PESQUISA

Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

sábado, 27 de outubro de 2012

Entrevista com uma doutoranda - Gabriela Sobral

Gabriela Sobral**** é doutoranda em Biologia pelo Museum für Naturkunde na Alemanha. Ela desenvolve pesquisa sobre a evolução da audição em grupos basais* de arcossauromorfos (grupo que inclui aves e demais dinossauros, crocodilos, pterossauros, e membros menos conhecidos, além de, possivelmente, tartarugas**).

Recentemente, junto com colaboradores, publicou um trabalho com análise do sistema auditivo de um dinossauro usando tomografia computadorizada. Mas ultimamente têm enfrentado um problema seriíssimo: atraso do pagamento da bolsa Capes.

Abaixo, segue a entrevista concedida ao GR, em que Gabi relata o problema que tem atingindo vários pesquisadores brasileiros.

------------------------------------
GR. Você fez Ciências Biológicas no Rio (UFRJ) e mestrado em Biologia Comparada/Paleontologia em Ribeirão-SP (USP). Como foi parar na Alemanha em seu doutorado? Como está o encaminhamento do seu projeto?

Gabriela Sobral. Desde cedo eu tinha planos de passar parte da minha formação acadêmica no exterior e, ainda adolescente, procurei bolsas de estudo de graduação, mas a oferta era muito pequena. Quando cheguei perto mestrado e procurei saber, idem - a maior parte do subsídio financeiro sempre pareceu ser mais farta para o doutorado. Então quando eu participei pela primeira vez do encontro anual da Society of Vertebrate Paleontology em 2008 (um dos mais importantes encontros em paleontologia de vertebrados) eu já tinha em mente conversar com professores e pesquisadores de outras instituições. Mas como eu vim parar aqui foi totalmente ao acaso. Durante a apresentação do meu pôster, conversei com um professor de Munique sobre a minha pesquisa, que envolvia um grupo pouco estudado de arcosauromorfos basais chamado genericamente de prolacertiformes (atualmente sabe-se que são parafiléticos). Esse professor me perguntou se eu teria interesse em continuar estudando esse grupo, disse que na Alemanha havia tanto oportunidades de doutorado, como bom acesso aos materiais e me mostrou o site do DAAD (que eu já conhecia por uma amiga, que iria em poucos meses fazer sanduíche através desse acordo [NE: Deutscher Akademischer Austausch Dienst, Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão]). Sinceramente, estudar na Alemanha não tinha passado seriamente pela minha cabeça, então, quando voltei ao Brasil, dei mais atenção a um contato em Cambridge que eu havia feito no congresso. Semanas depois do retorno, essa amiga me avisou que havia saído o edital do próximo ano e perguntou se eu iria aplicar. Resolvi tentar também. Liguei para o professor de Munique para amadurecermos a ideia e ele disse que não era especialista na área, que havia dado a ideia por achar interessante, mas que se eu quisesse mesmo, poderia tentar com o professor de Berlin - e me passou os contatos do meu atual orientador, para quem liguei na mesma hora e se mostrou muito empolgado com a idéia. E assim foi. Minha tentativa para Cambridge não se consumou principalmente por falta de verba, já que eu não havia pedido bolsa no Brasil e dependia apenas da bolsa para estrangeiros da universidade, a qual me foi negada.

O meu projeto já está entrando na fase final e, como tudo corre bem próximo ao cronograma, devo entregar minha tese em abril de 2014. Todos os meus relatórios anuais voltaram com muitos elogios ao meu progresso e nunca tive problemas maiores com a CAPES ou nenhum outro órgão. Meu orientador é muito atencioso e cuidadoso, se importa com meu projeto e me incentiva também a procurar projetos paralelos. Empenha-se em me ensinar novas técnicas, oferece-me oportunidades de cursos, colaborações) e sempre discute aberta e sinceramente todas as minhas questões.

GR. Há quanto tempo não estão depositando o valor de sua bolsa Capes? Eles explicaram o motivo? Há previsão de normalização?

GS. Até este trimestre, eu nunca havia tido problemas maiores com o depósito da bolsa, afora no trimestre de abril deste ano, mas imagino que as datas dos feriados de Páscoa no Brasil e na Alemanha tenham contribuído. Nessa ocasião, quando entrei em contato, recebi uma resposta um pouco automática: "como consta no contrato, a bolsa pode levar até o vigésimo dia do primeiro mês do trimestre pra bater". Essa cláusula por si só é um pouco cruel, por que eu acho absurdo que se peça para qualquer ser humano guardar o equivalente a quase um mês de salário porque "devido a trâmites internacionais" o pagamento "pode atrasar". É impraticável. A ordem de pagamento não pode ser feita antes?

De todo modo, quando recebi essa resposta em abril me perguntei se, quando questionados sobre o assunto, os funcionários realmente verificavam se havia um problema e, em caso negativo, mencionavam a lentidão da transação, ou se era apenas uma resposta automática mesmo. Quanto tempo até perceberem que houve um erro? E o que acontece quando há um erro? Eu não sabia... mas agora eu sei. Quer dizer, sei mais ou menos. Apesar de não ter contactado a Capes desta vez acerca do atraso (por dois motivos: primeiro que eu estava no encontro anual da SVP nos Estados Unidos; segundo porque vi no site que a ordem de pagamento tinha sido enviada apenas em primeiro de outubro - aproximadamente 10 dias depois do normal - e pensei logo na greve), eu nunca fui avisada de que houve um erro. Nunca me ligaram, nem me escreveram. E da primeira vez que eu liguei, também não havia prazo de quando as bolsas seriam depositadas. Quando liguei da segunda vez pedindo um contato no Banco do Brasil, a resposta foi que não se sabia a quem perguntar e que havia chegado a informação de que a previsão seria na semana que vem. Ou seja: em novembro já!

GR. Como a falta da bolsa está afetando seu dia-a-dia e suas pesquisas? Como você está se virando nesse meio tempo com suas despesas?

GS. Isso ainda não está afetando diretamente meu trabalho, mas certamente está afetando meu psicológico e o meu dia a dia. Voltei dos Estados Unidos resfriada e a gripe não melhora. Nos últimos dias tenho tido insônia e crises de choro, principalmente a cada vez que chega uma conta: o aluguel, o dentista, a luz... E eu simplesmente não tenho dinheiro pra pagar! Já administro minha vida financeira há mais de 5 anos e nunca tive problemas, então essa situação me afeta de maneira particularmente forte. Desde o começo do mês estou no negativo e, no começo, estava sacando dinheiro do meu cartão de crédito, mesmo com altas taxas para tal, para depositar na minha conta corrente e cobrir meus gastos - fora que estava usando o cartão para supermercado e outros. E agora a fatura do cartão vai chegar e eu não tenho como pagar. Tenho economizado aonde dá: cheguei ao absurdo de economizar no supermercado e bom, pelo menos emagreci pouco mais de um quilo. Para viajar para o encontro deste ano da SVP, eu apliquei para uma bolsa de ajuda de custo de US$ 600 da sociedade - e ganhei. Com esse dinheiro paguei meus gastos lá e consegui economizar uns 100 dólares, que se transformaram na minha fonte de renda desde que eu voltei.

Eu cogitei fazer um empréstimo no banco e até meu orientador me ofereceu ajuda. Também cheguei a propor um acordo com o DAAD do Rio, para que o DAAD daqui me depositasse se não o valor da bolsa completo, pelo menos mil euros [porque mil euros não é tipo de quantia que eu vou pedir pro meu orientador], mas o diretor do DAAD não aceitou a proposta, disse que era inviável. Inviável é ficar sem receber! Eu conversei com meu locatário e avisei que não poderei pagar até que tudo se normalize - o que alivia porque o aluguel é a maior parte dos meus gastos. Para todo o resto eu tive que pedir para a minha família. Mas daqui a pouco o mês vira e as contas vão começar a chegar de novo e eu não sei se poderei contar com minha família novamente. Eu espero poder repassar todos os custos referentes a esse atraso para a Capes - como por exemplo multas por eventuais atrasos ou a taxa de saque do cartão de crédito etc. Por mais que sejam quantias pequenas, eu não acho justo ter que arcar com isso por um erro que não foi meu.

GR. Sabe de mais algum brasileiro com esse problema, na Alemanha ou em outro lugar?

GS. Acho que quase todos os bolsistas da Alemanha estão sem receber - sei de pelo menos mais duas pessoas na mesma situação. Em outros países eu realmente não sei....

A minha queixa maior com a Capes é no atendimento ao aluno. Em três anos, eu raramente fui respondida de pronto a uma dúvida e em muitas ocasiões tive que ligar para o escritório no Brasil para ser respondida. Dois anos atrás, o parecer do meu relatório anual também atrasou, o que resultou em um estresse desnecessário para o envio de um documento vital para a renovação do meu visto. Mandei emails, que não foram respondidos porque a funcionária estava de férias - e aparentemente ninguém ficou responsável por isso.

São pequenos descuidos que fazem a gente passar um aperto desnecessário. Por exemplo, se tivessem avisado do erro na transação com antecedência, eu teria programado minhas despesas melhor, teria conversado com meu locatário antes... não que eu fosse ficar feliz em saber que não iria receber, mas a demonstração de preocupação faz a diferença - e isso infelizmente a Capes não demonstra muito.
------------------------------------

O que será que a Capes tem a dizer sobre isso? Ainda mais quando agora está - em uma medida louvável - enviando cerca de 100 mil alunos de graduação e pós-graduação ao exterior por meio do Ciência sem Fronteiras.

*Upideite(28/out/2012): corrigido a esta data.
**Upideite(28/out/2012): a opinião de que tartarugas possivelmente sejam arcossauros não é partilhada pela entrevistada (Gabriela Sobral defende diz que a visão predominante entre os paleontologistas de vertebrados é de que seja um lepidossauromorfo).****
***Upideite(28/out/2012): @carloshotta indica um estudo recente com elementos ultraconservados que posiciona as tartarugas no ramo dos arcossauromorfos (como grupo-irmão dos arcossauros).
****Upideite(28qout/2012): alterado a esta data.
Upideite(30/out/2012): Ícaro Gonçalves comenta: "Aos bolsistas desse programa [Ciência sem Fronteiras] aqui na Alemanha, a mesma coisa. Até agora não se sabe de ninguém que tenha recebido as primeiras mensalidades no exterior, do trimestre referente a nov-dez-jan, e a grande maioria se encontra na mesma situação da doutoranda."
Updeite(30/out/2012): Pelo comentário e twitter, Jeferson Arenzon, do Coletivo Ácido Cético, informa que o atraso ocorreu também na França. O pagamento da bolsa foi feito somente hoje. Aparentemente, a justificativa da Capes para o atraso seria o aumento do número de bolsistas - deveria ter havido, então, um aumento correspondente no pessoal para a análise e liberação dos pagamentos.
Upideite(29/nov/2012): Só agora a Capes comunica oficialmente que houve atrasos e o motivo:
"A Capes esclarece que, tendo em vista a implementação de novo sistema, Virtual Private Network (VPN), alguns pagamentos em moedas diferentes do dólar americano não foram devidamente processados dentro do prazo estabelecido. Sendo assim, as equipes técnicas da Capes e do Banco do Brasil encontram-se trabalhando conjuntamente para que os atrasos ocasionados por essa mudança sejam solucionados imediatamente."
(Não, não sei o que a instalação de VPN tem a ver com atraso nas bolsas. Muito menos a espera de *dois* meses para dar tal esclarecimento.)
E só agora a imprensa começa a cobrir o caso.
Upideite(10/jan/2013): A situação continua complicada, reportagem da Folha mostra que pelo menos 25 bolsistas da UEL não recebem deste setembro de 2012. E agora a Capes diz que falta estrutura para gerenciar os pagamentos das bolsas.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Melhorar a ciência brasileira: acabar com bolsistas e criar o cargo de pesquisador?


A neurobióloga Suzana Herculano-Houzel propõe como forma de valorização dos cientistas a extinção de bolsas de pós-graduação e a criação de cargos de pesquisadores contratados pelas fundações privadas de apoio a instituições acadêmicas.

Há um grande mérito de se aventar uma proposta clara e bem objetiva para a melhoria da ciência no Brasil. Acho que merece ser pensado com carinho.

Alguns senões que vejo são:
a) Para uma mesma verba, menos pessoal poderá ser envolvido. A garantia de direitos trabalhistas é, sem dúvida, um ponto importante. Mas isso significa custos - adicional de férias, décimo terceiro, previdência. Mesmo que os valores dos salários dos pesquisadores sejam equivalentes ao das bolsas, no fim, cada pesquisador custará por mês mais do que um bolsista. Dentro do panorama governamental de expansão do número de cientistas no Brasil, isso implicará na necessidade de um aporte de verbas substancialmente maiores.

b) Sou um tanto reticente (estou sendo eufemista, sou muito reticente) quanto à parte de transferência da responsabilidade da contratação pelas fundações privadas. O controle sobre elas é menor, o que significa de um lado, a agilidade percebida por Herculano-Houzel; mas, de outro, abre brechas fortes para malversações - e tivemos um escândalo recente de desvio de verbas por fundações privadas na UnB (escândalo que envolveu o reitor de então).

c) A dissociação de ensino/pesquisa. Ainda que a *instituição* mantenha o trinômio ensino-pesquisa-extensão, a separação das carreiras de docente e pesquisador no âmbito das universidades pode trazer consequências ruins para a parte da docência. Verdade que um bom pesquisador não necessariamente é um bom professor; mas a estrutura universitária (ao menos das IES públicas) não é mesmo voltada ao ensino nos termos de um professor passar didaticamente a matéria ao aluno - funciona bem na base da "seleção natural" - ainda que com resultados. O argumento é que um bom pesquisador, ainda que não seja um bom professor, permite ao aluno estar em contato com a pesquisa de ponta. É verdadeiro isso? Não sei. Seria preciso averiguar melhor.

Infelizmente acho que não terei como atender ao pedido da @ciencianamidia de analisar a proposta com sugestão de melhorias. As "melhorias" que vejo desvirtuariam completamente a proposta de HH: por exemplo, a transferência da responsabilidade do contrato das fundações privadas de volta para a universidade/institutos.

Mas a questão da profissionalização da figura do pesquisador e da meritocracia são pontos de total concordância. Se não me engano é o modelo alemão em que muitos alunos de PhD são contratados como professores e pesquisadores assistentes - ou seja, recebem um salário.

A meritocracia é implementável mesmo dentro do funcionalismo público. É preciso um plano de carreira condizente. As IES estaduais paulistas têm os seus - parece-me que o da USP, mais recentemente implantado, é o mais draconiano: a progressão na carreira (com o correspondente aumento salarial) se dá sob análise da produtividade nos últimos 5 anos.

No plano federal, desde 2002 vinha havendo uma gradativa recomposição salarial dos docentes das IES. O que foi interrompido com a crise de 2008; que acabou redundando em uma longa greve este ano.

Dando também minha cara à tapa, eu apostaria, então, em uma estratégia mix para a valorização devida dos pesquisadores (uma evolução gradual em vez de uma revolução):
1) Recomposição e valorização salarial dos docentes e estruturação de um plano de carreira por meritocracia (sim, uma avenida enorme de discussão sobre quais indicadores de mérito usar: publicações, orientações, desempenho dos alunos, projetos aprovados...);
2) Recomposição e valorização das bolsas de pós-graduação e institucionalização de certos direitos (férias remuneradas, décimo-terceiro, contribuição previdenciária proporcional, seguro saúde);
3) Aumento no investimento público em C&T (incluindo a expansão e estruturação das IES públicas e institutos públicos de pesquisa, e investimentos em P&D de estatais e empresas de capital misto como a Petrobras);
4) Incentivo à pesquisa em empresas e instituições privadas (linhas facilitadas de crédito, mas sem empréstimos a fundo perdido, participação governamental nas patentes: riscos e ganhos compartilhados; isso inclui parcerias público-privadas);
5) Melhora na governança e gestão das IES públicas e institutos públicos de pesquisa e dos investimentos públicos em C&T.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

"Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza": E a ciência com isso? - parte 2

Na postagem anterior, argumentei que, do ponto de vista de produção de riqueza e recursos suficientes para erradicar a pobreza dentro de um quadro ambientalmente sustentável, as Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI), entendidas no âmbito da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) podem ter pouco a contribuir - a simples aplicação de tecnologias já existentes e testadas seria o suficiente.

E sugeri que as CTI, indo além das P&D, têm um papel fundamental a desempenhar no alcance dos objetivos expressos no tema da SNCT2012.

Já se adiantaram nos comentários da postagem precedente: a questão da distribuição igualitária dos recursos soa utópica. Alexandre falando da questão de controle dos níveis de carbono atmosférico: "exigiria uma coesão política internacional que não tem se mostrado real."

É aí que entra o papel das CTI. E é aí que ela diverge da ideia convencional de P&D.

Eli Vieira, em outra postagem (sobre o papel das Ciências Sociais e Humanas): "Como estamos nos comportando como sociedade sob a influência das novas tecnologias da informação? Qual sistema econômico pode melhor atender o que nós prometemos fazer na Constituição? São perguntas difíceis, cujas respostas certamente existem, e é papel dos profissionais das ciências sociais tentar responder."

Talvez seja exagero de minha parte dizer que as CTI como P&D têm pouco a contribuir (novas e melhores linhagens de cultivares e raças de criação, tecnologias mais eficientes e menos poluentes...), mas as CTI como produtoras de tecnologias sociais têm um papel mais importante.

Certamente distribuir equitativamente a riqueza é uma utopia, mas o fato é que ela só precisa ser marginalmente mais bem distribuída para se erradicar a pobreza (dentro dos limites de 'pobreza extrema' com que se trabalha nos programas como da ONU e do governo federal).

Programas de transferência de renda são um tipo de tecnologia social - não exatamente nova na concepção, mas relativamente nova na sua aplicação massiva -, são também tecnologias sociais mudanças culturais no modo como nos relacionamos, nos hábitos de consumo, alterações na ordenança institucional e legal de modo a torná-las mais condizentes com os objetivos.

Para isso é preciso ainda entender que, de um lado, uma dicotomia do tipo: desenvolvimento x preservação ambiental é improdutiva; de outro, é preciso rechaçar também interpretações marotas de preservação ambiental (só para citar um exemplo, "parques" lineares) que facilitam a exploração econômica e inflam artificialmente parâmetros de conservação (como total de áreas "preservadas") e as falácias mais diversas que abriram os flancos para o ataque promovido sobre a legislação do Código Florestal em nome de uma "segurança jurídica" e de uma "segurança alimentar" que mais bem se traduzem por "segurança do capital" (atente-se para o fato de que não há uma valoração negativa do termo "capital" aqui, apenas a condenação da distorção de um termo para disfarçar outras intenções).

É papel das ciências - no sentido ampliado e aqui usado, que inclui as ciências sociais e humanas - equacionar a questão. Não é factível esperar que um dia desenvolva-se tecnologia milagrosa que permita as pessoas a tocarem suas vidas do modo como sempre tocaram sem as consequências danosas às dimensões socioeconômica, ambiental e institucional. Pode ser que ela se desenvolva, mas seria deixar o futuro largado somente ao lance de sorte. (A serendipidade pode ser colocada na equação, mas somente considerando-se uma taxa dentro de um prazo, prazo que não necessariamente temos.) Por outro lado, é pouco razoável esperar que as pessoas mudem drasticamente seus hábitos e abdiquem completamente de conforto material (sua manutenção ou aspiração a ele).

Seria pretensão demasiada querer apontar aqui qual a equação final, mas certamente um termo de compromisso com novas tecnologias - materiais e sociais - que facilitem mudanças de hábitos. Há precedentes limitados: no Brasil, a população respondeu bem por um tempo à necessidade de restrição do consumo de energia elétrica em função do gargalo da capacidade instalada em fins de 19982000; programas de controle de emissão de poluentes levaram à produção de motores mais eficientes com menor consumo de combustíveis e menor liberação de material particulado; uma moratória internacional de caça às baleias foi acordada (ainda que com burla de países como o Japão e a Noruega e a crescente pressão desses mesmos países em suspender a moratória); uma área internacional de exclusão econômica pôde ser demarcada em torno do continente antárctico; esforços internacionais permitiram a erradicação da varíola e controle de várias doenças humanas, animais e de plantas de interesse econômico.

Mesmo nessa versão expandida de ciências e tecnologia, elas têm limites. O principal é que a aplicação das tecnologias existentes, os esforços no desenvolvimento de novas, depende de haver um valor partilhado de compromisso com esses objetivos. O quão compromissados os líderes estão com os valores do documento "The Future We Want" e tais valores estão arraigados na mecânica política dos países é algo a ser determinado - que passem ao largo em debates políticos presidenciais é um indicativo negativo, porém.

Assim, uma outra expansão de sentido é necessária, incluindo nas CTI a política, não como política científica, mas (e já vejo aqui narizes sendo retorcidos e ouço fungadas de reprovação) a política como ciência (não, é bom deixar claro, no sentido da tecnocracia estrita, mas sim da orientação da formulação de políticas públicas a partir do que se conhece em ciências - incluindo as ciências sociais).

Upideite(17/out/2012): Parte dessas novas tecnologias sociais passa pela mudança da abordagem da questão (o que é, em si mesma, uma tecnologia social). Comentei acima que a dicotomia desenvolvimento x preservação é improdutiva. Um exemplo que ilustra a modificação da abordagem para uma explicitação de como o desenvolvimento depende da preservação ambiental é da International Conservation. Os serviços ambientais para a real segurança alimentar (qual seja, não apenas a garantia de lucratividade dos grandes produtores, mas sim a produção sustentável de alimentos de qualidade nutricional adequada e biológica e quimicamente seguros para a população a um preço acessível) devem ser enfatizados: polinização, fonte de água potável, proteção contra a erosão, controle de pragas... isso tudo e muito, muito mais é o que oferece uma floresta saudável em pé. (Link via @luizbento.)

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

"Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza": E a ciência com isso?

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2012 tem como tema "Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza".

Qual o papel a ser desempenhado pelas Ciência, Tecnologia e Inovação (CTI) na busca pela sustentabilidade, de uma economia verde e da erradicação da pobreza?

Quando se pensa em CTI, muitas vezes associamos com outra sigla: P&D (Pesquisa e Desenvolvimento). Desenvolvimento de novas tecnologias através da aplicação de conhecimento científico adquirido por meio de pesquisa.

Nesse sentido, é possível que as CTI tenham pouco a ver com a solução dessas questões. Por um motivo muito simples: não é necessário o desenvolvimento de *novos* projetos e tecnologias para acabar com a miséria e se atingir um sociedade sustentável baseada em economia ecologicamente correta e socialmente inclusiva.

Segundo levantamento do Banco Mundial, em 2011, em valores correntes, o mundo produziu US$ 69.993.693.036.451, quase 70 trilhões de dólares americanos. Segundo as Nações Unidas, em 2011, a população mundial deveria ser de 7.084.322.000 habitantes. O que corresponde a um PMB (produto mundial bruto) de US$ 9.880,08 anuais per capita ou pouco mais de US$ 820/mês (R$ 1.665/mês)  ou cerca de US$ 27/dia para cada pessoa. Não é muita coisa. Mas é muito mais do que ganham os miseráveis na definição da ONU e dos projetos sociais governamentais brasileiros (veja postagem anterior). Na verdade, está acima da faixa que o governo brasileiro define como Nova Classe Média, e, combinada em uma família de 3 pessoas, atinge a faixa B1 do Critério Brasil de Classificação Econômica.

Em temos alimentares, segundo a FAO, em 2010, o mundo produziu 2.744.973.554.000 kg de alimentos amiláceos (arroz, trigo, milho, batata e mandioca), pouco menos de 3 trilhões de kg. O que dá 387,5 kg de alimentos por ano por pessoa, pouco mais de 1kg de alimentos amiláceos por pessoa (se descontarmos o milho - usado intensamente na ração animal - teremos cerca de 735 g/dia por pessoa). Em termos de proteína animal, em 2010, a produção total (entre carnes, ovos e leites) foi de 1.024.528.037.000 kg ou 144 kg/ano por pessoa ou 392 g diários per capita. Não chega a formar uma dieta equilibrada. Por exemplo, a recomendação mínima de consumo diário para frutas, legumes e verduras é de 400 g/dia - em média para adultos -, mas a produção mundial corresponde a apenas cerca de 100g/dia por pessoa. Mas é o suficiente para suprir as necessidades energéticas e proteicas de todos os habitantes do planeta.

Em tese, não seria necessário gerar mais renda (nem mais alimentos) para os mais pobres. Bastaria distribuir a riqueza já existente. Claro que isso teria outras implicações.

E a sustentabilidade e economia verde? Somente essa distribuição teria, por um lado, um efeito de redução do impacto socioambiental. Nessa faixa de renda, as condições de moradia, saúde e alimentação são, óbvio, muito melhores do que nas condições de moradias improvisadas, sem saneamento básico. Mas não teria um efeito contrário também, já que uma renda mais elevada levaria a um maior consumo de recursos? Sim. Porém, como estamos trabalhando com redistribuição, haveria redução na outra ponta: consumo de superluxo e altamente supérfluos. De todo modo, pelo menos um estudo indica que a redução da desigualdade econômica está associada a um aumento nas emissões de CO2 (outro estudo detecta um padrão em U: em países altamente desiguais, a redução da desigualdade leva a uma diminuição da emissão per capita de CO2, já em países de baixa desigualdade, a redução leva a um aumento da emissão).

Contudo, hoje, já existem tecnologias testadas que reduzem a emissão de CO2 e consumo de matéria prima. Nos EUA, a energia eólica e hidrelétrica já são mais baratas do que a termoelética. A geotérmica também está no mesmo patamar. Um pouco acima, a energia de biomassa e ainda 50% mais cara, a energia solar (mas em tendência de queda no preço). Além da polêmica energia nuclear.

Considere-se ainda a questão da eficiência energética, que pode reduzir a demanda por energia em algo em torno de 30%.

Tudo isso com coisas que já existem e sabemos que funciona. Assim, as CTI são desnecessárias atualmente no contexto da obtenção da erradicação da pobreza com sustentabilidade e economia verde. (Mesmo a expansão da produção de alimentos e da riqueza para atender ao crescimento populacional é possível de ser obtidoa com as tecnologias atualmente existentes.)

Ou será que não? Na próxima postagem discuto outra abordagem a respeito do papel das CTI nessas questões. (Mas precisaremos alargar a visão da sigla para além da P&D.)

Upideite(17/out/2012): Continua.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

"Semana Nacional de Ciência e Tecnologia" segundo o Google

Abaixo o gráfico do volume relativo de buscas no Google sobre a "Semana Nacional de Ciência e Tecnologia" ao longo do tempo.



Nenhuma surpresa. Os picos são no mês de outubro. As buscas são relativamente mais intensas, em ordem decrescente, a partir do Distrito Federal (100), Rio de Janeiro (65), Minas Gerais (45) e São Paulo (17).

Um outro gráfico comparando com a busca por "Halloween" (nota, restringi para busca no Brasil).



A busca por SNCT praticamente desaparece. Idem com "Dia das Crianças" (curiosamente, no Brasil, busca-se mais por "halloween" do que por "dia das crianças").



Mais um, comparando com "Dia Mundial da Alimentação"



Ainda que sem dados para substanciar, apostaria que a busca pelo Dia Mundial da Alimentação seja induzida por trabalhos escolares (bem como sobre a SNCT). Repito, é só um chute.

As mesmas observações que fiz antes sobre a extrapolação desses dados para a população em geral valem aqui. Porém, o que é óbvio é que há ainda muito espaço para se trabalhar na divulgação da SNCT.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2012

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia foi instituída por meio de um decreto presidencial de 9 de junho de 2004, sendo comemorada todos os anos no mês de outubro e é coordenada pelo MCTI. [Por que não coincide com o Dia Nacional da Ciência (8 de julho, instituído pela Lei Federal 10.221/2001), não sei dizer.]

As edições anteriores foram:
SNCT 2011: 17 a 23/out "As mudanças climáticas, desastres naturais e prevenção de riscos"
SNCT2010: 17 a 24/out "Ciência para o desenvolvimento sustentável"
SNCT2009: 19 a 25/out "Ciência no Brasil"
SNCT2008: 20 a 26/out "Evolução e diversidade"
SNCT2007: 1 a 7/out "Terra!"
SNCT2006: 16 a 23/out "Criatividade e inovação" (Portaria MCT 212/2006)
SNCT2005: 3 a 9/out "Brasil, olhe para a água" (Portaria MCT 154/2005)
SNCT2004: 15 a 21/out tema? (Portaria MCT 352/2004)

Figura 1. Evolução da participação na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

A deste ano tem como tema: "Sustentabilidade, economia verde e erradicação da pobreza". (Tema também da Rio+20.)

------------
Pelo relatório da Comissão Bruntland de 1987 "Our Common Future" o desenvolvimento sustentável define-se como:
"15. In essence, sustainable development is a process of change in which the exploitation of resources, the direction of investments, the orientation of technological development; and institutional change are all in harmony and enhance both current and future potential to meet human needs and aspirations."
["Em essência, o desenvolvimento sustentável é um processo de mudança na qual a exploração de recursos, a direção dos investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e mudança institucional estão todas em harmonia e aumenta o potencial tanto corrente quanto futuro de atender às necessidades e aspirações humanas."]

O PNUD define situação de extrema pobreza como a sobrevivência com uma renda inferior a US$ 1,25 por dia. O Bolsa Família é voltado para os brasileiros em situação de extrema pobreza. Atualmente, podem receber quem tem uma renda (per capita) de R$ 70 mensais. A Secretaria de Assuntos Estratégicos, através da Comissão para Definição da Classe Média no Brasil, define-se situação de pobreza  acomo percepção de renda per capita inferior a R$ 291 mensais.

O conceito mais polêmico é o de 'economia verde'. Tão polêmico que não foi possível uma definição de consenso na versão final do documento da Rio+20: "The Future We Want". O PNUMA define como:
"improved human well-being and social equity, while significantly reducing environmental risks and ecological scarcities. In its simplest expression, a green economy is low-carbon, resource efficient, and socially inclusive."
["bem estar humano e equidade social melhorados, com redução significativa dos riscos ambientais e escassez ecológica. Expresso de modo mais simples, uma economia verde é de baixo-carbono, eficiente no uso de recurso e socialmente inclusiva."]

Mas o que ciência e tecnologia têm a ver com isso? Pode ter tudo a ver ou muito pouco a contribuir, a depender do conceito de ciências. Discutirei isso em outra postagem.

Upideite(16/out/2012): Continua.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Cadê o MCTI nas redes sociais?

Do dia 15 a 21 de outubro será a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (este ano com o tema de Sustentabilidade, Economia Verde e Erradicação da Pobreza) promovido pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação.

No hotsite do evento estão cadastradas as atividades comemorativas que devem ocorrer (algumas já em curso) em todo o país.

Mas uma coisa de que sinto falta é ação do MCTI nas redes sociais. Eles até têm um perfil no twitter @MTCI_Inova*, mas que parece, ao menos por enquanto, resumir-se a mais uma via única de informação oficial, sem se aproveitar da interação possível. Eles poderiam, por exemplo, promover uma blogagem coletiva com a temática da SNCT.***

Temos uma rede empolgada de cientófilos brasileiros. Pelo menos um condomínio bem estruturado de blogues sobre ciências (Scienceblogs Brasil) e um projeto de levantamento de blogues de ciências, vários perfis no twitter (entre alunos, pesquisadores e jornalistas de ciências), divulgadores bem conhecidos do brasileiro, como Drauzio Varella, Mayana Zatz e Marcelo Gleiser (entre outros); agências de fomento: Fapesp, Faperj, CNPq, etc e sociedades científicas: SBPC, ABC e outras. Sem falar nas universidades e centros de pesquisa.

Vários órgão de governo como o Ministério da Cultura e da Saúde marcam presença nas mídias sociais. E o próprio MCTI fala em investir meio bilhão de reais em TI.

Por que, então, essa ausência? Alô, alô, ministro Raupp; alô, alô, DEPDI.

*Obs. A ação é tão tímida que, iniciei esta postagem achando que o MCTI não tinha perfil no twitter (nem consta no sítio web do ministério**) e só encontrei por acaso no Google procurando pelo perfil do ministro Raupp.

**Upideite(04/out/2012): Na verdade consta, sim. Mas fica bem escondido na parte debaixo da página inicial - e ainda em banner de cor verde, não típica do twitter. De todo modo, erro meu em não observar.

***Upideite(04/out/2012): Eles irão analisar a proposta de blogagem coletiva. E com isso quebram minha impressão inicial de perfil sem interação. Bom estar errado assim : )

****Upideite(04/out/2012): O perfil do MCTI no Facebook.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails