Lives de Ciência

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segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 19

Aproveitando minhas leituras para o curso de especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp, faço minhas anotações do texto de Claudio Bertolli Filho, da Unesp, sobre... jornalismo científico.

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Bertolli Filho, C. 2006. Elementos fundamentais para a prática do jornalismo científico. Recensio.

definição
"O Jornalismo Científico, que deve ser em primeiro lugar Jornalismo, depende estritamente de alguns parâmetros que tipificam o jornalismo, como a periodicidade, a atualidade e a difusão coletiva. O Jornalismo, enquanto atividade profissional, modalidade de discurso e forma de produção tem características próprias, gêneros próprios e assim por diante." (Anônimo 2004)

"Um caso particular de divulgação científica e [que] refere-se a processos, estratégias, técnicas e mecanismos para veiculação de fatos que se situam no campo da ciência e da tecnologia. Desempenha funções econômicas, políticoideológicas e sócio-culturais importantes e viabiliza-se, na prática, através de um conjunto diversificado de gêneros jornalísticos" (Wilson Bueno 1984)

linguagem
O JC - e a divulgação científica - não é mera adaptação do discurso-fonte para o público destinatário. Envolve um trabalho novo e original de formulação discursiva (não é mera reformulação).

Envolve uso de múltiplas estratégias de linguagem como metáforas e analogias (fonte de potencial desacordo com os cientistas). Perigo de simplificação excessiva e distorção.

critérios para publicação
1. senso de oportunidade - trabalho antigo volta despertar interesse por algum fato.
2. timing - evento externo a novos acontecimento científicos desperta o interesse da opinião pública.
3. impacto - um trabalho, mesmo antigo, interessa a um grande número de pessoas.
4. significado - profissionais de mídia percebem a importância científica e/ou social de um novo trabalho.
5. pioneirismo - descoberta de um fato novo.
6. interesse humano - envolvimento de emoções humanas para sensibilizar o público e incitá-lo à ação.
7. personagens célebres ou de ampla exposição na mídia - entrevista com autoridades científica e profissionais de prestígio.
8. proximidade - quanto mais próximo o evento do público, maior o potencial de interesse.
9. variedade e equilíbrio - evitar a monotonia, variedade de matérias e enfoques.
10. conflito - situações de confronto despertam o interesse do leitor.
11. necessidade de sobrevivência - matérias que criam no leitor sensação de informação útil para seu bem estar físico e mental.
12. necessidades culturais - novas opções de comportamento e recursos para autoconhecimento.
13. necessidade de conhecimento - "paixão pelo saber" de parte dos leitores.

percalços
1. analfabetismo científico - desconhecimento sobre fatos básicos de ciências pelos profissionais de mídia.
2. interesses das empresas e institutos de pesquisa - podem supervalorizar seus achados para melhorar a imagem ou aumentar os lucros das companhias.
3. relação jornalista/cientistas - reclamações dos cientistas: falta de conhecimento dos jornalistas, tempo tomado, distorções; reclamações dos jornalistas: dificuldade de agendar entrevista, não responder às perguntas feitas, usar jargão e terminologia complexa, machismo, paternalismo.
- Diferenças:
- a. político-culturais: cientistas/paixão pela ciência, jornalista/análise crítica da ciência
- b. vocabulário: potencial de distorção na 'tradução'.
- Soluções parciais:
- a. treinamento de jornalistas: cursos de especialização.
- b. treinamento de cientistas: orientação da relação com jornalistas.
4. questão das fontes
a. palestras à imprensa.
b. comunicado à imprensa.
c. congressos científicos.
d. resumos.
e. press-releases - .
f. periódicos especializados.
Cuidado com os interesses pessoais, comerciais e institucionais (como busca de verbas governamentais e promoção pessoal), distorções pelos cientistas no entusiasmo de acreditar em seu trabalho... Agendamento de pauta pelos cientistas, institutos e publicações. Sistema de embargo de publicações.
Soluções parciais: ouvir outros especialistas não-envolvidos.

leitor
visão dos jornalistas/empresas de comunicação:
- interesses comerciais: paga pelas notícias
- visto como analfabeto científico
visão dos pesquisadores (Revuz 1998, Nunes 2003):
- afoito por novidades, inteligente, curioso por ciências, consciente de que seu conhecimento é menor do que o dos especialistas
Krieghbaum 1970
- parte vira a página ou muda de canal sem demonstrar curiosidade
"As reações às notícias e informações sobre ciência (...) formam uma série que vai desde os que estão cegos em relação à ciência até os que absorvem o noticiário científico e, até certo ponto, os que procedem de acordo com ele"
*Necessidade de despertar e manter o interesse dos leitores x espetacularização

ética
1. conflito de interesses - não aceitar presentes e privilégios na realização da matéria.
2. ganho financeiro pessoal - não noticiar sobre companhia da qual o jornalista tenha vínculos muito próximos.
3. ética das publicações - não publicar anúncios, próximos às notícias, de produtos envolvidos na matéria; corrigir rapidamente imprecisões e erros.
4. contar o que sabe - relatar tudo o que o jornalista julgar importante: conflitos de interesses, divergências na comunidade científica... preservar a imagem das personagens que não coloque em risco a comunidade.
5. ética nas escolhas - tomar ou não partido de um lado.

Possíveis fontes de erros e conflitos (Resnik, 2003)
o público pode:
a. carecer de informações necessárias sobre temas científicos;
b. estar mal informado sobre temas científicos;
c. não entender alguns conceitos ou recomendações científicas;
d. interpretar mal a informação científica;
e. estar completamente confuso sobre os temas científicos e a natureza dos debates científicos;
f. ver-se exposto a bobagens científicas.
os cientistas podem:
a. precipitar-se na hora da publicação dos dados;
b. manter algo em segredo para proteger sua pesquisa preliminar ou evitar controvérsias;
c. falhar em informar a imprensa e o público sobre seu trabalho.
os meios de comunicação podem:
a. ter problemas em ter acesso a congressos científicos e outras fontes de notícias;
b. deixar-se levar por falácias lógicas e estatísticas, evidências anedóticas e amostras enviesadas;
c. citar erroneamente ou fora de contexto;
d. usar fontes marginais ou não dignas de confiança;
e. cair no sensacionalismo, distorcer ou dar enfoque parcial às notícias;
f. deixar de cobrir ou abandonar o seguimento de notícias importantes.

Mitificação do conhecimento científico
Receio em criticar a lógica e aplicação da C&T
Caricaturização da ciência
Determinismo biológico
Preconceito étnico-racial

Recomendações (Segunda Conferência Mundial de Jornalismo Científico 1999):
1. Reconhecer as responsabilidades crescentes e noticiar de forma clara, precisa, íntegra, independente, honesta;
2. Apresentar com atenção não apenas a C&T, mas também os contextos político-sociais e seus meios de produção;
3. Romper as barreiras de língua e se esforçar em apresentar os assuntos de outros países;
4. Oferecer (os editores, organizações de rádiodifusão e outros) apoio e treino aos jornalistas;
5. Desenvolver o fluxo de informações na internet em outras línguas além do inglês;
6. Monitorar também a informação na internet para garantir qualidade, precisão, objetividade e integridade;
7. Apoiar (a Unesco e outras organizações) a criação de um federação mundial de jornalistas científicos [criada em 2002 - WFSJ] e associações nacionais;
8. Apoiar (a Unesco e outras organizações) a criação de espaços de treinamento de jornalistas em todas as regiões e países.

funções
Parâmetros
1. utilidade - o conteúdo útil na tomada de decisões pessoais
2. responsabilidade social - ajudar os cidadãos na tomada de decisões sociais e políticas em matérias que envolvam C&T;
3. valor intrínseco do conhecimento - conteúdos culturalmente universais ou importantes para a história humana;
4. valor filosófico - contribuir para a capacidade de refletir sobre significados e questões como vida e morte, percepção da realidade, certeza e dúvida, bem estar individual x coletivo...

Caráter didático e complementar à educação formal.
Contribuir para a crítica política e fortalecimento da democracia.

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domingo, 22 de maio de 2011

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 15

Abaixo minhas anotações sobre um artigo a refletir sobre estratégias de engajamento do público em questões técnico-científicas.

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Katz-Kimchi et al. 2011. Gauging public engagement with science and technology issues. Poroi 7(1). Artigo 10.

Engajamento público em ciências e tecnologia: envolvimento ativo dos cidadãos no desenvolvimento das trajetórias sócio-técnicas, especialmente na definição política e tomadas de decisões.

Ponto crítico especialmente quando uma empreitada tecnocientífica é inovadora, apresenta riscos ou incertezas e amealha as atenções dos políticos por sua importância e relevância. P.e., nanotecnologia e ciência das mudanças climáticas.

Razões para se buscar o engajamento público: obter legitimidade e confiança pública, alcançar melhores resultados na implementação de novas políticas relacionadas à empreitada, aderir ao comprometimento normativo de sociedades democráticas com o livre fluxo de informação e a abertura do processo de tomada de decisão.

Ainda é incerto *como* se obter o engajamento em termos de retórica e estratégias persuasivas.

Estratégias efetivas
1. ativar memória cultural: herança cultural compartilhada, maior componente da identidade de um grupo (nacional ou transnacional) - conhecimento do passado e seus principais produtos partilhados por cidadãos de qualquer cultura tomados como um grupo humano de um dado momento.
2. engajamento positivo: ativar aspectos positivos do engajamento - mostrar que as pessoas podem ajudar a fazer a diferença, que elas são capazes de entender os conceitos noticiados - em vez de sentimentos negativos como 'medo'.
3. interatividade e convite: as pessoas mais prováveis de se depararem com um dado discurso sobre ciência e tecnologia são aquelas que já são engajadas em algum grau com temas de C&T ou pelo menos familiarizadas com tópicos básicos de C&T; então muitas vezes há uma autosseleção do público-alvo das mensagens. É preciso levar em conta que as pessoas apresentam diferentes estilos de aprendizagem e conhecimentos prévios e, assim, diversificar os modos de se apresentar a mesma informação.
4. estética: importante quando se utiliza de comunicação visual; vivacidade das imagens, harmonia dos sons; design bem pensado e atrativo são importantes para a recepção pelo público; desenvolver o tema com time interdisciplinar de design/retórica visual/comunicação visual.
5. variedade: não usar sempre as mesmas imagens ou o mesmo tipo de imagem, variar o tom e a abordagem para manter o interesse e a atenção do público.


quarta-feira, 20 de abril de 2011

Documento GR: Divulgação Científica

Aqui manterei a compilação das postagens da série "Divagação Científica: Divulgando Ciências Cientificamente" com anotações de estudos sobre Compreensão Pública de Ciências e estratégicas de aculturação científica.

Não são as postagens de maior sucesso de visitação nem de comentários, mas particularmente acho que se constituem na principal contribuição (beeeeeeeem modesta, é verdade) do GR à divulgação científica.

1 Taxonomia da comunicação sobre ciências.
2 Teoria da informação de Shannon e divulgação científica.
3 Alberguini, AC. 2007. A ciência nos telejornais brasileiros: o papel educativo e a compreensão pública das matérias de CT&I. Tese de doutorado – Comunicação Social. Universidade Metodista de São Paulo. 300 pp.
4 Rosa, Katemari & Martins, Maria Cristina. 2007. O que é alfabetização científica, afinal? In: XVII Simpósio Nacional do Ensino de Física, 2007, São Luís, MA. Anais do XVII Simpósio Nacional do Ensino de Física, 2007.
5 Carvalho, A. 1999. A comunicação científica pública e o jornalismo científico: conceitos e funções.
6 Macedo-Rouet, M.; Rouet, J-F; Epstein, I & Fayard, P. 2003. Effects of Online Reading on Popular Science Comprehension. 25: 99-128.
7 Substituição de erros conceituais e aprendizagem científica. Vários trabalhos.
8 Ficção científica e alfabetização científica. Vários trabalhos.
9 Ficção científica e alfabetização científica. Vários trabalhos.
10 Ficção científica e alfabetização científica. Vários trabalhos.
11 Kouper, I. 2010. Science blogs and public engagement with science: practices, challenges, and opportunities. Journal of Science Communication 9(1): 1-10.
12 (1/2) Miller, J.D. 2004. Public understanding of, and attitudes toward, scientific research: what we know and what we need to know. Public Understand. Sci. 13: 273-94.
12 (2/2) Miller, J.D. 2004.
13 Trench, B. 2008. Towards an analytical framework of science communication models. In Cheng, D. et al. (eds.) Communicating science in social contexts: new models, new practices. Springer Netherlands. 320 p. Pp: 119-38.
14 (1/2) Burns, T.W.; O'Connor, D.J. & Stocklmayer, S.M. 2003. Science communication: a contemporary definition. Public Understanding of Science 12: 183-202.
14 (2/2) Burns, T.W.; O'Connor, D.J. & Stocklmayer, S.M. 2003.
15 Katz-Kimchi et al. 2011. Gauging public engagement with science and technology issues. Poroi 7(1).
16 Cooper, B.J.E. et al. 2011. The quality of the evidence for dietary advice given in UK national newspapers. Public Understanding of Science 20(3) & Vestergård,G.L. 2011. From journal to headline: the accuracy of climate science news in Danish high quality newspapers. Journal of Science Communication 10(2).
17 Corbett, J.B. & Durfee, J.L. 2004. Testing Public (Un)Certainty of Science: Media Representations of Global Warming. Science Communication 26(2): 129-51.
18 Nisbet, M.C. 2009a. Framing science: a new paradigm in public engagement. In: Kahlor, L.A. & Stout, P.A. (orgs.). Communicating Science: New Agendas in Communication (New Agendas in Communication Series). Chapter 2. Pp: 40-67.
19 Bertolli Filho, C. 2006. Elementos fundamentais para a prática do jornalismo científico. Recensio.
20 Bauer, M.W. 2009. The evolution of public understanding of science - discourse and comparative evidence. Science, technology and society, 14 (2). pp. 221-240.
21 Glavan, E. & Cernat, A. 2010. Scientific literacy , attitudes towards science, religiosity and superstitious beliefs in the Romanian context. Science and the Public London 2010.
22. Allum, N. et al. 2008. Science knowledge and attitudes across cultures: a meta-analysis. Public Understanding of Science 17(1): 35-5.
Extra-1. Devemos divulgar ciências sem usar números? Estudo de Van der Linden et al. 2015 com o efeito de porteira de crença sugere que não.
23. Allen & Preiss 1997. Comparing the persuasiveness of narrative and statistical evidence using meta‐analysis. Communication Research Reports 14(2); Zebregs et a. 2014. The differential impact of statistical and narrative evidence on beliefs, attitude, and intention: A meta-analysis. Health Communication e Allen et al. 2000. Testing the persuasiveness of evidence: combining narrative and statistical forms. Comunication Research Reports 17(4).
24. Macnaghten, P. 2013. The future of science governance: publics, policies, practices. Pp: 31-48. In: Vogt, C. et al. (orgs.) Comunicação e Percepção de Ciência e Tecnologia (C&T). De Petrus et Alii. 180 pp. e Rowe, G. & Frewer, L.J. 2005. A typology of public engagement mechanisms. Science, Technology, & Human Values 30(2): 251-90.
25 (1/2). Lewandowsky et al. 2012. Misinformation and its correction: continued influence and successful debiasing. Psychological Science in the Public Interest 13(3): 106-31. 
25 (2/2) Lewandowsky et al. 2012.
26. Valdesolo, P. et al. 2016. Awe and scientific explanation. Emotion.
27. Eveland, W.P.Jr. & Cooper, K.E. 2013. An integrated model of communication influence on beliefs. PNAS 110:14088–14095.
28. Bruin, W.B. & Bostrom, A. 2013. Assessing what to address in science communication. PNAS 111 (S-3): 14062-14068.
29. Sumner P, Vivian-Griffiths S, Boivin J, Williams A, Bott L, Adams R, et al. 2016. Exaggerations and Caveats in Press Releases and Health-Related Science News. PLoS ONE 11(12): e0168217.
30. Winter, S.; Krämer, N.C.; Rösner, L. & Neubaum, G. 2015. Don’t Keep It (Too) Simple: How Textual Representations of Scientific Uncertainty Affect Laypersons’ Attitudes. Journal of Language and Social Psychology 34(3): 251-72.
31. Dahlstrom, M.F. 2010. The role of causality in information acceptance in narratives: an example from science communication. Communication Research 37(6); 857-75 e Dahlstrom, M.F. 2012. The persuasive influence of narrative causality: psychological mechanism, strenght in overcoming resistance, and persistence over time. Media Psychology 15(3): 303-26.
32. AbiGhannam, N. 2016. Madam science communicator: a typology of women’s experiences in online science. Science Communication 38(4): 468-94.
33. Flemming, D. et al. 2018. Emotionalization in Science Communication: the impact of narratives and visual representations on knowledge gain and risk perception. Front. Commun. 3: article 3.
34. Zorn, TE et al. 2012. Influence in science dialogue: Individual attitude changes as a result of dialogue between laypersons and scientists.PUS 21(7): 848-864.
Extra-2. Compilação de diversas definições de divulgação científica.
Extra-3. Compilação de minicursos em vídeo de divulgação científica.
35. Krause, RJ & Rucker, DD. 2019. Strategic storytelling: When narratives help versus hurt the persuasive power of facts. Personality and Social Psychology Bulletin.
36. Importância da Divulgação Científica. Vários textos. 
37. O uso de jargões e seus efeitos. Vários textos.
Extra-4. Muehlenhaus, I. 2012. If Looks Could Kill: The Impact of Different Rhetorical Styles on Persuasive Geocommunication, The Cartographic Journal 49(4): 361-375
Extra-5. Alfabetização científica ou letramento científico? Vários textos.
38. Gustafson, A & Rice, RE. 2020. A review of the effects of uncertainty in public science communication. Public Understanding of Science, 29(6), 614–33
39. Rubega, MA, Burgio, KR, MacDonald, AAM, Oeldorf-Hirsch, A, Capers, RS, & Wyss, R. 2021. Assessment by Audiences Shows Little Effect of Science Communication Training. Science Communication, 43(2), 139–169.
40. Vários autores. Revisões de terminologias e conceitos.
41. Valério, M. & Takata, R. 2025. Afinal, o que é divulgação científica? Explanação e proposição de uma definição plural. Pro-posições, 36, e2025c0502BR.
42. Guo, Z., Liu, K., & Chen, M. (2025). A Meta-Analysis Synthesizing the Effects of Three Uncertainty Types in Science Communication. Science Communication, 47(5), 633-669 & van Stekelenburg, A., Schaap, G., Veling, H., van ’t Riet, J., & Buijzen, M. (2022). Scientific-Consensus Communication About Contested Science: A Preregistered Meta-Analysis. Psychological Science, 33(12), 1989-2008

sábado, 20 de novembro de 2010

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 14 (parte 2 de 2)

Continuando a anotação do trabalho de Burns et al. 2003.

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Comunicação sobre ciências: uma definição contemporânea

Os termos consciência pública de ciências ("public awareness of science" - PAS), compreensão pública de ciências ("public understanding of science" - PUS), alfabetização científica ("scientific literacy" - SL) e cultura científica ("scientific culture" - SC) não são sinônimos, mas há muitos elementos em comum.

*PAS - objetiva estimular a consciência e as atitudes positivas (ou opiniões sobre ciência;
*PUS - é focada na compreensão da ciência: seu conteúdo, processos e fatores sociais;
*SL - situação ideal em que as pessoas estão conscientes ("aware"), interessadas e envolvidas, têm opiniões e buscam compreender as ciências;
*SC - é um ambiente de toda a sociedade que aprecia e apoia as ciências e a alfabetização científica. Tem aspectos social e estético (afetivo) importantes.

Os objetivos da consciência, compreensão, alfabetização e cultura científicas podem ser divididos em cinco respostas pessoais mais amplas às ciências. Se um número suficiente de pessoas tiverem tais respostas, então estas podem ser consideradas como aplicáveis ao público. Essas respostas pessoais podem ser agrupadas sob a sigla AEIOU: Consciência ("awareness") sobre ciências, Apreciação ("enjoyment") ou outras respostas afetivas às ciências; Interesse ("interest") em ciências; a formação, mudança e confirmação de Opiniões ("opinions") ou outras atitudes relacionadas às ciências; e Compreensão ("understanding") de ciências.

A COMUNICAÇÃO SOBRE CIÊNCIAS ("Science Communication" - SciCom) pode ser definida como o uso de habilidades, meios, atividades e diálogos apropriados para produzir uma ou mais das seguintes respostas pessoais às ciências:
Consciência ("awareness"), incluindo familiaridade com novos aspectos das ciências;
Apreciação ("enjoyment") ou outras respostas afetivas, e.g. apreciação das ciências como entretenimento ou arte;
Interesse ("interest"), indicado pelo envolvimento voluntário com ciência ou sua comunicação;
Opiniões ("opinions"), a formação, alteração ou confirmação de atitudes relacionadas às ciências;
Compreensão ("understanding"), seu conteúdo, processos e fatores sociais.

A comunicação sobre ciências pode envolver praticantes de ciências, mediadores e outros membros do público geral tanto entre pares quanto entre grupos distintos.

Focando na comunicação sobre ciências

Modelando comunicação sobre ciências: uma analogia com alpinismo

Koballa, Kemp & Evans propuseam um modelo para a alfabetização científica individual: uma paisagem com picos e vales em três dimensões.
Eixo y: domínio ou área de alfabetização: conhecimento em ciências físicas, da Terra, história das ciências, etc.
Eixo z: nível da realização pessoal em um domínio em particular (mais alto o pico, maior o grau de alfabetização nesse domínio).
Eixo x: valor que o indivíduo associa ao domínio: maior a área x-y mais importante o domínio para a pessoa.

A Figura 2 utiliza a mesma analogia em um quadro mais amplo a respeito da ciências e da sociedade, incluindo contextos de aprendizagem informal.


1. A comunicação sobre ciências não irá causar sempre um aumento imediato na alfabetização científica. Muitos participantes terão um aumento no interesse, uma mudança de atitude sobre ciências que poderá mais tarde melhorar sua alfabetização.
2. Em geral é incorreto assumir que a comunicação sobre ciênicas é apenas para o benefício do público-leigo. Cientistas e mediadores, bem como outros grupos relacionados às ciências: empresas científicas, políticos, tomadores de decisão e membros da mídia podem se beneficiar ao utilizarem as ferramentas da comunicação sobre ciências para partilhar as mensagens científicas. A necessidade de explicar questões complexas em termos leigos pode levar a novas perspectivas sobre o tópico e uma compreensão mais profunda da área pelo profissional.
3. As ciências na verdade são uma cadeia de montanhas em expansão (i.e., de múltiplas alfabetizações), não um pico único. Há várias áreas diferentes de C&T bem como outras alfabetizações culturais espalhadas pelo plano horizontal de domínios e cada um pode ser considerada como uma montanha à parte. Paisley identificou pelo menos 44 alfabetizações tópicas em jornais e mídias populares americanas em áreas como negócios, computadores, saúde, informação, média, política, religião e tecnologia.
4. Um perfil de montanha para um indivíduo é único e muda com o tempo conforme a pessoa: "aprende ou esquece de habilidades e conhecimentos científicos ou vem a valorar diferentes áreas de modos diferentes".
5. Os cientistas não estão no topo das montanhas, nem o público no vale. Enquanto alguns cientistas possam estar no topo de uma ou duas montanhas, estará na base de muitas outras.

A consciência ("awareness") pública de ciências inicia a subida na alfabetização científica. A consciência de que existe uma montanha (um domínio científico) pode levar à adoção subsequente de habilidades e métodos necessários para a escalada.

A compreensão pública de ciências é a consequência de indivíduos (e, assim, a sociedade a que os indivíduos pertencem) a partir de sua consciência ("awareness") buscarem alcançar níveis mais elevados de compreensão e aplicação de matéria científica.

O cume da alfabetização científica é um objetivo bastante ambicioso. A proposição de que relativamente poucas pessoas a alcançarão na prática tem sido fonte de crítica à alfabetização científica. Na sociedade, a alfabetização científica pode ser considerada como a altitude média das pessoas dentro da cadeia de montanhas científicas. Assim, algum grau de alfabetização científica é alcançável por todas as pessoas.

A cultura científica (na figura representada pelas nuvens) é a atmosfera que envolve a tudo e que motiva e sustenta os alpinistas (como a dimensão dos "valores" de Koballa. Sem a atmosfera vital da cultura científica, as pessoas não achariam que seria social, política e pessoalmente aceitável iniciar a escalada.

Comunicadores de ciências (mediadores) podem ser vistos como os guias da montanha. Eles podem ensinar as pessoas a como subir (habilidades), providenciar escadas (mídias), ajudar no próprio ato da escalada (atividades) e manter os alpinistas informados sobre o progresso, possíveis perigos e outras questões relativas à escalada (diálogo).

Escadas e comunicação sobre ciências funcionam em duas vias: para subida e para descida - permitindo o acesso entre pessoas em níveis diferentes: cientistas, mediadores e outros grupos com níveis mais elevados de alfabetização científica podem aprender algo com grupos em níveis mais baixos. O compartilhamento de conhecimento podem desenvolver a habilidade de comunicação dos cientistas, clarificar sua compreensão e fornecer-lhe feedbacks úteis e perspectivas renovadas em várias questões.
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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 14 (parte 1 de 2)

Burns, T.W.; O'Connor, D.J. & Stocklmayer, S.M. 2003. Science communication: a contemporary definition. Public Understanding of Science 12: 183-202.

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O público

Público:
toda pessoa na sociedade. Seis grupos sobrepostos cada qual com suas necessidades, interesses, atitudes e níveis de conhecimento.
Cientistas: na indústria, comunidade acadêmica e governo;
Mediadores: comunicadores (incluindo comunicadores de ciências, jornalistas e outros membros da mídia), educadores, formadores de opinião;
Tomadores de decisão: definidores de políticas em instituições governamentais, científicas e educacionais;
Público geral: os três grupos acima, mais outros setores e grupos de interesse como alunos e trabalhadores de entidades assistenciais;
Público atento ("attentive public"): parte da comunidade geral que já tem interesse em (e é razoavelmente bem informado sobre) ciência e atividades científicas;
Público interessado ("interested public"): composto por pessoas interessadas, mas não necessariamente bem informadas sobre ciências e tecnologia.

Público leigo: pessoas, incluindo cientistas, que não são especialistas em uma dada área;
Comunidade científica ou praticantes de ciência: pessoas diretamente envolvidas com algum aspecto da prática científica.

Participantes

Participantes
: pessoas do público direta ou indiretamente envolvidas na comunicação sobre ciências. (Não é o mesmo que agentes - stakeholders - pessoas com interesses pessoais em resultados particulares, nem clients - pessoas que pagam por um serviço.)
Participante direto: e.g. quem visita um centro científico, assiste a um filme científico, escreve uma carta para o editor de um jornal sobre uma matéria relacionada às ciências.
Participante indireto: e.g. locatário do espaço de um evento científico, patrocinadores e prootores.

Resultados e respostas

Consequências ("outcomes"): os resultados de uma ação.
Respostas: ação, sentimento, movimento, mudança, etc. eliciados por estímulos ou intereferência. A resposta é mais pessoal e imediata do que as consequências.

Ciência

O Painel de Questões Públicas da Sociedade Americana de Física (Panel on Public Affairs of the American Physical Society) define ciências como:
"Empreendimento sistemático de acumular conhecimento sobre o mundo e organizá-lo e condensá-lo em leis e teorias testáveis."
"[...] o sucesso e a credibilidade das ciências são ancorados no desejo dos cientistas de exporem suas ideias e resultados ao teste e réplica independentes por outros cientistas [...e] abandonar ou modificar conclusões aceitas quando confrontadas com indícios experimentais mais completos e confiáveis." (Muitos identificam essa definição como referente às ciências puras.)

Muitos dicionários destacam o uso do método científico como um modo de identificar uma atividade como parte das ciências.

O relatório "Science for all Americans" identifica o fato de a ciência ser conduzida dentro de um contexto social ter como consequência, ela ser influenciada por este.

No contexto da comunicação sobre ciências, as ciências incluem ciências puras (como definida acima), matemática, engenharia, medicina, estatística, tecnologia e áreas afins.

Consciência ("Awareness")
A definição usual de dicionário "estar ciente, não ignorante de algo" não é suficiente no contexto de comunicação sobre ciências. É usado em um sentido mais amplo sobre a relação do público com as ciências.

Compreensão ("Understanding")
A compreensão não é algo binário - ou se tem ou não se tem -, mas é um entendimento em desenvolvimento tanto do significado quanto da implicação de certos conhecimento, ação ou processo baseados em princípios adequados comumente aceitos. No caso da compreensão de ciências, tais princípios são leis, teorias e processos identificados com a seção científica, bem como algumas de duas ramificações.
Há pouco discussão a respeito de que a compreensão seja em geral uma boa coisa, mas há indícios que sugerem que sob certas condições, as pessoas podem escolher deliberadamente pela ignorância: p.e., trabalhadores de usinas nucleares tendem a preferir confiar em seus colegas para proporcionar um ambiente seguro a eles mesmo entenderem os riscos da radiação.

Comunicação
Schirato & Yell 1997: "prática de produzir e negociar significados, sempre sob condições social, cultural e política específicas".

Consciência/Atenção Pública de Ciências ("Public Awareness of Science" - PAS)
Gilbert, Stocklmayer & Garnett 1999: "conjunto de atitudes positivas em relação às ciências (e tecnologia) que são evidenciadas por uma série de habilidades (skills) e intenções comportamentais (behavioral intensions) [...] As habilidades de acessar conhecimento científico e tecnológico e o sentido de posse desse conhecimento trará uma confiança para explorar suas ramificações. Isso levará, em algum momento, à compreensão de ideias e produtos-chave e de como eles surgiram, à avaliação do status do conhecimento científico e tecnológico e seu significado para a vida pessoal, social e econômica."

Consciência Pública de Ciências (PAS) e Compreensão Pública de Ciências (PUS) por vezes são usados como sinômicos, embora haja sobreposição de seus limites e objetivos, a PAS é predominantemente sobre atitudes. A PAS é um componente fundamental da PUS e da alfabetização científica.

Compreensão Pública de Ciências ("Public Understanding of Science" - PUS)
O relatório "Science and Society" da Câmara dos Lordes define:
"[...] compreensão de matérias científicas por não-especialistas. Isso não significa, claro, o conhecimento exaustivo de todos os ramos científicos. Isso pode, no entanto, incluir compreensão da natureza dos métodos científicos [...] consciência ("awareness") dos avanços científicos atuais e suas implicações. A compreensão pública de ciências tornou-se um termo que resume todas as formas divulgação (no Reino Unido) pela comunidade científica ou por outros em seu lugar (e.g., escritores de ciências, museus, organizadores de eventos), para o público afora, voltadas para melhorar essa compreensão."
Millar no contexto de educação científica propõe três aspectos - que podem ser generalizados para a definição da Compreensão Pública de Ciências:
1. Compreensão do conteúdo científico, ou conhecimento científico substancial (conhecido como conteúdo) - conceitual;
2. Compreensão dos métodos de pesquisa (chamados de processo) - procedimental;
3. Compreensão das ciências como um empreendimento social: consciência ("awareness") do impacto da ciência sobre indivíduos e a sociedade; uma dimensão extensa rotulada como fatores sociais - afetiva.

Alfabetização científica ("Scientific literacy" - SL)
A interpretação da alfabetização científica ao longo dos anos mudou de habilidade de ler e compreender artigos relacionados às ciências para a compreensão e aplicação dos princípios científicos no dia-a-dia.
Shen 1975 propôs três categorias mais amplas:
1. Alfabetização científica prática. Conhecimento científico aplicável na solução de problemas práticos.
2. Alfabetização científica cívica. Permite aos cidadãos "tornarem-se mais conscientes ("aware") da ciência e questões relativas às ciências de modo que eles ou seus representantes não se inibam de usar seu bom senso para apoiar tais questões e assim participar mais plenamente dos processos democráticos em uma sociedade crescentemente tecnológica".
3. Alfabetização científica cultural. Apreciação das ciências como uma grande realização da humanidade.
Miller desenvolve o conceito da SL cívica em três dimensões:
a. um vocabulário de construtos científicos básicos suficiente para ler relatos divergentes em um jornal ou revista (conteúdo);
b. compreensão do processo ou natureza da pesquisa científica (processo);
c. algum grau de compreensão do impacto das ciências e tecnologia sobre os indivíduos e a sociedade (fatores sociais).

Hacking, Goodrum & Rennie: "O fundamental para o quadro ideal é a crença que o desenvolvimento da alfabetização científica deve ser o foco da educação científica nos anos obrigatórios de estudo. A alfabetização científica é uma alta prioridade para todos os cidadãos, ajudando-os a se interessarem pelo mundo a sua volta e compreendê-lo, para participarem de discursos científicos, para serem céticos e questionarem as alegações feitas por outros sobre matéria científica, para serem capazes de identificar questões, investigar e tirar conclusões baseadas em indícios e para tomarem decisões informadas sobre o ambiente e sua própria saúde e bem-estar."
Embora o ideal de um nível alto e universal de alfabetização científica possa ser inalcançável, é um objetivo válido e criticamente importante para a sociedade moderna.

Cultura científica ("Scientific culture" - SC)
Há várias definições.
1. Conjunto de "valores e ethos, práticas, métodos e atitudes baseado no universalismo, pensamento lógico, ceticismo organizado e o caráter tentativo dos resultados empíricos" que existe dentro da comunidade científica/acadêmica.
2. Godin & Gingras: "cultura científica e tecnológica é a expressão de todos os modos através dos quais indivíduos e sociedade apropriam-se da ciência e da tecnologia".
3. A maioria dos países europeus usam "cultura científica" com o significado de PUS (no Reino Unido) e SL (nos EUA), com ênfase no ambiente cultural em que ciência e sociedade interagem. Sistema integrado de valores sociais que aprecia e promove a ciência, per se, e a alfabetização científica disseminada como objetivos importantes.
Os usos 1 e 2 contrastam no domínio: o primeiro restrito à comunidade científica, o segundo considerando o uso de toda a sociedade.

Ciência e sociedade: qual o lugar da comunicação sobre ciências?
Há um reconhecimento crescente de que vivemos em uma fase crítica da relação entre ciências e sociedade.

De um lado, as questões envolvendo ciências estão bastante excitantes, o público está mais interessado e as oportunidades mais patentes. De outro, a confiança do público nos conselhos científicos aos governos está abalada por um série de eventos, muitas pessoas estão incomodadas pelas grandes oportunidades trazidas pelas áreas científicas que parecem avançar muito além de sua consciência e consentimento.

As pesquisas indicam que o público não sabe muito de ciências, enquanto os cientistas não sabem muito sobre o público. O nível de interesse em ciências continua alto, mas o nível verificável de compreensão sobre ciências continua baixo.

O modelo do déficit nasce da interpretação das primeiras pesquisas, caracterizando-se por considerar o público com tendo conhecimento inadequado e a ciência a possuir todo o conhecimento necessário.

Críticos apontam que essas pesquisas podem não captar a verdadeira natureza complexa da questão: elas indicam um analfabetismo generalizado ou a ambivalência do público em relação as ciências (ou às questões realizadas)? é realístico testar o conhecimento do público sobre fatos científicos? por que se deve esperar que o público tenha mais conhecimento de ciências do que de política, arte, música ou literatura? como fatores sociais e culturais afetam os resultados?

A partir da década de 1990, Wynne, Irwin, Latour, Collins, Pinch, Jenkins, Layton, Yearley, McGill e Davey promoveram o modelo da abordagem contextual ("contextual approach"):
"O modelo do déficit é assimétrico, apresenta a comunicação como fluxo de via única: da ciência para o público [... enquanto que o] modelo contextual explora as ramificações de sua raiz metafórica completamente distinta, a interação entre a ciência e o público. Em consequência, o modelo contextual é simétrico: apresenta a comunicação como via de mão-dupla entre a ciência e o público. O modelo contextual implica em um público ativo: ele requer uma reconstrução retórica em que a compreensão pública é uma criação conjunta do conhecimento científico e local [...] Neste modelo, a comunicação não é apenas cognitiva, questões éticas e políticas são sempre relevantes."

No Reino Unido, no relatório "Science and Society" da Câmara dos Lordes, o título "Ciência e Sociedade" substituiu o rótulo PUS, identificando o comprometimento do país com a abordagem contextual. O objetivo é que ciência e sociedade comecem a trabalhar em conjunto de um modo positivo, inclusivo e produtivo. A comunicação sobre ciências é uma parte vital desse processo.
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 13

Brian Trench faz uma análise procurando gerar um quadro a respeito dos modelos de comunicação sobre ciências.

Trench, B. 2008. Towards an analytical framework of science communication models. In Cheng, D. et al. (eds.) Communicating science in social contexts: new models, new practices. Springer Netherlands. 320 p. Pp: 119-38.

Minhas anotações abaixo:
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Modelos contextuais: implicam em público ativo, requer uma reconstrução retórica em que a compreensão pública é uma criação conjunta do conhecimento científico e local; a comunicação não é apenas cognitiva, mas preocupações éticas e políticas também são relevantes.

Déficit: A ciência é transmitida dos especialistas para a audiência, que é vista como deficiente na atenção e na compreensão. (Mão única. Linear.)

Diálogo: A ciência é comunicada entre cientistas e seus representantes e outros grupos, às vezes para descobrir como a ciência pode ser mais eficientemente disseminada, às vezes para consulta sobre aplicações específicas. (Mão dupla. Linear.)

Participação: A comunicação sobre ciência ocorre entre grupos diversos tendo como base que todos podem contribuir e que todos têm interesse e responsabilidade no resultado das deliberações e discussões. (Mão tripla. Multidirecional.)

Defesa: O público é percebido como hostil, p.e., na comunicação com a ‘anticiência’.

Marketing: Tem o propósito de persuadir o público, como sobre a queda no número de estudantes de ciência e tecnologia; pode promover cientistas bem sucedidos como modelo ou apresentar a ciência como ‘divertida’.

Contexto: Práticas contextualizadas levam em conta a diversidade do público e os modos como suas experiências e percepções moldam sua recepção da informação. Essas práticas podem ser funcionalistas, como na ‘segmentação’ de mercado pelos marketeiros ou ser situado mais culturalmente, como na consideração da CPCT em sociedades multiculturais.

Consulta: As opiniões do público são buscadas por vários meios, com o objetivo de redefinir a mensagem ou negociar sobre suas aplicações.

Engajamento: Há uma ênfase mais forte sobre como o público expressa suas preocupações, levantam questões e se tornam ativamente envolvidos.

Deliberação: Apesentada como uma forma ‘mais elevada’ de participação do público que clama por um conjunto mais amplo de entendimento sobre processos democráticos e no qual as contribuições do público sobre ‘por quê’ e ‘por que não’ das ciências ajudam a definir a agenda para a comunicação sobre ciências e eventualmente para as ciências.

Crítica: A ciência é considerada através de referências a outras disciplinas intelectuais e atividades culturais que podem fornecer insights nas significações do público sobre ciências. O termo ‘crítica’ é usado em analogia com o processamento do público de experiências e interpretações artísticas e outras expressões culturais.
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 12 (parte 2 de 2)

Continuando a anotação do trabalho de Miller 2004, segue a parte final.

Apesar dos números não serem animadores, a correlação encontrada entre grau de alfabetização científica e instrução científica informal indica a importância da divulgação científica (embora, claro, a correlação não indique uma relação necessária de causa e efeito).

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Miller, J.D. 2004. Public understanding of, and attitudes toward, scientific research: what we know and what we need to know. Public Understand. Sci. 13: 273-94. doi: 10.1177/0963662504044908

Atitudes em relação à pesquisa científica (Attitudes toward scientific research)
Apesar (ou por causa) de uma minoria dos americanos terem um bom nível de conhecimento científico, várias pesquisas desde o fim da Segunda Guerra indicam que a maioria é interessada em ciência e tecnologia, acreditam que elas contribuíram para o padrão de vida atual e apoiam o investimento governamental.

Importância da pesquisa científica (Salience of scientific research)
Desde pelo menos meados da década de 1980, cerca de 70% dos americanos declaram interesse nas novas descobertas médicas.
Adultos com alto grau de interesse nas novas descobertas científicas eram 35% em 1979 e 45% em 1999.
Desde 1988, pergunta-se o grau de concordância dos entrevistados com a frase: "para mim não é importante saber sobre ciências na vida do dia-a-dia". 15% concordam, mais de 80% discordam.

Benefícios da ciência e da tecnologia (Benefits of science and technology)
Nos últimos 40 anos, mais de 80% dos americanos declaram uma visão positiva da ciência e da tecnologia.
Em 1957, a NASW perguntou se o mundo estava melhor ou pior por causa das ciências. 88% responderam que estava melhor. Nas pesquisas de 1997 e 1999 dos SEI da NSB, o mesmo valor foi encontrado (Figura 3).
Em relação à afirmação: "a ciência e a tecnologia estão tornando nossas vidas mais saudáveis, fáceis e confortáveis", em 1957, 94% concordavam; em 1979, 81%; aumentando gradativamente para 90% em 1999 (Figura 3).
Concordaram com a afirmação: "Por causa da ciência e tecnologia, a próxima geração terá mais oportunidades", 3/4 dos americanos em 1985 e mais de 80% ao longo da década de 1990.

Reservas e preocupações em relação à ciência e tecnologia (Reservations and concerns about science and tecnology)
A percepção de benefícios e riscos não são dois extremos de um contínuo, mas dimensões separadas - e negativamente correlacionadas no caso dos EUA.
Concordaram com a frase: "A ciência faz com que a vida mude rápido demais", 40% em 1957, mais de 50% em 1979, caindo para cerca de 40% ao longo da década de 1990. (Figura 3)
Concordaram com a frase: "Dependemos demais da ciência e de modo insuficiente da fé", cerca de metade dos americanos em 1957. Ao longo do tempo houve flutuações, mas o padrão se manteve.


Compatibilização entre benefícios e reservas (The reconciliation between benefits and reservations)
Miller et al. (1997) verificaram a relação entre as percepções entre os benefícios da ciência e da tecnologia e as preocupações a respeito de seu impacto nos EUA, no Canadá, na União Europeia e no Japão. Nas quatro regiões ambos os fatores comportaram-se como dimensões distintas. Nos EUA e no Canadá, houve uma correlação negativa moderada: -0,6. Na Europa e no Japão, uma correlação negativa fraca: -0,11.
Desde 1981, pergunta-se se os "benefícios da pesquisa científica superam os resultados prejudiciais" ou se "os resultados prejudiciais da pesquias científica superam os benefícios". Em 1981, 70% consideraram que os benefícios são maiores do que os prejuízos; em 1999, 75% tinham a mesma opinião. (Figura 4)


Apoio à pesquisa científica (Support to scientific research)
Desde 1981, pergunta-se se os gastos *governamentais* são muito altos, muito baixos ou na medida para a *condução de pesquisas científicas*. Cerca de 1/3 dos americanos acham que o governo investe muito pouco; 45% acham que a quantia é a correta; 14% acham que o gasto é excessivo.
Desde 1985, pergunta-se se concorda ou não com a afirmação: "Mesmo que não traga benefícios imediatos, a pesquisa científica que expande as fronteiras do conhecimento é necessária e deve ser financiada pelo governo federal". Cerca de 80% têm concordado.

Fatores associados à compreensão da pesquisa científica (Factors associated with understanding scientific research)
Considerando-se a alfabetização científica cívica (civic scientific literacy) como a que permite aos cidadãos acompanharem a seção de ciências do New York Times, compreender os episódios de Nova ou a maioria dos livros de divulgação científica nas prateleiras, Miller considerou todos os construtos acima mencionados como medida dessa alfabetização.
Por esse critério, 10% dos adultos eram cientificamente alfabetizados ao fim da década de 1980 e 17% em 1999. (Figura 5.) Um aumento maior do que o observado no Canadá, Europa e Japão.
A Figura 6 mostra a influência de alguns fatores no grau de alfabetização científica do indivíduo. Número de isciplinas científicas na faculdade (0,53), aprendizagem informal (0,30 - inclui a leitura de revistas, jornais, visita a museus de ciências, sítios web científicos, uso de computadores e bibliotecas) e escolaridade (0,19) estão positivamente correlacionas com a alfabetização científica. Sexo feminino (-0,24) e idade (-0,24) estão negativamente correlacionados. Ter filhos pequenos não tem efeito significativo (0,02).
Os EUA são o único país fortemente desenvolvido com disciplinas obrigatórias de educação geral nos cursos superiores. No Japão e na Europa, pode-se graduar em humanidades sem disciplinas científicas. Para o autor, ter disciplinas científicas nos cursos superiores parece explicar um grau um pouco mais elevado de alfabetização científica entre adultos americanos em comparação com o Japão e a Europa.


O que é necessário saber
1. A questão central sobre a aprendizagem dos adultos a respeito da pesquisa científica é a mudança no conhecimento e no comportamento. Há pouca informação a respeito da procura, retenção e uso da informação por adultos. Não faltam teorias e modelos para isso. A maioria dos estudos são do tipo seção de cortetransversal (cross-sectional): i.e. verifica-se um grupo de pessoas em diferentes condições em um mesmo instante. São necessários mais estudos longitudinais: i.e. que acompanhem grupos de pessoas ao longo do tempo.
2. Não está claro por que o impacto da educação científica pré-universitária é tão baixo no comportamento e desempenho posterior dos adultos.
3. É muito importante acompanhar o impacto da tecnologia da informação no desenvolvimento da alfabetização científica, biomédica e na compreensão pública da pesquisa científica.
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Divagação científica: divulgando ciências cientificamente 12 (parte 1 de 2)

Jon D. Miller publicou em 2004 um estudo em que analisa o entendimento público de ciências bem como sua atitude em relação às ciências nos EUA com base em dados de 40 anos: no período que vai de 1957 a 1999. O quadro não é muito animador. A despeito dos esforços feitos em educação e divulgação de ciências no país no período, os resultados alcançados foram bastante modestos. Divido minhas anotações em duas partes. Segue a parte 1 abaixo.

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Miller, J.D. 2004. Public understanding of, and attitudes toward, scientific research: what we know and what we need to know. Public Understand. Sci. 13: 273-94. doi: 10.1177/0963662504044908

Compreensão (understanding)
Termo amplo que vai de uma ideia elementar sobre o significado de algo (ou como algo funciona) à compreensão profissional profunda de um conceito ou construto no contexto total de seu campo. Miller considera todos os níveis, mas foca mais em um nível de compreensão para se acompanhar os textos jornalísticos das páginas de ciências do New York Times.

Pesquisa científica (scientific research)
No artigo, Miller considera toda a pesquisa científica da básica à aplicada, mas desconsidera a manufatura ou aplicação de conhecimento científico no desenvolvimento de um produto específico de consumo. Desenvolvimento da teoria, teste de teoria, experimentação, falsificação e questões correlatas são consideradas.

Compreensão da natureza da pesquisa e estudos científicos (understanding of the nature of scientific study and inquiry)
Em 1957, a National Association of Science Writers (NASW) encomendou uma pesquisa com cerca de 1.800 adultos americanos. Perguntou-se: "Algumas coisas são estudas cientificamente; outras, de outro modo. De seu ponto de vista, o que significa estudar alguma coisa cientificamente?"
(Responderam: 10% - usar um método experimental ou outro método rigoroso; 4% - abertura de mente, ceticismo e suspensão de julgamento.)
Em 1979, a National Science Foundation (NSF) encomendou uma nova pesquisa para o relatorio Science and Engineering Indicators (SEI) da National Science Board (NSB). Perguntou-se: "Algumas coisas são estudas cientificamente; outras, de outro modo. Você diria que você tem um entendimento claro do que significa estudar algo cientificamente, uma ideia geral do que isso significa ou não tem nenhuma compreensão de seu sigificado?" Para os que responderam ter uma compreensão clara, perguntou-se também: "De seu ponto de vista, o que significa estudar algo cientificamente? (Use suas próprias palavras.)"
Fazendo-se um conjunto independente de codificação das respostas, considerou-se que: 12% das respostas foram satisfatórias em 1957 e 14% em 1979. Várias outras pesquisas foram realizadas - em 1999, 21% das respostas foram consideradas satisfatórias. (Figura 1.)

Compreensão sobre experimentos (Understading of experimentation)
Em 1993, a National Institutes of Health (NIH) realizou o Biomedical Literacy Study, incluindo a seguinte pergunta: "Agora, por favor, pense nesta situação. Dois cientistas querem saber se uma certa droga é eficaz contra pressão alta. O primeiro cientista quer aplicar a droga em 1.000 pessoas com pressão alta e ver quantos têm a pressão diminuída. O segundo cientista deseja aplicar a droga em 500 pessoas com pressão alta e não aplicar em outras 500 pessoas com pressão alta e ver quantas pessoas em cada grupo têm a pressão diminuída. Qual é a melhor maneira de se testar a droga? Por que desse modo é melhor?" A mesma questão foi feita entre 1995 e 1999 para os SEI da NSB.
Em 1995, 69% dos respondentes escolheram o formato de dois grupos. Mas destes - correspondente a 40% do total dos entrevistados - responderam que o formato de dois grupos é melhor porque se a droga for letal irá matar menos pessoas dessa forma. 12% escolharam o formato de dois grupos e explicaram a lógica do grupo de controle. Outros 14% escolheram o formato de dois grupos por questão de comparação, mas não apresentaram a lógica do grupo de controle. 1% escolheu o formato de dois grupos, explicaram a lógica do grupo de controle, mas disseram que não seria eticamente aceitável negar o medicamento para pessoas doentes.
Em 1993, foram considerados que 22% das respostas apresentavam boa noção de experimentação; em 1999, esse número foi de 35%. (Figura 1.) (O autor credita esse crescimento ao aumento do número de pessoas com educação superior e ao aumento da cobertura da mídia sobre assuntos relacionados à saúde.)

Compreensão de probabilidade (Understading probability)
Apresenta-se uma situação em que o médico "diz a um casal que a constituição genética deles significa que há uma chance em quatro de que tenham uma criança com uma doença hereditária" e as opções são:
a) Se tiverem apenas três filhos, eles não terão a doença;
b) Se a primeira criança tiver a doença, os próximos três não terão;
c) Cada um dos filhos do casal tem a mesma chance de ter a doença;
d) Se as três primeiras crianças não tiveram a doença, a quarta terá.
Em 1988, 57% dos americanos escolheram a resposta correta. Houve pouca variação desde então. O autor conclui que o aumento da exposição à reportagens que incluem conceitos probabilísticos tem pouco influência no nível de compreensão. (Figura 1.)

Rejeição da astrologia como ciência (Rejection of astrology as scientific)
Perguntou-se se a astrologia era: "totalmente científica, parcialmente científica, nem um pouco científica". Em 1988, 60% dos adultos americanos responderam que a astrologia não era nem um pouco científica, números que variaram pouco ao longo dos anos. (Figura 1.)


Compreensão de construtos científicos específicos (Understanding specific scientific constructs)
Moléculas, composição da matéria
Perguntou-se se o entrevistado tinha um entendimento claro, uma ideia geral ou nenhuma compreensão a respeito de molécula. Aos que disseram ter um entendimento claro, pediu-se que explicassem o conceito usando as próprias palavras.
Em 1997, 11% responderam corretamente; em 1999, 13%. (Muitos não sabiam se moléculas eram compostas de átomos ou se o inverso era verdadeiro. Alguns sabiam que as moléculas eram pequenas e componentes básicos da matéria, mas não além disso.)
Universo, sistema solar e astronomia
Em 1986, Lightman e Miller perguntaram (os resultados seriam publicados em 1989): "Você diria que o Sol é um planeta, uma estrela ou outra coisa?". 50% responderam corretamente. Apenas 24% disseram que o universo está atualmente em expansão. Ao longo da década de 1990, nas pesquisas da NSB, cerca de 1/3 dos americanos consideraram que o universo "começou com uma grande explosão"*, 1/3 rejeitavam a idéia e outro 1/3 não sabia dizer se o construto era ou não verdadeiro. (O autor considera que a rejeição esteja ligada à questões religiosas.)
Cerca de 1/2 dos americanos dizem que a Terra gira ao redor do Sol uma vez por ano. 1/5 que o Sol gira ao redor da Terra. 14% dizem que a Terra gira ao redor do Sol uma vez por dia. (Figura 2.)
ADN e herança
Cerca de 40% dos adultos americanos são capazes de dar uma resposta satisfatória para o conceito de ADN. Em 1990, 24% incluíam a hereditariadade entre os papéis do ADN. Em 1999, 29%. (Figura 2). O autor considera que esse aumento se deu pelo aumento da importância da compreensão do ADN para o entendimento de doenças e saúde e pela melhoria da cobertura da mídia.
Radiação e energia nuclear
10% dos adultos americanos são capazes de dar uma definição satisfatória para radiação. Em perguntas abertas, 11% respondem em termos de emissão de energia na forma de partículas ou de ondas a partir de um material ou fonte. 26% são capazes de citar uma fonte de radiação, mas não de explicá-la. 10% são capazes de dizer os efeitos da radição, mas não nomear uma fonte ou de explicá-la. Desde 1990 esse padrão de respostas se mantém estável. (Figura 2.)

Compreensão de pesquisas ou projetos científicos atuais (Understanding current scientific research or projects)
Pesquisa da genética do mal de Alzheimer
80% fariam testes genéticos para ver a propensão a desenvolver o mal de Alzheimer (Neumann et al, 2001). Não havia até a data da elaboração do estudo nenhuma pesquisa sobre a grau de compreensão pública a respeito da doença e da pesquisa relacionada.
Alimentos geneticamente modificados
Em 2001, 56% dos adultos americanos relataram não ter ouvido nada ou ter ouvido muito pouco sobre o uso de biotecnologia na produção de alimentos.
Em 1997-1998, 10% dos adultos americanos achavam que tomates comuns não possuiam genes; 45% respodenram que não sabiam; 45% responderam que havia genes (Miller 1998b, 1998c). 1/3 respondeu ser possível transferir genes de plantas para animais.
61% responderam que ingerir frutas modificadas geneticamente não alteravam os genes do consumidor.
Visão do universo através do telescópio Hubble
O autor lamenta a inexistência até a data da publicação do estudo de pesquisas sobre o impacto das imagens obtidas pelo telescópio na compreensão pública a respeito do universo.
Pesquisa sobre aquecimento global e mudanças climáticas
Estudos preliminares em 1994 indicavam que as pessoas tentavam explicar a questão das mudanças climáticas globais a partir de suas experiências próprias com o tempo local. Elas também confundiam a questão do buraco da camada de ozônio com a do aquecimento global.
Em estudos de 1998 e 2001 com perguntas diretas, 2/3 concordavam que o CO2 era o principal responsável pelo aquecimento global; 52% que o aquecimento global pode levar ao aumento do nível dos oceanos e 69% que o tempo poderá se tornar mais turbulento nos próximos 100 por causa do aquecimento global. (O autor observa que os resultados de 1994 com questões abertas sugerem que parte dessa concordância seja sem maior substância ou conhecimento.)

Compressão de produtos ou resultados específicos da pesquisa científica (Understanding of specific products or results from scientific research)
Antibióticos
Em 1988, 26% responderam que antibióticos não matam vírus; wm 1999 foram 45%. (Figura 2)
Laser
"Lasers funcionam pela focalização de ondas sonoras", em 1988, 36% indicaram a frase como falsa, em 1999, 43%. (Figura 2)
Computadores e Internet
Em 1985 e em 1995, pediu-se para definirem "programa de computador" ("computer software"). 28% responderam em ambas as ocasiões como "instruções para computadores".
Em 1997 e 1999, pediu-se para definerem "internet". Em 1997, 13% caracterizaram como rede mundial de computadores capazes de se comunicar entre si. Em 1999, 16% responderam dessa forma. Nas duas ocasiões, 40% disseram que a internet era uma conexão eletrônica com informação ou com uma biblioteca, mas não mencionaram ligação entre computadores. Mais de 45% não conseguiram dar nem mesmo uma descrição genérica.



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Obs: *É uma simplificação errônea a respeito do Big Bang de qualquer modo.

Parte 2.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente 11

Inna Kouper publicou recentemente um trabalho em que analisa 11 blogues de temática científica - o modo como interagem com seu público leitor. Seguem minhas anotações sobre o artigo.

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Kouper, I. 2010. Science blogs and public engagement with science: practices, challenges, and opportunities. Journal of Science Communication 9(1): 1-10. Jcom0901(2010)A02.pdf

Os seguintes elementos ('modos de participação'/'modes of participation') são considerados como importantes facilitadores do envolvimento do público na discussão sobre ciências:
1) informar aos leitores sobre novidades/notícias científicas,
2) explicar matérias complicadas de um modo compreensível ao público leigo,
3) avaliar os achados das pesquisas e as alegações feitas por outras pessoas,
4) articular o posicionamento do autor do blogue em relação a questões controversas.

Sinais de engajamento público em relação às ciências incluem pelo menos os seguintes elementos:
a) ambos, cientistas e não-cientistas, estão envolvidos na blogagem,
b) a maior parte do conteúdo das postagens e dos comentários dizem respeito às ciências e às questões científicas,
c) ambos, os autores dos blogues e os leitores, estão engajados nas atividades acima mencionadas.

Metodologia
A análise focou nos participantes, fontes usadas pelos blogues e conteúdos tópicos, e modos de participação: comentários e postagens foram analisados. Os dados foram coletados no verão de 2008 - a amostragem de blogues foi definida buscando-se pelas expressões 'science blogs' e 'blogs about science' e através do noticiário sobre ciências.

Em blogues mais ativos, os dados analisados foram referentes a cinco dias de atividade; entre os menos ativos, foram coletados dados de 30 dias de atividade. (Para um dos blogues: BioEthics, incluíram-se postagens e comentários desde o mês de abril - pela atividade muito baixa durante o mês de julho.) O número de comentários analisados por postagem foi limitado aos 15 primeiros.

Tamanho amostral:
11 blogues, 174 postagens, 1.409 comentários.

Os blogues analisados foram:
Pure Pedantry, Synthesis, MicrobiologyBytes, Wired Science, BioEthics, DrugMonkey, Scientific Activist, Pharyngula, Panda's Thumb, ScienceBlog, Cosmic Variance

Resultados
Os blogues eram muito heterogêneos em suas características, não se constituindo em um gênero de comunicação científica - nem havia sinais de gênese de um novo gênero.

Fontes
As principais fontes de postagens foram: experiências pessoais, notícias na mídia (incluindo outros blogues) e artigos científicos (cerca de 15% das postagens para cada tipo de fonte). Outras fontes foram sítios web de agregação como digg.com, comentários, comunicações pessoais, TV e vídeo.

Experiências pessoais e notícias em outras mídias geraram mais postagens sobre posições políticas e outras questões não estritamente científicas.

Temas
A figura abaixo mostra a nuvem de palavras-chave dos tópicos.

(A intensa atividade dos blogues Pharyngula e Panda's Thumb fez destacar a questão do criacionismo-evolução.)

Modos de participação
A análise dos modos de participação resultou em ações agrupadas em quatro grandes categorias:
a) contribuição ao tópico: relato(reportagem), argumentação, explicação ou questões de esclarecimento);
b) desvio do tópico: digressão, agressão, autopromoção;
c) expressão de atitudes e emoção: aprovação, desaprovação, gratidão, lamento ou partilha de experiências pessoais;
d) tentativa de influenciar a ação de outros: conselho, recomendação, pedido ou proposta.

Todos estiveram igualmente representados, sem tendência de predominância de um tipo de ação sobre outra.

Autores
Todos ligados às ciências: estudantes de pós-graduação, pesquisadores, editores, escritores e jornalistas de ciências.

Modos de comunicação
Para cada blogue, um ou dois modos de comunicação predominavam na postagem, outros modos surgindo ocasional e raramente.
-Modo reportagem: informe de eventos ou descrição breve de um documento externo (frequente uso de exageros e generalizações - pode tornar a leitura mais chamativa, mas com prejuízo da precisão da informação);
-Modo explicativo: texto que procura tornar a informação mais básica e compreensível (tentativas de tornar algo compreensível não necessariamente são bem sucedidas)
-Modo avaliativo: descrição de elementos de uma postagem em termos positivos ou negativos como: bom, ruim, interessante... (permite ao autor expressar sua opinião sem se alongar em argumentos; serve como recomendação, indicação de afiliação a grupos ou convite à contribuição - avaliações emocionais e até insultos foram comuns neste modo);
-Modo de anúncio: publicidade a eventos e fontes de informação;
-Modo resumo de documentos: descrição detalhadas de artigos científicos e ensaios (frequentemente se fez presente alguns termos altamente técnicos e, em geral, demandam do leitor algum conhecimento maior da área);

Leitores
Também com alguma ligação com as ciências (não são exatamente leigos): estudantes de pós-graduação, pós-doutorandos, funcionários e professores de faculdades, pesquisadores de várias áreas.

Interesse dos leitores em determinados blogues depende de:
a) necessidade de obter informações e notícias de áreas mais amplas;
b) desejo de aprender sobre o desenvolvimento de outras áreas científicas;
c) vontade de conversar com pessoas com pensamentos similares.

A maioria dos comentários eram curtos, expressando os sentimentos dos leitores e divergindo do tema da postagem. Menor parte trazia contribuições: novas ideias, questões que não de esclarecimentos e respostas a essas questões.
---------------------

A autora reconhece a limitação do tamanho amostral. Sugere que os resultados sejam vistos como hipóteses a serem avaliadas em outros estudos. De minha base observacional, não quantitativa, igualmente limitada da blogocúndia cientófila brasileira, parece que são características compartilhadas.

Via @cienciahoje

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 10

Em 1965, Edward K. Weaver e Eldred Black, baseados no trabalho de mestrado de Black, publicaram um artigo em que estudavam a correlação entre leitura de textos de ficção científica e o desenvolvimento do pensamento científico. Não encontraram nenhuma diferença significativa entre os leitores de FC e os de literatura não-FC.

Em 1977, Albert I. Berger publicou um estudo socioeconômico de fãs de FC. Entre outros resultados, obteve que (de 282 respondentes): 77 liam regularmente revistas científicas, 109 de modo irregular, 65 raramente, 27 nunca e 4 não responderam. Infelizmente não há dados disponíveis entre os que não são fãs de FC para comparar.

O sociólogo William Sims Bainbridge, em trabalho publicado em 1982, analisou a influência da FC sobre a atitude em relação à tecnologia. Ler livros ou assistir a filmes e séries de FC estava associado a uma maior probabilidade de apoiar a exploração espacial, porém não estava associado ao apoio a outras conquistas tecnocientíficas.

Em 2001, na pesquisa "Science and Engineering Indicators", foi feito um levantamento dos hábitos de leitura de FC entre os americanos adultos e o interesse em ciências. Esses dados estão sumarizados na tabela abaixo (Tabela 1).

Tabela 1. Leitura de FC por adultos americanos e interesse em ciências. Fonte: NSB 2002.

Há uma correlação entre o maior interesse em ciências e a leitura de FC, embora fraca. (Enquanto 30% do público em geral leiam FC; entre os que têm interesse por ciências, o número de leitores chega a 37%.) A relação de causa e efeito, claro, não é revelada por isso - a leitura de FC desperta interesse por ciências? Ou o interesse por ciências leva à leitura de FC? (As duas hipóteses são plausíveis e não são mutuamente excludentes.)

Referências
Bainbridge, W.S. 1982 - The Impact of Science Fiction on Attitudes Toward Technology. In E.M. Emme, ed. Science Fiction and Space Futures: Past and Present. San Diego, CA: Univelt. apud Hacker, B.C. 1984. Review [sem título]. Technology and Culture 25(3): 690-1. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/3104239
Berger, A.I. 1977 - Science-Fiction Fans in Socio-Economic Perspective: Factors in the Social Consciousness of a Genre. Science Fiction Studies 4(3): 232-46. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/4239132
National Science Board 2002 - Science and Engineering Indicators. Disponível em: http://www.nsf.gov/statistics/seind02/
Weaver, E.K. & Black, E. 1965 - The relationship of science fiction reading to reasoning abilities. Science Education 49(3): 293-6. Disponível em: http://www3.interscience.wiley.com/journal/112761993/abstract

domingo, 27 de dezembro de 2009

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 9

Não são dados diretamente comparáveis, mas podem dar um pouco mais de base às argumentações.

Um conjunto é de Kirby 2003a que mostra a evolução de número de filmes que usam consultoria científica na elaboração de seus roteiros. (Tabela 1.)

O outro conjunto é do "Science and Engineering Indicators" da National Science FoundationBoard que mostra a evolução da média das respostas corretas sobre temas científicos por residentes americanos. (Figura 1.)

Figura 1. Evolução do conhecimento científico entre os americanos. Fonte: NSB 2008.

Há várias interpretações possíveis - inclusive interpretações contraditórias - se nos basearmos unicamente nesses dados. Certamente há uma série de fatores afetando a questão da evolução do conhecimento público sobre ciências - investimento em educação, p.e.

Eu tendo a interpretar isso como a relativa desimportância da consultoria científica nos produtos culturais em relação à compreensão pública de ciências. À primeira vista isso pode soar como paradoxal no papel de *desinformação* atribuído a esses produtos culturais. Porém, se tivermos em mente o papel assimétrico da informação errônea em relação à informação correta (ou melhor dizendo, correta como considerada pela ciência contemporânea), o paradoxo se desfaz no nascedouro: o impacto negativo de uma informação errada é muito maior do que o impacto positivo de uma informação correta ou o impacto neutro de uma informação inexistente. Um conceito errado, uma vez formado, é muito difícil de se desfazer. (E ainda pode atrapalhar a formação de outros conceitos como demonstram os estudos já comentados na série: aqui, aqui e aqui.)

Ou como diz Kirby em outro trabalho (também de 2003b sobre consultoria científica em filmes): "By questioning the nature of fictional 'accuracy, ' I demonstrate that the scientific community’s focus on 'scientific accuracy' in fiction is flawed. Fictional film naturalizes both 'accurate' and 'inaccurate' science by presenting both as 'natural' via a perceptually realistic framework." O impacto final é apenas (ou principalmente) de legitimar *também* a desinformação. A separação do que é certo e do que é errado só é possível se o sujeito tem previamente o conhecimento a respeito do que é o certo, o que torna o meio inútil como divulgação/difusão se ocorre essa mistura.

Kinouchi em sua nova postagem no Semciência volta à questão do vocabulário. E tornamos ao início da conversa: irão aprender conceitos de modo errado, dificultando o trabalho posterior. A sequência proposta por Kinouchi: a) Nem ao menos errado; b) Errado; c) Menos errado; d) Menos errado - é barrada pelo fato de um conceito errado inibir sua própria correção.

Por outro lado, digamos que, por um meio mágico, a pessoa nunca ouviu falar em genes até o ensino médio. Haverá prejuízo à compreensão da pessoa quando finalmente ouvir o termo? Não. Ao longo de nossas vidas ouvimos milhares de expressões pela primeira vez. Reduzindo ao absurdo, teríamos que, para que possamos compreender uma palavra, precisaríamos ter ouvido falar nela antes, mas aí precisaríamos ter ouvido falar na palavra antes dessa primeira vez... Um pai (ou uma mãe), ao ensinar à criança um conceito de bola não vai fazer ela ouvir a palavra antes - digamos, balbuciar o vocabulário inteiro quando ela ainda está na barriga da mãe - simplesmente pega uma bola e diz: bola. Na verdade, a criança terá contato com a bola muito antes de ouvir a expressão bola.

Também é outra questão uma definição *parcial* apresentada de forma preliminar. Não está em discussão um conceito definido de modo incompleto - posto que não errôneo. O que está em discussão é a disseminação de conceitos *errados*.

Referências
Kirby, D.A. 2003a - Science consultants, fictional films, and scientific practice. Social Studies of Science 33(2): 231-68. Disponível em: http://online.kitp.ucsb.edu/online/resident/ouellette4/pdf/0.pdf
Kirby, D.A. 2003b - Scientists on the set: science consultants and the communication of science in visual fiction. Public Understanding of Science 12(3): 261-78. Disponível em: http://pus.sagepub.com/cgi/content/abstract/12/3/261
National Science Board 2008 - Science and Engineering Indicators. Disponível em: http://www.nsf.gov/statistics/seind08/

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Divagação científica - disclaimer necessário

Véspera da Natal - ou de Newtal para os ateus (se é que não inventaram outra forma de laicização comemorativa - um modo de comemorar o Natal sem se sentirem culpados) - aqui vamos dando prosseguimento ao tema e à discussão com o Prof. Kinouchi e participação especial de Tatiana Nahas, do Ciência na Mídia.

Não sou tão bom em previsões quanto os scibloggers (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), mas um mal entendido eu previ - e tentei preveni-lo, porém não deu certo. Escrevi na postagem anterior: "Uma observação importante é que não se deve concluir, então, que filmes de ficção científica não devam ser vistos. Do contrário, seria de se fechar as escolas: as principais fontes de erros de concepção são professores e livros-textos".

Então: sim, filmes de ficção científica são, por definição, ficção - eu chamaria, em muitos casos, mais de filmes de fantasia do que de FC, porém são detalhes acribológicos com que não precisamos nos preocupar por ora. Não há proposição de que qualquer filme tenha que ter uma precisão científica em um dado nível (em muitos casos isso seria desastroso - veja quão aborrecido é 2001 - desculpas aos fãs do filme, de Kubrick e de Clarke - em relação à, digamos, Star Wars - oquei, é um exagero desmedido chamar 2001 de desastroso, porém acho que se percebe o ponto: basta pensar na graça que perderia uma Estrela da Morte explodindo sem os sons de explosão ou X-Wings manobrando lentamente com foguetes auxiliares). (Mas mesmo isso pode ter alguns limites: como o caso do filme U-571 - os americanos substituíram os ingleses, que foram os que realmente capturaram o submarino nazista durante a Segunda Guerra. Liberdade poética?)

E, não, não se deduz que professores não possam usar filmes com comentários críticos em seu arsenal pedagógico.

Mas chamo a atenção que a frase "divulgação/difusão ruim é pior do que divulgação/difusão alguma" não se refere a isso. Ela se refere à proposta de usar esses produtos culturais como forma de divulgação/difusão per se: "Música, mangás, humor, stand-up comedy são mídias populares entre os jovens que recebem pouca (nenhuma?) atenção em termos de torná-las mídias de divulgação científica. Talvez o campo da DV sofra da doença de textolatria, talvez por causa de nossa papirolatria como cientistas. No máximo, usamos formatos de alta-cultura tipo museus e exposições de fotografia científica", "é um trabalho anterior necessário ao ato de divulgação e educação científica (que correspondem a outros momentos de um processo)." (aqui, negritos meus).

O uso pedagógico de filmes é o próprio ato de educação científica. Se se vai exibir filmes em sala não há uma necessidade de exposição anterior deles.

Aliás, dado psicológico que se constata nos estudos que citei nas postagens anteriores: professores não devem exibir os filmes - especialmente os ruins - para comentar depois, vai ter mais trabalho... Devem apresentar a aula antes, enfatizar as armadilhas e depois exibir os filmes, fazendo os alunos buscarem os erros. Podem ainda intercalar trechos - com comentários imediatos (e ainda assim é arriscado).

Note-se que há uma diferença entre usar filmes como recursos didáticos - como contraexemplos, digamos - e produzir tais filmes (ou outros produtos culturais) como uma estratégia de difusão/divulgação.

Fazer limonada dado que lhes atiraram limões é diferente de provocar guerras de limões para ter suco depois.

Pelo dados apresentados, sou reticente mesmo em relação à validade da utilização do rescaldo como proposta pedagógica, mas não estou objetando contra tal metodologia.

Upideite(24/dez/2009): Fiz uma compilação da discussão e publiquei aqui.

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