Lives de Ciência

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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

A DC à luz das conferências estaduais preparatórias para a 4a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia

Destaco aqui as citações relativas à divulgação científica nas memórias das conferências estaduais de ciência e tecnologia preparatórias para a 4a Conferência Nacional de Ciência Tecnologia em 2010. (A 5a Conferência será realizada ano que vem.)

AC:
Eixo IV – Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social
Difusão e popularização da Ciência em todo o Estado do Acre.

AP:
sem menção explícita

AM:
sem menção explícita

BA:
"Popularizar a ciência, a tecnologia e a inovação, a melhoria do ensino básico, fundamental e, mais notadamente, do ensino das matérias diretamente relacionadas com a Ciência, juntamente com a criação e o aperfeiçoamento de tecnologias para o desenvolvimento social."

CE:
sem menção explícita

DF:
Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social
Difusão do conhecimento científico e tecnológico e de inovações

ES:
sem menção explícita

GO:
sem menção explícita

MA:
Eixo IV - C,T&I para o Desenvolvimento Social
Construção de uma cultura científica

MT:
sem menção explícita

MS:
Eixo 1: Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação
Ausência de políticas eficientes locais e regionais de estímulo, discussão* e divulgação de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e cultura científica.
Eixo 4: Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social
Ineficiência dos meios de comunicação da CT&I, de espaços científico-culturais e de eventos públicos de divulgação científica.
Reduzida integração entre instituições que fomentam e promovem a cultura científica (agências, institutos, universidades, escolas etc.).

MG:
Cuidando da Terceira Missão das Universidades

PA:
Eixo 4
Construção e Manutenção da Cultura Científica: linguagens indígenas do estado

PB:
P,D&I EM ÁREAS ESTRATÉGICAS
Estimular a formação e capacitação de profissionais, técnicos, pesquisadores, professores e gestores nas várias áreas associadas a Mudanças Climáticas e Desertificação, bem como o fomento à pesquisa e à difusão de conhecimentos nessa área, em uma visão contextual, transdisciplinar, interinstitucional e regional/nacional. Complementarmente, institucionalizar e garantir a implementação dos PAES enquanto integrantes do conjunto das políticas de governo;

PR:
sem menção explícita

PE:
Ciência e Educação Superior
Construção da Cultura Científica

RJ:
sem menção explícita

RS:
Eixo IV) Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Social (Produção de Conhecimento, Educação e CT&I, Democratização e Cidadania)
Construção da Cultura Científica;
popularização, difusão e apropriação da C&T;
patrimônio Histórico: dinâmicas, memória, preservação e difusão;
conhecimento científico e diversidade de saberes

RR:
sem menção explícita

SC:
Eixo A: Sistema Catarinense de CT&I - consolidação e expansão Diretrizes básicas:
Consolidação da infraestrutura de pesquisa em centros de pesquisa e institutos tecnológicos; disseminação do conhecimento científico e tecnológico.

ht: Luiz Bento

terça-feira, 3 de setembro de 2019

"A torre de marfim é indefensável quando suas muralhas são assaltadas." Um pequeno teste

Teste.

Leia atentamente o excerto abaixo:
"Os ataques incipientes e reais à integridade da ciência tem levado os cientistas a reconhecerem sua dependência de certos tipos de estrutura social. Manifestos e declarações de associações científicas são dedicados às relações entre a ciência e a sociedade. Uma instituição que sofre ataques tem que examinar seus fundamentos, revisar seus objetivos, buscar sua explicação racional. As crises convidam à autocrítica. Agora que tem que enfrentar ameaças ao seu modo de vida, os intelectuais foram lançados a um estado de aguda conscientização: consciência da própria personalidade como elemento integrante da sociedade, e das obrigações e interesses correspondentes. A torre de marfim é indefensável quando suas muralhas são assaltadas. Depois de prolongado período de relativa segurança, durante o qual o culto à ciência e a difusão dos conhecimentos tinham chegado a uma posição de destaque, senão de primeiro plano, na escala de valores culturais, os cientistas se vêem obrigados a justificar os caminhos da ciência para os homens. Assim eles fecharam o círculo, levando-o de volta ao ponto e momento em que a ciência reapareceu no mundo moderno. Três séculos atrás, quando a instituição da ciência pouca justificação podia apresentar para conseguir o apoio da sociedade, os filósofos naturais eram levados assim mesmo a justificar a ciência como um meio para fins culturalmente válidos de utilidade econômica ou de glorificação de Deus. O cultivo da ciência não era então um valor evidente por si mesmo. Mas, com a interminável corrente de êxitos obtidos pela ciência, o instrumental se transformou em final, os meios se transformaram em fins. Assim fortalecido, o cientista chegou a considerar-se independente da sociedade e a encarar a ciência como empresa que se justifica por si mesma e que 'está' na sociedade, mas não 'faz parte' dela. Era necessário que se desse um ataque frontal contra a autonomia da ciência, para transformar esse isolacionismo otimista em participação realista do conflito revolucionário das culturas. A consequência dessa associação leva a clarificar e reafirmar o 'ethos' da ciência moderna."

Qual o autor e época a que se refere o trecho acima?

a. Robert Merton. 1942.
b. Thomas Kuhn. 1962.
c. Bruno Latour. 1979.
d. Bruno Latour. 2018.

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Resposta:
a. Robert Merton, 1942 (pp: 651-2; Merton, R. 1949. "Sociologia - Teoria e Estrutura").

É uma sensação bizarra de dia da marmota que um texto de quase 80 anos atrás possa se encaixar à perfeição nos dias atuais. E, mais do que isso, possa descrever diversos períodos intermediários. O mesmo diagnóstico de encastelamento e distanciamento do restante da população, e o mesmo receituário da necessidade da reaproximação. Será que desta vez vai? Talvez seja a última chance, dados os desmontes - e não apenas ataques verbais à autoridade cultural e epistemológica da ciência, mas a desestruturação, no nosso subcontexto, de todo o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia por asfixia financeira com os cortes e o aparelhamento.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Especulando: Crise das ciências, DC e ação política

Neste momento particularmente terrível para a ciência brasileira com o contingenciamento de 42% do orçamento da pasta do MCTIC - e com um orçamento que já era reduzido em relação aos anos anteriores - e várias ações do anti-intelectualismo que grassam no governo em várias esferas (de CPI das Universidades em São Paulo, campanhas para filmar e denunciar professores, mentiras ditas sem contestação a respeito da pesquisa em universidades públicas, etc.), a comunidade acadêmico-científica parece apostar em duas fichas: a divulgação científica e o ativismo político.

De um lado, acho mais do que válida e bem vinda a valorização por parte dos cientistas em geral do que muitas vezes era vista como patinho feio do trinômio universitário: a extensão. E dentro da extensão, a DC também muitas vezes gerava mal entendidos - como o famigerado (e certamente falso) "efeito Carl Sagan" - de que acadêmicos que se dedicam à divulgação tendem a ser pouco produtivos em publicações científicas.

Entre outros efeitos, isso deve (acho) redundar em: 1) mais cientistas se dedicando à atividades de DC; 2) mais oportunidades de trabalho para grupos já relativamente organizados de DC; 3) maior preocupação com capacitação e formação dos divulgadores.

Mas me preocupo um tanto com um aparente excesso de esperanças que parte da comunidade científica parece depositar na DC para angariar apoio popular - e, daí, político; e, daí, reverter cortes nos financiamentos e ações anticiência. A DC tem um papel importante a desempenhar, mas a expectativa me parece irreal. Ela não faz mágica.

A DC não é meramente um departamento de relações públicas e assessoria de imprensa e de imagem das ciências. Parte dela pode cumprir tal papel. Mas é também parte da DC desempenhar um papel de observação crítica da prática científica. Denunciar más práticas, relativizar hypes de descobertas - colocando em contexto ou até mesmo apontando possíveis consequências danosas da aplicação de um achado científico, é algo que cabe à DC (seja ou não na vertente do jornalismo científico) - ainda que não exclusivamente à DC, a própria ciência em si tem seus fóruns internos para tal discussão (p.e. a questão sobre o uso ou não de significância estatística como critério dicotômico de aceitação ou não de hipóteses tem sido feita através de artigos científicos e de opinião em publicações científicas e acadêmicas).

Mas mesmo a DC em seu papel de reforçar a confiança nas ciências é limitada. Estudos de persuasão indicam que os variados métodos como uso de humor, metáforas, elementos emotivos, admoestações peremptórias, inoculação preventiva, etc. têm resultados modestos (ainda que positivos) nas atitudes do público em relação às ciências. As pesquisas têm ajudado a conhecer as melhores práticas da DC no quesito convencimento, mas ainda estão engatinhando como uma área de ciência da divulgação de ciências.

A DC precisa vir acompanhada de muitos outros fatores a mudar a relação entre a comunidade científica e a sociedade em que ela se insere. Transparência/accountability e participação democrática são dois termos chave que vêm sendo brandidos e estudados nesse quesito. A comunidade científica se abrir mais para a participação popular na definição de prioridades das pesquisas e discussão das preocupações com as tecnologias em uso e por se introduzir - até mesmo com os não especialistas botando a mão na massa na prática da ciência cidadã. É um processo que exige humildade nem sempre fácil de se aceitar e confiança mútua nem sempre prontamente estabelecida. Porém, o contrário, a desconfiança mútua e a arrogância, trazem o afastamento e estranhamento que só prejudicam a ambos os setores como o cerco à liberdade acadêmica, de um lado, e o ressurgimento de doenças preveníveis por vacinação por conta da baixa adesão, de outro, demonstram bem.

Um outro movimento que a academia tem (re)tomado e que também em histórico recente é alvo de polêmicas internas é o do ativismo político. Marchas e protestos (ainda que de alcance limitado - em parte, justamente por essa resistência da academia a se ver em meio a algo que não é meramente a discussão racional do fazer científico), lobbies (ou, em termo socialmente mais aceitável, grupos de advocacy ou de pressão) (recentemente pelo menos três iniciativas foram organizadas - o Instituto Questão de Ciência, como associação independente de indivíduos; o Observatório do Conhecimento, uma rede de associações discentes do ensino superior; e a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento, a ICTP.br, um movimento conjunto da SBPC com outras sociedades científicas - todas com o objetivo de interlocução com parlamentares para a elaboração de políticas públicas baseadas no conhecimento científico e em defesa da ciência), e talvez num movimento mais ousado: lançando candidatos cientistas a cargos públicos representativos (embora nenhuma entidade científica - até por questões estatutárias e legais - tenha apoiado abertamente algum) cientistas.

Foram durante os anos de chumbo que a SBPC teve alguns de seus momentos de maior relevância, colocando-se como elemento de resistência à perseguição político-ideológica do regime contra acadêmicos, cientistas e intelectuais.

Um terceiro movimento, não organizado (ao menos por enquanto), é o de simplesmente (quase nunca é simples, na verdade) tentar ir buscar oportunidades (e fugir de perseguições) no exterior. Desconheço uma medida do tamanho do brain drain atual (se souberem de estudos estimando o total de cientistas brasileiros que tenham se mudado para o estrangeiro em tempos recentes, por favor, indiquem nos comentários*). É um movimento compreensível, mas, claro, que não tende a ser ativamente incentivado pela academia.

Um quarto busca articular os dois primeiros: DC e ação política. Mas é ainda mais incipiente. E igualmente (ou até mais, talvez) polêmico. É compreensível a resistência uma vez que, sim, é preciso resguardar tanto a prática científica quanto a comunicação pública a respeito dela de vieses que as distorçam. Mas, sem equacionar a questão, a máquina anti-intelectual vem fechando o cerco. Pode ser questão de sobrevivência (até literal).

*Upideite(19.mai.2019): Um grupo da Unicamp está mapeando a diáspora de cientistas brasileiros nos Estados Unidos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"Por que e como investir em divulgação científica?"

No dia 29 de julho, foi realizado o Conhecer Eleições 2018 uma série de sabatinas com, então, pré-candidatos à Presidência da República e representantes, a respeito de propostas e plataformas para a Ciência. Organizado conjuntamente pela equipe do DispersciênciaScience Vlogs Brasil e Huffpost Brasil (HPB), contou com a participação de jornalistas, cientistas e divulgadores científicos nas bancas de entrevistadores, a íntegra pode ser vista no YouTube.

Como preparação para o evento, uma série de artigos foram publicados no HPB com análises e diagnósticos dos problemas da ciência e da divulgação científica brasileira que poderiam ser abordados pelos projetos dos (pré-)candidatos. A mim foi encomendado um texto sobre "por que e como investir em divulgação científica?". A versão final saiu com o título: "O papel da ciência e dos divulgadores científicos no desenvolvimento da sociedade".

Abaixo reproduzo não essa versão publicada, mas (com pequenas modificações) a inicial - realmente era inadequada ao canal (não tinha captado bem a proposta nesse primeiro momento, pensei mais nos próprios divulgadores e não no público geral), que, não obstante, creio trazer mais detalhes pertinentes aqui.

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"Por que e como investir em divulgação científica?"

[...] Confesso, no entanto, que não me considero habilitado a dar respostas definitivas a elas, em particular para a segunda. Mas podemos nos aventurar em algumas tentativas de respostas.

"Por que investir em divulgação científica?" é, das duas, a pergunta mais fácil... ou menos difícil. Sim, não há um consenso entre as pessoas que estudam e praticam a ciência e a arte de trazer para o público temas relacionados às ciências de qual é, afinal, a importância da atividade. No entanto, embora as respostas eventualmente ocasionem brigas de foices entre os especialistas, podemos mapear as motivações preferenciais dos diferentes autores, grupos e comunicadores. P.e. Thomas & Durant 1987 agruparam os motivos para se fazer divulgação científica em 9 classes; Martín-Sempere  et al. 2008, em 4; Semir & Revuelta 2010, em 5; Besley et al 2017, em 8. Aqui proponho apenas três (e um quarto de miscelâneas).

Um pacote de respostas podemos classificar bem grosseiramente como de natureza egoísta corporativista: elas apontam as vantagens da comunicação para a própria comunidade científica e acadêmica. Por exemplo, as atividades de divulgação podem ajudar a atrair novos talentos (muitos da geração atual de divulgadores e de cientistas - ali na casa dos trintas anos - tiveram como inspiração inicial "O Mundo de Beakman"), podem ajudar a manter ou aumentar a confiança pública na comunidade científica (o que é bem preocupante em relação a certos temas como mudanças climáticas em que certos grupos resistem a aceitar as conclusões defendidas pela quase totalidade dos pesquisadores) ou aumentar a visibilidade do trabalho (alguns estudos indicam que artigos científicos que recebem cobertura midiática acabam sendo mais citados - na média - do que artigos ignorados pela mídia). Por egoísta corporativista não quero dizer que sejam motivações ruins ou erradas, apenas que o objetivo é voltado mais para os interesses dos próprios cientistas - mas que podem beneficiar também a sociedade e indivíduos não ligados à academia.

Outro conjunto de respostas podemos nomear de cívico democrático: os argumentos gravitam em torno de questões de benefícios do público e da sociedade. Muitas decisões importantes, como regulamentação de novas tecnologias, protocolos de mitigação de efeitos do aquecimento global ou inclusão de novas vacinas no calendário de imunização nacional, passam por se ter conhecimentos científicos embasados. A divulgação científica pode ajudar a população trazendo não apenas informações a respeito, mas a ajudando a contextualizar tais informações: que interesses estão em jogo, quais os riscos, qual o grau de incerteza em torno dos resultados? Nesta linha também incluímos correlações entre desenvolvimento econômico e o grau de conhecimento científico da população ou a necessidade de se prestar contas à sociedade, que financia as ciências. Possivelmente uma das variantes mais conhecidas desta modalidade seja a de Carl Sagan em seu clássico "O Mundo Assombrado pelos Demônios": "Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e toda as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara." O cívico democrático não deixa de ser algo egoísta na medida em que, se as coisas desandarem como os que sustentam esses argumentos sugerem, também seria contra os interesses destes.

E um terceiro, denominável de festivo cultural. Argumentos dessa estirpe enfatizam o conhecimento pelo conhecimento, a diversão proporcionada tanto pelo que se sabe sobre ciências quanto pelo próprio processo de aquisição de informações por meio do chamado edutainment, o apelo estético e as relações com as artes.

Podemos notar que os argumentos podem se prestar a mais de uma categoria: o citado "O Mundo de Beakman" objetiva mais à educação informal por meio da diversão, mas com consequências previsíveis de encantar parte da audiência e induzi-la a seguir carreira em alguma área científica. Alguns eventualmente não se encaixarão nessas grandes categorias mais gerais.

Ok, mesmo não havendo consenso, há vários tipos de argumentos para por que investir em divulgação científica que podemos escolher, isoladamente ou em conjunto (ou em baciada). E quanto à segunda pergunta?

De um jeito ou de outro é importante comunicarmos sobre ciência ao público, mas como fazer isso? Embora estudos sobre a comunicação de ciências ao público venham sendo feitos há bem uns 60 anos; somente há coisa de 10 anos o corpo de conhecimentos acumulados sobre o que funciona ou não na divulgação científica começou a ser sistematizado com tentativas de criação de modelos de comunicação que mapeiam importantes fatores que influenciam - positiva ou negativamente - a troca de informações sobre ciências (vide, por exemplo, Trench 2008 ou Eveland et al. 2013).

Certamente ainda há muita coisa que falta se estudar mais e a maior parte do que se sabe é baseada em estudos com alunos de universidades americanas atrás de créditos para se formarem. O que representa um porção bastante restrita da diversidade de público que encontraremos na população em geral. Além disso, as mudanças da paisagem de comunicação, com uma maior segmentação ocasionada pela ascensão das mídias sociais frente às mídias tradicionais, tem trazido novos desafios, em que estratégias de comunicação em massa - sobre as quais a maior parte do conhecimento acumulado recai - podem não mais funcionar. Mas não devemos ignorar esse tanto que se sabe, mesmo que não haja garantias de que funcionará em um contexto diferente. P.e. pelos estudos sabemos que a forma mais comum com que enfrentamos uma notícia falsa ou hoax: geralmente apresentando primeiro o boato - descrevendo em detalhes a história que circula - e só depois tratar da refutação, pode ter um efeito contrário ao aumentar a crença das pessoas na história que se deseja demonstrar falsa. Reapresentar o boato acaba ajudando a fixá-lo na memória dos incautos e, mais tarde, poderá tomar o fato de ele lhe ser familiar como indicador de que seja verdadeiro. Há alguma discussão a respeito de qual a melhor maneira de enfrentar esse problema (Peter & Koch 2016 propõem fazer com que o receptor da informação julgue o boato tão logo seja informado da história e de sua refutação; o relatório de consenso sobre comunicação pública efetiva de ciências da Academia Americana de Ciências, Engenharia e Medicina, de 2017, propõe que se evite uma refutação longa e complexa de um boato originalmente curto e simples; Bastian 2017 defende que não há ainda um caso forte para se defender nenhum tipo de recomendação específica). De todo modo, pelo menos à primeira vista, essas conclusões sobre a necessidade de se atentar para esses fenômenos não devem se alterar pela mudança dos meios de comunicação.

Dos estudos de psicologia cognitiva e social, um modelo do funcionamento de nossa mente tem sido bastante defendido entre os especialistas: o das duas vias de processamento de informações. Uma rápida, mais intuitiva, e uma mais lenta, mais analítica. Nós usamos na maior parte do tempo a primeira via, que, aparentemente, demanda menos energia e esforço. Ela nos ajuda a tomar decisões rápidas, porém está sujeita a muitos erros induzidos pelos atalhos utilizados - o efeito mencionado mais acima sobre notícias falsas da familiaridade de uma informação levar a se tomá-la como verdadeira é um desses atalhos com grande potencial a levar a erros de julgamentos. Certas condições experimentais parecem induzir a ativação da segunda via. Por exemplo, fazer com que uma pessoa resolva determinados tipos de exercícios matemáticos de comparação de proporções parece levar a que ela examine mais atenta e detidamente alegações que lhe são apresentadas logo em seguida. Potencialmente, comunicações que se aproveitem dessas características para gerar mensagens que, ou sejam mais facilmente assimiladas pela via rápida, ou que ativem a via analítica para tentar barrar a aceitação de dadas alegações sem exame prévio poderiam ser mais eficientes.

Somando às mencionadas incertezas quanto à aplicabilidade dessas conclusões para grupos culturalmente distintos dos sujeitos experimentais em que tais estudos foram validados, é difícil dar uma receita de qual o melhor modo de se fazer a divulgação científica em casos concretos. Esse conhecimento parcialmente consolidado, no entanto, é muito útil ao fornecer parâmetros em que devemos prestar atenção ao desenvolvermos nossas estratégias e trabalhos de comunicação. Idealmente, para cada caso devemos fazer pequenos estudos pilotos e avaliações periódicas para verificar o que funciona para a situação específica: aquele tema para aquela população com aquelas mídias disponíveis com aquela quantidade de dinheiro que temos para investir no projeto, etc. Na impossibilidade disso, podemos usar como guia, mais do que nossas intuições, preconcepções e experiências pessoais, esse conjunto sempre crescente de conhecimento científico da nascente área da ciência da comunicação de ciências. Se não há uma receita pronta de bolo, há um conjunto de utensílios e ingredientes pré-testados para cada qual preparar seu próprio confeito personalizado.

Respeitando o estilo pessoal de cada divulgador e mirando as características particulares de cada grupo, vejo a divulgação científica cada vez mais como um ecossistema com cada divulgador ou projeto atendendo um nicho, uma especialidade, e eventualmente "concorrendo" entre si, numa grande teia de colaborações diretas e indiretas.

Mas temos que notar que esse tipo de conhecimento leva a questionamentos éticos bastante sérios. O quanto se valer desses macetes corresponde uma tentativa de manipulação do público?

Então, como devemos fazer divulgação de ciências? Uma tentativa de resposta (admito, um tanto elusiva) é: cientificamente, mas também eticamente.

Divulgador de ciências freelancer e autor do blog Gene Repórter, colabora com vários projetos de divulgação científica: Blogs de Ciência da Unicamp (ASCOM/Labjor-Unicamp), podcast Oxigênio (Labjor/RTV Unicamp), Pint of Science Campinas.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional (1818-2018)

"Só espero que não seja necessário ocorrer algum desastre provocado por problemas de manutenção para que as autoridades resolvam tomar medidas positivas para a mudança do quadro atual."
Alexander Kellner, 13.jan.2012 
"O Brasil não sabe da grandeza, da riqueza disso aqui. Se soubesse, não deixaria chegar neste estado."
AK, mai.2018

Aqui um registro dos depoimentos, relatos e análises dos divulgadores de ciência sobre o desastre do incêndio do Museu Nacional. À medida em que souber de mais materiais, acrescento aqui.
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Walter Neves. Cientistas Engajados (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Pirula. Canal do Pirula (02/set/2018): Fim do Museu Nacional. (vídeo)
Isis Nóbile Diniz. Xis-Xis (02/set/2018): Museu Nacional pega fogo. Fim.
Sabine Righetti. Abecedário (02/set/2018): Perda de acervo raro do Museu Nacional afeta ciência e educação básica do país.
Hugo Fernandes-Ferreira. (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Emílio Garcia. 120 segundos (02/set/2018): Incêndio do Museu Nacional!!! (vídeo)
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (02/set/2018): É a sua história que está queimando.
SciCast. Spin #296. (03.set.2018) Museu Nacional - 21|18.
Ciência Explica (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional: reflexo de um governo que não se importa com ciência e cultura.
Luiz Bento (03.set.2018): Uma carta para minha filha sobre o Museu Nacional.
Camila Laranjeira. Peixe Babel (03.set.2018): [Luto] Museu Nacional. (vídeo)
Maurício Tuffani. Direto da Ciência (03.set.2018): Tragédia do Museu Nacional mostra déficit civilizatório do Brasil.
Ana Arnt. PEmCie (03.set.2018): A casa de Luzia (ou sobre o Luto pelo Museu Nacional).
Sérgio Sacani. Space Today (03.set.2018): Bate-Papo Sobre o Museu Nacionall. (vídeo)
Aline Ghilardi & Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (03.set.2018): A Queda do Museu Nacional: desabafo de dois cientistas. (vídeo)
Millor Fernandes. Normose (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional - Você sabe quem é o culpado? (vídeo)
Estêvão Slow. Canal do Slow (03.set.218): Museu Nacional em Chamas!!! (e daí?) (vídeo)
Caio Gomes. O Físico Turista (03.set.2018): Destruição do Museu Nacional. (vídeo)
Meteoro (04.set.2018): "Museu Nacional: encontre o culpado". (vídeo)
Orlando Calheiros. Ciência na Rua (04.set.2018): Aquilo que se perdeu com o Museu Nacional.
Davi Simões. Primata Falante (05.set.2018): "Incêndio do Museu Nacional: Tragédia inesperada ou projeto de sociedade?"
Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (05.set.2018): Sr. Prefeito, não basta só reconstruir o Museu. (vídeo)
Maíra Padgurschi. Biota+10 (05.set.2018). Museu Nacional (1818*-2018†).
Jefferson Picança. PaleoMundo (05.set.2018): O Museu, você e eu.
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (11.set.2018): Museu Nacional: Perguntas, respostas e lições, um compilado de (quase) tudo.
Filipe Figueiredo. Nerdologia (11.set.2018): O nosso Museu Nacional. (vídeo)
Atila Iamarino. Nerdologia (13.set.2018): O passado perdido do Museu Nacional. (vídeo)
Davi Calazans. Ponto em Comum (13.set.2018): O incêndio do Museu Nacional: onde eu estava? (vídeo)
Pedro Loos. Ciência todo Dia (13.set.2018): O Dia em que a Nossa História Queimou. (vídeo)
Sidcley Lyra (14.set.2018): O dia em que eu chorei com o diretor do Museu Nacional.
Dispersciência (15.set.2018): Memórias vivas do Museu Nacional. (vídeo)
Dragões de Garagem (09.out.2018): Museu Nacional (áudio)
Canal do Pirula (05.mai.2019): Museu Nacional Vive (vídeo)
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Labjor (03.set.2018): Nota de pesar – incêndio no Museu Nacional/UFRJ.
Daniela Klebis (03.set.2018): Perda inestimável: entidades científicas lamentam incêndio no Museu Nacional.
Jornal da USP. (03.set.2018): Um retrato do descaso com a cultura e a pesquisa no Brasil.

Manifesto SBPC, ABC e outras. (04.set.2018): "A Vida e a Morte da Ciência e da Memória Nacionais"
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Alguns textos sobre o bicentenário do MN anteriores ao incêndio.
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Rodrigo de Oliveira Andrade. Pesquisa Fapesp. mai/2018. Para voltar aos velhos tempos.
Allison Almeida. Ciência e Cultura. jul/set. 2018: Museu Nacional celebra 200 anos.
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Conhecendo Museus (06.ago.2012): Episódio 13: Museu Nacional -- UFRJ.

Turma do Penadinho (21.set.2018): Insubstituível!

sábado, 4 de agosto de 2018

Ciência: a longa (longa) marcha 4

Em 2 de agosto, veio à tona uma carta escrita de véspera pelo presidente da Capes dirigida ao Ministro da Educação Rossieli Sorares, alertando para a possibilidade de suspensão de mais de 200 mil bolsas de pós-graduação e de iniciação à docência (Pibid), além do funcionamento da Universidade Aberta do Brasil e cooperações internacionais a partir de agosto de 2019 em função do teto orçamentário repassado ao órgão pelo MEC que é inferior ao orçamento de 2018.

A notícia repercutiu fortemente na comunidade científica e, particularmente, entre os pós-graduandos. Tão intenso foi o processo que se decidiu marcar uma manifestação já no dia seguinte, no vão do Masp. Sem organização central, o evento contou com a participação de várias instituições: ANPG, UNE, Cientistas Engajados, Pesquisadorxs em Luta (que convocou a manifestação), além do apoio na divulgação de vários divulgadores científicos.

A despeito do pouquíssimo tempo e da chuva que caiu o dia inteiro, acabou comparecendo um bom público: alguma coisa entre 200 e 500 pessoas. (Na minha estimativa, cerca de 230-250 participantes.) Que decidiram in loco sair em marcha do vão do Masp até o prédio onde fica o escritório da Presidência da República. Duas faixas da avenida Paulista foram ocupadas pela passeata, escoltada por batedores e viaturas da PM e do CET. A manifestação durou das 16 até mais ou menos 19h30 e recebeu boa cobertura da mídia.

Abaixo, meu registro do protesto:


Mais ou menos ao mesmo tempo, um ato foi realizado também no Rio de Janeiro.

Outros atos já foram agendados e novos deverão ser realizados.
05.ago. São Paulo/SP. Av. Paulista, 2.163. 15h. 
06 ago. Manaus/AM. FACED/UFAM. 12h.
06.ago. Porto Alegre/RS. APG/UFRGS. 19h.
08.ago. Ribeirão Preto/SP. USP/RP. 14h.
09.ago. São Paulo/SP. FFLCH/USP. 19h.
10.ago. São Paulo/SP. EACH/USP. 13h.

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03.ago.2018
Estado de S. Paulo. "Entidade científicas e universidades se manifestam contra os cortes na Capes" (cuidado, contém paywall poroso.)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Ciência: a longa (longa) marcha 3

Ao contrário da segunda edição, desta vez houve um pouco mais de tempo para uma organização mais digna desse nome para a marcha, um pouco mais de um mês (contra os quatro dias daquela).

Devido ao meu grau de envolvimento pessoal nesta edição (na primeira não participei em nada da organização - fui inicialmente como participante e literalmente no meio do caminho me converti a repórter; na segunda, apenas tentei iniciar os preparativos e depois saí em desesperada tentativa de divulgação), não pretendo fazer um relato pormenorizado - seria mais um ato de propaganda do que de descrição mais fiel dos fatos.

Deixo aqui apenas alguns registros da manifestação e uma ou outra observação.

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3a Marcha pela Ciência.
08 de outubro de 2017. Avenida Paulista. São Paulo/SP.

(Crédito: autoria própria.)

*Pelo vídeo dá pra ver que o tamanho do público é maior, e bem, do que o reportado em alguns sites noticiosos, né, O Globo?* No vídeo, o cone de sinalização fornece uma boa referência dimensional - sua altura é de 75cm. Conta de engenheiro. Levaram cerca de 7 segundos pra atravessar a faixa. A faixa tem cerca de 4 metros, então dá uma velocidade média de cerca de 2km/h da caminhada. São cerca de 3 minutos pro cortejo passar, que dá cerca de 103 m de comprimento da passeata. Com uma distância média 80 cm entre as fileiras, são umas 129 fileiras de pessoas. Sendo cerca de 10 pessoas por fileira, teremos cerca de 1.290 manifestantes. Com uma propagação de erros nas coxas diria que: 1.290,0±193.5 presentes seria uma estimativa razoável. Ou, mais condizente com a precisão possível: M = 1.300±200 [IC95%: 900-1.700]. Não fosse a forte chuva pela manhã, talvez tivéssemos um número até maior. Mas, felizmente, não choveu durante o evento como era a previsão (um participante da Marcha pela Ciência torcendo contra uma previsão científica, sim).

*No meio do deslocamento, cruzamos com duas outras manifestações de outra natureza - e bem menores numericamente (felizmente, dada a natureza de pelo menos uma delas). Segundo relatos - que reputo confiáveis - houve provocações por parte dos integrantes dessas outras manifestações (uma delas eu vi, na verdade; mas eram provocações sem sentido, já que não éramos contrários à religião deles; já da religião de outra, que pedia golpe militar, queríamos distância) em direção à marcha pela ciência, mas não houve incidentes de qualquer um querer comprar briga (no máximo, alguma devolução verbal de provocação). A polícia, na primeira passagem por uma das manifestações que vinha pela outra pista da Paulista, chegou a formar um cordão ao longo do canteiro central da avenida. A presença dessas outras manifestações não chegou a frustrar a realização da Marcha pela Ciência, mas obrigou a um desvio do percurso na volta.

*Houve um certo número de pessoas que acabaram chegando já depois que o pessoal havia se dispersado - pouco depois das 16h30.

*A Banca da Ciência fez sucesso e acabou ficando até mais tarde - umas 18h - pra atender o público.
Crédito: Paulo Borges/Banca da Ciência.
*As palavras de ordem que achei as melhores: "Sem ciência é zika", "Sem ciência a terra é chata". Tem um duplo sentido que é verdadeiro (ou quase) nos dois casos, é curto e fácil de entender.

*Mesmo que possamos considerar esta marcha bem sucedida (há gente ainda reclamando do tamanho de participação alcançada), ela com certeza não é o fim. A marcha ainda é longa, muito longa, o primeiro alvo é tentar evitar mais cortes ainda no orçamento da ciência e educação. Hoje, a SBPC e associadas participaram de uma audiência pública no Congresso para mais recursos para a área. A marcha, especialmente em São Paulo, não é uma reivindicação salarial - a maioria dos professores continuam a receber seus salários - o risco é de não haver mais verba pra pesquisa: para bolsas dos alunos e dinheiro para equipamentos e suprimentos. Em São Paulo, os institutos de pesquisa estão com um quadro que não é renovado há um bom tempo e que vem sendo reduzido mais e mais com a ausência de novos concursos e aposentadoria dos antigos pesquisadores.

*A marcha precisa do apoio de um amplo setor - dentro e fora da academia. Nesta edição esteve presente, por exemplo, a SOS Mata Atlântica.
*A necessidade de integrar uma diversidade de atores implica também em aceitar e conviver com uma diversidade de visões. O que cria também algumas tensões. Num cenário de polarização, temos que reaprender a conviver com as diferenças de opinião (sim, excetuando-se as bizarrices criminosas dos fascistas). Esse enfrentamento, se mantido em um nível respeitoso, é até saudável. Havia divergência desde quanto a cor da camisa (a organização sugeriu - sugeriu, não impôs como condição para participação na marcha - uma cor escura, mas havia quem quisesse cor clara e manifestando contrariedade nos comentários dos canais de comunicação da organização do evento) até detalhes de pauta (a pauta geral do evento foi necessariamente limitada e sem grandes detalhamentos pela necessidade de poder congregar o maior número possível de frentes).

*Se há necessidade de se tirar lições disso, é exatamente das discordâncias em vários aspectos entre os participantes e o fato de a Marcha ter ocorrido sem incidentes maiores. É uma demonstração de que essa divergência respeitosa é possível, especialmente em nome de um objetivo em comum. Não precisamos concordar em tudo, não precisamos abafar essa divergência; basta apenas cultivar o respeito mútuo e estar disposto a dialogar civilizadamente. Ao diálogo, então. E mais protestos.

*Claro que terá ainda havido falhas na organização. Estamos melhorando. Ainda que faltem recursos, tudo é um processo de aprendizagem. Ouvir as críticas, aprender com elas também é parte dessa aprendizagem. (Bem como descartar as críticas desinformadas. Se acha 1.200 pessoas ainda muito baixo, ok, podemos discutir isso; mas reclamar que apenas 200 apareceram, não.)

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Veja a cobertura da imprensa:
Estadão (08/out/2017): Marcha pela Ciência reúne cerca de mil pessoas na Avenida Paulista (Cuidado! contém paywall poroso!)*
Folha (08/out/2017): Pesquisadores e estudantes marcham na Paulisa contra cortes na ciência (Cuidado! contém paywall poroso!)

À medida que saírem relatos dos participantes em seus canais de divulgação científica, acrescento a esta postagem.

Alô, Ciência? (10/out/2017): Por que marcham os cientistas?
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Obs: Com muito afinco - envolvendo troca de mensagens até de madrugada em várias ocasiões -, grande parte do sucesso desta terceira edição é para ser creditada ao trio que comandou também os preparativos da primeira: Dayane Machado, Flávia Virginio e Natalia Pasternak Taschner.
The Powerpuff Girls: created by Craig McCracken/©1998- Cartoon Network.
Figura 1. Núcleo central da organização da 3a. Marcha pela Ciência. Da esquerda para a direita: Flávia Virginio, Natalia Pasternak Taschner, Dayane Machado.

Só um exemplo do que elas fizeram. Um pouco antes do dia do evento, lanço verde para elas a ideia de convidarmos os nobelistas que assinaram a carta para o presidente sobre a crise na ciência brasileira para fazerem um vídeo para a Marcha. Em vez de inventarem uma desculpa de que seria complicado, de que eles diriam não (o que era bem provável - afinal, quem éramos nós?), que havia pouco tempo (todas desculpas razoáveis, ainda mais que estão muito ocupadas com outras tarefas acadêmicas)... elas compraram isso de modo entusiástico. Em poucos minutos - no meio da noite já! - prepararam um texto em inglês e enviaram para 22 dos signatários (de um deles - um nonagenário - não conseguimos obter o endereço eletrônico) um email com o pedido. Sim, esse foi o tamanho da nossa cara de pau. Alguns responderam e, como previsto, declinaram (o que é mais do que compreensível, e somente a delicadeza de responder já mostra que se trata de outro nível). Mas eis que ninguém menos do que Claude Cohen-Tannoudji, um dos vencedores do Nobel de Física em 1997, e o principal abaixo-assinado da carta aberta, faz um vídeo falando sobre a preocupação deles com a ciência do Brasil. Aí corre fazer a tradução pra publicar. O vídeo era pesadinho, ainda que curto (dá pra notar pela qualidade da imagem, embora o áudio sofra um pouco). Tentei subir a legenda, mas falhei miseravelmente (o facebook não me deixou subir o arquivo srt). O Luciano Queiroz, do Dragões de Garagem, renderizou outro vídeo com legendas incluídas, e subimos para a página da Marcha pela Ciência - São Paulo.

Claro que um evento deste tamanho envolveu o trabalho de muita gente, mas seria complicado listar aqui toda e cada contribuição. A começar pelos que contribuíram ao Catarse (um sucesso que superou a meta - a propósito, de todo modo ainda é possível contribuir: os valores que sobrarem depois da fatura das despesas serão transferidos para um fundo gerido pela Aciesp para utilização em outros eventos pró-ciência), aos que assinaram o Manifesto pela Ciência, aos que ajudaram na divulgação, aos que fizeram a distribuição do material de divulgação, etc, etc. Além claro de todo o restante do pessoal da organização e coordenação.
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*Upideite(10/out/2017): Há erro também na matéria de O Globo quando informa que a SBPC organizou. A SBPC apoia a marcha, mas não organiza. As instituições realizadoras foram a Aciesp e a APqC. O Estadão cometeu erro complementar, atribuiu a organização à SBPC e à APqC - incluiu a SBPC incorretamente e omitiu a Aciesp.

domingo, 3 de setembro de 2017

Ciência: a longa (longa) marcha 2

Desta vez foram menos participantes em São Paulo, mas acho que se obteve um impacto até maior junto à população.

O tempo ajudou e no sábado dia 02 de setembro, ao contrário do dia da primeira Marcha pela Ciência em São Paulo, não choveu. E também não era emendado com feriado como foi em abril. Mas a segunda edição da Marcha na capital paulista contou com menos tempo de organização ainda do que na anterior. Se o tempo de um mês já foi curto para a edição de 22 de abril, imaginem que desta vez decidiram na terça, dia 28 de agosto, que o evento seria no sábado, dia 02 de setembro. E a coisa é ainda pior se considerarmos o tempo em que se estava cogitando a organização da marcha em São Paulo: no sábado, dia 26, frente a um pedido no grupo da Marcha pela Ciência no Brasil no facebook (o evento no Rio já havia sido definido há bem mais tempo) resolvemos tentar criar um grupo para tocar a manifestação paulistana (inicialmente, tentou-se via Whatsapp, mas não estava funcionando e mudamos pra um grupo no facebook mesmo)*. Sem data definida para quando seria.

Toca enviar email para associações científicas e a acadêmicas ainda no sábado e no domingo. Até a segunda feira somente a Aciesp havia respondido (e positivamente). Conseguimos a confirmação da adesão logo depois da ANPG. Ou seja, ainda não havia se consolidado nem a articulação dentro da comunidade científica para a marcha em São Paulo quando acabaram decidindo pela data. Eu estive fora o dia 29 de agosto (terça) e nem acessei a internet. Quando volto no fim da tarde e abro o grupo, já haviam fechado a data, no sábado (dia 02 de setembro)* mesmo, e criado a página de eventos.

Ok. Não havia mais nada a ser feito a não ser tentar loucamente divulgar para o máximo possível de pessoas. Convidei para o evento todos os meus conhecidos no facezucko que eu achava que estariam em um raio razoável para poderem ir à marcha. Divulgadores científicos, compreensivelmente, ficaram aborrecidos com o modo súbito com que definiram a data. (Não estou completamente por dentro dos eventos que levaram à essa definição. Mas há uma preocupação forte na SBPC e na comunidade científica brasileira com os cortes - e a versão inicial da lei orçamentária para 2018 parece tornar a situação do financiamento da ciência brasileira ainda pior. Uma demonstração era necessária antes da votação e definição da LOA 2018. E possivelmente quiseram dar um alcance maior coordenando com o evento carioca. Além de São Paulo e Rio, programaram para a mesma data: Porto Alegre, Brasília e São Luís; Natal escolheu dia 04 de setembro.)

Dadas essas circunstâncias, meio que de brincadeira, defini um corte pessoal de 10 pessoas (mais ou menos o tamanho do número de participantes dos organizadores da marcha em São Paulo) como critério para sucesso: se aparecessem 11 ou mais gatos pingados, eu me daria por satisfeito. De terça a sexta pouco mais de 400 pessoas haviam confirmado presença na página do evento no fb (em abril, das cerca de 1.500 confirmações, umas 300-500 pessoas apareceram de fato). Até às 15h30 (o evento havia sido marcado para começar às 15h), não mais do que umas 50 pessoas estavam sob o vão do Masp, local definido para o protesto. De fato, até umas 14h50, havia somente um manifestante - eu. Mas, enfim, para meu critério já era um sucesso, porém o clima era de um certo constrangimento e a sensação era de que a manifestação havia fracassado (alguns até foram embora nesse tempo). Pouco a pouco, porém, foram chegando mais gente. Até as 16h00 deveriam ser algo como 150 pessoas.

Não havia programação definida e nem previsão de deslocamento. Mas, na hora, decidiu-se coletivamente subir do Masp até o prédio do escritório da Presidência da República (na esquina com a rua Augusta). A PM fez a escolta e duas pistas foram fechadas localmente para a passeata. Alguns carros passaram buzinando em apoio ao protesto, vários transeuntes pararam pra acompanhar e registrar com seus celulares, eu flagrei pelo menos um lendo os cartazes com palavras de ordem e denúncia contra os cortes e a situação da ciência no Brasil, um ciclista e alguns passantes levantaram o braço agitando-o em apoio durante o trajeto. Acho que decisão de se deslocar acabou acertada, ainda que alguns tenham chegado ao Masp depois que saímos e achado que a manifestação já houvesse acabado. (Não deu tempo nem de organizar um canal de mídia social que fizesse atualização em tempo real da movimentação.)

A primeira marcha ficou concentrada no Largo da Batata, sem deslocamento. Embora os 150-200 manifestantes da edição de setembro sejam significativamente menos numerosos, acho que o deslocamento criou um maior impacto junto à população e uma maior visibilidade.

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O fórum permanente criado pela SBPC com as entidades científicas associadas para discutir a crise na ciência brasileira poderia ser ampliado para incluir entidades não-estritamente acadêmicas, como representantes da comunidade de divulgadores da ciência, do movimento estudantil e sindical, de ONGs ambientalistas, entidades da cultura e outras. É preciso uma articulação e diálogo mais amplo e fluido para um movimento mais robusto - há fortes interseções da C&T com educação, meio ambiente e até cultura.

Upideite(03/set/2017): Veja também
03.set. Carlos Orsi. Ciência marcha em legítima defesa.
04.set. Maurício Tuffani/Direto da Ciência. Marcha pela ciência precisa dizer #vemprarua para os próprios cientistas.
04.set. Daniela Klebis/Jornal da Ciência. Pesquisadores denunciam situação crítica em 2a. Marcha pela Ciência no Brasil.

*Upideite(03/set/2017): adido a esta data.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Ciência: a longa (longa) marcha

Há gente frustrada com o público de cerca de 500 participantes em São Paulo e uns 400 no Rio de Janeiro na Marcha pela Ciência do último dia 22.abr. Sabine Righetti, da Folha de São Paulo, por exemplo, classifica de fiasco. Sua base de comparação são o número de pesquisadores na USP: cerca de 6.000 docentes, além de por votla de 36.000 pós-graduandos e 50.000 alunos de graduação. E os cerca de 40.000 manifestantes nas marchas de Washington e de Chicago.

Também é possível se olhar para a metade cheia do copo: a participação foi do nível da de Genebra, com umas 600 pessoas. Em Rio e em São Paulo, choveu (em São Paulo, um pouco mais do que uma garoa) e fez um certo frio. No Brasil todo era um sábado ligado a um feriado de uma sexta. Em São Paulo, a organização contou com menos de um mês; o comitê não possuía nenhuma experiência anterior em manifestações dessa natureza (algum leitor atento poderá confirmar se este é o primeiro protesto de cientistas por meio de demonstrações públicas no Brasil); apesar de alguns apoios como da SBPC, da ANPG e da Aciesp*, a verba foi bastante limitada e os organizadores tiveram que bancar do próprio bolso muitas despesas. (Uma das marchas americanas conseguiu levantar mais de 100.000 USD. Quantia várias ordens de grandeza acima das arrecadadas em todas as 25 marchas no Brasil.) Frente a essas dificuldades - além da relativamente baixa cobertura pré-marcha por parte da imprensa.

Um levantamento comparativo mais extensivo haverá de ser feito em algum momento futuro. Uma parcial rápida indica que a Folha de S. Paulo, segundo seu acervo online, houve apenas duas menções à "Marcha da Ciência" antes do dia 22.abr. Uma única vez à marcha no Brasil, apenas à de São Paulo, em texto de Reinaldo José Lopes, "Ciência Degolada", de 9.abr o texto é sobre a situação precária da ciência no país, principalmente frente aos cortes em vários níveis governamentais, a marcha paulistana é mencionada somente no sétimo parágrafo. No Estadão impresso nenhum resultado é obtido em relação ao impresso; no online também há apenas duas referências antes do dia das marchas, uma de Lúcia Guimarães sobre as marchas agendadas no mundo e na véspera, no blog de Herton Escobar, o vídeo do presidente da ABC (Luiz Davidovich), convocando os cientistas à participarem dos protestos. O New York Times, por outro lado, apresentou uma cobertura pré-marcha bem mais ampla com pelo menos 7 notícias e artigos de opinião (inclusive contrários às manifestações dos cientistas).

Considerando-se esse quadro, é possível até se considerar as marchas no Brasil como um sucesso, ainda que não estrondoso.

Mas agora é observar os desdobramentos. A marcha mundial estendeu-se para uma Semana de Ação; no RJ alguns eventos como um debate na Coppe/UFRJ e manifestação no LNCC em Petrópolis; e também no SE, com debate na UFS. Outras ações estão em discussão. Por isso, para a SBPC, a marcha foi apenas o pontapé inicial da mobilização da ciência brasileira.

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O meu relato sobre o ato em São Paulo pode ser lido em "Marcha pela Ciência se espalha no mundo com pautas locais", reportagem para a revista Pesquisa Fapesp, em coautoria com a bióloga e jornalista Maria Guimarães, editora da versão online da publicação.

O que acrescento aqui é que:
.(pelo menos) uma pessoa presente, sem formação em ciências naturais (bacharel em Direito), reclamou do uso de jargões nos discursos;
.no discurso, a única manifestação de uma pessoa que provavelmente não era cientista (nem pós-graduando ou aluno de graduação em ciências) - embora o fato de ser um vendedor de ambulante não afaste totalmente a possibilidade - foi em relação à defesa feita pela Profa. Dra. Eleonora Trajano do uso de animais na pesquisa e no ensino superior; o vendedor pediu o microfone - a organização não quis atender em um primeiro instante, mas ante da insistência acedeu - e disse que os animais poderiam ser substituídos por políticos, o que, para nem tanto surpresa de minha parte (mas certamente bastante constrangimento), foi aplaudido por vários dos presentes;
.a hesitação da organização acabou sendo contraditória no sentido de que os cientistas saíram do laboratório exatamente para interagir com a população não-cientista;
.uma tônica dos discursos acabou centrando-se no obscurantismo (desde o negacionismo climático à crença em poderes de cristais) - como relatado pelo jornalista Herton Escobar no Estadão;
.de minha parte acho que é um enquadramento não muito produtivo dos discursos quando se pretende entabular um diálogo com o público numa posição tão da torre de marfim: "nós estamos certos, ouçam o que temos para falar e obedeçam";
.a maior parte do público presente parece ter sido mesmo composta por já "convertidos": os próprios cientistas e alunos de pós e de graduação;
.mas houve, pelo que me relatou o pessoal das barracas, sim, a participação de pessoas que não eram da academia: crianças e transeuntes curiosos que se aproximaram para saber o que ocorria na praça;
.se contarmos com essa circulação de pessoas que não ficaram o tempo todo, é possível que um número substancialmente maior do que as 500 pessoas estimadas tenham participado da marcha em São Paulo.
.o único político que vi por ali foi o ex-senador e atual vereador Eduardo Suplicy.**
.houve momentos de tensão entre a comissão organizadora e alguns oradores, especialmente os que se inscreveram durante o evento, após os discursos programados, quando suas falas ecoavam críticas nominais ao governo federal (geralmente seguida de manifestações de vários presentes gritando a palavra de ordem "Fora, Temer") - a organização interrompeu alguns discursos para frisar que se tratava de uma manifestação apartidária (um compromisso assumido com os organizadores da March for Science de Washington).**

*Upideite(29/abr/2017): Corrigido a esta data. Obrigado, Flávia Virgínio Fonseca.
**Upideite(30/abr/2017): adido a esta data.

 Veja também:
Paulo Jubilut/Biologia Total (24/abr/2017): O que a Ciência representa para você?
Natália Pasternak Taschner (25/abr/2017): Marcha, chuva e fogo.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Marcha pela Ciência no Brasil

No dia 22 de abril (Dia da Terra), deverá ser realizada em mais de 500 cidades do mundo a March for Science.

Inicialmente foi convocada para um protesto em Washington, DC, nos EUA, contra as ações do presidente americano hostis às pesquisas sobre mudanças climáticas, sendo a agenda da marcha a defesa de adoção de políticas públicas baseadas em evidências, transparência governamental, garantia do financiamento público das ciências e o combate ao negacionismo - climático e da evolução - demonstrado por membros importantes da nova administração federal dos estêites.

Rapidamente ganhou apoio de comunidades científicas por todo o globo. Não apenas em solidariedade, mas também por agendas locais próprias.

No Brasil, a SBPC e várias instituições científicas e pesquisadores têm promovido a versão nacional com a Marcha pela Ciência no Brasil. Por enquanto são 13 cidades brasileiras em que estão previstas a realização de manifestações na data. Cada local tem seu próprio conjunto de reivindicações e pontos de protestos, mas o grande motivador é a contrariedade em relação às ações do governo federal, que têm enfraquecido a ciência brasileira. Particularmente o anúncio de contingenciamento de até 53% em relação ao orçamento inicialmente previsto para pastas e projetos relacionados à CT&I ((R$ 4,6 bi sobre R$ 8,7 bi)): para o MCTIC, o corte é de até 44% (um corte de até R$ 2,2 bi sobre orçamento inicial de R$ 5 bi).



Ano passado, após o anúncio da fusão entre o MCTI e o Ministério das Comunicações, houve um protesto em São Paulo, mas com pequena adesão. Desta vez, com a concretização de muitos temores externados à época e a mobilização mundial, espero que a história seja outra. (Embora eu seja cético quanto aos resultados efetivos que deverá ser obtido.)

Veja também:
.Reinaldo José Lopes/Folha de São Paulo (09/abr/2017): Sob terra arrasada, ciência do Brasil precisa de caminhos para se reinventar. (Cuidado! Contém paywall poroso.)
.Reinaldo José Lopes (20/abr/2017): Marche pela ciência, Brasil!!! (vídeo)
.Marília Fuller/Scientific American Brasil (s.d.) Cientistas de treze cidades brasileiras se juntam a movimento mundial e marcham em 22 de abril.
.SciCast Debate (13/abr/2017): Ciência, Política e Bolha Acadêmica.
.José Orenstein/Nexo Jornal (18/abr/2017): Como os cientistas reagem ao menor orçamento federal para a área em 12 anos.
.Isaac Roitman/Política Brasileira (11/abr/2017): Marcha pela Ciência.
.Edna Ferreira/Nossa Ciência (20/abr/2017): Nordeste participa da Marcha pela Ciência.
.Herton Escobar/Imagine Só (21/abr/2017): Convocação para a Marcha pela Ciência. (Cuidado! Contém paywall poroso.)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Acordo do governo do estado de São Paulo viola autonomia da Fapesp

Depois de a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo promover um corte inconstitucional de R$ 120 milhões no orçamento da Fapesp - o orçamento total deve corresponder a 1% do montante arrecadado do ICMS (descontados os repasses legais para municípios) - transferindo o montante para a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, SDCTI, uma reunião com representantes do governo, da Fapesp e de institutos de pesquisa do estado, IPs, decidiu que o valor seria devolvido à Fundação de Amparo, mas ficaria carimbado - devendo ser usados exclusivamente para financiar os IPs. Os detalhes do acordo são relatados em reportagem do jornalista Herton Escobar. (Cuidado! Contém paywall poroso.)

É uma boa notícia de que o orçamento da Fapesp será recomposto conforme determina a constituição do Estado:

CESP
"Artigo 271 - O Estado destinará o mínimo de um por cento de sua receita tributária à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, como renda de sua privativa administração, para aplicação em desenvolvimento científico e tecnológico.

Parágrafo único - A dotação fixada no 'caput', excluída a parcela de transferência aos Municípios, de acordo com o artigo 158, IV da Constituição Federal, será transferida mensalmente, devendo o percentual ser calculado sobre a arrecadação do mês de referência e ser pago no mês subseqüente.
"

Porém, o acordo, ao determinar a destinação do valor que, legalmente, é do orçamento da Fapesp, viola frontalmente a autonomia do órgão fixado em lei e reconhecida em decreto pelo então governador José Serra em 2007.

Decreto Declaratório n° 1 de 30/mai/2007:
"Artigo 1º - A execução orçamentária, financeira, patrimonial e contábil das Universidades Públicas Estaduais e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP será realizada de acordo com o princípio da autonomia universitária e os dados inseridos em tempo real no Sistema Integrado de Administração Financeira para Estados e Municípios - SIAFEM/SP, nos termos do Decreto nº 51.636, de 9 de março de 2007, sem prejuízo das prerrogativas asseguradas no artigo 54 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, e artigo 271 da Constituição do Estado, que lhes facultam regime financeiro e contábil que atenda às suas peculiaridades de organização e funcionamento."

Sequestrar parte do orçamento para ter como resgate parte da autonomia científica da Fapesp: de destinar os recursos para financiar as pesquisas que seu comitê gestor e assessores considerarem meritórias e relevantes - é uma interferência política preocupante. Não se trata aqui nem de um montante extra - fora do valor da dotação orçamentária constitucionalmente prevista - que o governo confia à instituição para repassar para os programas de interesse do Poder Executivo; nem mesmo um direcionamento das verbas para áreas de pesquisa que se pretende priorizar (e já seria uma interferência na autonomia legalmente prevista). Trata-se, isto sim, de transferir a responsabilidade do governo de prover recursos para a manutenção dos IPs.

Há anos os IPs vêm sofrendo um desmonte e sucateamento, a manobra não vai salvá-los, mas, antes, restringir efetivamente a função da Fapesp - e desviando de sua atividade fim, de financiar pesquisa, para custear permanentemente os IPs - coisa, aliás, vetada por lei à Fapesp:

Lei Estadual 5.918/1960:
"Artigo 4º - É vedado à Fundação:
II - assumir encargos externos permanentes de qualquer natureza;"

A desculpa será, possivelmente, que o encargo é temporário. Mas eu botaria, se as tivesse, minhas barbas de molho.

Na mesmao toada vejo com desconfiança o projeto de oficialização da Faex - Fundação de Apoio à Extensão Universitária. A ideia é boa, mas - por mais que o projeto vete em seu texto o comprometimento dos limites orçamentários destinados às IEES paulistas e ao Centro Paula Souza -, considerando o ataque orçamentário à Fapesp, em flagrante inconstitucionalidade, pouca coisa garante que a Faex não sirva de ponta de lança para diminuir os repasses às três estaduais paulistas (e talvez até ao CPS) à medida em que recursos entrarem via a fundação de apoio.

Talvez seja o caso de, assim como os cientistas americanos que planejam marchar em protesto aos ataques perpretados pelo presidente americano recém-empossado às instituições científicas, os pesquisadores paulistas pensarem em uma visitinha à Alesp e ao Palácio dos Bandeirantes. (E não com menos razão os cientistas de outras UFs também se mobilizarem.)

Tanto quanto possível evito questões de política científica aqui no GR, por eu não me considerar um analista adequado. Mas somente tanto quanto possível. As ameaças seguidas - e muitas concretizadas - ao sistema estadual e nacional de ciência e tecnologia são também uma ameaça à sociedade paulista e brasileira: dependentes que somos do conhecimento científico e tecnológico originado da pesquisa paulista e nacional. Só para ficarmos num exemplo, graças às pesquisas sobre fixação biológica de nitrogênio de Johanna Döbereiner, economizamos por ano cerca de 2 bilhões de dólares em adubos nitrogenados.

Upideite(29/jan/2017): Entrevista de José Goldemberg, presidente da Fapesp, para o jornalista Herton Escobar. O físico fala que a proposta de criar uma linha especial para os IPs vinha sendo discutida há alguns meses. Não muda o fato de que a supressão é inconstitucional, nem que houve quebra da autonomia da fundação. (Cuidado! Contém paywall poroso.)

Upideite(30/jan/2017): Hernan Chaimovich: "Fatos alternativos"
.Carta da Aciesp e da SBPC sobre o acordo entre o Governo e Fapesp para recuperar os Institutos de Pesquisa.
Upideite(01/fev/2017): Entrevista de Paulo Nussenzveig para Herton Escobar: "Interferência na Fapesp ameaça 'porto seguro' da ciência em São Paulo" (Cuidado! Contém paywall poroso.)
Direto da Ciência, Maurício Tuffani: "Governo de SP abre brecha na autonomia da Fapesp e se desmente sobre repasse de 1%"
Upideite(04/fev/2017): Nota da Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo, APqC: "Porque investimento em infraestrutura não resolver a situação dos Institutos Públicos de Pesquisa do Estado de São Paulo". Via Direto da Ciência fb

domingo, 30 de outubro de 2016

A reestruturação do MCTIC e alterações dos estatutos do CNPq

Raramente comento política científica diretamente aqui no GR. Não me considero capacitado o suficiente para análises mais aprofundadas.

Mas abro uma exceção para a reestruturação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Em parte porque posso me referir à análise de pessoas mais competentes: essa reestruturação levou à manifestação de contrariedade por entidades científicas: a SBPC e a ABC publicaram uma carta conjunta, apoiada pela SBF e por coordenadores de área da Capes.

As Fig. 1a e 1b sumarizam a organização do antigo MCTI, dada pelo Decreto 5.886/2006, e a nova organização do MCTIC, dada pelo Decreto 8.877/2016.

a)
b)
Figura 1. a) Antiga estrutura organizacional do MCTI (DEC 5.886/2006); b) novo organograma do MCTIC (DEC 8.877/2016).

O nome final do órgão, "Diretoria de Gestão de Entidades Vinculadas", é diferente do plano inicial, "Coordenação Geral de Serviços Postais e de Governança e Acompanhamento de Empresas Estatais e Entidades Vinculadas", mas o efeito é o mesmo. Entidades como o CNPq, que reportavam diretamente ao ministro, agora reportarão a um diretor de gestão, que reporta para o secretário-executivo, que reporta ao ministro.

"Art. 9o À Diretoria de Gestão de Entidades Vinculadas compete:
I - subsidiar a formulação de políticas, diretrizes, objetivos e metas relativos ao serviço postal e temas desenvolvidos pelas empresas estatais e pelas entidades vinculadas ao Ministério;
II - analisar pleitos tarifários do serviço postal;
III - concorrer para a articulação e a execução das políticas e dos programas das empresas estatais e das entidades vinculadas ao Ministério;
IV - realizar o acompanhamento da governança e do desempenho das empresas estatais e suas subsidiárias, bem como das entidades vinculadas ao Ministério;
V - contribuir para o aumento da transparência e para o aperfeiçoamento da gestão das empresas estatais, das suas subsidiárias e das entidades vinculadas ao Ministério;
VI - acompanhar a atuação dos representantes do Ministério nos conselhos de administração e fiscal das empresas estatais, nas suas subsidiárias e nas entidades vinculadas ao Ministério; e
VII - realizar a supervisão e o acompanhamento da governança e do desenvolvimento das empresas estatais e das suas subsidiárias, bem como das entidades vinculadas ao Ministério."

Se o objetivo foi racionalizar o processo, não parece ser uma boa escolha misturar órgãos tão díspares como o CNPq e a Anatel, Telebrás e Correios no mesmo cesto (o que reflete a mistura inusitada do ministério de CTI e Comunicações)... CNPq é uma fundação; Anatel, é uma agência reguladora (uma autarquia de regime especial); Correios, uma estatal; Telebrás, empresa mista. A única coisa em comum basicamente é o fato de serem entidades jurídicas distintas. A natureza, os objetivos, os modos de funcionamento... são muito diversos. Soa estranho - e errado - um mesmo órgão de categoria inferior definir preço de selos e políticas de fomento à pesquisa acadêmica. Já é bizarro em nível ministerial, mas se isso fosse tema para secretarias distintas do mesmo ministério... E, no caso, não apenas isso se dá numa mesma secretaria como numa mesma diretoria... (Talvez tenha ficado o nome de "Diretoria de Gestão de Entidades Vinculadas" porque ficaram envergonhados de denominar por "Departamento de Miscelânea".)

Outra alteração foi a antiga "Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social", que também reportava diretamente ao ministro, agora é o "Departamento de Políticas e Programas para Inclusão Social", subordinado à "Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento".

Na reportagem de Herton Escobar para o Estadão, de 27/out/2016, "Entidades científicas criticam reestruturação do MCTIC", o ministério diz que com a reformulação as entidades passarão a ter acesso a ferramentas de gestão (mas não diz quais) e que instituições sem interlocutores no ministério para questões de gerenciamento passaram a ter (também sem dizer quais instituições e quais questões). Mas, segundo a presidente da SBPC, Helena Nadar, o ministro Kassab teria se comprometido a reverter essa reestruturação ano que vem. Mas, se pretende rever, por que deixou que o decreto fosse publicado no dia 19/out se a reunião foi no dia 10/out? Se é possível reverter, qual é realmente a vantagem gerencial entrevista pelo MCTIC nessa nova configuração afastando a interlocução direta entre as entidades científicas do ministério e o próprio ministro?

O novo estatuto do CNPq dado pelo decreto 8.866/2016 é bastante parecido com o estatuto dado pelo decreto 7.899/2013. Mas parece haver algumas diferenças importantes.

Na parte de atribuição de funções dos órgãos específicos singulares da fundação:
2016 "compete coordenar as atividades de desenvolvimento científico e tecnológico relacionadas a [...] e fomentar a capacitação de recursos humanos e a implementação permanente de pesquisa científica e tecnológica."

2013 "compete coordenar as atividades de desenvolvimento científico e tecnológico relacionadas a [...] e fomentar a capacitação de recursos humanos e a implementação permanente de pesquisa científica e tecnológica, mediante ações, mecanismos e instrumentos de fomento."

No estatuto anterior havia explicitamente a menção da mecanismos e instrumentos de fomento; as diretorias das áreas tinham explicitamente a função de distribuir verbas para pequisa e formação de pessoal. Com a nova redação dada pelo novo estatuto, apenas o termo "fomentar" engloba tais poderes? Eu não sei (e por isso não sou uma boa pessoa para comentar a respeito de políticas científicas).

Praticamente desapareceu o capítulo referente às disposições financeiras. Somente o dispositivo que permite ao CNPq tomar empréstimos foi mantido, mas mudado para o capítulo de patrimônio e recursos financeiros. Não há mais obrigatoriedade de a fundação adotar o calendário civil para o exercício financeiro, nem uma obrigação explícita estatutária de apresentar o planejamento orçamentário para o MCTIC. (Não está claro para mim se tais obrigações foram extintas de todo, ou se são cobertas por outros dispositivos - mesmo que fora dos estatutos. Nem quais as consequências dessas alterações.)

Upideite(31/out/2016): Veja também:
Maurício Tuffani. Direto da Ciência (31/out/2016). "Rebaixamento de órgãos da Ciência é resultado da fusão ministerial em maio"
FCHSSA. Blog do FCHSSA (31/out/2016). "Reforma do MCTIC: carta do Fórum de CHSSA ao Ministro G. Kassab"
José Antônio Aleixo da Silva & Luciana Santos. JC Notícias (01/nov/2016); "2. Um golpe na ciência e tecnologia do Nordeste"
Carta da SBQ (28/out/2016). via Ildeu Moreira fb. (atualizado em 04/nov/2016)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Especulando: Regulamentação da profissão de cientista = valorização do trabalho?

A neurobióloga Suzana Herculano-Houzel havia lançado seu manifesto para o reconhecimento de "cientista" como profissão. Expôs rapidamente sua ideia em entrevista recente ao Roda Vida da TV Cultura de São Paulo (só no quarto bloco teve a oportunidade*).

 

Após o programa, um deputado entrou em contato com a cientista para discutir a proposição de uma lei de regulamentação da profissão de cientista. Herculano-Houzel está fazendo uma enquete com seus leitores para preparar sua apresentação no Congresso Nacional.

Pelos compartilhamentos no twitter, facebook e G+, vários colegas e conhecidos meus, a maioria pós-graduando ou recém pós-graduados, estão animados.

Eu não tenho barba, mas as coloco um pouco de molho. Expus mais detalhadamente minhas discordâncias (e concordâncias) com a proposta de SHH aqui mesmo no GR.

Ainda é fase inicial e não sei se e como serão ouvidas outras partes na elaboração desse projeto de lei. A impressão que tenho é que o andar da carruagem está em um ritmo acelerado - mais do que sugeriria a prudência em uma estrada esburacada que se atravessa.

A minha sugestão é que, afinal estamos lidando com cientistas, apliquemos uma metodologia científica por excelência: teste-controle com divisão aleatorizada dos sujeitos. *Antes* de se fazer qualquer lei, testemos a hipótese central da proposta de SHH: regime de contrato para pesquisa em vez de docência nas IES públicas e pós-graduação profissionalizada. Teríamos algumas instituições em que se trabalharia com o regime atual e outras com o novo regime proposto. Os candidatos passariam em um concurso comum e, posteriormente, seriam encaminhados a um ou outro sistema**. Ao fim do período do experimento, compararíamos os resultados. Não sei qual alfa deveríamos usar nos testes estatísticos de comparação: se o 5% tradicional, um maior (10%?) ou um mais rigoroso (1%?). Tendo a ser favorável a uma condição mais liberal: um alfa de 10%, no caso.

Infelizmente não seria possível trabalharmos com um teste duplo cego. Não seria nada cego, aliás, já que os sujeitos experimentais saberiam exatamente em qual sistema estariam engajados. E demandaria mais pelo menos uns 10 anos para uma condição minimamente razoável de comparação.

De todo modo, creio que seria melhor ter uma base empírica antes de sair modificando todo um sistema que, com todos os seus defeitos, não é completamente disfuncional.

*Upideite(03/abr/2013): adido a esta data.
**Upideite(03/abr/2013): haveria uma questão trabalhista a se superar - a possibilidade de se usar um mesmo concurso para dois regimes diferenciados de trabalho com posterior alocação. Uma opção menos ideal, seria a realização de dois concursos separados e acompanhamento de grupos que sejam socioeconomicamente similares.
Upideite(23/ago/2013): uma análise crítica às propostas de SHH. (via @sibelefausto)
Upideite(01/out/2013): outra crítica às propostas de SHH, da ANPG. (via Cassiana Perez FB)

sábado, 24 de março de 2012

Por que investir em ciências? Uma palavra: Embrapa

Complementando a postagem anterior em que comento de passagem minha preocupação com os cortes de investimentos em CT&I.

Mês que vem deve ser publicado o Balanço Social da Embrapa de 2011. No de 2010, registra-se que os R$ 1.941.173.948,11 aplicados no orçamento da empresa corresponderam a um valor de R$ 17.672.803.529,00 de retorno em tecnologias desenvolvidas e transferidas. Mais de 9,1 vezes o valor investido. O gráfico abaixo mostra a evolução do investimento realizado na Embrapa e o retorno obtido.


Figura 1. Evolução dos investimentos e retornos na Embrapa. ROL - receita operacional líquida (repasses da União, receita com vendas de produtos e serviços, restituições e outros); TD - valores correspondentes à tecnologia desenvolvida e transferida à sociedade. Fontes: Balanços Sociais da Embrapa.

Havia analisado antes a importância de se investir em ciências. O exemplo da Embrapa é bem ilustrativo. Em uma avaliação do projeto Fapesp PIPE (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) entre 2007 e 2009, cada real investido resultou em um retorno de 6 reais.

Gostaria de ver balanços sociais de outras instituições de pesquisa e desenvolvimento - especialmente as públicas. Alguém sabe se tem de universidades federais e estaduais (da USP em particular)? Claro, fazer balanço de universidades de pesquisa deve ser bem mais complicado, especialmente para avaliar os inúmeros projetos de extensão. (Sim, há dimensões outras a se considerar além dos ganhos econômicos, porém mesmo aqui é possível vislumbrar que os cortes no orçamento de CT&I realizados nos últimos anos poderá ter um impacto negativo bem maior.)

Upideite(24/mar/2012): Via @ciencianamidia, editorial do Estadão sobre os 30 anos da Embrapa, sua importância e os desafios frente às multinacionais e a tecnologia transgênica.

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