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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Da alegada edição genética de bebês chineses

Manterei aqui uma lista de textos de análise pela DCsfera sobre o caso da edição gênica de embriões humanos pela tecnologia CRISPR por um cientista chinês - em que pelo menos dois foram implantados e deram origem a dois bebês gêmeos.

Lygia da Veiga Pereira. (O Globo). 27/nov/18. O limite entre ousadia e irresponsabilidade.
Mayana Zatz. (Rádio USP) 28/nov/18. Arriscada, edição gênica de bebês chineses desconsiderou ética (áudio)
(Dispersciência) 29/nov/18. Bebês modificados geneticamente/DisperDebate. (vídeo)
Ed Yong. (The Atlantic) 03/dez/18. The CRISPR baby scandal gets worse by the day
Pirula. (Canal do Pirula) 04/dezq18. CRISPR/Cas9 e os bebês geneticamente modificados na China (vídeo)
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Eu recomendo particularmente o artigo de Ed Yong, que compila os principais pontos problemáticos do feito.

(A lista será atualizada à medida que eu souber de mais textos.)

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

#EleNão

Sempre procurei não abordar a questão política diretamente aqui - existem diferença de visões de mundo que não são diretamente tratáveis com ciência e o direito de as pessoas terem tais diferenças de visões deve ser respeitado. Claro que, de um modo, a política está presente em tudo. Inclusive nas ciências.

A escolha de se ouvirem ou não os cientistas na hora de se definir políticas públicas como o Código Florestal, assinar tratados sobre controle de emissões de gases de efeito-estufa, o currículo nacional nas escolas públicas, as vacinas que serão incluídas na calendário de imunização, etc, etc. é uma decisão política. O quanto se irá investir em P&D, se irão organizar um ministério próprio de C&T ou misturá-lo com outras pastas, se irão priorizar um campo de conhecimento, etc, etc. é uma decisão política.

Mas estamos em um momento em que isso tudo pode ser afetado de modo dramático. E, não apenas isso, valores fundamentais como liberdade individual (direito à expressão, à sexualidade, à informação, à religiosidade ou à não-religiosidade, etc, etc.) estão em jogo. Valores tão básicos como direito à vida estão em jogo. Pessoas já morreram indubitavelmente por motivação calcada nos discursos de um dos candidatos. Um discurso contra as minorias, um discurso de defesa da violência física contra adversários, a apologia à tortura, um discurso de desprezo à democracia.

Omitir-se quanto a isso é dizer que isso é uma alternativa aceitável. Tão aceitável quanto a outra, que não prega nada disso - por mais divergências que alguém possa ter a respeito de outros aspectos ideológicos e visão sobre questões como a economia.

Não é. Não é uma alternativa aceitável. Mesmo na hipótese de que tal candidato seja apenas um bufão e não pense de verdade o que diz, o que diz já está causando efeitos terríveis sobre a vida e a liberdade das pessoas que pensam diferente, que são diferentes. O discurso desse candidato é tão claramente violento e antidemocrático, que é de grupos violentos e antidemocráticos que têm recebido apoio (mesmo que o candidato recuse).

E não apenas o candidato diz coisas terríveis. Todos os sinais das pessoas ao seu redor: seu vice, seus potenciais ministros e coordenadores de campanha - são péssimos sinais no que diz respeito à manutenção da liberdade e da democracia.

Este é e será sempre um blogue de ciências. Mas agora não é apenas questão de ciências - que, a propósito, também indicam que o candidato é a pior escolha possível: por seus feitos e propostas que devem piorar a própria ciência brasileira, e também por um programa que vai contra o que indicam os melhores dados científicos (p.e. armar a população tende a piorar a violência: casas com armas têm uma probabilidade *maior* de que seus moradores morram vítimas de homicídios) -, é mais do que isso. É a civilização contra a barbárie. É a vida contra a violência.

#EleNão
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Veja também:
Dragões de Garagem (17.out.2018): Dragões de Garagem em Defesa da Democracia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"Por que e como investir em divulgação científica?"

No dia 29 de julho, foi realizado o Conhecer Eleições 2018 uma série de sabatinas com, então, pré-candidatos à Presidência da República e representantes, a respeito de propostas e plataformas para a Ciência. Organizado conjuntamente pela equipe do DispersciênciaScience Vlogs Brasil e Huffpost Brasil (HPB), contou com a participação de jornalistas, cientistas e divulgadores científicos nas bancas de entrevistadores, a íntegra pode ser vista no YouTube.

Como preparação para o evento, uma série de artigos foram publicados no HPB com análises e diagnósticos dos problemas da ciência e da divulgação científica brasileira que poderiam ser abordados pelos projetos dos (pré-)candidatos. A mim foi encomendado um texto sobre "por que e como investir em divulgação científica?". A versão final saiu com o título: "O papel da ciência e dos divulgadores científicos no desenvolvimento da sociedade".

Abaixo reproduzo não essa versão publicada, mas (com pequenas modificações) a inicial - realmente era inadequada ao canal (não tinha captado bem a proposta nesse primeiro momento, pensei mais nos próprios divulgadores e não no público geral), que, não obstante, creio trazer mais detalhes pertinentes aqui.

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"Por que e como investir em divulgação científica?"

[...] Confesso, no entanto, que não me considero habilitado a dar respostas definitivas a elas, em particular para a segunda. Mas podemos nos aventurar em algumas tentativas de respostas.

"Por que investir em divulgação científica?" é, das duas, a pergunta mais fácil... ou menos difícil. Sim, não há um consenso entre as pessoas que estudam e praticam a ciência e a arte de trazer para o público temas relacionados às ciências de qual é, afinal, a importância da atividade. No entanto, embora as respostas eventualmente ocasionem brigas de foices entre os especialistas, podemos mapear as motivações preferenciais dos diferentes autores, grupos e comunicadores. P.e. Thomas & Durant 1987 agruparam os motivos para se fazer divulgação científica em 9 classes; Martín-Sempere  et al. 2008, em 4; Semir & Revuelta 2010, em 5; Besley et al 2017, em 8. Aqui proponho apenas três (e um quarto de miscelâneas).

Um pacote de respostas podemos classificar bem grosseiramente como de natureza egoísta corporativista: elas apontam as vantagens da comunicação para a própria comunidade científica e acadêmica. Por exemplo, as atividades de divulgação podem ajudar a atrair novos talentos (muitos da geração atual de divulgadores e de cientistas - ali na casa dos trintas anos - tiveram como inspiração inicial "O Mundo de Beakman"), podem ajudar a manter ou aumentar a confiança pública na comunidade científica (o que é bem preocupante em relação a certos temas como mudanças climáticas em que certos grupos resistem a aceitar as conclusões defendidas pela quase totalidade dos pesquisadores) ou aumentar a visibilidade do trabalho (alguns estudos indicam que artigos científicos que recebem cobertura midiática acabam sendo mais citados - na média - do que artigos ignorados pela mídia). Por egoísta corporativista não quero dizer que sejam motivações ruins ou erradas, apenas que o objetivo é voltado mais para os interesses dos próprios cientistas - mas que podem beneficiar também a sociedade e indivíduos não ligados à academia.

Outro conjunto de respostas podemos nomear de cívico democrático: os argumentos gravitam em torno de questões de benefícios do público e da sociedade. Muitas decisões importantes, como regulamentação de novas tecnologias, protocolos de mitigação de efeitos do aquecimento global ou inclusão de novas vacinas no calendário de imunização nacional, passam por se ter conhecimentos científicos embasados. A divulgação científica pode ajudar a população trazendo não apenas informações a respeito, mas a ajudando a contextualizar tais informações: que interesses estão em jogo, quais os riscos, qual o grau de incerteza em torno dos resultados? Nesta linha também incluímos correlações entre desenvolvimento econômico e o grau de conhecimento científico da população ou a necessidade de se prestar contas à sociedade, que financia as ciências. Possivelmente uma das variantes mais conhecidas desta modalidade seja a de Carl Sagan em seu clássico "O Mundo Assombrado pelos Demônios": "Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e toda as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara." O cívico democrático não deixa de ser algo egoísta na medida em que, se as coisas desandarem como os que sustentam esses argumentos sugerem, também seria contra os interesses destes.

E um terceiro, denominável de festivo cultural. Argumentos dessa estirpe enfatizam o conhecimento pelo conhecimento, a diversão proporcionada tanto pelo que se sabe sobre ciências quanto pelo próprio processo de aquisição de informações por meio do chamado edutainment, o apelo estético e as relações com as artes.

Podemos notar que os argumentos podem se prestar a mais de uma categoria: o citado "O Mundo de Beakman" objetiva mais à educação informal por meio da diversão, mas com consequências previsíveis de encantar parte da audiência e induzi-la a seguir carreira em alguma área científica. Alguns eventualmente não se encaixarão nessas grandes categorias mais gerais.

Ok, mesmo não havendo consenso, há vários tipos de argumentos para por que investir em divulgação científica que podemos escolher, isoladamente ou em conjunto (ou em baciada). E quanto à segunda pergunta?

De um jeito ou de outro é importante comunicarmos sobre ciência ao público, mas como fazer isso? Embora estudos sobre a comunicação de ciências ao público venham sendo feitos há bem uns 60 anos; somente há coisa de 10 anos o corpo de conhecimentos acumulados sobre o que funciona ou não na divulgação científica começou a ser sistematizado com tentativas de criação de modelos de comunicação que mapeiam importantes fatores que influenciam - positiva ou negativamente - a troca de informações sobre ciências (vide, por exemplo, Trench 2008 ou Eveland et al. 2013).

Certamente ainda há muita coisa que falta se estudar mais e a maior parte do que se sabe é baseada em estudos com alunos de universidades americanas atrás de créditos para se formarem. O que representa um porção bastante restrita da diversidade de público que encontraremos na população em geral. Além disso, as mudanças da paisagem de comunicação, com uma maior segmentação ocasionada pela ascensão das mídias sociais frente às mídias tradicionais, tem trazido novos desafios, em que estratégias de comunicação em massa - sobre as quais a maior parte do conhecimento acumulado recai - podem não mais funcionar. Mas não devemos ignorar esse tanto que se sabe, mesmo que não haja garantias de que funcionará em um contexto diferente. P.e. pelos estudos sabemos que a forma mais comum com que enfrentamos uma notícia falsa ou hoax: geralmente apresentando primeiro o boato - descrevendo em detalhes a história que circula - e só depois tratar da refutação, pode ter um efeito contrário ao aumentar a crença das pessoas na história que se deseja demonstrar falsa. Reapresentar o boato acaba ajudando a fixá-lo na memória dos incautos e, mais tarde, poderá tomar o fato de ele lhe ser familiar como indicador de que seja verdadeiro. Há alguma discussão a respeito de qual a melhor maneira de enfrentar esse problema (Peter & Koch 2016 propõem fazer com que o receptor da informação julgue o boato tão logo seja informado da história e de sua refutação; o relatório de consenso sobre comunicação pública efetiva de ciências da Academia Americana de Ciências, Engenharia e Medicina, de 2017, propõe que se evite uma refutação longa e complexa de um boato originalmente curto e simples; Bastian 2017 defende que não há ainda um caso forte para se defender nenhum tipo de recomendação específica). De todo modo, pelo menos à primeira vista, essas conclusões sobre a necessidade de se atentar para esses fenômenos não devem se alterar pela mudança dos meios de comunicação.

Dos estudos de psicologia cognitiva e social, um modelo do funcionamento de nossa mente tem sido bastante defendido entre os especialistas: o das duas vias de processamento de informações. Uma rápida, mais intuitiva, e uma mais lenta, mais analítica. Nós usamos na maior parte do tempo a primeira via, que, aparentemente, demanda menos energia e esforço. Ela nos ajuda a tomar decisões rápidas, porém está sujeita a muitos erros induzidos pelos atalhos utilizados - o efeito mencionado mais acima sobre notícias falsas da familiaridade de uma informação levar a se tomá-la como verdadeira é um desses atalhos com grande potencial a levar a erros de julgamentos. Certas condições experimentais parecem induzir a ativação da segunda via. Por exemplo, fazer com que uma pessoa resolva determinados tipos de exercícios matemáticos de comparação de proporções parece levar a que ela examine mais atenta e detidamente alegações que lhe são apresentadas logo em seguida. Potencialmente, comunicações que se aproveitem dessas características para gerar mensagens que, ou seja mais facilmente assimiladas pela via rápida, ou que ativem a via analítica para tentar barrar a aceitação de dadas alegações sem exame prévio poderiam ser mais eficientes.

Somando às mencionadas incertezas quanto à aplicabilidade dessas conclusões para grupos culturalmente distintos dos sujeitos experimentais em que tais estudos foram validados, é difícil dar uma receita de qual o melhor modo de se fazer a divulgação científica em casos concretos. Esse conhecimento parcialmente consolidado, no entanto, é muito útil ao fornecer parâmetros em que devemos prestar atenção ao desenvolvermos nossas estratégias e trabalhos de comunicação. Idealmente, para cada caso devemos fazer pequenos estudos pilotos e avaliações periódicas para verificar o que funciona para a situação específica: aquele tema para aquela população com aquelas mídias disponíveis com aquela quantidade de dinheiro que temos para investir no projeto, etc. Na impossibilidade disso, podemos usar como guia, mais do que nossas intuições, preconcepções e experiências pessoais, esse conjunto sempre crescente de conhecimento científico da nascente área da ciência da comunicação de ciências. Se não há uma receita pronta de bolo, há um conjunto de utensílios e ingredientes pré-testados para cada qual preparar seu próprio confeito personalizado.

Respeitando o estilo pessoal de cada divulgador e mirando as características particulares de cada grupo, vejo a divulgação científica cada vez mais como um ecossistema com cada divulgador ou projeto atendendo um nicho, uma especialidade, e eventualmente "concorrendo" entre si, numa grande teia de colaborações diretas e indiretas.

Mas temos que notar que esse tipo de conhecimento leva a questionamentos éticos bastante sérios. O quanto se valer desses macetes corresponde uma tentativa de manipulação do público?

Então, como devemos fazer divulgação de ciências? Uma tentativa de resposta (admito, um tanto elusiva) é: cientificamente, mas também eticamente.

Divulgador de ciências freelancer e autor do blog Gene Repórter, colabora com vários projetos de divulgação científica: Blogs de Ciência da Unicamp (ASCOM/Labjor-Unicamp), podcast Oxigênio (Labjor/RTV Unicamp), Pint of Science Campinas.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional (1818-2018)

"Só espero que não seja necessário ocorrer algum desastre provocado por problemas de manutenção para que as autoridades resolvam tomar medidas positivas para a mudança do quadro atual."
Alexander Kellner, 13.jan.2012 
"O Brasil não sabe da grandeza, da riqueza disso aqui. Se soubesse, não deixaria chegar neste estado."
AK, mai.2018

Aqui um registro dos depoimentos, relatos e análises dos divulgadores de ciência sobre o desastre do incêndio do Museu Nacional. À medida em que souber de mais materiais, acrescento aqui.
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Walter Neves. Cientistas Engajados (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Pirula. Canal do Pirula (02/set/2018): Fim do Museu Nacional. (vídeo)
Isis Nóbile Diniz. Xis-Xis (02/set/2018): Museu Nacional pega fogo. Fim.
Sabine Righetti. Abecedário (02/set/2018): Perda de acervo raro do Museu Nacional afeta ciência e educação básica do país.
Hugo Fernandes-Ferreira. (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Emílio Garcia. 120 segundos (02/set/2018): Incêndio do Museu Nacional!!! (vídeo)
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (02/set/2018): É a sua história que está queimando.
SciCast. Spin #296. (03.set.2018) Museu Nacional - 21|18.
Ciência Explica (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional: reflexo de um governo que não se importa com ciência e cultura.
Luiz Bento (03.set.2018): Uma carta para minha filha sobre o Museu Nacional.
Camila Laranjeira. Peixe Babel (03.set.2018): [Luto] Museu Nacional. (vídeo)
Maurício Tuffani. Direto da Ciência (03.set.2018): Tragédia do Museu Nacional mostra déficit civilizatório do Brasil.
Ana Arnt. PEmCie (03.set.2018): A casa de Luzia (ou sobre o Luto pelo Museu Nacional).
Sérgio Sacani. Space Today (03.set.2018): Bate-Papo Sobre o Museu Nacionall. (vídeo)
Aline Ghilardi & Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (03.set.2018): A Queda do Museu Nacional: desabafo de dois cientistas. (vídeo)
Millor Fernandes. Normose (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional - Você sabe quem é o culpado? (vídeo)
Estêvão Slow. Canal do Slow (03.set.218): Museu Nacional em Chamas!!! (e daí?) (vídeo)
Caio Gomes. O Físico Turista (03.set.2018): Destruição do Museu Nacional. (vídeo)
Meteoro (04.set.2018): "Museu Nacional: encontre o culpado". (vídeo)
Orlando Calheiros. Ciência na Rua (04.set.2018): Aquilo que se perdeu com o Museu Nacional.
Davi Simões. Primata Falante (05.set.2018): "Incêndio do Museu Nacional: Tragédia inesperada ou projeto de sociedade?"
Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (05.set.2018): Sr. Prefeito, não basta só reconstruir o Museu. (vídeo)
Maíra Padgurschi. Biota+10 (05.set.2018). Museu Nacional (1818*-2018†).
Jefferson Picança. PaleoMundo (05.set.2018): O Museu, você e eu.
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (11.set.2018): Museu Nacional: Perguntas, respostas e lições, um compilado de (quase) tudo.
Filipe Figueiredo. Nerdologia (11.set.2018): O nosso Museu Nacional. (vídeo)
Atila Iamarino. Nerdologia (13.set.2018): O passado perdido do Museu Nacional. (vídeo)
Davi Calazans. Ponto em Comum (13.set.2018): O incêndio do Museu Nacional: onde eu estava? (vídeo)
Pedro Loos. Ciência todo Dia (13.set.2018): O Dia em que a Nossa História Queimou. (vídeo)
Sidcley Lyra (14.set.2018): O dia em que eu chorei com o diretor do Museu Nacional.
Dispersciência (15.set.2018): Memórias vivas do Museu Nacional. (vídeo)
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Labjor (03.set.2018): Nota de pesar – incêndio no Museu Nacional/UFRJ.
Daniela Klebis (03.set.2018): Perda inestimável: entidades científicas lamentam incêndio no Museu Nacional.
Jornal da USP. (03.set.2018): Um retrato do descaso com a cultura e a pesquisa no Brasil.

Manifesto SBPC, ABC e outras. (04.set.2018): "A Vida e a Morte da Ciência e da Memória Nacionais"
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Alguns textos sobre o bicentenário do MN anteriores ao incêndio.
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Rodrigo de Oliveira Andrade. Pesquisa Fapesp. mai/2018. Para voltar aos velhos tempos.
Allison Almeida. Ciência e Cultura. jul/set. 2018: Museu Nacional celebra 200 anos.
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Conhecendo Museus (06.ago.2012): Episódio 13: Museu Nacional -- UFRJ.

Turma do Penadinho (21.set.2018): Insubstituível!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Minha cordial (e natural) mas marcada e severa divergência do Dr. Max Langer

Na edição de 28 de julho do caderno Ilustríssima, o Prof. Dr. Max Langer, eminente paleontólogo brasileiro, publicou sua visão (cuidado! contém paywall poroso!) a respeito da ação humana no ambiente, particularmente no efeito sobre outras espécies, levadas a ou em vias de desaparecer por culpa direta e indireta de nossa atuação: poluição, desmatamento, caça, pesca, introdução de doenças, predadores e competidores... Fiquei um tempo pensando se respondia ou não - alguns amigos meus ficaram de responder também, achei que seria redundante - e, como se percebe, acabei optando por fazê-lo.

A divergência começa logo na primeira frase. "Vivemos um momento na história da humanidade em que as atitudes ditas ambientalmente corretas são aceitas de forma quase unânime e sem maiores questionamentos, seja na esfera científica, seja na política, na educacional ou na social."

Fiquei pelo menos uns 5 minutos pensando e não consegui encontrar muita coisa de que eu pudesse factualmente discordar mais - sei lá, talvez se ele tivesse dito que a evolução não ocorre. A situação atual de mudanças climáticas e acelerada taxa de extinção (muito mais alta do que a taxa normal - de fundo) de espécies só ocorre exatamente porque somos ambientalmente *IN*corretos. Cada mudança na legislação para diminuir nosso impacto deletério sobre o ambiente é uma batalha e muitas são perdidas (retrocesso do código florestal alguém?). A despeito das inúmeras cúpulas, tratados e relatórios do IPCC, as emissões dos gases de efeito estufa só aumentam ano a ano (Fig. 1).

Figura 1. Emissões globais anuais de equivalentes de carbono. Fonte: CDIAC.

Conhecedor da história geológica da Terra que é, Langer desfila a relação de algumas mudanças dramáticas nas condições de clima e composição atmosférica pela qual o planeta passou conforme podemos ler nos registros geológicos e fossilíferos. Tais mudanças deixam marcas na composição química dos minerais - como ferro oxidado indicando uma maior quantidade de oxigênio na atmosfera -, e nas características dos fósseis - por exemplo, espécies tropicais em latitudes mais altas nos fazem suspeitar que a temperatura global era maior (e isso pode ser verificado independentemente com a composição de isótopos de oxigênio, por exemplo, em calcário: temperaturas mais altas diminuem a solubilidade mais de um isótopo do que de outro). Estão também registrados intensos episódios de extinção, quando fósseis de grupos abundantes em camadas mais profundas de rochas deixam de ser encontrados em camadas logo acima.

Aqui um ponto de concordância com o professor. Sim, isso mostra que episódios de alterações ambientais são recorrentes e que, sim, extinções são naturais. Concordo até com o elemento-chave de sua argumentação: "A resposta é simples: as extinções em curso não diferem dessas outras, a não ser pelo agente causador."

Mas, então, qual o babado? O babado é o truque semântico ao se usar a palavra "natural". Sim, nossas ações são naturais no sentido de que ocorrem na natureza, de que estão de acordo com as leis físicas, químicas e biológicas conhecidas. Porém, do mesmo modo, a violência é natural. Animais praticam violência: primatas cometem infanticídio, guerras, roubos, estupros. E os humanos, uma espécie de primata, também. E isso não viola nenhuma lei física ou química. E segue até uma explicação de natureza biológica - um certo nível de violência, do ponto de vista evolutivo, é até adaptativo: ajuda a deixar mais descendentes na próxima geração.

Agora, isso significa que, como a violência é natural, devemos aceitá-la? Oras, a história da civilização - entre indas e vindas - é exatamente a de se conter tal violência. Em alguns casos ritualizá-la como em demonstrações esportivas. Mas no geral contê-la por meio de punições convencionadas: prisões e, em alguns lugares, inclusive a pena capital. Até mesmo quando o agente violento, ao contrário de nós, é incapaz de refletir a respeito de suas próprias ações, nós atuamos para conter tal violência: capturamos animais perigosos que apareçam nas imediações de povoados (não raro os sacrificamos), marcamos culturalmente certas plantas como inadequadas ao consumo, criamos serviços de alertas de tsunamis, tempestades e deslizamentos e investimos milhões em pesquisas para previsão de terremotos.

A palavra "natural" tem uma pluralidade de sentidos e validá-la em um não implica na validação automática em outros. Há até um termo lógico-filosófico para isso: a falácia naturalista ou apelo à natureza. O "a não ser pelo agente causador" é fundamental aqui em um ponto: o tal agente somos nós e nós somos dotados de uma capacidade intelectiva que permite prever e avaliar as consequências dos atos. Nós, ao contrário de uma tempestade que destrói casas e ceifa vidas, podemos ser responsabilizados.

Isto é, independentemente da natureza da causa isso não é um impeditivo para que atuemos para evitar as consequências e, se possível, debelar a causa. E, ligado à natureza da causa, podemos - e devemos - responsabilizar o agente quando este é consciente.

Langer pontua a respeito das incertezas existentes em relação ao nível da taxa de extinção atual. Mas, embora, sim, mais estudos devam continuar a serem feitos para refinar as estimativas, isso não deve ser um convite à inação. Há dados suficientes para um cálculo, ainda que os números comportem uma faixa de incógnita - sim, pode ser sensivelmente mais baixo; e, sim, pode ser sensivelmente mais alto. Há um risco e tal risco deve ser abordado. Especialmente porque as consequências são bem danosas (a extinção de anfíbios pode levar a um grande aumento de vetores de doenças, p.e.). Além disso, há casos bem documentados de animais que foram extintos mais diretamente por ação humana: como o dodô, a vaca-marina-de-steller, o pombo passageiro, a alca-gigante... Sem falar em populações locais. Temos responsabilidade direta sobre isso. Por mais natural que seja a caça, por mais natural que seja derrubar florestas para construir casas.

Assim, em resposta à conclusão de Langer: "Se, nesse processo, levarmos algumas à extinção, certamente não seremos os primeiros" - devo dizer que, tanto quanto os registros geológicos e paleontológicos nos permitem saber, somos os primeiros seres conscientes a fazê-lo (e serão bem mais do que "algumas"). E grande é a nossa responsabilidade, como diria um certo amigo da vizinhança.

Veja também:
24.ago Darwin & Deus/Alex Hubbe & Olívia Mendonça-Furtado: "Não fazer nada é o melhor que podemos fazer sobre o nosso futuro?" (cuidado! contém paywall poroso)
26.ago Folha/Reinaldo José Lopes: "Homem não pode ignorar efeitos das transformações que causa no planeta" (cuidado! contém paywall poroso)

sábado, 11 de agosto de 2018

Como é que é? - Não tem urso na América Latina?

Alguns memes e postagens têm sugerido que ursos são animais restritos ao Hemisfério Norte, não representando a fauna sul-americana nem a latino-americana.

Mesmo descontando o fato de haver populações de ursos pretos no México, há populações de uma espécie exclusiva da América no Sul - o urso-de-óculos (Tremarctus ornatus) - na região norte dos Andes, da Bolívia à Venezuela, passando por Peru, Equador e Colômbia - e aparentemente presente também na Argentina. (Fig. 1 e 2.)

Figura 1. Distribuição mundial de espécie de ursos. Ursus maritimus: urso polar; U. artcos: urso pardo; U. americanus: urso negro; U. malayanus: urso-malaio; U. ursinus: urso-preguiça; U. thibetanus: urso negro asiático; Tremarctos ornatus: urso-de-óculos. Não mostrado na figura, Ailuropoda melanoleuca: panda gigante (restrito a florestas de bambu na China). Fonte: Kumar et al. 2017.

Figura 2. Urso-de-óculos (Tremarctos ornatus), única espécie atual de urso nativo da América do Sul. Fonte. Wikimedia Commons.

Embora as relações entre as espécies atuais de ursos seja mais ou menos bem resolvida: a linhagem dos pandas divergindo da que daria a origem às demais entre 18 e 22 milhões de anos atrás (Maa), e a linhagem dos ursos-de-óculos divergindo da dos outros ursos 12 a 16 Maa; a história da família dos ursos é um pouco mais nebulosa. Os ursídeos devem ter se separado da linhagem que levaria às focas entre 26 e 48 Maa. (Krause et al. 2008.)

A subfamília do urso-de-óculos: a Tremarctinae, pode ter aparecido na América do Norte num período em que a América do Sul era uma gigantesca ilha-continente separada do resto (ela começou a se separar da África por volta de 120 Maa). Quando a América do Sul se aproximou da América do Norte, a América Central começou a se soerguer - por volta de 4,5 a 15 Maa (Montes et al. 2015). A conexão levou a uma intensa troca de espécies entre as duas porções, num evento chamado de Grande Intercâmbio Biótico Americano. E os ursos não ficaram de fora.

Fósseis de ursos mais antigos na América do Sul são de cerca de 1,5 a 2 Maa; mas outra espécie do mesmo gênero do urso sul-americano era encontrada onde hoje é o sul dos EUA, da Flórida à Califórnia (e se estendendo a área até o Tennessse ao norte): T. floridanus - atualmente extinta, os fósseis mais antigos são de cerca de 3 Maa. Um outro gênero da subfamília, próximo ao gênero Tremarctos, é o Arctotherium e os fósseis destes são encontrados apenas na América do Sul. A separação entre os dois gêneros deve ter ocorrido por volta de 4 Maa (Fig 3.). Então a migração dos ursos da América do Norte para a América do Sul deve ter pelo menos essa idade. (Mitchell et al. 2016.)

Figura 3. Distribuição temporal e relações de parentescos entre ursos da subfamília Tremarctinae. Em azul, espécies da América do Norte; em vermelho, da América do Sul. Borophagus e Chapalmalania não são da família dos ursos - são respectivamente da família dos cães e dos guaxinins; Agriotherium é um urso de outra subfamília. Fonte: Mitchell et al. 2016.

Os ursos, assim, estão há pelo menos 4 milhões de anos na América do Sul - muito antes da nossa espécie aparecer na face da Terra. E, embora hoje reste apenas uma espécie, sua diversidade foi maior por aqui - pelo menos 6 espécies (praticamente a mesma diversidade de ursos atual em todo o mundo!) e estiveram distribuídos por todo o (sub)continente: no Nordeste e Sudeste brasileiros, no Uruguai e noroeste da Argentina e no sul da Patagônia (Soibelzon & Bond 2005).

Não é justo negar cidadania ao urso-de-óculos. É mais latino-americano e sul-americano do que nós.

Infelizmente sua situação ecológica inspira cuidados devido à perda de hábitat e às mudanças climáticas. A União Internacional para a Conservação da Natureza a considera uma espécie vulnerável.

sábado, 4 de agosto de 2018

Ciência: a longa (longa) marcha 4

Em 2 de agosto, veio à tona uma carta escrita de véspera pelo presidente da Capes dirigida ao Ministro da Educação Rossieli Sorares, alertando para a possibilidade de suspensão de mais de 200 mil bolsas de pós-graduação e de iniciação à docência (Pibid), além do funcionamento da Universidade Aberta do Brasil e cooperações internacionais a partir de agosto de 2019 em função do teto orçamentário repassado ao órgão pelo MEC que é inferior ao orçamento de 2018.

A notícia repercutiu fortemente na comunidade científica e, particularmente, entre os pós-graduandos. Tão intenso foi o processo que se decidiu marcar uma manifestação já no dia seguinte, no vão do Masp. Sem organização central, o evento contou com a participação de várias instituições: ANPG, UNE, Cientistas Engajados, Pesquisadorxs em Luta (que convocou a manifestação), além do apoio na divulgação de vários divulgadores científicos.

A despeito do pouquíssimo tempo e da chuva que caiu o dia inteiro, acabou comparecendo um bom público: alguma coisa entre 200 e 500 pessoas. (Na minha estimativa, cerca de 230-250 participantes.) Que decidiram in loco sair em marcha do vão do Masp até o prédio onde fica o escritório da Presidência da República. Duas faixas da avenida Paulista foram ocupadas pela passeata, escoltada por batedores e viaturas da PM e do CET. A manifestação durou das 16 até mais ou menos 19h30 e recebeu boa cobertura da mídia.

Abaixo, meu registro do protesto:


Mais ou menos ao mesmo tempo, um ato foi realizado também no Rio de Janeiro.

Outros atos já foram agendados e novos deverão ser realizados.
05.ago. São Paulo/SP. Av. Paulista, 2.163. 15h. 
06 ago. Manaus/AM. FACED/UFAM. 12h.
06.ago. Porto Alegre/RS. APG/UFRGS. 19h.
08.ago. Ribeirão Preto/SP. USP/RP. 14h.
09.ago. São Paulo/SP. FFLCH/USP. 19h.
10.ago. São Paulo/SP. EACH/USP. 13h.

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03.ago.2018
Estado de S. Paulo. "Entidade científicas e universidades se manifestam contra os cortes na Capes" (cuidado, contém paywall poroso.)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Camp do Serrapilheira e o Jamboree (Jam Session) do DoSSHel*

Saiu o resultado da seleção da primeira chamada do Camp da Serrapilheira para divulgação científica.

Foram 871 projetos para as 50 vagas da primeira fase. Fico com um orgulho alheio besta por muitos amigos meus terem sido contemplados - nem dá pra ficar triste de não eu mesmo não ter sido aprovado: pelo menos a metade dos listados eu conheço ou o proponente ou o projeto a que se vincula ou os dois. (E ainda tem o extra de a outra metade serem projetos em que a gente pode passar a prestar atenção também.)

Pela qualidade dos trabalhos de uma parte dos 50 dá pra antecipar que o Camp será fantástico e sairão projetos espetaculares.

O lado ruim é que com a limitação de vagas, muitos projetos igualmente excelentes acabaram de fora (não, não é o meu caso - eu sou um tipo de pato: ando, nado e voo, mas nada particularmente bem; pro Camp chamaram avestruzes, pinguins, águias, mergulhões... e algumas aves que fazem tudo isso impecavelmente: gente com alto impacto acadêmico, com alto impacto de público...).

Bem, o adágio diz "sapo de fora não chia", mas Calíquio sabe que a validade dos ditos populares não reside nos próprios ditados, mas na adequação à situação. De todo modo não se trata de chiar, já que não tem como chiar diante da qualidade dos vencedores, e, sim, de propor um jeito de não desperdiçar a qualidade dos que acabaram não entrando.

Proponho, então, a realização de um camp informal, um jamboree (plus jam session), de adesão livre entre aqueles que não tiveram a proposta selecionada. Mas aberto para o público em geral e para os que foram aprovados. Com entrada online para a participação dos que estiverem longe das sedes.

O Jamboree do DoSSHel* (um complemento informal, sem vínculo com o Serrapilheira, ao camp do instituto) já tem pelo menos três sedes: Aracaju-SE; Boston-MA, EUA; e São Paulo, SP - e está aberto pra mais.

A ideia é que os participantes possam falar de suas propostas (ou outros projetos) de DC, trocar ideias e, quem sabe, induzir colaborações para que possamos viabilizar pelo menos um desses projetos (ou mesmo juntar vários projetos).

Se esta sugestão de jamboree vingar, o formato, a(s) data(s), etc. estão também bem abertos para que os interessados possamos definir em conjunto. Uma proposta inicial é para novembro.

*O nome DoSSHel é uma brincadeira homenagem ao Serrapilheira. A serapilheira é uma camada de folhas, galhos e restos orgânicos caídos sobre o solo, que contribui com a proteção e o enriquecimento dele. O dossel é a cobertura das matas formada pelo conjunto das copas das árvores (de onde caem as folhas e galhos para a serapilheira). SSH é a sigla em inglês para Ciências Sociais e Humanidades - o jamboree não irá se restringir a essas áreas, claro, mas é, de novo, a complementaridade com as ações do Serrapilheira (que, legitimamente, afinal, não dá pra abacar o Universo, concentra em estimular as STEM, sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemática).

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A câmara que mostra o encontro da clara e do ovo (sic) dentro do bolo

Na manhã do dia 25 de julho de 2018, o apresentador Fernando Rocha iniciou o programa Bem Estar, da Rede Globo, com uma história inusitada.

"Bom dia! Hoje é terça-feira, né? É terça-feira. Todo mundo sabe, desde que o mundo é mundo, que a vida é feita de encontros e despedidas. Despedidas são mais tristes, né? Emocionantes, né? E eu fiquei sabendo de uma história de despedida tão emocionante, tão sofrida. Sabe qual é a despedida? Da clara com o ovo. A despedida da clara com o ovo. Mas aí ela só não é tão triste porque a clara chega pro ovo e fala assim: 'Não fica triste, não. A gente se vê dentro do bolo! [risos] A gente vai se encontrar dentro do bolo!' Agora você imagina o encontro da clara com o ovo dentro do bolo! Infelizmente o homem ainda não foi capaz de inventar uma câmera que mostre esse encontro da clara e o ovo dentro do bolo! [risos] Dr. Kalil, o senhor já imaginou esse encontro? A gente tem hoje imagens impressionantes, e que a gente vai mostrar, que podem salvar vidas! Dr. Kalil, está com essa cara de um encontro de clara com ovo dentro de um ovo. Oi?"

O colega do apresentador, o médico Roberto Kalil, sério até o momento: "Não foi muito legal esse começo de programa. Não deu muito certo."

"Eu vou ser mais feliz. É que eu não parabéns pra ele no dia 7 de julho, que ele estava viajando e não deu certo. O Bem Estar vai falar hoje de exames que podem salvar o coração."

Verdade que a clara, pelo que se sabe, não fala. Mas não é tecnicamente correto dizer que ainda não foi inventada uma câmara que possa filmar o encontro da clara com a gema dentro da massa do bolo.

Engenheiros de alimentos e cientistas de áreas afins, levam tão a sério o papel do ovo na obtenção de bolos bem desenvolvidos, macios, de textura adequada, que criaram vários equipamentos para analisar e registrar os processos que levam de uma massa pastosa ou fluida a uma bela esponja. Inclusive câmaras.

Mizukoshi e colaboradores publicaram em 1979 um diagrama de um complexo dispositivo para medir e registrar o processo de gelatinização do amido e coagulação das proteínas durante o assamento do bolo. (Fig. 1.)

Figura 1. Diagrama esquemático de equipamento para registro de assamento de bolo. Medidores de volume, termômetros, viscosímetros e microscópio com câmara são alguns dos dispositivos que compõem o equipamento. Fonte: Mizukoshi et al. 1979.

Conforme a temperatura atinge um ponto crítico, a proteína do ovo coagula e o amido derrete, alterando as propriedades ópticas da massa - deixando passar mais luz polarizada, que é detectada pelas câmaras acopladas.

O papel da clara do ovo, especialmente da ovalbumina, é de ajudar a produzir a textura esponjosa. As proteínas da clara, ao serem batidas, formam uma espuma retendo bolhas de ar. Nos bolos que levam gorduras como manteiga, óleo ou margarina, os fosfolipídeos presentes na gema ajudam no processo de emulsificação, permitindo a dispersão homogênea das gorduras na massa. Porém, os componentes da gema tendem a impedir a aeração adequada da massa, mas ajudam a estabilizar a espuma, uma vez formada. Por isso, algumas preparações separam a clara da gema e os incorporam em momentos diferentes: fazendo a clara ser batida antes, permitindo o desenvolvimento da espuma, posteriormente adicionando a gema - misturada previamente com as gorduras - para estabilizar a espuma.

Esse encontro na massa antes de assar é mais acessível de ser registrado por câmaras acopladas a microscópios. Para o desenvolvimento durante o processo de assamento, equipamentos como o acima ajudam a acompanhar.

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