Lives de Ciência

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domingo, 19 de setembro de 2021

Como é que é? - Houve um aumento da Divulgação Científica com a pandemia? R: Parece que sim, a se ver.

É quase um lugar comum nas discussões a respeito da Divulgação Científica (p.e. aqui) que, durante a pandemia de covid-19, houve um aumento nos projetos de DC, em particular de perfis nas mídias sociais - em boa medida, seria para saciar a necessidade da população por informações confiáveis sobre a doença.

Fiz um levantamento incompleto que pode ajudar a responder se tal percepção de aumento da intensidade das atividades de DC e do número de divulgadores corresponde à realidade ou se é apenas uma impressão.

Busquei por perfis brasileiros no twitter relacionados à divulgação das ciências por meio de palavras chave como "divulgação científica", "divulgador científico", "divulgadora científica", "divulgação de ciências", "jornalista científico" e outros correlacionados - além de acrescentar ao resultado alguns que não usam nenhum termo específico que se possa relacionada à DC, mas que sei que tuitam sobre ciências para o público não-especialista, e também alguns perfis que constam em outras bases de mídias sociais de atores de DC (em particular o Diretório de Divulgadores Científicos).

 

Figura 1. Ano de ingresso no twitter de perfis relacionados à Divulgação Científica.

Nota-se, de fato, um grande pico correspondente ao ano 2020 (Fig. 1). Se destrincharmos a entrada em meses para os anos de 2019 a 2021, temos um pico no mês de abril de 2020 - pouco depois da declaração pela OMS de pandemia de covid-19 (Fig. 2).

 

Figura 2. Mês de ingresso de perfis relacionados à Divulgação Científica no twitter entre 2019 e 2021 (até meados de setembro).

Não dá para cravar, mas é um bom indício de que houve, sim, uma entrada de novos atores em decorrência da pandemia. Para saber se para preencher o espaço informativo a respeito da doença seria preciso uma análise mais detalhada do conteúdo divulgado por esses perfis (alternativamente, ainda que não de modo mutuamente excludente, poderia ser p.e. em decorrência da suspensão das atividades presenciais - o uso de mídias sociais poderia ser um meio de manter contatos durante a suspensão inicial das aulas e atividades de pesquisa)*.

Bom ter em mente que a época de ingresso não corresponde necessariamente ao início das atividades de comunicação pública da ciência pelos perfis, mas pode ser um proxy no conjunto. A suposição também é de que a busca, embora certamente não captando todos os perfis e talvez nem mesmo a maioria deles, gere uma amostra representativa do universo de divulgadores no twitter. E, por fim, há a suposição de que o padrão encontrado no twitter valha para outras mídias também: blogs, facebook, youtube, whatsapp, tiktok, etc. Seria preciso um levantamento sistemático também nas demais redes sociais, portanto, para se ter uma ideia mais completa. (O mais correto seria aplicar um tratamento estatístico adequado, mas considero que a análise meramente visual aqui seja suficiente para os propósitos.)

O tamanho amostral obtido até o momento é de 404 perfis que se dividem entre perfis pessoais (236 no total), projetos de grupo (perfis de iniciativas conduzidas por duas ou mais pessoas; 48), projetos institucionais (perfis de iniciativas relacionadas a instituições de pesquisa e ensino, incluindo grupos de pesquisa, centros, projetos acadêmicos, etc.; 47), projeto individual (perfis de iniciativas conduzidas por apenas uma pessoa), perfis comerciais (de lojas e outros empreendimentos que comercializem produtos e serviços como camisetas personalizadas de temática científica; 6) e um certo número de perfis sem informações suficientes para se incluir nas categorias anteriores (26).

O interessante é que parece haver um declínio da entrada de novos perfis após o pico de 2009 - em uma certa emulação da possível crise de blogs de ciência após um pico entre os anos de 2009 e 2010. Uma das hipóteses da queda de atividade dos blogs de ciência era de que haveria uma migração para outras mídias, mas, ao menos neste caso do twitter, parece que o ritmo também diminuiu nas demais formas de comunicação na internet. A crise pode ter sido mais geral e não meramente concentrada nos blogs. Há uma aparente retomada de ingresso de novos perfis de DC no twitter a partir de 2013 a 2014, o que coincidiria com o início da crise política no país e, sobretudo, nos cortes sucessivos nos investimentos em C&T no país. Poderia ter havido um incentivo para os cientistas buscarem as redes para defender a ciência. Um aumento em 2019 poderia estar ligado a razão similar, somado a uma intensificação do ataque à academia desde as eleições presidenciais no ano anterior por parte de integrantes do governo eleito.

Pode valer um levantamento mais abrangente - incluindo também perfis de outros temas não ligados às ciências - para se testar essas possibilidades.

Upideite(20.set.2021): Um padrão de pico e declínio não é observado, p.e., nos podcasts brasileiros de ciência - mas se deve levar em conta que, entre o período de 2009 e 2010, ainda eram poucos. Nota-se uma grande aceleração entre 2018 e 2020. Mas pode-se dizer que, desde os primeiros podcasts de ciência brasileiros por volta de 2008, a mídia vem experimentando um crescimento exponencial (equação não mostrada aqui). A figura abaixo representa o padrão obtido a partir de uma base de 131 podcasts (os números exatos dos segmentos ativos, inativos/extintos precisam de atualização).

 

*Upideite(23.set.2021): A equipe do Science Pulse fez uma análise dos tweets compartilhados por cientistas em sua base e identificou que picos correspondiam a eventos importantes durante a pandemia - como o início da vacinação contra a covid-19. É um reforço à hipótese de aumento da DC durante a pandemia para preencher uma necessidade de comunicação sobre a doença. Embora, claro, também com suas limitações - quem os cientistas estão alcançando? que linguagem estão usando? Poderia ser uma comunicação com outros técnicos, por exemplo.

sábado, 9 de janeiro de 2021

Como se saiu o modelo do Imperial College nas previsões sobre a covid-19?

Em 26 de março, o Imperial College publicou o relatório 12 prevendo os impactos da covid-19 no mundo todo ao longo do ano de 2020.

O modelo levava em conta alguns cenários de acordo com o que fosse feito ou não para conter a doença. Um em que nada era feito, um em que haveria um esforço pra supressão da doença com isolamento total das pessoas (com a quarentena iniciada a cada vez que um certo nível de taxa de mortalidade era atingida) e um intermediário com mitigação realizada por diminuição do contato entre as pessoas.

No pior cenário, basicamente todas as pessoas seriam contaminadas (7 bilhões de habitantes) com 40 milhões de mortos ao redor do mundo. No cenário com medidas mais severas de restrição, haveria 1,3 milhão de mortes ao redor do globo (com restrições impostas a partir de 0,2 mortes a cada 100.000 habitantes). No cenário intermediário, 20 milhões de pessoas seriam mortas pela covid-19 em todo o planeta até o fim de 2020.

Em 27 de dezembro, oficialmente, eram contados mais de 1,7 milhão de mortos, segundo relatório semanal de atualização do estado epidemiológico compilado pela OMS. Analisei o desempenho do modelo da Imperial College considerando 27 países para os quais o jornal Financial Times levantou estimativas de mortalidade em excesso (isto é, quantas mortes a mais - ou a menos - ocorreram num período em relação à média esperada para a época), além da Índia (Tabela 1).

Tabela 1. Estimativas de mortalidade por covid-19 em alguns países ao longo de 2020 e mortos contabilizados pela OMS e estimativas de mortes em excesso.

Em rosa as mortes registradas pelo relatório da OMS ou a estimada por mortalidade em excesso causadas pela covid-19 que ficaram abaixo do cenário mais restritivo do modelo da Imperial College. Essas exceções são: Dinamarca, Noruega, Islândia, Índia e Coreia do Sul. Os países nórdicos, com exceção da Suécia, implementaram medidas bastante restritivas e tiveram um excesso de mortalidade ou nula ou até negativa (menos gente morreu no período do que a média esperada); a Coreia do Sul também teve um excesso de mortalidade negativa, embora o país não tenha implementado quarentenas, adotou uma política de fazer muitos testes e rastrear os contatos dos casos positivos, isolando rapidamente as pessoas doentes e as com quem ela teve contato. A Índia chegou a adotar por um tempo um lockdown muito severo, mas relaxou depois, como não há uma estimativa do excesso de mortalidade, não temos uma medida independente para avaliar os números oficiais de mortos pela covid-19 (pode haver subestimativa).

Para os demais países, os números de mortos ficaram dentro dos projetados pelo modelo no cenário de imposição de restrição de movimentação da população - com gatilhos para a quarentena a partir de um nível baixo (0,2 morto por 100.000 hab.) ou mais alto (1,6 morto por 100.000 hab.) de taxa de mortalidade: os valores se aproximaram mais do gatilho mais alto. (Assumindo um número reprodutivo básico, isto é, quantas pessoas são infectadas por uma única pessoa infectada, de R0=3.) Alguns países como Rússia, Peru, Espanha, África do Sul e México há forte discrepância entre o número oficial de mortos e o de mortos em excesso, indicando uma subnotificação. Em alguns, a mortalidade em excesso é sensivelmente menor do que a contagem oficial como na França, Itália e República Tcheca (Chéquia). Claro, é esperado que em alguns países a mortalidade fique mais alta e em outros mais baixa do que o esperado, esse efeito precisa ser mais bem isolado antes de concluir que há realmente uma subnotificação ou as mortes tenham se reduzido de modo generalizado (p.e., com lockdowns, o número de atropelamentos caem; o uso de máscaras protege também contra outras doenças que se espalham pelo ar como a gripe).

Levando em conta que à época da previsão ainda não se conheciam bem parâmetros importantes da doença, como o próprio R0, e a letalidade, além dos avanços no tratamento e prevenção à doença desde então, parece um grau de acerto muito relevante: 23 em 28 aqui.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Os efeitos das quarentenas na pademia de covid-19

Embora experimentos que coloquem em risco vidas humanas normalmente sejam barrados (com toda razão) em um comitê de ética, experimentos naturais ou quase naturais ocorrem em por diversos motivos, entre os quais a visão ideológica de governantes.

Governadores de sete estados americanos decidiram não emitir ordem de ficar em casa aos seus cidadãos (não por coincidência, todos republicanos). Isso permite a comparação do efeito de medidas restritivas a aglomerações e deslocamentos na evolução epidemiológica da covid-19. Mesmo nos estados em que a ordem de ficar em casa não foi dada, outras medidas foram tomadas como fechamento temporário de escolas e de comércio não essencial. A Fig. 1 inclui dois estados sem a ordem de ficar em casa (Arkansas e Oklahoma) e dois estados (Louisiana e Texas) com a ordem emitida em algum momento da região sudoeste central dos EUA; a Fig. 2 inclui quatro estados sem a ordem de ficar em casa (Iowa, Nebraska, Dakota do Norte e Dakota do Sul) e três em que a ordem foi emitida em algum momento (Kansas, Minnesota e Missouri).

Figura 1. Evolução epidemiológica de covid-19 - log do total cumulativos de casos e de mortes ao longo do tempo nos estados americanos da região sudoeste central dos EUA. Barras verticais indicam o tempo de tomadas de medidas restritivas (triângulos amarelos) e de abertura (triângulos verdes); o início (triângulo vermelho para baixo) e o fim (triângulo vermelho para cima) de ordem de ficar em casa.

Figura 2. Evolução epidemiológica de covid-19 - log do total cumulativos de casos e de mortes ao longo do tempo nos estados americanos da região noroeste central dos EUA. Barras verticais indicam o tempo de tomadas de medidas restritivas (triângulos amarelos) e de abertura (triângulos verdes); o início (triângulo vermelho para baixo) e o fim (triângulo vermelho para cima) de ordem de ficar em casa.

Nos sete estados sem a emissão de ordem de ficar em casa há algum achatamento da curva com a diminuição do ritmo de crescimento do número de casos e de mortos. Há efetividade das medidas restritivas adotadas. Mas, nos estados das mesmas regiões em que a ordem de ficar em casa foi emitida em algum momento, há uma tendência de haver um maior achatamento da curva.

Isso está de acordo com achados relatados em artigos científicos publicados mostrando o efeito do lockdown (confinamento) na região chinesa de Wuhan e também na Itália e na Espanha. Uma revisão de estudos de modelagem e de análise de dados observacionais feita pela Colaboração Cochrane por Nussbaumer-Streit e colaboradores (2020) concluiu que, embora com nível de certeza baixo, sim, medidas quarentenárias de restrição de movimentação e aglomeração (especialmente em combinação com outras medidas - como fechamento de escolas e de comércio) são efetivos na redução das taxas de transmissão.

Os efeitos econômicos são mais incertos, mas um estudo ainda não formalmente publicado de um grupo do MIT analisando os efeitos das medidas de combate à pandemia por restrição de movimentação e ajuntamento concluiu que as cidades americanas que adotaram as medidas com mais severidade tiveram menos pessoas afetadas pela pandemia da gripe espanhola de 1918 e se recuperaram economicamente mais cedo.

Upideite(29.mai.2020): Dados de casos e mortos nos EUA, daqui. Datas de início de medidas de restrição daqui. Data de reabertura daqui.

domingo, 26 de abril de 2020

Manifesto em defesa da ciência, do jornalismo e da divulgação científica

Frente aos ataques sofridos por divulgadores de ciência e jornalistas que cobrem a pandemia, e à distorção promovida por certos setores motivados política e ideologicamente em relação a temas científicos, a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência, a RedeComCiência, lançou a declaração de título quase autoexplicativo: "Manifesto contra a tentativa de manipulação político-partidária de pautas científicas e apoio aos profissionais de comunicação que cobrem a pandemia de Covid-19".

Além de ser um protesto contra os atos de violência verbal e simbólica contra os comunicadores públicos de ciência e os perigos que a desinformação provoca, o texto elenca também uma série de pontos em que os divulgadores de ciência devem prestar atenção para evitar cair nas armadilhas dos que pretendem causar confusão - e, por consequência, a morte de milhares de pessoas. Até o presente momento (23h10, UTC -3, 26.abr.2020), são 148 signatários individuais (entre jornalistas, pesquisadores e comunicadores) e 17 instituições e projetos de ciência, pesquisa e divulgação.

Os interessados em subscrever o manifesto podem utilizar o formulário de adesão ao manifesto da RedeComCiência para ter seu nome acrescentado.

As próximas etapas ainda não foram definidos, neste primeiro momento, a ideia é obter o máximo de assinaturas possível.

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Há pouco mais de quatro anos, escrevi uma postagem em outro blogue sobre casos de ataques - inclusive presenciais (ainda que não físicos) - a divulgadores de ciências. Embora o manifesto seja um primeiro passo na resolução do problema, certamente está longe de bastar. É importante para a visibilização da questão e conscientização. Algumas propostas de medidas efetivas seriam: elaboração de cartilha de orientação aos divulgadores de cuidados a tomar (senhas fortes e diferentes para cada serviço, acesso em duas etapas, não publicar determinadas informações pessoais como localização...) e como proceder em caso de ataques ou tentativas de ataque (a quem denunciar, que informações coletar do ataque...); criação de um grupo de apoio (psicológico e jurídico); e criação de um fundo de proteção (para, p.e., financiar as custas judiciais de uma ação).
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Veja também:
Phillippe Watanabe. 07.abr.2020. Folha de S. Paulo "Após falarem sobre coronavírus, divulgadores científicos sofrem ataques na internet"
Mariana Hafiz et al. 15.abr.2020. Unicamp/Notícias "Divulgadores de ciência são atacados por hackers e recebem ofensas após alertas sobre coronavírus"
Caio Dallaqua. 17.abr.2020. Scientific American Brasil "Polarização faz divulgadores de ciência sofrerem ataques e ameaças no Brasil"

sexta-feira, 27 de março de 2020

A pandemia de COVID-19 *NÃO* é uma gripezinha

Embora alguns insistam no erro de chamar a doença provocada pelo novo coronavírus (com o complicado nome de SARS-CoV-2 - 'Severe Acute Respiratory Syndrome Coronavirus 2', isto é, uma segunda linhagem de coronavírus que causa uma doença parecida com a SARS) de "gripezinha", outros, como o caso da neurocientista e divulgadora científica Suzana Herculano-Houzel revêem a posição.

Por que o mais provável é que a COVID-19 ('Coronavirus Disease 2019' - doença do coronavírus de 2019) seja mais letal e se espalhe mais do que, por exemplo, a famigerada gripe espanhola - uma das pandemias mais graves enfrentadas recentemente pela humanidade com uma linhagem especialmente letal de vírus da gripe.

Uma pessoa infectada com a cepa do vírus da gripe espanhola, em média, acabava infectando outras 1,7-2,0 pessoas (o nome técnico para isso é 'número básico de reprodução' e é simbolizado por R0). Já alguém infectado pelo SARS-CoV-2, na média, passa o vírus para outras 2,24 a 3,58 pessoas.

Além disso, a cada mil pessoas infectadas pelo vírus da gripe espanhola, algo entre 5 e 24 pessoas morriam, isto é, tinham uma CFR ('case fatality rate', taxa de casos fatais) entre 0,05 e 2,4%. Já para a COVID-19, a CFR é algo entre 0,15 e 5,25%.

Outras doenças atuais que enfrentamos tem um potencial maior de se espalhar e é mais letal. Caso da febre amarela: R0 entre 1,5 e 5 e CFR de até uns 7%. Mas há uma vacina eficaz contra a doença, coisa que ainda não temos contra a COVID-19. A febre do vírus zika não tem vacina e também tem um poder maior de disseminação:  R0 entre 1 e 7, mas a letalidade em adultos é virtualmente zero - e há formas de enfrentamento que não necessitam o isolamento de doentes e suspeitos: combatendo o vetor: no caso da COVID-19, ela pode passar de pessoa para pessoa através de gotículas de saliva no ar. A dengue, embora tenha vacinas contra os tipos circulantes no país, a aplicação desta ainda está em fase de testes (há a complicação porque a forma hemorrágica pode se desenvolver em pessoas que têm a dengue mais de uma vez), mas também pode ser combatida com a evitação do vetor, o mesmo mosquito que transmite a zika.

Sendo uma doença nova e, assim, contra a qual ainda não há vacinas nem medicamentos curativos (o tratamento é sintomático e paliativo), nem uma imunidade natural na maioria da população, com um nível de letalidade razoável e também de potencial de espalhamento, é um perigo subestimá-la - especialmente no caso de autoridades que precisam traçar e implementar estratégias eficientes em seu combate. Não se trata de negligenciar outras doenças também graves e potencialmente danosas, mas é preciso enfrentar também a COVID-19, pelo potencial grande de dano.

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pode haver bem mais do que 5 mil ou 7 mil mortos se a economia não "parar" e nada for feito

Parece equivocado o argumento de uma importante figura empresarial brasileira contra as medidas de restrição de deslocamentos da população no enfrentamento da pandemia de COVID-19 (como adotadas em vários países). Na verdade, se não houver nenhuma restrição, o total de mortos pode chegar ou ultrapassar facilmente a cada do milhão de mortos.

A fração atual de mortos no Brasil é de cerca de 2% do total de casos confirmados (47 mortes em 2.201 em 23.mar) de infecção pelo SARS-CoV-2 (o novo coronavírus). Se apenas 50% dos brasileiros se infectarem com o vírus - o que daria cerca de 100 milhões de pessoas -, seriam 2 milhões de mortos. A China conseguiu conter os casos no nível de algumas dezenas de milhares justamente pelas medidas de restrição - com quarentenas, testes e monitoramentos. O nível de 5 mil a 7 mil mortos totais mencionados pelo empresário como sendo poucos diante do que a economia nacional pode sofrer com as medidas são os projetados exatamente se tais restrições foram adotadas: a comparação com eventuais perdas econômicas das quarentenas e toques de recolher seria com o cenário em que eles *não* fossem adotados. Além das mortes, há que se contabilizar também os casos graves - que necessitam de interação e tratamentos intensivos.

Adotando-se o padrão de casos graves e mortes por idade observado nos Estados Unidos (Fig. 1) e a distribuição etária da população brasileira em 2010, com nível de infecção de 50% da população, é de se esperar 7,8 milhões de internações na UTI em função da COVID-19 no país e 1,6 milhão de mortes.

Figura 1.  Variação dos quadros de gravidade de COVID-19 em pacientes de acordo com a idade. Fonte: CDC/EUA, Tian et al. 2020/China (Beijing)


É a partir desses números que se faz a análise de benefício/custo. 7 mil mortes somem diante de 1,6 milhão.

Na Fig. 2, podemos acompanhar a variação do número de casos em diversos países.

 
Figura 2. Variação do total de casos confirmados em diversos países. Eixo vertical em escala logarítmica.

A China implementou o lockdown, restrição severa de deslocamento e fechamento de vários estabelecimentos considerados não-essenciais (basicamente o que não estava envolvido com alimentação, saúde, limpeza e segurança), em 23 de janeiro (quando contava então com 18 mortos e 600 casos no país) na região de Hubei, um dos locais mais fortemente atingidos no pais. Desde, então, na província, o número de novos casos têm diminuído - há cerca de 30 dias, os casos confirmados estão em cerca de 80.000 pessoas. Na Itália, a quarentena só foi imposta (nacionalmente) a partir de 9 de março (quando contabilizavam 9.172 casos na Velha Bota): localmente, em algumas províncias e cidades, governos locais haviam imposto quarentena a partir de 23 de fevereiro (quando contava com 157 casos conformados em todo o país): a curva parece estar diminuindo o ritmo de crescimento desde então. A França, que anunciou o lockdown no dia 16 de março (com 5.360 casos confirmados), também parece começar a apresentar um ritmo menor de aumento do número de casos.

A restrição não é a única alternativa, porém as outras opções também demandam bastante esforço e trazem consequências a valores bastante caros a sociedades democráticas. Por exemplo, na Coreia do Sul, são testados todos os casos suspeitos e todas as pessoas que tiveram contatos são monitoradas (colocando em quarentena todos os casos confirmados e os suspeitos ainda não testados). O país tem realizado cerca de 20 mil testes por dia, numa escala linear seria o equivalente ao Brasil realizar 80 mil testes diários. E a testagem é uma estratégia que só deve funcionar se instalada desde o início, quando a pandemia já estiver localmente espalhada dificilmente será possível monitorar todos os casos. Outra estratégia (considerada bastante invasiva da privacidade), também adotada pela China, é uma ampla e intensa vigilância sanitária em todos os pontos públicos: com aparelhos para medições de temperatura corporal em tempo real (para detectar potenciais casos de febre) e câmeras de vigilância com reconhecimento facial.

Veja também:
Atila Iamarino. 20.mar. O que o Brasil precisa fazer nos próximos dias.
Atila Iamarino. 22.mar. Por que é importante ficar em casa.
Dalson Britto Figueiredo Filho & Antônio Fernandes/Revista Questão de Ciência. 24.mar. Três cenários para o coronavírus no Brasil.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Mala Influenza 19

Alguns estudos têm indicado uma associação causal entre certos tipos de vacinas contra o vírus pH1N1 que levam o adjuvante AS03 com um aumento na incidência de narcolepsia infanto-juvenil. O risco é estimado entre 1:57.500 e 1:52.000 (casos de narcolepsia por dose aplicada). (Miller et al. 2013)

São necessários estudos mais aprofundados para estabelecer bem essa conexão e as eventuais causas (o suspeito maior é o adjuvante).

Há motivos para preocupação, mas não para pânico. E muito menos para se deixar de vacinar: há outras vacinas disponíveis que levam outros adjuvantes.

No caso do vírus da gripe pandêmica de 2009, a taxa global de infecção foi estimada entre 11 e 21%: 16-28% das crianças até 5 anos; crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos: 34-43% , em adultos: 12-15% e em idosos (60 anos ou mais): 2-3%. (Kelly et al. 2011)

No mundo, estima-se que 284.400(151.700–575.400) morreram em decorrência da gripe pandêmica de 2009. Entre jovens de até 17 anos: 44500 (22.400–80.100) mortes; entre 18 e 64 anos: 183.700 (98.800–342.200) mortes. E 56.400 (30.500–233.700) mortos com mais de 64 anos. (Os valores entre parênteses indicam a variação das estimativas.) As razões de mortalidades entre os casos sintomáticos foram de: 1:20.000 (até 17 anos), 1:3.500 (de 18 a 64 anos), 1:806 (acima de 64 anos). (Dawood et al. 2012.)

A vacina monovalente contra o pH1N1 teve uma eficiência entre 71,9% (intervalo de confiança a 95%: 45,6–85,5%). (Valenciano et al. 2011)

Sem vacinação, o risco de morte por gripe pandêmica na faixa entre 4 e 18 anos era entre 1:47.000 e 1:59.000 indivíduos, e de narcolepsia de 1:238.000 indivíduos. Com vacinação, o risco de morte cai para algo entre 1:165.500 e 1:209.300, e o de narcolepsia sobe para 1/16.500.

Certamente os casos de narcolepsia são preocupantes e é um drama familiar que deve ser levado em conta. E isso deve conduzir a estudos para melhoria das vacinas, especialmente as que atualmente usam o adjuvante AS03 (caso a ligação causal seja confirmada - mas até lá, por precaução, pode-se recorrer a vacinas testadas com formulações diferentes). Mas, nem de longe, mesmo com eventual confirmação, será argumento contra as vacinas antigripais em particular e vacinas em geral - mesmo que todas as vacinas tivessem a mesma formulação e probabilidade de indução ao desenvolvimento da narcolepsia, a redução da mortalidade certamente mais do que compensa o risco. (Naturalmente, as políticas públicas de saúde, incluindo as campanhas vacinais, devem ser pautadas em análises a respeito de riscos com base nos melhores dados disponíveis.)

Referências
Dawood, F., Iuliano, A., Reed, C., Meltzer, M., Shay, D., Cheng, P., Bandaranayake, D., Breiman, R., Brooks, W., Buchy, P., Feikin, D., Fowler, K., Gordon, A., Hien, N., Horby, P., Huang, Q., Katz, M., Krishnan, A., Lal, R., Montgomery, J., Mølbak, K., Pebody, R., Presanis, A., Razuri, H., Steens, A., Tinoco, Y., Wallinga, J., Yu, H., Vong, S., Bresee, J., & Widdowson, M. (2012). Estimated global mortality associated with the first 12 months of 2009 pandemic influenza A H1N1 virus circulation: a modelling study The Lancet Infectious Diseases, 12 (9), 687-695 DOI: 10.1016/S1473-3099(12)70121-4

Kelly, H., Peck, H., Laurie, K., Wu, P., Nishiura, H., & Cowling, B. (2011). The Age-Specific Cumulative Incidence of Infection with Pandemic Influenza H1N1 2009 Was Similar in Various Countries Prior to Vaccination PLoS ONE, 6 (8) DOI: 10.1371/journal.pone.0021828

Miller, E., Andrews, N., Stellitano, L., Stowe, J., Winstone, A., Shneerson, J., & Verity, C. (2013). Risk of narcolepsy in children and young people receiving AS03 adjuvanted pandemic A/H1N1 2009 influenza vaccine: retrospective analysis BMJ, 346 (feb26 2) DOI: 10.1136/bmj.f794

Valenciano, M., Kissling, E., Cohen, J., Oroszi, B., Barret, A., Rizzo, C., Nunes, B., Pitigoi, D., Larrauri Cámara, A., Mosnier, A., Horvath, J., O'Donnell, J., Bella, A., Guiomar, R., Lupulescu, E., Savulescu, C., Ciancio, B., Kramarz, P., & Moren, A. (2011). Estimates of Pandemic Influenza Vaccine Effectiveness in Europe, 2009–2010: Results of Influenza Monitoring Vaccine Effectiveness in Europe (I-MOVE) Multicentre Case-Control Study PLoS Medicine, 8 (1) DOI: 10.1371/journal.pmed.1000388

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