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domingo, 27 de dezembro de 2015

Minidiretório de podcasts e DC em áudio

Segue uma compilação de podcasts e programas de rádio (disponíveis via web) de DC em português. (Certamente está longe de exaustiva, por isso indiquem nos comentários os que escaparam desta primeira leva.)

Ativos
.Alo, Ciência? - via @lucianocupim (03.set.2016)
.Biomedcast (27.fev.2017)
.Ciência em Pauta. (Não sei se terá uma página própria pro podcast.)** (16.jan.2017)
.Dragões de Garagem
.Electron (Museu Ciência e Vida) - contribuição de Patrícia Santos nos comentários
.Estourando a Bolha (alunos IAG/USP) - contribuição de @kiqpls 8.jul.2017)
.Eureka Podcast
.Fronteiras da Ciência (UFRGS)
.Observador Quântico - contribuição da autora @thainehsouza (21.out.2016)
.Ondas da Ciência (Fapemig)
.O Nicho - não conheço (21.out.2016)
.Oxigênio (Labjor/RTV Unicamp) (só streaming agora com download)*
.Paideia (UFSCar)
.Papo Cético - não conheço (08.fev.2017)
.Papo com Cientista. via @stevensrehen (06.nov.2017)
.Paradoxo Concreto - não conheço (21.out.2016)
.Pesquisa Brasil (Fapesp)
.Podcast Unesp
.PODEntender - contribuição do Luiz Bento, nos comentários
.Positrônico - não conheço (21.out.2016)
.Saúde com Ciência (UFMG) - contribuição de Patrícia Santos nos comentários
.Rádio CNPq - contribuição do Luiz Bento, nos comentários
.Rock com Ciência
.SciCast
TransCiência - via Oxigênio (01/dez/2016)

Inativos
.Dispersando (Scienceblogs Brasil)
.Estúdio CH (Ciência Hoje)

*Upideite(03/set/2016): modificado a esta data.

Upideite(21/out/2016): Subdiretório do Mundo Cast com podcasts de ciências.

**Upideite(13/fev/2017): atualizado a esta data.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sai zika: mitos sobre o vírus zika e a microcefalia

Manterei aqui uma lista de esclarecimentos a respeito de mitos sobre o ZIKV e a microcefalia (procurarei atualizá-la à medida em que surgirem, infelizmente surgirão, mais boatos). A desinformação tende a ser um vírus muito mais letal.

Como no caso da pandemia da gripe H1N1, começam a circular textos/vídeos/áudios, muitas vezes apócrifos, sem nenhum embasamento científico que, se levados a sério, podem causar problemas bastante graves às pessoas.

Repito o apelo que já fiz antes:
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NUNCA REENVIE NENHUMA MENSAGEM A SEUS CONTATOS DENTRE AS QUE PEDEM PARA SEREM REENVIADAS.

Mesmo as que parecem bem intencionadas. Em uma corrente, como no telefone sem fio, sempre há alguma coisa que se altera no meio do caminho - pode ser um espírito de porco (bem apropriado para a gripe suína e em linha com a zika), pode ser um erro involuntário. Essa alteração pode ser grave.

Procure informações sempre em fontes confiáveis. (Desconfie até das informações dadas por este blogue.) Não sou especialista na área. Se receberem os mesmos spam/correntes/hoaxes/posts/atualizações/tweets/conteúdos aqui respondidos e forem contra-argumentar, não indiquem esta postagem, usem as referências aqui citadas: OMS, MS, Fiocruz... Procurei trazer informações relevantes, mas posso inadvertidamente ter interpretado erroneamente ou ter tirado do contexto devido.)
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1) Crianças e idosos com sintomas neurológicos, em especial o coma, devido ao vírus zika, (fonte: BBC)
Segundo a Fiocruz, até o momento não há nenhum registro de crianças, jovens, adultos e idosos com sintomas neurológicos decorrentes do vírus zika. Ainda que não seja algo impossível de vir a ocorrer, nenhum caso foi notificado e muito menos confirmado pelas autoridades de saúde.

Porém, há confirmação da relação entre infecção por vírus zika e ocorrência da síndrome de Guillain-Barré: fraqueza muscular devido a danos no sistema nervoso *periférico* - por um ataque autoimune (isto é, as próprias células de defesa atacam células do corpo do indivíduo).

2a) Inseticidas e repelentes naturais contra o mosquito transmissor do ZIKV (fonte: Bolsa de Mulher)
Inseticidas e repelentes ditos 'naturais' a base de óleo de citronela, cravo, andiroba e outros não têm nenhuma comprovação científica de eficácia e nem têm registro na Anvisa. Há formulações comerciais registradas com fórmulas que contêm tais compostos, porém elas apresentam sempre outro princípio ativo, cuja eficácia e eficiência foram devidamente testadas.

2b) Ingerir ou passar sobre a pele vitamina B afasta mosquitos (fonte: iG)***
Não há comprovação científica de que a ingestão ou aplicação tópica de vitamina B evite que a pessoa seja picada por mosquitos. Estudos disponíveis indicam que não tem efeito: Khan et al. 1969Maasch 1973Ives et al. 2005, entre outros.

2c) Crotalária contra de mosquito (fonte G1)8
Não há nenhum indício de que a Crotalaria spp. tenha efeito de combater o mosquito da dengue pela presença de libélulas que seriam atraídas pela planta.

Diz o documento do Instituto Agronômico de Campinas a respeito da prática:
"A divulgação dessa informação, como prática eficaz e comprovada e considerada por alguns até como de vanguarda é de fato alarmante e irresponsável porque, além da semeadura em praças e farta distribuição de vasinhos com mudas de crotalária, como ações de alguns políticos e de prefeituras do interior dos Estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, por exemplo, foram propostos muitos projetos de lei de âmbito municipal, alguns vetados e outros, preocupantemente já aprovados, para incentivo ao cultivo de crotalárias (geralmente de C. juncea), bem como de citronela, muitos deles baseados em justificativas no mínimo, não adequadas, particularmente no quesito comprovação científica."
"Segundo o professor Andrade, 'seriam necessários milhões de libélulas para combater apenas algumas larvas do mosquito'. Informa também que, além de ser uma predadora inespecífica, ou seja, não preda preferencialmente as larvas do Aedes, é raro que as libélulas sejam constatadas em locais onde, também, é comum o mosquito da dengue. Além disso, a libélula faz a postura de seus ovos em grandes depósitos de água enquanto o mosquito precisa apenas de uma gota de água (Lange, 2001)."

2d) Espalhar potes de água e trocar a água três vezes por semana para eliminar o mosquito (fonte: Canal do Pirulla)9
O grande problema é que  medida não foi testada (por exemplo, aplicando-se em um bairro e comparando os níveis de infestação com bairros próximos). É temerária a indicação de medidas de saúde pública sem testes prévios adequados.

Sem testes, no entanto, há elementos que nos fazem suspeitar que a medida traz perigos potenciais.

As pessoas não têm disciplina suficiente para manter a troca da água do pote dia sim, dia não. E uma semana que deixem de trocar, pode ser o suficiente para que as larvas virem pupas e os adultos alados emerjam - do ovo ao adulto o ciclo pode levar cerca de 10 dias.

A população não tem disciplina nem de eliminar os focos de água parada nos quintais - uma fração da população tem, mas outra não - por isso que praticamente todo verão vemos surtos de dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos (embora não seja um problema exclusivo do cidadão comum).

"Apesar dos níveis de conhecimento satisfatório em praticamente todos os estudos, foram observados elevados níveis de infestação domiciliar pelo vetor, indicando que as campanhas educativas, embora relativamente eficientes na transmissão de informações, não têm alcançado seu principal objetivo, que é a mudança de comportamento das populações quanto ao efetivo controle dos criadouros do vetor. [...] Duas questões levantadas por esses estudos parecem explicar, na maior parte, a pequena adesão das comunidades às estratégias de eliminação dos criadouros do vetor – as representações sobre o dengue [como algo inevitável, mas passageiro, como gripe] e sobre os riscos associados aos mosquitos; e as dificuldades em evitar a infestação de recipientes domésticos em função de problemas de saneamento nas comunidades." (Claro et al. 2004.)

E mesmo que todos realmente trocassem a água a cada dois dias, onde essa água irá parar? Quase certamente no ralo. Aí selecionaremos as linhagens cujas larvas são capazes de completar o ciclo nos esgotos.

Medidas testadas e aplicadas são as campanhas de eliminação de criadouros (inclusive com fiscalização casa a casa), introdução de controle biológico (predadores, patógenos, competidores, técnicas de macho estéril...), controle químico, vacinação e combinações dessas estratégias.

3) A microcefalia causada por agrotóxicos como a 2,4 D (fonte: prefiro não linkar)
Há várias causas de microcefalia: genéticas, infecção por rubéola e abuso de álcool e drogas durante a gravidez., E vários agrotóxicos, incluindo o herbicida 2,4-D, têm efeitos teratogênicos - como entre outros, a microcefalia - comprovados em vertebrados. Porém, o surto atual corresponde a um número de casos mais de 10 vezes maior do que a média dos 5 anos anteriores: de cerca de 150 casos por ano para mais de 1.700 registrados até a primeira semana de dezembro. Não temos um registro de aumento súbito e nesse nível da utilização de agrotóxicos no país: o aumento foi de 700% ao longo dos últimos 40 anos.

4a) A epidemia de zika é invenção para cobrir contaminação de vacina contra rubéola, um plano para reduzir a população mundial (fonte: twitter, Extra**)
A introdução da vacinação para reduzir a população mundial deve ser o plano de conspiração mais ineficiente da história, já que tudo o que a população mundial tem feito desde a introdução das campanhas de vacinação é crescer e crescer muito. Só a vacina contra o sarampo sozinha deve ter salvado algo como 17 milhões de vidas desde o ano 2000.

Há casos de lotes ou linhas de vacinas com problemas - por exemplo, por inativação ineficiente do patógeno ou utilização de um componente que causa alergia -, quando detectado, a utilização destes tende a ser rapidamente suspensa (para os que não acreditam em suspensão humanitária, pode pensar que a continuação do uso pode significar mais casos de processos indenizatórios) - embora o processo de indenização tenda a não ser tão veloz.

O zika, até o momento, está associado a 19 óbitos no Brasil. Seria, novamente, um processo altamente ineficaz de redução da população. Compare-se, p.e., com as mortes por homicídio no país, 53.646 em 2013, ou as 43.800 mortes no trânsito no mesmo ano. É menor até mesmo do que o número de pessoas que morrem por ano atingidas por raio no Brasil: média anual de 111 mortes.

*Embora o vírus da rubéola (RuV) seja uma das causas de microcefalia, as vacinas contra a rubéola (dupla ou tripla viral), contendo vírus atenuados, não são aplicadas em grávidas (mesmo os dados indicando que são seguros também durante a gravidez) - o período crítico da RuV é entre 1 a 3 meses de gestação. O protocolo para relacionar um caso de microcefalia à infecção por ZIKV exclui os principais fatores causadores da má formação: rubéola, citomegalovírus, toxoplasmose... e de síndrome exantemática (manchas vermelhas na pele):; dengue, chicungunha, herpes...

4b) Vacina de HPV responsável pelo surto de microcefalia (fonte twitter)5
O padrão espacial e demográfico também não dão apoio ao mito. Uma grande campanha de vacinação contra o HPV foi iniciada no primeiro semestre de 2014 e em todo o Brasil; se houvesse vínculo, o aumento dos casos deveria se dar entre o fim de 2014 e início de 2015 e não se concentrar nos estados do Nordeste.

Além disso, o público alvo foram meninas de 11 a 13 anos.

5) Mosquito transgênico causou o zika e a microcefalia (fonte: prefiro não linkar)
O ZIKV tem existência registrada há bem mais tempo do que os mosquitos transgênicos. Foi isolado pela primeira vez em 1947, a partir de macaco reso mantido em gaiola como sentinela para detecção de expansão de doenças, na floresta de Zika, em Uganda. Os primeiros surtos maiores fora da África foram detectados em 2007, em ilhas da Federação da Micronésia.

Os primeiros testes com mosquito transgênico no Brasil ocorreram em 2011, em Juazeiro-BA. O surto de microcefalia só ocorreu em 2015. Além disso os municípios com mais casos de microcefalia no Estado são: Salvador (53), Lauro de Freitas (4) e Camaçari (3) - cidades litorâneas a uns 500 km de Juazeiro.

Ou seja, os padrões de tempo e espaço são incompatíveis com a liberação de mosquitos transgênicos estar relacionada com a epidemia de zika e microcefalia.

6) A inexistência de epidemia de microcefalia nos países africanos prova que a zika não tem relação com a má formação (fonte: O Sul)***
Embora não haja registro de epidemia de microcefalia nos países africanos, a incidência da má formação é relativamente alta. Em um estudo com 3.196 recém-nascidos entre 2005 e 2007 no sudoeste da Nigéria, 340 apresentavam microcefalia, isto é, uma incidência de 10.638 casos a cada 100.000 nascimentos - compare-se com a média de 2010 a 2014 no Brasil de 5,38 casos a cada 100.000 nascimentos. Mesmo em situação de epidemia, aqui, por enquanto, a média nacional está em 60,64 casos por 100.000 nascidos vivos. Nessa região da Nigéria, durante o período do estudo, há uma incidência 175 vezes maior do que no Brasil durante a epidemia. Lá, a maior parte dos casos possivelmente tem a contribuição da infecção por citomegalovírus (CMV): virtualmente 100% dos recém-nascidos estão infectados.

Um estudo feito entre 2004 e 2005 com crianças em idade pré-escolar em Kinshasa, República Democrática do Congo, encontrou, entre as 90 crianças controle (sem infecção pelo HIV), 1 caso de microcefalia. Se isso reflete a incidência ao nascer, corresponderia a uma taxa de 1.111 casos em 100.000.

Faltam estudos para saber se alguma fração desses casos deve-se à incidência de zika. Afinal, foi com a epidemia no Brasil que se aventou a possibilidade de associação - portanto, ninguém poderia pensar em pesquisar isso antes. Desconsiderando-se que a microcefalia possa ser uma manifestação nova de infecção por zika - os vírus, ao se espalharem por novas áreas, podem sofrer mutações e, com isso, induzir novos sintomas -, há várias outras possibilidades. Pode ser que a infecção por zika por gestantes em países da África sub-saariana esteja também relacionada a casos de microcefalia fetal, mas esteja mascarado pela alta incidência geral da má formação. Como não parece haver uma flutuação na taxa de infecção por zika nesses países (repetindo que faltam informações para saber o quanto é verdade que realmente não haja essa flutuação), o nível de microcefalia não varia - permanece alto. Pode ser que, como o ZIKV circula há mais tempo por lá, boa parte da população apresente imunidade, não havendo infecção nova entre as gestantes. Pode ser que a relação entre ZIKV e a microcefalia dependa de outros fatores - como infecção pregressa por determinados sorotipos de vírus da dengue.

O motivo exato de não se ter registro de relação entre ZIKV e casos de microcefalia em países africanos ainda precisa ser esclarecido, mas desde já parece claro que não se constitui em prova de que essa relação não possa existir - ao contrário, dados da Polinésia Francesa e do Brasil indicam a associação.

7a) Carência nutricional - como falta de iodo e magnésio na dieta - como causa principal da microcefalia e fator de predisposição à microcefalia associada à zika (fonte: prefiro não linkar)***
A carência nutricional materna - sobretudo durante a gravidez - está associado a casos de microcefalia congênita. Mas não há registro de que tenha havido um surto de deficiência nutricional materna concomitante ao aumento atual dos casos de microcefalia.

A desnutrição também tende a tornar o organismo de modo geral mais vulnerável a infecções. Mas, novamente, não há registro de aumento súbito no nível de desnutrição dos brasileiros nas áreas com epidemia de zika e microcefalia.

Uma população bem nutrida certamente deve ser mais resistente a epidemias do que uma população com carências nutricionais, no entanto, dificilmente deixaria de haver uma alta do número de casos de zika e de microcefalia se, em tudo o mais sendo igual, o brasileiro tivesse acesso a uma dieta mais rica e equilibrada: epidemias de outras doenças como a dengue correlacionam-se muito mais com a população de vetores - no caso, os mosquitos - do que com o estado nutricional geral da população: o brasileiro não tende a ficar subitamente mal nutrido em época de calor e chuvas, quando os casos de dengue tendem a subir muito.

7b) Carência de vitamina D/falta de exposição ao sol como causa/agravante da zika (fonte: prefiro não linkar)8
Os padrões geográficos entre incidência de hipovitaminose D e febre zika não são compatíveis com a hipótese de relação causal entre elas. Se a falta de exposição ao sol tivesse uma influência significativa, então os estados do sul deveriam ser mais afetados do que os do NE.

Um dos textos assume que no Brasil haveria febre zika e não nos países africanos pela diferença de exposição à luz solar, mas não sabemos bem se realmente não há casos da doenças por lá pela falta de dados confiáveis - na epidemia recente, a transmissão autóctone de ZIKV foi registrada em Cabo Verde. Em anos passados, em vários países africanos houve casos reportados de febre zika, como na Nigéria, nos Camarões e na República Central Africana.

Curiosamente, na Nigéria não há registro de maior hipovitaminose D nas crianças com raquitismo, mas há registro de incidência bastante alta (83%) entre as mulheres da etnia fula. Entre as crianças sul-africanas, há insuficiência de vitamina D em 19% e em 7% delas há deficiência. A falta de exposição pode ser a causa especialmente por causa da vestimenta das mulheres de certas culturas e religiões, que devem ficar praticamente toda coberta. Há também carência da vitamina em função da dieta.

No Brasil, a hipovitaminose D é rara - ainda que possa ocorrer em nível subclínico, especialmente entre as mulheres idosas.

8) Remédios homeopáticos para prevenção e tratamento de zika (fonte: prefiro não linkar)****
Nas epidemias de dengue há vários casos de uso de formulações homeopáticas, inclusive por autoridades sanitárias locais, para o tratamento da doença - em especial como auxiliar ao tratamento convencional (não como substituto). Mas, de modo geral, falta um bom acompanhamento do resultado.

Os melhores resultados disponíveis, no entanto, indicam que *não* há eficácia na utilização de tratamentos homeopáticos contra a dengue.

Considerando-se que meta-análises mostram que a homeopatia não é melhor do que o placebo para uma ampla gama de doenças e condições: câncer, TDAH, asma, demência, indução de trabalho de parto, entre outros, seria surpreendente que funcionasse contra a dengue. Do mesmo jeito seria surpreendente que funcionasse contra a febre zika.

De todo modo, como se trata de uma epidemia recente, não há nenhum estudo para o uso de tratamento homeopático contra a infecção por ZIKV; portanto, não há nenhum dado científico a sustentar sua eficácia. (No caso da dengue, nem mesmo associações médicas homeopáticas sustentam que a homeopatia previna a doença.)

9a) O vírus zika chegou ao Brasil com os imigrantes haitianos (fonte: prefiro não linkar)5
O padrão temporal e geográfico são contrários ao mito.

Os haitianos entram pelo Brasil principalmente através do Acre, via Peru e Equador. A grande maioria dirige-se, então, para São Paulo, Minas Gerais e estados do Sul. Até 05/dez não havia registro nem epidemia de zika, nem de surto de microcefalia.

Além disso, esse fluxo migratório iniciou-se em 2010, com o grande terremoto de magnitude 7 que arrasou o país. E até o momento não há registro de surto de ZIKV no Haiti.

9b) O zika veio com os médicos cubanos (fonte: prefiro não linkar)7
Mais um caso em que o padrão temporal e geográfico não bate com a alegação.

Os primeiros médicos cubanos do Programa Mais Médicos chegaram ao fim de 2013. O estado que mais recebeu médicos do país caribenho é São Paulo - com 1.914 profissionais atuando em agosto de 2014 (apenas o 15° entre os estados com mais suspeitas de microcefalia até 15/dez/2015); seguido da Bahia: 1.067 (3° em microcefalia), Minas Gerais: 1.012 (13°), RS: 808 (20°, com apenas um caso suspeito) e PR: 704 (sem casos suspeito registrado até o momento). PE, com mais casos de microcefalia até 15/dez/2015, é apenas o nono estado com mais médicos de Cuba: 504.

Até o momento não há registro de ZIKV em Cuba.

10) A causa da microcefalia é a sífilis. Ocultam isso porque gastam mais no combate ao mosquito da dengue do que com a prevenção da sífilis. (fonte: prefiro não linkar)6
Infecção materna por Treponema pallidum, bactéria causadora da sífilis, realmente é uma das causas de microcefalia. Mas não há registro de epidemia de sífilis no país (nos comentários, a leitora Sher Duarte observa que há profissionais de saúde que classificam o aumento do número de casos de sífilis desde 2007 como epidêmicoa; no entanto, o padrão de aumento não é de 10 vezes em um ano; em AC, o aumento foi de 96% nos registros entre 2013 e 2014; em PE, de 95%; no Paraná, de 63,1%; o padrão geográfico não bate com as taxas de aumentos de microcefalia)10. E o protocolo de diagnóstico de vírus zika nos casos suspeitos de microcefalia incluem testes sorológicos contra a sífilis.

De fato, a prevenção à sífilis dependeria apenas de uma mudança no comportamento sexual: uso de preservativo, principalmente. E há campanhas de incentivo ao sexo seguro, no contexto das DST (a sífilis é uma das várias DST) e aids. Mas o combate ao mosquito também envolveria basicamente uma mudança comportamental: as pessoas eliminarem locais de acúmulo de água da chuva em suas residências. E há campanhas para isso.

11) A relação entre o vírus zika e o surto de microcefalia foi confirmada pelo governo com base em um único caso de detecção do ZIKV em tecidos de um bebê. (fonte: prefiro não linkar)6
Na apresentação do "Protocolo de vigilância e resposta à ocorrência de microcefalia relacionada à infecção pelo vírus zika", o MS lista os indícios que relacionam o ZIKV com o surto de microcefalia.
"1. Constatação de que os padrões de distribuição dos casos suspeitos de microcefalia pós-infecciosa
apresentam características de dispersão e não indicam concentração espacial;
2. Constatação de que os primeiros meses de gestação das mulheres com crianças microcefálicas
correspondem ao período de maior circulação do vírus Zika na região Nordeste;
3. Constatação, após investigação epidemiológica de prontuários e entrevistas com mais de 60
gestantes, que referiram doença exantemática na gestação e cujas crianças com microcefalia,
sem histórico de doença genética na família e/ou exames de imagem sugestivo de processo
infeccioso; 
4. Constatação de alteração no padrão de ocorrência de microcefalias no SINASC (Sistema de
Informação de Nascidos Vivos), apresentando um claro excesso no número de casos em várias
partes do Nordeste;
5. Observações de especialistas em diversas áreas da medicina (infectologia, pediatria,
neuropediatria, ginecologia, genética, etc.) de que há alteração no padrão clínico individual
desses casos que apresentam características de comprometimento do Sistema Nervoso Central,
similar às infecções congênitas por arbovírus em animais, como descrito na literatura;
6. Evidência na literatura de que o vírus Zika é neurotrópico, demostrado em modelo animal e pelo
aumento na frequência de quadros neurológicos relatados na Polinésia Francesa e no Brasil após
infecção por Zika e confirmado em Pernambuco, após isolamento do vírus em paciente com
síndrome neurológica aguda;
7. Identificação de casos de microcefalia também na Polinésia Francesa após notificação do Brasil
à Organização Mundial da Saúde; 
8. Constatação da relação de infecção pelo vírus Zika com quadros graves e óbitos a partir da
identificação de casos que evoluíram para óbito em estados diferentes e ambos com
identificação do RNA viral do Zika e resultados negativos para os demais vírus conhecidos, como
dengue, chikungunya entre outros;
9. Identificação do vírus Zika em líquido amniótico de duas gestantes cujo feto apresentava
microcefalia, no interior da Paraíba;
10. Identificação de óbitos de recém-nascidos com malformações e padrão sugestivo de infecção no
estado do Rio Grande do Norte e outros Estados;
11. Identificação de recém-nascido, no estado do Ceará, com diagnóstico de microcefalia durante a
gestação e resultado positivo para o vírus Zika, tendo evoluído para óbito nos primeiros 5
minutos de vida."

Pelos dados divulgados no boletim do dia 15/dez, dos casos suspeitos de microcefalia já analisados, em 134 foi diagnosticada a zika e em 102 houve descarte da presença do vírus. Outros 2.165 casos estão sob investigação. (Na verdade, os casos de confirmação é de diagnóstico inicial de microcefalia. Os casos de microcefalia com confirmação de presença de ZIKV até 23.jan.2016 são 6.)11

12) A recomendação pelo Ministério da Saúde para que as mulheres não engravidem é para controlar as mulheres (fonte: prefiro não linkar)6
O MS *não* fez recomendação para que as mulheres não engravidem. Nas orientações às gestantes, o MS diz explicitamente:
"Não há uma recomendação do Ministério da Saúde para evitar a gravidez. As informações estão sendo divulgadas conforme o andamento das investigações. A decisão de uma gestação é individual de cada mulher e sua família."

Agora, de fato, há profissionais de saúde, inclusive ligados aos órgãos do MS, que fazem a recomendação de evitar a gravidez enquanto houver a epidemia de zika. Mas é uma recomendação, não uma imposição. A decisão final é da mulher.

*Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
**Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
***Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
****Upideite(11/dez/2015): adido a esta data.
5Upideite(19/dez/2015): adido a esta data.
6Upideite(23/dez/2015): adido a esta data.
7Upideite(27/dez/2015): adido a esta data.
8Upideite(25/jan/2016): adido a esta data.
9Upideite(31/jan/2016): adido a esta data.
10Upideite(05/fev/2016): adido a esta data.
11Upideite(05/fev/2016): corrigido a esta data.

Upideite(27/jan/2016): Veja também
Educação na Web/Material de apoio docente para Zika (material produzido pela turma de 2015 da disciplina Internet no Ensino de Ciências e Biologia, ministrada pelo Dr. Átila Iamarino e pela Profa. Dra. Sônia Lopes.
Zika: "Brigada" Anti-Boato (Canal do Pirulla)
Zika e os boatos zicados (Canal do Pirulla)

Parte 2 da lista.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Microcefalia e zika: mudança de critério *aumentou* importância do surto

Saiu o novo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde sobre os casos de microcefalia, o primeiro desde a alteração do critério, se, como desconfiaram alguns, essa mudança tivesse sido introduzida para diminuir o impacto do surto, bem, o que ela fez foi *aumentar* a diferença entre a média dos anos anteriores e o total de casos em 2015: com os valores do último boletim, o aumento da incidência sobre a média era de 8 vezes, agora é de mais de 11 vezes.*

Tabela 1. Casos suspeitos de microcefalia no Brasil.
Até 05/dez/2015. Fonte: MS.
região casos
2015
média
2010-2014
2015/média
Brasil 1.761 156,2 11,3
PE 804 8,6 93,5
PB 316 4,2 75,2
BA 180 10,6 17
RN 106 1,8 58,9
SE 96 1,6 60
AL 81 3,4 23,8
CE 40 6,6 6,1
MA 37 3 12,3
PI 36 3 12
TO 29 1,2 24,2
RJ 23 12,4 1,9
MS 9 0,8 11,3
GO 3 3 1
DF 1 2,2 0,5

Goiás, Distrito Federal e Rio de Janeiro não parecem estar em meio a um surto local de microcefalia: com número de casos em 2015 não muito maior (no caso do DF, menor) do que a média dos anos anteriores.

No protocolo de vigilância de microcefalia e zika, do Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia no Brasil, há algumas estimativas para os níveis inferior e superior da incidência de zika em várias unidades da federação. O texto reconhece que é uma estimativa bastante limitada. Plotando-se os valores contra a incidência de microcefalia em 2015, não parece haver uma relação entre os números (Fig. 1).

Figura 1. Casos reportados de microcefalia x incidências estimadas de infecção por zika na população. Fonte: MS.

*Upideite(08/dez/2015): Pode-se argumentar, não completamente desprovido de razão, que é arriscado dizer que o aumento se deva à mudança de critério - estritamente ter-se-á razão: certamente mais casos novos seriam incluídos no novo boletim com o critério antigo. Não obstante, a média entre 2010-2014 não foi alterada. Não sei se os valores incluíam ou não os casos de bebês com perímetro cefálico entre 32,1 e 33 cm. Se incluem, significa que a base é ainda menor - ou seja, o aumento é ainda maior. Se não incluem, a comparação dos valores do boletim anterior é que estavam artificialmente infladas, ainda assim os novos números são maiores.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Entrevista com uma médica geneticista - Lavinia Schüler Faccini

O Ministério da Saúde anunciou uma alteração no critério de diagnóstico de bebês com microcefalia. Até então, a medida de perímetro cefálico adotada era de 33 cm ou menos; a partir de 04/dez/2015, um novo valor foi adotado: de 32 cm ou menos.

Abaixo segue entrevista concedida gentilmente pelo facebook pela Profa. Dra. Lavinia Schüler Faccini, médica geneticista da UFRGS e presidente da Sociedade Brasileira de Genética Médica, sobre a mudança.
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GR. Basta o bebê ter 32 cm de perímetro cefálico (PC) ao nascer para ser considerado microcefálico ou há outros exames complementares (quais)? Na medição, de acordo com o modo como a fita é alinhada, não pode haver alteração do valor?
LF. O perímetro cefálico de 32 cm é baseado em evidências científicas, literatura internacional, critérios adotados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e significa que esta circunferência é inferior a dois desvios padrão em relação à média da população e, crianças nascidas de 40 semanas, ou o que chamamos a termo. O ideal seria que sempre fosse usado o gráfico de perímetro cefálico de acordo com a idade gestacional e sexo do paciente, mas sabemos que isso não acontece na prática dos berçários, então para RNs a termo foi solicitado fixar o ponto de corte em 32 cm, ou seja, um ponto de corte mais adequado (aproximado a definição internacional de microcefalia).

No caso de usar 33 cm, incluiríamos 12,5% para RNs meninos e 23% de meninas, o que é completamente normal para um RN a termo, ou seja, muitas crianças serão triadas desnecessariamente (e isso inclui radiação de uma tomografia computadorizada), além de angústia desnecessária aos pais, devido a um ponto de corte equivocado.

É claro que a medida do PC deve ser acompanhada mensalmente após o nascimento e qualquer desaceleração do PC que coloque a medida da criança com PC abaixo de -2DP também deve levantar a suspeita e notificação do caso como deve ocorrer com qualquer lactente que mantém puericultura.

GR. Nas redes sociais, houve quem considerasse a alteração do critério de inclusão de casos suspeitos de microcefalia de 33 cm de PC ao nascer para 32 cm como uma medida do governo para diminuir o total de casos e, assim, a gravidade do surto de microcefalia. Qual a real motivação que levou o Ministério da Saúde a adotar o novo critério? E como isso afeta a situação de Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional (ESPIN)?
LF. Parte já está explicada acima, mas é importante salientar que qualquer mãe que tiver SUSPEITA ou CONFIRMAÇÃO de infecção por zika vai ter seu bebê examinado e cuidado, independente do perímetro cefálico.

GR. Na ficha de notificação é registrado o tamanho do perímetro cefálico dos bebês ou apenas o estado de microcefalia (isto é, aponta apenas que se trata de indivíduo microcefálico, sem especificar o tamanho)?
LF. Deve ser registrado o perímetro cefálico.

GR. Esse valor de 32 cm é critério universal ou varia de país para país e de região para região e de acordo com a época?
LF. Como falei acima o ideal é medir e comparar com as curvas de crescimento considerando a idade gestacional e o sexo do bebê. Mas se isto não for viável, o PC de 32 cm é uma boa medida para bebês nascidos A TERMO.
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sábado, 5 de dezembro de 2015

Manda nudes: divulgando ciências no snapchat (humor)

O Rubens Pazza, do Rock com Ciência, no twitter pergunta se é possível fazer DC no snapchat. Bem, sempre se pode fazer uso criativo de redes sociais e aplicativos.

Mas como divulgar ciências através de nudes? Aqui algumas sugestões da equipa de um homem só do GR.

Placa da Pioneer 10 em alumínio folheado a ouro. Fonte: Nasa.
Rato-toupeira pelado. Que não é rato, nem toupeira. Mas certamente pelado.
Mamífero eussocial. Fonte: Wikimedia Commons.
Camundongo nude. Com timo pouco desenvolvido a linhagem foi desenvolvida para apresentar nenhuma
ou poucas células T de defesa, permitindo várias pesquisas sobre doenças. Fonte: Wikimedia Commons.
O Macaco Nu. Best seller de Desmond Morris sobre como os
humanos se comparam com outras espécies animais. Fonte: Amazon.
Ok, não precisa ser apenas com nudes. Use com sabedoria.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Microcefalia e zika: o Ministério da Saúde precipitou-se em declarar associação?

Resposta curta: Não.

Mas é uma dúvida pertinente. Duas pessoas bastante bem informadas levantaram dúvidasquestionamentos.



Em primeiro lugar, é bom dizer que o Ministério da Saúde *não* anunciou uma relação de causa e efeito, apenas considerou oficialmente que há sim uma relação entre o vírus zika (ZIKV) e o surto de microcefalia nos estados do Nordeste. Agora, qual a natureza exata dessa relação é algo ainda por se estabelecer.

Mas por que o MS declarou que há uma relação? Não poderia ser por puro acaso, ainda mais que é uma amostragem pequena?

Não temos uma boa estimativa do tamanho da incidência de ZIKV nos estados. Na Bahia, uma estimativaavaliação é de que seja na ordem de 275 casos em 100.000 mil. (A estimativa é muito complicada pela falta de métodos de detecção em kits; para confirmação é preciso recorrer a análises laboratoriais um tanto trabalhosas como o RT-PCR.) Se pudermos extrapolar esse valor para o país, as chances de, ao acaso, um feto com microcefalia estar infectado com o vírus zika é de 1 em 363. As chances de, por acaso, as três amostras analisadas (incluindo as duas análises feitas pela Fiocruz com amostras da Paraíba, além do caso do Ceará detectado pelo Instituto Evandro Chagas mencionado na nota do MS) apresentarem a presença do ZIKV ésão de 1:363^3 ou cerca de 1 em 48 milhões.

Se multiplicarmos a estimativa de incidência do zika por 10 - superando em muito a incidência da dengue (com sintomas em geral mais graves): de 757 casos por 100.000 hab. - ainda assim as chances de associação ao acaso seriam de 1 em 48 mil. (Em havendo confirmação de muitos casos de microcefalia sem a presença de ZIKV, isso pode mudar, no entanto.**)

Além do Brasil, na Polinésia Francesa também detectou-se um aumento do número de fetos com má formação do sistema nervoso central (não necessariamente microcefalia) após epidemia de febre zika em 2013-2014.

Certamente não é em todo caso de microcefalia que será detectado o ZIKV - a má formação já ocorria no país, mas em uma frequência cerca de 8 vezes mais baixa. Considerando-se uma estimativa uniforme de 275 casos para 100.000 habitantes sobre o número de nascimentos registrados em 2013 (segundo o DataSUS), uma relação de 1:1 entre infecção e microcefalia explica bem os casos detectados até o momento nos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Sergipe, Alagoas e Piauí (há uma superestimativa de até cerca de 3 vezes - isto é, ainda está dentro da ordem de grandeza do valor calculado); nos demais estados a incidência pode ser bem menor (ironicamente seria o caso da Bahia, onde a incidência foi estimada) ou pode ser o caso de que não ocorra necessariamente má formação na presença do ZIKV.

Nas unidades federativas do RJ, GO, MS e DF não parece ocorrer um surto de microcefalia - os casos em 2015 são similares à média da ocorrência nos anos anteriores. Os casos da Bahia e do Ceará surgem em uma situação intermediária com um aumento de pouco mais de 3 vezes em relação à média: podem estar dentro da variação normal sem relação com o ZIKV.

Tabela 1. Casos de microcefalia no Brasil até 01/dez/2015. Fonte: Ministério da Saúde.

UF média
2010-2014
casos
2015
aumento de
microcefalia
esperado
(incidência de
275/100 mil hab.)
casos/esp.
Brasil 156,2 1.248 7,99 7.986 6,40
PE 8,6 646 75,12 389 0,60
PB 4,2 248 59,05 156 0,63
RN 1,8 79 43,89 129 1,63
SE 1,6 77 48,13 94 1,22
AL 2,8 59 21,07 144 2,45
BA 10,6 37 3,49 559 15,11
PI 3,0 36 12 128 3,55
CE 6,6 25 3,79 343 13,74
RJ 12,4 23 1,85 616 26,78
TO 1,2 12 10 66 5,53
MA 2,0 12 5 316 26,35
GO 3 2 0,67 261 130,38
MS 0,8 1 1,25 116 116,31
DF 2,2 1 0,45 122 122,46

Upideite(02/nov/2015): O Átila Iamarino escreveu sobre o zika no Rainha Vermelha.*
Upideite(02/nov/2015): Um ponto que me esqueci de abordar. Seria preciso testar também crianças normais para ver se não têm zika? Um levantamento sistemático - incluindo crianças positivas e negativas para a microcefalia - iria nos trazer mais informações, porém não é algo essencial para se estabelecer a relação. Por exemplo, digamos que em uma cidade há um aumento expressivo de incêndios e suspeitamos que isso se deva (ou esteja relacionadoa) ao aumento da venda de velas. O fato de encontrarmos uma quantidade de velas acesas aumentada também nas casas que não pegaram fogo nos esclarece muito pouco sobre a causa dos incêndios em excesso. Nosso modelo não é que necessariamente o uso de vela leve a incêndios. Do mesmo modo não necessariamente precisamos ter um modelo em que necessariamente a presença de um patógeno leve ao desenvolvimento de um quadro patológico.
(Mais informativo seriam os casos em que casas que pegaram fogo não tinham velas. Do mesmo modo como mais informativos seriam os casos de microcefalia sem o vírus zika.)

*Upideite(02/nov/2015): Manterei aqui uma lista de postagens na blogocúndia cientófila lusófona sobre o zika.
Do Nano ao Macro: O que sabemos sobre o Zika?
Rainha Vermelha: Zika vírus e suas complicações
  Zika, patentes, Rockefeller e a diferença entre saber e entender
  Porque a transmissão sexual de zika não é preocupante
Café na Bancada: Zika, dengue ou chikungunya? Prepare o seu Natal!
Dotô, é virose?: Dotô, deu zika?
   Dotô, tô grávida e com medo do zika, o que eu faço?
Nerdologia: Vírus Zika (vídeo)
Coluna Ciência: O mosquito da microcefalia
Canal do Pirulla: Zika: 'brigada' anti-boato
  Zika e boatos zicados
  Zika: Água parada pra combater mosquito???
Carlos Orsi: Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

As atualizações da lista de postagens será feita agora em uma página especial sobre o tema. (Upideite(06/fev/2016)

**Upideite(03/dez/2015): No dia 02/dez/2015, a Secretaria de Saúde de MG comunicou 5 casos de microcefalia. Em 2 casos não foi detectado o zika, os outros 3 ainda estavam sob análise. Em MG ainda não há confirmação de caso de transmissão autóctone de zika na população. No dia 03/dez/2015, o número de casos notificados desde o dia 11/nov/2015 subiu para 11. No total, desde janeiro, até o momento, são 22 casos de microcefalia em MG. Não sei qual a média de incidência de microcefalia no estado em anos anteriores. Mas esses 22 casos correspondem - usando-se o número de nascimentos de 2013 - uma incidência de 8,51 casos por 100.000 nascidos vivos; não muito diferente da média nacional de 5,38 por 100.000 nascidos vivos em anos anteriores à epidemia de ZIKV - a média nacional para este ano está em 42,97 casos por 100.000 nascimentos, em PE e PB está em torno de 450 casos por 100.000.***

Upideite(03/dez/2015): Pelo twitter Carlos Hotta questiona a aleatoriedade da amostragem:
Enviei um email ao Instituto Evandro Chagas perguntando a respeito. Publico a resposta assim que a obtiver. Se a amostra não for aleatória em relação ao casos de zika - por exemplo, tiverem examinados somente os casos de microcefalia com suspeita forte de infecção prévia de zika pela mãe/gestante -, naturalmente a probabilidade é alterada.

Se foram analisados apenas os casos em que as gestantes apresentaram exantemas durante a gravidez, tomando-se o caso de PE como indicador, em que, de 11 amostras suspeitas de pacientes (não necessariamente gestantes), 4 foram confirmados, as chances sobem para (4/11)^3 ou 1 em 21. Se for como no CE, em que de 14 amostras, 10 foram positivas, as chances serão de 1 em 3.

Por outro lado, a própria concentração de casos suspeitos entre as grávidas tornaria a ligação ainda mais provável. A um nível de incidência de 275 casos por 100.000 habitantes, entre os 1.248 casos, seriam esperados 3,4 casos - usando o nível de positividade do CE, seriam, então, apenas 4,76 ~ 5 as gestantes a relatarem manchas vermelhas durante a gravidez. Só no RJ, com 23 casos, 8 gestantes relataram exantemas ao longo da gravidez.

***Upideite(04/dez/2015): A SES-MG informa que os casos registrados no estado em 2015 estão dentro da normalidade esperada. De 2003 a 2014 foram 193 casos de microcefalia registrados em MG, uma média de 16 casos por ano.

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