Lives de Ciência

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domingo, 13 de novembro de 2016

Blogues acadêmicos

A maior parte dos blogues de divulgação científica historicamente tem sido criada e mantida por iniciativas independentes. Alguns têm se reunido em condomínios como os ScienceBlogs* Brasil, havendo projetos ancorados em veículos tradicionais de divulgação como a National Geographic* e a Nature (que deu origem ao Scilogs*).

Uma outra fase parece se delinear com a entrada dos blogues acadêmicos - blogues de ciências mantidos por instituições acadêmicas e universidades. Ela não substitui, claro, os blogues independentes e os associados em condomínios de blogues (estes independentes ou coligados com empresas de comunicação científica). Interessante essa institucionalização tardia justo num momento em que os blogues de ciências parecem estar em crise - de um lado parece refletir o conservadorismo acadêmico, frequentemente demorando para adotar novas mídias; mas, de outro, pode ser um incentivo para a superação dessa crise. A se ver.

A lista abaixo não é completa - bem longe disso -, mas será atualizada com novas entradas futuramente. (A data de origem, quando não explicitada na página dos projetos, foi obtida pela entrada mais antiga no Internet Archive - o que pode gerar alguma incerteza. As informações sobre as estatísticas de visitação são as fornecidas nas páginas dos serviços - exceto no caso do Blogs da Unicamp.)

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Harvard Blogs
Os Harvard Blogs são compostos por cerca de 900 blogues (com 200 ativos) mantidos por alunos, ex-alunos, professores e funcionários. São mais de 700 mil visitantes por mês. O serviço está ativo desde 2003.

Newcastle University Blogs
Com 237 blogues entre ativos e inativos (chegou a ter 1.026 blogues!), certamente o Newcastle University Blogs figura entre os maiores condomínios acadêmicos. Como é aberto tanto para professores e pesquisadores quanto para alunos da universidade, provavelmente a maior parte dos blogues sejam de alunos (ou ex-alunos). Está no ar desde 2007 - embora o blogue mais antigo no diretório atualmente seja de 2012.


BLOGIPALVELUT "Helsingin yliopiston blogit ja blogipalvelut" (Serviço de blogues "Universidade de Helsinque, blogues e serviço de blogues")
Blogipalvelut da Universidade de Helsinque consiste de 289 blogues (entre ativos e inativos) mantidos pelo staff da universidade e alunos desde 2007.

Stellenbosch University’s Blog Service
Mantidos por professores, pesquisadores e estudantes de pós-graduação, os 11 blogues do Stellenbosch University’s Blog Service são voltados para a comunicação sobre temas acadêmicos e institucionais desde 2008.

LSE Blogs "Expert analysis & debate from LSE"
Os LSE Blogs, criados em 2010, são blogues mantidos por pesquisadores da London School of Economics and Political Science (que conta também com contribuição de alunos e convidados especiais). Têm um alcance de 70.000 visitantes semanais distribuídos em 60 blogues ativos (são mais 10 inativos mantidos em arquivo).

University of Sidney BLOGS
Mantidos, desde 2010, exclusivamente por pesquisadores da instituição, os BLOGS da Sydney Uni são compostos por 23 blogues ativos (26 arquivados).

University of Nottingham Blogs
Os University of Nottingham Blogs são compostos por 92 blogues ativos e 13 arquivados. A iniciativa começou em 2011.

Chapman University Blogs
24 blogues ativos compõe os Chapman University Blogs. Os blogues são mantidos por alunos e professores da universidade desde 2012.

Wits Blogs "A collection of Blogs written by Wits Staff"
Os Wits Blogs são compostos por apenas 2 blogues ativos dos servidores da University of the Witwatersrand - um do vice-chanceler da universidade e outro que funciona como página institucional da faculdade de direito. O serviço parece ter se iniciado em 2013.


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Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas
Os Blogs da Unicamp foram criados em 2015 e são mantidos por professores, pesquisadores e pós-graduandos da universidade. São 23 blogues ativos (e um número maior de blogues em gestação) que contam juntos com cerca de 5.000 visitantes por mês.

UFABC Divulga Ciência
O Divulga Ciência foi criado em 2017 e reformulado em 2018 com base no modelo estabelecido pelo Blogs da Unicamp. Professores, alunos e funcionários contribuem com um blogue único de atualizações semanais.
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*Upideite(13/nov/2016): links adidos a esta data.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

"Publique ou pereça", um breve histórico

Em 1996, Eugene Garfield se impôs a tarefa de buscar as origens da expressão "publish or perish" ("publique ou pereça"). A mais antiga referência que encontrou foi no livro "The Academic Man: A Study in the Sociology of a Profession", publicado em 1942, de autoria do sociólogo  Logan Wilson. Mas Wilson não cita ninguém em específico como autor do termo. Garfield, em conversa com sociólogos como Robert Merton, acredita que, de todo modo, era uma expressão já corrente à época.

Em um obituário de William Morris Davis, o pai da Geografia americana, publicado em 1934, Isaiah Bowman relata um evento ocorrido ainda no início do século 20:
"To Professor Davis is due the organization of the Association of American Geographers in 1904, at a meeting in his native Philadelphia. He immediately urged that the Association 'publish or perish.' 'If it's worth doing it's worth printing,' was his advice to students." (Bowman 1934; grifo meu)
["Ao Professor Davis devemos a organização da Associação Americana de Geógrafos em 1904, em um encontro em sua Filadélfia natal. Ele imediatamente pediu para a Associação 'publique ou pereça'. 'Se vale a pena fazer, vale pena publicar', era seu conselho aos estudantes."]

Como presidente da Associação Gastroentereológica Americana, Ernest H. Gaither discursou em 1939: "Let us now turn to a problem which has given us much food for thought; indeed, it has constituted one of the reasons for changing our constitutions and by-laws. I refere to our past custom of not admitting to our membership anyone who has not published several or more papers of at least moderately outstanding merit. Even in a organization such at this, devoted to scientific investigation, I think we can go too far in barrying everyone who has not shown a tendency to be fairly prolific in writing. I would like to be recorded with those who do not subscribe to the dictum 'publish or perish,' for it is my candid opinion that such an organization as ours will not flourish if nourished only on cold, scientific, albeit enlightening facts." (Gaither 1939; grifo meu)
["Falemos agora de um problema que tem dado muito o que pensar; na verdade, ele foi uma das razões para mudarmos nossos estatutos e regulamentos. Refiro-me ao costume pretérito de não admitir como membro ninguém que não tenha publicado vários e vários artigos de mérito pelo menos medianamente relevante. Mesmo em organizações com este, devotada à investigação científica, penso que iremos longe demais ao barrar qualquer um que não mostre uma tendência a ser razoavelmente prolífico em escrever. Gostaria de ser listado entre aqueles que não subscrevem ao ditado 'publique ou pereça' porque, em minha inocente opinião, organizações como a nossa não vingarão se nutridas apenas com frios fatos científicos, ainda que esclarecedores."]

Essas duas referências acima confirmam as suspeitas de Garfield e recuam as origens para pelo menos o início do século 20. E indica que se disseminava para várias áreas. (Embora não se refiram à necessidade de publicação para posições como professores titulares nas universidades.) Gaither já indica uma dissensão presente na visão positiva em relação à doutrina/filosofia/cultura/síndrome/sistema "publique ou pereça".

Segundo o bibliotecário Robert N. Matuozzi (2007), no entanto, a raiz da cultura é mais antiga: "The inflexible rule of 'publish or perish' was first mandated by the Prussian ministry in 1749, academic authorship constituing a visible form of capital recognizable through peer-reviewed 'applause'." (Matuozzi 2007)
["A inflexível regra do 'publique ou pereça' foi imposta pela primeira vez pelo ministro prussiano em 1749, constituindo a autoria acadêmica em uma forma visível de capital reconhecível através do 'aplauso' revisado por pares."]

Em obituário de 1965, John B. Hitz registrava sobre o oftalmologista americano Ferdinand Herbert Haessler:
"Although not a prolific writer, according to the modern "publish or perish" philosophy, he published some 30 articles, three textbooks, and one film." (Hitz 1965; grifo meu)
["Embora não tenha sido um autor prolífico, de acordo com a moderna filosofia do 'publique ou pereça', ele publicou 30 artigos, três livros textos e um filme."]

O uso da expressão "moderna" talvez indique uma percepção de mudança no nível da disseminação e intensidade da "filosofia" do "publish or perish". Segundo os dados de Ngram Viewer, o conceito começa a ter uso crescente a partir do pós-guerra (Fig. 1).


Figura 1. Evolução do uso da expressão "publish or perish" em livros de língua inglesa. Fonte: Ngram Viewer.

De Rond & Miller, em ensaio de 2005, consideram o início da doutrina "publish or perish" nas escolas de administração dos EUA, deu-se em na segunda metade da década de 1950, com a publicação de dois relatórios sobre a situação do ensino superior na área: da Fundação Ford, por Gordon & Howell, 1959, e da Corporação Carnegie, por Pierson & Others, 1959. Críticas à obsolescência intelectual, falta de uma atmosfera intelectual estimulante, falta de rigor acadêmico dos estudos e outras observações levaram a uma reformulação das escolas de administração, transformando-as em tipo de departamentos de estudos sociais aplicados, com pesquisas lançando mão de sofisticadas técnicas estatísticas e atentando para o rigor e testabilidade.

A partir daí ocorre uma aceleração no crescimento das menções aos termos na literatura. Mais ou menos na mesma época também passa a aparecer e a crescer a menção à expressão "citation index" - metodologia que se desenvolve a partir de meados da década de 1950 (Fig. 2).

Figura 2. Evolução do uso da expressão "citation index" em livros de língua inglesa. Fonte: Ngram Viewer.

Em 1968, os economistas Jack W. Skeels e Robert P. Fairbanks (que já deixam a questão clara no próprio título: "Publish or perish: An analysis of the mobility of publishing and nonpublishing economists") abrem o texto com: "Academicians generally recognize 'publish or perish' as an important factor affecting their careers. Debate centers on the extent to which publishing (P) or nonpublishing (P_0) alters career patterns and whether adminstrative talent and teaching skill act as partial substitutes for P (publishing)." (Skeels & Fairbanks 1968; grifo meu)
["Os acadêmicos geralmente reconhecem o 'publique ou pereça' como um importante fator a afetar suas carreiras. O debate gira em torno do quanto publicar (P) ou não publicar (P_0) afeta os padrões de carreira e se talento administrativo e habilidade docente atuam como substitutos parciais de publicar (P)."]

Aparentemente em menos de 10 anos a reformulação já se fazia sentir.

O matemático neerlandês Henk Barendregt, sobre a influência do matemático austríaco Georg Kreisel em sua carreira, conta a seguinte história.
"Kreisel often made me aware of my academic career. 'Take for example Heyting', he once said, 'with results not more technical than yours he became well-known.' Also Kreisel emphasized that one should publish one's results as soon as possible. With the present 'publish or perish' insanity, this may sound obvious, but in 1971 it was not." (Barendgret 1996; grifo meu)
["Kreisel frequentemente me alertava sobre minha carreira acadêica. 'Tome o exemplo de Heyting', disse uma vez, 'com resultados que não são mais técnicos do que os seus, ele ficou famoso'. Kreisel também enfatizava que se deveria publicar os resultados o mais rapidamente possível. Com a atual insanidade do 'publique ou pereça', isso pode soar óbvio, mas em 1971 não era."]

O avanço do "publish or perish", pelo jeito, foi mais lento fora dos EUA, mesmo na Europa. E, de acordo com os dados de Van Dalen & Henkens 2012 em uma pesquisa internacional com 730 demógrafos associados à União Internacional de Estudos Científicos da População (IUSSP), a intensidade da pressão percebida é também maior nos EUA, mas também presente em outras regiões: 74% dos pesquisadores americanos concordam (em parte ou totalmente) com a frase "a pressão em minha organização para publicar é alta"; entre canadenses, britânicos e australianos, são 71%; para europeus ocidentais (exceto britânicos): 59%; e 52% entre asiáticos, europeus orientais, latino-americanos e africanos. Parece haver mais apoio entre os pesquisadores americanos e de regiões menos desenvolvidas e uma visão mais negativa entre os pesquisadores europeus ocidentais (Tabela 1).

Tabela 1. Grau de concordância (%) sobre possíveis consequências da pressão a publicar em revistas internacionais com revisão por pares.
Frase EUA CAN, GBR, AUS EUR W ASIA, AL, AFR, EUR L
Revela o que há de melhor nos pesquisadores 57 44 48 66
Melhora a mobilidade ascencional na academia 63 64 56 78
Faz os pesquisadores virarem as costas para problemas nas políticas públicas 35 48 42 37
Reduz o incentivo a se publicar em revistas voltadas a questões do próprio país 32 70 70 48
Leva a um grande número de artigos não lidos 57 62 56 40
O quanto as consequências atribuídas ao "publish or perish" realmente ocorrem? A despeito da antiguidade do fenômeno, de sua pervasividade e ubiquidade interáreas e da quantidade de artigos dedicados ao tema: defendendo-o ou criticando-o, não é muito fácil encontrar artigos que testem as hipóteses levantadas.

Fronczak e colaboradores (2007) analisaram os fatores de produtividade em termos de publicação acadêmica modelando-os matematicamente. Confirmaram que pesquisadores com maior número de publicações no início da carreira tendem a ser os mais produtivos no futuro, compatível com a hipótese da vantagem cumulativa. A pressão do "publish or perish" foi modelada como uma influência externa (um campo externo em fisiquês) que leva aos cientistas a uma certa altura da carreira a publicarem uma dada quantidade média de artigos (de modo similar a que um gradiente de temperatura determina a distribuição de energia entre as partículas de um sistema). Uma interpretação disso - não explicitamente discutida de modo mais extenso pelos autores - é que as diferenças de produtividade entre pesquisadores no mesmo estágio da carreira surgem mesmo sob a suposição de que são essencialmente iguais em características pessoais, mais ou menos analogamente a que partículas idênticas de gás terão energias diferentes a uma dada temperatura (apenas a média será igual entre diferentes amostras aleatórias). Isto é, diferenças de quantidade de artigos publicados sob a pressão do "publique ou pereça" não revelam necessariamente diferenças de méritos.

Fanelli (2010) analisou uma das consequências da cultura de pressão à publicação. Em uma amostra aleatória de artigos publicados em que os autores correspondentes eram radicados nos EUA. Artigos em que os autores eram originários de instituições situados nos estados com maiores índices per capita de publicação tendiam a apresentar maior viés de publicação de resultados positivos.

Uma suspeita constante é que casos de fraudes e condutas antiéticas nas ciências seriam motivados em grande parte pela pressão de publicação. O aumento do número de artigos cancelados (retracted) poderia indicar uma maior incidência de má condutas. Mas estudo de Fanelli (2013) sugere que o aumento de artigos cancelados se deve a um maior rigor na vigilância, com poucos indícios de aumento de condutas fraudulentas.

Parece que a cultura do "publish or perish" nem leva ao que os defensores mais enfatizam: premiação do mérito, nem ao desastre temido por seus detratores: incentivo a condutas antiéticas. No entanto, o possível viés para a publicação de resultados positivos pode ser um ponto de preocupação.

(Importante frisar que não é um histórico completo; certamente muitos artigos relevantes sobre o tema foram deixados de lado. Esta análise parcial pode mudar se mais estudos forem considerados. Mas, como dito, tem sido difícil encontrar artigos com análises de dados a respeito do "publish or perish". Pode ser falha minha em não utilizar palavras-chave adequadas para busca no Google Scholar.)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Racismo no IB/USP? - O que Stephen J. Gould tem a nos dizer?

A propósito do possível caso de racismo no IB/USP, não pretendo aqui fazer pré-julgamentos. Que os devidos canais competentes: sindicância, Ministério Público, Polícia Civil, etc. façam a sua parte para apurar devidamente o ocorrido. E, por óbvio, que se punam os eventuais culpados.

A versão do IB segue na Nota de Esclarecimento publicada. A versão do coletivo Ocupação Preta está em uma postagem do grupo no facebook.

Quanto aos fatos as duas versões - incluindo a do professor de acordo com as reportagens, como a do G1 - parecem essencialmente compatíveis: há uma disciplina de pós-graduação em inglês para aperfeiçoar o domínio do idioma entre os estudantes (visando a uma melhora futura nos índices cienciométricos do instituto e da universidade no âmbito internacional), o professor utilizou como texto base para a aula um artigo editorial publicado na revista Medical Hypothesis em 2008 (uma defesa do argumento de James Watson a respeito da inferioridade intelectiva dos negros em relação aos brancos e asiáticos). Somente com esse conjunto de fatos é difícil apurar que tenha mesmo havido tentativa de incutir uma visão racista durante a aula. É perfeitamente possível, como argumenta o docente e o instituto, que o objetivo fosse analisar um tema polêmico.

Porém, à parte a aparente falta de cuidado devido na abordagem de um tema bastante delicado, a fonte escolhida é altamente inadequada do ponto de vista de sustentação de um debate científico. A Medical Hypothesis foi obrigada pela editora a adotar o peer review em 2010 após publicação de um artigo de Peter Duesberg sobre sua inválida hipótese de que o HIV não causa Aids. Ou seja, o artigo de 2008 não passou nem mesmo pelo processo de revisão pelos pares. Se a disciplina tem como objetivo, ainda que não imediato, de preparar os alunos à submissão de trabalhos em revistas internacionais, usar como modelo um artigo publicado em periódico que não segue os padrões usuais - e, em decorrência disso, não tem a melhor reputação no meio científico - não parece a melhor escolha.

Quanto à validade dos dados para sustentar a discussão. Em março publiquei na revista ComCiência uma resenha do livro "A falsa medida do homem" de Stephen J. Gould a respeito das medidas de inteligência e seu uso na ideologia da inferioridade racial dos negros. Reproduzo trechos abaixo:
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Na segunda edição, Gould ainda mantém um forte ceticismo a respeito da correlação entre inteligência e tamanho cerebral. Na crítica a Gould, Rushton cita estudos com ressonância magnética que mostram a ligação entre volume do cérebro e QI. Deve-se ter em mente, porém, que isso não chega a ser central na argumentação geral de Gould. Por um lado, um de seus questionamentos era exatamente se o QI mediria mesmo a inteligência. De outro, para ele, o problema é a caracterização da inteligência como um pacote “descritível como um único número, capaz de classificar pessoas em uma ordem linear, com base genética e efetivamente imutável”. Na visão de Gould, mesmo que a craniometria (e sua correspondente moderna de medição do volume cerebral por meio de ressonância magnética) e a psicometria (essencialmente os testes de QI) sejam eficazes em medir algo que chamamos de inteligência e que a inteligência seja algo herdável, isso não significa que seja algo imutável. Assim como a inteligência, ele exemplifica, mesmo a miopia sendo uma característica herdável, podemos efetivamente fazer algo para eliminar seus efeitos: usar lentes corretivas. No caso da inteligência, ainda que possua componentes genéticos (como estudos recentes tendem a confirmar; a exemplo do trabalho da equipe de Gail Davies, de 2011), ela pode ser cultivada e melhorada por conta de fatores ambientais: boa alimentação na infância e acesso a uma boa educação.

Gould se voltava justamente contra a conclusão de que, sendo hereditária e imutável, a medição do QI (ou do tamanho craniano) indicava o destino certeiro das potencialidades dos indivíduos. Nesse sentido, sua decisão de não se ater excessivamente a questões factuais de natureza científica – se a inteligência é ou não herdável, se ela pode ou não ser medida por um único índice, o que significa o fator “g” de Spearman – parece justificada. Ao deter-se mais a respeito da ideologia por trás dos fundadores da visão biodeterminista da inteligência e de como ela molda os argumentos pretensamente objetivos, o cerne de obra se mantém de pé mesmo hoje, 34 anos após a primeira edição (19 anos após a segunda). Guido Barbujani, em um artigo de 2013, sobre o trigésimo aniversário de A falsa medida do homem, reconhece a contribuição de Gould (e outros como Richard Lewontin, biólogo evolutivo, e Frank B. Livingstone, bioantropólogo, ambos americanos) em questionar a utilidade de “raça” como um conceito aplicável à espécie humana – quando a diversidade dentro de cada grupo (“raça”) tende a ser maior do que a diversidade entre os grupos.

A declaração do nobelista americano James Watson ao jornal inglês The Times, em 2007, de que os negros são inerentemente menos inteligentes, e a exibição, em 2009, de documentário no canal inglês Channel 4 com cientistas ecoando Watson também nos convidam a revisitar a obra clássica de Gould, ainda que alguns detalhes factuais possam não ter resistido ao teste do tempo.
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Disclêimer(29/abr/2015): Tenho vínculos acadêmicos (formei-me pelo IB/USP e fiz minha pós lá) e afetivos (não se passam 12 anos - mesmo com interregno - impunes em um mesmo local).

terça-feira, 10 de março de 2015

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 7

Aparentemente a discussão pode ser mais ampla do que o círculo dos blogues filomáticos brasileiros (ou lusófonos).

Carlos Hotta chamou a atenção para uma discussão similar no âmbito internacional - ao menos anglófono. Muitos dos elementos levantados são similares à discussão que travamos quanto ao cenário brasilo-lusófono.

Bia Granja discutiu a crise no contexto dos blogues brasileiros de modo geral - não os de ciências.

Curiosamente o debate sobre crise e morte se dá quando parece que os trabalhos acadêmicos sobre blogues começam a se multiplicar. Só no Labjor, desde 2013, tivemos duas defesas de mestrado sobre o tema e há mais uma a caminho:
2013 - Vanessa Fagundes: "Blogs de ciência: comunicação, participação e as rachaduras na torre de marfim".
2015 - Meghie Rodrigues: "Entre jalecos brancos e Blackberries: as novas tecnologias e os modelos de divulgação científica".
TBA - Bruno de Pierro: "Descentralização da informação científica na Internet: o abismo entre a proliferação híbrida e o engano da interação por justaposição".

No Google Scholar, a busca por "science blogs" resulta no gráfico abaixo (Fig. 1):

Figura 1. Evolução do número de resultados no Google Scholar para busca por "science blogs".

(Não filtrei por falsos hits; creio que isso não afete a tendência geral.)

Uma explicação possível é que os trabalhos acadêmicos sempre têm um delay na publicação. No caso de doutorado, tem os 4 anos da pesquisa, mais cerca de 1 ano para a publicação final dos artigos. Haverá uma queda a partir deste ano dos trabalhos acadêmicos sobre blogues de ciências? Talvez. Ou talvez leve mais alguns anos - pode haver também um lapso entre a queda da relevância do tópico e a queda do interesse pela academia (como há entre o aumento da relevância do tópico e o início do interesse pela academia). Mas, com a discussão a respeito da crise, um tanto paradoxalmente (mas não muito), poderia ainda *aumentar* o interesse pela academia: tentando investigar se há mesmo uma crise quais seriam as causas e as consequências.

Um popperiano mais empedernido poderia imaginar que o parágrafo acima sobre os possíveis efeitos da crise na pesquisa acadêmica sobre blogues científicos e cientofílicos prevê tanto uma coisa como seu oposto, não sendo, portanto, uma previsão propriamente dita. Mas, embora não seja uma previsão que se pretenda científica, não é uma infalseável. Terá notado o atento leitor que são previsões distintas: por exemplo, a hipótese do aumento prevê que seria pela investigação sobre uma crise atribuída - nesse caso, deveriam aumentar os trabalhos que pesquisem os blogues de ciência sob a perspective de crise, não de um interesse geral - sobre, p.e., o impacto discursivo ou o efeito didático dos blogues.

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Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 2
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 3
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 4
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 5
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 6

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