Lives de Ciência

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quinta-feira, 6 de abril de 2023

Divagação Científica - divulgando ciências cientificamente 40: revisões de terminologias e conceitos

Pequena lista de artigos com revisões terminológicas e conceituais.

*Bueno, WC. 1985. Jornalismo científico: conceito e funções. Ciência e Cultura 37(9): 1420-7.
Conceitos: Difusão científica, Disseminação científica, Divulgação científica, Jornalismo científico.

*Burns, TW; O'Connor, DJ & Stocklmayer, SM. 2003. Science communication: a contemporary definition. PUS 12(2): 183-202.
Conceitos: Science communication/Communication, Public awareness of science/Awareness, Public understanding of science/Understanding, Scientific culture, Scientific literacy, Public(s) (lay public, science community/science practioners), Participants, Outcomes and responses, Science. (adido a 07.abr.2023)

*Germano, MG & Kulesza, WA. 2007. Popularização da ciência: uma revisão conceitual. Caderno Brasileiro de Ensino de Física 24(1): 7-25.
Conceitos: Vulgarização da ciência, Alfabetização científica, Divulgação científica, Popularização da ciência.

*Caribé, RCV. 2015. Comunicação científica: reflexões sobre o conceito. Informação & Sociedade: Estudos 25(3):89-104.
Conceitos: Comunicação científica, Difusão científica, Disseminação da ciência (intrapares, extrapares), Divulgação científica, Popularização da ciência/científica, Alfabetização científica/em ciências, Comunicação pública da ciência, Cultura científica (da ciência, pela ciência, para a ciência).

*Bucchi, M & Trench, B. 2016. Science Communication and Science in Society: A Conceptual Review in Ten Keywords. Tecnoscienza 7(2): 151-68.
Conceitos: Popularisation, Model of communication, Deficit, Dialogue, Engagement, Participation, Publics, Expertise, Visible scientists, Scientific culture/Culture of science.

*Cunha, RB. 2017. Alfabetização científica ou letramento científico?: interesses envolvidos nas interpretações da noção de scientific literacy. Rev. Bras. Educ. 22(68): 169-86.
Conceitos: Alfabetização científica, letramento científico, scientific literacy.

*Rocha, M; Massarani, L & Constanza, P. 2017. La divulgación de la ciencia en América Latina: términos, definiciones y campo académico. In Massarani, L et al. 2017. Aproximaciones a la investigación en divulgación de la ciencia en América Latina a partir de sus artículos académicos. Fiocruz. 208 pp. Pp: 39-58.
Conceitos: Vulgarización de la ciencia, Divulgación de la ciencia/científica, Comunicación de la ciencia, Educación formal/no formal/informal en ciencia, Popularización de la ciencia, Alfabetización científica, Comunicación pública de la ciencia, Percepción social de la ciencia, Democratización de la ciencia, Apropriación social del conocimiento científico/apropriación de la ciencia.

*Santos-d'Amorin, K & Miranda, MFO. 2019. Informação incorreta, desinformação e má informação: Esclarecendo definições e exemplos em tempos de desinfodemia. Encontros Bibli 26: 1-23.
Conceitos: Information, misinformation, disinformation, malinformation. (1)

(1) Upideite(24.mai.2023): adido a esta data.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Minidiretório de cursos de DC, JC e afins

Uma relação de cursos de ofertas regulares (ou contínuas) em divulgação científica e jornalismo científico. À medida em que eu souber de mais, vou acrescentando.

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G/P: gratuito/pago; A/F: aberto (sem processo seletivo)/fechado; E/Pr: EaD/presencial; S/C: sem certificação/com certificação; CH: carga horária

GAES:
Curso On line de Jornalismo Científico: WFSJ (CH: ?)
Introdução à Divulgação Científica: Fiocruz Campus Virtual/INCT-CPCT (CH: 30 h)
Introdução ao Jornalismo Científico: NeuroMat (CH: ?)

GAPrC:
Curso de Comunicação e Divulgação Científica: ICB/USP (CH: 16h; 3 dias)
Fala Ciência: curso de comunicação pública da ciência e tecnologia: Rede Mineira de Comunicação Científica (CH: 5,5 h; 1 dia) - vários locais

GFPrC:
.Lato Sensu
Especialização em Jornalismo Científico: Labjor/Unicamp (CH: 360 h; 3 semestres)
Especialização em Divulgação e Popularização da Ciência: Museu da Vida, Casa da Ciência/UFRJ, Cecierj, Mast, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do RJ (CH: 390 h: 8 meses)
Especialização em Educação e Divulgação Científica: IFRJ (CH: 360 h; 3 semestres)
.Stricto Sensu
Mestrado em Divulgação Científica e Cultural: Labjor/Unicamp
Mestrado em Divulgação de Ciência, Tecnologia e Saúde: COC, IP Jardim Botânico do RJ, Mast, Cecierj, UFRJ
Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento: UFBA

PFPrC:
Especialização em Jornalismo Científico, Médico e Ambiental: FIAM/FAAM (CH: 400h; 3 semestres)
Especialização em Divulgação da C&T e Promoção da Cultura Científica: LAbI/UFSCar (CH: 378 h; 3 semestres)
Especialização em Comunicação Pública da Ciência/Amerek: UFMG (CF: 360h; 3 semestres)
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Não incluí disciplinas específicas que são ofertadas em algumas IES, já que o processo de seleção é para outros cursos (como o caso do curso "Divulgação Científica na Internet", como disciplina de pós-graduação do IQ/USP).

quinta-feira, 30 de março de 2017

Divulgação científica = garoto de recados?

Nem ia comentar sobre a publicação pela Rádio USP/Jornal USP de matéria do jornalista Ciro Marcondes Filho, professor da ECA/USP, requentando desinformação a respeito do piriproxifem e microcefalia. O máximo que fiz foi atualizar uma das postagens em que analisava a indagações a respeito do composto e da formulação Sumilarv. O Jornal da USP deu espaço para o texto de contestação feita pelo imunologista Jean Pierre Schatzmann Peron, professor do ICB/USP e membro da Rede Zika. Esse texto originalmente foi publicado no Café na Bancada. Na página com a reprodução da coluna de Marcondes, o Jornal da USP apensou também manifestações de algumas pessoas - a maioria da comunidade uspiana - rebatendo e criticando o teor original.

O que me chamou atenção, no entanto, foi a resposta do Professor Marcondes a essas críticas. Diz ele:

"Convém reforçar que o trabalho da divulgação científica é chamar a atenção da sociedade para questões emergentes e atuais. Ela apenas repassa aquilo que preocupa os cientistas e que pode ter, por isso, efeitos sociais maiores. Não lhe cabe discutir se a constatação, no caso, da associação argentina de médicos, é justa ou não; essa tarefa é da Academia, a quem compete, em fóruns próprios, apresentar as demonstrações em contrário."

Com todo o respeito profissional que o jornalista mereça, aqui tenho que discordar fortemente. O trabalho do divulgador de ciências não é apenas repassar a preocupação dos cientistas. Cabe, sim, ao divulgador estar capacitado para discutir as alegações; ou, no mínimo, então, trazer a visão corrente das ciências, p.e., entrevistando pesquisadores confiáveis (que pesquisem o tema e, preferencialmente, que tenham uma boa reputação acadêmica - podem até eventualmente serem relativamente desconhecidos; mas certamente deve se evitar aqueles que têm uma reputação ruim por publicar trabalhos metodologicamente falhos ou, pior, por fabricar dados ou forçar conclusões que não se sustentam nas observações disponíveis).

No caso em questão há duas agravantes: a primeira é que é um tema requentado. Já tem todo um ano em que inicialmente o questionamento veio à tona e houve toda uma discussão e contra-argumentações, inclusive com dados novos confirmando a relativa segurança do composto (e mais, o autor ignorou as publicações com resultados que indicam claramente que o ZIKV está envolvido causalmente na microcefalia das crianças afetadas). E, em segundo lugar, o autor dá como fonte um sítio web de reputação duvidosa, conhecido como sensacionalista e pouco zeloso na apuração dos fatos - se é que faz alguma (poderia pelo menos haver se baseado no próprio relatório da Reduas, organização argentina que alegou problemas com o piriproxifem).

Já discuti aqui no GR, o papel (ou, antes, os papéis) da DC: como watchdog e como relações públicas das ciências. Trazer irrefletidamente como boa ciência uma alegação sem fundamento não cumpre nem um nem outro papel. É perdoável cair em erros por confiar em fontes reputadas, no consenso científico, na ciência mainstream: que não são infalíveis, mas têm mecanismos para diminuir as chances de falhas e, principalmente, de corrigir as falhas. Mas já é meio forçar a amizade republicar sem analisar mais detidamente alegações de fontes marginais, que desafiam o que é bem estabelecido em ciências: quase nunca têm esses mecanismos de correção e checagem (não vão às fontes originais, não estudam a metodologia, não perguntam para profissionais da área se as alegações fazem sentido...)

Se é verdade que, como diz Marcondes, um dos papéis da DC é de "chamar a atenção da sociedade para questões emergentes e atuais"; o divulgador deve trazer questões que realmente são emergentes e atuais. Isto é, há um julgamento do divulgador sobre o que é um tema emergente e atual. Não é um simples garoto de recados que repassa o que quer que lhe ponham em mãos; cabe analisar se a pretensa informação é realmente candente, é realmente importante, é realmente relevante, é realmente um questionamento válido.

E, se questionado a respeito da candência, da importância, da relevância e, mais do que tudo, da validade da informação, o divulgador haverá de ou admitir o erro (todo mundo erra às vezes) ou colocar a sua apuração* sobre a candência, importância, relevância e validade na mesa, defendendo-se com base nos elementos apurados. E não com base em jogar a batata quente pra outrem (no caso, a Academia) e lavar as próprias mãos. O que piora é que a Academia *havia* feito sua parte e, nos fóruns próprios (i.e. em artigos publicados em revistas com revisão por pares e indexadas), apresentado demonstrações em contrário (Albuquerque et al. 2016 -  os autores analisaram a incidência de microcefalia em cidades pernambucanas e não encontraram correlação com uso de piriproxifem, e Dzieciolowska et al. 2017 - em que não obtiveram alterações do tamanho cerebral ou do padrão de expressão gênica no órgão em larvas de peixe paulistinha). Embora na verdade o ônus da prova coubesse a quem alega: deve, antes, haver uma demonstração em fórum próprio da possibilidade de ligação entre o composto e a má formação (a bem da verdade, até houve alguns artigos em defesa da tese, como o de Truong et al. 2016, que detectaram efeito neurotóxico do piriproxifem em larvas de peixe paulistinha, mas em contrações muito acima das utilizadas na profilaxia contra mosquitos).

*Obs: A ausência de apuração adequada se constata em vários pontos:
1) A própria publicação da nota com a desinformação;
2) A publicação *um ano depois* do caso já ser discutido;
3) A ausência de contraponto como as contestações científicas em artigos publicados;
4) O fato de ter que publicar uma errata a respeito da ligação (que não há) da Monsanto com o larvicida;
5) Não ser o primeiro caso de publicação de alegações sem base e sensacionalistas:
6) Uso de fontes inadequadas (no caso, um site sensacionalista).

Veja também o que a DCsfera anda falando sobre o tema:
Jean Pierre Schatzmann Peron/Café na Bancada. 21.mar.2017: Mitos desmistificados! Piriproxifeno e a microcefalia.
Carlos Orsi. 23.mar.2017:  O baixo-ventre da divulgação científica.

domingo, 9 de outubro de 2016

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 27

Minhas anotações do artigo de Eveland & Cooper (2013) onde os autores apresentam um modelo integrado da influência dos meios de comunicação sobre as crenças a respeito das ciências.

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Eveland, W.P.Jr. & Cooper, K.E. 2013. An integrated model of communication influence on beliefs. PNAS 110:14088–14095.

Padrões das Informações Científicas no Conteúdo das Mídias
.a maior parte dos artigos científicos na imprensa são sobre saúde e medicina;
.cobertura de um tópico científico na mídia varia de mídia para mídia (e.g. telejornal ou jornal impresso; telenovela ou romance), de local para local, ao longo do tempo e de acordo com o tópico;

Padrões de Seletividade na Exposição Midiática
.a escolha das mídias através das quais obter informação e entretenimento varia de indivíduo;
.essa escolha sofre influência do status socioeconômico do indivíduo (p.e. indivíduos com renda e educação mais altas consomem mais informação veiculadas por meio de jornais do que indivíduos de menor renda e escolaridade);
.também é influenciada pela visão política (pessoas com tendências mais conservadores procuram mais mídias com visões alinhadas a elas; indivíduos com visão mais liberal tendem a procurar mídias e programas igualmente mais liberais);
.idade e sexo também influem. Homens e mais velhos (e de maior renda e escolaridade) tendem a consumir mais notícias do que entretenimento.

Indícios de impacto das mídias
.Modelo de Mediação Cognitiva
.importância da motivação em dirigir o nível de processamento de informações em que os indivíduos se engajam com a exposição à mídia e a importância do processamento da informação na aprendizagem através da mídia;
.a motivação sozinha não leva ao conhecimento; ela leva ao conhecimento através do encorajamento da atenção ao conteúdo relevante da mídia e à elaboração dela, aumentando a probabilidade de sua memorização e recuperação posterior da informação;
.o conhecimento adquirido através da mídia influencia no processamento de novas informações mediadas;

Hipótese do Desvão de Conhecimento ('knowledge gap')
.o impacto da mensagem midiática no conhecimento e crença dos indivíduos não é uniforme em todos os segmentos da sociedade;
.indivíduos com maior status socioeconômico (SSE) - principalmente com maior nível educacional - aprendem de modo mais rápido e efetivo as informações mediadas;
.a educação tanto guia a comunicação (uso da mídia e discussão da informação) quanto modera seu efeito - com maior efeito entre os de nível educação maior: com o tempo pode aumentar o desvão de conhecimento entre os grupos;
.a motivação tem efeito similar ao SSE: utilidade da informação baseada na necessidade e desejos guiam sua busca e retenção;
.o desvão pode ser tanto aumentado quanto diminuído de acordo com as formas de comunicação;

Teorias de Cognição Cultural/Hipótese do Desvão de Crença ('belief gap')
.teorias da cognição cultural: papel dos valores na moderação da influência das mídias;
.indivíduos são avarentos cognitivos: realizam o menor esforço mental possível para atingir um objetivo;
.assim lançam mão pesadamente de esquemas culturais para realizar o processamento informacional;
.os valores modelam e enviesam os pensamentos;
.a mesma informação é processada de modo diferente por indivíduos com valores diferentes - ajustam a nova informação aos valores que possuem previamente;
.hipótese do desvão de crença: efeito similar à hipótese do desvão de conhecimento, mas com ideologias políticas fazendo o papel do SSE;
.na medida em que uma questão política é politizada, as diferenças nas crenças entre os diferentes grupos de ideologia política aumentam com a maior atenção midiática ao tema;

Hipótese dos Ganhos Diferenciais/Hipótese da Interação Intramidiática ('differential gains/intramedia interaction')
.hipótese dos ganhos diferenciais: influência do uso de mídia é determinada em parte pela presença ou ausência de discussão interpessoal;
.a discussão de um tópico encontrado na mídia melhora a compreensão e aumenta a lembrança posterior da informação;
.hipótese da interação intramidiática: o impacto do uso da mídia entre diferentes fontes e canais não tem efeito somente aditivo;
.o impacto de uma fonte (p.e. FoxNews vs CNN) ou forma (p.e. CNN vs CNN.com) depende de qual outra fonte/forma é utilizada também;
.uso de fontes redundantes leva um retorno diminuído ao invés de aditivo, uso de fontes diversas complementares pode levar a um efeito aditivo ou sinergístico;

Mediação Intramidiática/Intracomunicacional ('intramedia/intracommunication mediation')
.mediação intramidiática: as formas de comunicação não são contribuidores independentes do efeito da mídia, mas trabalham em conjunto na produção do efeito;
.uma forma de comunicação pode levar ao uso de outra forma de comunicação, assim o impacto da mídia na crença pode ser ao mesmo tempo direto e mediado (ao usar outra forma de comunicação) (p.e. ver a notícia de uma descoberta científica no telejornal matinal pode levar à busca de mais informações - ou de visão diferente - sobre o tema em outros sites noticiosos);
.mediação intracomunicacional: o mesmo efeito pode se dar entre os usos das mídias e as discussões interpessoais;
.o efeito da mídia de massa pode incitar discussões interpessoais alterando as crenças em última instância ou antecipação de discussões pode levar a um uso preparatório da mídia, também alterando as crenças;

Modelo de Espirais de Reforço ('reinforcing spirals')
.modelo de espirais de reforço: reciprocidade entre a seleção de mídia e os efeitos;
.embora o uso de mídias possa alterar as crenças científicas, certas crenças científicas pode influenciar a extensão de uso de mídia, bem como levar a exposição seletiva de certas mensagens midiáticas;

Modelo Estendido da Probabilidade de Elaboração e Modelo de Superação da Resistência pelo Entretenimento ('Extended Elaboration Likelihood Model/Entertainment Overcoming Resistance Model')
.modelo estendido da probabilidade elaboração: salienta a ampla gama de motivações na seleção de diferentes formas de mídia e na implicação dessas motivações sobre como as informações são processadas;
.modelo de superação da resistência pelo entretenimento: a partir do EELM, procura explicar como certas características do conteúdo narrativo da mídia (como programas de ficção da TV e filmes) podem superar a resistência a mensagens embutidas;
.quando indivíduos estão conscientes de uma mensagem, eles podem resistir a elas pela reatância (resistência à pressão da mensagem para a mudança) e contra-argumentação (produção de pensamentos que contradizem a mensagem persuasiva);
.mídia de entretenimento pode reduzir essas formas de resistência pelo maior envolvimento com a narrativa;

Hipótese da Cultivação ('cultivation')
.hipótese da cultivação: quanto mais tempo um indivíduo passa no mundo de uma mídia, mais suas crenças sobre o mundo real serão similares ao conteúdo do mundo dessa mídia;
.o uso intensivo de uma mídia correlaciona-se positivamente com a posse de crenças consistentes com a mídia, a despeito da representação da realidade dessa mídia ser ou não objetivamente correta.

Modelo Integrado da Influência da Comunicação sobre Crenças (Científicas): IMCIB


Figura 1. Modelo Integrado de Influência da Comunicação sobre Crenças. Fonte: Eveland & Cooper 2013.

Antecedentes ('priors'): fatores mais ou menos estáveis e de longa duração que podem ter pelo menos uma influência indireta (por meio da exposição comunicativa e processamento) sobre as crenças;
.sociodemografia: sexo, renda, raça, nível educacional...
.ideologia política;
.motivação: interesse em um tópico em particular, temas relevantes para o emprego, desejo de fazer uma escolha acertada (e.g. eleições e compras);
.afetam a crença através da exposição à comunicação e processamento ou por variáveis que diminuem ou aumentam o impacto da exposição à comunicação e processamento, podem ter efeitos direitos também;

Efeitos diretos da comunicação: efeitos simples e direitos sobre a crença são esperados desde que a mídia veicule um mínimo de informações relevantes para a crença;
.os estudos sobre o efeito da mídia na crença devem apresentar dados empíricos ou premissas explícitas sobre a natureza do conteúdo da mídia;

Processos de mediação: embora alguns efeitos diretos sejam esperados, a maior parte deve se dar por processos mediados:
1) a maior parte da mediação deve se dar pelo processamento das informações, ainda que algum aprendizado automático e não intencional possa ocorrer;
2) o uso de uma forma de comunicação tem impacto no uso de outras formas;
3) informação mediada pode estimular discussão interpessoal ou antecipação de discussões pode levar à busca de informações na mídia;

Processos moderadores: exposição a determinadas formas de comunicação são mais efetivas para certos subgrupos (como com maior SSE e educação);
.maior eficiência quando a informação é consistente com valores preexistentes (por exposição seletiva e por haver maior tendência à contra-argumentação para informações dissonantes);
.a contra-argumentação pode variar de acordo com o formato (noticário, entretenimento, publicidade...);
.o efeito da exposição à mídia pode ser amplificado pela presença de discussão interpessoal relacionada;
.exposição a mídias redundantes pode levar a um retorno diminuído, se complementares o efeito pode ser sinergístico;

Causalidade recíproca: muitos dos processos acima, ao menos em parte, são influenciados por alças de retroalimentação;
.a construção de um conjunto de crenças facilita o processamento e compreensão de futuras mensagens similares;
.a crença derivada da comunicação pode levar à alteração de valores e ideologias, e da exposição futura à comunicação;

Questões sobre a aplicabilidade do IMCIB
.validação dos testes de auto-resposta de processamento cognitivo;
.validade ('validity') e confiabilidade ('reliability') dos métodos de pesquisa de opinião quanto à exposição à mídia;
.necessidade de painel a ser testado ao longo do tempo: qual o intervalo para as medições? dificuldades para projetar e implementar os painéis pelas relações de ganhos e perdas de informação;
.cautela com modelos estatísticos ao avaliar simultaneamente todas as sub-hipóteses presentes no IMCIB - os testes devem ocorrer contra modelos alternativos explícitos e não apenas de ajustes de dados contra o IMCIB;
.a formulação atual do IMCIB é em nível de efeito individual;
.o IMCIB foi elaborado com base em um contexto cultural específico, com os subprocessos modelados para indivíduos de culturas ocidentais, educadas, industrializadas, ricas e democráticas.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DC = RP? Leitores comentam

Subo aqui comentários à postagem em que discuto a distinção feita pelo jornalista Bernardo Esteves entre jornalismo científico e divulgação científica.

O jornalista Carlos Orsi, do blogue Olhar Cético, da revista Galileu, e da ACI da Unicamp, escreve:
"Uma coisa que me incomoda um pouco nessas discussões é o uso impreciso da palavra 'ciência'. Que pode ser referir à busca de conhecimento sobre o mundo material, pode se referir aos instrumentos e métodos usados nessa busca, pode se referir às instituições e às pessoas que, na civilização atual, são encarregadas de usar esses instrumentos e executar essa busca. Muito do debate sobre jornalismo científico, principalmente o inspirado no meio acadêmico 'de humanas', tente a tomar a terceira acepção pelo todo: a ideia da "construção social forte" das ciências ainda paira muito por aí."
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A jornalista Verônica Soares, do Minas Faz Ciência/Fapemig, diz:
"Tem um aspecto interessante nessa discussão que raramente é abordado: o fato de que muitas assessorias de imprensa e programas de divulgação das instituições se apropriam das técnicas do jornalismo para divulgar ciência (principalmente em revistas especializadas). Mas, nesses casos, nem sempre há uma busca pelo contraditório, nem sempre há um questionamento mais contundente ao cientista, porque o jornalismo praticado é um jornalismo "institucional", de release, pautado pelas instituições de fomento, por exemplo. Particularmente, acho que esse tipo de divulgação também tem seu lugar e não há demérito em fazer assessoria de imprensa para a ciência, mas o quadro demonstra que há jornalismos, plurais, ou seja, não é só uma questão de fazer a pauta, entrevistar, apurar, mas de identificar de que jornalismo estamos falando. Infelizmente, acho que há cada vez menos espaço para a produção de um jornalismo crítico como o que o Bernardo Esteves defendeu e crescem os Programas e Projetos relacionados ao jornalismo mais institucional, feito no âmbito das assessorias."

terça-feira, 16 de junho de 2015

Divulgação científica = relações públicas das ciências?

O jornalista Bernardo Esteves, da Piauí, faz uma interessante reflexão, em seu blogue "Questões da Ciência", sobre o papel do jornalista de ciências a partir de debate ocorrido na Conferência Mundial dos Jornalistas de Ciências - WCSJ 2015. A necessidade de se postar criticamente em relação ao conhecimento científico e de tornar o processo de produção desse conhecimento mais transparente ao público.

Discordo apenas de um ponto em que ele contrapõe jornalismo de ciências e divulgação científica: "Mas é importante não perder de vista que os profissionais dos dois campos atendem a interesses distintos – se os divulgadores têm como função aproximar a ciência da sociedade, aos jornalistas cabe defender os leitores e cidadãos". Esteves não é nem de longe o único a fazer, mais do que distinção, uma antítese entre os dois conceitos.

No meu entender, o jornalismo de ciências *é* uma *forma* de divulgação científica, uma modalidade dela. No GR, na primeira postagem da série sobre divulgação científica expressei a relação aninhada em termos de meios/agentes. Na terceira postagem trouxe definições acadêmicas das expressões, reproduzo-as novamente:

"Divulgação científica: todo tipo de atividade de ampliação e atualização do conhecimento. Envio de mensagens elaboradas mediante a transcodificação da linguagem técnica para uma linguagem compreensível pelo público amplo. Calvo Hernando 2006.

Também se usam as expressões: vulgarização científica, popularização científica e alfabetização científica."

"Jornalismo científico: transmissão ao público, por meio de notícias, reportagens, entrevistas e artigos, o sentido e o sabor do conhecimento científico, assim como suas crescentes implicações sociais, com papel informativo e formativo. Contribui para preencher lacunas escolares e para atualizar o cidadão. Reis 1984.

Conjunto das atividades jornalísticas que se dedica a assuntos científicos e tecnológicos e que se direciona para o grande público não-especializado, por meio de diversas mídias: rádio, televisão, jornais especializados e outras publicações de divulgação. Thiollent 1984.

Não se restringe à cobertura de assuntos específicos de CT&I, o conhecimento científico pode ser usado para compreender melhor qualquer fato, p.e. sobre uma enchente (divulgada na editoria de cidade), um jornalista pode conversar com meteorologistas para entender o fenômeno natural. Oliveira 2002."

Essas definições preservam a missão que muitos jornalistas, incluindo Esteves, atribuem ao jornalismo: de visão crítica dos processos sociais e instrumentação (atenção, não instrumentalização, que seria quase o oposto) cognitiva dos leitores para que possam se posicionar em relação aos temas que os afetam.

Mas, de um lado, não se pode dizer que seja uma missão que se possa (nem que se deva) atribuir exclusivamente ao jornalismo. De outro, não vejo como uma missão necessariamente vinculada ao jornalismo. Não entendo que a distinção seja em termos de objetivos almejados. Para mim, a distinção é tão somente de processos (a distinção mencionada acima de meio pode ser vista como condicionante do processo e/ou condicionado por este) envolvidos na elaboração do texto/mensagem. O jornalismo de ciências é uma modalidade de divulgação científica que lança mão de um conjunto de técnicas e instrumentos jornalísticos como: montagem de pauta, entrevistas com fontes, apuração das informações... (o condicionamento pelo meio pode ser visto por tais técnicas e instrumentos serem demandados pelo ofício em jornais, revistas, canais de rádio e TV em programas de jornalismo... o condicionamento do meio pode ser visto por tais técnicas transformarem os canais efetivamente em um canal jornalístico: digamos um blogue irá assumir uma cara de jornal com textos/mensagem geradas com o uso de tais instrumentos, ao mesmo tempo em que o blogueiro estará atuando como um jornalista).

A transmissão (essencialmente) passiva) do conhecimento científico, a função de aproximação entre ciência e sociedade, sim, são objetivos compatíveis com a divulgação de modo geral, mas não são definidoras dela. Isso é mais uma caracterização da ação de relações públicas. Sim, a divulgação científica *pode* assumir a forma de relações públicas das ciências, mas *não necessariamente* precisa assumir tal feição.

Se se contrapõe jornalismo de ciências à divulgação de ciências, está a se reduzir a última a ação de RP. É mais útil pensar que a DC engloba tanto o JC quanto o RPC (e mais coisas). Do mesmo modo como tanto jornalismo quanto relações públicas pertencem ao grande campo da comunicação social (que inclui ainda outras coisas como publicidade).

A DC tanto pode como muitas vezes assume a forma de crítica às ciências. P.e., o caso mais recente das declarações sexistas do nobelista Timothy Hunt, no mesmo WCSJ 2015, foi foram bastante analisadas por vários blogues de divulgação científica. PZ Myers, em seu Pharyngula, não é e não atua como jornalista ao opinar sobre o caso. Ben Goldacre não é e geralmente não atua como jornalista ao criticar a Big Pharma e a indústria autointitulada "medicina alternativa complementar" (que, via de regra, não é nenhuma das três coisas). Mas ambos estão, sim, atuando como divulgadores de ciências.

Mostrar os intestinos das ciências é uma tarefa nobre do bom jornalismo de ciências, mas não é uma tarefa que só o JC saiba fazer, nem que só ele deva fazer. Não há oposição. Deve haver complementaridade. E essa complementaridade não se dá por um ser uma coisa e outra ser outra coisa. Se, no geral, é mais fácil ao jornalista de ciências ter o afastamento necessário; ao cientista, no geral, é mais fácil ter acesso em primeira mão. Um não jornalista e não cientista também pode contribuir com a DC fazendo a sua análise na posição de cidadão - ou de sua outra expertise (filósofo, cozinheiro, político, dono de casa, empresário, banqueiro, limpador de piscinas...). Se o cientista pode estar preso dentro dos interesses da academia  - ou do complexo político-industrial que sustenta sua pesquisa -, há que se considerar que o jornalista tampouco será necessariamente isento dos interesses que seu veículo representa. Interesses que podem perfeitamente ser legítimos, diga-se. (Idem para outros atores da DC.)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Bomba de chocolate: a comunicação científica ética

O biólogo e jornalista John Bohannon, criador do "Dance your PhD" e autor de um experimento de submissão de artigo falso para vários periódicos de acesso aberto, parece ter aprontado mais uma: em um artigo no site io9 "I fooled millions into thinking chocolate helps weight loss. Here' how." ["Enganei milhões fazendo-os pensarem que chocolate ajuda a emegrecer. Eis como."] ele revela ser o o 'autor' do 'estudo' que dizia que o consumo de chocolate ajudava a emagrecer e que teve uma boa cobertura (isto é, um generoso espaço foi disponibilizado) na mídia (corporativa e nas sociais), ele teria pregado uma peça com a intenção de demonstrar como o processo de apuração jornalística é falha.

Um pseudoexperimento foi realizado. Dados reais, mas obtidos com uma metodologia falha (p.e. não indicava o número de sujeitos experimentais em cada grupo), foram usados para produzir um artigo em que se 'demonstra' que comer chocolate todos os dias ajuda a perder peso.

O artigo Bohannon et al. 2015 Chocolate with high cocoa content as a weight-loss accelerator, International Archives of Medicine 8(55): 8 pp, não está mais disponível (embora possa, por enquanto, ser lido no cachê do Google - o abstract e o pdf). A revista não colocou nenhum aviso. Segundo o blogue Retraction Watch, o IAM alega que o artigo não foi, de fato, aceito e a publicação foi em decorrência de uma falha; mas, ao contrário da nota da revista, o artigo ficou no site por muito mais do que algumas horas, ficando desde abril até a revelação da farsa por Bohannon. (A IAM foi criada pela gigante Biomed Central em 2008 e mantida até 2014. Este ano, a revista passou para a iMedPub, da Internet Medical Society.)

Na Folha saiu na seção F5 (cuidado! contém paywall poroso), destinada a fofocas e bobagens em geral. Não encontrei matéria sobre isso no site do G1, nem no do Estadão.

Em 2012 um outro artigo foi publicado em uma outra revista com nome parecido, Archive of Internal Medicine (atualmente JAMA Internal Medicine), sobre putativos efeitos emagrecedores do consumo regular de chocolate. O estudo, Golomb BA, Koperski S, White HL. Association Between More Frequent Chocolate Consumption and Lower Body Mass Index. Arch Intern Med. 2012; 172(6): 519-52, foi citado pelo artigo de Bohannon e, à época, teve também uma boa cobertura pela mídia. Na Folha saiu um ano depois na seção Saúde e Equilíbrio (cuidado! contém paywall poroso).

Como dito, a intenção de Bohannon foi mostrar a falha no processo de apuração jornalística (e dar mais uma espicaçada nas publicações 'científicas' predadoras). Não é o primeiro experimento do tipo. Em outra área, temos, por exemplo, o "Abraço Corporativo". No fim das contas, qual o real valor do 'experimento' de Bohannon? Não é novidade a existência de tais falhas: o websítio Observatório da Imprensa decidadedica-se à análise das falhasdas patologias do jornalismo contemporâneo. Nem as denúncias. Nem esse tipo de denúncia por meio do logro intencional com posterior revelação 'bombástica': "rá, pegadinha do Mallandro!". Talvez um: "olhem só, vocês continuam errando". Ok, mas parece muito pouco por conta de um detalhe - dois.

Primeiro detalhe. Como no título do artigo no io9 de Bohannon, ele enganou milhões. Gary Schwitzer, no Retraction Watch, concede que Bohannon enganou mesmo foram só um punhado de jornalistas. Coube a estes a tarefa de enganar os milhões de leitores. De todo modo o efeito foi que milhões (a bem dizer é um chute em função do alcance potencial dos meios de comunicação que sabidamente deram espaço e tempo para apresentar os resultados do 'estudo') foram logrados. Isso era sabido que ocorreria se o objetivo do experimento fosse alcançado. A publicação do desmentido raramente tem a mesma repercussão do erro inicial. Não serão os mesmos milhões que serão 'desenganados'. Com a repercussão inicial das mídias sociais e a dinâmica que conhecemos, informações erradas e já desmentidas sempre retornam para nos assombrar (não é mesmo, Gilmar?).

Segundo detalhe. A despeito do que pensa Bohannon: "I don’t think I really put anyone at risk by getting them to eat a little chocolate." ["Não acho que tenha realmente colocado alguém em risco por fazê-lo comer um pouco de chocolate."], não é uma mentira completamente sem consequências. Dentre os milhões desinformados inicialmente (e os que continuarão a ser desinformados), haverá os que terão comido chocolate na esperança de emagrecer, mesmo em situações em que isso não seria recomendado: diabete, sobrepeso, intolerância à lactose ou alergia a algum componente do produto; ou pelo simples fato de se gastar dinheiro inutilmente (já que não se está a consumir apenas pelo prazer). Uma atenuante seria a existência de um estudo verdadeiro que sustenta a relação entre a ingestão de chocolate e o emagrecimento. No entanto, uma vez que o autor não acredita na veracidade dessa relação, ou que ela é ainda sem base suficiente, não há como tirar o corpo complemente fora em relação àsvista das consequências danosas potenciais da 'brincadeira'.

Isso Brohannon não discute em seu artigo de revelação do truque - embora alguns leitores o façam nos comentários. Não sei se ele submeteu seu projeto para algum comitê de ética. Não quero aqui crucificar o autor em sua tentativa, acredito, bem intencionada de esclarecer o modus operandi problemático do jornalismo (científico) atual. Apenas pincelar alguns aspectos que ficaram de lado na discussão principal a respeito desses problemas denunciados (a NPR traz também uma discussão dos aspectos éticos da diatribe do jornalista).

Pode ser que o saldo final do brinquedo seja positivo. Mas temos que colocar na balança os aspectos negativos também.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um novo programa de divulgação científica no ar

Segurem o fôlego.

Salvo apocalipse zumbi - ou se Silvio Santos decidir colocar Tom & Jerry no lugar - estreia hoje, 17/abr/2015, na web rádio da Unicamp, o programa Oxigênio (desculpem, não tenho o horário confirmado - mas como é na web, não haverá como perder: o programa ficará disponível online para ser ouvido quando você quiser).

A atração terá cerca de 30 minutos de duração com formato jornalístico: reportagens, entrevistas, notas curtas e serviços como resenhas de livros e peças teatrais, e uma agenda de eventos científicos e de divulgação.

Produzido em conjunto pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo - o Labjor - e a RTV Unicamp, a produção o programa é coordenadoa pela Profa. Dra. Simone Pallone, do Labjor. A equipe conta ainda com Patrícia Santos, Ana Paula Zaguetto, Carolina Medeiros, Janaína Quitério, Kátia Kishi, Tatiana Venâncio, Jeverson Barbieri e Victoria Monti. (Há boatos de que esta besta que vos escreve também contribui com alguma coisa.)

Ouçam, curtam (sim, já tem página no facebook), comentem (na página ou enviem email: oxigenio.noticias[arroba]gmail[ponto]com). Sim, vale criticar. (Sim, nesse caso vamos colocar no caderninho negro pro Papai Natal colocar carvão na sua meia.)

Pronto, podem respirar.

Upideite(17/abr/2015): Já está no ar a primeira edição de Oxigênio.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Oras bolas. Microesferas alienígenas como sementes panespérmicas? Short answer: Não.

Revista Galileu foi na onda do site do tabloide inglês Daily Express e publicou a matéria:
"Esfera de metal vinda do espaço expele material biológico e intriga cientistas"*

(Pausa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... Inspira. Expira. Inspira. Expira...)

Nada disso teria ocorrido se o Pica Pau tivesse avisado às autoridades tivessem seguido o protocolo alfa de notícia sobre astrobiologia, já publicado anteriormente no GR, mas reproduzido abaixo.

Figura 1. Reduza 83+/-24% dos micos do noticiário de astrobiologia com este simples diagrama.

A bizarrice está resumida no... bem, resumo do "artigo" (ahem) "científico" publicado, onde mais?, no Journal of Cosmology.

"A sphere of diameter 30 microns was isolated from the stratosphere at a height of between 22–27 kilometres. It was found to be mainly composed of titanium (with smaller amounts of vanadium). Nanomanipulation and EDX analysis showed that the titanium sphere contains a carbonaceous non-granular material which we suggest is a biological protoplast. Damage to the surface of the sphere revealed a carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature. The titanium sphere produced a distinct impact crater when it impacted the carbon sampling stub. We conclude by suggesting that this largely titanium sphere contains biological elements which impacted the sampling stub at speed as it made the journey from space to the stratosphere."
["Uma esfera de diâmetro de 30 mícrons foi isolada da estratosfera a uma altitude entre 22 e 27 quilômetros. Descobriu-se que ela é composta principalmente por titânio (com uma quantidade menor de vanádio). Nanomanipulação e análise por EDX mostraram que o titânio da esfera contém um material carbonáceo não granular que sugerimos ser um protoplasma biológico. Dano na superfície da esfera revelou um material carbonáceo, filamentoso com uma 'aparência tricotada', que também sugerimos ser de natureza biológica. A esfera de titânio produziu uma distinta cratera de impacto quando chocou-se contra o suporte de amostragem de carbono. Concluímos sugerindo que esta esfera composta principalmente de titânio contém elementos biológicos que se chocou contra o suporte de amostragem a alta velocidade enquanto fazia sua jornada do espaço para a estratosfera."]

Meodeos, liga de titânio e vanádio... só pode ser tecnologia <voz do grego louco
Tsoukalos mode on>ALIEN <voz do grego louco Tsoukalos mode off>. Não é algo que a Nasa usaria, por exemplo, nos escudos térmicos de suas naves:
"Temperatures will climb highest at the bottom of the Orion capsule, which will be pointed into the heat as it returns to Earth. The heat shield is built around a titanium skeleton and carbon-fiber skin that gives the shield its shape and provides structural support for the crew module during descent and splashdown." (Grifos meus.)
["As temperaturas irãoá subir ao máximo na parte debaixo da cápsula Orion, que estará voltada para o calor quando retornar para a Terra. O escudo de calor é construído em torno de um esqueleto de titânio com peleo de fibra de carbono que confere ao escudo sua forma e confere apoio estrutural ao módulo de tripulação durante sua descida e impacto na água."]

Ok, não é da Nasa, é da Lockheed Martin.

Liga de titânio-alumínio-vanádio como Ti-6Al-4V é usada em artefatos espaciais - (em uma das figuras do artigo, de espectrometria EDX - energy-dispersive X-ray spectroscopy - da liga, há um pico correspondente a alumínio, por algum motivo, não mencionam no texto - figura 2 desta postagem) - e, em sua composição, há traços de carbono e nitrogênio que os autores encontraram.

Figura 2. Aparência da microesfera metálica (painel A) e composição da liga metálica (painel B). O X é uma protuberância de material de composição distinta (rica em carbono). Fonte: Wainwright et al. 2014.

Não afirmo que seja exatamente de um escudo de calor, mas o que acharam podem perfeitamente serem restos desprendidos de um artefato que mandamos para o espaço. O balão utilizado no "experimento" dos autores foi lançado no dia 31 de julho de 2013.

Nessa data, o cargueiro espacial Progress M-023M fez uma reentrada destrutiva na atmosfera depois de levar suprimentos para a EEI. Outro objeto espacial a fazer reentrada no mesmo dia foi o corpo do foguete Delta 2. (Não sei se esses objetos especificamente contêm partes com titânio e glúten fibras de carbono, mas vários outros objetos espaciais reentram todo dia na atmosfera.)

Grifei também "fibras de carbono" porque os autores do "artigo" "científico" falaram em: "carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature".

No texto: "The particles of terrestrial origin also do not possess the 'knitted' layer of the LSO and any carbon they might contain would also likely be in the form of solid, granular soot particles which is not consistent with the organic ooze released from the LSO."["As partículas de origem terrestre também não têm a camada 'tricotada' do LSO - large spherical object, objeto esférico grande - e todo o carbono que elas contenham provavelmente estaria na forma de partículas de fuligem sólidas e granulares o que não é consistente com o limo orgânico liberado pelo LSO"] (Veja figura 3 desta postagem.)

Figura 3. Aparência do simbionte alienígena do uniforme negro do Homem-Aranha do material rico em carbono associado às esferas metálicas. Fonte: Wainwright et al. 2014

Aparentemente os autores acham que nanofibra de carbono é material extraterrestre.

Sério, os autores nem tentaram. O pessoal da Galileu também não. Não dá pra desculpar muito os jornalistas agora - não é a primeira vez que o Journal of Cosmology apronta: e, além dos impostos e da morte, podemos ter certeza também de que não será a última.

Via @OLucasConrado tw e Lúcia Eneida fb.

Upideite (22/fev/2015): Gilmar Lopes também comenta a nãotícia no e-farsas. Eu só discordo dos exemplos que ele traz de outros casos de esferas de titânio. Na verdade são esférulas de grafita de corpos celestes - como asteroides - com *traços* de titânio na forma de cristais de carbeto de titânio.

Upideite(25/fev/2015): Vou cravar a natureza dessa microesfera de titânio: é uma esfera de pó de liga de titânio Ti-6Al-4V grau 23: que apresenta diâmetros entre 17,36 e 44,31 µm. Esse pó é usado, por exemplo, para impressão 3D de objetos metálicos - geralmente com fusão (sinterização) com laser. O processo de sinterização leva a uma alteração da microestrutura e pode produzir poros. A microestrutura após a sinterização por tratamento térmico é muito similar à encontrada pelos autores (figuras 4a e 4b desta postagem).

a)
b)
Figura 4. a) Textura da esfera analisada por Wainwright et al. 2014. b) Alteração da textura por efeito da sinterização. Fonte: Reig et al. 2013.

A metalurgia de pó tem sido usada, por exemplo, para produzir compósitos de matriz de titânio reforçada por fibras de carbono.

Cuidado! Semente alien! Fonte: CNET.
Ou seja, a microesfera provavelmente é tão alienígena quanto o Banguela que os cientistas imprimiram para dar para uma garotinha que pediu a eles um dragão.

*Upideite(25/fev/2015): Em uma atitude louvável a Galileu acrescentou uma atualização de cautela na matéria.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Mais uma... ou melhor (ou pior) menos uma: RIP Unesp Ciência? - A reposta

Em função dos rumores do fim da revista Unesp Ciência, entrei em contato com a Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. Abaixo seguem as respostas gentilmente enviadas por email pelo Prof. Dr. Oscar Alejandro Fabian d'Ambrosio, assessor-chefe da ACI-Reitoria da Unesp.

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A Revista Unesp Ciência não vai acabar. Pelo contrário, a publicação manterá o nome, mas será sim reformulada a partir de março. Isso significa que será um novo produto, nem pior ou melhor, categorias simplistas, mas diferente. A redução de três jornalistas da equipe dá-se no contexto do momento orçamentário e financeiro das universidades estaduais paulistas. Manter a qualidade da Revista Unesp Ciência é um compromisso, mas dentro de um novo projeto, aprimorando virtudes e tendo como meta uma maior proximidade com o público interno, sem se afastar do externo, além de uma nova página na internet e de um projeto de ação para mídias sociais, algo inexistente até o momento.

A migração progressiva do papel para online se dá no espírito de maior respeito ao meio ambiente, com a redução do corte de árvores, e do desenvolvimento de uma atuação maior nas mídias sociais. De agosto de 2014 a janeiro de 2015, essa nova política gerou, nos veículos oficiais da Reitoria, métricas com aumentos da presença da instituição da ordem de 35% no facebook; 70,4% no Instagram; e 15,4% no Twitter. 

Os profissionais responsáveis pelo novo projeto gráfico são Ricardo Miura e Andrea Cardoso, ambos da equipe anterior. Os jornalistas que passam a escrever e a fotografar para a publicação têm ampla experiência em divulgação cientifica e em universidade pública. Além disso, haverá maior participação de assessores de imprensa das diferentes unidades, da universidade, assim como de seus institutos e núcleos localizados nas 24 cidades que integram a Unesp.

As decisões editoriais (pautas, abordagens) mantêm plena autonomia, mas passarão a ter maior interação aos outros produtos da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp, a saber Portal Unesp, Jornal Unesp, Podcast Unesp, Minuto Unesp e Mídias Sociais, todos alinhados a Política de Comunicação Social da Universidade, a ser votada em breve pelo Conselho Universitário, órgão máximo da instituição (aliás esta, creio, seria uma ótima pauta para vocês! Avalie).

Sobre a distribuição da revista para a rede pública, ela era encaminhada aos diretores das escolas de ensino médio, já que seria impossível, pela tiragem necessária atender todos os alunos de ensino médio do Estado de São Paulo. A progressiva migração do papel para o online inclui uma campanha junto aos mencionados diretores de como a revista, ao ser bem divulgada pela Unesp e por eles, na internet, tem o potencial de atingir mais leitores e com maior interação do que uma publicação impressa.

Espero ter atendido as suas indagações e fico à disposição se não fui claro em alguma reposta.
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mais uma... ou melhor (ou pior) menos uma: RIP Unesp Ciência?

Não é novidade a crise por que passa o mercado editorial periódico brasileiro de modo geral, e, também de modo geral, o jornalismo brasileiro. E, em particular, o mercado editorial brasileiro de divulgação científica e o espaço para o jornalismo científico na imprensa brasileira.

Redações têm sido fechadas, editorias e veículos que se vão ou precisam passar por downsizing para redução de despesas (e consequente redução de qualidade - embora haja quem diga que a relação causal seja inversa).

Mas parece que a crise agora afeta também a divulgação científica institucional. Mesmo não estando diretamente ao sabor da flutuação do mercado: afinal são mantidas com verbas de universidades - em particular das públicas - ainda que possam estar sujeitas ao humor do corpo diretor e da reitoria, normalmente são tidas como instituições que agregam prestígio às IES e, por tabela, aos diretores.

A revista Unesp Ciência é vítima da retração que assola a DC no Brasil. Sabine Righetti, jornalista da Folha (especializada em ciências, atualmente mais voltada à educação superior e políticas no setor) publicou em sua TL no twitter o fim da revista:
Não tenho detalhes. O twitter oficial deles está mudo desde set.2013. No blogue a postagem mais recente corresponde à última edição da revista, dez.20145. O mesmo com a página no facebook.

Perguntei para uma colaborada freelancer da revista. Ela também não tem mais informações, apenas confirma o encerramento da Unesp Ciência.

Rodrigo de Oliveira Andrade, jornalista de ciências freelancer (escreve pro SciDev.net), pelo twitter, diz que a revista não acabou - mas a equipe foi dispensada:
Como trabalhariam sem equipe? Contratarão outros? Utilizarão bolsistas (a ComCiência usa essencialmente essa metodologia)? Valerão apenas de freelancers? Nota de agência? (Até é possível manter um site noticioso ou mesmo um jornal com material de agências, mas revista é - ou deveria ser - diferente; textos exclusivos, mais elaborados, mais extensos. Senão vira almanaque.)

Atualizarei esta postagem à medida em que conseguir obter mais informações.

(Ainda tenho esperança de que seja um anúncio precipitado como foi com o caso da revista Quanta.)

Upideite(30/jan/2015): Segundo o twitter oficial da Unesp, a revista continuará:
A se ver o que significa o "normalmente". Pelas informações de fontes diversas, o que o Rodrigo Andrade disse se confirma: o editordiretor de redação e os dois jornalistaseditores assistentes (a equipe de texto) foram dispensados.

Estou vendo se a versão impressa irá continuar e se haverá mudança na linha editorial.

Upideite(10/fev/2015): Oscar d'Ambrosio, assessor-chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp, responde a algumas das questões sobre o futuro da Unesp Ciência.
Upideite(11/mar/2015): Saiu a nova edição da Unesp Ciência.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Relação jornalista x pesquisador

Abaixo seguem minhas anotações de palestra do Prof. Ricardo Whiteman Muniz - bacharel de Direito, jornalista, mestre em Sociologia da Religião pela Metodista de São Paulo, editor da revista Ensino Superior da Unicamp - para o curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp no dia 03/nov/2014. (Imprecisões e erros são de minha inteira responsabilidade.)

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Relação entre jornalistas e pesquisadores

"não é possível avançar sem um retorno (crítico) ao básico"

Educação no Brasil: capital humano e valor posicional
- base da distinção social, mais do que como fonte de aprendizado e qualificação
- diplomas = títulos de nobreza.

DNA da notícia degeneração
novidade informação velha, requentada
importância entretenimento
interesse sensacionalismo
proximidade provincianismo
originalidade achismo
oportunidade efeito mercado

"fidelidade canina à verdade factual"
"crítica diuturna ao poder onde quer que se manifeste"

jornalismo: fazer coletivo -> refação
Ben Goldacre: 3 família de paródias científicas criadas pelos meios de comunicação
- matérias excêntricas;
- matérias para meter medo;
- matérias sobre avanços retumbantes, gloriosos, para já.

Por que insistir na interação?
- visibilidade, interesse, apoio;
- prestação de contas;
- informação do debate democrático;
- para o bem da ciência.

Mônica Teixeira:
- necessidade do contraditório: os problemas do 'outro lado', artigos científicos;
- abusos de formas como 'may, might';
- avaliador tem dificuldade para ler o artigo;
- uso de idioma é objeto de críticas pormenorizadas e violentas;
- palavras-chave das revisões mais comuns são: muito específicas, vagas, jargões, equivocadas, confusas e prolixas;
- contexto e objetivos da pesquisa não são apresentados com suficiente clareza;
- avaliadores não encontram originalidade na pesquisa nem a novidade dos resultados apresentados;
- raramente encontra-se o enunciado de uma controvérsia, como se os pesquisadores tivessem perdido o gosto pela argumentação, pela defesa de um ponto de vista, pelo confronto de ideias.

Conselhos para abrir espaço na mídia:
- bom release, título noticioso, clareza no contexto;
- todo bom repórter está atrás de exclusividade, de um 'furo': só garantir exclusividade se puder e for cumprir;
- dedicar tempo e paciência;
- não exigir revisar a reportagem ou a entrevista: colocar-se à disposição para checagens;
- padrão-ouro: disponibilizar boas imagens e esboços/esquemas para infografia;
- se você gostaria de ver apenas uma análise publicada, apenas escreva um texto redondo, com sugestão de título e no tamanho habitualmente publicado pelo veículo, acompanhar a publicação em que você deseja espaço;
- para influenciar no longo prazo e contribuir na formação de uma rede de fontes - eventos talhados sob medida para jornalistas.
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O jornalista Lucas Conrado escreveu em seu blogue Meus Pensamentos sobre a experiência pessoal dele nessa relação - em especial em seu trabalho no Ciência Hoje.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Como é que é? - Câncer é mais questão de má sorte?

Vários sítios web noticiosos estão repercutindo um estudo recentemente publicado a respeito da variação do risco de câncer entre os diferentes tecidos do corpo humano.

BBC: "Pesquisa diz que má sorte é causa da maioria dos tipos de câncer"
EFE: "Estudo indica 'azar' como fator de peso no desenvolvimento do câncer"
Reuters: "Azar biológico é culpado por dois terços de casos de câncer, diz pesquisa"
Veja: "Maioria dos casos de câncer acontece por 'má sorte'" (sobre material da AFP)
Estadão: reproduziu reportagem da Reuters (cuidado! contém paywall poroso)
O Globo: também reproduziu material da Reuters (cuidado! contém paywall poroso)
Folha: reproduziu reportagem da BBC (cuidado! contém paywall poroso)

O próprio resumo feito pela editoria da Science vai nessa toada: "Remarkably, this 'bad luck' component explains a far greater number of cancers than do hereditary and environmental factors."

Então é isso mesmo? Estilos de vida, fatores ambientais, predisposições hereditárias têm, afinal, pouco peso no surgimento de tumores? Not so fast.

O argumento é baseado na linearidade (em curva de ajuste logarítmico) com um índice de correlação entre risco de desenvolver câncer em algum momento da vida e o número total de divisões das células-tronco no tecido de 66%. (Vide Figura 1.)

Figura 1. Correlação entre risco de desenvolver câncer durante a vida e o total de divisões de células-tronco do tecido. Fonte: Tomasetti & Vogelstein 2015/Science.

Mas agora observemos a Figura 2, que é a mesma Figura 1, mas com destaque entre os tipos de câncer correlacionados com fatores ambientais, genéticos e/ou comportamentais (destacados em vermelho - o tipo de câncer sem tais fatores, em verde).

Figura 2. Correlação câncer x divisão de células tronco. Em vermelho, câncer relacionado a alguma condição ambiental, hereditária ou de estilo de vida; em verde, câncer sem tais fatores; em azul câncer não relacionado de acordo com presença ou ausência de fatores não casuais.

Observamos que os tipos de câncer associado a fatores não casuais - fumo, infecção por vírus, casos familiares, etc. - os pontos vermelhos, estão concentrados na região de maior risco; as versões correspondentes sem tais fatores (os pontos verdes) ficam bem mais abaixo. Tipicamente a diferença nos riscos é de 9 vezes. A chance de se desenvolver câncer durante a vida é da ordem de 1%; na presença de fatores ambientais, hereditários ou comportamentais, a chance é da ordem de 10%.

Então é preciso tomar cuidado com o que esse estudo mostra. A variação *entre os diferentes tipos de tecido* se correlaciona mais com o total de divisões das células-tronco: basicamente, tecidos com células que se dividem o tempo todo, no geral, estão mais expostos a desenvolver algum tipo de câncer. O que é absurdamente diferente de dizer que a variação entre as pessoas ou o peso nos casos totais de câncer na população se devam ao acaso.

*Não* está tudo bem fumar, beber, fazer sexo desprotegido, manter dieta desregulada, aspirar ar poluído, expor-se à radiação, ter trocentos casos familiares de câncer... O achado de Tomasetti & Vogelstein está dentro do esperado - já se sabia que cerca de 1/3 dos casos de câncer eram preveníveis. Mas, note-se, *se* conseguíssemos prevenir - especialmente mudando nosso estilo de vida - esses casos de câncer, ficaríamos na situação de que 100% dos casos de câncer se dar-se-iam por mutações casuais. Seria pouco inteligente chegar à conclusão de que, em uma situação em que 100% dos casos de câncer são por acaso, então tudo bem ter um estilo de vida, digamos, excessivamente liberal e libertino. Não apenas porque causaria outros problemas (mortes no trânsito, insuficiência pulmonar, envelhecimento precoce, DSTs, obesidade...), mas aí causaria mais câncer ainda.

Cerca de 300 mil pessoas morrem de queimaduras por fogo por ano no mundo. A taxa de mortalidade total no mundo em 2012, era de 8 mortes por 1.000 pessoas, em uma população de 7,124 bilhões, isso representaria 57 milhões de mortos. Os queimados são, então, 0,5% dos mortos. Seria bobagem concluir que então tudo bem se encharcar de gasolina e riscar um fósforo.


Upideite(14/jan/2015): A jornalita Jennifer Couzin-Frankel revisita o tema de que tratou no blog da Science. Um dos autores do artigo esclarece o que foi comentado acima: "'We did not claim that two-thirds of cancer cases are due to bad luck,' Tomasetti told me gently. What the study argued, he explained, was that two-thirds of the variation in cancer rates in different tissues could be explained by random bad luck. (This is exactly the point made by the authors of the letter critiquing me.)"
Figura 3. Visualização gráfica da relação entre variância total inicial, variância residual após ajuste e coeficiente de determinação R².*

*Upideite(16/jan/2015):Imagem atualizada para corrigir a representação do coeficiente de determinação R². (Erroneamente, eu havia atribuído à barra azul.)

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Visualização de dados: agora você vê, agora você não vê

Duas buzz words em jornalismo científico e divulgação científica: visualização de dados e storytelling.

Fonte: xkcd.

A imagem acima é bem bacana visualmente. Até ajuda a ver que a superfície da Terra é bem maior do que a de Marte. Mas não ajuda muito a ver se Vênus é maior, igual ou menor do que nosso planeta em termos de superfície: o formato irregular das áreas não ajuda.

Um modo de permitir uma melhor comparação entre os tamanhos das áreas envolvidas seria um gráfico em barra.

Ou mesmo em tabela:
Corpo
Área
(milhões km²)
Terra 510,1
Vênus 460,2
Marte 144,8
Ganimede 87,0
Titã 83,0
Mercúrio 74,8
Calisto 73,0
Io 41,9
Lua 38,0
Europa 30,9
Tritão 23,0
Éris 17,0
Plutão 16,6
Réia 7,3
Caronte 4,6
Ceres 2,8
Vesta 0,8

Mas, se fizerem uma análise de impacto visual e emocional - por exemplo, com pesquisa de opinião, provavelmente a apresentação do xkcd será mesmo a melhor.

Haverá um modo de se ter o melhor dos dois mundos? Uma representação mais artística - esteticamente mais aprazível e emocionalmente mais impactante - e que permita uma leitura mais acurada?

Uma possibilidade seria uma mescla: tornar a figura em mapa interativa, com dados numéricos pipocando com a passagem do mouse sobre ela (não consigo fazer aqui pela limitação do uso de scripts no blogue). Caso não seja possível acrescentar elementos de interatividade - por exemplo, em mídia impressa - poderia se acrescentar rótulos com valores numéricos.

Agora a grande questão: será que funciona? Os textos com que tenho trombado sobre visualização de dados são mais sobre as diferentes técnicas, dicas gerais, como deixar mais bonito... mas não tenho visto nada sobre estudos mais rigorosos sobre os efeitos sobre aprendizagem, retenção de informação, facilidade de contextualização... É a mesma dúvida que tenho em relação ao storytelling. Não há mal em si em tornar dados e informações mais palatáveis, bem ao contrário; mas será que é compatível com uma transmissão com pouca distorção?

E se os fatores que melhorem a percepção, a aceitação, a viralização, atrapalharem a compreensão, a memorização, a análise crítica?

HT: Danilo Abergaria FB.

Upideite(06/jul/2014): @alesscar sugere o livro "El Arte Funcional" de Alberto Cairo.

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Um milagre de Natal: Super se desculpa por matéria negacionista da relação HIV/Aids

Oquei, não é Natal (mas quase), não é um milagre (mas quase), mas é algo a comemorar.

Fiquei sabendo pelo @evolucionismo que a revista Superinteressante finalmente se retratou por dar espaço para a tese de Peter Duesberg de que a Aids não seria causada pelo vírus HIV.

Diz a nota:
"UPDATE: dezembro de 2013
A SUPER gostaria de fazer um esclarecimento. Em 2000, publicamos uma entrevista com o biólogo e químico Peter Duesberg, que defendia a tese de que a aids não era causada pelo vírus HIV. A entrevista foi conduzida por Flavio Dieguez, um dos maiores jornalistas científicos que já trabalhou conosco, e está fundamentalmente correta. Mas, ao longo dos últimos 13 anos, as teses de Duesberg caíram em descrédito e hoje temos muita clareza de que não deveríamos ter dado espaço a elas. Em parte esse descrédito se deve à tragédia de saúde pública que se abateu sobre a África do Sul, país que adotou as ideias de Duesberg em suas políticas de combate à aids. O resultado foi que o vírus se disseminou. Gostaríamos então de afirmar que, aqui na SUPER, não temos mais dúvidas de que a aids é causada pelo HIV e de que todo cuidado para evitar a transmissão desse vírus é fundamental para a saúde pública. Percebemos que esta entrevista foi redescoberta e está circulando nas redes sociais. Que fique claro que não concordamos com as ideias expressas nela.

Um abraço,
Denis R Burgierman
Diretor de redação
Superinteressante"
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Minha sugestão é que essa nota fosse colocada no cabeçalho da entrevista - que eu entendo que seja mantida no sítio web para fins de arquivamento e documentação.

Só tem um erro, não é que a hipótese química da Aids tenha caído em descrédito nos últimos 13 anos - nunca teve qualquer crédito (salvo, talvez, no início dos anos 1980 antes de isolarem o vírus HIV).

Sei que a culpa não é de Flavio Dieguez - não a principal pelo menos. O maior culpado dessa barbeiragem histórica da Superinteressante é de Adriano Silva, editor-chefe da revista durante o período, cujo único objetivo era turbinar as vendas da revista, introduzindo um período negro em que o veículo abraçava toda sorte de pseudociências - como teses antivacinistas

Na época publiquei um texto no Observatório da Imprensa sobre a entrevista e uma outra matéria negacionista do papel do HIV mostrando os principais indícios da relação causal entre o HIV e a Aids. Infelizmente esse texto não está mais disponível (refutando a tese comum de que tudo o que cai na rede fica para sempre).

De todo modo, fique aqui o meu registro (até dar uma nove horas no Google e ele desistir do blogspot): parabéns a Denis Russo Burgierman por este quase milagre de resgatar a credibilidade da Super - jogada na lama durante a gestão Adriano Silva. Quase posso ouvir, entre o tilintar de sinos e farfalhar de agulhas de pinheiros, um distante e amistoso: Ho-ho-ho.

sábado, 28 de setembro de 2013

Diretório de agências brasileiras de notícias científicas

Pretendo aqui manter uma listagem de agências brasileiras especializadas em notícias científicas (e acadêmicas) que têm sítios web e ali publicam seus textos. Quem tiver alguma indicação, fique à vontade para postar nos comentários.

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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 19

Aproveitando minhas leituras para o curso de especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp, faço minhas anotações do texto de Claudio Bertolli Filho, da Unesp, sobre... jornalismo científico.

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Bertolli Filho, C. 2006. Elementos fundamentais para a prática do jornalismo científico. Recensio.

definição
"O Jornalismo Científico, que deve ser em primeiro lugar Jornalismo, depende estritamente de alguns parâmetros que tipificam o jornalismo, como a periodicidade, a atualidade e a difusão coletiva. O Jornalismo, enquanto atividade profissional, modalidade de discurso e forma de produção tem características próprias, gêneros próprios e assim por diante." (Anônimo 2004)

"Um caso particular de divulgação científica e [que] refere-se a processos, estratégias, técnicas e mecanismos para veiculação de fatos que se situam no campo da ciência e da tecnologia. Desempenha funções econômicas, políticoideológicas e sócio-culturais importantes e viabiliza-se, na prática, através de um conjunto diversificado de gêneros jornalísticos" (Wilson Bueno 1984)

linguagem
O JC - e a divulgação científica - não é mera adaptação do discurso-fonte para o público destinatário. Envolve um trabalho novo e original de formulação discursiva (não é mera reformulação).

Envolve uso de múltiplas estratégias de linguagem como metáforas e analogias (fonte de potencial desacordo com os cientistas). Perigo de simplificação excessiva e distorção.

critérios para publicação
1. senso de oportunidade - trabalho antigo volta despertar interesse por algum fato.
2. timing - evento externo a novos acontecimento científicos desperta o interesse da opinião pública.
3. impacto - um trabalho, mesmo antigo, interessa a um grande número de pessoas.
4. significado - profissionais de mídia percebem a importância científica e/ou social de um novo trabalho.
5. pioneirismo - descoberta de um fato novo.
6. interesse humano - envolvimento de emoções humanas para sensibilizar o público e incitá-lo à ação.
7. personagens célebres ou de ampla exposição na mídia - entrevista com autoridades científica e profissionais de prestígio.
8. proximidade - quanto mais próximo o evento do público, maior o potencial de interesse.
9. variedade e equilíbrio - evitar a monotonia, variedade de matérias e enfoques.
10. conflito - situações de confronto despertam o interesse do leitor.
11. necessidade de sobrevivência - matérias que criam no leitor sensação de informação útil para seu bem estar físico e mental.
12. necessidades culturais - novas opções de comportamento e recursos para autoconhecimento.
13. necessidade de conhecimento - "paixão pelo saber" de parte dos leitores.

percalços
1. analfabetismo científico - desconhecimento sobre fatos básicos de ciências pelos profissionais de mídia.
2. interesses das empresas e institutos de pesquisa - podem supervalorizar seus achados para melhorar a imagem ou aumentar os lucros das companhias.
3. relação jornalista/cientistas - reclamações dos cientistas: falta de conhecimento dos jornalistas, tempo tomado, distorções; reclamações dos jornalistas: dificuldade de agendar entrevista, não responder às perguntas feitas, usar jargão e terminologia complexa, machismo, paternalismo.
- Diferenças:
- a. político-culturais: cientistas/paixão pela ciência, jornalista/análise crítica da ciência
- b. vocabulário: potencial de distorção na 'tradução'.
- Soluções parciais:
- a. treinamento de jornalistas: cursos de especialização.
- b. treinamento de cientistas: orientação da relação com jornalistas.
4. questão das fontes
a. palestras à imprensa.
b. comunicado à imprensa.
c. congressos científicos.
d. resumos.
e. press-releases - .
f. periódicos especializados.
Cuidado com os interesses pessoais, comerciais e institucionais (como busca de verbas governamentais e promoção pessoal), distorções pelos cientistas no entusiasmo de acreditar em seu trabalho... Agendamento de pauta pelos cientistas, institutos e publicações. Sistema de embargo de publicações.
Soluções parciais: ouvir outros especialistas não-envolvidos.

leitor
visão dos jornalistas/empresas de comunicação:
- interesses comerciais: paga pelas notícias
- visto como analfabeto científico
visão dos pesquisadores (Revuz 1998, Nunes 2003):
- afoito por novidades, inteligente, curioso por ciências, consciente de que seu conhecimento é menor do que o dos especialistas
Krieghbaum 1970
- parte vira a página ou muda de canal sem demonstrar curiosidade
"As reações às notícias e informações sobre ciência (...) formam uma série que vai desde os que estão cegos em relação à ciência até os que absorvem o noticiário científico e, até certo ponto, os que procedem de acordo com ele"
*Necessidade de despertar e manter o interesse dos leitores x espetacularização

ética
1. conflito de interesses - não aceitar presentes e privilégios na realização da matéria.
2. ganho financeiro pessoal - não noticiar sobre companhia da qual o jornalista tenha vínculos muito próximos.
3. ética das publicações - não publicar anúncios, próximos às notícias, de produtos envolvidos na matéria; corrigir rapidamente imprecisões e erros.
4. contar o que sabe - relatar tudo o que o jornalista julgar importante: conflitos de interesses, divergências na comunidade científica... preservar a imagem das personagens que não coloque em risco a comunidade.
5. ética nas escolhas - tomar ou não partido de um lado.

Possíveis fontes de erros e conflitos (Resnik, 2003)
o público pode:
a. carecer de informações necessárias sobre temas científicos;
b. estar mal informado sobre temas científicos;
c. não entender alguns conceitos ou recomendações científicas;
d. interpretar mal a informação científica;
e. estar completamente confuso sobre os temas científicos e a natureza dos debates científicos;
f. ver-se exposto a bobagens científicas.
os cientistas podem:
a. precipitar-se na hora da publicação dos dados;
b. manter algo em segredo para proteger sua pesquisa preliminar ou evitar controvérsias;
c. falhar em informar a imprensa e o público sobre seu trabalho.
os meios de comunicação podem:
a. ter problemas em ter acesso a congressos científicos e outras fontes de notícias;
b. deixar-se levar por falácias lógicas e estatísticas, evidências anedóticas e amostras enviesadas;
c. citar erroneamente ou fora de contexto;
d. usar fontes marginais ou não dignas de confiança;
e. cair no sensacionalismo, distorcer ou dar enfoque parcial às notícias;
f. deixar de cobrir ou abandonar o seguimento de notícias importantes.

Mitificação do conhecimento científico
Receio em criticar a lógica e aplicação da C&T
Caricaturização da ciência
Determinismo biológico
Preconceito étnico-racial

Recomendações (Segunda Conferência Mundial de Jornalismo Científico 1999):
1. Reconhecer as responsabilidades crescentes e noticiar de forma clara, precisa, íntegra, independente, honesta;
2. Apresentar com atenção não apenas a C&T, mas também os contextos político-sociais e seus meios de produção;
3. Romper as barreiras de língua e se esforçar em apresentar os assuntos de outros países;
4. Oferecer (os editores, organizações de rádiodifusão e outros) apoio e treino aos jornalistas;
5. Desenvolver o fluxo de informações na internet em outras línguas além do inglês;
6. Monitorar também a informação na internet para garantir qualidade, precisão, objetividade e integridade;
7. Apoiar (a Unesco e outras organizações) a criação de um federação mundial de jornalistas científicos [criada em 2002 - WFSJ] e associações nacionais;
8. Apoiar (a Unesco e outras organizações) a criação de espaços de treinamento de jornalistas em todas as regiões e países.

funções
Parâmetros
1. utilidade - o conteúdo útil na tomada de decisões pessoais
2. responsabilidade social - ajudar os cidadãos na tomada de decisões sociais e políticas em matérias que envolvam C&T;
3. valor intrínseco do conhecimento - conteúdos culturalmente universais ou importantes para a história humana;
4. valor filosófico - contribuir para a capacidade de refletir sobre significados e questões como vida e morte, percepção da realidade, certeza e dúvida, bem estar individual x coletivo...

Caráter didático e complementar à educação formal.
Contribuir para a crítica política e fortalecimento da democracia.

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