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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Crise na ciência brasileira

Não tenho muitas condições para opinar por falta de conhecimento suficiente sobre o tema. Os cortes me geram insatisfação não apenas por ser uma área pessoalmente cara a mim, mas por considerar que C&TI seja essencial para o desenvolvimento do país. O problema é saber exatamente quais as limitações técnicas e políticas para o desenho dos cortes orçamentários necessários em um momento de forte crise econômica. (Os cortes poderiam ser evitados? De onde viriam os recursos? Não faltaria em outras áreas? Poderiam cortar em outras áreas? etc.)

Compilo aqui links para alguns textos na blogocúndia cientófila discutindo as consequências dessa crise econômica no financiamento da ciência no Brasil - e as ações que devem ser tomadas pelo governo e pela comunidade científica.
Outras leituras:
Science 27/ago/2015: Fiscal crisis has Brazilian scientists scrambling"*
Época Negócios 30/ago/2015: "Ciência do país vive pior crise em 20 anos"
Zero Hora 26/set/2015: "Suzana Herculano-Houzel: Fazer ciência no Brasil é inviável"
Nature 30/set/2015: "Brazilian science paralysed by economic slump"
Jornal da Ciência 30/set/2015: "Manifesto de vigília pela Ciência, Tecnologia e Inovação"
Época 06/out/2015: "Brasil está à beira de apagação científico"**
MCTI 06/out/2015: "Aldo atuou para recompor o orçamento do MCTI"**

*Upideite(05/out/2015): adido a esta data.
**Upideite(06/out/2015): adido a esta data.
***Upideite(08/out/2015): adido a esta data.

sábado, 26 de setembro de 2015

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 23

A fim de expressar minhas reticências à sugestão do cineasta Fernando Meirelles de se abandonar o uso de número para se divulgar ciências, trouxe o estudo de Van der Linden et al. 2015 sobre o efeito de porteira de crença da estatística de consenso entre especialistas sobre a realidade do AGA no convencimento das pessoas.

Agora faço anotações de outros estudos comparativos dos poderes persuasivos de argumentos numéricos e narrativos.

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Allen & Preiss 1997. Comparing the persuasiveness of narrative and statistical evidence using meta‐analysis. Communication Research Reports 14(2): doi: 10.1080/08824099709388654.

Uma meta-análise de 15 estudos sobre o poder persuasivo de mensagens com provas numéricas em comparação de mensagens com exemplos ou estórias. Em 10, o efeito maior era de mensagens com números; em 4, o efeito era maior em mensagens com narrativas; em 1, não havia diferença. No total, 1.740 indivíduos foram envolvidos nesses estudos.

Considerados em conjunto, há um efeito maior (mas não muito: r = 0,101) de persuasão no uso de indícios estatísticos em relação a narrativa ou relatos anedóticos. As amostras são heterogêneas entre si, o que pede uma certa cautela para a generalização, já que indica a ação de outros fatores.*

Tabela 1. Efeito de convencimento de argumentos estatísticos x. narrativo.
Fonte: Allen & Preiss 1997
tipo de indício não convencido (%) convencido (%)
estatístico 45 55
narrativo 55 45

**Zebregs et a. 2014. The differential impact of statistical and narrative evidence on beliefs, attitude, and intention: A meta-analysis. Health Communication, doi: 10.1080/10410236.2013.842528.

Os autores contestam a seleção dos trabalhos incluídos em Allen & Preiss 1997 (dissertação e artigo baseado no trabalho da dissertação; estudos que não isolam adequadamente os indícios narrativos dos indícios estatísticos...). Dos 15 estudos incluídos nesta meta-análise, apenas 2 estavam incluídos em Allen & Preiss 1997. Porém a conclusão é basicamente a mesma.

Indícios estatísticos levam a um maior convencimento - modificação da crença - do que indícios narrativos (com efeito da ordem de 16%).

número de estudos n total tamanho do efeito IC p
Crença 9 1.546 -0,16±0,07 -0,29;-0,03 0,014
Atitude 5 1.850 -0,11±0,06 -0,23;0,00 0,058
Intenção 7 1.338 0,10±0,05 0,00;0,20 0,061

As amostras não se mostraram heterogêneas, indicando que não há participação significativa de outros fatores na variância dos efeitos na crença, atitude e intenção.

(Aparentemente os autores consideram um alfa maior do que 0,05, já que consideram como significativo o efeito sobre a atitude e a intenção - no caso da intenção, os indícios narrativos teriam um efeito maior.)

Allen et al. 2000. Testing the persuasiveness of evidence: combining narrative and statistical forms. Comunication Research Reports 17(4). doi: 10.1080/08824090009388781.

Sujeitos experimentais: 1.270 estudantes universitários da região do Meio-Oeste americano.
Tratamentos: 15 mensagens de tópicos variados (e.g. uso de cosméticos por mulheres) em 4 versões: a) mensagem sem indícios narrativos nem estatísticos; b) mensagem com indícios narrativos, mas não estatísticos; c) mensagem sem indícios narrativos, mas com estatísticos; d) mensagem com indícios narrativos e com indícios estatísticos.
Medidas:
Os fatores de medida de credibilidade do autor foram:
- o autor conhece o tópico;
- o autor é sincero;
- pode-se acreditar no autor;
- o autor é desonesto;
- o autor é digno de confiança;
- o estilo da escrita é dinâmico.

Os fatores de medida de persuasão foram:
- aceito a conclusão da mensagem;
- concordo com a conclusão do autor;
- acho que o autor está errado;
- minha opinião é consistente com a mensagem do autor;
- acredito na conclusão da mensagem.

Resultados: mensagens com indícios narrativos *e* estatísticos tiveram melhores notas de persuasão: 17,91±5,16; seguidas de mensagem com indícios estatísticos apenas: 17,58±5,21; mensagem somente com indícios narrativos: 17,32±4,99; e, por último, mensagens sem indícios narrativos nem estatísticos: 17,22±5,11.

Não houve diferenças entre os tratamentos na avaliação da credibilidade do autor.
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Bom notar que, aparentemente, de acordo com outros estudos (que não foram contemplados nesta postagem) há variação do efeito do uso de dados estatísticos no convencimento em função do público-alvo das mensagens, da localização no discurso dos indícios numéricos e narrativos, do tópico das mensagens...

*Upideite(28/set/2015): adido a esta data.
**Upideite(28/set/2015): adido a esta data.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Liguem para o sapo: um conto em contas

Tomei a declaração do cineasta Fernando Meirelles de que ninguém liga para o sapo pesquisado pelos cientistas, que é preciso contar uma história e deixar a numeralha de lado, etc. como um desafio.

Mas, antes, um recado do Calíquio:

"Liga pra mim!"

Abaixo um conjunto de números de por que devemos ligar para o sapo, a rã, a perereca, a cecília, o tritão, a salamandra e outros demais amiguinhos anfíbios nossos. Há várias histórias aí, não estruturadas, questão de ligar os pontos.

Spoiler alert: não tem princesas.
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Imagem: modificada de Pixabay.
- Há cerca de 6.000 espécies conhecidas de anfíbios;
- 1.896 espécies estão em perigo iminente de extinção;
- Aproximadamente de 35 a 130 espécies extinguiram-se desde 1500, entre 9 e 122 desapareceram desde 1980;
- Considerando-se somente os casos de extinção, a taxa atual é 211 vezes a taxa de extinção de fundo;
- Incluindo-se as espécies em perigo iminente de extinção, a taxa atual é de 25.039 a 45.474 a taxa de extinção de fundo;
(Dados e referências em McCallum 2007)

Figura 1. Taxa de extinção de anfíbios. Estimativa inferior e superior do número de espécies extintas de anfíbios desde o ano de 1500 AD. Fonte: McCallum 2007.

- Em uma reserva temperada metropolitana de 80,9 hectares na região de Charlotte, Carolina do Norte, EUA, estima-se haver 105.824 espécimes e 12 espécies de anuros;
- O valor comercial total estimado dos anfíbios na área foi de US$ 6.021.007;
- Valor médio de US$ 56,90 por indivíduo;
(Witzczak & Dorcas 2009)
- No alagado de Elleton Bay, Carolina do Sul, EUA, com 10 ha de área, foram capturados 392.605 anfíbios ao longo de um ano compreendendo 17 espécies;
- O valor comercial total estimado da amostra foi de US$ 3.605.848;
- Desses, US$ 3.413.821 correspondem a girinos produzidos ao longo de um ano;
- Valor médio de US$ 9,18 por indivíduo;
(DeGregorio et al. 2014)

- Um levantamento de 2002 a 2011, em poças d'água de 34 sítios nos EUA, encontrou um declínio anual médio de 3,7% de ocupação das poças por pelo menos uma de 48 espécies de anfíbios;
- Para os anfíbios listados como ameaçados pela IUCN (International Union for Conservation of Nature) a taxa de declínio foi de 11,6% ao ano;
(Adams et al. 2013)

- 6 causas principais de perda de biodiversidade que atuam sobre o declínio dos anfíbios:
a) exploração comercial; b) espécies introduzidas/exóticas competidoras, predadoras e parasitas; c) mudanças de uso de solo; d) contaminantes; e) mudanças climáticas; f) doenças infecciosas emergentes;
.causas históricas (atuando há séculos): a, b, c; causas recentes: d, e, f.
.declínio/extinção: c, e, f; declínio: a, b, d
(Collins 2010)

Serviços ecológicos, econômicos e culturais prestados pelos anfíbios:
- provisão de recursos: alimento e medicamentos: 4.716 ton./ano de pernas de rã (maior parte retirada da natureza);
- controle de pragas e vetores;
- cultural: personagens, fotografias, motivos artísticos, animais de estimação;
- suporte ecológico:
.ambientes aquáticos - dinâmica de nutrientes, bioturbação, cadeia alimentar: controle de população de algas, redução de acúmulo de sedimentos;
.ambientes terrestres - controle de população de invertebrados, alteração física de hábitat e ciclo de nutrientes: redução da decomposição foliar (predação de invertebrados detritívoros);
.fluxo entre ecossistemas (aquático/terrestre);
.alteração física do ecossistema: alteração da taxa de sedimentação e fluxo (eliminação de macrófitas e perífito), escavação de solo;
(Hocking & Babbit 2014)

Upideite(16/set/2015): Mais alguns números.
- Girinos em rios neotropicais mantêm populações de algas até 50% menor do que se não estiverem presentes;
(Ravestel et al. 2004)
- Tritão-de-pintas-vermelhas (Notophthalmus viridescens viridescens) adulto consome 439 ± 20 mosquitos/dia;
- Larva de salamandra-toupeira (Ambystoma talpoideum) consome 316 ± 35 mosquitos/dia;
- Em uma área de 10ha de alagados, uma população de 50.000 anfíbios/ha pode consumir 100.000 larvas de mosquito/noite;
- Há estudos de correlação indicando que áreas de alagados com anfíbios contém até 98% menos mosquitos do que áreas sem anfíbios;
(DuRant & Hopkins 2008)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Luz, câmera, ciência: será que dá mesmo pra ganhar corações no papo, Meirelles?

O jornalista Herton Escobar, em seu Imagine Só!, traz o discurso do cineasta Fernando Meirelles em sua apresentação no 8º Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, Curitiba-PR, organizado pela Fundação Grupo Boticário.

Para Meirelles, “[n]ão adianta só números, estatísticas, planilhas … se não vocês estão falando só pra sua tribo. O único jeito é contar histórias”.

Embora à primeira vista pareça um conselho razoável, mantenho minhas reticências. Já expressei minhas preocupações com a ênfase demasiada no storytelling na apresentação do trabalho científico.

Particularmente no processo de engajamento do público na discussão sobre as bases científicas das pesquisas sobre aquecimento global e mudanças climáticas, pelo menos uma estatística parece ter um efeito importante: 90% dos especialistas concordam que está havendo um aumento das temperaturas médias globais causadas, em grande parte, pelas atividades humanas como emissão de CO2 e mudanças no uso do solo.

Segundo van der Linden e colaboradores (2015), a demonstração do consenso a respeito do AGA funciona como elemento de porteira que ajuda a abrir a mente do público leigo para a realidade do fenômeno e das graves perspectivas que nos esperam se nada for feito para diminuir as emissões dos gases-estufa.

"There is currently widespread public misunderstanding about the degree of scientific consensus on human-caused climate change, both in the US as well as internationally. Moreover, previous research has identified important associations between public perceptions of the scientific consensus, belief in climate change and support for climate policy. This paper extends this line of research by advancing and providing experimental evidence for a “gateway belief model” (GBM). Using national data (N = 1104) from a consensus-message experiment, we find that increasing public perceptions of the scientific consensus is significantly and causally associated with an increase in the belief that climate change is happening, human-caused and a worrisome threat. In turn, changes in these key beliefs are predictive of increased support for public action. In short, we find that perceived scientific agreement is an important gateway belief, ultimately influencing public responses to climate change." Van der Linden et al. 2015.
["Há uma compreensão errônea disseminada entre a população a respeito do grau do consenso científico em torno das mudanças climáticas causadas pelos seres humanos, nos EUA e em outros países. Além disso, estudos anteriores identificaram importante associação entre a percepção pública a respeito do consenso científico, crença nas mudanças climáticas e apoio às políticas climáticas. Este artigo estende essa linha de pesquisa apresentando e fornecendo indícios experimentais para o 'modelo da porteira de crença' (GBM, 'gateway belief model'). Com o uso de dados nacionais (n = 1.104) de um experimento de mensagem de consenso, encontramos que um aumento na percepção publica do consenso cientifico é associado significativa e causalmente com um aumento na crença de que as mudanças climáticas estão ocorrendo, são causadas pelos seres humanos e são uma ameaça preocupante. Por outro lado, mudanças nessas crenças-chave são preditivas de um aumento no apoio à ação pública. Em suma, encontramos que o consenso científico percebido é uma importante porteira de crença, influenciando decisivamente na resposta do público às mudanças climáticas."]

Claro, se interpretarmos a fala do cineasta com uma ênfase diferente: "não adianta números, estatísticas, planilhas", podemos compatibilizar com o que foi apresentado acima do efeito da percepção do consenso científico em torno do AGA (o número *é* importante para o efeito - não adianta apenas dizer que há um consenso ou vagamento dizer que a maioria dos cientistas acredita). Mas é mais complicado compatibilizar com a segunda parte: "O único jeito é contar histórias". Não que histórias não contem, mas é bastante discutível de que seja o único jeito.

De outra feita, "Cidade de Deus" é uma obra prima. Importantíssima. Tocante. Chocante. Um tapa na cara. Mas o quanto isso mudou a percepção do público em relação à questão não apenas do tráfico de drogas, mas, principalmente, da vida das comunidades nas favelas do Rio de Janeiro, do Brasil e do mundo? Não apenas a visão estereotipada da violência, da resposta padrão da repressão policial?

Como eu disse aqui no GR em outra ocasião, não que a história do storytelling seja fajuta, mas precisamos de indícios mais sólidos a respeito de sua eficácia e funcionamento - e dos eventuais problemas -, antes de sair abraçando-a como *a* solução da comunicação pública de ciências. Será que Meirelles engajar-se-ia em financiar pesquisas científicas sobre o tema (não necessariamente metendo a mão no próprio bolso, mas ajudando a convencer as empresas a pingarem suas contribuições)?

Upideite(28/set/2015): Vídeo da apresentação de Meirelles no 8o. CBUC.
via Débora Menezes fb.

Upideite(02/out/2015): Complementos: "Liguem para o sapo: um conto em contas", "Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 23".

Outra(s) leitura(s):
Ceticismo.net "Cineastas, eu não quero saber da sua opinião sobre Ciências"

Upideite(24/out/2015): Minha leitura da proposta de Meirelles.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Cultura nerde e machismo

Um bochincho se formou em parte das redes sociais em função de um episódio do podcast Anticast a respeito do machismo que há em meio aos nerdes brazucas (a transcrição do episódio está disponível)**. No twitter muito da discussão está rolando sob a tag #AntimachismoNerd.

Não tenho condições de dar meus pitacos sobre isso por vários motivos:
1) não ouvi ainda o episódio referido;
2) não tenho familiaridade suficientemente profunda com a cultura nerde (sim, tenhos vários amigos que se identificam como nerde ou geek, mas não vivo nesse círculo - não sei quais são os últimos lançamentos de consoles e jogos, há tempos não leio quadrinhos de modo sistemático, nunca fui a convenções do gênero, não participo de fóruns sobre ficção científica e fantasia, há anos não jogo RPG, não coleciono cards nem pokémons, entendo quase nada de programação e menos ainda de ciência e engenharia da computação, não acompanho podcasts, blogues, videoblogs nerdes, etc, etc, etc - ok, quando minha internet permite assisto ao Nerdologia).

O máximo que posso fazer é dar meu posicionamento genérico contra o machismo, o sexismo e a misoginia em qualquer esfera. Não sei dizer o quão justa ou injusta são as alegações a respeito desta ou daquela personalidade da comunidade nerde do Brasil. E também trazer, talvez como elementos de apoio à discussão, o que diz a literatura acadêmica sobre o tema: sim, a questão do gênero na cultura nerde já é tema de análise científica (principalmente nos EUA) há cerca de duas décadas.

Sonnet Robinson, em sua tese "Fake geek girl: the gender conflict in nerd culture", defendida em junho de 2014 na University of Oregon, apresenta a cultura nerde como uma "subcultura dentro de uma cultura dominante". É uma subcultura na medida em que consiste de um grupo de pessoas com um modo de pensar, sentir e agir distintivo e que difere um tanto da sociedade mais ampla. É uma contracultura na medida em que, ativamente, rejeita certos aspectos da cultura dominante. Mas, qual a cultura dominante, apresenta um conjunto de "valores, símbolos, normas, práticas específicas de linguagens, sanções e hierarquias". Não difere de outras subculturas no policiamento (quase que exclusivamente informal) da associação à subcultura: quem tem o direito ou não de se dizer ou se identificar como nerde (na blogosfera filomática, p.e., há intensos debates e preocupações quanto a se se pode ou não classificar um dado blogue como científico ou não - ativamente, ainda que informalmente, rejeitamos blogues que identificamos como pseudocientíficos). Estando mergulhado em uma cultura dominante, não é de se surpreender que certos valores presentes nesta percolem a subcultura: incluindo valores sexistas.

Há inúmeros relatos de primeira mão de casos de assédio moral contra mulheres em fóruns, seção de comentários, comunidades, etc. sobre games, no exterior e no Brasil - inclusive sob a tag referida acima: #AntimachismoNerd. Essa discussão sobre a interdição ("gate-keeping") de mulheres ao universo nerde gerou o meme "fake geek girl".

Em sua revisão de literatura sobre o tema, Robinson encontrou apenas um estudo sobre as nerdes mulheres (um sobre aspectos linguísticos de adolescentes em colégios), mas há vários sobre masculinidade e identidade nerde, ausência de mulheres nas carreiras científicas - como dito, são uns vinte anos em que a temática é explorada na academia. Mas a raridade de estudos sobre a perspectiva das mulheres em meio à cultura nerde é também reveladora - da situação de interdição das mulheres aos círculos nerdes e do desinteresse da academia sobre certos aspectos da questão feminina.

Robinson, através de um formulário online*, elaborou uma perfil das opiniões, atitudes e percepções de pessoas que se identificam como mulheres nerdes. 149 respostas válidas (formulários completos, idade acima de 18 anos) foram tabuladas. Somente 22% das respondentes sentem-se sempre bem-vindas nas comunidades; 30,6% sentem-se sempre confortáveis nas comunidades. Apenas 17,5% das respondentes disseram nunca terem sofrido insultos baseados em gênero/sexo nas comunidades em que participam, apenas 9,1% disseram nunca terem experimentado ações de gate-keeping (checagem de conhecimento para saber se podem ou não se considerarem membros da comunidade); 29,6% nunca passaram pela experiência de despertar reações de surpresa dentro da comunidade nerde ao revelarem seu gosto pela temática, fora da comunidade, a reação de choque com a relevação é bem maior: apenas 7,8% das respondentes nunca passaram pela experiência.

(Seria interessante se o formulário tivesse incluído uma pergunta sobre o quanto as respondentes sentem-se confortáveis *fora* das comunidades nerdes - no geral e expressando seus gostos geeks. A única comparação é quanto ao choque causado pela revelação.)

Jason Tocci em sua tese "Geek Cultures: Media and Identity in the Digital Age", defendida em 2009 na University of Pennsylvania, observa que:
"Oftentimes, the girls who fit into male-dominated geek groups are those who feel they fit in better with the boys; several of the female geeks I interviewed noted that they had been "tomboys" or considered "just one of the guys" in school. In a response to a blog post about sexism in geek culture, for instance, one visitor explained that she often felt more welcome among geeky guys than among other girls."
["Com frequência, garotas que se sentem bem em grupos geeks dominados por homens são as que se sentem melhor entre garotos; várias garotas geeks que entrevistei notaram que elas eram 'molecas' ou consideradas 'mais um dos caras' na escola. Em resposta a uma postagem no blogue sobre sexismo na cultura geek, por exemplo, uma visitante explicou que ela muitas vezes se sentia mais bem-vinda entre os garotos geeks do que entre as outras garotas."]

Obviamente não significa que seja a maior parte das garotas que se identificam como nerdes tenham o mesmo histórico; por outro lado, isso pode explicar, ao menos parcialmente, a permanência de garotas em um meio hostil - a alternativa (comunidade da cultura dominante) pode ser ainda mais hostil.

A academia brasileira não está totalmente alheia ao fenômeno da participação feminina na cultura nerde (e.g. a dissertação de Lívia Lenz Fonseca "GamerGirls: As mulheres nos jogos digitais sob a visão feminina", defendida em 2013 na Unisinos), mas parece ser ainda um campo bem incipiente por aqui. Gostaria de saber se há estudos acadêmicos mapeando e delineando o sexismo entre os nerdes brazucas: seria aqui pior do que nos EUA?

Uma compilação sobre o #AntimachismoNerd (atualizo à medida em que souber de mais textos/áudios/vídeos):

Blogs:
Rock Me On 04/set/2015: "Anticast 198: Vamos cutucar o Elefante Branco!"

Podcast/videoblogs (não vi nem ouvi):
AntiCast 03/set/2015 "AntiCast 198 – O Machismo (e outras coisas) no mundo Nerd"
Qu4atro Coisas 04/set/2015: "Posicionamento do canal sobre machismo nerd"
Renegados Cast 14/set/2015: "RC #149 - O machismo no mundo nerd e na internet"

Outras leituras:
Geek Studies 28/abr/2008: "How People Explain Female Geeks"
Geek Studies 29/abr/2008: "Sexism and Misogyny in Geek Culture"
ForbesWoman 26/mar/2012.: "Dear Fake Geek Girl: Please Go Away"
The Geek Anthropologist 09/set/2014: "Violence and Victimization: Misogyny in Geek Culture (And Everywhere Else)"
Ana Freitas 02/fev/2015 "Nerds e machismo: por que mulheres não são bem vindas nos fóruns e chans"
Não me Kahlo 24/mar/2015: "O machismo no universo geek e a luta para salvar a Mulher-Maravilha desse mal"
JMTrevisan 29/mai/2015: "O Nerd Padrão é Imbecil e Preconceituoso"
Matando Robôs Gigantes (Jovem Nerd) 23/jun/2015 "Pode mulher no Fifa?" (não vi/vídeocast)
Quem Curte? 24/jul/2015: "Existe machismo no mundo nerd, geek e de cosplayers?"
Laura Buu 29/ago/2015: "O que aconteceu com o Pink Vader?"
Drops de Jogos 03/set/2015: "O caso Pink Vader, o machismo no meio nerd e o nosso posicionamento"

*Upideite(08/set/2015): Claro que a metodologia torna um pouco complicada a representatividade da amostra para fins de extrapolação para todo o universo nerde anglófono.
**Upideite(08/set/2015): adido a esta data.

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