metodologias inadequadas para os objetivos pretendidos: entrevistar as pessoas em um show promovido pela Gaviões da Fiel para saber qual o time do coração não irá revelar muita coisa sobre qual o clube de preferência dos paulistanos em geral - para um caso menos caricatural, enquetes feitas por internet não têm validade de amostragem estatisticamente justificada para representar, digamos, a população de um país.

A quizila e quizumba da vez é o resultado do Ranking Universitário Folha. Menos no aspecto geral - que bate com o amplo consenso que as IES públicas são, em geral, muito melhores do que as congêneres privadas - do que em alguns detalhes. Um em específico. A avaliação da Unicamp no quesito 'mercado', em comparação, por exemplo, com a Unip. Leandro Tessler, em seu Cultura Científica, explicitou sua divergência. Outros, como o Dr. Tufi Soares, creem que deva haver alteração no modo de avaliação do quesito 'ensino'.

É possível que seja necessário algum refinamento na metodologia - o que, em geral, implica em custos aumentados na obtenção dos resultados; porém, não me parece que seja o caso de explodir ou implodir o RUF.

Não encontrei detalhes da validação da metodologia adotada pela Folha. Mas podemos fazer algumas análises de correlação de parâmetros - os usados pela própria Folha e outros obtidos de modo independente.

Tessler questiona: "No entanto, entre as 40 primeiras segundo a Avaliação do Mercado 10 receberam ZERO em Avaliação do Ensino. É razoável supor que o 'mercado' privilegie universidades com um ensino tão mal avaliado? Haveria uma máfia de responsáveis por recursos humanos que de propósito privilegiaria egressos de certas escolas, ainda que de qualidade inferior?"

Há que se observar que o grupo que avaliou o fator 'mercado' (profissionais de RH) é diferente do que avaliou o fator 'ensino' (cientistas de maior produtividade). Os critérios de cada grupo tendem a ser distintos: o segundo grupo tenderá a avaliar a questão do ponto de vista de formação do profissional voltado para a pesquisa; o primeiro grupo, de profissionais voltados para o mercado. Isso invalida a metodologia? Creio que não. Até porque, na verdade, apesar das divergências de critérios (subjetivos dos avaliadores), na *média*, há convergência da avaliação (Fig. 1).*

Figura 1. Correlação entre médias de notas de avaliação do ensino e de avaliação de mercado no RUF. Barra: desvio padrão. Fonte: Folha.

Os avaliadores da qualidade de educação foram rigorosos atribuindo notas 0 para 142 instituições analisadas: 74,35%. Não é de se espantar que entre as 40 mais bem avaliadas pelo mercado haja uma parte com notas 0: 16/40 = 40% (bem menos do que no geral, como não é tampouco de se espantar).

Considerando-se um critério independente de avaliação da qualidade de ensino - a média dos Conceitos Preliminares de Curso no Enade 2010 - também temos uma correlação razoável com a avaliação do critério 'mercado' no RUF (Fig. 2).**

Figura 2. Correlação entre médias de CPC - Enade 2010 - e avaliação do mercado pelo RUF 2012. Fontes: Folha e Inep.

Os rankings internacionais que inspiraram a metodologia adotada no RUF tampouco são livres de polêmicas.

A minha visão é que se deve ter uma leitura menos a ferro e a fogo dos rankings. Nenhum (ou quase nenhum) traz, por exemplo, valores de desvio padrão das medidas adotadas. Como a teoria do erro nos garante (e a prática mais ainda), toda medida importa algum erro. Então se se está em 2o ou 5o lugar - ainda mais com um diferença de apenas 5,48 pontos em 100 possíveis (sendo o desvio padrão de 20,99 - atenção: como os valores não têm distribuição normal [vide abaixo], não são aplicáveis boa parte dos testes estatísticos para se avaliar as diferenças***) - não quer dizer que haja realmente uma diferença significativa entre as IES. Desse modo, avaliação de medidas individuais - como se esta ou aquela universidade está nesta ou naquela posição - são menos informativas. Análises menos problemáticas são avaliação em relação a *grupos*: como privadas vs. públicas (24,47±15,01 vs. 42,02±23,36), do Sudeste vs. de outras regiões (33,62±23,62 vs. 33,84±20,27); ou um exame de séries históricas - no caso do RUF, obviamente isso ainda não é possível. Para avaliação de IES individuais convém também comparar entre os diferentes rankings.

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As notas não estão calibradas de modo a se obter uma distribuição normal (Fig. 3)

Figura 3. Distribuição das classes de notas do RUF. (Teste Shapiro-Wilk, W = 0,955, p < 0,001.) Folha.

.

Não há necessidade de que notas tenham uma distribuição normal, mas isso permitiria algumas análises estatísticas interessantes - como a mencionada análise estatística da significância das diferenças das notas***.
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Confesso que tenho uma certa coceira de criar um ranking de rankings - classificados, por exemplo, pelo número de citações em certos tipos de documentos.

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*Obs. Listando-se pela classificação geral RUF e fazendo-se a média de grupos de 10 em 10 para as notas de critérios de ensino e mercado. Menos para o último grupo, com 11 elementos - os últimos do ranking.
**Obs2. As IES foram listadas por ordem crescente dos valores de CPCs e foram tomadas as médias em grupos de 10 e 10 instituições. Exceto o grupo de 6 mais bem avaliadas pelo critério de CPC.

Abaixo relacionarei postagens de blogues analisando o RUF (se souberem de outros, por favor, avisem-me nos comentários):
Devaneios Docentes: Ranking Universitário
Hum Historiador: Rankings universitários e sua manipulação para fins propagandísticos
Arcos (Henrique Araújo Costa): Sobre o ranking de universidades da Folha
Observatório da Imprensa (Sylvia Moretzsohn): Sobre universidades, campeonatos e reportagem
Observatório da Imprensa (João de Abreu): Celebração da pesquisa a quilo

Upideite(08/set/2012): Por sugestão do Prof. Tessler nos comentários, fiz um exame um pouco mais detido (mas ainda assim um tanto superficial), da componente 'ensino'. De fato, a componente 'ensino' do RUF não apresentou correlação maior com o CPC do Enade. Mas, ao contrário do suposto, parece não se dever ao fato do CPC ser influenciado pelo fator pesquisa, e, sim, pelo fator *'ensino' do RUF* estar mais correlacionado a questões referentes à pesquisa e menos ao ensino em si.

Na Fig. 4, correlação entre as notas de ensino atribuídas pelo painel de pesquisadores consultados pelo RUF e componentes do Enade. As instituições foram ordenadas de acordo com a nota de critério 'ensino' do RUF e tomada as médias dos valores das componentes. A classe de média 0 de 'ensino' contém 130 IES, a classe de média mais alta, 8 IES; as demais classes são formadas por 10 IES.

Figura 4. Correlação entre notas de 'ensino' do RUF e algumas componentes do Enade 2010. Eixo horizontal: média de nota de 'ensino RUF', vertical, valores das componentes do Enade. Fontes: Folha e Inep.


Há alguma correlação entre o 'ensino' do RUF e elementos como proporção de mestres e doutores e a nota de regime de dedicação exclusiva avaliados pelo Inep. Mas não em relação ao desempenho dos alunos (nota dos ingressantes, dos concluintes, diferença de desempenho), infraestrutura e componente pedagógico. Aparentemente, a nota dada pelo painel de especialistas no critério 'ensino' reflete mais a qualidade do corpo docente do que outros fatores relacionados à qualidade do ensino.

Um ponto que sugeriria para análise mais detida na metodologia do RUF seria justamente essa componente 'ensino'.

Não está mostrada na figura, mas há alguma correlação entre a componente 'ensino' e as componentes 'pesquisa' e 'inovação' - o que não é de todo surpreendente. Não por outra coisa, a componente 'pesquisa' foi avaliado pelo mesmo painel e inovação está bastante ligada à pesquisa (de fato, a correlação é quase 100% - Fig. 5 - que, no fundo, o critério 'inovação' é redundante ao de 'pesquisa').

Uma sugestão que faço é uma análise de correlação multifatorial para a determinação dos pesos dos componentes para evitar a redundância.

Figura 5. Correlação das componentes 'pesquisa' e 'inovação' do RUF. Fonte: Folha.

***Upideite(09/set/2012): adido a esta data.

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