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quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Gene Repórter Ano 6



Hoje*, faz 5 anos da primeira postagem no GR.

Quem quiser concorrer a um exemplar de "Pura Picaretagem" de Daniel Bezerra e Carlos Orsi - com autógrafo deste-, tem até a meia noite (hora de Brasília) de hoje para responder à pesquisa Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia (não se esqueça de usar o código "genereporter" no campo correspondente).**

Nestes últmos 12 meses, o GR recebeu mais de 65 mil visitas - um recorde doméstico. (Obrigado a todos os leitores - mesmo os que só passaram e saíram imediatamente -!)

O GR - juntamente com outros blogues de ciências - foi analisado em:
Oliveira, SM. 2013. Ciência, mídia, estado e sociedade: o discurso de divulgação científica na Internet. Rev. cienti. ci. em curso. v. 1 n. 2.

É o segundo trabalho acadêmico a citar o GR, e o primeiro a analisá-lo - ainda que apenas um trecho. O trabalho procurou estudar, como o nome indica, o discurso de DC, no contexto da gripe A pandêmica de 2009. A autora conclui que os blogues se resumem a praticamente copiar e colar o que é encontrado em outras fontes. Discordo amplamente da conclusão, claro.

A autora diz ainda: "A primeira coisa a observar é que a palavra 'divulgação' não aparece nos blogs selecionados." Considerando-se que a pandemia foi declarada pela OMS como tendo início em 11/jun/2009 e término em 10/ago/2009, para o GR, a afirmação é tecnicamente correta, mas a primeira menção ao termo ocorre já na primeira postagem; a última menção *antes* do período pandêmico é de 13/mai/2009 - pouco mais de um mês antes da pandemia - e a primeira *depois* é de 27/ago/2009 - pouco mais de duas semanas após a pandemia. E a série específica que discute as bases da divulgação científica se inicia em 10/set/2009.

Obviamente por gripe - ainda mais a pandêmica de 2009 - não ter sido meu objeto de estudo, não poderia dar nenhuma informação que não a disponível a partir dos estudos de quem trabalhava com isso. Mas isso é longe de ser um mero "copia e cola".

Em primeiro lugar, despreza todo o trabalho de garimpagem das informações e do retrabalhamento. Só por isso o "copia e cola" seria altamente ofensivo, além de ser uma acusação de plágio. Em segundo lugar, insinua uma visão acrítica em relação às fontes.

Quando julguei que era o caso, uma crítica foi feita, p.e., sobre a alteração do modo de cálculo:
"No Brasil, são, hoje, 45 mortes confirmadas, em 1.566 casos confirmados: 2,87% ou 287 mortes a cada 10 mil casos.

Seria leviano se eu dissesse que foi por isso que o MS adotou uma nova fórmula de cálculo. Distinguindo letalidade, calculada pela divisão do número de óbitos pelo número de casos *graves*, da mortalidade, calculada pela divisão do número de óbitos pelo número de *habitantes*. Tem, aparentemente, anuência da OMS, mas isso tem um potencial de gerar uma distorção mais séria.

No momento, segundo dados do MS, 14,2% dos pacientes diagnosticados com a gripe A(H1N1) desenvolveram um quadro considerado moderado a grave (com sintomas além da febre e da tosse), e 17% dos pacientes diagnosticados com a gripe sazonal evoluíram para o mesmo quadro. No entanto, esses números são dinâmicos - dependendo de uma série de fatores, incluindo o quanto a rede médico-hospitalar está preparada para receber os pacientes, qual será a dinâmica do espalhamento da doença, se o clima será mais severo ou menos rigoroso, se haverá grandes engarrafamentos ou não...

No caso, da mortalidade, de um lado, o número de habitantes no país pode acabar achatando demais os números. 0,015 óbitos por 100 mil habitantes pode não parecer muito. Uma doença com 1 morte por 100 mil habitantes pode parecer mais assustadora. Mas isso pode não se refletir na letalidade da doença - e que tem a restrição acima mencionada.

Verdade que nenhum número por si só dará o quadro completo, mesmo uma coleção de números pode ser enganosa. Mas quando o sistema de cálculo muda, quando as regras do jogo mudam no meio do caminho, isso pode causar confusão de um lado e desconfiança de outro."

Os gráficos todos da série Mala Influenza baseavam-se em dados oficiais - e quais mais eu usaria? -, mas sua feitura (e feiura, admito) envolvia um trabalho original.

Falo pelo meu trabalho aqui no GR, mas certeza que críticas similares à conclusão injusta da autora podem ser feitas pelos autores dos demais blogues estudados.

O GR é pobre, mas é limpinho.

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*Infelizmente em um dia muito triste. Condolências aos familiares das vítimas.

**Upideite(28/nov/2013): Tivemos 63 concorrentes - que preencheram o campo de código com a palavra promocional - e o sorteio foi realizado. O ganhador já foi contatado por email para manifestar o interesse. Caso não haja resposta dentro de uma semana (7 dias corridos), um novo sorteio será realizado.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Recadinhos pré-níver

Quarta-feira: 27 de novembro, o GR faz seu 5o aniversário. Quem quiser concorrer a um brinde, tem até lá para responder à pesquisa Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia - mas tem que usar o código "genereporter" no campo correspondente.

O prêmio será o livro "Pura Picaretagem" de autoria do físico Daniel Bezerra e do jornalista Carlos Orsi - o exemplar será autografado pelo segundo autor. (Se o ganhador já tiver o título, poderá trocar por outra obra de Orsi: "O Livro dos Milagres" - mas sem garantia de autógrafo.)
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Aproveitando uma discussão iniciada por Mauro Rebelo no Você que é Biólogo, criei um grupo no Facebook para servir de base para a futura criação de uma Rede Nacional de Professores Pesquisadores - uma rede para gerar dados para fundamentar uma "Educação Baseada em Evidências". Testar, na prática, as diversas propostas de metodologias educacionais e ver o que funciona e o que não funciona. A espinha dorsal serão professores que dão aulas (na rede pública e particular) no ensino básico e superior. É uma ideia que nutro há algum tempo, vamos ver se funciona.
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Vocês já devem ter visto, mas os Scienceblogs Brasil estão com um concurso: "Explique sua tese para a vovó!". As três melhores transposições de títulos herméticos de teses e artigos para o registro coditiano concorrem a um exemplar do acima mencionado "O Livro dos Milagres". Vale só para pesquisadores e estudantes (de graduação ou pós-graduação) que tenham um TCC, dissertação, tese ou artigo.
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Já estão acompanhando os agregadores de blogues de ciências: Bolsão de Blogs, do Rubens Pazza, e o Periódico, do Filipe Saraiva?
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Pessoal da turma de 2013 do curso de Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp fez um vídeo para o Festival do Minuto Ciência (votem lá):
(Produzido por: Ana Paula Zeguetto Alves, Cassiana Purcino Perez, Fabiano Pereira, Fernanda Domiciniano, Janaina Quiterio, Juliana Passos, Keila Baraldi Knobel e Roberto Takata.)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Desmatamento na Amazônia aumentou 28% depois do Novo Código Florestal. O que isso quer dizer?

Provavelmente não muita coisa.

O desmatamento na Amazônia Legal Brasileira, felizmente vem caindo desde 2002há uns 10 anos segundo levantamentos do Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica por Satélites (Prodes) do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais - erroneamente chamado de Instituto Nacional de Pesquisa e Estatística pela reportagem da EBC - Figura 1).

Figura 1. EBC erra de Inpe.

Desde 2004, as taxas anuais de desmatamento vêm caindo (Figura 2).

Figura 2. Variação da taxa anual de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira. Fonte: Prodes/Inpe.

Fazendo uma regressão exponencial com os dados desde 2003, obtemos uma curva de muito bom ajuste (R2=0,94) (Figura 3).

Figura 3. Curva de regressão exponencial para variação do desmatamento amazônico desde 2003.

Fazendo um teste Z para o resíduo (diferença absoluta entre o valor previsto pela curva e o valor real) de 2013 em relação aos resíduos dos anos anteriores, temos que não há uma diferença significativa: p = 0,42. Se eliminarmos o resíduo de 2004 (o maior da série), ainda assim a diferença não é significativa p < 0,95 (p=0,946).

*Fazendo um teste t para os resíduos, o valor crítico para α=0,05, unicaudal, com ν=9, é de 1,833. Para os dados de 2003 a 2012 contra 2013, t = 0,21; ignorando-se 2004, t=1,61. Não se rejeita em nenhum dos casos que o valor de 2013 esteja dentro do esperado na curva de redução do desmatamento.

Uma interpretação possível, então, é que a variação está dentro da normalidade dos últimos anos. Os 28% de aumento não podem ser atribuídos à alteração da norma legal de proteção da cobertura vegetal. Não temos, ainda, nem mesmo um indício de que a saudável e saudada tendência de declínio da taxa de desmatamento da região tenha sido interrompida.

Deve-se ter em mente, no entanto, que isso não quer dizer que esteja tudo bem, nem que a fragilidade introduzida pelo Novo Código Florestal não tenha efeito deletério - seja na própria Amazônia, seja nos demais biomas brasileiros. A queda que vem ocorrendo só se dá pela estrita vigilância e ação dos órgãos governamentais com a fiscalização das ONGs e da sociedade civil (além dos avanços das técnicas de produção agrícola que aumentam a produtividade e diminuem a pressão por novas áreas) e mais esforços precisam ser dispendidos para que o desmatamento finalmente caia a zero - e que possa haver até mesmo recuperação das áreas perdidas.

*Upideite(08/dez/2013): Como são relativamente poucos dados, o correto é aplicar o teste t no lugar do Z.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Slow like honey, heavy with mood: Dawkins e o mel. Ou: Imagina na Copa

O biólogo britânico Richard Dawkins narrou em seu twitter sua desventura no aeroporto de Edinburgo por causa de um pote de mel.



Irritado com a galhofa que se seguiu por lá sob a hashtag #honeygate (e compilada pela Rebecca Watson no Skepchick) escreveu um artigo no The Guardian. Não tenho os detalhes do incidente. Pelas regras britânicas, qualquer produto de origem vegetal ou animal (incluindo mel) pode transitar livremente entre os países da União Europeia - mas se tiverem origem em países fora da UE, só por meio de importação controlada e certificada. (Segundo Dawkins, o veto foi pelo frasco exceder o volume permitido.)

No Brasil, também produtos de origem vegetal e animal de procedência estrangeira não podem ser admitidos em território nacional. Somente por meio de importação legal seguindo os trâmites estabelecidos por leis e outros regulamentos. Uma cartilha elaborada pelo Mapa lista uma série de produtos agropecuários vetados:
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Quais produtos agropecuários não podem ingressar no Brasil sem autorização?
• Frutas e hortaliças frescas.
• Insetos, caracóis, bactérias e fungos.
• Flores, plantas ou partes delas.
• Bulbos, sementes, mudas e estacas.
• Animais de companhia, como cães e gatos, pois podem transmitir a raiva, entre outras doenças.
• Aves domésticas e silvestres, pois podem albergar o vírus da influenza (gripe aviária).
• Espécies exóticas, pescados, aves ornamentais e abelhas, pois podem transmitir doenças que não existem no Brasil.
• Carnes de qualquer espécie animal, in natura ou industrializadas (embutidos, presuntos, defumados, salgados, enlatados), pois podem conter agentes infecciosos.
• Leite e produtos lácteos, como queijos, manteiga, doce de leite, iogurtes, pois, além de necessitarem de condições especiais de conservação, ainda podem conter agentes infecciosos.
• Produtos apícolas (mel, cera, própolis etc.) porque podem albergar agentes infecciosos.
• Ovos e derivados, pois também requerem condições especiais de conservação e podem conter agentes infecciosos.
• Pescados e derivados, pela mesma razão anterior.
• Sêmen e embriões, considerados materiais de multiplicação animal, potencializando o risco de disseminação de doenças.
• Produtos biológicos, veterinários (soro, vacinas e medicamentos) requerem registro junto ao MAPA.
• Alimentos para animais (ração, biscoitos para cães e gatos, courinhos de morder) requerem registro junto ao MAPA.
• Terras.
• Madeiras brutas não tratadas.
• Agrotóxicos.
• Material biológico para pesquisa científica, entre outros, como amostras de animais, vegetais ou suas partes e kits para diagnóstico laboratorial.
• Comida servida a bordo.
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Em linhas gerais, todos esses produtos podem ser focos de entrada de agentes infecciosos que causem danos seja à saúde humana, seja à saúde animal, seja à saúde vegetal. Mesmo se for produto da Europa, dos EUA, do Japão e outro locais com fiscalização sanitária rígida? Sim, mesmo desses locais.

Isso porque a legislação sanitária de cada país se adéqua à situação local: se um determinado micro-organismo não causa nenhum problema ali, não há razão para que as regras exijam seu controle. Mas o fato de tal agente não causar um problema em um local, não quer dizer que não possa causar problema em outro. Um micro-organismo, em seu local de origem, pode não causar problemas por diversos fatores: seus hospedeiros estarem adaptados evolutiva ou fisiologicamente, contarem com presença de competidores, parasitas, predadores... que controlem sua população. Fatores que muitas vezes estão ausentes fora dali.

Outro problema é que muitas vezes não é possível se ter controle da origem do produto adquirido pelo passageiro: pode ser que o mel (ou o salame ou o queijo ou o pacote de tremoço, etc.) comprado não tenha passado pelos processos exigidos.

Mais um fator é que, estando o agente presente de modo espalhado no país de origem (e não seja causador de doença humana ou não seja alvo de programas de erradicação ou controle mais rígido - p.e., o país se contenta em manter um certo nível de incidência da doença em plantas ou animais, já que os custos para sua erradicação não compensaria), não faz muito sentido uma norma sanitária de produção e trânsito interno tão rigorosa: a circulação interna do produto não vai causar mais prejuízo do que já ocorre. Outra é a história quando o produto é deslocado para fora do país - ou da área de incidência.

A circulação dentro da UE é mais ou menos livre porque o bloco adota protocolos sanitários uniformes. Vários outros blocos de união comercial e/ou econômica também adotam regulamentos uniformizados. Mas a circulação é restrita se um surto de doença ocorre em um dado local dentro do bloco: por exemplo, quando houve casos de mal da vaca louca em países da União Europeia, os países em que houve detecção da doença não podiam exportar carne para outros países da UE. Até dentro de um mesmo país a circulação é restrita: se há foco de aftosa em um município no Brasil, os animais de lá e sua carne não podem circular para outros municípios.

Sim, pessoas também transportam germes de doenças. Mas é mais complicado restringir a circulação de pessoas - a vinda de turistas é uma grande fonte de receita para muitos países, incluindo o Brasil. A restrição se dá quando a pessoa apresenta sintomas de doenças infecciosa ou têm origem em países com surtos ou onde a doença é endêmica. (Claro, falando de países democráticos.)

Agora pensemos no seguinte. O país deve receber somente este ano algo como 6 milhões de turistas. E, entre Copa do Mundo e Olimpíadas, a projeção é de atrair 10 milhões de estrangeiros por ano. Imagine-se a estrutura necessária para examinar as bagagens não apenas atrás de drogas, armas, valores não declarados... mas também todos os produtos da lista acima. Em 2011, somente nos aeroportos de Guarulhos e de Galeão foram apreendidos, 45,5 e 8,5 toneladas de alimentos e cargas proibidas.

Essa lista pode parecer exagerada. "Como? Comida de bordo? Mas a gente come isso, como pode ser perigoso, fora o fato de ser insosso e custar os olhos da cara?" Pois até 1978, restos de comida de bordo de voos vindo de Portugal e de Espanha eram dados como alimentos para porcos aqui no Brasil. O resultado foi a introdução da peste suína africana por estas paragens - doença que seria erradicada daqui em 1984. O vírus pode ser transportado também por embutidos como salame.

"Ah, mas eu sempre levei e nunca me deu problema." Isso exatamente pelo grande volume de passageiros e bagagens que circulam. Com a estrutura atual é impossível de se vistoriar tudo, é preciso atuar por amostragem. Mas isso significa que a maior parte do volume de carga entra e sai sem ser adequadamente vistoriada. É um perigo real. E provavelmente tem introduzido muitas e muitas doenças humanas, animais e vegetais no país - sem falar nas pragas como a Helicoverpa armigera, de introdução recente (identificadoa pela primeira vez no país no primeiro semestre deste ano), com custo atualmente projetado de US$ 5 bilhões/ano entre gastos com controle e perdas de produção.

O caso específico de Dawkins talvez não se encaixe na questão da barreira sanitária - aparentemente era um voo doméstico e não sei se há atualmente algum problema com o mel escocês -, mas parece ser o mesmo caso de desinformação quanto às regras. Quero dizer, pode até estar ciente quanto às regras em si, mas não quanto as bases das regras. Esse é um problema sério que é mais culpa das autoridades do que dos cidadãos. Nos aeroportos eu recebo folhetos dizendo que não posso transportar tubos de pasta de dentes com volume maior do que 100 ml. Mas por quê? O veto a armas de fogo, venenos, explosivos, material inflamável, objetos perfurocortantes ou capazes de contundir, além de sprays de pimenta, tasers e outros imobilizadores (como fitas adesivas) são de fácil entendimento. Agora, pasta de dente? Isso não é explicado nos folhetos.

Bem, em 6 de outubro de 1976, o voo 455 da Cubana de Aviación, que ia de Barbados à Jamaica, foi interrompido por uma explosão. Todos os passageiros a bordo e a tripulação morreram, totalizando 73 vítimas. Explosivo plástico havia sido colocado dentro de um tubo de pasta de dente.

O problema do mel de Dawkins não era o mel. Explosivos plásticos e líquidos podem ser disfarçados sob praticamente qualquer aparência. Explosivo como o C-4 tem uma densidade energética de cerca de 10 kJ/ml. Um tubo de 100 g é o suficiente para causar um belo estrago. É preciso, então, pesar a segurança contra a comodidade.

O evolucionista melífago não é o único a achar, porém, que há exagero. O economista americano Steven Levitt também considera as precauções excessivas.O biólogo PZMyers, no twitter, também reclama que as medidas de segurança são um absurdo.

Talvez haja um zelo demasiado. Talvez esforços e recursos estejam sendo desperdiçados com uma paranoia. Mas como saber? Bem, podemos acompanhar a evolução dos casos de atentados terroristas a aviões comerciais. Na Figura 1, plotei os casos cumulativos ao longo dos anos de ataques bem sucedidos (em que ocorreu explosão - com ou sem morte) e os casos de tentativas frustradas (em que o plano foi desbaratado a tempo).

Figura 1. Evolução dos casos de atentados terroristas a aviões comerciais. Ataques bem sucedidos: em azul, eixo vertical principal; ataques frustrados: em laranja, eixo vertical secundário. Fontes: Wikipedia e TSA.

As tentativas desbaratadas seguem uma curva exponencial. As tentativas bem sucedidas crescem mais ou menos exponencialmente até o atentado de Lockerbie, Escócia, em 1988; há uma redução no ritmo dos atentados até que, a partir de 2004 ocorre o último caso, um duplo atentado em Moscou. O processo de modificação dos protocolos de segurança é contínuo ao longo da história da segurança da aviação, mas as alterações mais substanciais ocorrem justamente pós-Lockerbie e pós-11 de setembro. Desde 1949, vivemos o mais longo período sem ocorrência de atentados bem sucedidos. Minha interpretação é que atentados continuam a ser planejados - e em número cada vez maior -, mas as medidas de segurança têm evitado que se concretizem em aeronaves despencando dos céus ou realizando pousos de emergência com buracos na fuselagem e passageiros a menos.

Se pegarmos o ritmo dos casos de atentados de 1989 a 2004, algo como 2,34 atentados bem sucedidos foram evitados de lá para cá. Considerando-se uma média de 61,83 mortos por atentado, 144,69 mortes foram evitadas - algo como 16 pessoas deixaram de morrer por ano.

Com cerca de 3 bilhões de passeiros aerotransportados por ano, 16 pode parecer um número pequeno. Por outro lado, será mesmo que abrir mão de um pote de mel, de um tubo maior de pasta de dente, ou ter que passar a bagagem de mão pelo raio-X é um preço tão alto?

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A visão de ciências de Carl Sagan

Reproduzo uma reportagem minha (sim, agora "Gene Repórter" é um nome só meio enganoso - ainda não falo muito de genes...) que saiu no sítio web da Agência Iberoamericana para a Difusão da Ciência e da Tecnologia (DiCYT) - o texto foi produzido originalmente como trabalho na disciplina de Seminários de Ciência e Tecnologia do curso de Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp e reporta palestra feita pelo historiador Danilo Albergaria.

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A visão de ciências de Carl Sagan

O autor defendia a ação do papel autocorretivo da ciência que depuraria as ideias incapazes de explicar adequadamente os fenômenos naturais
Roberto Takata/Labjor/DICYT - No mesmo ano em que um astronauta americano dava um pequeno passo para o homem e um gigantesco salto para a humanidade, simbolizando um dos marcos da era da tecnociência, um anônimo trintenário escrevia um relato – publicado dois anos mais tarde – sobre os efeitos do uso da maconha em sua produção científica. Incidentalmente o autor, denominado “Mr. X”, considerou positiva a influência – adiantando muito do debate que seria travado 30 anos mais tarde sobre os benefícios da Cannabis sativa. Três anos após sua morte, a identidade do polêmico ensaísta foi revelada em uma importante biografia: Carl Sagan: a Life(Keay Davidson, 1999, John Willey & Sons., 512 pp.).

Esse episódio é muito revelador do caráter do astrônomo e divulgador da ciência americano. “Embora necessariamente filtrada por uma rigorosa crítica e pelo exame empírico, seu ponto de partida é a elaboração das mais ousadas, imaginativas e 'loucas' hipóteses”, diz Danilo Nogueira Albergaria Pereira, historiador pela Unimep e mestre em divulgação científica e cultural pelo Labjor-Unicamp.

No dia 25 de agosto, durante a palestra “A visão de ciência propagada por Carl Sagan”, baseada em sua pesquisa de mestrado, Pereira procurou trazer aos alunos do curso de especialização em Jornalismo Científico, do Labjor, a filosofia do apresentador da aclamada série de TV Cosmos sobre a natureza do processo científico que pode ser entrevista em sua vasta obra de divulgação científica.

Pereira desconstrói a imagem de Sagan como um materialista, ateu, antirreligioso. Sim, ele era materialista, talvez ateu – mais provavelmente agnóstico –, mas não antirreligioso. Para o historiador, Sagan tinha, na verdade, uma visão de ciência bastante religiosa: “Sagan dizia que nós [formas de vida inteligente evoluídas da matéria gerada no interior das estrelas] somos a forma que o Universo encontrou para entender a si mesmo. Essa é uma visão metafísica, não exatamente racional que se esperaria de um cientista que fosse um defensor apaixonado da racionalidade científica”.

Essa visão que se tem do cientista como um ateu militante seria derivada de uma leitura equivocada de uma de suas obras mais conhecidas, o livro O mundo assombrado pelos demônios. É verdade que nele o astrônomo combate a irracionalidade e uma série de sistemas de crenças não-científicas: a Nova Era, parapsicologia, óvnis, etc. – e isso, explica Pereira, gerou uma resistência entre religiosos e mesmo em setores acadêmicos anticientíficos. O equívoco também teria sido reforçado pela apropriação da obra por grupos denominados céticos, adotando-a como uma espécie de bíblia.

O historiador observa o caráter matizado da concepção de ciência e de seu papel na sociedade conforme apresentado por Sagan: “Isso que é legal você analisar a fundo um personagem como esse. Você percebe que existe uma série de tensões no próprio pensamento dele, que não é uma coisa quadradinha, preto no branco.”

A obra de divulgação do cientista é também uma expressão de um projeto político. Para Sagan, afirma Pereira, a difusão do conhecimento científico é uma questão de sobrevivência da própria democracia: “Se o público não está munido de uma capacidade de refletir criticamente, e pra isso a ciência seria uma ferramenta que municiaria o público dessa capacidade crítica de separar o joio do trigo em linhas gerais, a democracia em si não funciona”. Questões como transgênicos e aquecimento global são exemplos evocados por Pereira de temas prementes que exigem a participação popular e demandam um certo grau de familiaridades com conceitos científicos.

Ainda que reconhecesse a forte influência de fatores como jogos de poder e preconcepções no processo científico, Sagan defendia a ação do papel autocorretivo da ciência que depuraria as ideias incapazes de explicar adequadamente os fenômenos naturais. Hipóteses, por mais malucas que pareçam à primeira vista, devem ser examinadas criteriosa e criticamente antes de serem aceitas ou rejeitadas. Exemplo dessa visão ocorreu no debate público entre o astronômo e o psiquiatra russo Immanuel Velikovsky sobre a origem do planeta Vênus. Velikovsky, interpretando uma série de mitos de diversas origens, apregoava que Vênus teria sido ejetado da atmosfera de Júpiter até sua órbita atual. A academia não apenas rejeitava terminantemente tal hipótese como pretendia censurá-la, impedindo sua publicidade. Sagan discutia os erros publicamente acreditando que o simples exame de evidências e contraevidências seria o suficiente para escanteá-las. "Pior do que alguém dizer um monte de besteiras é a comunidade científica tentar suprimir a liberdade de expressão", resume Pereira.

A disposição para o debate, a abertura da mente para aceitar o novo e submetê-lo ao exame crítico é a imagem que emerge do trabalho de Danilo Pereira a respeito de Carl Sagan. Isso sem abandonar a paixão pelas ciência e otimismo quanto a suas possibilidades.

A palestra de Danilo Albergaria Pereira pode ser assistida pelo vídeo disponível em:
http://www.youtube.com/watch?v=4-RGBId4N5U#t=247.
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Publicado originalmente em "DiCYT: A visão de ciências de Carl Sagan". © 2013 Fundación 3CIN

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