Lives de Ciência

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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Mitos na ciência: Para que serve a revisão por pares?

Mito: "O processo de peer review (revisão por pares) é essencial para a qualidade dos trabalhos publicados."
Status: Bastante duvidoso (mas talvez seja melhor do que nada a depender de como é feito)

Uma das práticas chave do processo de publicação científica é a submissão do manuscrito a uma avaliação por revisores que atuam na mesma área ou em áreas próximas, a famigerada revisão por pares ou, na expressão inglesa de amplo uso entre cientistas nativos de outras línguas, peer review. Normalmente, o editor da revista envia o manuscrito submetido para dois revisores - que podem indicar pela rejeição sumária, o aceite para publicação ou sugerir correções antes do aceite final - e, se as opiniões divergirem muito, o editor pode tomar a decisão ou enviar para um terceiro revisor.

Porém, talvez tanto quanto é defendida, essa instituição é alvo de fortes críticas e questionamentos quanto à utilidade como barreira contra artigos ruins ou mesmo falsificados.

De acordo com uma revisão sistemática de 2002 de Tom Jefferson e colegas, os poucos estudos (19) sobre os efeitos do peer review sobre a qualidade do artigo não permitiam concluir sobre a validade do processo. Em outro estudo, também do grupo de Jefferson, de 2006, a mesma conclusão (com 28 estudos), ainda que com a tendência de apontar alguma melhora na legibilidade e na qualidade geral do manuscrito. Em um levantamento independente, de Derek Richards (2007), que incluiu 28 estudos para análise sistemática, também concluiu que há poucos indícios de um efeito positivo da revisão por pares na qualidade do estudo.

Rachel Bruce e cia. (2017) analisaram 22 artigos sobre processos para melhorar a revisão por pares: como introdução de processo cego (os revisores não têm acesso aos nomes dos autores do artigo), introdução de um avaliador com formação em estatística, uso de checklists, treinamento de revisores, open peer review (os revisores são informados de que os autores têm acesso aos nomes dos avaliadores) e outros - mas os resultados foram bastante variados. (Houve uma melhora na qualidade final do manuscrito com a introdução de um revisor formado em estatística - 2 estudos - e com revisão aberta - 7 estudos.)

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A mesma falta de estudos sistemáticos sobre a validade do uso de índice de citação como medida de qualidade de artigo também se revela na avaliação da eficiência da revisão por pares - pode ser que exista, mas em minha busca não encontrei nenhuma meta-análise. É desconcertante a confiança que se dá a um mecanismo com tão pouca base empírica para ser um elemento basilar da prática científica.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ciência: a longa (longa) marcha 4

De início mesmo com a pressão do orçamento reduzido, que já se anunciava como insuficiente para cobrir, por exemplo, as bolsas durante todo o ano, o pessoal da academia parecia, sim, triste, mas também bastante desmotivado e um tanto resignado. Era o ruim, mas seria inevitável, o lance seria tentar se ajeitar com o que se desenhava - iniciativas como ciência com orçamento baixo ou zero vão um tanto nesse sentido (oquei, é algo pragmático e até prudente, porém pode soar um tanto quanto conformista). Em suma, apesar de reclamações em conversas e postagens de redes sociais a temperatura parecia baixa para protestos.

De um lado, o astronauta Marcos Pontes, titular do MCTIC, apesar de aparentemente sem poder para efetivamente reverter os cortes e contingenciamentos do orçamento na pasta, ao menos se mostrava solícito e solidário. Pelo menos tomava para si a tarefa de dialogar com os demais departamentos do governo e com o legislativo, além de representantes da comunidade científica, para minorar os efeitos. Boa vontade era demonstrada.

Do lado do MEC... o então ministro Ricardo Vélez Rodrigues se mostrava de uma inoperância que paralisava as ações do ministério da educação. Praticamente um cone fora colocado na cadeira frente à pasta. Depois de ser severamente admoestado pelos deputados em sabatina na Câmara, acabou caindo em pouco mais de três meses de governo. Já depois de criar entreveros como a desastrosa sugestão de fazer com que os alunos das escolas pronunciassem o lema de campanha do atual presidente em cerimônias de hasteamento da bandeira, num ato patentemente ilegal por personalismo vetado à administração pública; e que elas fossem filmadas cantando o hino, outra ilegalidade, já que, sem anuência dos pais, imagens de menores de idade não podem ser veiculadas.

Mal o novo ministro da educação, Abraham Weintraub, assumiu, em 8 de abril, o cargo e os atritos com a comunidade educacional e acadêmica escalaram. Inicialmente anunciou o corte (ou contingenciamento - trato como corte no restante do texto) de verbas discricionárias de três universidades federais: a de Brasília, a Fluminense e a da Bahia, supostamente por mau desempenho e por promoverem "balbúrdia", isto é, atos contrários ao governo federal. Como mau desempenho era uma mentira crassa, as federais de modo geral (inclusive as três) estão entre as melhores universidades brasileiras e estão entre as melhores do mundo e, além disso, as avaliações delas vêm melhorando; e o corte por "balbúrdia" é ilegal, seria uma represália do governo federal; anunciou-se que os cortes seriam em todas as IFES e também em institutos e colégios técnicos federais. E pouco depois o ministro falou em cortar as verbas de cursos como Sociologia e Filosofia por não serem úteis. O presidente só piorava a situação ao mentir em entrevista dizendo que pouco se faz pesquisa em universidades públicas (que estariam concentradas em instituições privadas e, depois, também em institutos militares).

A coleção de atos contra a educação e a ciência foi acumulando mal estar entre os pesquisadores e alunos.

Para o dia 8 de maio, um grupo de estudantes da USP organizou um protesto em São Paulo, - que contou com apoio da SBPC, dos Cientista Engajados e da Marcha pela Ciência em São Paulo - com concentração em frente ao Masp a partir das 14h. Entre 600 (minha contagem) e 3.000 (estimativa da organização) pessoas compareceram.

Para o dia 15 de maio, havia um protesto de Greve Geral da Educação convocada pelos sindicatos de profissionais da educação. A pauta inicialmente se referia à reforma da previdência, cujo projeto apresentado pelo atual governo é considerado deletério para a categoria. Mas, com os ataques do governo federal, a pauta se ampliou e o movimento estudantil e dos acadêmicos afluiu para o ato. Era uma defesa geral da educação contra as ações do Palácio do Planalto. Em cerca de 170 cidades houve atos que, segundo algumas estimativas, totalizaram mais de 1,5 milhão de participantes - inclusive secundaristas e estudantes de universidades particulares. O tom belicoso do governo federal se manteve, com o presidente classificando os participantes de "idiotas úteis e imbecis". À véspera chegou a circular o anúncio de que o presidente havia cancelado os cortes, desmentido logo depois por setores do governo. Deputados da base, que testemunharam o presidente anunciar o cancelamento, criticaram o desmentido do recuo e a desinformação gerada. Desinformação também foi a tática do ministro Weintraub, ao comparar o corte de cerca de 30% no orçamento discricionário - o que efetivamente entra no caixa das universidades para o custeio e outras despesas - com o orçamento total (incluindo a parte que não pode ser mexida: salários e aposentadorias) para dizer que seria um corte de apenas 3,5%, ilustrando com chocolates.

A dose se repetiu em 30 de março, com protesto convocado pela UNE e o movimento estudantil. Mais de 130 cidades registraram atos. A tática desinformacional do MEC também se repetiu, com vídeo performático de Weintraub com um guarda-chuva negando os cortes no orçamento do Museu Nacional, prontamente rebatido pela UFRJ. O ataque aos educadores também se repetiu, com o ministro enviando nota às escolas para denunciar professores e pais que divulgassem em horário de aula os protestos, atitude ilegal que fez o MPF solicitar o cancelamento da nota.

O conjunto da obra dos ataques verbais e verborrágicos do novo ministro da educação lhe rendeu um processo pelo MPF, que pede indenização de 5 milhões de reais por danos morais aos estudantes.

Enquanto isso, uma greve geral para o dia 14 de junho está convocada pelas centrais sindicais e provavelmente contará com adesão do setor da educação.

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Enfim o setor acadêmico parece haver aderido às mobilizações de rua e parece contar com apoio da população em geral. Foi necessário um conjunto de ações deliberada e abertamente hostis e persecutórias contra os educadores e os cientistas para se romper a passividade - no limite de total inviabilização das atividades das universidades. Mas, é isso, agora é questão de sobrevivência. Venceremos?*

*Havemos de vencer. Como sociedade.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Fim de uma era.

O ScienceBlogs americano encerrou suas atividades ao fim de outubro passado, num Dia das Bruxas, antevéspera de Finados. Sem anúncios grandiloquentes, apenas murmúrios lastimosos de seus blogueiros em tweets relembrando a aventura que foi fazer parte de um marco na divulgação científica na era digital, um dos primeiros condomínios e, durante um tempo, uma das principais referências mundiais em blogues de ciências. Tendo legado deixado uma versão alemã e uma brasileira (o Lablogatórios, condomínio formando em 2008, seria renomeado ScienceBlogs Brasil em 2009 após acordo com o pessoal da SEED, responsável, então, pelo SB matriz: SB-us): ambos sobrevivem ao projeto pai e continuam (o vínculo sempre foi mais unicamente o nome, não havia nenhuma forma de controle editorial por parte da matriz - embora quando, em 2011, o SB-us passou para o controle da National Geographic, ao menos a parte comercial, havia a possibilidade dos projetos filhos também se beneficiarem do acordo: como o direito de utilizarem de imagens da NatGeo).

As postagens não são mais acessíveis no site do SB-us: clicando nos links, o leitor é redirecionado para os novos endereços dos blogues que costumavam ser hospedados no condomínio. Não há nenhum aviso oficial.

Chad Orzel, físico químico, autor do blogue "Uncertain Principle" e que esteve desde o início do SB-us, escreve sobre sua longa passagem pelo condomínio (atualmente escreve para o site da Forbes), mas aparentemente também não tem os detalhes por trás da decisão do encerramento do projeto.

A crise geral dos blogues não deixou o SB-us incólume. Dependendo do serviço utilizado, a estimativa de tráfego mensal é de cerca de 500-600 mil a 1,5-2 milhões de visitantes/mês no último ano. São números respeitáveis, mas aparentemente não o suficiente para se manter como uma empreitada economicamente viável nos Estados Unidos. De todo modo, representa uma estagnação ou declínio frente a cerca de 2 milhões visitantes/mês que havia atingido já em 2010.

Ao mesmo tempo em que quase sempre havia uma ampla liberdade editorial dos blogueiros, parece que sempre foi complicado tornar o SB-us um projeto verdadeiramente rentável. Um infame episódio foi a malfadada tentativa de atrair anunciantes permitindo que mantivessem um blogue dentro do condomínio. A Pepsi criou dentro do SB-us um blogue sobre nutrição, o que causou desconforto em vários blogueiros da casa, e muitos se desligaram do projeto. A parceria acabou naufragando. Mas para PZ Meyers, do Pharyngula, um dos principais nomes do SB-us até sua saída em 2011, o principal problema foi quando do acordo com a NatGeo. Para o biólogo, a imposição de uma padronização da diagramação e uma supervisão editorial mais estrita tolhia essa liberdade. Ele acabou fundando um novo coletivo, o Freethought Blogs. O SB-us readquiriria independência um tempo depois (não sei precisar o momento em que o acordo com a NatGeo se encerrou - se eu conseguir levantar esse dado, atualizo a postagem), mas sem o vigor inicial.

A filósofa Janet D. Stemwedel - que mantinha o blogue Adventure in Ethics and Scienc -, em seu perfil no twitter, rememorou o sentimento de comunidade que havia no início. Acabou se afastando em 2010, insatisfeita com o gerenciamento do projeto que, segundo ela, estaria mais preocupado em gerar um tráfego intenso para o SB-us, mesmo valendo-se de manter um tanto artificialmente polêmicas entre seus blogueiros e outros de fora. À época de sua saída, Bora Zivkovic, do A Blog Around the Clock, também criticava o crescimento do SB-us em número de blogues - cerca de 90 em 2010 - e a perda do sentimento de comunidade e o desgaste das relações.

Embora seja muito triste que um dos pioneiros cerre suas portas, deixa frutos importantes. Não apenas toda uma geração de importantes comunicadores e divulgadores de ciência como Ed Yong ("Not Exactly Rocket Science") e Brian Switek ("Lealaps") passou por lá, como serviu de inspiração para outros projetos, como o Blogs de Ciência da Unicamp e o próprio Lablogatório que viraria o Scienceblogs Brasil. Em tempos em que a divulgação de ciências na internet flui e se diversifica - podcasts, Youtube, facebook, twitter e outras mídias sociais... - o legado do ScienceBlogs americano fica.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Ciência: a longa (longa) marcha 3

Ao contrário da segunda edição, desta vez houve um pouco mais de tempo para uma organização mais digna desse nome para a marcha, um pouco mais de um mês (contra os quatro dias daquela).

Devido ao meu grau de envolvimento pessoal nesta edição (na primeira não participei em nada da organização - fui inicialmente como participante e literalmente no meio do caminho me converti a repórter; na segunda, apenas tentei iniciar os preparativos e depois saí em desesperada tentativa de divulgação), não pretendo fazer um relato pormenorizado - seria mais um ato de propaganda do que de descrição mais fiel dos fatos.

Deixo aqui apenas alguns registros da manifestação e uma ou outra observação.

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3a Marcha pela Ciência.
08 de outubro de 2017. Avenida Paulista. São Paulo/SP.

(Crédito: autoria própria.)

*Pelo vídeo dá pra ver que o tamanho do público é maior, e bem, do que o reportado em alguns sites noticiosos, né, O Globo?* No vídeo, o cone de sinalização fornece uma boa referência dimensional - sua altura é de 75cm. Conta de engenheiro. Levaram cerca de 7 segundos pra atravessar a faixa. A faixa tem cerca de 4 metros, então dá uma velocidade média de cerca de 2km/h da caminhada. São cerca de 3 minutos pro cortejo passar, que dá cerca de 103 m de comprimento da passeata. Com uma distância média 80 cm entre as fileiras, são umas 129 fileiras de pessoas. Sendo cerca de 10 pessoas por fileira, teremos cerca de 1.290 manifestantes. Com uma propagação de erros nas coxas diria que: 1.290,0±193.5 presentes seria uma estimativa razoável. Ou, mais condizente com a precisão possível: M = 1.300±200 [IC95%: 900-1.700]. Não fosse a forte chuva pela manhã, talvez tivéssemos um número até maior. Mas, felizmente, não choveu durante o evento como era a previsão (um participante da Marcha pela Ciência torcendo contra uma previsão científica, sim).

*No meio do deslocamento, cruzamos com duas outras manifestações de outra natureza - e bem menores numericamente (felizmente, dada a natureza de pelo menos uma delas). Segundo relatos - que reputo confiáveis - houve provocações por parte dos integrantes dessas outras manifestações (uma delas eu vi, na verdade; mas eram provocações sem sentido, já que não éramos contrários à religião deles; já da religião de outra, que pedia golpe militar, queríamos distância) em direção à marcha pela ciência, mas não houve incidentes de qualquer um querer comprar briga (no máximo, alguma devolução verbal de provocação). A polícia, na primeira passagem por uma das manifestações que vinha pela outra pista da Paulista, chegou a formar um cordão ao longo do canteiro central da avenida. A presença dessas outras manifestações não chegou a frustrar a realização da Marcha pela Ciência, mas obrigou a um desvio do percurso na volta.

*Houve um certo número de pessoas que acabaram chegando já depois que o pessoal havia se dispersado - pouco depois das 16h30.

*A Banca da Ciência fez sucesso e acabou ficando até mais tarde - umas 18h - pra atender o público.
Crédito: Paulo Borges/Banca da Ciência.
*As palavras de ordem que achei as melhores: "Sem ciência é zika", "Sem ciência a terra é chata". Tem um duplo sentido que é verdadeiro (ou quase) nos dois casos, é curto e fácil de entender.

*Mesmo que possamos considerar esta marcha bem sucedida (há gente ainda reclamando do tamanho de participação alcançada), ela com certeza não é o fim. A marcha ainda é longa, muito longa, o primeiro alvo é tentar evitar mais cortes ainda no orçamento da ciência e educação. Hoje, a SBPC e associadas participaram de uma audiência pública no Congresso para mais recursos para a área. A marcha, especialmente em São Paulo, não é uma reivindicação salarial - a maioria dos professores continuam a receber seus salários - o risco é de não haver mais verba pra pesquisa: para bolsas dos alunos e dinheiro para equipamentos e suprimentos. Em São Paulo, os institutos de pesquisa estão com um quadro que não é renovado há um bom tempo e que vem sendo reduzido mais e mais com a ausência de novos concursos e aposentadoria dos antigos pesquisadores.

*A marcha precisa do apoio de um amplo setor - dentro e fora da academia. Nesta edição esteve presente, por exemplo, a SOS Mata Atlântica.
*A necessidade de integrar uma diversidade de atores implica também em aceitar e conviver com uma diversidade de visões. O que cria também algumas tensões. Num cenário de polarização, temos que reaprender a conviver com as diferenças de opinião (sim, excetuando-se as bizarrices criminosas dos fascistas). Esse enfrentamento, se mantido em um nível respeitoso, é até saudável. Havia divergência desde quanto a cor da camisa (a organização sugeriu - sugeriu, não impôs como condição para participação na marcha - uma cor escura, mas havia quem quisesse cor clara e manifestando contrariedade nos comentários dos canais de comunicação da organização do evento) até detalhes de pauta (a pauta geral do evento foi necessariamente limitada e sem grandes detalhamentos pela necessidade de poder congregar o maior número possível de frentes).

*Se há necessidade de se tirar lições disso, é exatamente das discordâncias em vários aspectos entre os participantes e o fato de a Marcha ter ocorrido sem incidentes maiores. É uma demonstração de que essa divergência respeitosa é possível, especialmente em nome de um objetivo em comum. Não precisamos concordar em tudo, não precisamos abafar essa divergência; basta apenas cultivar o respeito mútuo e estar disposto a dialogar civilizadamente. Ao diálogo, então. E mais protestos.

*Claro que terá ainda havido falhas na organização. Estamos melhorando. Ainda que faltem recursos, tudo é um processo de aprendizagem. Ouvir as críticas, aprender com elas também é parte dessa aprendizagem. (Bem como descartar as críticas desinformadas. Se acha 1.200 pessoas ainda muito baixo, ok, podemos discutir isso; mas reclamar que apenas 200 apareceram, não.)

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Veja a cobertura da imprensa:
Estadão (08/out/2017): Marcha pela Ciência reúne cerca de mil pessoas na Avenida Paulista (Cuidado! contém paywall poroso!)*
Folha (08/out/2017): Pesquisadores e estudantes marcham na Paulisa contra cortes na ciência (Cuidado! contém paywall poroso!)

À medida que saírem relatos dos participantes em seus canais de divulgação científica, acrescento a esta postagem.

Alô, Ciência? (10/out/2017): Por que marcham os cientistas?
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Obs: Com muito afinco - envolvendo troca de mensagens até de madrugada em várias ocasiões -, grande parte do sucesso desta terceira edição é para ser creditada ao trio que comandou também os preparativos da primeira: Dayane Machado, Flávia Virginio e Natalia Pasternak Taschner.
The Powerpuff Girls: created by Craig McCracken/©1998- Cartoon Network.
Figura 1. Núcleo central da organização da 3a. Marcha pela Ciência. Da esquerda para a direita: Flávia Virginio, Natalia Pasternak Taschner, Dayane Machado.

Só um exemplo do que elas fizeram. Um pouco antes do dia do evento, lanço verde para elas a ideia de convidarmos os nobelistas que assinaram a carta para o presidente sobre a crise na ciência brasileira para fazerem um vídeo para a Marcha. Em vez de inventarem uma desculpa de que seria complicado, de que eles diriam não (o que era bem provável - afinal, quem éramos nós?), que havia pouco tempo (todas desculpas razoáveis, ainda mais que estão muito ocupadas com outras tarefas acadêmicas)... elas compraram isso de modo entusiástico. Em poucos minutos - no meio da noite já! - prepararam um texto em inglês e enviaram para 22 dos signatários (de um deles - um nonagenário - não conseguimos obter o endereço eletrônico) um email com o pedido. Sim, esse foi o tamanho da nossa cara de pau. Alguns responderam e, como previsto, declinaram (o que é mais do que compreensível, e somente a delicadeza de responder já mostra que se trata de outro nível). Mas eis que ninguém menos do que Claude Cohen-Tannoudji, um dos vencedores do Nobel de Física em 1997, e o principal abaixo-assinado da carta aberta, faz um vídeo falando sobre a preocupação deles com a ciência do Brasil. Aí corre fazer a tradução pra publicar. O vídeo era pesadinho, ainda que curto (dá pra notar pela qualidade da imagem, embora o áudio sofra um pouco). Tentei subir a legenda, mas falhei miseravelmente (o facebook não me deixou subir o arquivo srt). O Luciano Queiroz, do Dragões de Garagem, renderizou outro vídeo com legendas incluídas, e subimos para a página da Marcha pela Ciência - São Paulo.

Claro que um evento deste tamanho envolveu o trabalho de muita gente, mas seria complicado listar aqui toda e cada contribuição. A começar pelos que contribuíram ao Catarse (um sucesso que superou a meta - a propósito, de todo modo ainda é possível contribuir: os valores que sobrarem depois da fatura das despesas serão transferidos para um fundo gerido pela Aciesp para utilização em outros eventos pró-ciência), aos que assinaram o Manifesto pela Ciência, aos que ajudaram na divulgação, aos que fizeram a distribuição do material de divulgação, etc, etc. Além claro de todo o restante do pessoal da organização e coordenação.
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*Upideite(10/out/2017): Há erro também na matéria de O Globo quando informa que a SBPC organizou. A SBPC apoia a marcha, mas não organiza. As instituições realizadoras foram a Aciesp e a APqC. O Estadão cometeu erro complementar, atribuiu a organização à SBPC e à APqC - incluiu a SBPC incorretamente e omitiu a Aciesp.

domingo, 6 de novembro de 2016

A publicação científica deve ter como meta ser amplamente lida?

O texto do teólogo e filósofo americano Daniel Lattier no Intellectual Takeout "Why professors are writting cr*p that nobody reads" (asterisco por minha parte) parece ter tido uma boa acolhida entre os cientófilos nas mídias sociais sendo bastante compartilhado. O filósofo Pablo Ortellado em seu perfil no facebook, diz: "Precisamos publicar menos e não mais, como nos mandam as agências e os programas de pós-graduação. E, sobretudo, precisamos publicar coisas úteis e relevantes".

Um dos primeiros a levantar um "peralá, é isso mesmo?" que eu vi, foi o biólogo Carlos Hotta, do Apatoss... "Brontossauros em Meu Jardim", em seu perfil no facebook. "Por que vocês escrevem tantos posts no Facebook se ninguém lê?", se pergunta.

Eu acho que Lattier tem um ponto, mas que Hotta também tem. De um lado, temos que notar o "cr*p" na crítica do filósofo americano. Estudos com metodologias ruins, que em nada contribuem com as ciências estão sendo publicados em grande quantidade - a maior parte dos diagnósticos apontam para a pressão do "publish or perish"como a causa principal desse estado de coisas. Mas, nesse ponto, *ainda bem* que tais estudos são pouco lidos e menos ainda citados.

Só que, pelo que podemos saber, a taxa de leitura e, pior, o índice de citação *não* é um indicador de qualidade. (Um recente trabalho conclui que grande parte do impacto de uma publicação depende do puro acaso, ainda que não apenas dele.)

Então, ok, trabalhos que são "porcarias" devam ser desincentivados. Mas será que, se fizemos os melhores esforços para aplicar metodologia correta e realizar um trabalho bem feito, devemos nos preocupar se o artigo resultante será ou não lido por muitos outros pesquisadores para decidir pela publicação?

Aqui o ponto do Hotta. Sim, muitas publicações são pagas - ou pelos autores ou pelos assinantes -, então há, de fato, algo a ser pensado a respeito de se vale a pena ou não publicar pensando no alcance potencial. Mas há vários lugares em que se pode publicar a baixo custo ou a nenhum - em repositórios pessoais e arquivos de pré-publicações, p.e.

Porém publicar pensando apenas no "impacto" potencial que o artigo poderá ter é problemático. Um aspecto a consideramos é o chamado efeito "Bela Adormecida", em que certos artigos são ignorados por décadas até que subitamente são redescobertos e passam a ser amplamente citados. Outro é que mesmo se um artigo é pouco lido, ele pode ter um impacto maior - por exemplo, se ele tiver sido usado em uma revisão ou em uma meta-análise. E, em um campo especializado, um universo de 10 leitores pode ser bem representativo de uma fração significativa ou até a totalidade do público a ser atingido.

Na atualização do Hotta, o químico Luís Brudna, do Tabela Periódica, lembra ainda que I.A.s como o Watson poderão fazer a varredura automática dos artigos buscando alguma referência obscura pouco conhecida que poderá ser de importância vital no diagnóstico de uma doença rara igualmente obscura e pouco conhecida - ou uma versão mais rara de uma doença mais comum.

Nesse sentido, a baixa taxa de leitura é lamentável, mas não deve ser uma barreira para a publicação - do contrário seria o incentivo para tornar um artigo artificialmente "sexy", forçar a barra para torná-lo mais atrativo para uma audiência mais ampla (o equivalente ao caça-clique no mundo científico, ou o próprio caça-clique, já que a maioria dos trabalhos estão online): numa palavra "sensacionalismo". Seria, antes, um chamado para um esforço de garimpagem de artigos relevantes que estão abandonados a traças eletrônicas.

E ainda há esforços para evitar o "efeito gaveta" ou "efeito de arquivo" das publicações e o excesso de resultados positivos, por se deixar de publicar os negativos.

Então, meu grau de concordância com o artigo de Lattier depende do ponto que se enfatiza.
a) "Não publicar artigos irrelevantes": ok;
b) "Resistir ao publish or perish e não fatiar os resultados ('salami science') em vários artigos menores": ok;
c) "Pensar em artigos que possam atrair mais leitores": hmmm, acho que não é tão vital assim, pode ser um objetivo secundário;
d) "A baixa taxa de leitura mostra que a maioria da ciência produzida é irrelevante": de modo algum, há vários motivos por que artigos bons permanecem pouco conhecidos (o periódico pode ser pouco conhecido, a língua da publicação ser usada por uma fração restrita de pesquisadores, a comunidade de especialistas ser reduzida, preconceito, a comunidade ter falhado em compreender a importância do artigo, por simples casualidade o artigo não chamou a atenção...).

domingo, 24 de julho de 2016

Contra o método: uma pedra no meio do caminho*

Método vem do grego methodos 'perseguição, busca, sistema' (meta 'além, após' e hodos 'via, caminho'). É uma das principais seções de um artigo científico típico, onde é descrito idealmente todos os passos seguidos para se obter os dados reportados - e que, supostamente, se outras pessoas reproduzirem, deverão obter os mesmos resultados. O método é um dos pilares da ciência, na medida em que serve de garantia da reprodutibilidade dos dados e, portanto, da correção e honestidade destes.

Em função disso, exige-se a máxima transparência em relação à descrição do método. Porém, alguns casos têm vindo à tona de graves falhas na metodologia empregada que passaram despercebidas e, agora, afetam seriamente a credibilidade de milhares e milhares de artigos e lança sombra sobre suas respectivas áreas.

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'O que faremos amanhã à noite, Cérebro?' 'O mesmo que fazemos todas as noites, Pinky; tentar consertar o método.'
Apesar do imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI) - em que se busca detectar regiões do cérebro em que há uma alteração no sinal de ressonância magnética dos núcleos de hidrogênio aumento do consumo de açúcares radiomarcados durante a realizações de determinadas tarefas**** - já ter um quarto de século com intenso uso em pesquisa e diagnóstico, o principal algoritmo estatístico de detecção de padrões usado nessa técnica nunca foi devidamente validado com testes comparativos com dados reais.

Eklund e cols. (2012) resolveram, então, colocar isso à prova e obtiveram um resultado muito ruim: até 70% (a depender dos ajustes utilizados nos programas) de falsos positivos foram obtidos na análise de 1.484 dados de repouso disponíveis publicamente em um bando de dados com o uso do pacote SPM - contra a taxa esperada de falsos positivos de 5% O mesmo grupo em.Eklund, Nichols e Knutsson (2016)** expandiu a análise incluindo os principais softwares utilizados nesse tipo de análise (além do SPM, também o FSL, o AFNI e o método de permutação não-paramétrica) e também foram obtidos taxa de falsos positivos muito acima do esperado. O problema provavelmente deve-se ao fato de os dados reais não seguirem uma distribuição teórica (gaussiana) como suposto nas análises estatísticas implementada nos softwares.

O achado deve afetar cerca de 40.000 artigos que utilizam a técnica de fMRI. Esse número foi depois removido em uma correção ao artigo. Em 2017, Cox et al., publicaram uma resposta em que contestam a estimativa do erro feita por Eklund e colaboradores. Em vez da taxa de até 70%, Cox e colegas estimam que a inflação dos valores seja de menos de 10%.*****

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Corretor celular
Em uma revisão, Hugues e cols. (2007), estimaram que 18% a 36% das linhagens celulares utilizadas em pesquisa estavam contaminadas ou eram objeto de erro de identificação.

Em 2012, foi formado o Comitê Internacional de Autenticação de Linhagens Celulares (ICLAC) para avaliar o perfil das linhagens celulares utilizadas em pesquisa. Mais de 400 linhagens estão catalogadas como contaminadas ou erroneamente identificadas.

Christopher Korch, um dos principais pesquisadores da área, estima que apenas com duas linhagens: HEp-2 e INT 407 (contaminadas há muito tempo e atualmente constituídas essencialmente por células HeLa), 7.125 artigos estão comprometidos.

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*Obs: Apenas um trocadilho com título da principal obra do filósofo Paul Feyrabend. Não é nenhum abono a ela - não que minha recomendação ou restrição conte alguma coisa. (Claro, também uma referência ao conhecido a abusado verso do poeta Carlos Drummond de Andrade.)
**via Rafael Garcia fb
***ht Stevens Rehen fb
****O leitor Ricardo, a quem agradeço, alertou nos comentários que a explicação original estava errada - ela se referia à técnica de PET scan.
****Upideite(24/nov/2019): adido a esta data.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Antiguidade sólida: (mais um) ataque à sociologia

Não vi uma confirmação oficial do que teria dito nosso amado e premiado gestor hídrico, o governador Geraldo Alckmin, sobre a Fapesp dever financiar apenas pesquisas "úteis" e não "inúteis" como a Sociologia.

Eu poderia responder a esse ponto de vista apenas com referências a postagens anteriores no GR; como uma de 2012 sobre a crítica do jornalista Luís Nassif a pesquisas "inúteis" pelo CNPq, uma sobre a (falsa) dicotomia entre ciência aplicada e básica ou uma terceira sobre a questão da hierarquia das ciências (os dados sugerem que haja uma hierarquia em relação ao grau de consenso entre as áreas: mas isso estaria ligado à complexidade do fenômeno estudado, não a um valor intrínseco dos campos científicos). Isso tanto mostra que essa visão não é nada original quanto que há uma preocupante permanência dela. Inclusive em outros países como o JapãoReino Unido e EUA.

Mas deixemos o próprio Conselho Superior da Fapesp com a palavra:
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A FAPESP considera importante o debate na sociedade sobre o papel da pesquisa no Estado de São Paulo. Por determinação constitucional, esta Fundação deve apoiar o “desenvolvimento científico e tecnológico” no Estado de São Paulo (artigo 271, caput da Constituição Estadual) em todas as áreas do conhecimento (artigo 16, parágrafo primeiro da Lei 5918 de 1960).
Pela natureza intrínseca da ciência, resultados práticos de diferentes pesquisas podem se verificar em diferentes prazos, de maior ou menor extensão. Algumas pesquisas não se realizam para chegar a resultados práticos, mas sim para tornar as pessoas e as sociedades mais sábias e, assim, entenderem melhor o mundo em que vivemos, o que é uma das missões da ciência.
O Conselho Superior da FAPESP destaca que o apoio à pesquisa com vistas a aplicações tem recebido mais da metade (52% nos últimos três anos) dos recursos totais destinados às atividades-fim da Fundação. Por determinação legal, 95% do orçamento anual da FAPESP são destinados ao financiamento de pesquisas e é vedado à Fundação assumir encargos externos permanentes de qualquer natureza, inclusive salários.
Desde a sua criação, e por determinação legal, a FAPESP constituiu um patrimônio rentável que lhe permite, em situações de crise, não deixar de cumprir seus compromissos assumidos. Tal patrimônio tem sido administrado com rigor e eficácia ao longo de sua história e impedido que pesquisas importantes sejam interrompidas abruptamente por falta de recursos em tempos de arrecadação em baixa, como o atual.
O Conselho Superior afirma que a FAPESP, com a autonomia de que desfruta constitucionalmente, continuará obedecendo aos preceitos legais, atendendo às demandas de financiamento da pesquisa em todas as áreas do conhecimento científico e tecnológico.
A FAPESP está sempre atenta às demandas da sociedade, em busca do contínuo aperfeiçoamento do seu funcionamento, e continuará contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico do Estado de São Paulo e do Brasil, como vem fazendo diligentemente em seus mais de 53 anos de existência.
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(via Ruth Helena Bellinghini e Maurício Tuffani fb)

Nota da Academia de Ciências do Estado de São Paulo - Aciesp*
Nota da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais - Anpocs*

Veja também outros textos sobre o tema na DCsfera:
26.abr.2016: Reinaldo José Lopes - Darwin e Deus: Alckmin e a ciência
27.abr.2016: Cristiano Bodart & Roniel da Silva - Café com Sociologia: Nota de repúdio à má fé do (des)governador Alckmin em relação à Sociologia
27.abr.2016: Maurício Tuffani - Direto da Ciência: O canal entupido de Alckmin com a ciência
29.abr.2016: Canal do Pirula: Zika, Fapesp e o Governador
07.mai.2016: Olá Ciência!: Pesquisa Básica e a Fapesp são inúteis, governador? (vídeo, não vi)

*Upideite(29/abr/2016): adido a esta data.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ReprodutivaMente: da reprodutibilidade em Psicologia e nas ciências

Não tenho muito o que falar sobre o recente estudo com um índice relativamente baixo de replicação de resultados de estudos psicológicos publicados em três importantes revistas da área. Reproduzo a conclusão dos 270 autores do artigo (felizmente a Science deixou o artigo em acesso aberto):

"After this intensive effort to reproduce a sample of published psychological findings, how many of the effects have we established are true? Zero. And how many of the effects have we established are false? Zero. Is this a limitation of the project design? No. It is the reality of doing science, even if it is not appreciated in daily practice. Humans desire certainty, and science infrequently provides it. As much as we might wish it to be otherwise, a single study almost never provides definitive resolution for or against an effect and its explanation. The original studies examined here offered tentative evidence; the replications we conducted offered additional, confirmatory evidence. In some cases, the replications increase confidence in the reliability of the original results; in other cases, the replications suggest that more investigation is needed to establish the validity of the original findings. Scientific progress is a cumulative process of uncertainty reduction that can only succeed if science itself remains the greatest skeptic of its explanatory claims.

The present results suggest that there is room to improve reproducibility in psychology. Any temptation to interpret these results as a defeat for psychology, or science more generally, must contend with the fact that this project demonstrates science behaving as it should. Hypotheses abound that the present culture in science may be negatively affecting the reproducibility of findings. An ideological response would discount the arguments, discredit the sources, and proceed merrily along. The scientific process is not ideological. Science does not always provide comfort for what we wish to be; it confronts us with what is. Moreover, as illustrated by the Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), the research community is taking action already to improve the quality and credibility of the scientific literature.

We conducted this project because we care deeply about the health of our discipline and believe in its promise for accumulating knowledge about human behavior that can advance the quality of the human condition. Reproducibility is central to that aim. Accumulating evidence is the scientific community’s method of self-correction and is the best available option for achieving that ultimate goal: truth."
["Depois desse esforço intenso para reproduzir uma amostra de achados em Psicologia publicados, quantos desses efeitos estabelecemos como verdadeiros? Zero. E quantos desses efeitos estabelecemos como falso? Zero. É uma limitação do desenho do projeto? Não. Essa é a realidade de se fazer ciência, mesmo quando isso não é apreciado na prática do dia-a-dia. Os humanos desejam certezas e as ciências raramente podem dá-las. A despeito de nossos desejos de que as coisas fossem diferentes, um único estudo quase nunca dá uma resposta definitiva a favor ou contra um efeito e sua explicação. Os estudos originais examinados aqui ofereceram indícios provisórios: as réplicas que conduzimos ofereceram indícios adicionais confirmatórios. Em alguns casos, as réplicas aumentaram a segurança da confiabilidade dos resultados originais; em outros casos, as réplicas sugeriram que mais investigações são necessárias para estabelecer a validade dos achados originais. O progresso científico é um processo cumulativo de redução da incerteza que só pode ser bem sucedido se as próprias ciências permanecerem céticas a respeito de suas alegações explicativas.

Os resultados presentes sugerem que há espaço para a melhoria da reprodutibilidade na Psicologia. Qualquer tentação de interpretar estes resultados como uma derrota da Psicologia ou das ciências em geral devem ser contestada com o fato que este projeto mostra as ciências funcionando como deveria. Há uma abundância de hipóteses que a presente cultura nas ciências possa estar afetando negativamente a reprodutibilidade dos achados. Uma resposta ideológica irá desconsiderar os argumentos, desacreditar as fontes e simplesmente seguir adiante. O processo científico não é ideológico. As ciências nem sempre traz conforto para o que gostaríamos que fosse; elas podem nos confrontar com o que de fato é. Além disso, como ilustrado pelas Orientações da Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), a comunidade de pesquisa está tomando ações para melhorar a qualidade e a credibilidade da literatura científica.

Conduzimos este projeto porque nos importamosentos profundamente com a saúde de nossa disciplina e acreditamos em sua promessa de acumular conhecimento sobre o comportamento humano que pode aumentar a qualidade da condição humana. A reprodutibilidade é central nesse objetivo. A acumulação de indícios é o método de auto-correção da comunidade científica e é a melhor opção disponível para atingir sua meta definitiva: a verdade."]

Podemos relativizar a questão da 'verdade' e 'conhecimento cumulativo', mas é isso. Nenhum estudo isolado tem a palavra final sobre um dado tema. É preciso considerar o conjunto de indícios disponíveis. O processo científico se consolida nisso, com replicações (e revisões sistemáticas, e meta-análises).

O fato de conseguirem obter um resultado, dentro da margem de erro, igual ao original em 47 dos 100 estudos mostra como o processo científico, mesmo em sua fase inicial: da publicação de estudos originais, já atua como um filtro poderoso. (Não consigo pensar em outros processos de geração de conhecimento com essa taxa de confirmação independente.) Que isso possa ser ainda melhor, pra mim, é só motivo de otimismo.

Upideite(30/ago/2015): Uma análise bayesiana que procura evitar um binarismo (falha/sucesso) na análise. (via @andrelesouza RT)

Upideite(01/set/2015): Carlos Orsi "Crise na psicologia mostra ciência em ação"

Upideite(18/set/2023): Bom dizer que há contestações desse estudo da Open Science Collaboration. A reprodutibilidade real seria maior - o grupo que concluiu pela reprodutibilidade reduzida teria usado metodologia inadequada.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 22

Um tema muito debatido nos estudos sobre divulgação científica é o chamado "modelo do déficit". Há uma variação em torno do que se entende pela expressão, mas uma das definições consiste na hipótese de que há uma correlação positiva (causacional?) entre "conhecimento científico" e "atitude em relação às ciências". Isto é, as pessoas tendem a ter uma visão mais positivas em relação à prática científica quanto maior seu conhecimento sobre ciências.

Muitos pesquisadores da área e divulgadores de ciências, especialmente os que têm uma formação mais afim das Humanidades (jornalistas, cientistas sociais, historiadores...) e, em menor grau, de Ciências da Vida e Saúde (biologia, medicina, psicologia...), tendem a rejeitar o modelo.

Nick Allum e cols. 2008 resolveram colocar a questão à prova em uma base mais sólida. Fizeram um estudo de meta-análise compilado dados para várias culturas.
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Allum, N. et al. 2008. Science knowledge and attitudes across cultures: a meta-analysis. Public Understanding of Science 17(1): 35-5. doi: 10.1177/0963662506070159.

18 palavras-chaves foram utilizadas para se buscar por artigos em bancos de dados como o ISI Web of Knowledge, Medline, Google... “public”, “science”, “knowledge”, “citizens”, “understanding”, “technology”, “survey”, “biotechnology”, “awareness”, “environment”, “risk”, “perception”, “measurement”, “genetic”, “literacy”, “opinion”, “engineering” e “attitudes” com conectores "and" ou "or".

Dos 300 artigos, relatórios e outros resultados, 193 amostras de dados foram selecionadas (com base em se as amostram eram aleatórios e representativas de populações em nível nacional) abrangendo 40 países e cobrindo os anos de 1989 a 2004.

As escalas de conhecimento científico puderam ser classificadas em duas categorias abrangentes: conhecimentos científicos de livros-textos gerais de ciências e conhecimento sobre biologia e genética (como "tomates comuns não contêm genes, enquanto tomates geneticamente modificados têm").

As escalas de atitude incluíam 5 grandes áreas: 1) ciência em geral, 2) energia nuclear, 3) medicina genética, 4) alimentos geneticamente modificados (OGMs) e 5) ciências ambientais.

Corrigindo para idade, sexo e escolaridade, a relação geral entre conhecimento e atitude foi baixa (0,08) mas significativa (a alfa=5%). Foi significativamente negativa para atitudes sobre OGMs e ciências ambientais. E quanto maior o conhecimento de biologia/genética mais negativa a atitude em relação às ciências. Quanto maior o conhecimento sobre biologia, melhor a atitude em relação aos OGMs e às ciências ambientais.

Pessoas com formação no ensino superior tiveram uma melhor atitude em relação às ciências.

Corrigindo para fatores como PIB per capita, acesso à internet, número de pessoas com ensino superior, os americanos foram os que apresentaram a melhor atitude em relação às ciências entre as populações analisadas no levantamento; os gregos, a pior.

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Infelizmente, o Brasil não esteve entre os países analisados. O que não surpreende, dada a falta de estudos de abrangência nacional que contemplem tanto as atitudes (foco dos levantamentos do MCTI) quanto o conhecimento (foco do estudo da Abramundo). Estudos que contemplam as duas dimensões são apenas regionais, como o do Labjor (estado de São Paulo). (Sim, um dia compilo os dados da pesquisa GR, mesmo não tendo representatividade nacional.)

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mary Tsingou: O enigma matemático dos três homens e uma mulher

Muitos dos leitores do GR já devem estar cientes da descoberta de uma solução (parcial) para o problema Fermi-Pasta-Ulam.

Info 24/mar/2015: "Enigma matemático que durava mais de 60 anos é finalmente solucionado"
Ciências e Tecnologia 25/mar/2015: "Enigma de Fermi-Pasta-Ulam resolvido após 60 anos"
Phys.org 23/mar/2015: "Mathematicians solve 60-year-old problem"

Press release da Unviersidade de East Anglia s.d. "UEA mathematician solves 60-year-old problem"
Press release do Instituto Politécnico Rensselaer (RPI) 23/mar/2015: "A mathematical explanation for the Fermi-Pasta-Ulam system problem first proposed in 1953"

Artigo no PNAS 23/mar/2015: "Route to thermalization in the α-Fermi-Pasta-Ulam system"

Só a Info e o comunicado à imprensa do RPI mencionam a contribuição de Mary Tsingou na formulação original do problema.

Usando a base de dados do Google Acadêmico, a busca por "Fermi-Pasta-Ulam problem" e "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem" tem os resultados representados no gráfico abaixo (Fig.1).

Figura 1. Menções ao problema como de "Fermi-Pasta-Ulam" (FPU) ou de "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou" (FPUT) em artigos científicos por período. Fonte: Google Scholar.

Em 2008, o físico francês Thierry Dauxois da Escola Normal Superior em Lyon publicou um artigo que resgata a participação essencial de Mary Tsingou (depois, Mary Tsingou Menzel) na questão.

Embora o relatório original de 1955 leve a assinatura apenas de Enrico Fermi, físico italiano; John Pasta, físico computacional americano; Stanislaw Ulam, matemático americano de origem polonesa (então parte do Império Austro-Húngaro); Mary Tsingou fez boa parte do trabalho de elaboração do algoritmo e programação (Fig. 2) - uma tarefa nada trivial, nem um pouco fácil com os poucos recursos computacionais (mesmo em laboratório como Los Alamos, com seus famosos monstrengos adequadamente denominados "Mathematical Analyzer, Numerator, Integrator, and Computer", MANIAC para os íntimos) disponíveis.

Figura 2. Algoritmo desenvolvido por Mary Tsingou para abordagem computacional do problema de Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou. Fonte: Dauxois 2008.

Dauxois faz um breve relato da vida de Tsingou. Nascida em Milwaukee, no estado americano de Wisconsin, em 1928, cresceria na América da Grande Depressão, mudando-se com a família para a Bulgária em 1936 atrás de melhores condições de vida. Mas em junho 1940, seguindo recomendação da embaixada americana, retornaram para os EUA devido ao aumento da tensão no subcontinente balcânico (a Segunda Guerra Mundial já corria solta na Europa Central; em outubro, a Grécia viria a ser invadida pela Itália).

Ela formou-se em 1951. No ano seguinte, buscou uma vaga em Los Alamos, contando com o apoio de uma professora sua de equações diferenciais avançadas. Mesmo a matemática sendo um campo ainda fechado às mulheres, a Guerra da Coreia provocava uma redução de mão de obra masculina, então, ela, juntamente com outros recém-graduados, foram contratados para fazerem cálculos matemáticos à mão.

Foi das primeiras pessoas a conseguirem programar o recém-construído MANIAC I. O principal uso do trambolho era, claro, relacionado ao desenvolvimento de armas, mas ocasionalmente encontravam brechas para utilizar o brinquedo para algo mais produtivo: resolução de problemas da Física e jogo de xadrez. Tsingou e Pasta foram os primeiros a desenvolverem gráficos no MANIAC.

Fermi, professor em Chicago, visitava Los Alamos apenas brevemente. Mas foi dele a ideia de utilizar o computador não apenas para realizar cálculos padrões, e, sim, também para testar hipóteses físicas. Nascia disso a experimentação numérica e a era das simulações computacionais científicas.

Com sua experiência na programação do computador, proximidade com Pasta e Ulam, foi incumbida a ela a tarefa de desenvolver os algoritmos da simulação de um cristal unidimensional - sem saber o resultado surpreendente que iriam obter.

Modelando os átomos como massas conectadas linearmente por molas que obedeciam à lei de Hooke, mas com um pequeno termo não-linear, observaram que, ao contrário do previsto, a energia não acabava sendo partilhada igualmente pelo sistema, mas o sistema, de tempos em tempos, voltava à sua condição original. A busca pela resolução desse paradoxo levou ao desenvolvimento do campo dos sólitons (ondas localizadas com propriedades de partículas) e o problema FPUT se tornou central também nos estudos sobre o caos.

Em 1955, Tsingou obteria seu mestrado. Em 1958, casou-se com com Joseph Menzel, que conheceu no próprio Los Alamos. Além do problema FPUT, ela também trabalhou com soluções numéricas para a equação de Schrödinger e trabalhou com von Neumann na modelagem de mistura de fluidos com densidades diferentes. Além de contribuir com estudos sobre o programa Guerra nas Estrelas da administração Reagan.

Aposentou-se em 1991 e desde então mora com o marido nos arredores de Los Alamos.

Por que, tendo papel tão essencial, Mary Tsingou foi deixada de lado? Poderia ser por, apesar de ter botado a mão na massa, não haver participado da elaboração do artigo. Mas ela participou da produção dos gráficos e Fermi, morto um ano antes, não tinha como colaborar com o manuscrito, porém foi listado como primeiro autor.

Não era a primeira vez que o efeito Matilda aprontava das suas, não seria a última. Talvez o caso mais famoso de uma mulher alijada do reconhecimento seja de Rosalind Franklin e sua contribuição para o desvendamento da estrutura do ADN - creditada, normalmente apenas a Watson e Crick, e, ocasionalmente a Wilkins também.

Em sua linha final, Dauxois propõe: "Let us refere from now on to the Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem". ["Chamemos de agora em diante de problema Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou"]. Alguns atenderam à convocação, mas são somente 15 trabalhos publicados desde então (e indexados na base do Google Acadêmico) referem-se a FPUT contra mais de 400 que citam apenas FPU.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 21

Eugen Glavan e Alexandru Cernat (2010), ambos da Universidade de Bucareste, Romênia, fizeram uma análise de uma pesquisa de opinião entre os romenos sobre ciência religião.

Baseados nas respostas de 1.161 adultos, fizeram uma análise das correlações entre diversos fatores e o grau de alfabetização científica. Essa análise é resumida na Figura 1 abaixo, adaptada de sua apresentação na "Science and the Public 2010", realizada na Imperial College de Londres, RU.

Figura 1. Correlação entre dimensões de atitudes sobre ciências e religião e alfabetização científica entre os romenos. Linhas vermelhas, correlação negativa; linhas azuis: correlação positiva. Glavan &Cernat 2010.

Um aspecto que se destaca é a correlação negativa entre alfabetização científica e a visão de que a ciência e a religião se opõem (necessariamente ou frequentemente). Não é propriamente uma surpresa, porém é reforço para a visão pessoal que tenho (e divido com algumas pessoas boas) de que a ênfase no embate entre ciência e religião - como levada a cabo por Richard Dawkins e outros céticos racionalistas antirreligiosos - é deletéria para a compreensão e aceitação do conhecimento científico.

Sim, é uma correlação, não necessariamente uma relação de causa e efeito. Mas atente-se ao fato que o fator "ciência x religião" também se correlaciona positivamente com a visão de que o conhecimento científico tem pouca importância na vida das pessoas ("irrelevância científica") e que a ciência costuma trazer problemas ("riscos").

Esse embate parece servir mais para alienar uma fração considerável de pessoas religiosas - no Brasil, algo como 84% a 99% das pessoas acreditam em alguma divindade e 92%93%, tem alguma filiação religiosa. Claro, é uma pesquisa que se refere apenas à Romênia. Infelizmente não temos uma pesquisa ampla de caráter nacional por aqui - pretendo analisar essas dimensões e correlações nos resultados da Pesquisa Gene Repórter: Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia, mas ela tem limitações como autosseleção dos respondentes, de todo modo alguns dados preliminares parecem ser consistentes com o quadro romeno.

Outro elemento que se pode destacar é a correlação *negativa* entre alfabetização científica e o idealismo científico (a visão de que a ciência e a tecnologia resolverão todos os problemas do mundo). Quanto mais o indivíduo conhece as ciências e suas práticas, mais realista fica sua visão a respeito das potencialidades e limitações científicas. Na Romênia, pessoas mais alfabetizadas científicas, sem surpresas, apoiam menos a ideia de que a ciência seja irrelevante, por outro lado, não há um maior apoio de que as ciências tragam muitos benefícios, nem que os riscos sejam desprezíveis. O que talvez permita afastar a preocupação de certo setor pós-modernista (e pós-conceitualistas) de que a divulgação científica tenda a ser alienante, exaltando as maravilhas científicas e ocultando os problemas (éticos, ambientais, culturais, sociais, econômicos...) decorrentes da pesquisa e aplicação tecnológica mal planejada - ou significa que pelo menos que em alguma coisa os romenos estão acertando.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Mitos na ciência: A ciência é autocorretiva?

Mito: "A ciência é autocorretiva."
Status: Não tão verdadeiro quanto seria necessário ou desejável.

É verdade que há incontáveis casos de hipóteses tidas uma vez por cientificamente válidas caídas por conta de novos estudos: como a passagem absoluta do tempo, a ausência formação de novos neurônios em cérebros adultos, a exclusividade eucariótica de material nuclear envolto por membrana, etc., etc. são afirmações e negações refutadas.

Não é possível afirmar, então, que nunca a ciência corrige os próprios erros. Às vezes há a necessidade até de se corrigir a correção: como quando Einstein incluiu uma constante em sua fórmula gravitacional, para permitir a existência de um universo estável (que não se expandia, nem se retraía), levando à posterior retratação diante da confirmação, por Hubble, da hipótese de Lamaître de um universo dinâmico, em expansão: "O maior erro de minha vida", disse o físico alemão; mas com os dados de uma expansão *acelerada*, a constante cosmológica voltou ao jogo (dado o espírito frasista, é capaz de Einstein, vivo estivesse em 1998, dizer que o reconhecimento da constante cosmológica como o maior erro de sua vida seria o segundo maior erro de sua vida).

Porém, essa correção nem sempre (quase nunca?) é automática.

Pfeifer & Snodgrass (1990) examinaram o efeito do cancelamento ('retraction') de artigos na citação destes. Havia uma diminuição substancial, mas longe - bem longe - de ser uma supressão total: em comparação com o grupo controle (artigos similares que não foram objetos de cancelamento) a redução foi de apenas 35% nas citações. Budd et al. (1999) analisaram outro grupo de artigos cancelados e verificaram que, de 2.034 citações conjuntas que 235 artigos anulados receberam, a maioria eram menções implicitamente elogiosas e 275 citações eram explicitamente positivas. Claro que são estudos de um cenário diferente do atual: há 15, 25 anos o acesso a informações sobre artigos era bem mais precário do que hoje - mas ainda falta uma base de dados geral de artigos cancelados (a base disponível no site da Rutgers University não é atualizada desde 2011) - isso permitiria a implementação de aplicativos de conferência automática de referências quanto ao status de validade.

Fanelli (2009), em uma meta-análise sobre estudos a respeito de má-conduta científica, conclui que algo em torno de 1,97% dos cientistas admitem haver manipulados os dados (33,7% admitem algum tipo de conduta censurável; em questões a respeito de colegas, 14,12% dizem já haver presenciado fraudes e 72% algum ato condenável). Fang et al. (2012) estudaram os artigos cancelados na base PubMed, eram pouco menos de 2.050 na época em um total de pouco menos de 20,5 milhões de registros em 2012 (em 2014 são em torno de 23 milhões). Isso corresponde a apenas 0,01% dos artigos cancelados. Se considerarmos que 2% são objetos de algum tipo de fraude, então a taxa de depuração é de apenas 0,5% - 99,5% dos artigos fraudulentos permanecem indetectados. E a maior parte das fraudes são descobertas menos por análise por pares e falhas nas tentativas de reprodução dos resultados do que por informações de denunciantes (Fang et al. 2012).

Tatsioni et al. (2007) acompanharam as citações de 2 artigos publicados em 1993 sobre benefícios da vitamina E e refutados no início dos anos 2000 por estudos aleatorizados e com controle. 50% das citações de artigos publicados em 2005 eram favoráveis aos estudos refutados.

Ioannidis (2012) lista uma série de fatores analisados para os estudos de Psicologia que impedem ou dificultam a autocorreção das Ciências (tabela 1); analisa também as várias propostas para evitar ou minimizar o problema (tabela 2).

Tabela 1: Fatores de impedimento para autocorreção em Ciências Psicológicas.
Fator de impedimento
Viés de publicação
Outros vieses de relatos seletivos (análise e resultados)
>flexibilidade na coleta e análise de dados
>relatório errôneo dos resultados
>correlações vudu
Fabricação de resultados
Outras práticas questionáveis de pesquisa
Viés de excesso de resultados significativos
(pode resultar de qualquer fator acima)
Estudos com pouco poder estatístico
Nenhum trabalho de replicação realizado -
especialmente replicação direta por investigadores independentes
Crise da subestimativa de replicação
Viés editorial contra pesquisa de replicação
Viés do revisor contra pesquisa de replicação
Dados, análises e protocolos não disponíveis publicamente

Tabela 2. Propostas de solução do problema de autorreção das Ciências e problemas potenciais associados.
Proposta Problema 
Promover pesquisa dirigida por paradigmas Criação de bolhas de popularidade em torno dos paradigmas da moda
Usar checklists para autores, editores e revisores Incentivo a comportamentos espúrios como usar métodos ruins que apenas atendem aos requisitos exigidos, passando a impressão de que foi realizado um estudo rigoroso
Tirar o foco sobre número de publicações e fatores de impacto --------------------
Desenvolver métricas para saber o que vale replicar Impressão de que a replicação é apenas ocasionalmente necessária e não que é útil por padrão
Fazer esforço conjunto (crowdsourcing) para replicar estudos Reforço da ideia de que a replicação não é algo sério, que qualquer pessoa pode fazer, não é trabalho para cientistas gabaritados e experientes
Elevar o status de periódicos revisados por pares que se focam na solidez dos estudos em vez de em sua significância percebida --------------------
Abaixar ou remover padrões para pubicação Enxurrada de trabalhos sem valor
Prover acesso aberto a dados, materiais e fluxograma do trabalho Aumento descontrolado de 'dredging' de dados (mineração de dados em busca de correlações)
Empregar estudantes em treinamento como "replicadores" Reforço da ideia de que a replicação não é algo sério, que qualquer pessoa pode fazer, não é trabalho para cientistas gabaritados e experientes
Exigir registro a priori rigoroso de estudos de confirmação Necessidade de análise cuidadosa sobre os dados exigidos para o registro; um simples registro de um ensaio aleatorizado sem detalhes da análise pode permitir passar falsa segurança enquanto as análises ainda são enviesadas - por outro lado, o registro antecipado rígido do método de análise a ser empregado, não permite lidar com situações não previstas como perda de pacientes, alteração no tratamento ou medições errôneas
Fonte: Ioannidis 2012.

A conclusão geral é que mais esforços precisam ser empregados (e de modo mais efetivo) para dar um gás no incensado processo autocorretivo das Ciências.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Ciência: curiosidade e poder

A Agência Fapesp publicou uma interessante entrevista com o nobelista Erwin Neher. Destaco dois trechos:

"Agência FAPESP – Já que o senhor mencionou o tema educação científica, acredita que o ensino e a divulgação científica são atividades que devem fazer parte da carreira de um cientista? 
Neher – Claro que os cientistas devem fazer um esforço para explicar ao público como o dinheiro está sendo gasto. Também devem contribuir para recrutar jovens cientistas e torná-los interessados em sua pesquisa. Mas nem todo bom cientista é um bom comunicador; não podemos esperar que todos façam isso. Alguns são bons professores, outros apenas entediam sua audiência com detalhes sobre sua pesquisa. E isso não é bom. Por outro lado, na Alemanha, temos um jornalismo científico muito elaborado, com pessoas engajadas e treinadas para comunicar e fazer as coisas parecerem mais interessantes. Minha posição é: sim, é importante divulgar a ciência, mas sem tornar cansativo para o público e sem gastar todo o tempo do cientista com divulgação.

Agência FAPESP – Qual conselho daria aos jovens pesquisadores brasileiros? 
Neher – Para um cientista, é realmente importante ser cativado por um problema e isso significa estar constantemente pensando a respeito desse assunto. É o que chamo de estilo de vida da ciência. Claro que é impossível fazer isso 24 horas por dia; é preciso dormir, interagir com a família e tudo o mais. Mas, pelo menos, sempre que estiver sozinho, nos momentos tranquilos, deve-se pensar sobre seu problema, avaliar os experimentos de seu laboratório em um outro contexto, comparar os resultados com sua hipótese e tentar buscar soluções de diferentes ângulos. O jovem pesquisador deve avaliar se tem essa curiosidade que o cativa. Em seguida, deve avaliar se o problema que o instiga é pelo menos importante o suficiente para lhe prover o sustento. Afinal, não se vive de ar. Uma vez que esses dois requisitos forem atendidos, deve verificar se tem as habilidades que o tornam capaz de alcançar seus objetivos."

Na questão da DC, é coisa a se pensar, mas, porém, todavia, contudo, talvez mesmo uma comunicação entediante por parte de alguns cientistas traria benefícios - de um lado, a prática permite algum grau de aperfeiçoamento; de outro, alguém com mais paciência poderia garimpar informações importantes (os outros sempre poderão recorrer a outras fontes, inclusive os jornalistas de ciências).

Agora, sobre o conselho aos jovens pesquisadores, Neher também associa a prática científica à curiosidade. Vários cientistas - famosos e nem tanto - igualmente fazem essa relação como na série "Por que pesquiso?" deste blogue.

Em uma ação de autoplágio (em uma visão mais autocondescendente: em uma ação ambientalmente correta de reciclagem de bits), irei repetir o que publiquei alhures.

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Se você pede pra um cientista natural definir ciência, muito provavelmente sua definição irá gravitar em torno da palavra "curiosidade". Se você pede pra um cientista social definir ciência, muito provavelmente sua definição irá gravitar em torno da palavra "poder".
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Um cientista social, particularmente um sociólogo das ciências, tende a ser mais leniente com a filosofia. Aceita a frequentemente lembrada história de que para Platão (secundado por Aristóteles) a filosofia começa com o assombro. E só lembra da influência da filosofia nas questões políticas para realçar sua importância - raramente para expressar os perigos potenciais dos processos filosóficos.

As ciências ainda não romperam o cordão umbilical com a filosofia - da qual brotaram como filosofia natural. (Ainda que uma porção não insignificante dos cientistas naturais vejam a filosofia com desdém.)
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O "poder" em si não parece ser um bom elemento definidor de ciência. Sim, a produção das ciências envolve poder. Sim, o poder se vale das ciências. Mas: *toda* ação humana (ação e omissão voluntária) - filosofia, arte, esporte, economia... - envolve poder em sua constituição. E todo elemento de ação humana pode ser cooptado pelo poder - sim, inclusive a arte: toda comunicação governamental que se preze define uma marca estética das peças (logomarcas, paleta de cores, grafismos, trilha sonora...).

O fazer arte é política, apontam sociólogos em exaltação. O fazer ciência é política, apontam sociólogos em censura.

O poder pode ser uma característica necessária das ciências - ainda que seja uma afirmação duvidosa, aceite-se para fins de argumentação. Mas não o é suficiente para caracterizá-la, portanto.
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E "curiosidade" seria um bom elemento definidor de ciência? Não haveria curiosidade na filosofia, na arte, no esporte, na economia...? Sim, claro que há. Mas não é a partir disso que se aproximam das ciências?

Um amante dos esportes não cria uma ciência dos esportes ao tentar descobrir padrões de vitória e derrota? Não temos uma ciência econômica quanto tentamos saber por que o desemprego se mantém baixo mesmo em cenário de baixo crescimento? Não temos uma ciência (psicologia) da arte ao se tentar traçar quais elementos de uma obra levam o público a ter uma reação positiva ou negativa? A filosofia... bem, as ciências são filosofia natural, já disse.
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Então deixem-me valer de uma solução de compromisso.

Ciência é a ação política da curiosidade.
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Upideite(08/abr/2016): Um levantamento com cerca de 400 cientistas americanos membros de associações como a Academia Nacional de Ciências resultou numa lista ordenada dos valores fundamentais ('core values') que subjazem à ciência de excelência (Fig. 1).

Figura 1. Principais valores para a produção de uma ciência de excelência segundo cientistas americanos de elite. (Cada um deveria escolher 3 opções.) Fonte: Reunião Anual 2016 da AAAS.

via @luizbento

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Pesquisa "Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia" - primeiros resultados

Antes de mais nada, gostaria de agradecer muitíssimo aos que colaboraram com a pesquisa, seja respondendo-a, seja divulgando-a.

Apesar de alguns esforços para diminuir o desvio da razão sexual dos respondentes - como apelos públicos voltados às mulheres e tentativas de divulgar em blogues e perfis de rede social voltados ao público feminino -, não teve jeito. 72,1% dos respondentes foram do sexo masculino, apenas 28,8% do feminino (apesar de haver opção para responder outra coisa, ninguém respondeu fora dessas alternativas).

O gráfico abaixo (Figura 1) resume os meios declarados pelos quais os participantes tomaram ciência da pesquisa.

Figura 1. Meios pelos quais os participantes da pesquisa tomaram conhecimento dela. Respostas espontâneas.

Não há muita surpresa pela grande concentração das respostas na web 2.0 - afinal, foi concebida, gerida e anunciada quase que exclusivamente na web 2.0. Boa parte souberam pelo próprio blogue do GR [preciso parar com a piada de ter apenas um casal de leitores : )], mas a maior fração por outros blogues. Do twitter, onde também concentrei bastante esforço de divulgação e o facebook. Além dos próprios esforços, a natureza das redes sociais certamente contribuíram - uma boa fração nas redes sociais souberam através de terceiros (bem mais do que diretamente pelos perfies do GR e meu).

Na Figura 2, estão destrinchados as referências nos blogues.

Figura 2. Blogues pelos quais os respondentes ficaram sabendo da pesquisa.

Nos blogues da Folha (no Mensageiro Sideral, do Salvador Nogueira,  e no Darwin e Deus, de Reinaldo José Lopes) e no blogue do Luís Nassif publiquei um comentário em algumas postagens. Não foram os únicos blogues em que publiquei comentários sobre a pesquisa, claro. Mas nos demais casos, não houve retorno. Nos blogues Álvaro Augusto, Carlos Orsi, Dragões de Garagem e O Telhado de Vidro (do Daniel Bezerra) foram publicadas postagens com links para a pesquisa.

Na Figura 3, está a distribuição das fontes no twitter.


Figura 3. Perfis do twitter pelos quais os participantes souberam da pesquisa.

Em um terço dos casos, nenhum perfil foi especificado. O principal perfil individual foi o do @cardoso, seguido de @ceticismo, @scienceblogsbr, @acidocetico e @ciencianamidia.

No caso do facebook (Figura 4), em mais de 3/5 dos casos, não houve menção a um perfil em específico. Minha interpretação tentativa é que no FB, a autoria das postagens e, principalmente, da fonte primária de menção tende a se diluir.

Figura 4. Perfis do facebook por intermédio dos quais os respondentes ficaram sabendo da pesquisa.

O padrão nada surpreendente, dada a natureza da pesquisa, é que os canais condutores mais eficientes são os ligados às ciências.

(O leitor ou a leitora atenta terá notado que não segui as melhoras práticas preconizadas para a produção de gráficos do tipo pizza - como a ordenação decrescente das classes.)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Pesquisa "Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia" - Segunda Parcial

Segunda parcial da Pesquisa "Visão do Brasileiro sobre Ciência, Sociedade e Tecnologia".

De 140 respostas, 29% são do sexo feminino. Um ligeiro incremento relativo desde a primeira parcial. A idade média não se alterou: 33 anos com desvio padrão de 9.
5% da região N; 6% NE; 7% CO; 54% SE; 24% S e 4% do exterior.

Queria pedir colaboração aos leitores do blogue. Se ainda não respondeu, por favor, deixe sua opinião no formulário da pesquisa. Se já respondeu, por favor, ajude a divulgar a pesquisa: peça para seu vizinho, sua colega de trabalho, seus conhecidos, parentes, amigos da pelada de fim de semana, amigas do bridge de sexta à noite, inimigos, alunos, companheiros do sindicato, irmãos de igreja, participantes da reunião do condomínio.

Claro que será impossível cobrir proporcionalmente todos os setores censitários do país dada a natureza da pesquisa - um forte viés de autosseleção estará inevitavelmente presente. Mas espero ser possível diminuir a subrepresentação de alguns grupos importantes.

Se você tem um blogue ou sítios web, de qualquer tema, também pode colaborar divulgando a pesquisa (e poderá também traçar o perfil de seu público visitante). Mesmo se não tiver, pode espalhar entre seus amigos e incentivá-los a responder.

Abaixo a lista de colaboradores na divulgação até o momento:
DAELT - Departamento Acadêmico de Eletrotécnica - UTFPR
Rabiscos Aleatórios - Álvaro Augusto
Plantando Genes - Rafael Tavares
Carlos Orsi
O Telhado de Vidro - Daniel Bezerra
Dragões na Garagem
Ciência & Sociedade - Museu da Vida
Uma Malla pelo Mundo - Lúcia Malla

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