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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Divagação científica: divulgando ciências cientificamente - 2

Continuando a pitacar sobre o tema.

Abaixo a figura que consta no artigo seminal de Claude Shannon: "A mathematical theory of communication".

O esquema é bastante genérico e, por isso, simplificado. Mas dá bem conta da maior parte das aplicações no estudo da transmissão de sinais. A comunicação é, em um sentido bastante lato, o processo de transmissão de informação de uma entidade à outra [Upideite (16/set/2009): Shannon & Weaver 1949, definem como: "all of the procedures by which one mind may affect another" ("todos os processos pelos quais uma mente pode afetar a outra"), essa definição, com restrições, será particularmente útil no caso da divulgação científica - os técnicos da informação ignoram o termo "mente" e se preocupam apenas com a transmissão de um sinal de um ponto a outro]. No caso da comunicação científica, o objeto é, claro, a informação científica. (Nota-se que o esquema é, propositadamente, unidirecional, antes que alguém objete que a comunicação humana é amplamente bi ou multidirecional, estamos aqui inicialmente fazendo uma simplificação.)

A se destacar a presença do ruído no caminho da transmissão do sinal. O ruído, grosso modo, interferências que levam à perda da informação durante o processo de transmissão, é um fato, tanto quanto sabemos, inevitável no fenômeno comunicacional. Infelizmente, ele não pode ser eliminado por completo, mas, felizmente, ele pode ser minorado (tanto quanto desejarmos, desde que não seja nulo).

Pode-se imaginar que o encadeamento de mais componentes, como no jogo do telefone sem fio, apenas aumenta a tendência da degradação do sinal. Em um sentido estrito, isso é verdade. Mas não se deve com isso interpretar que a presença de intermediários, como o jornalista científico, seja um mal a ser eliminado. Em muitas situações, embora haja perdas do sinal emitido pela fonte, a inclusão de um intermediário pode significar que o sinal chegue, de fato, ao receptor/destinatário. P.e., há perdas de sinal na linha de transmissão telefônica - quanto mais longa a linha, maior a perda de sinal. Quanto mais curta a linha, menor a perda. Mas não se deve imaginar que se não houver linha alguma então a perda será minorada: isso é verdade, porém ao custo de não haver transmissão alguma de sinal. Além disso, os componentes intermediários podem ser imprescindíveis para fazer a conversão do sinal. Se a emissão é em PAL-M, um televisor com codificação original NTSC que tenha um conversor apresentará uma pequena perda do sinal - que não estaria presente em um televisor com codificação original PAL-M -, mas a presença do conversor não é uma dificuldade, é uma *solução*: de outro modo, não haveria perda de sinais, mas tampouco ele poderia ser recebido adequadamente. Então, mesmo que haja uma introdução de nova fonte de ruído, isso pode significar que efetivamente a transmissão seja *mais* eficiente.

A vantagem do uso do modelo shannoniano da transmissão da informação é que podemos, de um lado, colocar em termos mais rigorosos elementos mais intuitivos, de outro, permite-nos entrever elementos mais surpreendentes. Que o jornalista de ciências desenvolve um papel importante na transmissão das informações dos cientistas para o cidadão comum é mais ou menos óbvio - tanto é que existe a figura do jornalista de ciências -, mas o fato de que algum ruído pode ser melhor do que nenhum é um ponto de vista menos óbvio: embora os dois fatos sejam ligados. (Com essas bases, p.e., um jornalista de ciências pode se defender da acusação de distorção de informações e justificar seu trabalho* - claro que dentro de limites: chamar adenina de proteína não é algo aceitável.)

*Essa acusação é uma constante por parte da comunidade científica, caricaturizado em trabalhos como este e este.

Esse modelo permite ainda, de um lado, congregar a variedade de estudos já feitos sobre o tema e, de outro, indicar caminhos para pesquisas futuras: que informações são necessárias para que possamos caracterizar o estado atual da comunicação científica, particularmente da divulgação científica, e progredirmos em direção a um estado desejável?

Podemos, por exemplo, destacar cinco seis tipos de estudos:
a) Questões relacionadas a fonte/emissor. Qual o grau de preparação dos cientistas em transmitir informações para o público em geral (incluindo intermediários)?
b) Questões relacionadas aos intermediários*. Qual o grau de preparação dos intermediários em captar as informações dos cientistas e transmiti-las ao público?
c) Questões relacionadas a destinatário/receptor. Qual o grau de entendimento do público em geral acerca dos temas de ciências? Como ele processa cognitivamente tais informações? O que o motiva?
d) Questões relacionadas ao canal. Qual a eficiência das diferentes mídias na transmissão de diferentes informações para diferentes públicos?
e) Questões relacionadas ao sinal/mensagem. Qual o efeito dos diferentes discursos sobre a qualidade da informação adquirida?
Upideite (16/set/2009): f) Questões relacionadas ao processo. Qual o efeito da interação entre os fatores acima?

*Upideite (16/set/2009): creio que se possa comparar, em vários casos, o intermediário com um transdutor; eventualmente como uma barreira, um modulador, um amplificador ou outro dispositivo em um circuito de informação.

Há já estudos que tangenciam ou abordam esses temas, mas ainda faltam informações relevantes e atualizadas. Diversas fontes nos indicam que o conhecimento geral de ciências da população em geral é muito ruim (tais dados podem ser recuperados de estudos sobre a alfabetização, letramento e educação científicos), há um estudo (antigo - Upideite(16/09/2009): Tatiana Nahas, do Ciência na Mídia, lembra de um estudo mais recente, de 2007) do MCT sobre a percepção do brasileiro sobre temas científicos e as fontes que consultam, há análises de veículos individuais quanto à correção dos conceitos transmitido, há também alguns estudos da relação entre os cientistas e os jornalistas... Mas não há muitos dados quali-quantitativos a respeito da qualidade da informação adquirida pelo público através das diversas mídias: há poucos estudos que nos permitam relacionar, p.e., o grau de aquisição de infomações corretas pelo público em função do tipo de mídia ou do subtema de ciências.

É preciso também estudos que concatenem todos esses aspectos para diagnosticar a situação atual da divulgação de ciências - no Brasil e no mundo. (Bem, pode ser que haja tal estudo já e eu apenas esteja a declarar aqui minha ignorância.)

2 comentários:

ciencianamidia disse...

Muito bom post, Roberto!
Uma contribuição para a discussão: isso não resolve a "dúvida" sobre a qualidade da informação divulgada como vc colocou, é claro, mas acho bom saber que a população brasileira tem interesse por assuntos de ciência e acredita que pode entendê-la se bem explicada. Isso está nos resultados do último estudo de percepção pública de ciência que foi feito pelo pelo MCT em 2007 (falei um pouco disso aqui, com o link pro estudo completo: http://ciencianamidia.wordpress.com/2008/12/03/por-dentro-da-celula/).
Então o desafio é esse: como divulgar bem a ciência,ainda mais para um público que não possui os conceitos mais básicos que deveria aprender na escola?
Mas agora falando um pouco a favor dos divulgadores de ciência, os cientistas também precisam entender duas coisas importantes: (1) divulgação científica não é aula de ciências, é uma outra forma de comunicação, com outra linguagem etc; (2) determinado pesquisador é (ou ao menos deveria ser) uma fonte no trabalho do jornalista que, se sério, irá fundamentar-se também em outras fontes, sejam outros pesquisadores, sejam artigos e/ou opiniões de profissionais de outros setores da sociedade. Assim, o artigo final do jornalista não vai ser uma transcrição ipsis literis do que disse o pesquisador sobre seu trabalho.
Enfim, apenas algumas divagações sobre alguns dos pepinos que vejo nessa trama da divulgação científica, mas o papo rende bem mais :)
Abração, Tati

none disse...

Oi, Tati,

Ah! Sim, seus questionamentos são importantíssimos. A parte do cientista entra ali, entre outras coisas, na preparação dele de passar informações - seja diretamente ao público, seja ao que estou aqui chamando provisoriamente de intermediário.

Estou à cata de algum estudo mais generalizante a respeito do desafio que você menciona: divulgar bem frente às dificuldades enfrentadas (como a baixa literacia científica da população em geral). Acho que aqui estudos sobre educação científica possam ser de grande ajuda.

Sobre o "pode entendê-la se bem explicada", acho que essa é a premissa básica inescapável da divulgação científica. Embora eu sempre fique com um certo pé atrás em relação às pesquisas de *opinião*: muitas vezes os entrevistados dizem o que acham que o entrevistador quer ouvir, sem falar no efeito Krueger-Dunning: http://www.apa.org/journals/features/psp7761121.pdf
---------

Mas alguma informação acaba por ser agregada - especialmente no cruzamento de diversas pesquisas independentes.

[]s,

Roberto Takata

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