Lives de Ciência

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domingo, 11 de junho de 2023

Nem tudo o que doureja é lúzio 9

Mais uma rodada da gaiata ciência.
  • Hall, N. 2014. The Kardashian index: a measure of discrepant social media profile for scientists. Genome Biology 15:424. Índice proposto para medir a discrepância entre a popularidade de um cientista e sua importância acadêmica. via @alesscar.
  • Hamilton, A.J.; May, R.M & Waters, E.K. 2015. Here be dragons. Nature 520: 42-3. Os autores sugerem em brincadeira em torno de 1o de abril que os padrões de temperaturas globais são indícios da existência de dragões. via Leandro Tessler fb.
  • Hopkinson, J.A. & Hopkinson, M.A. 2013. The hobbit — an unexpected deficiency. The Medical Journal of Australia 199(11): 805-6. Uma análise do possível papel da falta de vitamina D na vitória do bem contra o mal em The Hobbit, romance de J.R.R. Tolkien.
  • Kane, SR. & Selsis, K. 2014. A Necro-Biological Explanation for the Fermi Paradox. preprint no arXiv. Os autores analisam os riscos da psicose espontânea necroanimadora se espalhar pelo universo junto com a vida elaborando uma equação de Drake modificada para calcular a prevalência de planetas tomados por zumbis e responder ao paradoxo de Fermi. via Rodrigo Veras fb.
  • Lystad, RP & Brown, BT. 2019. “Death is certain, the time is not”: mortality and survival in Game of Thrones. Injury Epidemiology 5:44. Análise das causas de morte na série Game of Thrones. via Ruth Helena Bellinghini.
  • Trump, D. 2016. Proof of the Riemann Hypothesis utilizing the theory of Alternative Facts.  David Johnson brinca com o conceito de "fatos alternativos" (aka 'mentira deslavada') avançado por Kellyanne Conway assessora do presidente americano Donald Trump para apresentar uma visão da equipe a respeito do público que acompanhou a cerimônia de posse presidencial, notadamente menor do que as cerimônias de inauguração das presidências de Barack Obama. via Carlos Orsi fb.
  • Habgood-Coote et al. 2023. Can a good philosophical contribution be made just by asking a question? Metaphilosophu 54(1): 54. O artigo consiste unicamente no título e dados de autoria. Pelo menos está em Open Access. (Uma pergunta que suscita é se os autores pagaram alguma coisa.) Mas o método da maiêutica socrática consiste basicamente em fazer uma série de perguntas, de modo que o próprio interlocutor desenvolva seu pensamento ao respondâ-las. via Éverton Fernandes fb.*

*Upideite(11/jun/2023): O artigo vem com um comentário à parte dos próprios autores (exigência dos editores para a publicação do outro "artigo". Curiosamente, os autores não citam Sócrates.

domingo, 12 de março de 2017

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 29

Minhas anotações do trabalho de Sumner et al. 2016 sobre uma das origens do sensacionalismo na cobertura de trabalhos sobre saúde.

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Sumner P, Vivian-Griffiths S, Boivin J, Williams A, Bott L, Adams R, et al. 2016. Exaggerations and Caveats in Press Releases and Health-Related Science News. PLoS ONE 11(12): e0168217. doi:10.1371/journal.pone.0168217

534 press-releases (comunicado de imprensa) de pesquisas biomédicas e de saúde de trabalhos publicados em revistas científicas líderes foram analisados, bem como os 534 trabalhos a que os press-releases se referem e 582 notícias da imprensa britânica a respeito dos artigos publicadas durante o ano de 2011.

Os press-releases foram coletados de repositórios de acesso aberto ao público (como EurekAlert) ou somente para jornalistas.

Os artigos analisados foram publicados nos seguintes periódicos: BMJ, Science, Nature, Nature Neuroscience, Nature Immunology, Nature Medicine, Nature Genetics.

Os textos noticiosos foram buscados no banco de dados Nexis, do Google, do site da BBC (www.bbc.co.uk) e da Reuters (uk.reuters.com).

As análises dos textos dos artigos, press-releases e nos jornais focaram quando a conselhos de saúde dados (sem conselho, conselho implícito, explícito mas não para os leitores ou para o público em geral, e conselhos explícitos para os leitores ou para o público geral), alegações causais (sem alegações, afirmação de ausência de relação, correlacional, ambígua, causação condicional, de que pode causar, e alegação de causa e efeito) e conclusões baseadas em pesquisa com humanos ou com sistemas não-humanos (frases indicando que a pesquisa foi realizada: explicitamente em sistemas não humanos como animais, células ou simulações; implicitamente em humanos; explicitamente em humanos). Outra característica analisada é se havia ressalvas ou justificativas.

Frequência de exageros
Conselhos
23% (IC: 17~28%) dos press-releases exageravam nos conselhos presentes nos artigos (conselhos mais diretos ou explícitos do que os sugeridos no trabalho científico).
Causação
21% (15~27%) dos press-releases de artigos correlacionais exageravam na alegação de causação.

Em trabalho anterior do grupo, press-releases das universidades apresentaram índices de exageração mais altos: 40% (33~46%) e 33% (26~40%), respectivamente. (Como as análises são realizadas somente comparando-se alegações feitas explicitamente e não entre as alegações e o que os próprios dados dizem, é possível que o nível de exagero real seja mais baixo do que o detectado: o exagero estaria já nos próprios artigos científicos.)

Exagero do press-release e na notícia
Houve uma forte associação entre o exagero no press-release o exagero na notícia.
Conselhos
27% (22~33%) das notícias exageraram no conselho em relação ao artigo e a probabilidade de ocorrer esse exagero era 2,4 (1,3~4,5) vezes maior quando o press-release também exagerava (46%, IC:32~60%) do que quando não (25%, 19~31%).
Causação
Nos casos de afirmações de correlação, 38% (27~51%) exageravam a causação e a probabilidade era 10,9 (3,9~30,1) vezes maior disso ocorrer quando havia (80%, 63~91%) exagero no press-release do que quando não havia (26%, 18~38%). Padrão similar ao encontrado em outro estudo com press-release de universidades.

Exagero e cobertura
Não houve uma maior cobertura midiática de artigos com press-release exagerados.
Conselhos
53% dos press-releases sem exagero nos conselhos tiveram os estudos noticiados, contra 34% dos press-releases com exagero (diferença de -19%, -5~-34%); a média de artigos noticiosos a respeito de trabalhos com press-releases sem exagero foi de 3,5 notícias, contra uma média 3,0 notícias de press-releases exagerados (IC: -1,5~0,6).
Causação
No exagero de causação, 49% dos press-releases sem exagero foram noticiados, contra 66% dos exagerados (17%, -1~35%); 3,1 notícias cobriram estudos com press-releases sem exageros sobre causas, contra 3,0 de press-releases que cometiam exagero (-1.2~1.2).

A ausência de associação entre exagero do press-release e cobertura da imprensa também espelhou estudo anterior com press-releases de universidades.

Ressalvas ('caveats')
Conselhos
15% dos press-releases apresentavam ressalvas quanto aos conselhos.
Causação
14% continham ressalvas quando às correlações.

Ressalvas nos press-releases e cobertura noticiosa
Não foi encontrado nenhuma relação entre a presença de ressalvas e a cobertura noticiosa.
Conselhos
Foram noticiados 48% dos press-releases com ressalvas quanto ao conselho contra 56% dos sem ressalvas (-28~12%).
Causação
63% dos press-releases com ressalvas quanto à causação foram noticiados, contra 47% dos sem ressalvas (3%~29%).

Ressalvas nas notícias
Conselhos
14% das notícias continham ressalvas quanto aos conselhos.
Causação
18% das notícias continham ressalvas quanto às correlações.

Ressalvas nos press-releases e nas notícias
A presença de ressalvas nos press-releases aumentam as chances de as notícias reportarem essas ressalvas
Conselhos
A probabilidade de haver ressalvas sobre conselhos nas notícias era 9,5 (2,8~32) vezes maior quando o press-release continham ressalvas (47%, 20~74%) do que quando não tinha (8.5%, 4,4~13%).
Causação
A probabilidade de haver ressalvas quanto à causação foi 7,6 (4,2~14) vezes maior quando o press-release fazia a ressalva (46%, 35~57%) do que quando não (10%, 6,5~13%).

Não se encontrou associação entre ressalvas e maior ou menor exageros nas notícias.

Justificativas
Conselhos
A jusrtificativa para os conselhos estive presente em 10% dos press-releases.
Causação
A justificativa para afirmações sobre causalidade ou correlação foi apresentada em 21% dos press-releases.

Justificativas e cobertura midiática
Não houve uma relação entre a presença de justificativas nos press-releases e a cobertura midiática.
Conselhos
74% dos press-releases com justificativas para os conselhos foram noticiados contra 53% dos press-releases sem justificação. (-2~41%)
Causação
43% dos press-releases com justificativas para as afirmações sobre correlações e causas foram noticiados contra 54% dos sem justificativas. (-15~2%)

Justificativas nas notícias
Conselhos
16% das notícias apresentavam justificativas quanto aos conselhos.
Causação
13% das notícias apresentavam justificativas quanto às afirmações de causação.

Justificativas no press-release e e nas notícias
A presença de justificativas nos press-releases aumentou a presença delas nas notícias.
Conselhos
As chances de se noticiarem as justificativas dos conselhos foram 6,1 (2,0~18) vezes maiores quando o press-release trazia justificativa (42%, 19~66%) do que quando não trazia (11%, 5,5~16%).
Causação
As chances de se noticiarem as justificativas das afirmações de causa foram 23 (11~50) vezes mais altas quando o press-release justificava (48%, 34~64%) do que quando não justificava (3.8%, 1,8%~5,8%).

A presença de justificativas sobre conselhos foi associada com notícias que exageravam os conselhos. Por outro lado, a de sobre causa e efeito foram foi associada com notícias que não exageravam, trazendo alertas de cautela.

via Dayane Machado fb.

domingo, 11 de setembro de 2016

Nem tudo o que doureja é lúzio 7

Nova rodada da gaiata ciência.

Goodman et a. 2014. A few goodmen: surname-sharing economist coauthors. Econimic Inquiry. Análise de coautoria de artigos de economia com autores de mesmo sobrenome. Segundo os autores, a principal contribuição do artigo é trazer pela primeira vez um artigo com quatro autores de mesmo sobrenome, sem haver relação de parentesco direto e todos de instituições diferentes. (Via @Cardoso.)
Wiseman & Watt 2015. And now for something completely different: Inattentional blindness during a Monty Python's Flying Circus sketch. Estudo da cegueira inatencional durante exibição de uma famosa esquete do Monty Python. (Via @carlosom71.)
Bunnett & Kearley 1971. Comparative mobility of halogens in reactions of dihabobenzenes with potassium amide in ammonia. Artigo de química em forma de poesia. (Via @scienceblogsbr)
Ardalan et al. 2015. The Value of Audio Devices in the Endoscopy Room (VADER) study: a randomised controlled trial.Artigo analisando a influência da música de Star Wars no resultado de exame de colonoscopia. (Via Carlos Orsi fb)
Hetherington, J.H. & Willard, F.D.C. 1975. Two-, three-, and four-atom exchange effects in bcc 3He. O segundo autor, F.D.C. Willard, é o gato de estimação do primeiro autor: F.D. de Felis domesticus, C. de Chester o nome do gato, e Willard, o nome do pai de Chester. O gato teria sido acrescentado como co-autor para que o artigo, originalmente com um único autor, não precisasse ser reescrito substituindo-se o pronome no plural 'we/nós' para o singular 'I/eu' (Via ScienceblogsBrasil fb.)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Oras bolas. Microesferas alienígenas como sementes panespérmicas? Short answer: Não.

Revista Galileu foi na onda do site do tabloide inglês Daily Express e publicou a matéria:
"Esfera de metal vinda do espaço expele material biológico e intriga cientistas"*

(Pausa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... Inspira. Expira. Inspira. Expira...)

Nada disso teria ocorrido se o Pica Pau tivesse avisado às autoridades tivessem seguido o protocolo alfa de notícia sobre astrobiologia, já publicado anteriormente no GR, mas reproduzido abaixo.

Figura 1. Reduza 83+/-24% dos micos do noticiário de astrobiologia com este simples diagrama.

A bizarrice está resumida no... bem, resumo do "artigo" (ahem) "científico" publicado, onde mais?, no Journal of Cosmology.

"A sphere of diameter 30 microns was isolated from the stratosphere at a height of between 22–27 kilometres. It was found to be mainly composed of titanium (with smaller amounts of vanadium). Nanomanipulation and EDX analysis showed that the titanium sphere contains a carbonaceous non-granular material which we suggest is a biological protoplast. Damage to the surface of the sphere revealed a carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature. The titanium sphere produced a distinct impact crater when it impacted the carbon sampling stub. We conclude by suggesting that this largely titanium sphere contains biological elements which impacted the sampling stub at speed as it made the journey from space to the stratosphere."
["Uma esfera de diâmetro de 30 mícrons foi isolada da estratosfera a uma altitude entre 22 e 27 quilômetros. Descobriu-se que ela é composta principalmente por titânio (com uma quantidade menor de vanádio). Nanomanipulação e análise por EDX mostraram que o titânio da esfera contém um material carbonáceo não granular que sugerimos ser um protoplasma biológico. Dano na superfície da esfera revelou um material carbonáceo, filamentoso com uma 'aparência tricotada', que também sugerimos ser de natureza biológica. A esfera de titânio produziu uma distinta cratera de impacto quando chocou-se contra o suporte de amostragem de carbono. Concluímos sugerindo que esta esfera composta principalmente de titânio contém elementos biológicos que se chocou contra o suporte de amostragem a alta velocidade enquanto fazia sua jornada do espaço para a estratosfera."]

Meodeos, liga de titânio e vanádio... só pode ser tecnologia <voz do grego louco
Tsoukalos mode on>ALIEN <voz do grego louco Tsoukalos mode off>. Não é algo que a Nasa usaria, por exemplo, nos escudos térmicos de suas naves:
"Temperatures will climb highest at the bottom of the Orion capsule, which will be pointed into the heat as it returns to Earth. The heat shield is built around a titanium skeleton and carbon-fiber skin that gives the shield its shape and provides structural support for the crew module during descent and splashdown." (Grifos meus.)
["As temperaturas irãoá subir ao máximo na parte debaixo da cápsula Orion, que estará voltada para o calor quando retornar para a Terra. O escudo de calor é construído em torno de um esqueleto de titânio com peleo de fibra de carbono que confere ao escudo sua forma e confere apoio estrutural ao módulo de tripulação durante sua descida e impacto na água."]

Ok, não é da Nasa, é da Lockheed Martin.

Liga de titânio-alumínio-vanádio como Ti-6Al-4V é usada em artefatos espaciais - (em uma das figuras do artigo, de espectrometria EDX - energy-dispersive X-ray spectroscopy - da liga, há um pico correspondente a alumínio, por algum motivo, não mencionam no texto - figura 2 desta postagem) - e, em sua composição, há traços de carbono e nitrogênio que os autores encontraram.

Figura 2. Aparência da microesfera metálica (painel A) e composição da liga metálica (painel B). O X é uma protuberância de material de composição distinta (rica em carbono). Fonte: Wainwright et al. 2014.

Não afirmo que seja exatamente de um escudo de calor, mas o que acharam podem perfeitamente serem restos desprendidos de um artefato que mandamos para o espaço. O balão utilizado no "experimento" dos autores foi lançado no dia 31 de julho de 2013.

Nessa data, o cargueiro espacial Progress M-023M fez uma reentrada destrutiva na atmosfera depois de levar suprimentos para a EEI. Outro objeto espacial a fazer reentrada no mesmo dia foi o corpo do foguete Delta 2. (Não sei se esses objetos especificamente contêm partes com titânio e glúten fibras de carbono, mas vários outros objetos espaciais reentram todo dia na atmosfera.)

Grifei também "fibras de carbono" porque os autores do "artigo" "científico" falaram em: "carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature".

No texto: "The particles of terrestrial origin also do not possess the 'knitted' layer of the LSO and any carbon they might contain would also likely be in the form of solid, granular soot particles which is not consistent with the organic ooze released from the LSO."["As partículas de origem terrestre também não têm a camada 'tricotada' do LSO - large spherical object, objeto esférico grande - e todo o carbono que elas contenham provavelmente estaria na forma de partículas de fuligem sólidas e granulares o que não é consistente com o limo orgânico liberado pelo LSO"] (Veja figura 3 desta postagem.)

Figura 3. Aparência do simbionte alienígena do uniforme negro do Homem-Aranha do material rico em carbono associado às esferas metálicas. Fonte: Wainwright et al. 2014

Aparentemente os autores acham que nanofibra de carbono é material extraterrestre.

Sério, os autores nem tentaram. O pessoal da Galileu também não. Não dá pra desculpar muito os jornalistas agora - não é a primeira vez que o Journal of Cosmology apronta: e, além dos impostos e da morte, podemos ter certeza também de que não será a última.

Via @OLucasConrado tw e Lúcia Eneida fb.

Upideite (22/fev/2015): Gilmar Lopes também comenta a nãotícia no e-farsas. Eu só discordo dos exemplos que ele traz de outros casos de esferas de titânio. Na verdade são esférulas de grafita de corpos celestes - como asteroides - com *traços* de titânio na forma de cristais de carbeto de titânio.

Upideite(25/fev/2015): Vou cravar a natureza dessa microesfera de titânio: é uma esfera de pó de liga de titânio Ti-6Al-4V grau 23: que apresenta diâmetros entre 17,36 e 44,31 µm. Esse pó é usado, por exemplo, para impressão 3D de objetos metálicos - geralmente com fusão (sinterização) com laser. O processo de sinterização leva a uma alteração da microestrutura e pode produzir poros. A microestrutura após a sinterização por tratamento térmico é muito similar à encontrada pelos autores (figuras 4a e 4b desta postagem).

a)
b)
Figura 4. a) Textura da esfera analisada por Wainwright et al. 2014. b) Alteração da textura por efeito da sinterização. Fonte: Reig et al. 2013.

A metalurgia de pó tem sido usada, por exemplo, para produzir compósitos de matriz de titânio reforçada por fibras de carbono.

Cuidado! Semente alien! Fonte: CNET.
Ou seja, a microesfera provavelmente é tão alienígena quanto o Banguela que os cientistas imprimiram para dar para uma garotinha que pediu a eles um dragão.

*Upideite(25/fev/2015): Em uma atitude louvável a Galileu acrescentou uma atualização de cautela na matéria.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Nem tudo o que doureja é lúzio 6

Uma rodada especial de gaiata ciência: o tema é "bloqueio criativo".

Dois artigos já haviam sido citados na segunda rodada.
Mas é praticamente uma subárea à parte da psicologia:

Tem até meta-análise:

Mas sempre tem aqueles que não sabem brincar:

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Nem tudo que doureja é lúzio 5

Uma nova rodada de gaiata ciência.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Denise Fraga, eliminar a Química do currículo é mesmo a solução? - leitores respondem

Reproduzo abaixo comentários de leitores do GR sobre o texto da Denise Fraga propondo a eliminação (ou drástica redução) do ensino de química nas escolas.

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Alexandre disse...
Tenho certeza que a fórmula de ensino usada em nossas escolas poderia ser melhorada. Sem nenhuma autoridade no assunto, eu tenho grande simpatia pelo método de aprendizado por projetos, pois me parece buscar o que mais falta na escola: alinhar o interesse e curiosidade da criança com o conteúdo a ser aprendido, além do enorme valor didático de aprender fazendo.

Mas a Denise Fraga foi de um simplismo lamentável. Sugerir que a internet substitui o conteúdo escolar foi muito infeliz. Como você disse, a criança ou jovem não teriam nem a base pra julgar a qualidade do conteúdo que encontrassem. Seria simplismo meu achar que isso acabaria em pornografia, Facebook e teorias conspiratórias?
8 de agosto de 2014 04:14
Prof. José Antonio Dias disse...
Simplesmente sensacional. Quem sabe algum químico genial consiga criar um antídoto para a falta de senso das celebridades e pessoas públicas notórias, as quais vêm com frequência aos meios de comunicação prestar um desserviço à já tão combalida educação do nosso país?
8 de agosto de 2014 05:21
João Carlos disse...
Há dois lados nesta moeda... A química, assim como a física e a biologia são assuntos fascinantes. Eu só gostaria de saber por que mil raios o ensino da química no 2º grau consegue transformar tudo isso em trabalho braçal, chato, desmotivante e repulsivo.
Existe coisa mais chata do que ser "armadilhado" com um "equilíbrio de equação química", notadamente daquelas que só acontecem no papel?
Será que a introdução ao princípio da "valência" tem mesmo que ser pretexto para exercícios e questões de prova de preenchimento dos suborbitais spdf?
Mas tudo o que eu disse sobre química, física (por que se tem que decorar as fórmulas, pelamordedeus?!... A aplicação das fórmulas é que é importante), serve para todas as matérias. Se eu não pretendo ser um linguista, de que me serve saber se tal ou qual poeta é gongórico ou romântico?
8 de agosto de 2014 06:36
Caruê disse...
Compreendo a ´´critica`` extremamente simplista que a Denise fez, já fiz ela a respeito da literatura e da gramatica quando criança. Não preciso refutar ela o texto já fez isso.
O ensino de Química tem muito a ser melhorado, mas reduzir a 1 ano é uma piada, Decisões fundamentais a respeito do clima e da própria saúde necessitam de um conhecimento em Química, um cidadão e eleitor precisa saber Química, Física, Matemática Historia, economia e Geografia para votar.
Como sugestão: precisamos unir a teoria com a pratica realizando experimentos, precisamos dar uma abordagem ampla de como a ciência é feita, socar fatos é o que gera pessoas ignorantes.
´´Ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos`` Carl Sagan
8 de agosto de 2014 12:06
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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Denise Fraga, eliminar a Química do currículo é mesmo a solução? Não seria precipitado?*

A atriz da Rede Globo de Televisão Denise Rodrigues Fraga Villaça escreveu um artigo na Folha de São Paulo reclamando do conteudismo escolar pegando a Química pra cristo (e sobrando até pra biologia): [cuidado, paywall poroso!] "Química, pra que te quero?".

Arrisquei-me a discutir algo similar (com conclusão virtualmente oposta), mas em um contexto de educação *informal*, não na escola. Não me sinto muito confortável discutindo políticas educacionais. Não tenho formação na área, não cursei a Escola de Teatro Martins Pena.

Assim, não irei discutir tanto sobre como a educação deve ser e o que deve ser ensinado, quanto apontar inconsistências nas críticas da atriz e convidar para um outro olhar.

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No primeiro parágrafo a atriz faz a provocação: "Que me perdoem os químicos, mas alguém poderia me dizer por que ainda se estuda química nas escolas?" Curiosamente, ela mesmoa dá uma resposta logo em seguida: "É uma linda ciência e concordo que deveríamos ter ao menos um ano de estudo da matéria para entender a composição das coisas que juntas e inter-relacionadas compõem o Universo."

A bem dizer, a Física dos Elétrons de Valência - aka Química - trata só da matéria comum: átomos formados por um núcleo de prótons e nêutrons orbitados por elétrons ou na forma de plasma - que compõe menos de 5% do Universo (uns 70% são formados por energia escura e uns 25% por matéria escura). Mas no nosso dia a dia está ostensiva e fundamentalmente presente. Dá mesmo para abrir mão disso? Quando há campanhas contra aditivos químicos nos alimentos vamos confiar apenas no que nos dizem ou usaremos nossos instintos para saber quem tem ou não razão? E sobre o uso e controle de agrotóxicos? Medidas de combate à poluição atmosférica, das águas e do solo? A sua resposta é: "O acesso à informação anda no nosso bolso a um clique de nossos dedos e mesmo assim precisamos decorar os nomes do aparelho reprodutor dos platelmintos?/Podemos saber de tudo navegando por aí. Tanto pra aprender! E quem nos ensina a escolher o que queremos saber?". Bem, há mais de um aspecto que precisamos levar em conta:

1) Por enquanto, pouco mais de 100 milhões de pessoas têm acesso à internet. Cerca de metade dos brasileiros *não* tem acesso à informação "a um clique".
2) É preciso ter uma certa habilidade para pesquisar na internet: saber os termos para pesquisar e filtrar os resultados. Seria interessante que se ensinasse a nossos filhos nas escolas, ao menos assim me parece. Mas isso substitui as aulas de química e de biologia? Como pesquisar sobre aparelho reprodutor de platelmintos se você não sabe o que significa "aparelho reprodutor" e nem sabe que platelmintos existem? A pesquisa tende a se tornar ineficiente e há grandes os riscos de ir parar em uma página pouco confiável.
3) Talvez a maturidade a respeito da escolha do que queremos saber passe por ter um bom conhecimento básico e que seja amplamente partilhado. Algum aluno pode se interessar por saber mais como a pesquisa por melhores corantes de tecidos levou ao desenvolvimento da indústria da química fina, que, entre outras coisas, permitiu o desenvolvimento de novos medicamentos. Mas como ele iria saber que se interessa por isso sem nem saber sobre química? Como teremos alunos inclinados a serem químicos, bioquímicos, engenheiros químicos, petroquímicos, técnicos diversos (como aqueles essenciais que fazem testes de segurança de um sem número de compostos que você e todo mundo usa: de cosméticos a alimentos e medicamentos -?) sem que eles saibam o que é química?
4) Decorar o nome do aparelho reprodutor dos platelmintos - que, por acaso, tem o mesmo nome do nosso: "aparelho reprodutor" (sim, alguns órgãos têm nomes diferentes como o "poro genital"; outros, como "testículo", o mesmo) - é menos importante do que entender a diversidade de modos reprodutivos entre os seres vivos e como os padrões de similaridades e diferenças nos unem a todos. Sério, Denise Fraga, não faz sua cabeça explodir saber que somos relacionados por *parentesco* aos platelmintos? Saber que temos um ancestral em comum remoto com eles e outros ancestrais em comum - mais recentes ou mais antigos - com todos os demais seres vivos conhecidos até o momento? Saber que a despeito de tantas diferenças na aparência, platelmintos e nós, somos formados essencialmente do mesmo modo: a partir da fusão de células reprodutoras e posterior divisão celular e diferenciação das células resultantes?

Para a atriz, ensinar um jogo seria mais negócio: "Mas por que não optar por xadrez, por exemplo? Você já viu alguém jogar cadeias de carbono e hidrogênio com um amigo numa tarde chuvosa? Imagina que maravilha seria se todos nós fôssemos potenciais jogadores de xadrez formados pela escola?". Novamente, vários aspectos:

1) Há escolas que ensinam xadrez e outros jogos de tabuleiro e salão, além de práticas desportivas diversas (e até artes dramáticas). Mas não fazem isso *no lugar* da química. São atividades distintas, não concorrentes.
2) Imagina, então, se todos fôssemos pessoas que entendessem bem de química? Uma porção de dinheiro seria economizada fugindo-se de bobagens pseudocientíficas como homeopatia - com o bônus de melhora em nossa saúde. Não cometeríamos imprudências várias: como queimar a mão no gesso, ingerir metanol, cozinhar com ascarel, deixar de vacinar por causa do esqualeno, misturar água sanitária com amoníaco, provocar incêndio por largar pano com linhaça, etc., etc., etc.
3) Resistirei à tentação de maldar com a imagem de dois amigos lançando moléculas hidrocarbônicas um no outro (de compostos psicoativos a secreções biológicas); mas há vários jogos baseados na química - eu adorava os kits de químico mirim ou, em vez de decorar a tabela periódica, pode-se jogar com ela.

Provavelmente há necessidade na revisão da abordagem, já que nem você, nem seus filhos aprenderam adequadamente - não que eu saiba tudo o que se deva saber sobre química. Mas será que essa revisão é a simples eliminação da disciplina ou sua drástica redução a apenas um ano durante todos os 12 anos do ensino básico? Não poderia justamente ser uma melhora na ênfase da relevância do conhecimento químico? Da aproximação de tais conhecimentos com o nosso dia a dia? (Não são nenhuma abordagem revolucionária e estão presentes como parâmetros curriculares nacionais desde meados da década de 1990. Talvez o problema seja de sua efetiva implementação.)

*Uma das vantagens de ter uma cultura mínima em Química é entender a piada do título.

Upideite(07/ago/2014):  Uma compilação do que outros blogues de ciências comentarem será feita aqui.

Ceticismo.net: Químicos, para que vos quero?
Jornal da Ciência: Química: como te quero!*

Upideite(08/ago/2014): Só estou pegando no pé, mas Denise Fraga cometeu um autoplágio, muito do que ela escreveu para a Folha, ela já havia escrito para a revista Crescer.

Para a atriz, sem surpresas, ir ao teatro é mais importante do que conhecer química. Bem, um bom número de brasileiros também viveram até hoje sem nunca ter assistido a uma única peça de teatro. É triste, mas ao mesmo tempo revela que o teatro não é tão importante assim para se usar no dia a dia. Não digo que as pessoas não devam ir ao teatro, acho que até devem ir e seria interessante haver uma introdução à cultura do teatro para crianças. (Eu pessoalmente não tenho as melhores lembranças da experiência com a nobre arte dramática - não entro em detalhes, pois seria oversharing e não vem ao caso.) Mas, se o argumento é que o ensino da química não é importante porque as pessoas não usam, bem, teatro seria menos importante ainda. E também posso baixar encenações de Shakespeare na internet, bem como o texto, se eu quiser impressionar alguma gateeenha recitando trechos de Romeu e Julieta.

O texto na Crescer é de 2009; o da Folha, de agora, 2014. Ela já achava o ensino da química na escola ruim há 5 anos. Não sei se chegou a trocar de escola, a contratardo professor particular, a ter ela mesmo aproveitado que o conhecimento de química estava a um clique de distância e usado isso pra ensinar a seus filhos. Se não fez, não foi um tanto relapsa e omissa quanto à educação dos filhos? Se o fez, não significa que o "conhecimento a um clique de distância" não é tão efetivo assim?

Upideite(08/ago/2014): Ainda é só pegação de pé, mas, em 2002, o Conselho Regional de Química da 4a Região cedeu espaço para que cenas do filme que ela estrelava fosse gravado. Fosse, hoje, o pessoal do CRQ-IV poderia aproveitar para dar uma palestra sobre a importância do conhecimento de química para uma pessoa poder exercer sua cidadania mais plenamente.

Upideite(10/ago/2014): Disclêimer - sei que pelo texto acima não parece, mas eu sou fã do trabalho de Denise Fraga como atriz.

Upideite(16/ago/2014): A Sociedade Brasileira de Química manifestou-se sobre o texto na Folha.

*Upideite(29/set/2014): adido a esta data.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Nem tudo que doureja é lúzio 4

Mais gaiata ciência.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Nem tudo que doureja é lúzio 3

Um pouco mais da gaiata ciência.
  • Cyr, C. & Lanthier, L. 2007. One giant leap for mankind? A cost-utility of abolishing the law of gravity. (Um estudo sobre o quanto seria economizado em saúde se por uma simples canetada fosse possível diminuir a intensidade do campo gravitacional terrestre. Inspirado por uma proposta galhofa do Neo Rhino Party do Canadá - sim, eles têm o Cacareco deles.) (via @Cardoso)
  • Dickison, M.R. 2009? Paedomorphic flightlessness and taxonomic affinities of a enormous Recent bird of What, if anything, is Big Bird?
  • (Afinal, qual a afinidade taxonômica de Garibaldo (Grandicrocavis viasesamensis)?) (via @john_s_wilkins)

  • Kamp, M.A.; Slotty, P.; Sarikaya-Seiwert,S.; Steiger, H.J. & Hänggi, D. 2011. Traumatic brain injuries in illustrated literature: experience from a series of over 700 head injuries in the Asterix comic books. Acta Neurochir (Wien) 153(6):1351-5. (Uma análise de golpes na cabeça em 34 livros dos valentes gauleses de Goscinny e Uderzo e os fatores de riscos associados à severidade dos traumas.) (via @carlosom71)
  • Hurlber, S.H. 1990. Spatial Distribution of the Montane Unicorn. Oikos 58(3): 257-71. (Populações da fictícia espécie recém-descoberta do unicórnio de Montana - Monoceros montanus - serve como base para uma crítica a respeito dos critérios analíticos usados na caracterização da distribuição espacial de organismos.)
  • Johnsgard, P.A. & Jonsgard, K. 1992. Dragons & Unicorn: A Natural History. St. Martin Press. 76 pp. (Professor emérito em Ciências Biológicas da Universidade de Nebraska em Lincoln, Paul Jonsgard traça no livro toda a história natural - biologia, anatomia, ecologia e evolução - de dragões e unicórnios.)
  • Sandvik, H. & Baerheim, A. 1994. [Does garlic protect against vampires? An experimental study]. Tidsskr Nor Laegeforen 114(30): 3.583-6. (Artigo em norueguês sobre o efeito do alho na ação de sanguessugas, que foram usadas no lugar de vampiros. Infelizmente o tamanho amostral - n = 3 - é bem pequeno.. (via @scienceblogsbr e astropt)

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Nem tudo que doureja é lúzio 2

Um pouco mais da gaiata ciência.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Nem tudo o que doureja é lúzio

Nem toda falsa ciência é pseudociência. Há uma classe de falsa ciência que procura apenas ser divertida - admitindo não ser o que finge ser (resisto aqui a fazer a batida citação pessoniana da autopsicografia).

Há ainda a ciência legítima que atua, propositadamente, sobre campos imaginários: algumas vezes para servir de exercício didático a respeito dos princípios subjacentes - aclarar a lógica de um mecanismo ou processo analítico.

(Mas explorar as causas profundas desse fenômeno é uma tarefa da psicossociologia das ciências. Desconheço algum trabalho que analise a fundo a necessidade dos cientistas em produzir esse tipo de artigo.)

A quintessência do processo científico é o paper. Quando se fala em conhecimento científico legitimado o ícone é o artigo científico publicado em revista indexada revisado por pares. (É um dos poucos casos em que se fala de autorregulação sem se ouvir tosses dissimuladas, engasgos ou ver narizes torcidos - talvez por não se explicitar que isso significa apenas que é ciência aquilo que os cientistas mesmos dizem que é ciência...) É a medida de produtividade, em cima dele derivam-se os valores bibliométricos e cienciométricos - que irão embasar o mérito de uma pesquisa e de seus pesquisadores.

Nada mais natural então que essa peça central da comunicação (disseminação) científica seja um dos alvos preferenciais da gaiata ciência (com o devido perdão a Nietzsche pela corrutela).

Segue uma coleção de artigos científicos (publicados em revistas científicas ou livros, de outro modo, sérios), falsos artigos científicos (incluindo os publicados em revistas científicas - especialmente os que vão dentro do espírito do 1o de abril) e artigos de natureza intermediária (ou indeterminada):
(Provavelmente acrescentarei mais referências posteriormente, mas por certo não há pretensão de se fazer aqui uma listagem exaustiva... há muitos mais do que pode caber em uma simples postagem.)

Upideite(15/mar/2011): Parte 2, a missão.

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