Lives de Ciência

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domingo, 11 de junho de 2023

Nem tudo o que doureja é lúzio 9

Mais uma rodada da gaiata ciência.
  • Hall, N. 2014. The Kardashian index: a measure of discrepant social media profile for scientists. Genome Biology 15:424. Índice proposto para medir a discrepância entre a popularidade de um cientista e sua importância acadêmica. via @alesscar.
  • Hamilton, A.J.; May, R.M & Waters, E.K. 2015. Here be dragons. Nature 520: 42-3. Os autores sugerem em brincadeira em torno de 1o de abril que os padrões de temperaturas globais são indícios da existência de dragões. via Leandro Tessler fb.
  • Hopkinson, J.A. & Hopkinson, M.A. 2013. The hobbit — an unexpected deficiency. The Medical Journal of Australia 199(11): 805-6. Uma análise do possível papel da falta de vitamina D na vitória do bem contra o mal em The Hobbit, romance de J.R.R. Tolkien.
  • Kane, SR. & Selsis, K. 2014. A Necro-Biological Explanation for the Fermi Paradox. preprint no arXiv. Os autores analisam os riscos da psicose espontânea necroanimadora se espalhar pelo universo junto com a vida elaborando uma equação de Drake modificada para calcular a prevalência de planetas tomados por zumbis e responder ao paradoxo de Fermi. via Rodrigo Veras fb.
  • Lystad, RP & Brown, BT. 2019. “Death is certain, the time is not”: mortality and survival in Game of Thrones. Injury Epidemiology 5:44. Análise das causas de morte na série Game of Thrones. via Ruth Helena Bellinghini.
  • Trump, D. 2016. Proof of the Riemann Hypothesis utilizing the theory of Alternative Facts.  David Johnson brinca com o conceito de "fatos alternativos" (aka 'mentira deslavada') avançado por Kellyanne Conway assessora do presidente americano Donald Trump para apresentar uma visão da equipe a respeito do público que acompanhou a cerimônia de posse presidencial, notadamente menor do que as cerimônias de inauguração das presidências de Barack Obama. via Carlos Orsi fb.
  • Habgood-Coote et al. 2023. Can a good philosophical contribution be made just by asking a question? Metaphilosophu 54(1): 54. O artigo consiste unicamente no título e dados de autoria. Pelo menos está em Open Access. (Uma pergunta que suscita é se os autores pagaram alguma coisa.) Mas o método da maiêutica socrática consiste basicamente em fazer uma série de perguntas, de modo que o próprio interlocutor desenvolva seu pensamento ao respondâ-las. via Éverton Fernandes fb.*

*Upideite(11/jun/2023): O artigo vem com um comentário à parte dos próprios autores (exigência dos editores para a publicação do outro "artigo". Curiosamente, os autores não citam Sócrates.

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Nem tudo que doureja é lúzio 8

Um especial natalino da gaiata ciência.

sábado, 11 de agosto de 2018

Como é que é? - Não tem urso na América Latina?

Alguns memes e postagens têm sugerido que ursos são animais restritos ao Hemisfério Norte, não representando a fauna sul-americana nem a latino-americana.

Mesmo descontando o fato de haver populações de ursos pretos no México, há populações de uma espécie exclusiva da América no Sul - o urso-de-óculos (Tremarctus ornatus) - na região norte dos Andes, da Bolívia à Venezuela, passando por Peru, Equador e Colômbia - e aparentemente presente também na Argentina. (Fig. 1 e 2.)

Figura 1. Distribuição mundial de espécie de ursos. Ursus maritimus: urso polar; U. artcos: urso pardo; U. americanus: urso negro; U. malayanus: urso-malaio; U. ursinus: urso-preguiça; U. thibetanus: urso negro asiático; Tremarctos ornatus: urso-de-óculos. Não mostrado na figura, Ailuropoda melanoleuca: panda gigante (restrito a florestas de bambu na China). Fonte: Kumar et al. 2017.

Figura 2. Urso-de-óculos (Tremarctos ornatus), única espécie atual de urso nativo da América do Sul. Fonte. Wikimedia Commons.

Embora as relações entre as espécies atuais de ursos seja mais ou menos bem resolvida: a linhagem dos pandas divergindo da que daria a origem às demais entre 18 e 22 milhões de anos atrás (Maa), e a linhagem dos ursos-de-óculos divergindo da dos outros ursos 12 a 16 Maa; a história da família dos ursos é um pouco mais nebulosa. Os ursídeos devem ter se separado da linhagem que levaria às focas entre 26 e 48 Maa. (Krause et al. 2008.)

A subfamília do urso-de-óculos: a Tremarctinae, pode ter aparecido na América do Norte num período em que a América do Sul era uma gigantesca ilha-continente separada do resto (ela começou a se separar da África por volta de 120 Maa). Quando a América do Sul se aproximou da América do Norte, a América Central começou a se soerguer - por volta de 4,5 a 15 Maa (Montes et al. 2015). A conexão levou a uma intensa troca de espécies entre as duas porções, num evento chamado de Grande Intercâmbio Biótico Americano. E os ursos não ficaram de fora.

Fósseis de ursos mais antigos na América do Sul são de cerca de 1,5 a 2 Maa; mas outra espécie do mesmo gênero do urso sul-americano era encontrada onde hoje é o sul dos EUA, da Flórida à Califórnia (e se estendendo a área até o Tennessse ao norte): T. floridanus - atualmente extinta, os fósseis mais antigos são de cerca de 3 Maa. Um outro gênero da subfamília, próximo ao gênero Tremarctos, é o Arctotherium e os fósseis destes são encontrados apenas na América do Sul. A separação entre os dois gêneros deve ter ocorrido por volta de 4 Maa (Fig 3.). Então a migração dos ursos da América do Norte para a América do Sul deve ter pelo menos essa idade. (Mitchell et al. 2016.)

Figura 3. Distribuição temporal e relações de parentescos entre ursos da subfamília Tremarctinae. Em azul, espécies da América do Norte; em vermelho, da América do Sul. Borophagus e Chapalmalania não são da família dos ursos - são respectivamente da família dos cães e dos guaxinins; Agriotherium é um urso de outra subfamília. Fonte: Mitchell et al. 2016.

Os ursos, assim, estão há pelo menos 4 milhões de anos na América do Sul - muito antes da nossa espécie aparecer na face da Terra. E, embora hoje reste apenas uma espécie, sua diversidade foi maior por aqui - pelo menos 6 espécies (praticamente a mesma diversidade de ursos atual em todo o mundo!) e estiveram distribuídos por todo o (sub)continente: no Nordeste e Sudeste brasileiros, no Uruguai e noroeste da Argentina e no sul da Patagônia (Soibelzon & Bond 2005).

Não é justo negar cidadania ao urso-de-óculos. É mais latino-americano e sul-americano do que nós.

Infelizmente sua situação ecológica inspira cuidados devido à perda de hábitat e às mudanças climáticas. A União Internacional para a Conservação da Natureza a considera uma espécie vulnerável.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A péssima ideia de Thanos

Como já se passou um tempo desde a estreia de Vingadores: Guerra Infinita, em 23 de abril (dia seguinte ao Dia da Terra), acho que dá pra comentar uma parte principal do enredo sem que se caracterize como spoiler - se alguém ainda não viu (ainda está em cartaz em alguns cinemas no Brasil), então fica o alerta de spoiler.

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SPOILER ALERT!!!!!
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O plano de Thanos de usar as joias do infinito para sumir com metade da vida (sensciente) do Universo - no filme só falam genericamente em "vida", nos quadrinhos especificam "vida sensciente" -, além de eticamente absolutamente revoltante, não faz sentido racional.

Nos quadrinhos, ainda a intenção é de agradar a dona Morte, crush do titão louco; mas, no filme, o objetivo é trazer o equilíbrio ao Universo: os trilhões de habitantes estão consumindo recursos a um ritmo insustentável, o que logo causaria guerras e fomes (Malthus, alguém?). Em um verniz "humanitário", Thanos, então, elimina 50% dos seres sem distinção de sexo, raça, credo, cor, idade, status socioeconômico, ideologia política, sistema operacional de preferência, se marvete ou decenauta... (ele pode ser um vilão abjeto, mas preconceituoso pelo menos ele não é).

Mas isso traz equilíbrio para o Universo? Outro spoiler alert: não!

Peguemos o exemplo da Terra e seus primatas glabros. Em 1950, a população humana era estimada em torno de 2,5 bilhões de habitantes; em 1987, foi estimada em 5 bilhões de pessoas. Simplesmente dobramos em pouco mais de 35 anos.* (Fig. 1.) Se nos outros planetas a dinâmica demográfica for mais ou menos a mesma, em algumas dezenas de anos voltaríamos à mesma situação.

O tempo poderia ser até menor, porque hoje a tecnologia está muito mais avançada. E, depois de se recuperar do baque econômico que provavelmente adviria com o desaparecimento súbito de 50% da força de trabalho e do mercado consumidor, poderíamos ter um crescimento vertiginoso com o excesso de recursos por habitantes. Se eu sobrevivesse ao dustening, investiria todos os meus proventos no mercado ligado à maternidade e cuidados com bebês e crianças.
Figura 1. Tamanho estimado da população humana na Terra ao longo do tempo.

A perda súbita de um grande número de indivíduos pode colocar espécies em risco de extinção apenas se a população restante tem um número muito baixo de indivíduos reprodutivamente aptos. A população viável mínima (MVP - minimum viable population) varia de espécie para espécie - alguns invertebrados marinhos podem reconstituir a população inteira a partir de apenas um casal de indivíduos sobreviventes. Em humanos seria complicado porque significaria que irmãos procriariam com irmãos (e/ou com os pais), o que tornaria o risco de gerar descendentes com problemas genéticos (pela homozigose de alelos disfuncionais) muito alto e rapidamente inviabilizaria a continuidade reprodutiva. Em certos invertebrados isso não é um problema - com uma prole muito grande, a pequena fração de indivíduos que escapam de herdar cópias defeituosas já seria suficiente para garantir a continuidade reprodutiva. Mas para mamíferos, com taxas reprodutivas médias um pouco mais baixa do que de invertebrados, o MVP é mais alto - uma média de 95 indivíduos. Em humanos, com taxa reprodutiva menor do que a média dos mamíferos, o número deve ser em torno de 160 indivíduos. Ou seja, mesmo com a catastrófica redução da população atual à metade, ainda estaríamos longe, muito longe do risco de extinção.

Se o titã não fosse louco e obcecado com um plot destinado a fracassar (ao menos se a biologia reprodutiva dos demais seres senscientes do Universo for, grosso modo, similar à nossa - o que pode ser o caso para que híbridos interespecíficos como o Senhor das Estrelas possam existir) - mesmo que os Vingadores não fossem capazes de revertê-lo na continuação (e serão, óbvio; a Disney/Marvel não deixaria uma personagem que acabou de faturar mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria relegada ao pó) -, ele bem poderia usar a joia da mente combinada com o poder das outras para convencer toda a população sensível do Universo a adotarem medidas menos consumistas, a aproveitarem mais inteligentemente os recursos, valendo-se dos 4R (reduzir, reaproveitar, repensar, reciclar), desenvolvendo fontes de energia alternativas, e revertendo os danos causados ao ambiente, além de adotar práticas de planejamento reprodutivo - isso teria um efeito permanente sem o fim catastrófico de fome, miséria, doenças e guerras.

Com o devido pedido de desculpas à Marvel...



...(Acho que nunca me contratariam de roteirista em Oliúde.)

*Upideite(14.jun.2018): Outra comparação, por volta de 1971, a população era de cerca de 3,7 bilhões de pessoas, hoje somos cerca de 7,5 bilhões - uma janela de cerca de 50 anos.

Mas o impacto psicológico não afetaria as taxas reprodutivas? Alguns indícios disponíveis apontam que após desastres como guerras, terremotos e furacões, a população sobrevivente tem um *aumento* na taxa de nascimentos. Na cidade britânica de Aberfan, País de Gales, após a tragédia causada pelo desmoronamento do monte de rejeito de minério de carvão, em 1966, durante cinco anos foi notado um aumento da taxa de nascimentos na comunidade local - tanto em famílias que perderam como entre as que não perderam parentes. Também foi detectado aumento de taxas de nascimentos (e de casamentos - e de divórcios) em condados do estado americano da Carolina do Sul após a passagem do furacão Hugo, em 1989. O mesmo efeito foi observado na cidade de Oklahoma nos Estados Unidos, após o atentado a bomba em 1995. Após o tsunami de 2004 que devastou amplas áreas das costas no Oceano Índico, a taxa de natalidade em diversas comunidades na Indonésia aumentou significativamente.Nos meses seguintes ao terremoto da comuna italiana de Áquila em 2009, também foi detectado um aumento de nascimentos - aparentemente a decisão de ter filhos foi um ato consciente das mulheres como mecanismo de lidar com o estresse pós-traumático. O efeito parece ser variável, no entanto, após serem atingidos pelo furacão Katrina em 2004, cidades da região da costa do Golfo nos EUA apresentaram diferenças nas taxas de natalidade - houve queda em paróquias de Louisina e Mississippi, e aumento em Alabama. De qualquer forma, tomado em conjunto, esses dados parecem indicar que seria uma boa aposta que a recuperação populacional pós-dustening poderia ser acelerada (ao menos aqui na Terra).

Mas e as mudanças nas tecnologias assistivas de planejamento familiar? Novas gerações de anticoncepcionais, uma maior liberalização geral do aborto no mundo em relação há 50, 70 anos atrás, e maior renda e acesso à educação, certamente diminuíram as taxas de natalidade. Se levou 37 anos de 1950 a 1987 para dobrar a população, levou 47 anos de 1971 a 2018. Mas consideremos as projeções de que a população humana deverá ser algo em torno de 12 bilhões por volta do ano 2100. Se usarmos essa taxa mais lenta futura, para ir de 3,7 para 7,5 bilhões de pessoas, ainda assim levaria pouco menos de 70 anos.

Upideite(22/jul/2018): Veja também:
Atila Iamarino/Nerdologia 14.jun.2018: "Porque a história de Thanos não faz sentido" (vídeo)
Lucas Miranda. Ciência Nerd. 14.mai.2019: "Thanos e sua solução para o crescimento populacional"

domingo, 20 de novembro de 2016

Superlua contra o baixo astral: quando algo passa a ser super?

O multiempreendedor da divulgação científica brasileira (Scienceblogs Brasil, Sciencevlogs Brasil, BláBláLogia, Chopp comCiência...), Rafael Soares, perguntou:

O interesse popular pela 'superlua' ('supermoon') é relativamente novo (no Google Trends, surge a partir de 2011 - fig 1; no Google Ngram Viewer, não há registro de 1800 a 2000) para algo antigo. Muito antigo. É apenas a denominação da Lua cheia (ou nova) durante o perigeu - algo que ocorre praticamente uma vez por quadrimestre - e, mais especificamente, em sua maior aproximação no ano (em 2011 foi em 19/mar; em 2012, 06/mai; 2013, 23/jun; 2014, 10/ago; 2015, 28/set e 2016, 14/nov). (Nem sempre a Lua cheia - ou nova - irá ocorrer quando o satélite estiver em sua máxima aproximação da Terra, mas como colocam uma tolerância de 10% para mais ou para menos a frequência aumenta bastante.) Não é um termo científico (a expressão astronômica para denominar a Lua cheia ou nova durante o perigeu seria... bem Lua cheia ou nova de perigeu), aparentemente foi tomado de empréstimo da astromancia pela imprensa popular. (O interessante é que apesar de ser um fenômeno corriqueiro, esse interesse tem permitido o engajamento do público em ações de divulgação e educação obre a astronomia, p.e. alunos da ocupação da Escola Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas tiveram uma aula durante a observação do fenômeno em novembro agora com o pessoal do Clube de Astronomia da Universidade Federal do Amazonas.)

Figura 1. Registros de busca por 'supermoon' no Google. Fonte: Google Trends.


Figura 2. Variação do tamanho aparente da Lua.
O prof. Dulcidio Braz, em seu Física na Veia, explicou o aumento do tamanho aparente (Fig. 2) e do brilho com a aproximação da Lua (com uma rápida recapitulação de por que a Lua se aproxima da Terra a cada volta).

Isso a torna 'super'? Claro que depende amplamente da subjetividade de cada um para considerar algo particularmente especial. Eu proponho que se denomine a um evento de fenômeno natural recorrente como particularmente destacado ('super') se a magnitude de algum parâmetro seu (no caso da Lua, proximidade, tamanho e brilho) for de ocorrência particularmente rara (acima ou abaixo de 3 desvios padrões em relação aos valores médios e com frequência esparsa - concedo aqui, que ocorra no máximo uma vez ao ano - embora minha inclinação seja para, no máximo, uma vez no tempo médio de vida de uma pessoa).

A 'superlua' atende ao critério de ocorrer no máximo uma vez por ano (ocorre aproximadamente uma vez a cada 14 meses). Mas o quanto difere das demais 12 ou 13 luas em perigeu no mesmo ano? Pegando os valores calculados para os perigeus de 2001 a 2100, a média das menores distâncias em um ano é de 356.848,23 km (com DP de 248,82 km); 1,58% menor do que a média das distâncias de perigeu no período é de 362.564,4(±4.517,45) km: um valor apenas 2 DP abaixo (Fig 3).

Figura 3. Distribuição das distâncias Terra-Lua em perigeu para o período de 2001 a 2100. (Em amarelo, a faixa da distância correspondente à 'superlua' de novembro de 2016.) Fonte: Astropixels

Como a distribuição é bimodal com concentração em torno dos valores extremos, na verdade é relativamente mais rara a ocorrência de perigeu com distâncias próximas à média. Se o critério fosse apenas raridade, uma 'superlua' seria uma 'superlua média' - apenas 0,06% dos perigeus entre 2001 e 2100 ocorrem entre 362.500 e 362.600 km de distância da Terra (uma vez a cada 12 a 13 anos em média). Em comparação 4,52% dos perigeus ocorrem abaixo da média das 'superluas' (uma vez a cada ano e meio). (O principal fator da variação das distâncias de apogeu e perigeu é a variação da excentricidade da órbita lunar. E o principal fator da excentricidade lunar é a maré solar: seu efeito é maior quando o sistema Terra-Lua está alinhado com Sol. Isso ocorre exatamente nas fases de Lua cheia - quando a Lua está no lado oposto ao Sol - ou nova - quando está do mesmo lado.)

E uma superlua de distância tão baixa como a deste ano? A imprensa destacou que desde 1948 a Lua não se aproximava tanto assim da Terra. No período de 2001 a 2100, 8 episódios de superlua tão extremos ou mais quanto o deste ano devem ocorrer (incluindo a de 2016), uma média de um a cada 12,5 anos (Fig. 4a,b). Mas também a menos de 2DP da média.

a)
b)
Figura 4. a) Variação do apogeu e perigeu lunar entre 2001 e 2100. b) Variação inferior do perigeu lunar. Linha horizontal pontilhada, distância do perigeu de nov/2016. Fonte: Astropixels

XKCD

Isso torna ou não a Lua super? Como argumentei lá em cima, fica a gosto do freguês.

Mas, em um sentido, a Lua é 'super' independente de se cheia, nova ou em perigeu. Afinal ela é mais possante do que uma locomotiva (nosso satélite tem uma energia cinética de 3,8.10^28 J; a maior velocidade obtida por um carro sobre trilhos - propulsionado por foguete - foi de 2.736,8 m/s, se tal velocidade pudesse ser desempenhada por uma composição como o BHP Billiton de cerca de 100.000 t, isso daria 3,7.10^14 J), capaz de saltar mais alto do que um arranha-céu (não apenas porque arranha-céus não pulam; a inclinação da órbita lunar em relação ao equador terrestre varia de 18,28° a 28,58°, com um raio médio da órbita de 384.400 km, isso corresponde a uma variação de altura de cerca de 70 mil km, mais de 84.000 vezes a altura do Burj Khalifa em Dubai, EAU) e de voar mais rápido do que uma bala (sua velocidade orbital média de 1.022 m/s é maior do que a de muitas balas - ainda que não de todas).

Veja também:
De Athenaa Trinity Cientistas Feministas (17/nov/2016): Super Lua, sim! Mas pera lá.

domingo, 11 de setembro de 2016

Nem tudo o que doureja é lúzio 7

Nova rodada da gaiata ciência.

Goodman et a. 2014. A few goodmen: surname-sharing economist coauthors. Econimic Inquiry. Análise de coautoria de artigos de economia com autores de mesmo sobrenome. Segundo os autores, a principal contribuição do artigo é trazer pela primeira vez um artigo com quatro autores de mesmo sobrenome, sem haver relação de parentesco direto e todos de instituições diferentes. (Via @Cardoso.)
Wiseman & Watt 2015. And now for something completely different: Inattentional blindness during a Monty Python's Flying Circus sketch. Estudo da cegueira inatencional durante exibição de uma famosa esquete do Monty Python. (Via @carlosom71.)
Bunnett & Kearley 1971. Comparative mobility of halogens in reactions of dihabobenzenes with potassium amide in ammonia. Artigo de química em forma de poesia. (Via @scienceblogsbr)
Ardalan et al. 2015. The Value of Audio Devices in the Endoscopy Room (VADER) study: a randomised controlled trial.Artigo analisando a influência da música de Star Wars no resultado de exame de colonoscopia. (Via Carlos Orsi fb)
Hetherington, J.H. & Willard, F.D.C. 1975. Two-, three-, and four-atom exchange effects in bcc 3He. O segundo autor, F.D.C. Willard, é o gato de estimação do primeiro autor: F.D. de Felis domesticus, C. de Chester o nome do gato, e Willard, o nome do pai de Chester. O gato teria sido acrescentado como co-autor para que o artigo, originalmente com um único autor, não precisasse ser reescrito substituindo-se o pronome no plural 'we/nós' para o singular 'I/eu' (Via ScienceblogsBrasil fb.)

sábado, 5 de dezembro de 2015

Manda nudes: divulgando ciências no snapchat (humor)

O Rubens Pazza, do Rock com Ciência, no twitter pergunta se é possível fazer DC no snapchat. Bem, sempre se pode fazer uso criativo de redes sociais e aplicativos.

Mas como divulgar ciências através de nudes? Aqui algumas sugestões da equipa de um homem só do GR.

Placa da Pioneer 10 em alumínio folheado a ouro. Fonte: Nasa.
Rato-toupeira pelado. Que não é rato, nem toupeira. Mas certamente pelado.
Mamífero eussocial. Fonte: Wikimedia Commons.
Camundongo nude. Com timo pouco desenvolvido a linhagem foi desenvolvida para apresentar nenhuma
ou poucas células T de defesa, permitindo várias pesquisas sobre doenças. Fonte: Wikimedia Commons.
O Macaco Nu. Best seller de Desmond Morris sobre como os
humanos se comparam com outras espécies animais. Fonte: Amazon.
Ok, não precisa ser apenas com nudes. Use com sabedoria.

domingo, 15 de março de 2015

Humor: Quantas pessoas havia na Avenida Paulista?

"Estimating the size of a crowd is a difficult business – even for those who actually want to get it right."

Diante da pequena divergência de números de manifestantes nas imediações da Avenida Paulista nos protestos de 15/mar/2015 entre a PM, que avaliou como 1 milhão de pessoas, e o Instituto Datafolha, que estimou em 210 mil indivíduos (veja detalhes da metodologia do Datafolha - cuidado! contém paywall poroso), fica a pergunta: afinal, quantas pessoas estavam na Paulista?

Provavelmente nunca saberemos ao certo, mas o Instituto GR de Pseudopesquisas convocou especialistas de várias áreas para darem seus palpites de como medir.

Ecólogo populacional: "Basta capturar alguns manifestantes aleatoriamente, marcá-los, soltá-los e depois recapturar o mesmo número também aleatoriamente. Se o tamanho da amostra é de 100 pessoas e na recaptura 10 estiverem marcadas, o total será de 1.000 manifestantes."

Físico teórico: "Considere que os manifestantes sejam todos esféricos de raio de 1m no vácuo... "

Estatístico preguiçoso: "O número de manifestantes será, com 95% de confiança, algo entre 0 e 7 bilhões de pessoas."

Fisiologista da respiração: "Cerque a região de interesse com uma cúpula impermeável ao ar. Meça a variação do teor de O2 do ar no interior da região cercada por um período (tenha certeza de haver obtido permissão de um comitê de ética antes; e o período de observação não deve induzir acidose). Multiplique o teor pelo volume total de ar em litros e divida por 72 e multiplique pelo tempo de observação em horas."

Batman: "Hackeie o sistema de telefonia celular da cidade e use as emissões dos celulares como um sonar. Ah, você quer algo legalmente permitido, Lucius? Bem, pergunte pra um engenheiro eletrônico."

Engenheiro eletrônico: "Peça pros usuários baixarem um aplicativo para emitirem um som específico e colocar um microfone sensível em local apropriado."

Engenheiro de som carioca: "É na Paulista, né? Simples. Grite 'biscoito'. E com um decibelímetro meça a intensidade com que vem a resposta 'bolacha'."

Social media expert: "Faça um bot que capture todas as hashtags #EuNaPaulista #SelfieNaPaulista, filtre os retuítes e repetições; divida pela taxa de uso de smartphones e corrija pelo número de usuários de redes sociais... hein? como assim validação da metodologia?"

Físico experimental: "Na região do cruzamento com a Paraíso instale um canhão de laser de raios-X de baixa intensidade... o quê? como assim comitê de ética de pesquisa com animais?"

Obs. Um texto mais sério - de divulgação - sobre métodos de contagem de multidões.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Se o príncipe da Nigéria tivesse se graduado...

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PEDIDO DE RELAÇÃO URGENTE DE PARCERIA CIENTÍFICA

EM PRIMEIRO LUGAR, SOLICITO A MÁXIMA CONFIDENCIALIDADE A RESPEITO DESTA TRANSAÇÃO. ISSO POR CAUSA DE SUA NATUREZA EXTREMAMENTE CONFIDENCIAL E 'TOP SECRET'. ESTOU CERTO E CONFIO EM SUA CAPACIDADE E CONFIABILIDADE EM EXECUTAR A TRANSAÇÃO DESTA MAGNITUDE QUE ENVOLVE UMA TRANSAÇÃO PENDENTE QUE REQUER A MÁXIMA CONFIDENCIALIDADE.

SOMOS DIRETORES DO CORPO EDITORIAL DE UMA PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA FEDERAL INTERESSADOS NA PARCERIA CIENTÍFICA PARA PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS COM SEU GRUPO COM PESQUISAS QUE ESTÃO PRESAS NA NIGÉRIA. A FIM DE INICIAR ESTA PARCERIA SOLICITAMOS SEU AUXÍLIO PARA PERMITIR A SUBMISSÃO DE ARTIGO EM SEU NOME PARA LIBERAR AS REFERIDAS PESQUISAS PRESAS.

A ORIGEM DO FUNDO DA PESQUISA É COMO SEGUE: DURANTE O ÚLTIMO REGIME MILITAR NA NIGÉRIA, PESQUISADORES SENIORES INICIARAM UMA PESQUISA E PRODUZIRAM UM GRANDE VOLUME DE ARTIGOS COM GRANDE POTENCIAL DE CITAÇÕES CRUZADAS EM VÁRIAS ÁREAS. O ATUAL GOVERNO CIVIL CRIOU UMA REVISTA PARA DAR VAZÃO A ESSES ARTIGOS PRONTOS PARA PUBLICAÇÃO.

PORÉM EM RAZÃO DE NOSSA POSIÇÃO COMO MEMBRO DO CORPO EDITORIAL DESSA REVISTA, NÃO PODEMOS PUBLICAR ESSES ARTIGOS EM NOSSOS NOMES. ASSIM, FUI DESIGNADO EM RAZÃO DE CONFIANÇA POR MEUS COLEGAS DO CORPO EDITORIAL PARA PROCURAR POR PARCEIROS ESTRANGEIROS EM NOME DOS QUAIS TAIS ARTIGOS POSSAM SER PUBLICADOS EM NÚMERO SUPERIOR A 30.000 (TRINTA MIL) NO TOTAL. POR ISSO ESTAMOS ENVIANDO ESTA MENSAGEM. CONCORDAMOS EM DAR AUTORIA DESSES ARTIGOS NA FORMA: 1,20% PARA CADA PARCEIRO ESTRANGEIRO, 2,70% PARA NÓS, 3,10% PARA OUTROS PESQUISADORES DO COMITÊ. a PARTIR DE 70% QUE PRETENDEMOS INICIAR A REVISTA.

POR FAVOR, OBSERVE QUE ESTA TRANSAÇÃO É 100% SEGURA E ESPERAMOS INICIAR A PARCERIA EM, NO MAIS TARDAR, 7 DIAS ÚTEIS A PARTIR DA DATA QUE RECEBERMOS AS SEGUINTES INFORMAÇÕES PELO TEL/FAX: 555-1-0-2345678, SEU NOME COMPLETO, O NOME DA SUA INSTITUIÇÃO, SUA POSIÇÃO E SEUS DADOS DE CONTATO.

ESTAMOS ANSIOSOS POR FAZER ESTA PARCERIA COM VOCÊ E SOLICITAMOS CONFIDENCIALIDADE NESTA TRANSAÇÃO. POR FAVOR CONFIRME O RECEBIMENTO DESTA MENSAGEM ATRAVÉS DO NÚMERO TEL/FAX ACIMA. ENVIAREI OS DETALHES DESTE PROJETO QUANDO RECEBERMOS SEU CONTATO.

ATENCIOSAMENTE,

DR F. R. AUDE

NOTE; POR FAVOR USE ESTE NÚMERO DE REFERÊNCIA (VE/S/09/15) EM TODAS AS SUAS RESPOSTAS.
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Inspirado no caso relatado por Leandro Tessler, do Cultura Científica, de uma oferta de publicação em uma revista predadora. O texto acima é uma adaptação, claro, do esquema 419, também conhecido como "Príncipe Nigeriano" - não há nenhuma conotação de crítica à ciência da Nigéria.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Nem tudo o que doureja é lúzio 6

Uma rodada especial de gaiata ciência: o tema é "bloqueio criativo".

Dois artigos já haviam sido citados na segunda rodada.
Mas é praticamente uma subárea à parte da psicologia:

Tem até meta-análise:

Mas sempre tem aqueles que não sabem brincar:

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