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sexta-feira, 27 de março de 2020

A pandemia de COVID-19 *NÃO* é uma gripezinha

Embora alguns insistam no erro de chamar a doença provocada pelo novo coronavírus (com o complicado nome de SARS-CoV-2 - 'Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2', isto é, uma segunda linhagem de coronavírus que causa uma doença parecida com a SARS) de "gripezinha", outros, como o caso da neurocientista e divulgadora científica Suzana Herculano-Houzel revêem a posição.

Por que o mais provável é que a COVID-19 ('Coronavirus Disease 2019' - doença do coronavírus de 2019) seja mais letal e se espalhe mais do que, por exemplo, a famigerada gripe espanhola - uma das pandemias mais graves enfrentadas recentemente pela humanidade com uma linhagem especialmente letal de vírus da gripe.

Uma pessoa infectada com a cepa do vírus da gripe espanhola, em média, acabava infectando outras 1,7-2,0 pessoas (o nome técnico para isso é 'número básico de reprodução' e é simbolizado por R0). Já alguém infectado pelo SARS-CoV-2, na média, passa o vírus para outras 2,24 a 3,58 pessoas.

Além disso, a cada mil pessoas infectadas pelo vírus da gripe espanhola, algo entre 5 e 24 pessoas morriam, isto é, tinham uma CFR ('case fatality rate', taxa de casos fatais) entre 0,05 e 2,4%. Já para a COVID-19, a CFR é algo entre 0,15 e 5,25%.

Outras doenças atuais que enfrentamos tem um potencial maior de se espalhar e é mais letal. Caso da febre amarela: R0 entre 1,5 e 5 e CFR de até uns 7%. Mas há uma vacina eficaz contra a doença, coisa que ainda não temos contra a COVID-19. A febre do vírus zika não tem vacina e também tem um poder maior de disseminação:  R0 entre 1 e 7, mas a letalidade em adultos é virtualmente zero - e há formas de enfrentamento que não necessitam o isolamento de doentes e suspeitos: combatendo o vetor: no caso da COVID-19, ela pode passar de pessoa para pessoa através de gotículas de saliva no ar. A dengue, embora tenha vacinas contra os tipos circulantes no país, a aplicação desta ainda está em fase de testes (há a complicação porque a forma hemorrágica pode se desenvolver em pessoas que têm a dengue mais de uma vez), mas também pode ser combatida com a evitação do vetor, o mesmo mosquito que transmite a zika.

Sendo uma doença nova e, assim, contra a qual ainda não há vacinas nem medicamentos curativos (o tratamento é sintomático e paliativo), nem uma imunidade natural na maioria da população, com um nível de letalidade razoável e também de potencial de espalhamento, é um perigo subestimá-la - especialmente no caso de autoridades que precisam traçar e implementar estratégias eficientes em seu combate. Não se trata de negligenciar outras doenças também graves e potencialmente danosas, mas é preciso enfrentar também a COVID-19, pelo potencial grande de dano.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pode haver bem mais do que 5 mil ou 7 mil mortos se a economia não "parar" e nada for feito

Parece equivocado o argumento de uma importante figura empresarial brasileira contra as medidas de restrição de deslocamentos da população no enfrentamento da pandemia de COVID-19 (como adotadas em vários países). Na verdade, se não houver nenhuma restrição, o total de mortos pode chegar ou ultrapassar facilmente a cada do milhão de mortos.

A fração atual de mortos no Brasil é de cerca de 2% do total de casos confirmados (47 mortes em 2.201 em 23.mar) de infecção pelo SARS-CoV-2 (o novo coronavírus). Se apenas 50% dos brasileiros se infectarem com o vírus - o que daria cerca de 100 milhões de pessoas -, seriam 2 milhões de mortos. A China conseguiu conter os casos no nível de algumas dezenas de milhares justamente pelas medidas de restrição - com quarentenas, testes e monitoramentos. O nível de 5 mil a 7 mil mortos totais mencionados pelo empresário como sendo poucos diante do que a economia nacional pode sofrer com as medidas são os projetados exatamente se tais restrições foram adotadas: a comparação com eventuais perdas econômicas das quarentenas e toques de recolher seria com o cenário em que eles *não* fossem adotados. Além das mortes, há que se contabilizar também os casos graves - que necessitam de interação e tratamentos intensivos.

Adotando-se o padrão de casos graves e mortes por idade observado nos Estados Unidos (Fig. 1) e a distribuição etária da população brasileira em 2010, com nível de infecção de 50% da população, é de se esperar 7,8 milhões de internações na UTI em função da COVID-19 no país e 1,6 milhão de mortes.

Figura 1.  Variação dos quadros de gravidade de COVID-19 em pacientes de acordo com a idade. Fonte: CDC/EUA, Tian et al. 2020/China (Beijing)


É a partir desses números que se faz a análise de benefício/custo. 7 mil mortes somem diante de 1,6 milhão.

Na Fig. 2, podemos acompanhar a variação do número de casos em diversos países.

 
Figura 2. Variação do total de casos confirmados em diversos países. Eixo vertical em escala logarítmica.

A China implementou o lockdown, restrição severa de deslocamento e fechamento de vários estabelecimentos considerados não-essenciais (basicamente o que não estava envolvido com alimentação, saúde, limpeza e segurança), em 23 de janeiro (quando contava então com 18 mortos e 600 casos no país) na região de Hubei, um dos locais mais fortemente atingidos no pais. Desde, então, na província, o número de novos casos têm diminuído - há cerca de 30 dias, os casos confirmados estão em cerca de 80.000 pessoas. Na Itália, a quarentena só foi imposta (nacionalmente) a partir de 9 de março (quando contabilizavam 9.172 casos na Velha Bota): localmente, em algumas províncias e cidades, governos locais haviam imposto quarentena a partir de 23 de fevereiro (quando contava com 157 casos conformados em todo o país): a curva parece estar diminuindo o ritmo de crescimento desde então. A França, que anunciou o lockdown no dia 16 de março (com 5.360 casos confirmados), também parece começar a apresentar um ritmo menor de aumento do número de casos.

A restrição não é a única alternativa, porém as outras opções também demandam bastante esforço e trazem consequências a valores bastante caros a sociedades democráticas. Por exemplo, na Coreia do Sul, são testados todos os casos suspeitos e todas as pessoas que tiveram contatos são monitoradas (colocando em quarentena todos os casos confirmados e os suspeitos ainda não testados). O país tem realizado cerca de 20 mil testes por dia, numa escala linear seria o equivalente ao Brasil realizar 80 mil testes diários. E a testagem é uma estratégia que só deve funcionar se instalada desde o início, quando a pandemia já estiver localmente espalhada dificilmente será possível monitorar todos os casos. Outra estratégia (considerada bastante invasiva da privacidade), também adotada pela China, é uma ampla e intensa vigilância sanitária em todos os pontos públicos: com aparelhos para medições de temperatura corporal em tempo real (para detectar potenciais casos de febre) e câmeras de vigilância com reconhecimento facial.

Veja também:
Atila Iamarino. 20.mar. O que o Brasil precisa fazer nos próximos dias.
Atila Iamarino. 22.mar. Por que é importante ficar em casa.
Dalson Britto Figueiredo Filho & Antônio Fernandes/Revista Questão de Ciência. 24.mar. Três cenários para o coronavírus no Brasil.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Mitos na ciência: Para que serve a revisão por pares?

Mito: "O processo de peer review (revisão por pares) é essencial para a qualidade dos trabalhos publicados."
Status: Bastante duvidoso (mas talvez seja melhor do que nada a depender de como é feito)

Uma das práticas chave do processo de publicação científica é a submissão do manuscrito a uma avaliação por revisores que atuam na mesma área ou em áreas próximas, a famigerada revisão por pares ou, na expressão inglesa de amplo uso entre cientistas nativos de outras línguas, peer review. Normalmente, o editor da revista envia o manuscrito submetido para dois revisores - que podem indicar pela rejeição sumária, o aceite para publicação ou sugerir correções antes do aceite final - e, se as opiniões divergirem muito, o editor pode tomar a decisão ou enviar para um terceiro revisor.

Porém, talvez tanto quanto é defendida, essa instituição é alvo de fortes críticas e questionamentos quanto à utilidade como barreira contra artigos ruins ou mesmo falsificados.

De acordo com uma revisão sistemática de 2002 de Tom Jefferson e colegas, os poucos estudos (19) sobre os efeitos do peer review sobre a qualidade do artigo não permitiam concluir sobre a validade do processo. Em outro estudo, também do grupo de Jefferson, de 2006, a mesma conclusão (com 28 estudos), ainda que com a tendência de apontar alguma melhora na legibilidade e na qualidade geral do manuscrito. Em um levantamento independente, de Derek Richards (2007), que incluiu 28 estudos para análise sistemática, também concluiu que há poucos indícios de um efeito positivo da revisão por pares na qualidade do estudo.

Rachel Bruce e cia. (2017) analisaram 22 artigos sobre processos para melhorar a revisão por pares: como introdução de processo cego (os revisores não têm acesso aos nomes dos autores do artigo), introdução de um avaliador com formação em estatística, uso de checklists, treinamento de revisores, open peer review (os revisores são informados de que os autores têm acesso aos nomes dos avaliadores) e outros - mas os resultados foram bastante variados. (Houve uma melhora na qualidade final do manuscrito com a introdução de um revisor formado em estatística - 2 estudos - e com revisão aberta - 7 estudos.)

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A mesma falta de estudos sistemáticos sobre a validade do uso de índice de citação como medida de qualidade de artigo também se revela na avaliação da eficiência da revisão por pares - pode ser que exista, mas em minha busca não encontrei nenhuma meta-análise. É desconcertante a confiança que se dá a um mecanismo com tão pouca base empírica para ser um elemento basilar da prática científica.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Nem tudo que doureja é lúzio 8

Um especial natalino da gaiata ciência.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

#AmigoCientista: O que as múmias falam sobre o passado (e o presente) do Brasil

Mais uma vez, um grupo de sciencevloggers (capitaneados pela Julia Jaccoud) e eu resolvemos realizar o #AmigoCientista, uma espécie de amigo secreto em que há troca de vídeos (ou, no meu caso, um texto no blogue) como presente.

Claro que o título do post já entrega logo de cara a quem me coube - mui honradamente - homenagear. Sim, a 8a Hokage da Vila de Aracaju, a mãe-generala do Army, a espanadora de areias ancestrais, a sacerdotisa da velha arte de profanar túmulos; a sua, a nossa, a única, Márcia Jamille do Arqueologia Egípcia (um rápido perfil do canal - e da criadora - aqui.)

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É bem possível que você já tenha ouvido falar de múmias no Brasil. Por exemplo, as múmias presenteadas ao imperador Pedro 2o durante sua viagem ao Egito - lamentavelmente perdidas na tragédia que se abateu sobre o Museu Nacional. Mas há ainda outras em coleções privadas.

Porém, não é sobre essas de que falaremos aqui. E, sim, de múmias made in Brazil-zil-zil, múmias brasileiras e não somente múmias no Brasil. Não, esqueçam as piadinhas de pessoas que você juraria que são múmias vivas - ou nem tão vivas. São múmias, de verdade, não ofensas pessoais. Oquei, não são múmias antrópicas - como as egípcias, em que os corpos passam por processos intencionais para sua preservação -, mas múmias naturais - resultados da atuação não intencional de fatores ambientais como baixa umidade, presença de sais, baixas temperaturas...

As condições climáticas preponderantes no Brasil são pouco favoráveis à mumificação natural - predomínio de clima úmido e quente, propício à ação de micro-organismos que degradam completamente as partes moles e mesmo os próprios ossos. Além disso, a cultura funerária dos antigos habitantes (provavelmente refletida na dos indígenas atuais) que pode envolver a cremação ou enterramentos secundários (os corpos são desenterrados e enterrados novamente após um período) também faz com que diminuam as chances de ocorrer a mumificação natural. Ainda assim temos um certo número delas - mais do que podemos contar nos dedos das mãos. (Souza et al. 2002.)

A região do Vale do Peruaçu, no norte do Estado de Minas Gerais, onde fica o Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu é de um ambiente de relevo cárstico (formação de rochas calcárias que são profundamente recortadas por dissolução química - especialmente por ação da chuva e de águas subterrâneas) em um clima semi-árido. A combinação de um solo de pH alto (básico) e um ar seco permite que em certos locais se formem microambientes favoráveis à mumificação natural - com a dessecação do corpo promovida pela baixa umidade do ar e uma menor ação bacteriana pelo calcário. No sítio arqueológico do Abrigo do Malhador, em 1985, foram encontrados restos mortais mumificados naturalmente de uma mulher de prováveis 35, 40 anos na ocasião de sua morte - ela foi batizada de AM1 (Fig. 1). Estima-se que tenha entre 4.500 e 7.000 anos de idade (um pouco mais jovem do que a múmia mais velha - natural - da América do Norte, datada de uns 10.600 anos; e talvez um pouco mais velha do que as múmias egípcias - antrópicas -  mais antigas). Outras múmias foram encontradas na mesma região - algumas de mesma idade e outras mais novas: entre 600 e 1.200 anos. (Prous & Schlobach 1997)

Figura 1. Esquema do sepultamento da AM1 no sítio do Abrigo do Malhador. Prous & Scholobach 1997.


Isso pode indicar uma relativa estabilidade climática por todo esse período nessa região - ou, pelo menos, uma ausência de períodos muito mais úmidos - para que elas tenham se preservado por tanto tempo.

Em 2008, um grupo da Fiocruz examinou os restos da AM1 - especificamente um fragmento de 6 cm de uma das costelas. Análise genética revelou a presença de DNA de Tripanosoma cruzi. Não é uma novidade: em múmias chilenas e peruanas de 9.000 anos já foram encontrados sinais de infecção pelo parasita. O mal de Chagas é mesmo uma chaga que assola parte da humanidade há tempos. Mas o curioso é que é de um grupo (tipo I) que não ocorre atualmente na região (há presença apenas do tipo II). T. cruzi do mesmo tipo I foi encontrado em múmias mais recentes, de cerca de 560 anos, da mesma região. Possivelmente houve uma mudança após a chegada dos europeus às terras brasileiras. Quem sabe, talvez, relacionada ao espalhamento e à domiciliação dos vetores como o barbeiro Triatoma infestans (de origem provavelmente nos altiplanos bolivianos) com o espalhamento das casas de taipa e desmatamento?

Além do mal de Chagas, a análise de múmias mostrou que a população local também sofria de infestação por vermes como o Echinostoma e Trichuris- identificados por amostras de fezes reidratadas analisadas ao microscópio.

Dos estudos a que tive acesso a partir do Google Scholar e do Web of Knowledge, encontrei análises a respeito da AM1 e outras múmias de Peruaçu (e também de outras localidades) apenas em relação à paleoparasitologia - que parasitas acometiam os indivíduos pré-históricos - e a práticas de sepultamento  (e.g. Strauss 2014) - em que posição enterravam seus mortos, se faziam uso de pinturas corporais e ornamentos, se dispunham os corpos direto sobre a terra ou em urnas, etc. Pode haver, sendo apenas uma falha minha em achar, mas não vi estudos - a partir das múmias - sobre a dieta (como pelos restos de eventuais sementes nos coprólitos ou vestígios de desgastes no dentes), genética (qual a relação com os demais paleoíndios e com os povos indígenas atuais, há contribuição na genética brasileira de hoje?), etnobotânica (em algumas múmias identificam o uso de plantas, mas teriam características medicinais? o que os povos atuais fazem com as espécies identificadas?) e outros. Se o meu fracasso em localizar tais estudos refletir uma real escassez, pode indicar um campo muito prolífico para o estudos das múmias brasileiras em aclarar não apenas o passado, mas também o presente.

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Mas quem será que me tirou no #AmigoCientista?



Corram lá no BláBláLogia pra ver o que o Chico Camargo aprontou. (Nota: isso de eu ser bot é intriga da oposição!)

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Confira os vídeos dos demais canais participantes do #AmigoCientista.
A Matemaníaca (Juju Jaccoud): Como os fractais aparecem na natureza?
Arqueologia Egípcia (Márcia Jamille): Existirá Arqueologia no futuro?
AstroTubers (Marcelo Rubinho/Pedro Pinheiro): Simulando o Universo
Caio Dallaqua: Bioinformática: De 5 MILHÕES a 100 dólares
Dragões de Garagem (Tabata Bohlen): Notícias de Garagem
Laboratório 2000 (Leonardo Souza): O que é um solstício?
Mural Científico (Lucas Rosa): Como sabemos a idade dos dinossauros? 
Nunca Vi 1 Cientista (Laura Freitas/Ana Bonassa): 5 coisas que você  não sabia sobre um laboratório
Olá, Ciência! (Guilherme Ximenes): Ciência de Verdade|Terra Planta e Teoria da Evolução
Papo de Primata (David Ayrolla): Como a evolução pode ajudar no combate ao HIV
The Mingau (Johnny Pauly: Mingau): A evolução em outros mundos
Versada (Vanessa Costa): Macaco-prego, o descascador de árvores

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Apresentação: "Que história é essa de storytelling?"

Apresentação para a disciplina de pós-graduação DSO 803 Seminário temático, do Prof. Dr. Marden Campos, em 23 de outubro de 2019.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Desmatamento na Amazônia aumentou 29% em 2019. O que isso quer dizer?

Pelo twitter, perguntaram o quanto se pode atribuir os números divulgados pelo programa Prodes de 9762 km² de desmatamento da Amazônia Legal entre os períodos de agosto de 2018 a julho de 2019 às ações e omissões do novo governo.

Uma coisa que podemos notar é que, a partir de 2012, provavelmente não por coincidência, ano da aprovação da modificação do Código Florestal que diminuiu a proteção sobre a cobertura vegetal nativa, houve um reversão na tendência até então de diminuição das taxas de desmatamento. (Fig. 1.)

Figura 1. Variação na tendência do desmatamento anual na Amazônia Legal brasileira. Dados do Prodes/Inpe.

Então, muito do aumento atual pode ser creditado a uma tendência recente de crescimento das taxas de desmatamento. Porém, a última taxa divulgada pelo Inpe para a temporada de agosto de 2018 a julho de 2019, está acima do esperado pelo ritmo do crescimento de 2012 até 2017. (Fig. 2)

Figura 2. Tendência recente da variação na taxa de desmatamento da Amazônia Legal brasileira. Dados do Prodes/Inpe.

Dois pontos parecem estar mais distantes da curva - ambos bem acima. O ano de 2016 (temporada 2015/16) e o ano de 2019 (temporada 2018/19). Em 2016, com apoio da bancada ruralista, o governo da presidenta Dilma Rousseff foi derrubado. Em 2018 tivemos uma eleição presidencial que resultou na vitória de um candidato que apresentava um discurso contra uma suposta indústria ambiental da multa, com promessas de perdões das penas pecuniárias de infrações por desmatamento, e cujo governo, assumindo em 2019, passou a desmontar as políticas e os órgãos de fiscalização e controle ambientais, demitir e perseguir funcionários...

Mesmo se considerarmos o desmatamento apenas durante o ano de 2019 - que corresponde, usando como proxy a distribuição das taxas do sistema Deter, a cerca de 56% do total do desmatamento da temporada (Fig. 3) - teríamos 667 km² (acumulados de janeiro a julho deste ano) acima do esperado, que seria de 8.570 km², uma alta de cerca de 7,8% pelo menos que podemos atribuir ao que ocorreu durante o presente ano - incluindo as ações do governo federal de fragilização das políticas de proteção ambiental**. Considerando toda a temporada, o aumento foi de 13,8% acima da tendência (1.190 km²).

Figura 3. Variação mensal do desmatamento detectado pelo sistema Deter/Inpe.*

*Upideite(22.nov.2019): A imagem anterior não mostrava os valores da temporada 2019/20.

**Upideite(24.nov.2019): A Climate Policy Iniciative, grupo que produz análises e atua junto a governos e políticos para orientar a constituição de políticas públicas de uso de terra e energia, produziu um relatório que mostra como a estratégia combinada de monitoramento remoto com ação local por agentes públicos é vital no combate ao desmatamento na Amazônia.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Amerek, um cutucão em seu cérebro com novo Curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência da UFMG

A Diretoria de Divulgação Científica e a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG abriram um novo curso de especialização em Comunicação Pública da Ciência.

Com duração prevista de 18 meses (mas que pode ser concluído em até 24 meses), o curso pretende formar profissionais dedicados à democratização das ciências. Mais do que meramente levar conhecimento das ciências para o público, na visão da coordenação da especialização, a divulgação científica deve envolver a população a participar dos processos de troca. Daí também a escolha do nome fantasia de "amerek", palavra no idioma dos krenak, que significa algo como "cutucão", "beliscão" - referência um contato social próximo e interação pessoa a pessoa. No vídeo abaixo, o Prof. Dr. Yurij Castelfranchi, coordenador do curso explica a filosofia e a visão que norteiam o projeto, que conta com o apoio do Instituto Serrapilheira:



As inscrições estão abertas, mas vão só até o dia 25 de outubro. Podem se inscrever pessoas com formação superior em qualquer área interessadas na comunicação da ciência com o público.

As aulas serão principalmente às 2as e 3as de manhã e à tarde em modo presencial na câmpus da Pampulha da UFMG. (Algumas disciplinas eletivas poderão ser ofertadas à noite e em outros dias e poderão contar com momentos à distância.)

Mais informações podem ser acessadas nas mídias sociais do Amerek:
Facebook; twitter; instragram e linkedin.

E também pelos telefones:
DDC/UFMG: (31) 3409-4427 / 4428

e email:
ddc-secretaria@proex.ufmg.br.

Com exceção de mim, o corpo docente é altamente capacitado com experiência em pesquisa em DC e/ou na prática.

domingo, 13 de outubro de 2019

Barraco científico: dos recentes bate-bocas públicos entre cientistas

Estas últimas semanas foram bem movimentadas e ilustrativas das disputadas que há em várias áreas das ciências.

Houve a polêmica em torno do artigo que detectou introgressão de genes de uma linhagem modificada em laboratório em populações naturais de mosquito da dengue; e outra sobre resultados anunciados de um estudo a respeito de efeitos biológicos dos agrotóxicos; e uma discussão aberta entre físicos a respeito da teoria das cordas e seu status científico*.

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Transferência de genes de mosquitos modificados para populações naturais

Com o disclêimer de minha ligação com as partes envolvidas a respeito do estudo do mosquito transgênico - fui orientado de mestrado de um dos autores do estudo (e que defende o artigo na íntegra), pelo que pude acompanhar da polêmica (tentei entrevistar tanto a Oxitec, quanto os autores do artigo que concordam e que discordam da versão publicada do próprio estudo, mas não consegui respostas), minha conclusão é que a discussão gira a respeito de um detalhe que nem afeta tanto - salvo a amplificação criada por interpretações equivocadas em certos veículos.

Os detalhes, além do artigo original podem ser lidos em:
.Bill Hathaway/YaleNews (10.set.2019): "Transgenic mosquitoes pass on genes to native species".
.Oxitec (18.set.2019): "Oxitec responds to article entitled 'Transgenic Aedes aegypti mosquitoes transfer genes into a natural population".
.Cesar Baima/Revista Época (21.set.2019): "A 'fake news' do 'supermosquito' transgênico que está gerando pânico no Brasil".
.Natália Pasternak/Revista Questão de Ciência (24.set.2019): "Autora repudia artigo sobre mosquito transgênico".
.Bernado Esteves/Revista Piauí (02.out.2019): "O supermosquito que nunca existiu".

Todos: a Oxitec, os autores do estudo que querem alteração ou retirada da publicação e os autores que defendem como está - concordam com o principal: a metodologia e os dados do estudo. Genes pertencentes à linhagem criada em laboratório - com a introdução de genes que fazem com que os machos não deixem descendentes viáveis - foram encontrados na população selvagem depois que a linhagem modificada foi liberada em massa para reduzir a população selvagem. Não os genes modificados que causam a inviabilidade da descendência, mas os genes que constituem o genoma das populações cruzadas para produzir a linhagem modificada.

A disputa está em algumas afirmações mais pontuais feitas no artigo:

*"The three populations forming the tri-hybrid population now in Jacobina (Cuba/Mexico/Brazil) are genetically quite distinct (Extended Data Fig. E2), very likely resulting in a more robust population than the pre-release population due to hybrid vigor."
["As três populações que formam a população agora tri-híbrida de Jacobina (Cuba/México/Brasil) são geneticamente bem distintas, muito provavelmente resultará em uma população mais robusta do que a população anterior à liberação em função do vigor híbrido."]

A Oxitec rebateu dizendo: "The data published in this paper and in the entire body of peer-reviewed literature do not support this hypothesis." ["Os dados publicados no artigo e em todo o corpo de literautra revisada pelos pares não sustenta essa hipótese."]

É bem verdade que no artigo é detectada uma tendência a diminuir o número de indivíduos com os genes da população modificada e nele é dito que: "This observation also implies that introgressed individuals may be at a selective disadvantage causing their apparent decrease after release ceased, although much more data would be needed to confirm this." ["Essa observação também implica que os indíviduos introgredidos podem estar em desvantagem seletiva causando sua aparente diminuição após a cessação da liberação, embora muito mais dados sejam necessários para confirmar isso."] O que é um tanto contraditório com o "muito provável" vigor híbrido.

Mas na literatura há, sim, precedentes de vigor híbrido (híbridos com maior capacidade de sobrevivência) em mosquitos (no caso, em Anopheles coluzzii). Descendentes de cruzamentos de populações distintas (ou os heterozigotos) que apresentam características de maior robustez e/ou capacidade reprodutiva do que os indivíduos das populações originais são um fenômeno bem conhecido na literatura. Não é, nem de longe, um resultado universal, mas é bastante frequente - ainda que os mecanismos ainda não estejam consensualmente esclarecidos (e.g. Comings & MacMurray 2000; Groszmann et al. 2013) .

Chamar de "muito provável" pode ser um exagero. Mas também dizer que a "não há apoio em toda a literatura" também é. É uma possibilidade, difícil de calcular, mas bem longe de zero. É algo a se olhar com atenção.

*"Also, introgression may introduce other relevant genes such as for insecticide resistance." ["Além disso, a introgressão pode introduzir outros genes relevantes tais como os que conferem resistência a inseticida."]

A Oxitec observa: "To the contrary, Oxitec has demonstrated that OX513A is not resistant to commonly used insecticides." ["Ao contrário, a Oxitec já demonstrou que o OX513A não é resistente a inseticidas comumente utilizados"]

É uma observação relevante, mas é preciso verificar a possibilidade de recombinação genética gerando um novo alelo ou uma nova combinação de alelos que possam conferir tal resistência. Novamente, não há um cálculo fácil dessa probabilidade; mas é também coisa para se acompanhar.

*"These results demonstrate the importance of having in place a genetic monitoring program during releases of transgenic organisms to detect un-anticipated consequences." ["Estes resultados demonstram a importância de se ter um programa de monitoramento genético durante as liberações de organismos transgênicos para se detectar consequências não-antecipadas."]

Ninguém contesta a necessidade de se manter um programa de monitoramento. Alguns autores contestam de que a introgressão seja uma consequência não-antecipada - já que, em laboratório, cerca de 3 a 4% dos machos modificados eram capazes de se reproduzir. Mas Powell, um dos autores que defendem o artigo, salienta que os descendentes se mostram pouco viáveis no laboratório e, por isso, imaginava-se que, em campo, não haveria uma transferência significativa de genes.
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Uma observação feita por críticos é que pelo menos alguns autores fazem parte de uma empresa que agora é concorrente da Oxitec Brasil - a Moscamed. No entanto, não anotaram nada no campo de declaração de interesses conflitantes. Isso deveria ter sido deixado claro.

Mas uma coisa que não ficou claro é por que os autores que discordam a versão publicada do artigo não leram antes o texto final. Não consegui informações de se foi distribuído ou não para os autores - dos autores que concordam com o artigo, apenas um se manifestou, e disse haver lido. Apenas uma pessoa que não concorda com o artigo parece haver se manifestado publicamente até agora e disse não haver lido nem recebido.

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As outras duas celeumas não acompanhei tão de perto e não tenho uma opinião formada - apenas em alguns pontos.

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Efeitos dos agrotóxicos
.Roberta Jansen/Estadão (04.ago.2019): "Pesquisa indica que não há dose segura do agrotóxico"
.Cristiano Zaia/Valor (06.ago.2019): "Anvisa e Agricultura contestam pesquisa do Butantã sobre agrotóxicos"
.Marina Simões/A Pública (30.set.2019): "Pesquisadora é perseguida após comprovar que não existe dose segura de agrotóxicos"
.Natalia Pasternak/Revista Questão de Ciência (04.out.2019): "Sim, existe 'concentração segura' de agrotóxicos"
.Mônica Lopes Ferreira (5.out.2019): Pronunciamento!

Punição/persecução
Minhas observações. Pelo que pude levantar a punição à pesquisadora deveu-se ao fato de ela não haver submetido o projeto ao conselho de ética do instituto - o que é necessário por se utilizar animais nos experimentos. Não falei ainda com a pesquisadora a respeito.

Dose segura.
Há uma certa briga na literatura acerca da definição de dose segura (e.g. Hrudey & Krewski 1995, Polkey et al. 1995Fryer & McLean 2011,  Moss 2013). Existem críticas a modelos chamados de lineares sem limiar - neles, as concentrações não nulas de substâncias terão efeitos (benéficos e maléficos) em qualquer dose (de modo proporcional). Pode-se argumentar, com razão, que, em muitos casos, em concentrações suficientemente pequenas os efeitos deletérios serão também muito pequenos e poderão ser aceitáveis (em níveis determinados por agências reguladoras - direta ou indiretamente envolvendo a sociedade para dizer o que é aceitável). Em outros casos, pode haver concentração abaixo da qual não é observado nenhum efeito. De qualquer maneira, é usada na literatura - ainda que de modo minoritário - a expressão "sem dose segura" ("no safe dose") quando qualquer nível não nulo causa algum efeito ruim, por mais baixo que seja.

A minha proposta, levando em conta a análise de benefício/custo, é comparar a dose máxima de aplicação em que não ocorre nenhum efeito grave e a dose mínima de aplicação para que ocorra algum efeito benéfico significativo. Se a dose para efeito benéfico for igual ou maior do que a dose sem efeito grave, podemos considerar como "sem dose segura". Se a dose para o efeito benéfico for menor do que a dose sem efeito grave, a "dose segura" é o intervalo entre os dois.

Se é um ou outro caso, seria preciso verificar o que a pesquisadora encontrou. Que o relatório seja liberado logo para uma análise.

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As discordâncias são importantes para as ciências - elas ajudam a trazer pontos de vistas não vislumbrados anteriormente, o que pode levar a correções de falhas ou ao aperfeiçoamento de medidas e métodos -, mas essas parecem ter extrapolado um pouco no tom. No caso dos mosquitos transgênicos talvez nem todos os detalhes relevantes estejam abertos para o público para se entender por que diferenças tão pequenas de interpretação parecem tão vitais para as partes envolvidas. Ok, da Oxitec como empresa que fornece a tecnologia talvez seja mais fácil de se compreender. No caso do estudo sobre agrotóxicos também informações relevantes estão faltando do pouco que consegui apurar e acompanhar.

Não são polêmicas que a imprensa foi buscar dos recônditos das discussões acadêmicas. As próprias partes envolvidas vieram a público para externar seus pontos de vista, mas, na hora de um esclarecimento maior a respeito de detalhes importantes, parecem recuar.

Não é tanto o dissenso público que pode causar danos à ciência e eventualmente à sua reputação junto ao público, mas mais o comportamento das partes - o tom usado e a falta de transparência em muitos casos.

*Upideite(13.out.2019): Na verdade, a briga dos físicos é mais velha, de 2016. Porém, houve uma retomada recentemente.

domingo, 15 de setembro de 2019

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 35

Anotações do trabalho de Krause & Rucker 2019 sobre o efeito do uso de narrativas na persuasão das pessoas através de fatos.

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Krause, RJ & Rucker, DD. 2019. Strategic storytelling: When narratives help versus hurt the persuasive power of facts. Personality and Social Psychology Bulletin doi: 10.1177/0146167219853845.

*Experimento 1

Metodologia
>Design e participantes: entre-sujeitos 2 x 2 (2 apresentações: apenas fatos vs fatos dentro de uma história; 2 qualidades dos fatos: forte vs fraco).
397 (de 403 iniciais, após eliminação por checagem de atenção) adultos residentes nos EUA, recrutados mediante pagamento no serviço Mechanical Turk. Idade média = 35,9 anos; 44,1% mulheres.
>Procedimento: Todos os participantes inicialmente foram apresentados a instruções (os participantes da condição de "apenas fatos" foram instruídos a lerem com muita atenção).
.Condição de "apenas fatos": lista de atributos de um celular fictício da marca Moonstone. Os fatos foram criados para variar em sua qualidade persuasiva: p.e. "O aparelho resiste a uma queda de até 30 pés" (forte) x "O aparelho resiste a uma queda de até 3 pés" (fraco) (pré-teste com 79 sujeitos confirmou a força relativa de convencimento das diferentes versões do fato).
.Condição de "história": fatos inseridos em uma história; participantes instruídos a ler e mergulha na história.
.Indicação de reação à marca Moonstone: escala diferencial semântica de 3 itens de 1 ('bad/strongly dislike/unfavorable' ['ruim/desgosta fortemente/desfavorável']) a 9 ('good/strongly like/favorable' ['bom/gosta fortemente/favorável']).
.Checagem de manipulação: 'To what extent did the text you read in this survey seem like a story?' ['O quanto o texto que você leu nesta pesquisa se parece com uma história?'].
.Checagem de atenção: pergunta sobre o nome da marca.
.Questões básica de demografia dos respondentes.
.Questões não-relacionadas de um projeto diferente.
>Materiais de estímulo:
.Condição de "apenas fatos": lista de fatos - fortes ou fracos - sobre o produto.
.Condição de "história": duas páginas de um homem (Dan) e uma mulher (Amelia) escalando uma montanha; conforme escalam, Dan descreve seu amor intenso por Amelia; uma hora Amelia despenca e se machuca muito; Dan deve pedir ajuda através do celular de Amelia.

Resultados
>Checagem de manipulação:
.ANOVA de dois fatores;
.Se parece mais com uma história:
+condição de "história" (M=7,81; SD=1,60) > condição de "apenas fatos" (M=3,41; SD=2,25); F(1, 393)=501,5; p<0,001; η2p =0,561;
+condição de "fatos fortes" (M=5,54; SD=2,88) = condição de "fatos fracos" (M=5,56; SD=3,01); F(1, 393)=0,36; p=0,550; η2p = 0,001;
.Apresentação x qualidade: F(1, 393)=6,06; p=0,014; η2p = 0,015.
>Atitude em relação ao produto:
.escala diferencial semântica de 3 itens: α = 0,98 - média como uma única escala de atitude;
.ANOVA de dois fatores;
.Condição de "fatos dentro de uma história" (M=6,83; SD=2,09) > condição de "apenas fatos" (M=5,80; SD=2,38); F(1, 393)=30,71; p<0,001; η2p =0,72;
.Condição de "fatos fortes" (M=7,20; SD=1,76) > condição de "fatos fracos" (M=5,44; SD=2,43); F(1, 393)=85,90; p<0,001; η2p =0,179;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 393)=86,16; p<0,001; η2p =0,180;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=6,83; SD=2,06) > "apenas fatos" (M=4,04; SD=1,92); F(1, 393)=112,64; p<0,001; η2p =0,223, [2,27; 3,30];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=6,82; SD=2,14) < "apenas fatos" (M=7,53; SD=1,27); F(1, 393)=6,83; p=0,009; η2p =0,17, [-1,23; -0,174].

*Experimento 2

Metodologia
>Design e participantes: entre-sujeitos 2 x 2 (2 apresentações: apenas fatos vs fatos dentro de uma história; 2 qualidades dos fatos: forte vs fraco).
389 (de 405 iniciais, após eliminação por checagem de atenção) adultos residentes nos EUA, recrutados mediante pagamento no serviço Mechanical Turk. Idade média = 36,2 anos; 51,7% mulheres.
.Exposição a condições ou de "apenas fatos" ou de "fatos dentro de uma história" com os mesmos fatos e história sobre o celular Moonstone do experimento 1.
.Questões sobre intenção: 'If you were in the market for a new phone, how likely would you be to try using the Moonstone cell phone?' ['Se você estivesse numa loja para comprar um celular novo, quão provável seria de você experimentar o celular Moonstone?'] (1='very unlikely' ['muito improvável'] a 9='very likely' ['muito provavelmente']) e 'How willing would you be to try using the Moonstone cell phone next time you need a phone?' ['O quanto você desejaria experimentar usar o celular Moonstone na próxima vez em que você precisar de um celular?'] (1=´very unwilling' ['não desejaria nem um pouco'] a 9='very willing' ['desejaria muito']);
.10 caixas/células em que os participantes deveriam expressar os pensamentos que tiveram durante as tarefas: no máximo 1 pensamento em cada caixa e, no mínimo, 3 pensamentos diferentes no total (medida de valência e relevância dos pensamentos, avaliação da contra-argumentação aos fatos e histórias);
.Questões de checagem de atenção e de demografia.

Pensamentos relacionados à messagem
.Relevância: Pensamentos relativos a qualquer dos fatos da mensagem='relevante', outros pensamentos='irrelevante';
.Valência: 'positiva', 'negativa', 'neutra' de acordo com a favorabilidade em relação ao produto ou ao estímulo;
.Dois codificadores de modo independente e cegos em relação às condições analisaram os pensamentos: concordância de 85,8% em relação à relevância (kappa de Cohen=0,7) e de 80,2% em relação à valência (kappa de Cohen=0,7).

Resultados
>Checagem de manipulação:
.ANOVA de dois fatores;
.Se parece mais com uma história:
+condição de "história" (M=7,76; SD=1,55) > condição de "apenas fatos" (M=3,00; SD=2,11); F(1, 382)=632,99; p<0,001; η2p =0,624;
+condição de "fatos fortes" (M=5,25; SD=3,02) = condição de "fatos fracos" (M=5,46; SD=3,02); F(1, 382)=0,04; p=0,846; η2p = 0,000;
.Apresentação x qualidade: F(1, 382)=0,910; p=0,341; η2p = 0,002.
>Intenção de uso:
.itens de intenção de uso altamente correlacionados: r = 0,93 (p<0,001) - média como uma única escala de intenção;
.ANOVA de dois fatores;
.Condição de "fatos dentro de uma história" (M=6,16; SD=2,26) > condição de "apenas fatos" (M=5,22; SD=2,87); F(1, 385)=22,81; p<0,001; η2p =0,056;
.Condição de "fatos fortes" (M=6,99; SD=1,92) > condição de "fatos fracos" (M=4,43; SD=2,60); F(1, 385)=150,81; p<0,001; η2p =0,281;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 385)=65,73; p<0,001; η2p =0,146;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=5,75; SD=2,31) > "apenas fatos" (M=3,04; SD=2,13); F(1, 385)=84,56; p<0,001; η2p =0,180, [2,13; 3,28];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=6,62; SD=2,12) < "apenas fatos" (M=7,32; SD=1,66); F(1, 385)=5,45; p=0,020; η2p =0,14, [-1,29; -0,11].


>Pensamentos relacionados à mensagem:
*% de pensamentos negativos;
.ANOVA de dois fatores;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 383)=87,23; p<0,001; η2p =0,185;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=1,13%; SD=5,38%) < "apenas fatos" (M=42,3%; SD=31,2%); F(1, 383)=254,97; p<0,001; η2p =0,400, [-42,6%; -36,1%];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=1,74%; SD=8,45%) < "apenas fatos" (M=8,53%; SD=15,6%); F(1, 383)=6,68; p=0,010; η2p =0,017, [-11,9%; -1,6%].
*% de pensamentos positivos;
.ANOVA de dois fatores;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 383)=27,68; p<0,001; η2p =0,067;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=0,4%; SD=2,8%) < "apenas fatos" (M=8,3%; SD=16,7%); F(1, 383)=9,80; p=0,002; η2p =0,025, [-12,9%; -2,9%];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=5,2%; SD=12,5%) < "apenas fatos" (M=32,1%; SD=28,4%); F(1, 383)=109,04; p<0,001; η2p =0,222, [-32,0%; -21,9%].
>Mediação moderada:
.PROCESS madro (modelo 8) SPSS com 5.000 amostras para bootstrapping: apresentação (variável independente), qualidade (variável moderadora), intenção de uso (variável dependente), % pensamentos positivos e negativos (variáveis mediadoras);
.Padronização das variáveis em função das escalas de medida distintas;
.Interação "apresentação" x "qualidade":
+"% pensamentos positivos": B=-0,88; SE=0,17; t=-5,26; p<0,001; IC95%: [-1,21; -0,55];
+"% pensamentos negativos": B=1,39; SE=015; t=9,34; p<0,001; IC95%: [1,10; 1,69];
."% pensamentos negativos" x "intenção de uso": B=-0,28; SE=0,05; t=-5,32; p<0,001; IC95%:[-0,38; -0,18];
+índice de mediação moderada: B=-0,39; SDE=0,08; IC95%: [-0,54; -0,24];
."% pensamentos positivos (após controle pela % pensamentos negativos)" x "intenção de uso": B=0,17; SE=0,05; t=3,68; p<0,001; IC95%: [0,08; 0,26];
+índice de mediação moderada: B=-0,15; SE=0,04; IC95%: [-0,24; -0,08].

Experimento 3

Metodologia
>Design e participantes: entre-sujeitos 2 x 2 (2 apresentações: apenas fatos vs fatos dentro de uma história; 2 qualidades dos fatos: forte vs fraco).
291 (de 293 iniciais, após eliminação por checagem de atenção) indivíduos de uma grande universidade do Meio Oeste americano e da comunidade ao redor atraídos para um laboratório comportamental mediante recompensa por pagamento. Idade média = 21,1 anos; 63,2% mulheres.
>Procedimento: similar aos experimentos anteriores, mas com a troca de produto (e fatos e história relacionados): remédio contra gripe "TruFlu".
>Medida dependente: Se os participantes gostariam de fornecer email para receberem notícias sobre a disponibilidade do "TruFlu" para compra ("Sim" ou "Não").
>Checagem de manipulação como nos experimentos 1 e 2, e checagem de atenção e perguntas de demografia.

Resultados
>Checagem de manipulação:
.ANOVA de dois fatores;
.Se parece mais com uma história:
+condição de "história" (M=7,46; SD=1,75) > condição de "apenas fatos" (M=1,56; SD=1,25); F(1, 286)=1084,05; p<0,001; η2p =0,791;
+condição de "fatos fortes" (M=4,59; SD=3,26) = condição de "fatos fracos" (M=4,50; SD=3,39); F(1, 286)=0,09; p=0,770; η2p = 0,000;
.Apresentação x qualidade: F(1, 286)=1,55; p=0,214; η2p = 0,005.
>Escolha de fornecer email: 18,2% "sim".
."fatos fortes" (25,7%) > "fatos fracos" (10,9%): z=3,56; p<0,001; IC95%: [0,79; 2,73];
."apenas fatos" (21,0%) = "fatos dentro de uma história" (15,5%): z=1,02; p=0,307; IC95%: [-0,51; 1,63];
.Interação "apresentação" x "qualidade": z=-2,16; p=0,031; IC95%: [-2,77; -0,13];
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (13,5%) > "apenas fatos" (8,2%): χ2 =1,04; p=0,307;
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (17,6%) < "apenas fatos" (34,3%): χ2 =5,11; p=0,024.

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