PESQUISA

Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mais uma... ou melhor (ou pior) menos uma: RIP Unesp Ciência?

Não é novidade a crise por que passa o mercado editorial periódico brasileiro de modo geral, e, também de modo geral, o jornalismo brasileiro. E, em particular, o mercado editorial brasileiro de divulgação científica e o espaço para o jornalismo científico na imprensa brasileira.

Redações têm sido fechadas, editorias e veículos que se vão ou precisam passar por downsizing para redução de despesas (e consequente redução de qualidade - embora haja quem diga que a relação causal seja inversa).

Mas parece que a crise agora afeta também a divulgação científica institucional. Mesmo não estando diretamente ao sabor da flutuação do mercado: afinal são mantidas com verbas de universidades - em particular das públicas - ainda que possam estar sujeitas ao humor do corpo diretor e da reitoria, normalmente são tidas como instituições que agregam prestígio às IES e, por tabela, aos diretores.

A revista Unesp Ciência é vítima da retração que assola a DC no Brasil. Sabine Righetti, jornalista da Folha (especializada em ciências, atualmente mais voltada à educação superior e políticas no setor) publicou em sua TL no twitter o fim da revista:
Não tenho detalhes. O twitter oficial deles está mudo desde set.2013. No blogue a postagem mais recente corresponde à última edição da revista, dez.20145. O mesmo com a página no facebook.

Perguntei para uma colaborada freelancer da revista. Ela também não tem mais informações, apenas confirma o encerramento da Unesp Ciência.

Rodrigo de Oliveira Andrade, jornalista de ciências freelancer (escreve pro SciDev.net), pelo twitter, diz que a revista não acabou - mas a equipe foi dispensada:
Como trabalhariam sem equipe? Contratarão outros? Utilizarão bolsistas (a ComCiência usa essencialmente essa metodologia)? Valerão apenas de freelancers? Nota de agência? (Até é possível manter um site noticioso ou mesmo um jornal com material de agências, mas revista é - ou deveria ser - diferente; textos exclusivos, mais elaborados, mais extensos. Senão vira almanaque.)

Atualizarei esta postagem à medida em que conseguir obter mais informações.

(Ainda tenho esperança de que seja um anúncio precipitado como foi com o caso da revista Quanta.)

Upideite(30/jan/2015): Segundo o twitter oficial da Unesp, a revista continuará:
A se ver o que significa o "normalmente". Pelas informações de fontes diversas, o que o Rodrigo Andrade disse se confirma: o editordiretor de redação e os dois jornalistaseditores assistentes (a equipe de texto) foram dispensados.

Estou vendo se a versão impressa irá continuar e se haverá mudança na linha editorial.

Upideite(10/fev/2015): Oscar d'Ambrosio, assessor-chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp, responde a algumas das questões sobre o futuro da Unesp Ciência.
Upideite(11/mar/2015): Saiu a nova edição da Unesp Ciência.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Uma breve (subjetiva e altamente incompleta) história dos blogues brazucas de ciências

*Uma* história. Não *a* história. Há várias que podem ser contadas. Todas certamente parciais. Uma pretensão é que esta postagem motive que elas sejam contadas.

A motivação *desta* postagem é uma notícia que eu considero boa, o Dr. Nicolelis anunciou que criará um blogue de divulgação científica.




Louvável iniciativa de um cientista do porte de Nicolelis, aguardo com ansiedade o início do blogue. Mas, terá notado o leitor atento (como são todos os leitores do GR), o lapso ali do "primeiro Blog de Ciência a mostrar os bastidores da vida científica e o potencial impacto social da ciência no mundo".

Que me desculpe o bom doutor, mas, o GR faz isso e, nem de longe, é o primeiro blogue. Grande parte dos blogues de ciências faz isso. Mesmo que de modo involuntário, deixar isso passar é contribuir com uma falsificação inaceitável da história dos blogues filomáticos brazucas (e lusofônicos).

Resgato aqui, então, uma parte dessa história.

Há uma disputa a respeito de qual teria sido o primeiro blogue no mundo. Provavelmente surgiu em algum momento entre 1994 e 1995 (ainda que as raízes possam ser traçadas até a década de 1970). Parte do problema é de definição e conceito de blogues, parte é da volatilidade dos registros na internet - sites inteiros somem da noite para o dia com poucos traços ou até nenhum. (O que me remete à necessidade de uma iniciativa de arquivamento de blogues de ciências.)

Bora Zivkovic alerta que "Pin-pointing the exact date when the first science blog started is a fool’s errand". Mas alguns consideram que o "Astronomy Picture of the Day" (APOD para os íntimos) criado em 1995 por Robert Nemiroff e Jerry Bonnell, da Nasa, possa ser considerado o primeiro blog (e fotolog) de ciências. Outros, que foi o "This Week's Finds in Mathematical Physics" do matemático John Baez, mantido de jan/1993 a ago/2010.

Segundo relato da webentidade, Alexandre Inagaki, o primeiro blogue escrito por um brasileiro (em inglês) foi o Delights to Cheer, da gaúcha Viviane Vaz de Menezes, em fev/1998.

Em um levantamento que Sibele Fausto, Osame Kinouchi e eu estamos fazendo, até o momento o blog de ciências (e temas correlatos) brasileiro mais antigo é o Ceticismo Aberto, de Kentaro Mori, com a primeira postagem de jan/2001. Ênfase no, "até o momento".

Em 2006 já havia uma pequena massa crítica de blogues lusófonos de ciências para levar à necessidade de criação de um canal de diálogo entre eles. O Roda de Ciência surgiu para suprir essa demanda.

Em ago/2008 nascia o Lablogatórios - por iniciativa de Carlos Hotta e Átila LIamarino, o primeiro condomínio de blogues científicos em lusofonia (especialmente em pt-br), que logo depois iria se tornar o Scienceblogs Brasil.

Também em 2008, Kinouchi, do Semciência, criou o "Anel de Blogs Científicos" para catalogar os blogues de ciência em língua portuguesa - com o intuito de servir de base para estudos científicos sobre a mídia.

No fim de 2008, entre os dias 11 e 12 de dezembro, era realizado o 1° Euclipo (EWCLiPo - Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa), em Ribeirão Preto-SP. A 2a edição (e até o momento a última) ocorreria ente 25 e 27 de setembro de 2009, no Arraial do Cabo-RJ.

Em algum momento entre 2008 e 2010 parece ter ocorrido uma inflexão no ritmo de crescimento da blogocúndia cientófila brasileira. O que tentativamente chamei de crise, mas pode ser um artefato ou um processo de amadurecimento.

*Em 2014, são criados dois agregadores/planets de blogs: o Bolsão de Blogs, de Rubens Pazza, e o Periódico, de Filipe Saraiva - seguindo a discussão sobre blogagem (e crise de postagens) iniciada por Mariana Fioravanti, do Polimerase de Mesa (e agora do Dinobótico).

Como eu disse no começo, esta não é *a* história. Há omissões - nem sempre propositais (não sou profundo conhecedor da história dos blogues brasileiros e lusófonos de ciências). Fiquem à vontade para acrescentar seus capítulos. (Quem resolver escrever sobre ela, passe o link nos comentários que listarei abaixo. Fiquem também à vontade para fazer suas observações nos comentários.)

Que a entrada de um player de peso sirva para dar um boost na comunidade, que atraia novos interessados, que reanime os velhos guerreiros das primeiras gerações. Que sirva de marco para uma nova etapa. Mas não é mesmo o início desta história já mais do que decenária e extremamente rica.

*Upideite(27/jan/2015): adido a esta data.

Upideite(29/jan/2015):

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Se o príncipe da Nigéria tivesse se graduado...

----------------------
PEDIDO DE RELAÇÃO URGENTE DE PARCERIA CIENTÍFICA

EM PRIMEIRO LUGAR, SOLICITO A MÁXIMA CONFIDENCIALIDADE A RESPEITO DESTA TRANSAÇÃO. ISSO POR CAUSA DE SUA NATUREZA EXTREMAMENTE CONFIDENCIAL E 'TOP SECRET'. ESTOU CERTO E CONFIO EM SUA CAPACIDADE E CONFIABILIDADE EM EXECUTAR A TRANSAÇÃO DESTA MAGNITUDE QUE ENVOLVE UMA TRANSAÇÃO PENDENTE QUE REQUER A MÁXIMA CONFIDENCIALIDADE.

SOMOS DIRETORES DO CORPO EDITORIAL DE UMA PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA FEDERAL INTERESSADOS NA PARCERIA CIENTÍFICA PARA PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS COM SEU GRUPO COM PESQUISAS QUE ESTÃO PRESAS NA NIGÉRIA. A FIM DE INICIAR ESTA PARCERIA SOLICITAMOS SEU AUXÍLIO PARA PERMITIR A SUBMISSÃO DE ARTIGO EM SEU NOME PARA LIBERAR AS REFERIDAS PESQUISAS PRESAS.

A ORIGEM DO FUNDO DA PESQUISA É COMO SEGUE: DURANTE O ÚLTIMO REGIME MILITAR NA NIGÉRIA, PESQUISADORES SENIORES INICIARAM UMA PESQUISA E PRODUZIRAM UM GRANDE VOLUME DE ARTIGOS COM GRANDE POTENCIAL DE CITAÇÕES CRUZADAS EM VÁRIAS ÁREAS. O ATUAL GOVERNO CIVIL CRIOU UMA REVISTA PARA DAR VAZÃO A ESSES ARTIGOS PRONTOS PARA PUBLICAÇÃO.

PORÉM EM RAZÃO DE NOSSA POSIÇÃO COMO MEMBRO DO CORPO EDITORIAL DESSA REVISTA, NÃO PODEMOS PUBLICAR ESSES ARTIGOS EM NOSSOS NOMES. ASSIM, FUI DESIGNADO EM RAZÃO DE CONFIANÇA POR MEUS COLEGAS DO CORPO EDITORIAL PARA PROCURAR POR PARCEIROS ESTRANGEIROS EM NOME DOS QUAIS TAIS ARTIGOS POSSAM SER PUBLICADOS EM NÚMERO SUPERIOR A 30.000 (TRINTA MIL) NO TOTAL. POR ISSO ESTAMOS ENVIANDO ESTA MENSAGEM. CONCORDAMOS EM DAR AUTORIA DESSES ARTIGOS NA FORMA: 1,20% PARA CADA PARCEIRO ESTRANGEIRO, 2,70% PARA NÓS, 3,10% PARA OUTROS PESQUISADORES DO COMITÊ. a PARTIR DE 70% QUE PRETENDEMOS INICIAR A REVISTA.

POR FAVOR, OBSERVE QUE ESTA TRANSAÇÃO É 100% SEGURA E ESPERAMOS INICIAR A PARCERIA EM, NO MAIS TARDAR, 7 DIAS ÚTEIS A PARTIR DA DATA QUE RECEBERMOS AS SEGUINTES INFORMAÇÕES PELO TEL/FAX: 555-1-0-2345678, SEU NOME COMPLETO, O NOME DA SUA INSTITUIÇÃO, SUA POSIÇÃO E SEUS DADOS DE CONTATO.

ESTAMOS ANSIOSOS POR FAZER ESTA PARCERIA COM VOCÊ E SOLICITAMOS CONFIDENCIALIDADE NESTA TRANSAÇÃO. POR FAVOR CONFIRME O RECEBIMENTO DESTA MENSAGEM ATRAVÉS DO NÚMERO TEL/FAX ACIMA. ENVIAREI OS DETALHES DESTE PROJETO QUANDO RECEBERMOS SEU CONTATO.

ATENCIOSAMENTE,

DR F. R. AUDE

NOTE; POR FAVOR USE ESTE NÚMERO DE REFERÊNCIA (VE/S/09/15) EM TODAS AS SUAS RESPOSTAS.
----------------------
Inspirado no caso relatado por Leandro Tessler, do Cultura Científica, de uma oferta de publicação em uma revista predadora. O texto acima é uma adaptação, claro, do esquema 419, também conhecido como "Príncipe Nigeriano" - não há nenhuma conotação de crítica à ciência da Nigéria.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Relação jornalista x pesquisador

Abaixo seguem minhas anotações de palestra do Prof. Ricardo Whiteman Muniz - bacharel de Direito, jornalista, mestre em Sociologia da Religião pela Metodista de São Paulo, editor da revista Ensino Superior da Unicamp - para o curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp no dia 03/nov/2014. (Imprecisões e erros são de minha inteira responsabilidade.)

----------------------------
Relação entre jornalistas e pesquisadores

"não é possível avançar sem um retorno (crítico) ao básico"

Educação no Brasil: capital humano e valor posicional
- base da distinção social, mais do que como fonte de aprendizado e qualificação
- diplomas = títulos de nobreza.

DNA da notícia degeneração
novidade informação velha, requentada
importância entretenimento
interesse sensacionalismo
proximidade provincianismo
originalidade achismo
oportunidade efeito mercado

"fidelidade canina à verdade factual"
"crítica diuturna ao poder onde quer que se manifeste"

jornalismo: fazer coletivo -> refação
Ben Goldacre: 3 família de paródias científicas criadas pelos meios de comunicação
- matérias excêntricas;
- matérias para meter medo;
- matérias sobre avanços retumbantes, gloriosos, para já.

Por que insistir na interação?
- visibilidade, interesse, apoio;
- prestação de contas;
- informação do debate democrático;
- para o bem da ciência.

Mônica Teixeira:
- necessidade do contraditório: os problemas do 'outro lado', artigos científicos;
- abusos de formas como 'may, might';
- avaliador tem dificuldade para ler o artigo;
- uso de idioma é objeto de críticas pormenorizadas e violentas;
- palavras-chave das revisões mais comuns são: muito específicas, vagas, jargões, equivocadas, confusas e prolixas;
- contexto e objetivos da pesquisa não são apresentados com suficiente clareza;
- avaliadores não encontram originalidade na pesquisa nem a novidade dos resultados apresentados;
- raramente encontra-se o enunciado de uma controvérsia, como se os pesquisadores tivessem perdido o gosto pela argumentação, pela defesa de um ponto de vista, pelo confronto de ideias.

Conselhos para abrir espaço na mídia:
- bom release, título noticioso, clareza no contexto;
- todo bom repórter está atrás de exclusividade, de um 'furo': só garantir exclusividade se puder e for cumprir;
- dedicar tempo e paciência;
- não exigir revisar a reportagem ou a entrevista: colocar-se à disposição para checagens;
- padrão-ouro: disponibilizar boas imagens e esboços/esquemas para infografia;
- se você gostaria de ver apenas uma análise publicada, apenas escreva um texto redondo, com sugestão de título e no tamanho habitualmente publicado pelo veículo, acompanhar a publicação em que você deseja espaço;
- para influenciar no longo prazo e contribuir na formação de uma rede de fontes - eventos talhados sob medida para jornalistas.
-----------------------

O jornalista Lucas Conrado escreveu em seu blogue Meus Pensamentos sobre a experiência pessoal dele nessa relação - em especial em seu trabalho no Ciência Hoje.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Especulando: Uma base de dados de referências documentais em produtos audiovisuais (de divulgação científica)

Um excelente banco de dados de produtos audiovisuais é o famoso IMDb. Não sei se há algum mais específico para documentários, programas e outras produções audiovisuais científicos.

Na catalogação de audiovisuais, normalmente se pensa em dados como: nome do produto, ano e local de produção, diretores, roteiristas, elenco, equipe técnica e, eventualmente, dados sobre crítica e avaliação. São, certamente, informações relevantes sobre autoria e participação.

Mas uma coisa de que sinto falta quando vejo esses programas e documentários são as referências de onde tiraram as informações que passam. Há excelentes programas sobre a história geral, de algum local ou fato. Muitos sendo superproduçõesão que procuram reproduzir o mais fielmente possível os detalhes da época retratada: as vestimentas, a caracterização das personagens, o vocabulário, os utensílios, efeitos gráficos para reconstruir a cena... Tudo isso, claro, depende de uma extensa pesquisa para levantar esses detalhes.

Seria, pra mim, interessantíssimo se um banco de dados disponibilizasse, por exemplo, os livros usados para essa pesquisa, que jornais consultaram (e onde estão seus arquivos), outras obras audiovisuais, toda a base documental. Se o apresentador diz: "As sucuris se alimentam apenas três vezes ao ano", de qual artigo científico essa afirmação foi tomada.

Tem jogos eletrônicos de estratégia com inspiração histórica que traz como item em seu menu a bibliografia consultada. Isso até poderia ser incorporado em audiovisuais distribuídos em mídias digitais como DVD ou Blu-Ray. Mas não seria viável passar em letreiros de documentários exibidos em salas de cinemas ou na televisão. Aí seria interessante haver um hotsite que disponibilizasse os dados - e a URL ser divulgada nos créditos da obra. Seria útil se houvesse também um banco de dados que centralizasse esse tipo de informação - facilitando a consulta e recuperação dos dados.

A partir disso poderia ser possível também de se obter indicadores que mensurassem a apropriação cultural das informações científicas - que é um dos objetivos das ciências: ser absorvida pela cultura da população em geral.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Como é que é? - Câncer é mais questão de má sorte?

Vários sítios web noticiosos estão repercutindo um estudo recentemente publicado a respeito da variação do risco de câncer entre os diferentes tecidos do corpo humano.

BBC: "Pesquisa diz que má sorte é causa da maioria dos tipos de câncer"
EFE: "Estudo indica 'azar' como fator de peso no desenvolvimento do câncer"
Reuters: "Azar biológico é culpado por dois terços de casos de câncer, diz pesquisa"
Veja: "Maioria dos casos de câncer acontece por 'má sorte'" (sobre material da AFP)
Estadão: reproduziu reportagem da Reuters (cuidado! contém paywall poroso)
O Globo: também reproduziu material da Reuters (cuidado! contém paywall poroso)
Folha: reproduziu reportagem da BBC (cuidado! contém paywall poroso)

O próprio resumo feito pela editoria da Science vai nessa toada: "Remarkably, this 'bad luck' component explains a far greater number of cancers than do hereditary and environmental factors."

Então é isso mesmo? Estilos de vida, fatores ambientais, predisposições hereditárias têm, afinal, pouco peso no surgimento de tumores? Not so fast.

O argumento é baseado na linearidade (em curva de ajuste logarítmico) com um índice de correlação entre risco de desenvolver câncer em algum momento da vida e o número total de divisões das células-tronco no tecido de 66%. (Vide Figura 1.)

Figura 1. Correlação entre risco de desenvolver câncer durante a vida e o total de divisões de células-tronco do tecido. Fonte: Tomasetti & Vogelstein 2015/Science.

Mas agora observemos a Figura 2, que é a mesma Figura 1, mas com destaque entre os tipos de câncer correlacionados com fatores ambientais, genéticos e/ou comportamentais (destacados em vermelho - o tipo de câncer sem tais fatores, em verde).

Figura 2. Correlação câncer x divisão de células tronco. Em vermelho, câncer relacionado a alguma condição ambiental, hereditária ou de estilo de vida; em verde, câncer sem tais fatores; em azul câncer não relacionado de acordo com presença ou ausência de fatores não casuais.

Observamos que os tipos de câncer associado a fatores não casuais - fumo, infecção por vírus, casos familiares, etc. - os pontos vermelhos, estão concentrados na região de maior risco; as versões correspondentes sem tais fatores (os pontos verdes) ficam bem mais abaixo. Tipicamente a diferença nos riscos é de 9 vezes. A chance de se desenvolver câncer durante a vida é da ordem de 1%; na presença de fatores ambientais, hereditários ou comportamentais, a chance é da ordem de 10%.

Então é preciso tomar cuidado com o que esse estudo mostra. A variação *entre os diferentes tipos de tecido* se correlaciona mais com o total de divisões das células-tronco: basicamente, tecidos com células que se dividem o tempo todo, no geral, estão mais expostos a desenvolver algum tipo de câncer. O que é absurdamente diferente de dizer que a variação entre as pessoas ou o peso nos casos totais de câncer na população se devam ao acaso.

*Não* está tudo bem fumar, beber, fazer sexo desprotegido, manter dieta desregulada, aspirar ar poluído, expor-se à radiação, ter trocentos casos familiares de câncer... O achado de Tomasetti & Vogelstein está dentro do esperado - já se sabia que cerca de 1/3 dos casos de câncer eram preveníveis. Mas, note-se, *se* conseguíssemos prevenir - especialmente mudando nosso estilo de vida - esses casos de câncer, ficaríamos na situação de que 100% dos casos de câncer se dar-se-iam por mutações casuais. Seria pouco inteligente chegar à conclusão de que, em uma situação em que 100% dos casos de câncer são por acaso, então tudo bem ter um estilo de vida, digamos, excessivamente liberal e libertino. Não apenas porque causaria outros problemas (mortes no trânsito, insuficiência pulmonar, envelhecimento precoce, DSTs, obesidade...), mas aí causaria mais câncer ainda.

Cerca de 300 mil pessoas morrem de queimaduras por fogo por ano no mundo. A taxa de mortalidade total no mundo em 2012, era de 8 mortes por 1.000 pessoas, em uma população de 7,124 bilhões, isso representaria 57 milhões de mortos. Os queimados são, então, 0,5% dos mortos. Seria bobagem concluir que então tudo bem se encharcar de gasolina e riscar um fósforo.


Upideite(14/jan/2015): A jornalita Jennifer Couzin-Frankel revisita o tema de que tratou no blog da Science. Um dos autores do artigo esclarece o que foi comentado acima: "'We did not claim that two-thirds of cancer cases are due to bad luck,' Tomasetti told me gently. What the study argued, he explained, was that two-thirds of the variation in cancer rates in different tissues could be explained by random bad luck. (This is exactly the point made by the authors of the letter critiquing me.)"
Figura 3. Visualização gráfica da relação entre variância total inicial, variância residual após ajuste e coeficiente de determinação R².*

*Upideite(16/jan/2015):Imagem atualizada para corrigir a representação do coeficiente de determinação R². (Erroneamente, eu havia atribuído à barra azul.)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails