PESQUISA

Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Qual o papel da fosfoetanolamina nos seres vivos?

Este texto inicialmente foi preparado para um livreto que acabou não sendo publicado a respeito da fosfoetanolamina. Embora não seja um artigo científico formal, creio que seja de alguma contribuição uma vez que não tenho conhecimento de nenhum artigo de revisão a respeito do composto (se souberem de algum, por favor, indiquem nos comentários).
---------------------
Qual o papel da fosfoetanolamina nos seres vivos?
A fosfoetanolamina (PEA) está presente em células de bactérias, protozoários, plantas, fungos e animais. Seu papel ainda não é completamente conhecido. A PEA serve de substrato para a produção de diversos fosfolipídios de membrana como a fosfatidiletanolamina e a fosfatidilcolina (Figs. 1, 2). Em bactérias parasitas, a molécula é adicionada a outras presentes na membrana ajudando os micro-organismos a escaparem do sistema imunológico do hospedeiro (Packlam et al 2014). Diversos efeitos contraditórios têm sido atribuídos à PEA em células animais: como estimulação (Karagezyan & Ovsepyan 1975) e inibição (Modica-Napolitano & Renshaw 2004) da atividade oxidativa das mitocôndrias; a promoção da divisão celular e/ou sobrevivência e crescimento (Kano-Sueoka et al. 1979; Kano-Sueoka & Errick 1981; Kiss 1999) e indução da apoptose celular, como defendido pelo grupo de Chierice (Ferreira et al. 2011, 2013) - porém, há indicativos de que a amostra utilizada apresentava um grau muito baixo de pureza, menos de um terço em massa seria de fato constituído de PEA (Dias et al. 2016); podendo ocorrer aumento (Vermeersch et al.2014) e redução (Cady et al. 2010) de concentração celular/tecidual durante hipóxia (baixo teor de oxigênio)/isquemia (baixa irrigação sanguínea).


Figura 1. Via de biossíntese de fosfolipídios em células de mamíferos. CDP - difosfocitidina; CTP - trifosfocitidina; CK - colina quinase; CPT - CDP-colina 1,2-diacilglicerol colinophosphotransferase; CT - CTP:fosfocolina citidiltransferase; EK - etanolamina quinase; EPT - CDP-etanolamina 1,2-diacilglicerol etanolaminofosfotransferase; ET - CTP:fosfoetanolamina citidiltransferase; PEMT - fosfatidiletanolamine N-metiltransferase; PSD - fosfatidilserina decarboxilase; PSS - fosfatidilserina sintase. Adaptado de Vance & Vance 2004 e Vance 2008.


Figura 2. Via de biossíntese de fosfolipídios em planta (Lemna paucicostata). CDP - difosfocitidina. Adaptado de Mudd & Datko 1986.

A fosfoetanolamina apresenta-se em concentração elevada em vários tecidos durante o desenvolvimento embrionário e fetal: células musculares de frango (Granata et al. 2000); músculo esquelético e cardíaco de ratos (Turner et al. 1994); cérebro de coelho (Cohen & Lin 1962);cérebro, coração, fígado, rim e baço de camundongos (Kataoka et al. 1991); cérebro de cães (Gyulai et al. 1984); pool de corpo inteiro de embriões da lagosta europeia (Homarus gammarus) (Rosa et al.2005). Também apresenta-se aumentado no útero pós-parto de coelhas (Cawkwell 1958), de ratas e mulheres (Phoenix & Wray 1994). A presença da PEA no leite materno também aumenta com o tempo de lactação (Harzer et al. 1984) e a concentração no colostro de mulher após parto precoce é mais alta do que no colostro de mulher após parto a termo (Pamblanco et al. 1989). Por outro lado, sua concentração em tecido cerebrais de indivíduos com doenças neurodegenerativas (Alzheimer e Huntington) é reduzida (Ellison et al. 1987). (Tabela 1.) Essas observações não parecem ser facilmente explicadas pelo efeito apoptótico defendido pelo grupo de Chierice; mas são compatíveis com o efeito mitogênico proposto por Kano Sueoka e colaboradores.

Tabela 1. Concentrações de fosfoetanolamina em diferentes tecidos e órgãos. Em itálico: tecidos tumorais.
Tecido/Órgão
Concentração (μmol/g pu)
humano
lobo frontal (feto 5 meses)
lobo frontal (feto 8 meses)
lobo frontal (adulto 19 anos)
córtex frontal (adulto 49,8±4,6 anos)
córtex frontal (adulto 70,6±5,0 anos)
córtex frontal (adulto Alzheimer)
córtex frontal (adulto Huntington)
lobo occipital (feto 5 meses)
córtex occipital (adulto 49,8±4,6 anos)
córtex occipital (adulto 70,6±5,0 anos)
córtex occipital (adulto Alzheimer)
córtex occipital (adulto Huntington)
lobo temporal (feto 8 meses)
córtex temporal (adulto 70,6±5,0 anos)
córtex temporal (adulto Alzheimer)
núcleo accumbens (adulto 49,8±4,6 anos)
núcleo accumbens (adulto Huntington)
núcleo caudado (feto 5 meses)
núcleo caudado (feto 8 meses)
núcleo caudado (adulto 19 anos)
caudado (adulto 49,8±4,6 anos)
caudado (adulto Huntington)
hipotálamo (feto 5 meses)
hipotálamo (feto 8 meses)
hipotálamo (adulto 19 anos)
hipocampo (adulto 70,6±5,0 anos)
hipocampo (adulto Alzheimer)
putâmen (adulto 49,8±4,6 anos)
putâmen (adulto Huntington)
córtex cerebral
astrocitoma
astrocitoma anaplástico
glioblastoma
ependimoma
meduloblastoma
meningioma
neurinoma
craniofaringioma
cordoma
adenoma da pituitária
linfoma maligno
adenocarcinoma pulmonar
mama
tumor mamário
fígado
carcinoma hepatocelular

7,43
6,63
0,71
0,81±0,11
0,97±0,12
0,50±0,12
0,72±0,06
5,24
0,75±0,17
0,90±0,18
0,80±0,19
0,66±0,10
6,90
1,21±0,14
0,43±0,10
1,25±0,19
0,65±0,10
9,29
8,45
1,04
1,02±0,19
0,25±0,03
6,68
3,82
0,38
0,95±0,13
0,57±0,09
1,18±0,15
0,56±0,06
1,06±0,10
1,27±0,11
2,05±0,41
2,38±0,38
1,06
4,62
1,61±0,24
1,87±0,31
0,68±0,12
2,05±0,69
4,41±1,06
4,29±0,17
2,12±0,20
0,16±0,01
2,1±1,1
0,16±0,10
2,47±0,84
rato
útero (feto 20-21 dias)
útero (neonato 1-3 dias)
útero (fêmea adulta grávida)
útero (fêmea adulta pós-parto)
intestino delgado do músculo liso (adulto)
intestino delgado do músculo liso (adulta grávida)
músculo esquelético (feto 20-21 dias)
músculo esquelético (neonato 1-3 dias)
músculo esquelético (adulto)
coração (feto 20-21 dias)
coração (neonato 1-3 dias)
coração (adulto)
cérebro (feto 20-21dias)
cérebro (neonato 1-3 dias)
cérebro (adulto)

2,45±0,30
1,65±0,10
1,68±0,14
2,42±0,12
1,63±0,08
2,01±0,16
~1
~1
0,02±0,1
1,2±0,1
1,4±0,1
~0,3
4,13±0,28
3,87±0,55
~1
galinha
músculo peitoral (embrião 9 dias)
músculo peitoral (embrião 14 dias)
músculo peitoral (embrião 17 dias)
músculo peitoral (recém eclodido)

1,85±0,90
1,33±0,66
0,57±0,33
0,21±0,08
pu - peso úmido de tecido. Fontes: Ackerstaff et al. 2003; Bell & Bhakoo 1998, Ellison et al. 1987, Granata et al. 2000, Gribbestad et al. 1999, Podo 1999.

A PEA é produzida também pela degradação da esfingosina-1-fosfato (S1P) (Fig. 3). A S1P é um lipídio com vários efeitos no organismo: inflamação, tumorigênese e neovascularização, entre outros (Pyne & Pyne 2010).

Figura 3. Formação e degradação da esfingosina-1-fosfato. SGPL1 - esfingosina-1-fosfato liase; SK - esfingosina quinase; S1PP - esfingosina-1-fosfato fosfatase. Adaptado de Spiegel & Milstien 2003.

No entanto, células geneticamente modificadas com superexpressão da enzima esfingosina quinase (SK), que converte a esfingosina em S1P não apresentam uma taxa aumentada de divisões celulares. Somente quando a modificação também leva à superexpressão da enzima esfingosina-1-fosfato liase (SGPL1), que quebra a S1P nas moléculas PEA e hexadecenal, o efeito mitogênico é observado, sugerindo, assim, que o produto da ação conjunta das enzimas SK e SGPL1 e não a S1P em si que apresenta o efeito de estimulação da divisão celular. (Kariya et al. 2005.) Sendo a fosfoetanolamina um dos produtos da degradação da S1P, há mais acordo com a proposta da ação mitogênica da PEA, do que de um efeito inibidor ou apoptótico. Por outro lado, a superexpressão S1P fosfatase (S1PP), leva à redução da concentração celular de S1P e aumento da esfingosina e ceramida e induz ao surgimento de características apoptóticas (Mandala et al. 2000).

Em Smith et al. (1984), PEA a 1 μg/ml, na presença de outros fatores como soro fetal e insulina, apresentou efeito mitogênico para células mioepiteliais derivadas de um tumor mamário de rato; porém outras linhagens derivadas de epitélios de tumor mamário e de células mamárias não-tumorais de ratos não foram estimuladas pela PEA. Em Dhakshinamoorthy et al. (2015), PEA a 8 e 12 mM (1.692,76 1 μg/ml) estimulou a apoptose em células Jurkat (linhagem imortalizada derivada de linfócitos T humanos), mas não em linfócitos normais - apresentando até um possível efeito protetivo sobre estas últimas. Kano-Sueoka & Errick (1981), usando linhagens hormônio-dependentes de carcinoma mamário de rato expostas a uma concentração de 5 nmol/ml (0,71 μg/ml) de PEA, obtiveram um aumento de 3,4 vezes na contagem de células em relação ao controle. A mesma linhagem havia sido testada em Kano-Sueoka et al. (1979): o efeito apresentou uma relação dose dependente, aumentando até a concentração de 5 nmol/ml, na concentração de cerca de 50 nmol/ml (7,05 μg/ml), o efeito foi similar à concentração de 5 nmol/ml; em Kano-Sueoka & Errick. (1981), o efeito da PEA foi sempre crescente até a uma concentração de 10 nmol/ml (1,41 μg/ml). A linhagem hormônio-independente de carcinoma mamário de rato não apresentou a mesma resposta clara; células de hepatoma de ratos, células 3T3 de camundongos e células de fibroblasto de ratos não tiveram sua taxa de divisão aumentada pela PEA; células epiteliais normais de ratos, em testes preliminares dos autores, respondem à molécula (Kano-Sueoka et al. 1979). A etanolamina, molécula precursora da fosfoetanolamina, em Kano-Sueoka & Errick (1981), também apresentou efeito mitogênico sobre as células de carcinoma mamário de rato; mas em concentrações maiores (50 nmol/ml), apresentou efeito inibidor do crescimento. Os efeitos mitogênico e apoptótico da PEA parecem ser variáveis de acordo com a linhagem celular e a concentração aplicada.

Em células de câncer, a PEA também apresenta-se em concentrações elevadas, de duas a vinte vezes, bem como a fosfocolina (PCh) (Podo 1999) (Tabela 1). Células de câncer mamário humano triplo negativas (com três mutações que interrompem a atividade de três genes) MDA-MB-231 tratadas com ARNs interferentes pequenos (siRNA, small interfering RNA) que inibem a transcrição de quinase de etanolamina-1 (EtnK-1) e da quinase de colina-α (ChK-α) levam à redução das concentrações intracelulares de PEA e PCh. A aplicação de siRNA ChK-α também provocou a redução da viabilidade das células em 60%; o siRNA EtnK-1 reduziu a viabilidade celular em 50%.  (Shah et al. 2015.) A PEA, assim como a PCh, parecem ter um papel importante na viabilidade de células tumorais, mas em desacordo com a proposta do grupo de Chierice.

A concentração intracelular de PEA aumenta ligeira, mas consistentemente, com perturbações no metabolismo celular de naturezas diversas: privação de glicose, condição de hipóxia e de isquemia (Vermeersch et al. 2014; cf. Cady et al. 2010). Isso indica que essa elevação faça parte de um mecanismo genérico de resposta ao estresse. Ela pode resultar de um aumento na taxa de substituição dos fosfolipídios de membrana ou, se o grupo de Chierice estiver certo, de resposta apoptótica ao estresse. (Vermeersch et al. 2014.)

No cérebro do peixe euritérmico (capaz de se adaptar a uma gama ampliada de temperaturas) Perccottus glenni (frequentemente grafado erroneamente como P. glehni), a concentração de PEA aumenta quando o animal é exposto a baixas temperaturas: tanto sazonalmente, quanto em condição de choque térmico. Possivelmente devido à alteração da composição de lipídios da membrana. (Karanova 2013.)

No processo de aclimatação a baixas temperaturas do caruncho do trigo, Sitophilus granarius, e do besourinho dos grãos, Cryptolestes ferrugineus, ocorre também variação nos níveis de fosfoetanolamina no corpo. Em S. granarius, a concentração de PEA diminui com a aclimatação; já em C. ferrugineus, a concentração de PEA aumenta. (Fields et al. 1998.)

Outros efeitos estudados da fosfoetanolamina são: coagulação sanguínea - tem efeito anticoagulante (Koppel et al. 1959); ação em células do núcleo septal em cérebros de ratos - aumenta a captação de colina e síntese de acetilcolina (Bostwick et al. 1992); em neurônios do hipocampo de ratos - aumenta temporariamente a excitabilidade (Zeise & Lehmann 1987).

Conclusão Até o presente, basicamente o único papel bem estabelecido da fosfoetanolamina nos organismos é como precursor de importantes fosfolipídios de membrana celular. Vários outros interessantes efeitos têm sido atribuído à molécula: regulação do ciclo celular, ação sobre o metabolismo oxidativo, resposta ao estresse... Mas, como boa parte desses efeitos parecem variar e até apresentar resultados contrários entre diferentes estudos, seria necessário um esforço de replicação independente dos testes realizados até o momento; além de ampliação das pesquisas para determinar os fatores responsáveis por tal variação. Certamente outras funções biológicas da PEA deverão ainda ser descobertas. A maioria dos indícios, no entanto, parecem indicar que a PEA não tem efeito inibidor sobre células tumorais em concentrações fisiológicas normais. Apenas em concentrações de 10 a 100 vezes acima da normal parecem produzir efeitos de inibição ou de apoptose em certas células cancerosas e mesmo tal efeito é incerto pela possível contaminação da PEA utilizada nesses estudos do grupo de Chierice.

Referências
Ackerstaff, E. et al. 2003. A target in cancer cells? Journal of Cellular Biochemistry 90: 525-33.
Bell, J.D. & Bhakoo, K.K. 1998. Metabolic changes underlying 31P MR spectral alterations in human hepatic tumours. NMR in Biomedicine 11(7): 354-9.
Bostwick, J.R. et al. 1992. Phosphoethanolamine enhances high-affinity choline uptake and acetylcholine synthesis in dissociated cell cultures of the rat septal nucleus. Journal of Neurochemistry 59(1): 236–44.
Cady, E.B. et al. 2010. Coupling of cerebral phosphoethanolamine and nucleotide triphosphate levels and mitochondrial-respiration modulation during perinatal 'secondary energy failure'. Proc. Intl. Soc. Mag. Reson. Med. 18: 2395.
Cawkwell, J.M. 1958. Phosphate esters in the uterus. Biochem. Journal 70(2): 248-52.
Cohen, M.D. & Lin, S. 1962. Acid soluble phosphates in the developing rabbit brain. Journal of Neurochemistry 9: 345-52.
Dhakshinamoorthy, S. et al. 2015. Metabolomics identifies the intersection of phosphoethanolamine with menaquinonetriggered apoptosis in an in vitro model of leukemia. Mol. BioSyst. 11: 2406-16.
Dias, L,C. et al. 2016. Caracterização do conteúdo das cápsulas de fosfoetanolamna (FOS) para o MCTI: análise de ressonância magnética nuclear de 1H, 13C e 31P. Retório técnico-científico. LQOS/Unicamp. Campinas, SP. Disponível em: http://www.mctic.gov.br/mctic/export/sites/institucional/ciencia/SEPED/Saude/fosfoetanolamina/arquivos/Relatorio-Completo-de-Sintese-e-Caracterizacao.pdf. Acessado em: 26.jan.2018.
Ellison, D.W. et al. 1987. Phosphoethanolamine and ethanolamine are decreased in Alzheimer's disease and Huntington's disease. Brain Research 417: 389-92.
Ferreira, A.K. et al. 2011. Synthetic phosphoethanolamine induces apoptosis through caspase-3 pathways by decreasing expression of Bax/Bad protein and chanves cell cycle in melanoma. J. Cancer Sci. Ther. 3: 53-9.
Ferreira, A.K. et al. 2013. Synthetic phosphoethanolamine induces cell cycle arrest and apoptosis in human breast cancer MCF-7 cells through the mitochondrial pathway. Biomed. Phamarcother. 67: 481-7.
Fields, P.G. et al. 1998. The effect of cold acclimation and deacclimation on cold tolerance, trehalose and free amino acid levels in Sitophilus granarius and Cryptolestes ferrugineus (Coleoptera). Journal of Insect Physiology 44: 955-65.
Granata, F. et al. 2000. Phosphocoline and phosphoethanolamine during chick embryo myogenesis> a 31P-NMR study. Biochimica et Biophysica Acta 1483: 334-42.
Gribbestad I.S. et al.1999. Metabolite composition in breast tumors examined by proton nuclear magnetic resonance spectroscopy. Anticancer Res 19: 1737–46.
Gyulai, L. et al. 1984. Phosphorylethanolamine - the major constituent of the phosphomonoester peak observed by 13P-NMR on developing dog brain. FEBS 178(1): 137-42.
Harzer, G. et al. 1984. Human milk nonprotein nitrogen components: changing patterns of free amino acids and urea in the course of early lactation. The American Journal of Clinical Nutrition 40: 303-9.
Kano-Sueoka, T. et al. 1979. Phosphoethanolamine as a growth factor of mammary carcinoma cell line of rat. Proc. Natl. Acad. Sci. 76: 5741-4.
Kano-Sueoka, T. & Errick, J.E. 1981. Effects of phosphoethanolamine and ethanolamine on growth of mammary carcinoma cells in culture. Experimental Cell Reserach 136: 137-45.
Karanova, M.V. 2013. Phosphoethanolamine in brain of the euritherm lake fish Perccottus glehni (Eleotridae, Perciformes, Dyb. 1877) as a phenomenon depending on temperature factor. Journal of Evolutionary Biochemistry and Physiology 49(3): 291-9.
Karagezyan, K.G. & Ovsepyan, L.M. 1975. [Role of ethanolamine, phosphoethanolamine, and phosphatidylethanolamine in oxidative phosphorylation of albino rat brain mitochondria.] Byulleten' Éksperimental'noi Biologii i Meditsiny 80(10):58-9.
Kariya, Y. et al. 2005. Products by the sphingosine kinase/sphingosine 1-phosphate (S1P) lyase pathway but not S1P stimulate mitogenesis. Genes to Cells 10: 605–15.
Kataoka, H. et al. 1991.O-phosphoethanolamine content in mouse tissues during development. Agric. Biol. Chem. 55(1): 289-90.
Kiss, Z. 1999. Regulation of mitogenesis by water-soluble phospholipid intermediates. Cell. Signal 11(3): 149-57.
Koppel, J.L. et al. 1959. Effects of phosphoethanolamine and phosphoserine on blood coagulation mechanism. American Journal of Physiology 196: 1020-4.
Mandala, S.M. et al. 2000. Molecular cloning and characterization of a lipid phosphohydrolase that degrades sphingosine-1-phosphate and induces cell death. PNAS 97: 7859–64.
Modica-Napolitano, J.S. & Renshaw, P.F. 2004. Ethanolamine and phosphoethanolamine inhibit mitochondrial function in vitro: implications for mitochondrial dysfuncion hypothesis in depression and bipolar disorder. Biol. Psychiatry 55: 273-7.
Mudd, S.H. & Datko, A.H. 1986. Phosphoethanolamine bases as intermediates in phosphatidylcholine synthesis by Lemna. Plant Physiol. 82: 126-35.
Pamblanco, M. et al. 1989. Free amino acids in preterm and term milk from mothers delivering appropriate- or small-for-gestational-age infants. Am. J. Clin. Nutr. 50: 778-81.
Phoenix, J. & Wray, S. 1994. Changes in human and rat uterine phosphoethanolamine and taurine with pregnancy and parturition. Experimental Physiology 79: 601-4.
Plackam, M. et al. 2014. Phosphoethanolamine decoration of Neisseria gonorrhoeae lipid A plays a dual immunostimulatory and protective role during experimental genital tract infection. Infection and Immunity 82(6): 2170-9.
Podo, F. 1999. Tumour phospholipid metabolism. NMR in Biomedicine 12(7): 413-39.
Pyne, N.J. & Pyne, S. 2010. Sphingosine-1-phosphate and cancer. Nature Reviews Cancer 10, 489-503.
Rosa, R. et al. 2005. Changes in amino acids and lipids during embryogenesis of European lobster, Homarus gammarus (Crustacea: Decapoda). Comparative Biochemistry and Physiology, part B, 140: 241-9.
Shah, T. et al. 2015. Ethanolamine kinase-1 and phosphoethanolamine are potential diagnostic markers and therapeutic targets in breast cancer [abstract]. In: Proceedings of the 106th Annual Meeting of the American Association for Cancer Research; 2015 Apr 18-22; Philadelphia, PA. Philadelphia (PA): AACR; Cancer Res 2015;75(15 Suppl):Abstract nr 1195.
Smith, J.A. et al. 1984. Different growth factors stimulate cell division of rat mammary epithelial, myoepithelial, and stromal cell lines in culture. Journal of Cellular Physiology 119: 320-6.
Spiegel, S. & Milstien, S. 2003. Sphingosine-1-phosphate: an enigmatic signaling lipid. Nature Reviews Molecular Cell Biology 4: 397-407.
Turner, O. et al. 1994. Developmental and gestational changes of phosphoethanolamine and taurine in rat brain, striated and smooth muscle. Experimental Physiology 79: 681-9.
Vance, J.E. 2008. Phosphatidylserine and phosphatidylethanolamine in mammalian cells: two metabolically related aminophospholipids. Journal of Lipid Research 49: 1377-87.
Vance, J.E. & Vance, D.E. 2004. Phospholipid biosynthesis in mammalian cells. Biochem. Cell Biol. 82: 113-28.
Vermeersch, K.A. et al.. 2014. Distinct metabolic responses of an ovarian cancer stem cell line. BMC Systems Biology 8: 134.
Zeise, M. & Lehmann, A. 1987. Phosphoethanolamine transiently enhances excitability of rat hippocampal neurons in vitro. J Comp Physiol A 161: 461-7.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

NÃO MATEM OS MACACOS! - Qual o papel dos macacos nos casos de febre amarela?

Resposta curta: NÃO MATEM OS MACACOS!

Resposta longa:

Com o recente surto de febre amarela e diversos casos reportados da doença em *macacos* na cidade de São Paulo, infelizmente os primatas vêm sendo alvo de ataques e vários foram encontrados mortos com sinais de violência e envenenamento.

A imprensa e várias autoridades sanitárias vêm alertando que tais atos de crueldade não têm fundamento uma vez que os macacos não transmitem a febre amarela. Isso é correto? Afinal, qual o papel dos primatas na doença?

Existem dois ciclos da doença. O ciclo urbano - ausente no Brasil desde 1942 - envolve a transmissão do vírus amarílico de uma pessoa infectada para outra não infectada através da picada do mosquito do gênero Aedes: Aedes aegypti e Aedes albopictus principalmente. No ciclo silvestre - endêmico e virtualmente impossível de erradicar, presente no Brasil - o vírus circula de um mamífero, especialmente macacos, mas também alguns marsupiais e roedores, para outro tendo como vetor mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Todos os casos no país são do tipo silvestre. Ocasionalmente, pessoas que se embrenham nas matas ou em seu entorno (trabalhadores rurais, campistas e turistas, soldados...) são picadas por um mosquito Haemagogus ou Sabethes contaminado e são infectadas. (Para uma revisão, veja Monath e Vasconcelos 2015.)

Macacos não são considerados reservatórios do vírus porque normalmente adoecem e morrem. Os reservatórios acabam sendo os próprios vetores, onde a população de vírus se mantém em um certo nível; podendo ocorrer inclusive transmissão vertical - da fêmea para seus descendentes - por infecção transovariana (o vírus acaba penetrando os ovos que se desenvolvem dentro do corpo da fêmea). Mas os macacos são considerados um dos principais amplificadores. Quando um símio é infectado, o vírus se multiplica em seu organismo, podendo infectar vários mosquitos que se alimentam de seu sangue e com cargas virais mais altas.

Não está absolutamente claro o papel da transmissão vertical na manutenção do ciclo silvestre; os especialistas tendem a dar mais importância à população de macacos de uma região. Surtos epizoóticos (grande aumento do número de casos em animais não humanos) ocorrem em intervalos de cinco a oito anos em uma região; a população de mosquitos não se altera tanto, mas é possível que o período decorra em função do tempo que leva para a população de macacos se recuperar - já que os que são afetados pela doença frequentemente morrem, diminuindo muito o número de animais na área. Na maior parte dos casos, tais surtos se deslocam por áreas contíguas, o que possivelmente se deve ao deslocamento de macacos contaminados por um novo local em que há animais não afetados.

Ocorre também casos em que o vírus de uma linhagem, subitamente, aparece em uma nova área muito distante de onde normalmente circula. Geralmente isso é interpretado pelo deslocamento de pessoas infectadas - os macacos e os mosquitos têm um deslocamento mais limitado - ou, de modo não mutuamente incompatível - pelo tráfico de animais silvestres (com indivíduos virêmicos - com vírus no sangue).

Então, os casos humanos no Brasil - e onde não há o ciclo urbano - ocorre quando um mosquito selvático que se alimentou previamente do sangue de um macaco infectado eventualmente pica uma pessoa. O macaco não transmite a febre amarela diretamente, mas por meio do vetor - os mosquitos.

A população de macacos é um fator de risco para a ocorrência de febre amarela em humanos. Hamrick et al. 2017 analisaram vários fatores: coordenadas geográficas, tipo de hábitat predominante (floresta, campo, cerrado...), temperatura, pluviosidade, intensidade de uso do solo (como áreas agrícolas), perda de dossel (desmatamento), presença de primatas não-humanos. O principal fator de risco são as chuvas: pluviosidade de 1.000 a 1.700 mm/ano aumenta o risco em mais de 7 vezes em relação a regiões com índices de chuva menores; regiões com pluviosidade superior a 2.700 mm/ano tem um risco quase 20 vezes maior de haver casos de febre amarela em humanos. Altitudes abaixo de 800 m têm um risco de cerca de 5 vezes maior do que em áreas de altitude superior a 1.800 m. Regiões com temperaturas médias superior a 20°C têm risco de 2 vezes ou mais de regiões com temperaturas abaixo de 15°C. E a diversidade de primatas na região também afeta: a presença de um gênero de macaco aumenta as chances em mais de 3 vezes em relação a áreas sem sua presença.

Isso, no entanto, de modo algum justifica a crueldade com os primatas, nem mesmo um abate humanitário. Boa parte dos primatas são espécies vulneráveis - estão em algum grau em risco de extinção -, eles têm um importante papel ecológico ao predarem pequenos artrópodos e vertebrados e dispersarem sementes; são também espécies capazes de sentir dor e têm alguma habilidade cognitiva.

Como os mosquitos selváticos têm uma limitada capacidade de deslocamento e não se aventuram para fora de áreas de mata, as pessoas podem evitar de pegar a febre amarela não se aproximando de regiões de mata em que há registros da doença. As pessoas que moram no entorno podem ser perfeitamente protegidas por meio da vacinação, que é altamente eficaz e suficientemente segura.

Assim, uma vez que existem outros meios e muito mais eficientes de se evitar a febre amarela em humanos e considerando as características biológicas e seu status de conservação, razões éticas, legais e ecológicas muito fortes contra a matança dos macacos existem.

Resumo: NÃO MATEM OS MACACOS!

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Como é que é? - Atletas mulheres trans levam vantagem sobre atletas mulheres cis?

A recente estreia da jogadora Tiffany Abreu, transgênero (pessoa que nasce com o sexo biológico oposto ao qual com que se identifica) homem-mulher, na Superliga de Vôlei Feminino, causou bastante interesse - é a primeira atleta trans a atuar em uma competição de elite no voleibol nacional. Bastante interesse e muita polêmica. Por exemplo, a ex-jogadora Ana Paula Henkel criticou a decisão da federação de permitir a participação - embora, como a própria Henkel reconhece, sob auspícios da legislação desportiva internacional sobre o tema. Para ela - e muitos contrários à integração de atletas trans em meio às cisgêneros (pessoas que nascem com o sexo com que se identifica) -, as atletas trans levam uma vantagem pela exposição pretérita aos hormônios androgênicos antes dos tratamentos para a transição de gênero: inibidores hormonais que mantém os níveis de andrógenos como a testosterona muito abaixo dos níveis normalmente encontrados mesmo em mulheres cis.

A Declaração do Consenso de Estocolmo sobre a Cirurgia de Readequação de Sexo no Esporte, de 2003, estipulou parâmetros para a admissão de atletas transgêneros - particularmente de mulheres trans em competições femininas - nas Olimpiadas de Atenas em 2004. Sofrendo modificações recentes, que abordam também os casos de hiperandrogenismos (em que mulheres cisgêneros cujos corpos produzem níveis de hormônios androgênicos mais altos do que a média das mulheres). Atletas trans homens não sofrem qualquer restrição especial para participar em competições masculinas. As atletas trans mulheres devem: declarar que são mulheres (e devem manter a declaração, para fins esportivos, por pelo menos quatro anos), apresentar níveis de testosterona inferiores a 10 nmol/L por pelo menos 12 meses antes de estreia em uma competição esportiva (o tempo de moratória pode ser alongado a depender do caso) e durante toda a carreira como atleta feminina (caso não passe em algum teste, haverá suspensão por 12 meses).

Isso é o suficiente? O fato de a pessoa treinar boa parte da vida como homem, desenvolver musculatura, sistema respiratório e esquelético de um atleta homem... influencia após a transição de gênero?

A verdade é... não sabemos. Jones, B.A. e colaboradores (2017) revisaram a literatura científica a respeito da performance das atletas trans em comparação com atletas cis e concluíram:
"Results In relation to sport-related physical activity, this review found the lack of inclusive and comfortable environments to be the primary barrier to participation for transgender people. This review also found transgender people had a mostly negative experience in competitive sports because of the restrictions the sport’s policy placed on them. The majority of transgender competitive sport policies that were reviewed were not evidence based.
Conclusion Currently, there is no direct or consistent research suggesting transgender female individuals (or male individuals) have an athletic advantage at any stage of their transition (e.g. cross-sex hormones, gender-confirming surgery) and, therefore, competitive sport policies that place restrictions on transgender people need to be considered and potentially revised."
["Resultados: Em relação às atividades físicas relacionadas aos esportes, esta revisão encontrou na falta de ambientes inclusivos e confortáveis a barreira primária à participação de pessoas transgêneros. Esta revisão também encontrou que pessoas trans têm na maior parte das vezes experiências negativas em esportes competitivos por causa das restrições que a política esportiva impôs a elas. A maioria das políticas de esportes competitivos para transgêneros que revisamos não são baseadas em evidências.
Conclusão: Atualmente, não há pesquisas diretas nem consistentes sugerindo que indivíduos transgêneros femininos (ou indivíduos masculinos) tenham alguma vantagem atlética em qualquer estágio de sua transição (p.e. terapia hormonal cruzada, cirurgia de readequação de sexo) e, assim, políticas de esportes competitivos que impõem restrições às pessoas transgêneros devem ser consideradas e potencialmente revisadas."]

Até o momento, apenas um estudo publicado analisou diretamente o efeito hormonal no desempenho de atletas trans. O tamanho amostral (n = 8) é muito baixo e a metodologia deixa a desejar para uma conclusão forte, mas, comparando o desempenho na corrida de longa distância (5 a 42 km) de atletas antes de depois do tratamento de supressão da testosterona, Harper (2015) verificou que após a supressão, o tempo relatado (não foi medido objetivamente pelo pesquisador, mas as próprias atletas reportaram a alteração) aumentou significativamente (isto é, as atletas ficaram mais lentas) e passou a apresentar um desempenho similar a atletas cis mulheres.

Um outro estudo apresentado no World Congress of Performance Analysis of Sport XI 2016, Harper e cols. compararam o desempenho de 6 atletas: 1 velocista, 1 remadora, 1 ciclista e 3 fundistas. Após corrigir para a idade, todas apresentaram uma queda do desempenho após o tratamento, de 6 a 11%, que seria consistente com as diferenças entre atletas masculinos e femininos de elite.

Precisaremos de mais estudos para saber se realmente há a tal vantagem das atletas trans - as indicações disponíveis até o momento (são fracas, é preciso frisar) é que não.

Mas, mesmo que eventualmente encontre-se uma vantagem, não necessariamente a solução seria a segregação entre atletas trans e cis. Várias modalidades aplicam mecanismos de compensação para tornar a disputa mais equilibrada. O golfe, por exemplo, usa o sistema de handicap para que jogadores em níveis distintos possam competir entre si com chances mais parecidas de vitória. O próprio vôlei, no Brasil, usa sistema de classificação de atletas: os clubes têm um limite de número de atletas mais bem avaliados que podem ter em seus elencos. Associações como a NBA usam o sistema de draft, em que as equipes se alternam na escolha dos atletas estreantes. Quase todas as modalidades apresentam divisão por idade; muitas dividem por peso.

Upideite (11/fev/2018): Veja também.
Pirula (15/jan/2018): Tiffany e transexuais no esporte. (video)

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails