Lives de Ciência

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A DC à luz das conferências estaduais preparatórias para a 4a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia

Destaco aqui as citações relativas à divulgação científica nas memórias das conferências estaduais de ciência e tecnologia preparatórias para a 4a Conferência Nacional de Ciência Tecnologia em 2010. (A 5a Conferência será realizada ano que vem.)

AC:
Eixo IV – Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social
Difusão e popularização da Ciência em todo o Estado do Acre.

AP:
sem menção explícita

AM:
sem menção explícita

BA:
"Popularizar a ciência, a tecnologia e a inovação, a melhoria do ensino básico, fundamental e, mais notadamente, do ensino das matérias diretamente relacionadas com a Ciência, juntamente com a criação e o aperfeiçoamento de tecnologias para o desenvolvimento social."

CE:
sem menção explícita

DF:
Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social
Difusão do conhecimento científico e tecnológico e de inovações

ES:
sem menção explícita

GO:
sem menção explícita

MA:
Eixo IV - C,T&I para o Desenvolvimento Social
Construção de uma cultura científica

MT:
sem menção explícita

MS:
Eixo 1: Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
Ausência de políticas eficientes locais e regionais de estímulo, discussão* e divulgação de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e cultura científica.
Eixo 4: Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social
Ineficiência dos meios de comunicação da CT&I, de espaços científico-culturais e de eventos públicos de divulgação científica.
Reduzida integração entre instituições que fomentam e promovem a cultura científica (agências, institutos, universidades, escolas etc.).

MG:
Cuidando da Terceira Missão das Universidades

PA:
Eixo 4
Construção e Manutenção da Cultura Científica: linguagens indígenas do estado

PB:
P,D&I EM ÁREAS ESTRATÉGICAS
Estimular a formação e capacitação de profissionais, técnicos, pesquisadores, professores e gestores nas várias áreas associadas a Mudanças Climáticas e Desertificação, bem como o fomento à pesquisa e à difusão de conhecimentos nessa área, em uma visão contextual, transdisciplinar, interinstitucional e regional/nacional. Complementarmente, institucionalizar e garantir a implementação dos PAES enquanto integrantes do conjunto das políticas de governo;

PR:
sem menção explícita

PE:
Ciência e Educação Superior
Construção da Cultura Científica

RJ:
sem menção explícita

RS:
Eixo IV) Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social (Produção de Conhecimento, Educação e CT&I, Democratização e Cidadania)
Construção da Cultura Científica;
popularização, difusão e apropriação da C&T;
patrimônio Histórico: dinâmicas, memória, preservação e difusão;
conhecimento científico e diversidade de saberes

RR:
sem menção explícita

SC:
Eixo A: Sistema Catarinense de CT&I - consolidação e expansão Diretrizes básicas:
Consolidação da infraestrutura de pesquisa em centros de pesquisa e institutos tecnológicos; disseminação do conhecimento científico e tecnológico.

ht: Luiz Bento

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional (1818-2018)

"Só espero que não seja necessário ocorrer algum desastre provocado por problemas de manutenção para que as autoridades resolvam tomar medidas positivas para a mudança do quadro atual."
Alexander Kellner, 13.jan.2012 
"O Brasil não sabe da grandeza, da riqueza disso aqui. Se soubesse, não deixaria chegar neste estado."
AK, mai.2018

Aqui um registro dos depoimentos, relatos e análises dos divulgadores de ciência sobre o desastre do incêndio do Museu Nacional. À medida em que souber de mais materiais, acrescento aqui.
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Walter Neves. Cientistas Engajados (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Pirula. Canal do Pirula (02/set/2018): Fim do Museu Nacional. (vídeo)
Isis Nóbile Diniz. Xis-Xis (02/set/2018): Museu Nacional pega fogo. Fim.
Sabine Righetti. Abecedário (02/set/2018): Perda de acervo raro do Museu Nacional afeta ciência e educação básica do país.
Hugo Fernandes-Ferreira. (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Emílio Garcia. 120 segundos (02/set/2018): Incêndio do Museu Nacional!!! (vídeo)
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (02/set/2018): É a sua história que está queimando.
SciCast. Spin #296. (03.set.2018) Museu Nacional - 21|18.
Ciência Explica (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional: reflexo de um governo que não se importa com ciência e cultura.
Luiz Bento (03.set.2018): Uma carta para minha filha sobre o Museu Nacional.
Camila Laranjeira. Peixe Babel (03.set.2018): [Luto] Museu Nacional. (vídeo)
Maurício Tuffani. Direto da Ciência (03.set.2018): Tragédia do Museu Nacional mostra déficit civilizatório do Brasil.
Ana Arnt. PEmCie (03.set.2018): A casa de Luzia (ou sobre o Luto pelo Museu Nacional).
Sérgio Sacani. Space Today (03.set.2018): Bate-Papo Sobre o Museu Nacionall. (vídeo)
Aline Ghilardi & Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (03.set.2018): A Queda do Museu Nacional: desabafo de dois cientistas. (vídeo)
Millor Fernandes. Normose (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional - Você sabe quem é o culpado? (vídeo)
Estêvão Slow. Canal do Slow (03.set.218): Museu Nacional em Chamas!!! (e daí?) (vídeo)
Caio Gomes. O Físico Turista (03.set.2018): Destruição do Museu Nacional. (vídeo)
Meteoro (04.set.2018): "Museu Nacional: encontre o culpado". (vídeo)
Orlando Calheiros. Ciência na Rua (04.set.2018): Aquilo que se perdeu com o Museu Nacional.
Davi Simões. Primata Falante (05.set.2018): "Incêndio do Museu Nacional: Tragédia inesperada ou projeto de sociedade?"
Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (05.set.2018): Sr. Prefeito, não basta só reconstruir o Museu. (vídeo)
Maíra Padgurschi. Biota+10 (05.set.2018). Museu Nacional (1818*-2018†).
Jefferson Picança. PaleoMundo (05.set.2018): O Museu, você e eu.
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (11.set.2018): Museu Nacional: Perguntas, respostas e lições, um compilado de (quase) tudo.
Filipe Figueiredo. Nerdologia (11.set.2018): O nosso Museu Nacional. (vídeo)
Atila Iamarino. Nerdologia (13.set.2018): O passado perdido do Museu Nacional. (vídeo)
Davi Calazans. Ponto em Comum (13.set.2018): O incêndio do Museu Nacional: onde eu estava? (vídeo)
Pedro Loos. Ciência todo Dia (13.set.2018): O Dia em que a Nossa História Queimou. (vídeo)
Sidcley Lyra (14.set.2018): O dia em que eu chorei com o diretor do Museu Nacional.
Dispersciência (15.set.2018): Memórias vivas do Museu Nacional. (vídeo)
Dragões de Garagem (09.out.2018): Museu Nacional (áudio)
Canal do Pirula (05.mai.2019): Museu Nacional Vive (vídeo)
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Labjor (03.set.2018): Nota de pesar – incêndio no Museu Nacional/UFRJ.
Daniela Klebis (03.set.2018): Perda inestimável: entidades científicas lamentam incêndio no Museu Nacional.
Jornal da USP. (03.set.2018): Um retrato do descaso com a cultura e a pesquisa no Brasil.

Manifesto SBPC, ABC e outras. (04.set.2018): "A Vida e a Morte da Ciência e da Memória Nacionais"
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Alguns textos sobre o bicentenário do MN anteriores ao incêndio.
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Rodrigo de Oliveira Andrade. Pesquisa Fapesp. mai/2018. Para voltar aos velhos tempos.
Allison Almeida. Ciência e Cultura. jul/set. 2018: Museu Nacional celebra 200 anos.
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Conhecendo Museus (06.ago.2012): Episódio 13: Museu Nacional -- UFRJ.

Turma do Penadinho (21.set.2018): Insubstituível!

segunda-feira, 26 de março de 2018

SUS e "Medicina Alternativa": Terapia de florais

Continuando a série sobre as PICs - práticas integrativas e complementares - no SUS, vamos analisar o que a literatura científica diz a respeito da terapia de florais.

.terapia de florais
>O que é? proposta de tratamento com base em essências de flores ultradiluídas em solução alcoólica, independente de composição química ou ação farmacológica, mas por meio, supostamente, de transferência de energia ou vibração das flores para o preparado. (Vide: Ernst 2010.)
> Status: não funciona além de nível de placebo.
É ofertado pelo SUS desde março de 2018.

Thaler et al. 2009. Revisão sistemática de 4 artigos do tipo aleatorizado com controle e 2 de observações restrospectiva.
>>sem efeito: além do placebo para: dor e problemas psicológicos; ansiedade e TDAH.

Ernst 2010. Revisão sistemática de 7 artigos do tipo aleatorizado com controle.
>>sem efeito: além de placebo para: ansiedade, desempenho escolar de crianças com TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), tempo de parto, uso de medicamentos durante o parto.

Nota: Ersnt 2010 amplia a revisão anterior Ernst 2002, para o qual não consegui acesso - apenas o resumo: 4 estudos foram incluídos na revisão, os dois estudos que controlam para o placebo e usa a aleatorização dos tratamentos falham em detectar efeito. A técnica é muito similar à homeopatia, na qual Edward Bach, médico britânico, baseou-se para criar sua proposta de terapia de florais; não surpreende que, como aquela, esta tampouco demonstre eficácia além do placebo. Não encontrei uma meta-análise, a quantidade de estudos incluídos nas revisões sistemáticas parecem apontar para uma falta de estudos de qualidade.

quinta-feira, 22 de março de 2018

SUS e "Medicina Alternativa": Musicoterapia

Continuando a série sobre as PICs - práticas integrativas e complementares - no SUS, vamos analisar o que a literatura científica diz a respeito da musicoterapia.

.musicoterapia
>O que é? Uso controlado da música, seus elementos (sons, ritmos, melodias, harmobias) e suas influências no ser humano a fim de ajudar na integração fisiológica, psicológica e emocional dos indivíduos durante o tratamento de uma doença ou deficiênciaMunro & Munro 1978.*
> Status: funciona para determinados grupos e condições.
É ofertado pelo SUS desde março de 2017.
>> crianças e adolescentes com psicopatologias
Whipple 2004. Meta-análise com 9 estudos (86 crianças e adolescentes com autismo): aumento dos comportamentos sociais adequados e diminuição de comportamentos inadequados, estereotípicos e autoestimulatórios; aumento da atenção às tarefas; aumento das vocalizações, verbalizações, gestos e compreensão vocabular; aumento da ecolalia (repetição de sons emitidos por outros), comunicação e diminuição do percentual de ecolalia sobre o total de sons emitidos; aumento de atos de comunicação e interação com outros; melhora da consciência corporal e coordenação; melhora de habilidade de autocuidado e brincadeiras simbólicas. redução da ansiedade.
Shi et al. 2016. Meta-análise com 6 estudos (300 crianças com autismo): melhora do humor ('mood'), habilidade com linguagem, percepção sensorial, comportamento e habilidade social.
Gold et al. 2004. Meta-análise com 11 estudos (188 crianças e adolescentes com psicopatologias): efeitos grandes sobre doenças comportamentais e de desenvolvimento, moderado para doenças emocionais; grande melhora de resultados comportamentais e de desenvolvimento, melhora média para grande da autoimagem e piora nas habilidades sociais.
>> doenças mentais graves ('serious mental disorders')
Gold et al. 2009. Meta-análise com 15 estudos (691 indivíduos): apresenta efeitos pequenos a partir de 3 a 10 sessões e grandes entre 16 e 51 sessões tanto para indivíduos com doenças mentais graves tanto psicóticas quanto não-psicóticas quando em combinação com tratamentos padrões, nos seguintes componentes: estado global, sintomas gerais, sintomas negativos, depressão, ansiedade, funcionalidade, engajamento musical.
Gold et al. 2006. Meta-análise com 4 estudos (266 indivíduos com esquizofrenia e outras psicoses): melhora dos estados mentais e da funcionalidade social a depender do número de sessões.
>> cognição de idosos
Li et al. 2015. Meta-análise com 5 estudos (234 indivíduos): sem efeito a curto prazo sobre a capacidade cognitiva de pacientes idosos.
>> demência
Ueda et al. 2013. Meta-análise com 20 estudos (651 indivíduos): efeito moderado sobre a ansiedade e pequeno sobre sintomas comportamentais.
Fusar-Poli et al. 2017. Meta-análise com 6 estudos (330 indivíduos): efeito moderado na melhora da cognição global.
Zhang et al. 2017. Meta-análise com 34 estudos (1.757 indivíduos idosos): diminuição do comportamento violento ('disruptive behavior'), depressão e ansiedade, e melhora da função cognitiva e qualidade de vida.
>> depressão em idosos
Zhao et al. 2016. Meta-análise com 19 estudos (1.494 indivíduos): redução da depressão em idosos.
>> estresse
Pelletier 2004. Meta-análise com 22 estudos (965 indivíduos): apresenta efeitos de relaxamento de pacientes com excitação por situação de estresse - medida por meio fisiológico (batimentos cardíacos), comportamentais ou auto-relato.
Rudin et al. 2007. Meta-análsise com 6 estudos (641 indivíduos): apresenta efeito de redução da ansiedade e necessidade de anestésicos para pacientes em sessão de endoscopia.
>> neonatos prematuros & pais
Standley 2002. Meta-análise com 10 estudos (290 recém-nascidos prematuros): melhora de nível de oxigenação, ganho de massa corporal, redução de tempo de internação, aumento de tolerância a estímulos, aumento do movimento de sucção, melhora da alimentação, promoção de ligação afetiva;
Standley 2012. Meta-análise com 30 estudos (1.243 recém-nascidos em unidades de terapia intensiva): frequência cardíaca, estado comportamental, frequência respiratória, saturação de oxigênio, habilidade de sugar/mamar, tempo de internação apresentaram grande melhora; peso/gasto energético em descanso, uma melhora média; e circunferência cefálica e pressão sanguínea, pequenas melhoras.
Bieleninik et al. 2016. Meta-análise com 14 estudos (964 bebês prematuros e 266 pais): melhora a taxa respiratória do bebê e a ansiedade maternal. Sem indício suficiente a respeito de outros parâmetros fisiológicos e comportamentais.
>> hipertensão
Amaral et al. 2016: Meta-análise com 2 estudos (90 indivíduos): melhora da pressão sanguínea sistólica. Sem efeito significativo sobre a pressão sanguínea diastólica.
>> criminosos
Chen et al. 2016: Meta-análise com 5 estudos (409 indivíduos, predominantemente homens): melhora a auto-estima e a funcionalidade social.
>> transtornos associados ao uso de drogas ('substance use disorders')
Hohmann et al. 2017. Meta-análise com 40 estudos (cerca de 1.900 indivíduos): inconclusivo pela variabilidade dos resultados sobre expressão das emoções, interações em grupo, desenvolvimento de habilidades e melhoria da qualidade de vida.
Nota: Várias meta-análises acabam incluindo relativamente poucos estudos, mas, no geral, parece haver um efeito primário da musicoterapia em acalmar os indivíduos (certamente pelas características das músicas escolhidas). É uma área que parece bem ativa em pesquisa - mas com grande parte dos estudos (a julgar pela redução que há durante a filtragem das meta-análises) com qualidade que ainda deixa a desejar. Queria incluir a meta-análise de Dileo 2006, que parece ser a mais abrangente, com 183 estudos em várias áreas médicas, infelizmente não encontrei uma cópia disponível - caso futuramente consiga uma, incluo nesta análise.

Parte 4: Terapia de florais.

*Upideite(22/mar/2018): modifique a definição - originalmente utilizei a que constava no site do MS sobre as PICs, mas substituí por uma mais objetiva.

domingo, 23 de abril de 2017

SUS e "Medicina Alternativa": Plantas medicinais e fitoterapia

Continuando a série sobre as PICs - práticas integrativas e complementares - no SUS, vamos analisar o que a literatura científica traz a respeito de uso de plantas medicinais e fitoterápicas e sua eficiência na prevenção e cura de doenças.

.plantas medicinais e fitoterapia
>O que é?: "terapêutica caracterizada pelo uso de plantas medicinais em suas diferentes formas farmacêuticas, sem a utilização de substâncias ativas isoladas, ainda que de origem vegetal". PNPIC/MS 2006.
(O fitoterápico é "o medicamento obtido empregando-se exclusivamente derivados de drogas vegetais. É caracterizado pelo conhecimento da eficácia e dos riscos de seu uso, assim como pela reprodutibilidade e constância  de sua  qualidade. Não se considera fitoterápico aquele que, na sua composição, inclua substâncias ativas isoladas, de qualquer origem, nem as associações destas com extratos vegetais." Netto et al. 2006. Ao contrário das plantas e suas partes in natura e preparados caseiros, o fitoterápico é um medicamento e para sua comercialização é preciso registro na Anvisa, com comprovação de sua eficácia e só pode ser prescrito por um médico.)
>Status: funciona a depender da planta, do preparado e da condição.
É ofertado pelo SUS como PIC desde o estabelecimento do PNPIC em 2006.
WHO Monographs on Selected Medicinal Plants. Série de monografias.
>> A OMS tem publicado uma série iniciada em 1999 de coleção de monografias sobre plantas medicinais selecionadas (de uso amplo em todo o mundo) com o nome, descrição, usos terapêuticos, efeitos adversos e referências da literatura cienífica. Até o momento são 4 volumes (somando 117 monografias) da série principal, mais um volume, de 2010, com 30 monografias sobre plantas medicinais utilizadas em países recentemente independentes e da Europa Central e do Leste.
Bent, S. 2008. Revisão da eficácia e segurança de 10 plantas medicinais mais utilizadas nos EUA.
>>funciona: soja para hipercolesterolemia;
>>possivelmente funciona: Gingko biloba (demência, claudicação), alho (hipercolesterolemia), erva-de-são-joão (St. John's wort: depressão leve a moderada), kava kava (ansiedade);
>>não funciona: soja para sintomas da menopausa.
>>ausência de indício sólido para: Echinacea (infecção do trato respiratório superior), ginseng (desempenho cognitivo e físico), hortelã-pimenta (peppermint: dor de estômago, síndrome do intestino irritável), gengibre (náusea);
>>sem dados de qualidade: camomila (insônia, problemas gastrointestinais);
Alexandre et al. (2005a) e Alexandre et al. (2005b) revisam os estudos para 8 plantas de maior uso no estado de Santa Catarina:
>>funciona: kava (ansiedade, mas mais estudos necessários para efeitos a longo prazo)
>>possivelmente funciona: gingko (claudicação, Alzheimer e demência em pessoas idosas), hipérico (depressão leve a moderada), castanha-da-índia (insuficiência venosa crônica;
>>ausência de indício sólido para: valeriana (distúrbios do sono), alcachofra (hipercolesterolemia), ginseng (desempenho cognitivo e físico), maracujá (ansiedade).
Nota: A despeito da grande diversidade e do intenso uso popular de plantas medicinais no Brasil, há poucos trabalhos publicados de consolidação de estudos sobre o tema. Carvalho et al. 2008 fazem um levantamento dos fitoterápicos registrados na Anvisa, as espécies com maior número de registros de derivados foram: gingko (Ginkgo biloba), castanha da índia (Aesculus hippocastanum), alcachofra (Cynara scolymus), hipérico (Hypericum perforatum), soja (Glycine max), valeriana (Valeriana officinalis), ginseng (Panax ginseng), sene (Cassia angustifolia, Cassia senna e Senna alexandrina), cimífuga (Cimicifuga racemosa), guaco (Mikania glomerata), espinheira-santa (Maytenus ilicifolia), boldo (Peumus boldus), guaraná (Paullinia cupana). Destes, apenas guaco, espinheira-santa e guaraná são nativos da flora brasileira, o que parece ser um bom indicativo da falta de pesquisa no país. Rodrigues et al. 2011 relacionam 26 plantas comumente utilizadas como medicinais no Brasil paras as quais há trabalhos relatando efeitos embriotóxicos, teratogênicos e/ou abortivos.

Parte 3: Musicoterapia.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

SUS e "Medicina Alternativa": Homeopatia

O Ministério da Saúde (MS) anunciou que o Sistema Único de Saúde passa a oferecer 19 tipos de práticas integrativas e complementares - PICs - (14 novas práticas foram incluídas pela Portaria nº 849/2017) no âmbito da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares - PNPIC.

Segundo o MS, PICs: "buscam estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde por meio de tecnologias eficazes e seguras, com ênfase na escuta acolhedora, no desenvolvimento do vínculo terapêutico e na integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade".

Parece uma iniciativa meritória, mas alguma crítica tem sido gerada, especialmente no meio cientófilo, pelo uso de dinheiro público em técnicas sem respaldo científico. Defensores, por outro lado, afirmam que estudos foram feitos comprovando a eficácia. Outros defensores (às vezes os mesmos) dizem que seria uma visão reducionista pensar a saúde apenas em termos de técnicas cientificamente testadas e seria apenas uma validação do poder do establishment científico e da indústria da saúde.

Mas o próprio MS justifica as PICs como sendo: "tratamentos que utilizam recursos terapêuticos, baseados em conhecimentos tradicionais, voltados para curar e prevenir diversas doenças como depressão e hipertensão". Se a alegação é de que curam e previnem doenças, é bom que curem e previnam doenças. Além disso, as PICs, também denominadas de "medicina tradicional" e "medicina complementar e alternativa" (CAM, na sigla em inglês), não são pobres coitadinhas, é um setor da própria indústria da saúde e um bem grande. (Apenas nos EUA, em 2009, a CAM correspondeu a gastos pela população adulta de US$ 33,9 bilhões. É um montante que colocaria fácil a CAM entre as maiores empresas farmacêuticas do mundo. Mesmo que esse montante seja diluído entre um grande número de empresas e indivíduos, mostra que a as "medicina alternativa" é uma indústria solidamente consolidada e que movimenta muito dinheiro.)

Então, embora não esgotando a questão, há, sim, necessidade de se examinar a validade de tais práticas.

Disclêimer: Não sou da área da saúde, procurarei nesta série de postagens, então, trazer o que a literatura científica tem de consenso mais atual. Darei preferência a meta-análises (que fazem um apanhado estatístico em cima de uma coleção de estudos individuais menores) e revisões sistemáticas (o autor ou os autores da revisão colige/m os melhores estudos e procura/m extrair uma conclusão geral) sempre que estiverem disponíveis no Google Scholar. Se tiverem alguma referência melhor, por favor, fiquem à vontade para indicar nos comentários.*

.homeopatia
>O que é?: proposta de tratamento através de administração de formulações ultradiluídas (diluição sucessiva em álcool ou água, moléculas do princípio ativo podem não estar mais presentes na solução final) de compostos que se supõe produzir sintomas similares à doença que se pretende combater quando administrada em indivíduos saudáveis. Vide, p.e., Jonas et al. 2003.
>Status: não funciona além de nível de placebo.
É ofertado pelo SUS como PIC desde o estabelecimento do PNPIC em 2006.

NHMRC (Austrália). 2015. 57 revisões sistemáticas (176 artigos):
>>sem efeito além de placebo para: vegetação adenóide infantil (crescimento anormal das tonsilas adenóides por trás do nariz), asma, ansiedade ou condições relacionadas ao stress, diarréia infantil (homeopatia clínica), dor de cabeça e enxaqueca, dor muscular tardia, indução ou abreviação do trabalho de parto, dor durante tratamento dentário, dor por circurgia ortopédica, movimentos intestinais lentos no pós-operatório da circurgia de íleo, síndrome pré-menstrual, infecções do trato respiratório superior (como resfriado), verrugas.
>>ausência de indício sólido de efeito para: rinite alérgica, transtorno de déficit de atenção ou hiperatividade em crianças, contusão (bruising), síndrome de fatiga crônica, diarréia infantil (homeopatia individual), fibromialgia, ondas de calor (hot flushes) em mulheres que tiveram câncer de mama, infecção por HIV, doenças similares à gripe, artrite reumatóide, sinusite, distúrbio do sono ou do ritmo circadiano, estomatite por quimioterapia, úlcera.
Mathie et al. 2016. Meta-análise com 54 estudos RTC (ensaio clínico controlado e aleatorizado)
>>ausência de indício sólido de efeito para: asma alérgica, toxicidade de arsênico, infertilidade feminina/amenorréia, gripe, síndrome do intestino irritável, dor muscular, dor pós-operatória, rinite alérgica sazonal. (É encontrado algum efeito positivo no geral, mas que pode ser atribuído ao viés de publicação - maior tendência a publicar estudos com resultados positivos - e à baixa qualidade dos estudos.)
Nota: Uma famigerada (famosa/infame a depender da pessoa) meta-análise é a de Linde et al. 1997. Ali, o grupo conclui que a homeopatia teria um efeito maior do que o placebo (embora não conseguissem detectar superioridade em nenhuma condição clínica específica). O mesmo grupo, Linde et al. 1999, reanalisou os dados levando em conta a variação na qualidade dos estudos, e observaram que estudos com mais qualidade (aleatorização dos grupos, design duplo cego, descrição dos desistentes e dos removidos dos estudos...) tendiam a reportar menores efeitos da homeopatia. O que os levou a dizerem: "It  seems,  therefore,  likely  that our  meta-analysis at  least  overestimated  the  effects  of homeopathic treatments." ["Parece, então, provável que nossa meta-análise tenha pelo menos superestimado os efeitos dos tratamentos homeopáticos".] Shang et al. 2005 voltam à questão da qualidade dos estudos sobre homeopatia e sua relação com o resultado. Considerando apenas os estudos com grande número de participantes e de boa qualidade metodológica, os 8 estudos sobre homeopatia (de 110 analisados) apresentam uma razão de chances (odd ratio) de 0,88 (IC 95% 0,65–1,19) - praticamente igual a uma razão de 1,00 quando o tratamento homeopática é indistinguível do placebo (note-se que o valor 1,00 está dentro do intervalo de confiaça). Para os tratamentos convencionais, em 6 estudos de alta qualidade (de 110), o OD é de 0,58 (0,39–0,85) mostrando claramente o efeito superior do tratamento sobre o placebo. Hahn, RG. 2013 critica a análise do gráfico em funil ('funnel plot') de Shang por misturar diferentes doenças: o poder estatístico ('power') de estudos em que se esperam efeitos maiores tende a ser diminuído por razões éticas, enquanto estudos em que se esperam efeito menores necessitam de poder estatístico maior, as meta-análises deveriam se focar, assim, em doenças específicas para comparação, em vez de juntar todas em uma análise só; Hahn também critica o fato de mais de 90% dos estudos acaberem sendo descartados. Em sendo válidas as críticas de Hahn, no máximo, até 2013, a situação seria que não haveria demonstração sólidal de que a homeopatia não funcionasse além do placebo; porém, significaria apenas que tampouco não haveria demonstração sólida de que a homeopatia funcione além do placebo. A meta-análise de Mathie 2016 e a revisão de NHMRC 2015 levam em conta doenças específicas.

Parte 2: Plantas medicinais e fitoterapia.

*Upideite(11/abr/2017): adido a esta data.

Upideite(13/mar/2018): o MS anunciou a inclusão de outras 10 PICs.

Upideite(20/mar/2018): Veja também.
Pirula. 20.mar.2018. Pseudociência no SUS. (vídeo)
Frank Jaava. 24.mar.2018. "Pseudociência no SUS"? Resposta a Pirula. (vídeo)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 24

Seguem minhas anotações de dois artigos a respeito do engajamento público de ciências com metodologias voltadas especialmente para a governança de políticas públicas de temas que demandam conhecimento científico mais intensivo.

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Macnaghten, P. 2013. The future of science governance: publics, policies, practices. Pp: 31-48. In: Vogt, C. et al. (orgs.) Comunicação e Percepção de Ciência e Tecnologia (C&T). De Petrus et Alii. 180 pp.

Rowe, G. & Frewer, L.J. 2005. A typology of public engagement mechanisms. Science, Technology, & Human Values 30(2): 251-90. doi: 10.1177/0162243904271724.


Tabela 1. Modelos de engajamento público na elaboração de políticas públicas. (Macnaghten 2013)
Modelo de Engajamento Público Processos de Engajamento Público
Estágio do Processo de Inovação Relação com o Resultado da Política Tópico de Discussão Posicionamento dos Sujeitos Status dos Objetivos da Política
À montante (Upstream) Inicial (early) Vago Mundos possíveis Exploratório Emergente
Intermediário Honesto (Honest broker) Meio (midstream)/fim (downstream) Forte Mundos conhecidos Reflexivo Ambivalente
Advogado da causa (Issue advocate) Meio/fim Forte Mundos conhecidos Maleável Predeterminado

Modelos de engajamento público (Macnaghten 2013)
*Modelo à montante. engajar o público em conversas exploratórias sobre uma gama de questões postas por tecnologia e conhecimento científico em um estágio relativamente inicial do processo de inovação.
*explorar os modos como a tecnologia emergente é imaginada pelos atores sociais, explorar futuros mundos possíveis, questões éticas e sociais associadas, deliberar sobre fatores que moldam a preocupação pública, esperança e possibilidades.
*frouxamente amarrado a objetivos e resultados específicos das políticas públicas; participantes são "sujeitos exploratórios" que desenvolvem novas identidades e posições através do próprio diálogo.

*Modelo do intermediário honesto. articulação entre as diferentes opções de política pública com um ramo específico das ciências já está amadurecido e dilemas ético-sociais já aparentes.
*fomentar deliberações públicas para pesar os prós e contras dos diferentes cursos de ação, articular as condições em que diferentes políticas são aceitáveis.
*relação mais próxima com o resultado de políticas públicas, menos exploratório; "sujeitos reflexivos" que contemplam as condições sobre se e como proceder com domínios controversos das ciências.

*Modelo do advogado da causa. já existe um objetivo conformado e acordado da política pública.
*deliberar sobre as condições sob as quais os objetivos podem ser realizados e sobre os diferentes modos em que podem ser alcançados por meio de um melhor entendimento das visões, crenças e necessidades do público.
*há muito menos espaço para explorar o enquadramento dos objetivos da política e discutir alternativas; "sujeitos maleáveis" que podem ceder em suas visões e posições através da provisão de informações e argumentos das instituições patrocinadoras.

Tabela 2. Tipos de engajamento público (Rowe & Frewer 2005)
Fluxo da informação
Comunicação pública
Patrocinador (sponsor) ---> Representantes do público (public representatives)
Consulta pública
Patrocinador <--- Representantes do público
Participação pública
Patrocinador <---> Representantes do público

(Rowe & Frewer 2005)
Mecanismos de engajamento (genérico) e iniciativas ou exercícios (específico) de engajamento.
Patrocinador (sponsor). Parte que comissiona a iniciativa de engajamento. Em geral governos e agências regulatórias, ocasionalmente representantes do público.
Organizador (organizer). Parte que conduz o exercício de engajamento. Pode ou não ser o patrocinador.

Tipos de engajamento público (Rowe & Frewer 2005)
Comunicação pública (public communication). Informação repassada dos patrocinadores da iniciativa para o público: flui unidirecionalmente. Não há propriamente um envolvimento do público pois seu feedback não é requerido ou não é especificamente o que se busca. Quando o público procura fornecer informação, não há um mecanismo especificado de antemão, no máximo, registra-se essa informação.
Consulta pública (public consultation). Informação passada dos membros do público para os patrocinadores da iniciativa, segundo processo iniciado pelos patrocinadores. Não há um diálogo formal entre membros individuais do público e os patrocinadores. Informação fornecida pelo público é tomada como representativa da opinião a respeito do tópico.
Participação pública (public participation). Informação trocada entre membros do público e patrocinadores. Algum grau de diálogo (que ocorre geralmente em grupos) entre membros das partes em diferentes proporções (dependendo do mecanismo em questão) até mesmo com apenas representantes do público (que recebem informações adicionais dos patrocinadores antes de responderem). No lugar de respostas simples e cruas, o diálogo e negociação muda a opinião das partes (público e patrocinadores).

Competência/eficiência (Rowe & Frewer 2005)
Comunicação pública. Maximização da transferência de informações relevantes dos patrocinadores de modo eficiente (com mínima perda de informação) para o maior número de membros da população relevante, com processamento eficiente dessas informações pelos receptores (público/participantes).
Consulta pública. Maximização da transferência de informações relevantes do maior número de membros da população relevante de modo eficiente (com mínima perda de informação) para os patrocinadores, com processamento eficiente dessas informações pelos receptores (os patrocinadores).
Participação pública. Maximização da transferência de informações relevantes do maior número de todas as fontes relevantes de modo eficiente (com mínima perda de informação) para as demais partes, com processamento eficiente dessas informações pelos receptores (patrocinadores e participantes) e a combinação disso em uma composição acurada.

Tabela 3. Variáveis dos mecanismos de engajamento. (Rowe & Frewer 2005)
Variável do mecanismo Níveis da variável Aspectos influenciáveis da Efetividade Tipos relevantes de engajamento
Método de seleção dos participantes Controlado/Não controlado Maximização de participantes relevantes Comunicação
Consulta
Participação
Facilitação da eliciação da informação Sim/Não Maximização de informações relevantes dos participantes Consulta
Participação
Modo de resposta Ilimitado (aberto)/Limitado (fechado) Maximização de informações relevantes dos participantes Consulta
Participação
Insumo (input) de informação Informação pré-definida (set information)/Informação flexível Maximização de informações relevantes dos patrocinadores Comunicação
Meio de transferência de informação Face a face/Não face a face Maximização de transferência e processamento de informações relevantes Comunicação
Consulta
Participação
Facilitação da agregação Combinação estruturada/Combinação não estruturadaAgregação das informações dos participantes Consulta
Participação

Tabela 4. Preocupações do público em diferentes modelos de engajamento público. (Macnaghten 2013)
Modelo de Engajamento PúblicoPreocupações do Público sobre Governança das Ciências
PropósitosConfiançaInclusãoVelocidade e direçãoÉtica, compromisso (trade-off) e equidade
À montante (Upstream)As motivações dos cientistas são boas e transparentes?As instituições financiadoras estão direcionando a pesquisa para o interesse público?As contribuições do público têm o poder de moldar a política econômica das ciências?As ciências responderão ao "bem social"? Ela respeitará a ordem natural?Valores individuais e de mercado sobrepujarão valores coletivos?
Intermediário Honesto (Honest broker)A pesquisa demonstra respeito aos valores humanos básicos?A ciência e as instituições financiadoras são independentes dos interesses?Os valores éticos e sociais informarão genuinamente a deliberação sobre a política?Pressões corporativas de curto prazo sobrepujarão considerações éticas/sociais?O impacto da ciência irá impactar de modo injusto grupos vulneráveis?
Advogado da causa (Issue advocate)Os objetivos predeterminados da política são legítimos e plausíveis?As instituições políticas merecem confiança na busca por suas intenções declaradas?Os objetivos das instituições políticas estão abertos aos desafios pela contribuição do público?Pressões corporativas dirigirão as ciências às custas de considerações éticas/sociais?O benefício social prometido pela ciência será suficiente para suplantar considerações éticas/sociais irrefletidas?

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