Lives de Ciência

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domingo, 26 de abril de 2020

Manifesto em defesa da ciência, do jornalismo e da divulgação científica

Frente aos ataques sofridos por divulgadores de ciência e jornalistas que cobrem a pandemia, e à distorção promovida por certos setores motivados política e ideologicamente em relação a temas científicos, a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência, a RedeComCiência, lançou a declaração de título quase autoexplicativo: "Manifesto contra a tentativa de manipulação político-partidária de pautas científicas e apoio aos profissionais de comunicação que cobrem a pandemia de Covid-19".

Além de ser um protesto contra os atos de violência verbal e simbólica contra os comunicadores públicos de ciência e os perigos que a desinformação provoca, o texto elenca também uma série de pontos em que os divulgadores de ciência devem prestar atenção para evitar cair nas armadilhas dos que pretendem causar confusão - e, por consequência, a morte de milhares de pessoas. Até o presente momento (23h10, UTC -3, 26.abr.2020), são 148 signatários individuais (entre jornalistas, pesquisadores e comunicadores) e 17 instituições e projetos de ciência, pesquisa e divulgação.

Os interessados em subscrever o manifesto podem utilizar o formulário de adesão ao manifesto da RedeComCiência para ter seu nome acrescentado.

As próximas etapas ainda não foram definidos, neste primeiro momento, a ideia é obter o máximo de assinaturas possível.

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Há pouco mais de quatro anos, escrevi uma postagem em outro blogue sobre casos de ataques - inclusive presenciais (ainda que não físicos) - a divulgadores de ciências. Embora o manifesto seja um primeiro passo na resolução do problema, certamente está longe de bastar. É importante para a visibilização da questão e conscientização. Algumas propostas de medidas efetivas seriam: elaboração de cartilha de orientação aos divulgadores de cuidados a tomar (senhas fortes e diferentes para cada serviço, acesso em duas etapas, não publicar determinadas informações pessoais como localização...) e como proceder em caso de ataques ou tentativas de ataque (a quem denunciar, que informações coletar do ataque...); criação de um grupo de apoio (psicológico e jurídico); e criação de um fundo de proteção (para, p.e., financiar as custas judiciais de uma ação).
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Veja também:
Phillippe Watanabe. 07.abr.2020. Folha de S. Paulo "Após falarem sobre coronavírus, divulgadores científicos sofrem ataques na internet"
Mariana Hafiz et al. 15.abr.2020. Unicamp/Notícias "Divulgadores de ciência são atacados por hackers e recebem ofensas após alertas sobre coronavírus"
Caio Dallaqua. 17.abr.2020. Scientific American Brasil "Polarização faz divulgadores de ciência sofrerem ataques e ameaças no Brasil"

domingo, 13 de outubro de 2019

Barraco científico: dos recentes bate-bocas públicos entre cientistas

Estas últimas semanas foram bem movimentadas e ilustrativas das disputadas que há em várias áreas das ciências.

Houve a polêmica em torno do artigo que detectou introgressão de genes de uma linhagem modificada em laboratório em populações naturais de mosquito da dengue; e outra sobre resultados anunciados de um estudo a respeito de efeitos biológicos dos agrotóxicos; e uma discussão aberta entre físicos a respeito da teoria das cordas e seu status científico*.

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Transferência de genes de mosquitos modificados para populações naturais

Com o disclêimer de minha ligação com as partes envolvidas a respeito do estudo do mosquito transgênico - fui orientado de mestrado de um dos autores do estudo (e que defende o artigo na íntegra), pelo que pude acompanhar da polêmica (tentei entrevistar tanto a Oxitec, quanto os autores do artigo que concordam e que discordam da versão publicada do próprio estudo, mas não consegui respostas), minha conclusão é que a discussão gira a respeito de um detalhe que nem afeta tanto - salvo a amplificação criada por interpretações equivocadas em certos veículos.

Os detalhes, além do artigo original podem ser lidos em:
.Bill Hathaway/YaleNews (10.set.2019): "Transgenic mosquitoes pass on genes to native species".
.Oxitec (18.set.2019): "Oxitec responds to article entitled 'Transgenic Aedes aegypti mosquitoes transfer genes into a natural population".
.Cesar Baima/Revista Época (21.set.2019): "A 'fake news' do 'supermosquito' transgênico que está gerando pânico no Brasil".
.Natália Pasternak/Revista Questão de Ciência (24.set.2019): "Autora repudia artigo sobre mosquito transgênico".
.Bernado Esteves/Revista Piauí (02.out.2019): "O supermosquito que nunca existiu".

Todos: a Oxitec, os autores do estudo que querem alteração ou retirada da publicação e os autores que defendem como está - concordam com o principal: a metodologia e os dados do estudo. Genes pertencentes à linhagem criada em laboratório - com a introdução de genes que fazem com que os machos não deixem descendentes viáveis - foram encontrados na população selvagem depois que a linhagem modificada foi liberada em massa para reduzir a população selvagem. Não os genes modificados que causam a inviabilidade da descendência, mas os genes que constituem o genoma das populações cruzadas para produzir a linhagem modificada.

A disputa está em algumas afirmações mais pontuais feitas no artigo:

*"The three populations forming the tri-hybrid population now in Jacobina (Cuba/Mexico/Brazil) are genetically quite distinct (Extended Data Fig. E2), very likely resulting in a more robust population than the pre-release population due to hybrid vigor."
["As três populações que formam a população agora tri-híbrida de Jacobina (Cuba/México/Brasil) são geneticamente bem distintas, muito provavelmente resultará em uma população mais robusta do que a população anterior à liberação em função do vigor híbrido."]

A Oxitec rebateu dizendo: "The data published in this paper and in the entire body of peer-reviewed literature do not support this hypothesis." ["Os dados publicados no artigo e em todo o corpo de literautra revisada pelos pares não sustenta essa hipótese."]

É bem verdade que no artigo é detectada uma tendência a diminuir o número de indivíduos com os genes da população modificada e nele é dito que: "This observation also implies that introgressed individuals may be at a selective disadvantage causing their apparent decrease after release ceased, although much more data would be needed to confirm this." ["Essa observação também implica que os indíviduos introgredidos podem estar em desvantagem seletiva causando sua aparente diminuição após a cessação da liberação, embora muito mais dados sejam necessários para confirmar isso."] O que é um tanto contraditório com o "muito provável" vigor híbrido.

Mas na literatura há, sim, precedentes de vigor híbrido (híbridos com maior capacidade de sobrevivência) em mosquitos (no caso, em Anopheles coluzzii). Descendentes de cruzamentos de populações distintas (ou os heterozigotos) que apresentam características de maior robustez e/ou capacidade reprodutiva do que os indivíduos das populações originais são um fenômeno bem conhecido na literatura. Não é, nem de longe, um resultado universal, mas é bastante frequente - ainda que os mecanismos ainda não estejam consensualmente esclarecidos (e.g. Comings & MacMurray 2000; Groszmann et al. 2013) .

Chamar de "muito provável" pode ser um exagero. Mas também dizer que a "não há apoio em toda a literatura" também é. É uma possibilidade, difícil de calcular, mas bem longe de zero. É algo a se olhar com atenção.

*"Also, introgression may introduce other relevant genes such as for insecticide resistance." ["Além disso, a introgressão pode introduzir outros genes relevantes tais como os que conferem resistência a inseticida."]

A Oxitec observa: "To the contrary, Oxitec has demonstrated that OX513A is not resistant to commonly used insecticides." ["Ao contrário, a Oxitec já demonstrou que o OX513A não é resistente a inseticidas comumente utilizados"]

É uma observação relevante, mas é preciso verificar a possibilidade de recombinação genética gerando um novo alelo ou uma nova combinação de alelos que possam conferir tal resistência. Novamente, não há um cálculo fácil dessa probabilidade; mas é também coisa para se acompanhar.

*"These results demonstrate the importance of having in place a genetic monitoring program during releases of transgenic organisms to detect un-anticipated consequences." ["Estes resultados demonstram a importância de se ter um programa de monitoramento genético durante as liberações de organismos transgênicos para se detectar consequências não-antecipadas."]

Ninguém contesta a necessidade de se manter um programa de monitoramento. Alguns autores contestam de que a introgressão seja uma consequência não-antecipada - já que, em laboratório, cerca de 3 a 4% dos machos modificados eram capazes de se reproduzir. Mas Powell, um dos autores que defendem o artigo, salienta que os descendentes se mostram pouco viáveis no laboratório e, por isso, imaginava-se que, em campo, não haveria uma transferência significativa de genes.
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Uma observação feita por críticos é que pelo menos alguns autores fazem parte de uma empresa que agora é concorrente da Oxitec Brasil - a Moscamed. No entanto, não anotaram nada no campo de declaração de interesses conflitantes. Isso deveria ter sido deixado claro.

Mas uma coisa que não ficou claro é por que os autores que discordam da versão publicada do artigo não leram antes o texto final. Não consegui informações de se foi distribuído ou não para os autores - dos autores que concordam com o artigo, apenas um se manifestou, e disse haver lido. Apenas uma pessoa que não concorda com o artigo parece haver se manifestado publicamente até agora e disse não haver lido nem recebido.

Upideite(21.dez.2020): Em março deste ano, a equipe editorial da Scientific Reports publicou um adendo ao artigo relatando pontos de preocupação com a metodologia e as conclusões.
- o título, o resumo e a introdução podem dar a entender que foram amostrados espécimes da população natural com o transgene por um período longo de monitoramento, mas foram analisados somente espécimes sem o transgene e durante o período de liberação dos mosquitos transgênicos, não se mencionou também trabalho de alguns dos autores que mostravam que o transgene introgresso era perdido na população com o tempo;
- na discussão, o artigo menciona a possibilidade do vigor do híbrido, mas os dados do próprio artigo sugerem um rápido declínio do número de indivíduos híbridos após a liberação;
- a sugestão na conclusão da necessidade de monitoramento genético durante a liberação não menciona que tal programa já existe.


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As outras duas celeumas não acompanhei tão de perto e não tenho uma opinião formada - apenas em alguns pontos.

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Efeitos dos agrotóxicos
.Roberta Jansen/Estadão (04.ago.2019): "Pesquisa indica que não há dose segura do agrotóxico"
.Cristiano Zaia/Valor (06.ago.2019): "Anvisa e Agricultura contestam pesquisa do Butantã sobre agrotóxicos"
.Marina Simões/A Pública (30.set.2019): "Pesquisadora é perseguida após comprovar que não existe dose segura de agrotóxicos"
.Natalia Pasternak/Revista Questão de Ciência (04.out.2019): "Sim, existe 'concentração segura' de agrotóxicos"
.Mônica Lopes Ferreira (5.out.2019): Pronunciamento!

Punição/persecução
Minhas observações. Pelo que pude levantar a punição à pesquisadora deveu-se ao fato de ela não haver submetido o projeto ao conselho de ética do instituto - o que é necessário por se utilizar animais nos experimentos. Não falei ainda com a pesquisadora a respeito.

Dose segura.
Há uma certa briga na literatura acerca da definição de dose segura (e.g. Hrudey & Krewski 1995, Polkey et al. 1995, Fryer & McLean 2011,  Moss 2013). Existem críticas a modelos chamados de lineares sem limiar - neles, as concentrações não nulas de substâncias terão efeitos (benéficos e maléficos) em qualquer dose (de modo proporcional). Pode-se argumentar, com razão, que, em muitos casos, em concentrações suficientemente pequenas os efeitos deletérios serão também muito pequenos e poderão ser aceitáveis (em níveis determinados por agências reguladoras - direta ou indiretamente envolvendo a sociedade para dizer o que é aceitável). Em outros casos, pode haver concentração abaixo da qual não é observado nenhum efeito. De qualquer maneira, é usada na literatura - ainda que de modo minoritário - a expressão "sem dose segura" ("no safe dose") quando qualquer nível não nulo causa algum efeito ruim, por mais baixo que seja.

A minha proposta, levando em conta a análise de benefício/custo, é comparar a dose máxima de aplicação em que não ocorre nenhum efeito grave e a dose mínima de aplicação para que ocorra algum efeito benéfico significativo. Se a dose para efeito benéfico for igual ou maior do que a dose sem efeito grave, podemos considerar como "sem dose segura". Se a dose para o efeito benéfico for menor do que a dose sem efeito grave, a "dose segura" é o intervalo entre os dois.

Se é um ou outro caso, seria preciso verificar o que a pesquisadora encontrou. Que o relatório seja liberado logo para uma análise.

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As discordâncias são importantes para as ciências - elas ajudam a trazer pontos de vistas não vislumbrados anteriormente, o que pode levar a correções de falhas ou ao aperfeiçoamento de medidas e métodos -, mas essas parecem ter extrapolado um pouco no tom. No caso dos mosquitos transgênicos talvez nem todos os detalhes relevantes estejam abertos para o público para se entender por que diferenças tão pequenas de interpretação parecem tão vitais para as partes envolvidas. Ok, da Oxitec como empresa que fornece a tecnologia talvez seja mais fácil de se compreender. No caso do estudo sobre agrotóxicos também informações relevantes estão faltando do pouco que consegui apurar e acompanhar.

Não são polêmicas que a imprensa foi buscar dos recônditos das discussões acadêmicas. As próprias partes envolvidas vieram a público para externar seus pontos de vista, mas, na hora de um esclarecimento maior a respeito de detalhes importantes, parecem recuar.

Não é tanto o dissenso público que pode causar danos à ciência e eventualmente à sua reputação junto ao público, mas mais o comportamento das partes - o tom usado e a falta de transparência em muitos casos.

*Upideite(13.out.2019): Na verdade, a briga dos físicos é mais velha, de 2016. Porém, houve uma retomada recentemente.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ciência: a longa (longa) marcha 4

De início mesmo com a pressão do orçamento reduzido, que já se anunciava como insuficiente para cobrir, por exemplo, as bolsas durante todo o ano, o pessoal da academia parecia, sim, triste, mas também bastante desmotivado e um tanto resignado. Era o ruim, mas seria inevitável, o lance seria tentar se ajeitar com o que se desenhava - iniciativas como ciência com orçamento baixo ou zero vão um tanto nesse sentido (oquei, é algo pragmático e até prudente, porém pode soar um tanto quanto conformista). Em suma, apesar de reclamações em conversas e postagens de redes sociais a temperatura parecia baixa para protestos.

De um lado, o astronauta Marcos Pontes, titular do MCTIC, apesar de aparentemente sem poder para efetivamente reverter os cortes e contingenciamentos do orçamento na pasta, ao menos se mostrava solícito e solidário. Pelo menos tomava para si a tarefa de dialogar com os demais departamentos do governo e com o legislativo, além de representantes da comunidade científica, para minorar os efeitos. Boa vontade era demonstrada.

Do lado do MEC... o então ministro Ricardo Vélez Rodrigues se mostrava de uma inoperância que paralisava as ações do ministério da educação. Praticamente um cone fora colocado na cadeira frente à pasta. Depois de ser severamente admoestado pelos deputados em sabatina na Câmara, acabou caindo em pouco mais de três meses de governo. Já depois de criar entreveros como a desastrosa sugestão de fazer com que os alunos das escolas pronunciassem o lema de campanha do atual presidente em cerimônias de hasteamento da bandeira, num ato patentemente ilegal por personalismo vetado à administração pública; e que elas fossem filmadas cantando o hino, outra ilegalidade, já que, sem anuência dos pais, imagens de menores de idade não podem ser veiculadas.

Mal o novo ministro da educação, Abraham Weintraub, assumiu, em 8 de abril, o cargo e os atritos com a comunidade educacional e acadêmica escalaram. Inicialmente anunciou o corte (ou contingenciamento - trato como corte no restante do texto) de verbas discricionárias de três universidades federais: a de Brasília, a Fluminense e a da Bahia, supostamente por mau desempenho e por promoverem "balbúrdia", isto é, atos contrários ao governo federal. Como mau desempenho era uma mentira crassa, as federais de modo geral (inclusive as três) estão entre as melhores universidades brasileiras e estão entre as melhores do mundo e, além disso, as avaliações delas vêm melhorando; e o corte por "balbúrdia" é ilegal, seria uma represália do governo federal; anunciou-se que os cortes seriam em todas as IFES e também em institutos e colégios técnicos federais. E pouco depois o ministro falou em cortar as verbas de cursos como Sociologia e Filosofia por não serem úteis. O presidente só piorava a situação ao mentir em entrevista dizendo que pouco se faz pesquisa em universidades públicas (que estariam concentradas em instituições privadas e, depois, também em institutos militares).

A coleção de atos contra a educação e a ciência foi acumulando mal estar entre os pesquisadores e alunos.

Para o dia 8 de maio, um grupo de estudantes da USP organizou um protesto em São Paulo, - que contou com apoio da SBPC, dos Cientista Engajados e da Marcha pela Ciência em São Paulo - com concentração em frente ao Masp a partir das 14h. Entre 600 (minha contagem) e 3.000 (estimativa da organização) pessoas compareceram.

Para o dia 15 de maio, havia um protesto de Greve Geral da Educação convocada pelos sindicatos de profissionais da educação. A pauta inicialmente se referia à reforma da previdência, cujo projeto apresentado pelo atual governo é considerado deletério para a categoria. Mas, com os ataques do governo federal, a pauta se ampliou e o movimento estudantil e dos acadêmicos afluiu para o ato. Era uma defesa geral da educação contra as ações do Palácio do Planalto. Em cerca de 170 cidades houve atos que, segundo algumas estimativas, totalizaram mais de 1,5 milhão de participantes - inclusive secundaristas e estudantes de universidades particulares. O tom belicoso do governo federal se manteve, com o presidente classificando os participantes de "idiotas úteis e imbecis". À véspera chegou a circular o anúncio de que o presidente havia cancelado os cortes, desmentido logo depois por setores do governo. Deputados da base, que testemunharam o presidente anunciar o cancelamento, criticaram o desmentido do recuo e a desinformação gerada. Desinformação também foi a tática do ministro Weintraub, ao comparar o corte de cerca de 30% no orçamento discricionário - o que efetivamente entra no caixa das universidades para o custeio e outras despesas - com o orçamento total (incluindo a parte que não pode ser mexida: salários e aposentadorias) para dizer que seria um corte de apenas 3,5%, ilustrando com chocolates.

A dose se repetiu em 30 de março, com protesto convocado pela UNE e o movimento estudantil. Mais de 130 cidades registraram atos. A tática desinformacional do MEC também se repetiu, com vídeo performático de Weintraub com um guarda-chuva negando os cortes no orçamento do Museu Nacional, prontamente rebatido pela UFRJ. O ataque aos educadores também se repetiu, com o ministro enviando nota às escolas para denunciar professores e pais que divulgassem em horário de aula os protestos, atitude ilegal que fez o MPF solicitar o cancelamento da nota.

O conjunto da obra dos ataques verbais e verborrágicos do novo ministro da educação lhe rendeu um processo pelo MPF, que pede indenização de 5 milhões de reais por danos morais aos estudantes.

Enquanto isso, uma greve geral para o dia 14 de junho está convocada pelas centrais sindicais e provavelmente contará com adesão do setor da educação.

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Enfim o setor acadêmico parece haver aderido às mobilizações de rua e parece contar com apoio da população em geral. Foi necessário um conjunto de ações deliberada e abertamente hostis e persecutórias contra os educadores e os cientistas para se romper a passividade - no limite de total inviabilização das atividades das universidades. Mas, é isso, agora é questão de sobrevivência. Venceremos?*

*Havemos de vencer. Como sociedade.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Especulando: Crise das ciências, DC e ação política

Neste momento particularmente terrível para a ciência brasileira com o contingenciamento de 42% do orçamento da pasta do MCTIC - e com um orçamento que já era reduzido em relação aos anos anteriores - e várias ações do anti-intelectualismo que grassam no governo em várias esferas (de CPI das Universidades em São Paulo, campanhas para filmar e denunciar professores, mentiras ditas sem contestação a respeito da pesquisa em universidades públicas, etc.), a comunidade acadêmico-científica parece apostar em duas fichas: a divulgação científica e o ativismo político.

De um lado, acho mais do que válida e bem vinda a valorização por parte dos cientistas em geral do que muitas vezes era vista como patinho feio do trinômio universitário: a extensão. E dentro da extensão, a DC também muitas vezes gerava mal entendidos - como o famigerado (e certamente falso) "efeito Carl Sagan" - de que acadêmicos que se dedicam à divulgação tendem a ser pouco produtivos em publicações científicas.

Entre outros efeitos, isso deve (acho) redundar em: 1) mais cientistas se dedicando à atividades de DC; 2) mais oportunidades de trabalho para grupos já relativamente organizados de DC; 3) maior preocupação com capacitação e formação dos divulgadores.

Mas me preocupo um tanto com um aparente excesso de esperanças que parte da comunidade científica parece depositar na DC para angariar apoio popular - e, daí, político; e, daí, reverter cortes nos financiamentos e ações anticiência. A DC tem um papel importante a desempenhar, mas a expectativa me parece irreal. Ela não faz mágica.

A DC não é meramente um departamento de relações públicas e assessoria de imprensa e de imagem das ciências. Parte dela pode cumprir tal papel. Mas é também parte da DC desempenhar um papel de observação crítica da prática científica. Denunciar más práticas, relativizar hypes de descobertas - colocando em contexto ou até mesmo apontando possíveis consequências danosas da aplicação de um achado científico, é algo que cabe à DC (seja ou não na vertente do jornalismo científico) - ainda que não exclusivamente à DC, a própria ciência em si tem seus fóruns internos para tal discussão (p.e. a questão sobre o uso ou não de significância estatística como critério dicotômico de aceitação ou não de hipóteses tem sido feita através de artigos científicos e de opinião em publicações científicas e acadêmicas).

Mas mesmo a DC em seu papel de reforçar a confiança nas ciências é limitada. Estudos de persuasão indicam que os variados métodos como uso de humor, metáforas, elementos emotivos, admoestações peremptórias, inoculação preventiva, etc. têm resultados modestos (ainda que positivos) nas atitudes do público em relação às ciências. As pesquisas têm ajudado a conhecer as melhores práticas da DC no quesito convencimento, mas ainda estão engatinhando como uma área de ciência da divulgação de ciências.

A DC precisa vir acompanhada de muitos outros fatores a mudar a relação entre a comunidade científica e a sociedade em que ela se insere. Transparência/accountability e participação democrática são dois termos chave que vêm sendo brandidos e estudados nesse quesito. A comunidade científica se abrir mais para a participação popular na definição de prioridades das pesquisas e discussão das preocupações com as tecnologias em uso e por se introduzir - até mesmo com os não especialistas botando a mão na massa na prática da ciência cidadã. É um processo que exige humildade nem sempre fácil de se aceitar e confiança mútua nem sempre prontamente estabelecida. Porém, o contrário, a desconfiança mútua e a arrogância, trazem o afastamento e estranhamento que só prejudicam a ambos os setores como o cerco à liberdade acadêmica, de um lado, e o ressurgimento de doenças preveníveis por vacinação por conta da baixa adesão, de outro, demonstram bem.

Um outro movimento que a academia tem (re)tomado e que também em histórico recente é alvo de polêmicas internas é o do ativismo político. Marchas e protestos (ainda que de alcance limitado - em parte, justamente por essa resistência da academia a se ver em meio a algo que não é meramente a discussão racional do fazer científico), lobbies (ou, em termo socialmente mais aceitável, grupos de advocacy ou de pressão) (recentemente pelo menos três iniciativas foram organizadas - o Instituto Questão de Ciência, como associação independente de indivíduos; o Observatório do Conhecimento, uma rede de associações discentes do ensino superior; e a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento, a ICTP.br, um movimento conjunto da SBPC com outras sociedades científicas - todas com o objetivo de interlocução com parlamentares para a elaboração de políticas públicas baseadas no conhecimento científico e em defesa da ciência), e talvez num movimento mais ousado: lançando candidatos cientistas a cargos públicos representativos (embora nenhuma entidade científica - até por questões estatutárias e legais - tenha apoiado abertamente algum) cientistas.

Foram durante os anos de chumbo que a SBPC teve alguns de seus momentos de maior relevância, colocando-se como elemento de resistência à perseguição político-ideológica do regime contra acadêmicos, cientistas e intelectuais.

Um terceiro movimento, não organizado (ao menos por enquanto), é o de simplesmente (quase nunca é simples, na verdade) tentar ir buscar oportunidades (e fugir de perseguições) no exterior. Desconheço uma medida do tamanho do brain drain atual (se souberem de estudos estimando o total de cientistas brasileiros que tenham se mudado para o estrangeiro em tempos recentes, por favor, indiquem nos comentários*). É um movimento compreensível, mas, claro, que não tende a ser ativamente incentivado pela academia.

Um quarto busca articular os dois primeiros: DC e ação política. Mas é ainda mais incipiente. E igualmente (ou até mais, talvez) polêmico. É compreensível a resistência uma vez que, sim, é preciso resguardar tanto a prática científica quanto a comunicação pública a respeito dela de vieses que as distorçam. Mas, sem equacionar a questão, a máquina anti-intelectual vem fechando o cerco. Pode ser questão de sobrevivência (até literal).

*Upideite(19.mai.2019): Um grupo da Unicamp está mapeando a diáspora de cientistas brasileiros nos Estados Unidos.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Ciência: a longa (longa) marcha 3

Ao contrário da segunda edição, desta vez houve um pouco mais de tempo para uma organização mais digna desse nome para a marcha, um pouco mais de um mês (contra os quatro dias daquela).

Devido ao meu grau de envolvimento pessoal nesta edição (na primeira não participei em nada da organização - fui inicialmente como participante e literalmente no meio do caminho me converti a repórter; na segunda, apenas tentei iniciar os preparativos e depois saí em desesperada tentativa de divulgação), não pretendo fazer um relato pormenorizado - seria mais um ato de propaganda do que de descrição mais fiel dos fatos.

Deixo aqui apenas alguns registros da manifestação e uma ou outra observação.

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3a Marcha pela Ciência.
08 de outubro de 2017. Avenida Paulista. São Paulo/SP.

(Crédito: autoria própria.)

*Pelo vídeo dá pra ver que o tamanho do público é maior, e bem, do que o reportado em alguns sites noticiosos, né, O Globo?* No vídeo, o cone de sinalização fornece uma boa referência dimensional - sua altura é de 75cm. Conta de engenheiro. Levaram cerca de 7 segundos pra atravessar a faixa. A faixa tem cerca de 4 metros, então dá uma velocidade média de cerca de 2km/h da caminhada. São cerca de 3 minutos pro cortejo passar, que dá cerca de 103 m de comprimento da passeata. Com uma distância média 80 cm entre as fileiras, são umas 129 fileiras de pessoas. Sendo cerca de 10 pessoas por fileira, teremos cerca de 1.290 manifestantes. Com uma propagação de erros nas coxas diria que: 1.290,0±193.5 presentes seria uma estimativa razoável. Ou, mais condizente com a precisão possível: M = 1.300±200 [IC95%: 900-1.700]. Não fosse a forte chuva pela manhã, talvez tivéssemos um número até maior. Mas, felizmente, não choveu durante o evento como era a previsão (um participante da Marcha pela Ciência torcendo contra uma previsão científica, sim).

*No meio do deslocamento, cruzamos com duas outras manifestações de outra natureza - e bem menores numericamente (felizmente, dada a natureza de pelo menos uma delas). Segundo relatos - que reputo confiáveis - houve provocações por parte dos integrantes dessas outras manifestações (uma delas eu vi, na verdade; mas eram provocações sem sentido, já que não éramos contrários à religião deles; já da religião de outra, que pedia golpe militar, queríamos distância) em direção à marcha pela ciência, mas não houve incidentes de qualquer um querer comprar briga (no máximo, alguma devolução verbal de provocação). A polícia, na primeira passagem por uma das manifestações que vinha pela outra pista da Paulista, chegou a formar um cordão ao longo do canteiro central da avenida. A presença dessas outras manifestações não chegou a frustrar a realização da Marcha pela Ciência, mas obrigou a um desvio do percurso na volta.

*Houve um certo número de pessoas que acabaram chegando já depois que o pessoal havia se dispersado - pouco depois das 16h30.

*A Banca da Ciência fez sucesso e acabou ficando até mais tarde - umas 18h - pra atender o público.
Crédito: Paulo Borges/Banca da Ciência.
*As palavras de ordem que achei as melhores: "Sem ciência é zika", "Sem ciência a terra é chata". Tem um duplo sentido que é verdadeiro (ou quase) nos dois casos, é curto e fácil de entender.

*Mesmo que possamos considerar esta marcha bem sucedida (há gente ainda reclamando do tamanho de participação alcançada), ela com certeza não é o fim. A marcha ainda é longa, muito longa, o primeiro alvo é tentar evitar mais cortes ainda no orçamento da ciência e educação. Hoje, a SBPC e associadas participaram de uma audiência pública no Congresso para mais recursos para a área. A marcha, especialmente em São Paulo, não é uma reivindicação salarial - a maioria dos professores continuam a receber seus salários - o risco é de não haver mais verba pra pesquisa: para bolsas dos alunos e dinheiro para equipamentos e suprimentos. Em São Paulo, os institutos de pesquisa estão com um quadro que não é renovado há um bom tempo e que vem sendo reduzido mais e mais com a ausência de novos concursos e aposentadoria dos antigos pesquisadores.

*A marcha precisa do apoio de um amplo setor - dentro e fora da academia. Nesta edição esteve presente, por exemplo, a SOS Mata Atlântica.
*A necessidade de integrar uma diversidade de atores implica também em aceitar e conviver com uma diversidade de visões. O que cria também algumas tensões. Num cenário de polarização, temos que reaprender a conviver com as diferenças de opinião (sim, excetuando-se as bizarrices criminosas dos fascistas). Esse enfrentamento, se mantido em um nível respeitoso, é até saudável. Havia divergência desde quanto a cor da camisa (a organização sugeriu - sugeriu, não impôs como condição para participação na marcha - uma cor escura, mas havia quem quisesse cor clara e manifestando contrariedade nos comentários dos canais de comunicação da organização do evento) até detalhes de pauta (a pauta geral do evento foi necessariamente limitada e sem grandes detalhamentos pela necessidade de poder congregar o maior número possível de frentes).

*Se há necessidade de se tirar lições disso, é exatamente das discordâncias em vários aspectos entre os participantes e o fato de a Marcha ter ocorrido sem incidentes maiores. É uma demonstração de que essa divergência respeitosa é possível, especialmente em nome de um objetivo em comum. Não precisamos concordar em tudo, não precisamos abafar essa divergência; basta apenas cultivar o respeito mútuo e estar disposto a dialogar civilizadamente. Ao diálogo, então. E mais protestos.

*Claro que terá ainda havido falhas na organização. Estamos melhorando. Ainda que faltem recursos, tudo é um processo de aprendizagem. Ouvir as críticas, aprender com elas também é parte dessa aprendizagem. (Bem como descartar as críticas desinformadas. Se acha 1.200 pessoas ainda muito baixo, ok, podemos discutir isso; mas reclamar que apenas 200 apareceram, não.)

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Veja a cobertura da imprensa:
Estadão (08/out/2017): Marcha pela Ciência reúne cerca de mil pessoas na Avenida Paulista (Cuidado! contém paywall poroso!)*
Folha (08/out/2017): Pesquisadores e estudantes marcham na Paulisa contra cortes na ciência (Cuidado! contém paywall poroso!)

À medida que saírem relatos dos participantes em seus canais de divulgação científica, acrescento a esta postagem.

Alô, Ciência? (10/out/2017): Por que marcham os cientistas?
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Obs: Com muito afinco - envolvendo troca de mensagens até de madrugada em várias ocasiões -, grande parte do sucesso desta terceira edição é para ser creditada ao trio que comandou também os preparativos da primeira: Dayane Machado, Flávia Virginio e Natalia Pasternak Taschner.
The Powerpuff Girls: created by Craig McCracken/©1998- Cartoon Network.
Figura 1. Núcleo central da organização da 3a. Marcha pela Ciência. Da esquerda para a direita: Flávia Virginio, Natalia Pasternak Taschner, Dayane Machado.

Só um exemplo do que elas fizeram. Um pouco antes do dia do evento, lanço verde para elas a ideia de convidarmos os nobelistas que assinaram a carta para o presidente sobre a crise na ciência brasileira para fazerem um vídeo para a Marcha. Em vez de inventarem uma desculpa de que seria complicado, de que eles diriam não (o que era bem provável - afinal, quem éramos nós?), que havia pouco tempo (todas desculpas razoáveis, ainda mais que estão muito ocupadas com outras tarefas acadêmicas)... elas compraram isso de modo entusiástico. Em poucos minutos - no meio da noite já! - prepararam um texto em inglês e enviaram para 22 dos signatários (de um deles - um nonagenário - não conseguimos obter o endereço eletrônico) um email com o pedido. Sim, esse foi o tamanho da nossa cara de pau. Alguns responderam e, como previsto, declinaram (o que é mais do que compreensível, e somente a delicadeza de responder já mostra que se trata de outro nível). Mas eis que ninguém menos do que Claude Cohen-Tannoudji, um dos vencedores do Nobel de Física em 1997, e o principal abaixo-assinado da carta aberta, faz um vídeo falando sobre a preocupação deles com a ciência do Brasil. Aí corre fazer a tradução pra publicar. O vídeo era pesadinho, ainda que curto (dá pra notar pela qualidade da imagem, embora o áudio sofra um pouco). Tentei subir a legenda, mas falhei miseravelmente (o facebook não me deixou subir o arquivo srt). O Luciano Queiroz, do Dragões de Garagem, renderizou outro vídeo com legendas incluídas, e subimos para a página da Marcha pela Ciência - São Paulo.

Claro que um evento deste tamanho envolveu o trabalho de muita gente, mas seria complicado listar aqui toda e cada contribuição. A começar pelos que contribuíram ao Catarse (um sucesso que superou a meta - a propósito, de todo modo ainda é possível contribuir: os valores que sobrarem depois da fatura das despesas serão transferidos para um fundo gerido pela Aciesp para utilização em outros eventos pró-ciência), aos que assinaram o Manifesto pela Ciência, aos que ajudaram na divulgação, aos que fizeram a distribuição do material de divulgação, etc, etc. Além claro de todo o restante do pessoal da organização e coordenação.
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*Upideite(10/out/2017): Há erro também na matéria de O Globo quando informa que a SBPC organizou. A SBPC apoia a marcha, mas não organiza. As instituições realizadoras foram a Aciesp e a APqC. O Estadão cometeu erro complementar, atribuiu a organização à SBPC e à APqC - incluiu a SBPC incorretamente e omitiu a Aciesp.

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