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segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Mitos na ciência: Para que serve a revisão por pares?

Mito: "O processo de peer review (revisão por pares) é essencial para a qualidade dos trabalhos publicados."
Status: Bastante duvidoso (mas talvez seja melhor do que nada a depender de como é feito)

Uma das práticas chave do processo de publicação científica é a submissão do manuscrito a uma avaliação por revisores que atuam na mesma área ou em áreas próximas, a famigerada revisão por pares ou, na expressão inglesa de amplo uso entre cientistas nativos de outras línguas, peer review. Normalmente, o editor da revista envia o manuscrito submetido para dois revisores - que podem indicar pela rejeição sumária, o aceite para publicação ou sugerir correções antes do aceite final - e, se as opiniões divergirem muito, o editor pode tomar a decisão ou enviar para um terceiro revisor.

Porém, talvez tanto quanto é defendida, essa instituição é alvo de fortes críticas e questionamentos quanto à utilidade como barreira contra artigos ruins ou mesmo falsificados.

De acordo com uma revisão sistemática de 2002 de Tom Jefferson e colegas, os poucos estudos (19) sobre os efeitos do peer review sobre a qualidade do artigo não permitiam concluir sobre a validade do processo. Em outro estudo, também do grupo de Jefferson, de 2006, a mesma conclusão (com 28 estudos), ainda que com a tendência de apontar alguma melhora na legibilidade e na qualidade geral do manuscrito. Em um levantamento independente, de Derek Richards (2007), que incluiu 28 estudos para análise sistemática, também concluiu que há poucos indícios de um efeito positivo da revisão por pares na qualidade do estudo.

Rachel Bruce e cia. (2017) analisaram 22 artigos sobre processos para melhorar a revisão por pares: como introdução de processo cego (os revisores não têm acesso aos nomes dos autores do artigo), introdução de um avaliador com formação em estatística, uso de checklists, treinamento de revisores, open peer review (os revisores são informados de que os autores têm acesso aos nomes dos avaliadores) e outros - mas os resultados foram bastante variados. (Houve uma melhora na qualidade final do manuscrito com a introdução de um revisor formado em estatística - 2 estudos - e com revisão aberta - 7 estudos.)

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A mesma falta de estudos sistemáticos sobre a validade do uso de índice de citação como medida de qualidade de artigo também se revela na avaliação da eficiência da revisão por pares - pode ser que exista, mas em minha busca não encontrei nenhuma meta-análise. É desconcertante a confiança que se dá a um mecanismo com tão pouca base empírica para ser um elemento basilar da prática científica.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Nem tudo que doureja é lúzio 8

Um especial natalino da gaiata ciência.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

#AmigoCientista: O que as múmias falam sobre o passado (e o presente) do Brasil

Mais uma vez, um grupo de sciencevloggers (capitaneados pela Julia Jaccoud) e eu resolvemos realizar o #AmigoCientista, uma espécie de amigo secreto em que há troca de vídeos (ou, no meu caso, um texto no blogue) como presente.

Claro que o título do post já entrega logo de cara a quem me coube - mui honradamente - homenagear. Sim, a 8a Hokage da Vila de Aracaju, a mãe-generala do Army, a espanadora de areias ancestrais, a sacerdotisa da velha arte de profanar túmulos; a sua, a nossa, a única, Márcia Jamille do Arqueologia Egípcia (um rápido perfil do canal - e da criadora - aqui.)

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É bem possível que você já tenha ouvido falar de múmias no Brasil. Por exemplo, as múmias presenteadas ao imperador Pedro 2o durante sua viagem ao Egito - lamentavelmente perdidas na tragédia que se abateu sobre o Museu Nacional. Mas há ainda outras em coleções privadas.

Porém, não é sobre essas de que falaremos aqui. E, sim, de múmias made in Brazil-zil-zil, múmias brasileiras e não somente múmias no Brasil. Não, esqueçam as piadinhas de pessoas que você juraria que são múmias vivas - ou nem tão vivas. São múmias, de verdade, não ofensas pessoais. Oquei, não são múmias antrópicas - como as egípcias, em que os corpos passam por processos intencionais para sua preservação -, mas múmias naturais - resultados da atuação não intencional de fatores ambientais como baixa umidade, presença de sais, baixas temperaturas...

As condições climáticas preponderantes no Brasil são pouco favoráveis à mumificação natural - predomínio de clima úmido e quente, propício à ação de micro-organismos que degradam completamente as partes moles e mesmo os próprios ossos. Além disso, a cultura funerária dos antigos habitantes (provavelmente refletida na dos indígenas atuais) que pode envolver a cremação ou enterramentos secundários (os corpos são desenterrados e enterrados novamente após um período) também faz com que diminuam as chances de ocorrer a mumificação natural. Ainda assim temos um certo número delas - mais do que podemos contar nos dedos das mãos. (Souza et al. 2002.)

A região do Vale do Peruaçu, no norte do Estado de Minas Gerais, onde fica o Parque Nacional das Cavernas do Peruaçu é de um ambiente de relevo cárstico (formação de rochas calcárias que são profundamente recortadas por dissolução química - especialmente por ação da chuva e de águas subterrâneas) em um clima semi-árido. A combinação de um solo de pH alto (básico) e um ar seco permite que em certos locais se formem microambientes favoráveis à mumificação natural - com a dessecação do corpo promovida pela baixa umidade do ar e uma menor ação bacteriana pelo calcário. No sítio arqueológico do Abrigo do Malhador, em 1985, foram encontrados restos mortais mumificados naturalmente de uma mulher de prováveis 35, 40 anos na ocasião de sua morte - ela foi batizada de AM1 (Fig. 1). Estima-se que tenha entre 4.500 e 7.000 anos de idade (um pouco mais jovem do que a múmia mais velha - natural - da América do Norte, datada de uns 10.600 anos; e talvez um pouco mais velha do que as múmias egípcias - antrópicas -  mais antigas). Outras múmias foram encontradas na mesma região - algumas de mesma idade e outras mais novas: entre 600 e 1.200 anos. (Prous & Schlobach 1997)

Figura 1. Esquema do sepultamento da AM1 no sítio do Abrigo do Malhador. Prous & Scholobach 1997.


Isso pode indicar uma relativa estabilidade climática por todo esse período nessa região - ou, pelo menos, uma ausência de períodos muito mais úmidos - para que elas tenham se preservado por tanto tempo.

Em 2008, um grupo da Fiocruz examinou os restos da AM1 - especificamente um fragmento de 6 cm de uma das costelas. Análise genética revelou a presença de DNA de Tripanosoma cruzi. Não é uma novidade: em múmias chilenas e peruanas de 9.000 anos já foram encontrados sinais de infecção pelo parasita. O mal de Chagas é mesmo uma chaga que assola parte da humanidade há tempos. Mas o curioso é que é de um grupo (tipo I) que não ocorre atualmente na região (há presença apenas do tipo II). T. cruzi do mesmo tipo I foi encontrado em múmias mais recentes, de cerca de 560 anos, da mesma região. Possivelmente houve uma mudança após a chegada dos europeus às terras brasileiras. Quem sabe, talvez, relacionada ao espalhamento e à domiciliação dos vetores como o barbeiro Triatoma infestans (de origem provavelmente nos altiplanos bolivianos) com o espalhamento das casas de taipa e desmatamento?

Além do mal de Chagas, a análise de múmias mostrou que a população local também sofria de infestação por vermes como o Echinostoma e Trichuris- identificados por amostras de fezes reidratadas analisadas ao microscópio.

Dos estudos a que tive acesso a partir do Google Scholar e do Web of Knowledge, encontrei análises a respeito da AM1 e outras múmias de Peruaçu (e também de outras localidades) apenas em relação à paleoparasitologia - que parasitas acometiam os indivíduos pré-históricos - e a práticas de sepultamento  (e.g. Strauss 2014) - em que posição enterravam seus mortos, se faziam uso de pinturas corporais e ornamentos, se dispunham os corpos direto sobre a terra ou em urnas, etc. Pode haver, sendo apenas uma falha minha em achar, mas não vi estudos - a partir das múmias - sobre a dieta (como pelos restos de eventuais sementes nos coprólitos ou vestígios de desgastes no dentes), genética (qual a relação com os demais paleoíndios e com os povos indígenas atuais, há contribuição na genética brasileira de hoje?), etnobotânica (em algumas múmias identificam o uso de plantas, mas teriam características medicinais? o que os povos atuais fazem com as espécies identificadas?) e outros. Se o meu fracasso em localizar tais estudos refletir uma real escassez, pode indicar um campo muito prolífico para o estudos das múmias brasileiras em aclarar não apenas o passado, mas também o presente.

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Mas quem será que me tirou no #AmigoCientista?



Corram lá no BláBláLogia pra ver o que o Chico Camargo aprontou. (Nota: isso de eu ser bot é intriga da oposição!)

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Confira os vídeos dos demais canais participantes do #AmigoCientista.
A Matemaníaca (Juju Jaccoud): Como os fractais aparecem na natureza?
Arqueologia Egípcia (Márcia Jamille): Existirá Arqueologia no futuro?
AstroTubers (Marcelo Rubinho/Pedro Pinheiro): Simulando o Universo
Caio Dallaqua: Bioinformática: De 5 MILHÕES a 100 dólares
Dragões de Garagem (Tabata Bohlen): Notícias de Garagem
Laboratório 2000 (Leonardo Souza): O que é um solstício?
Mural Científico (Lucas Rosa): Como sabemos a idade dos dinossauros? 
Nunca Vi 1 Cientista (Laura Freitas/Ana Bonassa): 5 coisas que você  não sabia sobre um laboratório
Olá, Ciência! (Guilherme Ximenes): Ciência de Verdade|Terra Planta e Teoria da Evolução
Papo de Primata (David Ayrolla): Como a evolução pode ajudar no combate ao HIV
The Mingau (Johnny Pauly: Mingau): A evolução em outros mundos
Versada (Vanessa Costa): Macaco-prego, o descascador de árvores

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