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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Amerek, um cutucão em seu cérebro com novo Curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência da UFMG

A Diretoria de Divulgação Científica e a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG abriram um novo curso de especialização em Comunicação Pública da Ciência.

Com duração prevista de 18 meses (mas que pode ser concluído em até 24 meses), o curso pretende formar profissionais dedicados à democratização das ciências. Mais do que meramente levar conhecimento das ciências para o público, na visão da coordenação da especialização, a divulgação científica deve envolver a população a participar dos processos de troca. Daí também a escolha do nome fantasia de "amerek", palavra no idioma dos krenak, que significa algo como "cutucão", "beliscão" - referência um contato social próximo e interação pessoa a pessoa. No vídeo abaixo, o Prof. Dr. Yurij Castelfranchi, coordenador do curso explica a filosofia e a visão que norteiam o projeto, que conta com o apoio do Instituto Serrapilheira:



As inscrições estão abertas, mas vão só até o dia 25 de outubro. Podem se inscrever pessoas com formação superior em qualquer área interessadas na comunicação da ciência com o público.

As aulas serão principalmente às 2as e 3as de manhã e à tarde em modo presencial na câmpus da Pampulha da UFMG. (Algumas disciplinas eletivas poderão ser ofertadas à noite e em outros dias e poderão contar com momentos à distância.)

Mais informações podem ser acessadas nas mídias sociais do Amerek:
Facebook; twitter; instragram e linkedin.

E também pelos telefones:
DDC/UFMG: (31) 3409-4427 / 4428

e email:
ddc-secretaria@proex.ufmg.br.

Com exceção de mim, o corpo docente é altamente capacitado com experiência em pesquisa em DC e/ou na prática.

domingo, 13 de outubro de 2019

Barraco científico: dos recentes bate-bocas públicos entre cientistas

Estas últimas semanas foram bem movimentadas e ilustrativas das disputadas que há em várias áreas das ciências.

Houve a polêmica em torno do artigo que detectou introgressão de genes de uma linhagem modificada em laboratório em populações naturais de mosquito da dengue; e outra sobre resultados anunciados de um estudo a respeito de efeitos biológicos dos agrotóxicos; e uma discussão aberta entre físicos a respeito da teoria das cordas e seu status científico*.

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Transferência de genes de mosquitos modificados para populações naturais

Com o disclêimer de minha ligação com as partes envolvidas a respeito do estudo do mosquito transgênico - fui orientado de mestrado de um dos autores do estudo (e que defende o artigo na íntegra), pelo que pude acompanhar da polêmica (tentei entrevistar tanto a Oxitec, quanto os autores do artigo que concordam e que discordam da versão publicada do próprio estudo, mas não consegui respostas), minha conclusão é que a discussão gira a respeito de um detalhe que nem afeta tanto - salvo a amplificação criada por interpretações equivocadas em certos veículos.

Os detalhes, além do artigo original podem ser lidos em:
.Bill Hathaway/YaleNews (10.set.2019): "Transgenic mosquitoes pass on genes to native species".
.Oxitec (18.set.2019): "Oxitec responds to article entitled 'Transgenic Aedes aegypti mosquitoes transfer genes into a natural population".
.Cesar Baima/Revista Época (21.set.2019): "A 'fake news' do 'supermosquito' transgênico que está gerando pânico no Brasil".
.Natália Pasternak/Revista Questão de Ciência (24.set.2019): "Autora repudia artigo sobre mosquito transgênico".
.Bernado Esteves/Revista Piauí (02.out.2019): "O supermosquito que nunca existiu".

Todos: a Oxitec, os autores do estudo que querem alteração ou retirada da publicação e os autores que defendem como está - concordam com o principal: a metodologia e os dados do estudo. Genes pertencentes à linhagem criada em laboratório - com a introdução de genes que fazem com que os machos não deixem descendentes viáveis - foram encontrados na população selvagem depois que a linhagem modificada foi liberada em massa para reduzir a população selvagem. Não os genes modificados que causam a inviabilidade da descendência, mas os genes que constituem o genoma das populações cruzadas para produzir a linhagem modificada.

A disputa está em algumas afirmações mais pontuais feitas no artigo:

*"The three populations forming the tri-hybrid population now in Jacobina (Cuba/Mexico/Brazil) are genetically quite distinct (Extended Data Fig. E2), very likely resulting in a more robust population than the pre-release population due to hybrid vigor."
["As três populações que formam a população agora tri-híbrida de Jacobina (Cuba/México/Brasil) são geneticamente bem distintas, muito provavelmente resultará em uma população mais robusta do que a população anterior à liberação em função do vigor híbrido."]

A Oxitec rebateu dizendo: "The data published in this paper and in the entire body of peer-reviewed literature do not support this hypothesis." ["Os dados publicados no artigo e em todo o corpo de literautra revisada pelos pares não sustenta essa hipótese."]

É bem verdade que no artigo é detectada uma tendência a diminuir o número de indivíduos com os genes da população modificada e nele é dito que: "This observation also implies that introgressed individuals may be at a selective disadvantage causing their apparent decrease after release ceased, although much more data would be needed to confirm this." ["Essa observação também implica que os indíviduos introgredidos podem estar em desvantagem seletiva causando sua aparente diminuição após a cessação da liberação, embora muito mais dados sejam necessários para confirmar isso."] O que é um tanto contraditório com o "muito provável" vigor híbrido.

Mas na literatura há, sim, precedentes de vigor híbrido (híbridos com maior capacidade de sobrevivência) em mosquitos (no caso, em Anopheles coluzzii). Descendentes de cruzamentos de populações distintas (ou os heterozigotos) que apresentam características de maior robustez e/ou capacidade reprodutiva do que os indivíduos das populações originais são um fenômeno bem conhecido na literatura. Não é, nem de longe, um resultado universal, mas é bastante frequente - ainda que os mecanismos ainda não estejam consensualmente esclarecidos (e.g. Comings & MacMurray 2000; Groszmann et al. 2013) .

Chamar de "muito provável" pode ser um exagero. Mas também dizer que a "não há apoio em toda a literatura" também é. É uma possibilidade, difícil de calcular, mas bem longe de zero. É algo a se olhar com atenção.

*"Also, introgression may introduce other relevant genes such as for insecticide resistance." ["Além disso, a introgressão pode introduzir outros genes relevantes tais como os que conferem resistência a inseticida."]

A Oxitec observa: "To the contrary, Oxitec has demonstrated that OX513A is not resistant to commonly used insecticides." ["Ao contrário, a Oxitec já demonstrou que o OX513A não é resistente a inseticidas comumente utilizados"]

É uma observação relevante, mas é preciso verificar a possibilidade de recombinação genética gerando um novo alelo ou uma nova combinação de alelos que possam conferir tal resistência. Novamente, não há um cálculo fácil dessa probabilidade; mas é também coisa para se acompanhar.

*"These results demonstrate the importance of having in place a genetic monitoring program during releases of transgenic organisms to detect un-anticipated consequences." ["Estes resultados demonstram a importância de se ter um programa de monitoramento genético durante as liberações de organismos transgênicos para se detectar consequências não-antecipadas."]

Ninguém contesta a necessidade de se manter um programa de monitoramento. Alguns autores contestam de que a introgressão seja uma consequência não-antecipada - já que, em laboratório, cerca de 3 a 4% dos machos modificados eram capazes de se reproduzir. Mas Powell, um dos autores que defendem o artigo, salienta que os descendentes se mostram pouco viáveis no laboratório e, por isso, imaginava-se que, em campo, não haveria uma transferência significativa de genes.
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Uma observação feita por críticos é que pelo menos alguns autores fazem parte de uma empresa que agora é concorrente da Oxitec Brasil - a Moscamed. No entanto, não anotaram nada no campo de declaração de interesses conflitantes. Isso deveria ter sido deixado claro.

Mas uma coisa que não ficou claro é por que os autores que discordam a versão publicada do artigo não leram antes o texto final. Não consegui informações de se foi distribuído ou não para os autores - dos autores que concordam com o artigo, apenas um se manifestou, e disse haver lido. Apenas uma pessoa que não concorda com o artigo parece haver se manifestado publicamente até agora e disse não haver lido nem recebido.

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As outras duas celeumas não acompanhei tão de perto e não tenho uma opinião formada - apenas em alguns pontos.

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Efeitos dos agrotóxicos
.Roberta Jansen/Estadão (04.ago.2019): "Pesquisa indica que não há dose segura do agrotóxico"
.Cristiano Zaia/Valor (06.ago.2019): "Anvisa e Agricultura contestam pesquisa do Butantã sobre agrotóxicos"
.Marina Simões/A Pública (30.set.2019): "Pesquisadora é perseguida após comprovar que não existe dose segura de agrotóxicos"
.Natalia Pasternak/Revista Questão de Ciência (04.out.2019): "Sim, existe 'concentração segura' de agrotóxicos"
.Mônica Lopes Ferreira (5.out.2019): Pronunciamento!

Punição/persecução
Minhas observações. Pelo que pude levantar a punição à pesquisadora deveu-se ao fato de ela não haver submetido o projeto ao conselho de ética do instituto - o que é necessário por se utilizar animais nos experimentos. Não falei ainda com a pesquisadora a respeito.

Dose segura.
Há uma certa briga na literatura acerca da definição de dose segura (e.g. Hrudey & Krewski 1995, Polkey et al. 1995Fryer & McLean 2011,  Moss 2013). Existem críticas a modelos chamados de lineares sem limiar - neles, as concentrações não nulas de substâncias terão efeitos (benéficos e maléficos) em qualquer dose (de modo proporcional). Pode-se argumentar, com razão, que, em muitos casos, em concentrações suficientemente pequenas os efeitos deletérios serão também muito pequenos e poderão ser aceitáveis (em níveis determinados por agências reguladoras - direta ou indiretamente envolvendo a sociedade para dizer o que é aceitável). Em outros casos, pode haver concentração abaixo da qual não é observado nenhum efeito. De qualquer maneira, é usada na literatura - ainda que de modo minoritário - a expressão "sem dose segura" ("no safe dose") quando qualquer nível não nulo causa algum efeito ruim, por mais baixo que seja.

A minha proposta, levando em conta a análise de benefício/custo, é comparar a dose máxima de aplicação em que não ocorre nenhum efeito grave e a dose mínima de aplicação para que ocorra algum efeito benéfico significativo. Se a dose para efeito benéfico for igual ou maior do que a dose sem efeito grave, podemos considerar como "sem dose segura". Se a dose para o efeito benéfico for menor do que a dose sem efeito grave, a "dose segura" é o intervalo entre os dois.

Se é um ou outro caso, seria preciso verificar o que a pesquisadora encontrou. Que o relatório seja liberado logo para uma análise.

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As discordâncias são importantes para as ciências - elas ajudam a trazer pontos de vistas não vislumbrados anteriormente, o que pode levar a correções de falhas ou ao aperfeiçoamento de medidas e métodos -, mas essas parecem ter extrapolado um pouco no tom. No caso dos mosquitos transgênicos talvez nem todos os detalhes relevantes estejam abertos para o público para se entender por que diferenças tão pequenas de interpretação parecem tão vitais para as partes envolvidas. Ok, da Oxitec como empresa que fornece a tecnologia talvez seja mais fácil de se compreender. No caso do estudo sobre agrotóxicos também informações relevantes estão faltando do pouco que consegui apurar e acompanhar.

Não são polêmicas que a imprensa foi buscar dos recônditos das discussões acadêmicas. As próprias partes envolvidas vieram a público para externar seus pontos de vista, mas, na hora de um esclarecimento maior a respeito de detalhes importantes, parecem recuar.

Não é tanto o dissenso público que pode causar danos à ciência e eventualmente à sua reputação junto ao público, mas mais o comportamento das partes - o tom usado e a falta de transparência em muitos casos.

*Upideite(13.out.2019): Na verdade, a briga dos físicos é mais velha, de 2016. Porém, houve uma retomada recentemente.

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