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terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Um negacionista climático no MCTI?

A dúvida não é se Aldo Rebelo é ou não um negacionista. Ele é. A dúvida é pela esperança de que não seja verdade** o que se anuncia: sua mudança do Ministério dos Esportes para a pasta de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O que esperar no MCTI de um ministro que diz:
"O cientificismo positivista que você opõe à minha devoção ao materialismo dialético como uma ciência da natureza não terá o condão de me converter à doutrina de fé que é a teoria do aquecimento global, ela sim incompatível com o conhecimento contemporâneo. Ciência não é oráculo.  De verdade, não há comprovação científica das projeções do aquecimento global, e muito menos de que ele estaria ocorrendo por ação do homem e não por causa de fenômenos da natureza. Trata-se de uma formulação baseada em simulações de computador. De fato, por minha tradição, filio-me a uma linha de pensamento cientifico que prioriza a dúvida à certeza e não deixa a pergunta calar-se à primeira resposta. A par dos extraordinários avanços e conquistas que a Ciência tem legado ao progresso da Humanidade, inserem-se em sua trajetória inumeráveis erros, fraudes ou manipulações sempre tecidas a serviço de interesses dos países que financiam determinadas pesquisas ou projeções. Tenho a curiosidade de saber se, os que hoje acatam a teoria do aquecimento global e suas afirmadas causas antropogênicas como um dogma pétreo, são os mesmos que há alguns anos anunciavam, como idêntica certeza divina, o esfriamento global. Tal cientificismo tem por trás o controle dos padrões de consumo dos países pobres, e nesse ponto permita-me repudiar a pecha de 'delírio pseudonacionalista' – pois são profusamente evidentes as manobras para estocagem dos nossos recursos naturais com vistas à melhor remuneração da produção agrícola dos países desenvolvidos"?

Rebelo é uma das forças políticas por trás de um dos maiores retrocessos durante o governo Dilma Rousseff - a aprovação do Novo Código Florestal que fragilizou ainda mais a conservação da cobertura vegetal. E abraça o conspiracionismo de que a hipótese do AGA e das mudanças climáticas é fruto de ação de países industrializados para impedir que países subdesenvolvidos também possam crescer economicamente - impedindo-os de aumentar suas pegadas de carbono.

Rebelo é capaz desta peça de primarismo lógico*:

O jornalista Reinaldo José Lopes, do Darwin & Deus, nos lembrou desta outra peça do futuro ministro de CT&I***:
"No Rio de Janeiro, cogitou-se da retirada de centenárias jaqueiras situadas em florestas públicas a
pretexto de serem árvores exóticas, não nativas da Mata Atlântica, o que é verdade. Rigorosamente,
a jaqueira é originária da Ásia, mas por aqui aportou no século XVII e foi usada no reflorestamento
do maciço da Tijuca por ordem de D. Pedro II. É o caso de se requerer ao Ministério da Justiça a
naturalização da espécie, algo que qualquer cidadão pode alcançar com meros cinco anos de
residência fixa no País."

Que péssimo presente de Natal será para os brasileiros, senhora presidenta!

*Upideite(23/dez/2014): via @brunocalixto.
**Upideite(26/dez/2014): infelizmente o anúncio está confirmado... : (
***Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Entrevista com um arqueólogo: Astolfo Araujo

O arqueólogo Prof. Dr. Astolfo Gomes de Mello Araujo é especialista em geoarqueologia e atualmente trabalha no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE/USP). Para a edição deste mês da revista Com Ciência sobre o Nobel, entre outros, entrevistei-o para a reportagem sobre outras premiações científicas.

Naturalmente, só uma parte pôde ser publicada na reportagem. Uso, então, o espaço aqui para publicar a íntegra da entrevista gentilmente concedida por Araujo por email.

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CC. Poderia falar um pouco de sua linha de pesquisa para um público não especializado?
AA. Eu trabalho em uma área da arqueologia que se chama "Geoarqueologia". É uma aplicação das Ciências da Terra (Geologia, Geomorfologia) a assuntos arqueológicos, que permite que entendamos melhor os processos naturais que afetaram inicialmente as populações humanas, enquanto estavam vivas e operantes, e que depois afetam os vestígios materiais deixados por essas populações, que nós hoje chamamos de materiais arqueológicos (que podem ser desde lascas de pedra até cidades inteiras).

CC. Como a comunidade científica recebeu seu trabalho sobre a influência da bioturbação no trabalho arqueológico?
AA. O trabalho foi bem recebido, uma vez que foi publicado em uma das revistas mais bem conceituadas na área, chamada "Geoarchaeology". Não é facil publicar um artigo em revista internacional, porque os revisores costumam ser implacáveis. Nosso artigo sobre bioturbação foi inovador no sentido de que fizemos uma observação controlada das atividades de um animal que é bastante poderoso em termos de escavação, que é o tatu. O artigo tem um bom índice de citação, até hoje, apesar de ter sido publicado há mais de dez anos. Portanto, levando em conta essas informações, eu diria que a aceitação foi boa.

CC. V. Sra. recebeu com bom humor o prêmio IgNobel (assim como vários outros agraciados que recentemente até participam da cerimônia de entrega). Inclusive o menciona em seu currículo lattes. A premiação ajudou de alguma forma a sua pesquisa? Trouxe uma visibilidade positiva?
AA.  A premiação do IgNobel foi uma coisa muito bacana, que eu aceitei de bom grado. Acho que a ciência é algo que deve ser levada a sério sem que seja sisuda e mal-humorada. O pessoal do IgNobel é muito respeitoso, e na verdade eles perguntam ao candidato se ele aceita o prêmio. Eu achei ótimo, e consultei meu colega, José Carlos Marcelino, que também concordou. Foi uma pena eu não ter podido ir à premiação, que parece ser um espetáculo, com vários ganhadores do Prêmio Nobel participando. Acho que aceitar o prêmio IgNobel é entender que você ajuda a disseminar a ciência como uma coisa interessante. Como eles mesmos dizem, é algo que "primeiro faz rir, e depois faz pensar". Um ótimo exemplo é uma outra premiação do IgNobel de 2008, o mesmo ano em que eu entrei para esse seleto clube, onde os pesquisadores trabalharam dentro de uma boate de strip-tease, e descobriram que as dançarinas ganhavam mais gorjeta quando estavam no período fértil. Muito engraçado, mas ao mesmo tempo faz pensar um bocado, não? Será que somos tão racionais assim? Será que somos sujeitos à ação de feromônios de uma maneira muito mais forte do que imaginamos? Será que existe livre-arbítrio? Ou seja, uma coisa engraçada pode levar você aos mais altos questionamentos filosóficos. 

Com relação á visibilidade, não creio que o IgNobel tenha tido nenhum impacto perceptivel na minha carreira. Não acho que eu tenha ganhado ou perdido nenhuma oportunidade por conta do prêmio. Considero mais como parte da minha obrigação enquanto acadêmico, de divulgar para um público mais amplo o que eu faço.

CC. Dentre as premiações da área de Arqueologia há algum (ou mais de um) que gostaria particularmente de ganhar? Seria por qual motivo: reconhecimento acadêmico, valor monetário, auxílio à pesquisa ou outro?
AA. Não há premiações na área de Arqueologia que tenham o impacto de uma Medalha Fields ou um Nobel, ou coisas assim, portanto não almejo nenhuma premiação, mas se houvesse algo, creio que na forma de auxílio à pesquisa seria ótimo. Na verdade, já tenho financiamento da FAPESP para pesquisar sobre as populações mais antigas do Estado de São Paulo, e uma bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq, levando em conta minha carreira acadêmica, então me sinto realmente premiado.
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Este trabalho foi produzido sob financiamento da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência), sob supervisão da Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Existe pergunta imbecil? Da importância dos registros da curiosidade infantil.

"Quando eu tinha cinco anos, tive uma conversa com a minha mãe que ela transcreveu e guardou num álbum de fotos. [...] 
Randall: Aquie em casa tem mais coisas duras ou mais coisas moles?
Julie: Não sei.
Randall: E no mundo?
Julie: Não sei.
Randall: Bom, cada casa tem uns três ou quatro travesseiros, né?
Julie: É.
Randall: E cada casa tem uns quinze ímãs, né?
Julie: Acho que sim.
Randall: E quinze mais três ou quatro, vamos dizer quatro, dá dezenove, né?
Julie: Isso.
Randall: Então deve ter uns 3 bilhões de coisas moles... e uns 5 bilhões de coisas duras. Qual ganha?
Julie: Acho que as coisas duras.
Até hoje não tenho ideia de onde saíram os "3 bilhões" nem os "5 bilhões".
[...]
Há quem diga que não há questões imbecis. Óbvio que se enganam: acho que minha pergunta sobre coisas moles e duras, por exemplo, extremamente imbecil. Mas tentar responder com meticulosidade a uma dúvida imbecil pode nos levar a lugares bem curiosos." (pp. 13-14.)
MUNROE, Randall. 2014. E se? Respostas científicas para perguntas absurdas. Cia. das Letras. 325 pp.
Senhoras mães (e senhores pais), pelo bem do registro histórico, por favor, tal como a Sra. Julie anotem *tudo* o que seus pequenos gênios e pequenas gênias comentam. Pode eventualmente servir de dispositivo de chantagem, caso, futuramente, seu filho já grandinho venha com gracinhas sobre não pagar pensões alimentícias; mas, por certo, a maior utilidade será esse tipo de informação a respeito da ontogenia da curiosidade e, por tabela, do pensamento científico.

P.S. Mais pra frente anuncio a ganhadora ou o ganhador do livro "Em Busca do Infinito" de Ian Stewart.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Notinhas pré-niver



*Upideite(05/dez/2014): adido a esta data.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A quem interessa o catastrofismo categórico irrevogável?

Folha 10/nov/2014 "Mas talvez agora já seja tarde demais: há fortes sinais de falência do sistema amazônico, que incui a floresta e sua influência sobre o clima continental."

Opção 5-11/out/2014 "É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma."

Não duvido que tais sentenças tenham sido dadas da mais boa fé. Mas, de um lado, a ecologia de biomas é um tema complexo demais para uma afirmação do tipo: "está extinto" ou "falência" seja dada de modo categórico. Sim, podemos falar com alta dose de certeza de que o bioma da flora de Dicroidium está extinta. Mas temos dificuldades de dizer até se  alguma espécie recente está extinta - temos um parâmetro de 50 anos sem registro no ambiente selvagem a despeito de coletas sistemáticas, mas há vários casos de organismos que foram encontrados depois de declarados extintos.

A situação de um bioma inteiro é muito mais complicada. Existem espécies-chave? Funções-chave? Que nível mínimo populacional deve ser alcançado? Que nível mínimo dos parâmetros funcionais são considerados? Qual o grau de resiliência e de redundância? O quão generalizável são os parâmetros de um ambiente para os demais? O que se estabelece para certos fragmentos é extrapolável para uma área maior? Não são elementos fáceis de se determinar - até por isso há intensos estudos de larga escala e longo curso agora na Amazônia como a capitaneada por Thomas Lovejoy.

De outro, há uma implicação econômica e ética complicada.

Uma coisa é o alerta de que um ambiente, formação vegetal, paisagem natural, ecossistema, bioma corre sérios riscos. Isso envida o *aumento* dos esforços conservacionistas. Outra é dizer que tais áreas estão condenadas.

Declarar um bioma extinto ou além da possibilidade de salvação implica que a continuidade de quaisquer esforços atuais são inúteis, salvo para mercadores da falsa esperança. Melhor aplicar os recursos em outras áreas. E, fora alguma conservação de relicto na forma de museu natural, seria melhor derrubar o que resta para aproveitar melhor o espaço.

A quem interessa, então, o discurso catastrofista categórico irrevogável em relação ao destino de um bioma? Ainda mais quando os indícios em que se baseiam tais declarações estão longe de estar além de qualquer dúvida razoável.

domingo, 9 de novembro de 2014

SaganDay 80

Oquei, sem aquela piadinha macabra de que se Carl Edward Sagan estivesse vivo hoje estaria arranhando a tampa do caixão. Hoje comemoramos o octogésimo aniversário do nascimento do grande astrônomo e divulgador científico americano.

Não sou exatamente um saganiano, mas admiro o respeito que ele inspira entre seus devotados seguidores* (que devem estar se deliciando com os arquivos disponíveis online). Sua obra de divulgação iniciou muita gente boa - um dos mais eminentes sendo Neil deGrasse Tyson (apresentador da nova versão de Cosmos) - às maravilhas e agruras da ciência e do ceticismo. Por sua postura mais aberta ao diálogo acabou despertando também a admiração de grupos que não classificaríamos (eu pelo menos não) como cético-racionalistas: houve uma briga entre a família de Sagan, administradora do legado, e grupo de ufólogos brasileiros que queriam batizar seu projeto de Instituto Carl Sagan - no fim, tiveram que mudar de nome para Instituto Galileu Galilei.

Entusiasta da ideia de que o Universo seria coalhado de vida e até de vida inteligente (sim, na época não havia caixa de comentários de portais de notícias), foi um grande apoiador do projeto SETI. Na esperança de que algum dia alguma civilização pudesse encontrar nossos vestígios, colocou uma série de instruções pictográficas na placa a bordo das sondas Pioneer 10 e 11, e também no disco folheado a ouro das Voyager 1 e 2 sobre a nossa localização. Ele tinha uma convicção não baseada em fatos de que os alienígenas compartilhariam sua visão pacifista da exploração espacial. Uma aplicação mais criteriosa do princípio da precaução recomendaria que evitássemos divulgar abertamente nosso endereço - no mínimo, corremos riscos de sermos entupidos por spams interestelares; em uma hipótese menos caridosa, talvez recebêssemos uma visita indesejada que não poderíamos expulsar com uma vassoura de ponta cabeça atrás da porta. Mas, dado que já disseminamos involuntariamente nossa presença por meio de sinais de rádio e TV, a concordância da Nasa com a iniciativa de Sagan talvez seja compreensível.

Abaixo manterei uma lista de homenagens prestadas a Carl Sagan pela blogocúndia lusofonocientífica neste ano (não encontrei ainda nenhuma postagem sobre o aniversário - se souber de alguma, por favor, indique nos comentários***):


Obs: Não se esqueça também de participar do Concurso Cultural e concorrer a um exemplar do livro "Em Busca do Infinito" de Ian Stewart.

*Upideite(09/nov/2014): Registro aqui o protesto de Danilo Albergaria quanto à sua classificação como "devotado seguidor".
**Upideite(09/nov/2014): Adido a esta data.
***Upideite(09/nov/2014): Encontrei alguns, mas se souberem de outros, por favor, indiquem.

domingo, 2 de novembro de 2014

"Experimentos Extraordinários": uma boa notícia e outra nem tanto

Nunca mencionei aqui o trabalho do jornalista Iberê Thenório e cia. no "Manual do Mundo" por alguma razão que não sei dizer qual seria. Minha desculpa é uma que, na verdade, piora ainda mais pro meu lado: tem monte de coisa legal de que eu ainda não falei no GR.

Todo mundo já sabe, mas direi mesmo assim: é um trabalho extraordinário. Menos pessoas sabem, porém é algo com que sonhei uma vez: o saudoso Prof. Leo fazendo em seu Feira de Ciências vídeos dos experimentos (como ele fazia na TV Cultura).

Foi com grande alegria e expectativa que recebi a notícia de que Iberê estrearia um programa no canal Cartoon Networks, o "Experimentos Extraordinários" - onde ele e uma equipe de adolescentes cuidariam de levar ao ar um programa homônimo ficcional diário sobre, bem, experimentos científicos.

Vi agora há pouco acompanhado de uma pessoa para ter uma opinião sob a perspectiva infantil: eu mesmo. Fiquei meio frustrado porque o programa real é sobre a produção de um programa fictício, não sobre experimentos científicos. No programa de estreia de uma hora de duração, mais de 50 minutos são sobre a contratação de Iberê por um canal de TV, seu encontro e desencontros com sua trupe de jovens ajudantes - na preparação do roteiro, do cenário, do guarda-roupa, etc. Em 5 minutos, na exibição do quadro ficcional dos experimentos, dos três preparados: sobre crescimento fototrópico do feijão, funcionamento de uma buzina e foguete de gelo seco, só a montagem do gelo seco é mostrada por inteiro - mas de modo extremamente sucinto e sem nenhuma explicação sobre seu *funcionamento*.

Como escrevi alhures, acho um tremendo desperdício utilizar Iberê em um programa unicamente dramatúrgico, sem nenhum componente maior de divulgação científica. Não acho o programa ruim, do ponto de vista do entretenimento (ainda que minhas credenciais como crítico de TV sejam as mesmas de Denise Fraga como analista educacional ou de Ruth de Aquino - sim, nunca me esquecerei - como assessora científica); e até serve como algum tipo de divulgação científica - nem tanto para explicar, para disseminar conhecimento diretamente, quanto para criar uma cultura pró-ciência, de naturalizar mais sua presença no cotidiano, despertar o interesse da petizada.

Mas Paul "Beakman" Zaloom já mostrou que ensinar ciência, ter audiência e conquistar corações são objetivos plenamente compatíveis. Não que se espere de Thenório um "Beakman's Show", por vários motivos, um deles é que já tivemos o "Beakman's Show", se fosse pra fazer uma versão ou uma cópia, bastaria reprisar os episódios; mas por que não inserir mais divulgação no meio da ficção?

Talvez um cross media storytelling do bem: ligar o sítio web do "Manual do Mundo" ao programa, onde os detalhes dos experimentos apresentados por Valentino são dados, com instruções detalhadas sobre como fazer e as explicações dos conceitos científicos por trás do fenômeno demonstrado.

Concurso Cultural

No próximo dia 27 de novembro, completam-se 6 anos desde a primeira postagem no GR.

Mantendo a tradição do blogue, vai ter, sim, um concurso cultural - e, se reclamarem, vai ter dois. Adequando-se às novas instruções do Ministério da Fazenda, o concurso cultural chamar-se-á... concurso cultural; não envolverá nenhum tipo de sorteio nem adivinhação - eles dizem que não são instruções novas, que são apenas esclarecimentos da lei vigente; pra mim parece uma interpretação por demais restritiva, porém, regulamento legal é regulamento legal e devemos obedecer.

Bem, valendo um exemplar completamente gratuito do livro "Em busca do infinito: uma história da matemática dos primeiros números à teoria do caos" de Ian Stewart (2014, Ed. Zahar, 383 pp.) para concorrer basta enviar um texto de até 1.000 caracteres em língua portuguesa com o tema: "Quais as consequências do analfabetismo científico para o Brasil?" - como o baixo conhecimento científico dos cidadãos brasileiros de modo geral influencia (positiva e/ou negativamente) a sociedade brasileira nos mais variados aspectos: social, ambiental, político, econômico, afetivo...

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Regulamento:
0. Somente concorrerão os que enviarem formulários corretamente preenchidos.
1. Parentes meus até segundo grau não valem.
2. A resposta deve ser enviada até às 23h59 (hora de Brasília) do dia 27/11/2012. (Vale o "timestamp" do sistema.)
3. Os critérios para a escolha do texto vencedor serão completamente subjetivos.
4. O prêmio será enviado gratuitamente, mas somente para um endereço coberto pelos Correios brasileiros em porte nacional.
5. O vencedor ou a vencedora será contatado/a por email e terá uma semana para responder. Findo o prazo, o prêmio estará prescrito e o segundo colocado será contatado. (E assim por diante.)
6. Pode-se responder ao formulário quantas vezes quiser, mas o participante estará concorrendo apenas com o último enviado.
7. Este concurso segue a lei federal 5.768/1971 e legislação correlata.
8. A participação no concurso implica em concordância total com os termos deste regulamento.
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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Yo no creo en brujas... 2

...pero en sacis...

Além do Sacisaurus, outros elementos científicos são batizados em homenagem ao personagem mítico de nosso folclore.

Satélite de Aplicações Científicas 1 e 2. Microssatélites desenvolvido pelo INPE para realizar diversas missões científicas. O Saci-1 foi lançado por meio do foguete chinês Longa Marcha, mas não chegou a entrar em órbita devido, provavelmente, a uma falha no computador. O Saci-2 foi destruído com falha do foguete brasileiro VLS, destruído em pleno ar.

Saci & Perere. Retrotransposons - sequências genéticas capazes de "saltar" de um lugar a outro do genoma por meio da transcrição reversa - encontrados no material genético do Schistosoma mansoni.

Rede SACI. Criada em 1999, congrega várias iniciativas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia de comunicação para deficientes (físicos, auditivos, visuais...) com o objetivo de disseminar infomações sobre a deficiência em âmbito nacional. Seu nome remete aos princípios da rede: solidariedade, apoio, comunicação e informação.

Smart Adaptive Cloud Identification. Sistema automático de identificação de nuvens para imageamento do céu e previsão de irradiação solar.

Sistema Ancilar de Cintiladores - Pequeno Espectrofotômetro de Radiação Eletromagnética com Rejeição de Espalhamento. Espectrofotômetro de partículas gama para estudos de mecanismos de reações nucleares.

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Há também acrônimos aparentemente não relacionados ao ente travesso:
Selective Arterial Calcium Injection.
Spark Assisted Compression Ignition.
Surface-Activated Chemical Ionization.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

SNCT 2014 - Água que passarinho não bebe

Pra este ano, o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia foi "Ciência e Tenologia para o Desenvolvimento Social".

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Tecnologia social é "um método ou instrumento capaz de solucionar algum tipo de problema social e que atenda aos quesitos de simplicidade, baixo custo, fácil aplicabilidade e geração de impacto social". Uma das tecnologias sociais de maior impacto e simplicidade que conheço é o soro caseiro.

Dentre as figuras envolvidas no desenvolvimento dessa tecnologia, podemos destacar o médico austríaco naturalizado americano Norbert Hirschhorn. Em 1964, na divisão médica do exército americano, atuava em Bangladesh, então parte do Paquistão, combatendo uma epidemia de cólera. O tratamento aplicado era a hidratação por via endovenosa - um procedimento relativamente caro e que demandava instalações hospitalares. Outros já estavam trabalhando no processo de desenvolvimento de uma solução para administração oral com mistura de água, açúcar e sal; por heurística (nome pomposo para o processo de tentativa e erro), Hirschhorn acabou chegando a uma proporção ideal para a Terapia de Reidratação Oral. Algumas estimativas dão conta de que 50 milhões de pessoas foram salvas de morrerem desidratadas por várias das doenças diarreicas, cólera e similares. Hoje, aposentado, o médico dedica-se à poesia. O que Oslo espera para conferir o Nobel da Paz a Hirschhorn é um mistério para mim. De todo modo, ele deve ser uma das quarenta pessoas no mundo que podem deitar a cabeça de noite sem nenhum peso na consciência.

Infecções causadoras de diarreia são difundidas principalmente por falta de acesso à água de boa qualidade. De um lado, há uma ampla pesquisa para o desenvolvimento de novos métodos de purificação da água: com descarga elétrica, com nanopartículas, com plasma, com grafenos, etc. De outro, há incentivos para projetos de gerenciamento para conservação das fontes de água como a 'Água, fonte de vida' da ONU Água; o 'Grande Prêmio Mundial Rei Hassan II para a Água', do governo de Marrocos e do Conselho Mundial da Água; e o 'Prêmio da Água de Estocolmo', do Instituto Internacional da Água de Estocolmo (que conta também com uma categoria júnior, para estudantes). Mas são projetos nem sempre facilmente aplicáveis em regiões remotas e áreas sem infraestrutura mínima. A ONG "Engenharia para a Mudança" lista 10 métodos de baixo custo para tratamento local de água.

Mas uma tecnologia social ainda mais simples de purificação da água é a SODIS (de 'solar disinfection'): acondiciona-se água de baixa turbidez (as águas com sujeira em suspensão - como lodo -; devem ser deixadas para descansar antes, assentando a sujeira e pegando a água mais clareada) em garrafas PET, sacode-se para oxigenar a água e deixa-a exposta à luz solar por cerca de 6 horas (se o céu estiver limpo) ou por dois dias (em dias nublados). A radiação UV, a temperatura e a oxigenação destroem boa parte dos protozoários, bactérias e vírus causadores de doenças. O uso da tecnologia tem reduzido a internação por diarreia entre 9 e até 86% em alguns locais e épocas. Aftim Acra, farmacêutico e sanitarista palestino, apresentou a SODIS em um livreto da Unicef em 1984. A EAWAG (Instituto Federal Suíço de Ciência e Tecnologia da Água) realizou uma série de testes com a tecnologia no início da década de 1990 e tem divulgado sua aplicação em países em desenvolvimento. Infelizmente, Acra não poderá vir a receber o Nobel, o cientista faleceu em 2007 e a o prêmio não permite indicações póstumas.
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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A importância das redes de pesquisa no desenvolvimento da ciência

No começo de agosto participei de um evento sobre Genômica Translacional na Unicamp para cobri-lo dentro do projeto que estou desenvolvendo. Produzi o texto abaixo para a seção de notícias da Com Ciência, mas acabou não sendo publicado.

Mais abaixo publico na íntegra (ou quase, parte da entrevista acabou não sendo gravada) transcrição do depoimento de Glaucius Oliva sobre pesquisa em rede e internacionalização da ciência brasileira - tema da palestra que deu no evento.

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Cientistas ressaltam importância de redes de pesquisa em evento na Unicamp
Entre os dias 4 e 6 de agosto, o Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) e o Laboratório Central de Tecnologias de Alto Desempenho em Ciências da Vida (LaCTAD) realizaram o Advanced Topics in Genomics and Cell Biology (“Tópicos Avançados em Genômica e Biologia Celular”) no Centro de Convenções da Unicamp. Na edição deste ano, o tema foi a genômica translacional – área relativamente nova da pesquisa genética que procura integrar os conhecimentos genômicos no entendimento dos mecanismos moleculares de desenvolvimento de doenças. Em seu primeiro dia, o principal tópico destacado foi a formação de redes de pesquisa e sua importância para o desenvolvimento da ciência atual.

O presidente do CNPq, o físico Glaucius Oliva, em sua palestra destacou as ações do governo federal para a indução de formação de redes de pesquisa e seu fortalecimento. “Você não pode pensar em fazer ciência hoje sem ser em rede”, disse Oliva. Dentre os desafios do sistema de Ciência e Tecnologia no Brasil que podem ser enfrentados pela pesquisa em rede listados pelo dirigente estão a qualidade e o impacto social, econômico e educacional dos estudos, o melhor uso da infraestrutura científico-acadêmica, a internacionalização da ciência brasileira e a inovação. “Em função da necessidade do crescimento interno, nós perdemos muito da nossa capacidade de cooperação internacional nos anos recentes e por isso a participação em redes internacional é extremamente importante”, reconheceu Oliva em entrevista exclusiva ao Com Ciência Notícia. Mas esse processo de integração a redes internacionais tem seus próprios desafios. “Um exemplo recente é o do ESO [Observatório Europeu do Sul, principal organização astronômica intergovernamental da Europa]; há uma proposta de participação brasileira, mas que a própria comunidade científica discutia, porque achava que era muito dinheiro num laboratório internacional, quando devia colocar esse dinheiro para os laboratórios do próprio país”, disse completando: “A gente tem que, de fato, olhar de uma forma mais abrangente a interação dentro do país e, principalmente, fora do país no formato de redes.


O biólogo Wen Hwa Lee, do Structural Genomic Consortium (consório de pesquisa em parceira público-privada com sede em Toronto, Canadá), apontou a necessidade da realização da pesquisa dentro do modelo de “Ciência Aberta” com uma rede de pesquisadores sem o envolvimento de propriedade intelectual sobre as ferramentas de pesquisa e outros insumos, diferentemente da pesquisa farmacêutica tradicional.

Elise Feingold, bióloga, líder do Projeto ENCODE de anotação do genoma humano, não pôde comparecer ao evento em que palestraria sobre o papel da integração de dados no entendimento das doenças humanas. Mas, em entrevista por e-mail, Feingold apontou que ferramentas disponíveis na internet como wikis, compartilhamento de documentos na nuvem para edição coletiva e teleconferências ajudam a reduzir a necessidade de encontros presenciais – nem sempre possíveis dado o fato de que os cientistas em geral estão bastante atarefados desenvolvendo suas pesquisas.
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Depoimento de Glaucius Oliva sobre a importância das redes de pesquisa no Brasil e o papel da internacionalização da ciência brasileira.
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[…] habilidades instrumentais, elas requerem uma forte interação com o mundo exterior aonde os problemas importantes estão aí para serem resolvidos, e por isso, no mundo todo, os principais projetos hoje têm sido desenvolvido sempre nesse formato de redes. No Brasil, esse programa foi pioneiramente desenvolvimento pela Fapesp, que ao longo de sua história foi antecipando, no nível nacional, várias modalidades de apoio a redes, inicialmente apoiava projetos individuais. Projetos temáticos já foi uma forma de introduzir redes. Programas multiusuários, uma outra forma de introduzir redes. E depois os CEPIDs, já no final da década de 90, quando ela lança o programa para terem redes maiores neste caso. No nível nacional, nós também fomos tendo diversos programas para apoiar redes, desde o programa Pronex, Grupos de Excelência, depois o programa dos Institutos do Milênio, depois o programa dos INCTs, que agora está sendo renovado, e todos eles requerendo essa conjugação de grupos mais consolidados com grupos emergentes no país. Evidente que hoje o grande desafio da ciência brasileira é também se internacionalizar mais. Em função da necessidade de crescimento interno, nós perdemos muito da nossa capacidade de cooperação internacional nos anos recentes e por isso a participação em redes internacionais é, de fato, extremamente importante, embora isso mesmo dentro das comunidades às vezes gera olhares contraditórios, nós tivemos um exemplo recente que é o do ESO, European Southern Observatory, que, enfim, há uma proposta de participação brasileira, que evidentemente tem que ser aprovada pelo Congresso Nacional, se a gente quer aportar recursos vultosos, mas que a própria comunidade científica discutia, porque achava que era muito dinheiro num laboratório internacional, quando devia colocar esse dinheiro para os laboratórios do próprio país. O programa Ciência sem Fronteiras também gerou esse tipo de reação: “ah, será que vale a pena pagar para estudantes brasileiros irem para o exterior quando a gente podia pegar esse mesmo dinheiro e botar nos laboratórios de ensino das universidades brasileiras”, mas essas coisas tem que ser completares, entendeu? A gente tem que, de fato, olhar de uma forma mais abrangente a interação dentro do país e, principalmente, fora do país no formato de redes.

Tem duas modalidades no Ciência sem Fronteiras para atrair pesquisadores do exterior. Uma é para jovens talentos, que são pós-docs diferenciados, com uma bolsa diferenciada com auxílio à pesquisa. Equivalente ao Jovem Pesquisador aqui da Fapesp. Nós já temos 500 bolsas dessa modalidade concedidas nos últimos três anos. E o outro programa é o programa de Professor Visitante Especial, esse é um programa bem interessante, porque você pega um pesquisador sênior, cientista de alto nível internacional, e que está disposto a vir ao Brasil, um, dois meses por ano, por um período de três anos inicial[mente]. Ele ganha uma bela bolsa pelo mês que passa aqui. São 14 mil reais pessoais, por mês. Esse mês não precisa ser contínuo, pode ser dividido em estágios. Ele ganha uma bolsa de pós-doc, para deixar um pós-doc aqui trabalhando durante três anos. Uma bolsa de doutorado sanduíche para cada vez que vem levar um estudante junto com ele de volta para seu país de origem. E 50 mil reais por ano para fazer pesquisas aqui no laboratório que o hospeda. E um acordo com agências de fomentos locais, estaduais e federais de que esses indivíduos nesses programas podem pedir projetos maiores nas agências liderando esses projetos. Porque eles têm um certo vínculo, então, com as instituições que os hospedam. Nós já temos 8 centros desses pesquisadores no Brasil trabalhando hoje em dia.

Não, não [não temos metas numéricas para esses programas]. Nós temos agora a renovação do programa Ciência sem Fronteiras pelos próximos 4 anos. Mais 100 mil bolsas. E portanto a gente espera ter aí um número maior para os próximos anos a seguir.
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Agradecimentos: Aos entrevistados; à comissão organizadora do evento. Às orientadoras Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

Este trabalho foi produzido sob financiamento da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Como é que é? - Tubarões não adoecem?

Já tinha ouvido falar que tubarões não têm câncer, mas parece que tem um mito ainda mais abrangente: a de que tubarões simplesmente não desenvolveriam nenhuma doença (Fig. 1).

O mito é explorado por uma ampla gama de produtos milagrosos, como extrato de cartilagem de tubarão, supostamente com poderes protetivos contra tumores (há pesquisas em andamento sobre o efeito antiangiogênico - isto é, inibidor de formação de vasos sanguíneos - da cartilagem de tubarão que poderia ser útil no tratamento de tumores, mas não há nada definitivo, muito menos sobre as vias de administração). (Ostrander et al. 2004.)

Figura 1. Meme desinformativo (à esquerda). Seu real valor (à direita).

Não preciso dizer que é bobagem, certo? Bem, mas vamos aos dados:

Várias espécies de bactérias do gênero Vibrio (sim, parentas da que causa a cólera em humanos) estão associadas à mortalidade em tubarões mantidos em cativeiro (Grimes et al. 1984, Grimes et al. 1985).

O parasitismo pelo copépodo Nemesis robusta nas guelras leva a uma deficiência na respiração (Benz & Adamson 1990).

O fungo Fusarium solani pode atacar os canais da linha lateral de tubarões-martelo em cativeiro (Crow et al. 1995).

E, sim, tubarões *TÊM* câncer:  neoplasia na gengiva (Borucinska 2004), melanoma (Waldoch et al. 2010), lesões proliferativas (Robbins et al 2013)... Conforme Ostrander et al. (2004), casos de neoplasias em condríctios (grupo dos peixes cartilaginosos a que pertencem os tubarões) são conhecidos há mais de 150 anos (mais de 160 anos agora). A primeira descrição (em uma raia) data de 1853. Há até condroma (tumor benigno na... cartilagem).

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Essa proliferação de perfis nas redes sociais que supostamente relatam fatos (curiosos, pouco conhecidos, interessante) sem nenhum tipo de referência é uma praga. Essas bobagens não são raras, não sei se fruto somente de uma ausência de um mecanismo mínimo de conferência ou se por má fé. A se aplicar a navalha de Hanlon, eu deveria me ater à primeira hipótese. Mas, diante do fato de a quase totalidade se manter alheia às correções feitas, não dá pra não pensar em algo além da ingenuidade e do trabalho de má qualidade. O melhor a se fazer é ignorar tais perfis - talvez se cometa alguma injustiça, mas se evita a exposição à informações factualmente erradas (ou pelo menos de natureza duvidosa que não merecem nem de longe serem chamadas de fatos).
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Referências
Benz, G.W & Adamson, S.A.M. (1990). Disease caused by Nemesis robusta (van Beneden, 1851) (Eudactylinidae: Siphonostomatoida: Copepoda) infections on gill filaments of thresher sharks (Alopias vulpinus (Bonnaterre, 1758)), with notes on parasite ecology and life history Canadian Journal of Zoology, 68 (6), 1180-1186 : 10.1139/z90-175

Borucinska, J., Harshbarger, J., Reimschuessel, R., & Bogicevic, T. (2004). Gingival neoplasms in a captive sand tiger shark, Carcharias taurus (Rafinesque), and a wild-caught blue shark, Prionace glauca (L.) Journal of Fish Diseases, 27 (3), 185-191 DOI: 10.1111/j.1365-2761.2004.00532.x

Crow, G., Brock, J., & Kaiser, S. (1995). Fusarium solani Fungal Infection of the Lateral Line Canal System in Captive Scalloped Hammerhead Sharks (Sphyma lewini) in Hawaii Journal of Wildlife Diseases, 31 (4), 562-565 DOI: 10.7589/0090-3558-31.4.562
Grimes DJ, Stemmler J, Hada H, May EB, Maneval D, Hetrick FM, Jones RT, Stoskopf M, & Colwell RR (1984). Vibrio species associated with mortality of sharks held in captivity. Microbial ecology, 10 (3), 271-82 PMID: 24221148

Grimes, D., Gruber, S., & May, E. (1985). Experimental infection of lemon sharks, Negaprion brevirostris (Poey), with Vibrio species Journal of Fish Diseases, 8 (2), 173-180 DOI: 10.1111/j.1365-2761.1985.tb01212.x

Ostrander GK, Cheng KC, Wolf JC, & Wolfe MJ (2004). Shark cartilage, cancer and the growing threat of pseudoscience. Cancer research, 64 (23), 8485-91 PMID: 15574750

Robbins, R., Bruce, B., & Fox, A. (2013). First reports of proliferative lesions in the great white shark, L., and bronze whaler shark, Günther Journal of Fish Diseases DOI: 10.1111/jfd.12203

Waldoch JA, Burke SS, Ramer JC, & Garner MM (2010). Melanoma in the skin of a nurse shark (Ginglymostoma cirratum). Journal of zoo and wildlife medicine : official publication of the American Association of Zoo Veterinarians, 41 (4), 729-31 PMID: 21370659
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via @oatila.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Comboio de cordas que se chama evolução: a origem de nossa notocorda

Por algum motivo a imprensa brasileira parece ter comido bola. É um trabalho certamente de grande relevância no nosso entendimento da evolução dos vertebrados e seus parentes próximos, os cordados (e também dos outros bilatérios - animais que primitivamente apresentam uma simetria bilateral: mesmo que alguns, como a estrela do mar, tenham perdido ao longo da evolução).

Pelo menos eu não fui capaz de encontrar menção ao estudo de Lauri et al. 2014 sobre o desenvolvimento de Platynereis dumerilii publicado na Science.

O princípio é simples: em nós e nossos parentes cordados, durante o desenvolvimento, surge uma estrutura rígida de sustentação - chamada de notocorda (e daí o nome de cordados ao grupo que inclui os vertebrados, o anfioxo e alguns outros). Em nós, vertebrados, a notocorda é substituída pela coluna vertebral; no anfioxo, ela persiste durante a vida adulta. Nos animais como moluscos, insetos, nemátodos, minhocas, estrelas do mar e outros, essa estrutura não está presente.

O que os pesquisadores da EMBL (Laboratório Europeu de Biologia Molecular), da Janelia Farm Research Campus e da Universidade de Heidelberg fizeram foi pegar os genes que estão ativos nas células que dão origem à notocorda no cordados e verificar sua atividade na larva de um invertebrado sem notocorda - um poliqueto marinho (parente próximo da minhoca) chamado P. dumerilli.

O resultado é que o mesmo conjunto de genes (10 dos 11 utilizados no estudo) estavam ativos e em posição similar - no eixo longitudinal entre o cordão nervoso e a aorta. No caso do poliqueto, esse eixo é formado por células musculares dispostas ao longo do comprimento que secretam uma matriz extracelular de colágeno. E elas são fundamentais para a locomoção do organismos - se danificadas por um pulso de laser, o animal não é mais capaz de nadar. Como formavam um eixo e parecem ser homólogos (estruturas evolutivamente afins) com a notocorda, ele foi chamado de axocorda.

Os autores buscaram, então, se o mesmo padrão estava presente em outros invertebrados não-cordados. Bingo!

No quetognato Sagitta, e no quítão (molusco) Lepidochiton também identificaram uma axocorda muscular. Na drosófila, representante dos artrópodos, há uma linha média formada por células gliais. A interpretação é que entre os protostômios (grupo que abarca esses organismos), a axocorda é uma característica presente no ancestral em comum - e na linha que deu origem ao artrópodos, a natureza muscular foi perdida.

No paulistinha Danio, representante dos vertebrados, há uma notocorda não muscular; no cefalocordado Branchiostoma, o anfioxo, a notocorda é muscular; no hemicordado Saccoglossus há músculos longitudinais centrais; e na estrela do mar Asterias, membro dos equinodermos, não há nenhuma estrutura central contrátil. O padrão que emerge é que do lado dos deuterostômios, a condição ancestral é a presenta de uma estrutura central de natureza contrátil - muscular.

Ou seja, o ancestral dos bilatérios - grupo que engloba os protostômios e deuterostômios - haveria uma conjunto de células mesodérmicas que formariam um eixo central, contrátil, envolto por por uma capa secretada por essas células. A origem da notocorda pode ter se dado, especulam os autores, com a vacuolização dessas células e um maior enrijecimento da matriz extracelular - adquirindo uma natureza cartilaginosa.

Futuros estudos devem permitir determinar a condição ancestral nos equinodermos e nos ecdisozoários (grupo formado pelos artrópodos, nemátodos e parentes próximos). De todo modo, os resultados contribuem para o quadro de um urbilatério (hipotético ancestral em comum exclusivo dos bilatérios atuais) relativamente complexo: de corpo segmentado, olhos (simples), sistema nervoso com avançado grau de centralização (mas talvez ainda sem um cérebro).

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 6

Cerca de um ano depois, uma nova rodada de textos produzidos acerca da putativa crise nos blogues brasileiros sobre ciências.

*Meghie Rodrigues A crise dos blogs de ciência no Brasil — and le qüiproquó goes on
*Wesley Santos Do Nano ao Macro E agora, Jorn Barger[1]? Sobre divulgação científica

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Em meados de 2009, num panorama mundial (ou ao menos anglófono), havia uma discussão de se os blogues de ciências (então em ascensão) poderiam vir a substituir o jornalismo científico tradicional (então em crise). Em 2014, dentro do panorama brasileiro, aparentemente, há uma crise tanto do jornalismo científico tradicional (uma crise que se arrasta desde pelo menos 2009, mas agudizado agora com o fim da editoria de ciências do Estadão - Herton Escobar agora atua apenas como freelancer; a Folha segue como um foco de resistência, mas, por exemplo, Claudio Angelo já não trabalha mais por lá), quanto dos blogues de ciências (nosso foco aqui).

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 2
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 3
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 4
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 5
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Upideite(29/set/2014): No facebook, Roelf Cruz Rizzolo, do Coluna Ciência, comenta: "Roberto, o que noto é que a versão FB do blog da Coluna Ciência acaba sendo muito mais visualizada, apesar da superficialidade inerente ao veículo."

Roberto Berlinck, do antigo Quiprona, comenta na postagem do Nano ao Macro, e o Wesley Santos responde. Vale ver lá. Sim, neste caso não se aplica a lei zero da internet de não ler comentários.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Nem tudo o que doureja é lúzio 6

Uma rodada especial de gaiata ciência: o tema é "bloqueio criativo".

Dois artigos já haviam sido citados na segunda rodada.
Mas é praticamente uma subárea à parte da psicologia:

Tem até meta-análise:

Mas sempre tem aqueles que não sabem brincar:

domingo, 7 de setembro de 2014

Revista em quadrinhos é objeto de estudos de zoólogos

Reproduzo abaixo notícia que publiquei na seção de notícias da Com Ciência (publicação temática mensal do Labjor em parceria com a SBPC). Por algum motivo, o texto não está mais disponível no site.

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Revista em quadrinhos é objeto de estudos de zoólogos
Por Roberto Takata
22/07/2014
No lugar de caminhada no meio da floresta com redes e armadilhas, leitura minuciosa de páginas de gibi. Foi assim que os autores de A Zoologia de "Sete Soldados da Vitória": análise dos animais presentes na obra e sua possível utilização para fins didáticos coletaram seus dados para o estudo. Os pesquisadores fizeram o levantamento faunístico de “Sete Soldados da Vitória”, metassérie (conjunto de minisséries interligadas) em quadrinhos de Grant Morrison lançada em 2005 pela DC Comics e publicada no Brasil em 2007 pela Panini Comics. 

Cerca de metade das personagens, entre super-heróis, vilões, humanos comuns e até bichos de estimação, representam ou são baseadas em animais. Destes, 63% pertencem ao filo dos cordados – que inclui os vertebrados como nós – e 37%, protostômios – grupo ao qual pertencem os insetos, as aranhas, minhocas e moluscos. Como notam os autores no artigo, a presença no nosso cotidiano parece ser o principal fator determinante na presença nos quadrinhos: mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes, insetos e aranhas predominam –, em contraste com o número de espécies conhecidas em cada grupo. 

O trabalho, à primeira vista inusitado, faz parte da linha de pesquisa do grupo liderado pelo zoólogo Elidiomar Ribeiro da Silva, da Unirio, de facilitar o aprendizado de biologia com a inclusão de elementos da cultura pop, despertando, assim, o interesse dos alunos – uma das autoras do artigo, Tainá Ribeiro da Silva, é estudante do ensino médio. Ela é filha de Elidiomar, mas, mesmo havendo realizado outros trabalhos com o pai, esta foi sua primeira experiência na classificação de organismos. “Certamente me ajudou a ter uma noção mais ampla do assunto”, contou por email Tainá, ávida leitora de quadrinhos e fã de Batman. 

“Mesmo informações zoologicamente incorretas podem ser exploradas em sala de aula, com os devidos ajustes e correções”, escrevem os autores no artigo. Por exemplo, o desenho de uma “cabeça” de aranha em um dos quadros pode ser usado como gancho para falar da morfologia dos aracnídeos: em que não há uma cabeça e um tórax separados como em insetos, mas formam uma única estrutura fundida em um cefalotórax. As incorreções podem também ser base para atividades do tipo “encontre o erro”. 

Sete Soldados da Vitória

Cada uma das sete minisséries que compõem a obra gira em torno de um super-herói e pode ser lida de modo independente. Porém, um fio condutor une as histórias que convergem para a batalha final na qual os heróis salvam a humanidade de uma raça de seres vinda do futuro, os sheedas, e que controlam insetos e aranhas, utilizando-os como armas e montarias.
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Confira a íntegra da entrevista por email gentilmente cedida pela aluna Tainá Ribeiro da Silva, uma das autoras do estudo:

GR. Como foi sua participação no trabalho? Você quem pediu pra fazer, seu pai a convidou?
TS. Meu pai me chamou para participar, sendo que eu fiz parte de um outro projeto similar que focou na taxonomia de personagens baseados em aranhas. Nesse trabalho, eu o ajudei a fazer os cálculos estatísticos e também pesquisei sobre a origem de alguns personagens.

GR. O que achou da atividade?
TS. Foi complicado e demorado. Pra falar a verdade, tomou uma boa quantidade do meu tempo, mas eu realmente gostei de ver o resultado final!

GR. Você já tinha experiência em fazer classificação de organismos? A pesquisa a ajudou a desenvolver essa habilidade?
TS. Não tive experiência em fazer classificação de organismos antes desse trabalho, mas ele certamente me ajudou a ter uma noção mais ampla do assunto.

GR. Você gosta de quadrinhos? Se sim, quais? Gostou dessa obra que analisaram?
TS. Gosto de quadrinhos desde pequena! Meus pais sempre me encorajaram a ler, e eles mesmos adoram. Eu amo as séries do Batman e tenho gostado bastante dos Novos 52. Sobre “Sete Soldados da Vitória”, a história não chegou a chamar muito a minha atenção, porque é confusa e diferente de tudo que eu estou acostumada a ler. Tem vários personagens que eu desconheço, sobrando só a Zatanna. Não sei se posso dizer que gostei, mas não é ruim.

GR. Já tem alguma escolha profissional? Pretende fazer biologia?
TS. Certeza absoluta eu não tenho, mas tenho pensado bastante em fazer arquitetura. Biologia seria muito legal, mas eu não sinto que é ideal para mim.
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Agradecimentos:
Obviamente à estudante Tainá Ribeiro da Silva pela entrevista e ao Prof. Dr. Elidiomar Ribeiro da Silva pela autorização da entrevista. Às orientadoras Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

Este trabalho foi produzido sob financiamento da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência).

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Nem tudo que doureja é lúzio 5

Uma nova rodada de gaiata ciência.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Indicador de Letramento Científico

Saiu o tão aguardado (pelos que acompanham os dramas da cultura científica no Brasil) resultado da primeira edição do Indicador de Letramento Científico, o ILC, realizado pelo Instituto Abramundo em parceria com a Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro. Gostaria muito que esse tipo de levantamento fosse incluído nas pesquisas do MCTI sobre a Percepção Pública de Ciências - infelizmente o então diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do MCTI, Ildeu de Castro Moreira, foi voto vencido e o estudo sobre o conhecimento científico do brasileiro não foi incluída.

O resultado do 1° ILC não é nem um pouco diferente do que seria o esperado - o diabo é tão feio quanto pintam. Entre os entrevistados (2.002 pessoas entre 15 e 40 anos de nove regiões metropolitanas e do DF), apenas 5% apresentam o nível 4 - letramento científico proficiente: e a proficiência não é um nível particularmente alto de conhecimento, envolve coisas como interpretar gráficos de acordo com certas hipóteses (no exemplo do relatório, verificar o gráfico de projeção de temperaturas globais de acordo com as emissões de carbono em dois cenários e dizer o que significam essas duas projeções) (Tabela 1).

Tabela 1. Níveis de letramento científico dos entrevistados.
Nível Descrição %
Nível 1 "Não científico: Localiza, em contextos cotidianos, informações explícitas em textos simples (tabelas ou gráficos, textos curtos) envolvendo temas do cotidiano (consumo de energia em conta de luz, dosagem em bula de remédio, identificação de riscos imediatos à saúde), sem a exigência de domínio de conhecimentos científicos." 16
Nível 2 "Letramento científico rudimentar: Resolve problemas que envolvam a interpretação e a comparação de informações e conhecimentos científicos básicos, apresentados em textos diversos (tabelas e gráficos com mais de duas varáveis, imagens, rótulos), envolvendo temáticas presentes no cotidiano (benefícios ou riscos à saúde, adequações de soluções ambientais)." 48
Nível 3 "Letramento científico básico: Elabora propostas de resolução de problemas de maior complexidade a partir de evidências científicas apresentadas em textos técnicos e/ou científicos (manuais, esquemas, infográficos, conjunto de tabelas) estabelecendo relações intertextuais em diferentes contextos." 31
Nível 4 "Letramento científico proficiente: Avalia propostas e afirmações que exigem o domínio de conceitos e termos científicos em situações envolvendo contextos diversos (cotidianos ou científicos). Elabora argumentos sobre a confiabilidade ou veracidade de hipóteses formuladas. Demonstra domínio do uso de unidades de medida e conhece questões relacionadas ao meio ambiente, à saúde, astronomia ou genética." 5


Mesmo com metodologias distintas e público-alvo da pesquisa também totalmente diferentes, o mesmo padrão geral delineado em outras pesquisas como o PISA é obtido: um certo número de indivíduos sem nenhum conhecimento de ciências, a grande parte tendo apenas um conhecimento muito básico, e muitos poucos com conhecimentos mais avançados. (Figura 1a,b.)

a)
b)
Figura 1. a) Resultados para o Brasil do PISA 2012 de ciências (estudantes de 15 anos). b) ILC 2014 (brasileiros entre 15 e 40 anos).

Entre os que estão no ensino superior ou o completaram, apenas 11% têm nível de proficiência; entre os com nível superior completo, apenas 18% têm nível 4. Entre profissionais da administração pública, somente 6% e entre os profissionais de educação, apenas 10% (este é o ramo com maior porcentagem de indivíduos com nível 4). Entre os funcionários com altos cargos, de nível gerencial, são apenas 12% os proficientes (é a segunda categoria funcional com maior proporção de indivíduos com nível 4; a categoria com maior proporção é a dos profissionais liberais, empresários e empregadores: 15%).

Entre os com nível mais alto de letramento científico, 31% teriam problema em calcular a quantidade de combustível consumido para percorrer uma dada distância sabendo o consumo médio do veículo. Isso mesmo, entre os com maior capacidade de compreensão científica, quase 1/3 não saberia aplicar uma simples conta de multiplicação.

A pesquisa incluiu algumas perguntas sobre percepção e atitudes públicas sobre ciências, mas o relatório, infelizmente, não detalhou os resultados por nível de letramento. Entre as perguntas sobre interesses em temas científicos, os resultados poderiam ser alentadores (Tabela 2), mas a realidade sobre o grau de informação parece demonstrar que precisamos interpretar essas declarações de interesse com não apenas um grão de sal, mas com salinas inteiras (Tabela 3).

Tabela 2. Interesses declarados dos entrevistados a respeito de temas científicos.
Frase concorda (total ou parcialmente) não concorda nem discorda discorda (total ou parcialmente) ns/nr
A ciência me ajuda a compreender o mundo em que vivo 72 15 12 1
Procuro estar sempre bem informado sobre novidades no campo da ciência e da tecnologia 62 13 26 0
Gosto de ler textos sobre temas científicos 45 17 39 0
Sempre gostei de estudar ciências 44 17 39 0

Tabela 3. Conhecimento de temas científicos tratados nos meios de comunicação.
Tema Não sei nada/quase nada Conheço pouco/apenas ouvi falar Conheço bastante sobre o assunto Conheço bem o assunto e procuro estar atualizado
Mudanças climáticas/efeito estufa 24 59 14 3
Informática e tecnologia 26 48 21 6
Poluição/uso de recursos naturais/biodiversidade 27 52 17 4
Evolução das espécies; origem da vida 31 51 16 3
Cura de doenças/novos medicamentos 31 55 12 2
Fontes de energia renováveis 35 48 14 2
Animais pré-históricos, fósseis e descobertas arqueológicas 38 49 11 2
Engenharia genética/organismos geneticamente modificados/transgênicos 47 43 8 2
História do desenvolvimento científico 48 42 8 2
Exploração do universo/buracos negros/quedas de asteroides 50 41 8 2
Robótica e nanotecnologia 61 32 6 2

As opções de temas (Tabela 3) são bem abrangentes para uma interpretação de que os entrevistados consideram-se bem informados em outras áreas de ciências possa ser considerada com maior seriedade. Como compatibilizar a declaração de que se procura informar muito sobre ciências (Tabela 2) com a declaração de que se sabe pouco sobre ciências (Tabela 3)? Poderia ser por modéstia em declarar seu próprio conhecimento? Poderia ser por considerarem os textos que leem como pouco informativos? Darei a cara a bater e avançarei a hipótese de que os dados sobre interesses são pouco confiáveis: os entrevistados exageram seu grau de interesse. Alerto que pelos dados disponíveis *não* se pode testar a validade de tal interpretação que defendo aqui. É só um palpite.


Os dados mais bisonhos - ainda que não exatamente surpreendentes -:
77% dos entrevistados concordam (em parte ou totalmente) com a frase: "O governo deveria investir mais na ciência, pois ela tem importância estratégica para o país";
53% dos entrevistados concordam (em parte ou totalmente) com a frase: "O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais". (Tabela 4.)

Isso significa que entre 2430 (77-5347, no caso da sobreposição mínima entre os grupos) e 53% (sobreposição máxima) concordam *ao mesmo tempo* com as duas frases. Uma fração não desprezível dos entrevistados acham tanto que se deve aportar mais e menos dinheiro em Ciência e Tecnologia. (Incongruência presente também na pesquisa de 4 anos atrás feita sob encomenda do MCTI.) É mais um alerta de como devemos interpretar pesquisas de percepção e atitude públicas com um matacão de NaCl.

Tabela 4. Comparação da concordância dos entrevistados quanto aos investimentos em C&T e destinação dos recursos nas pesquisas do MCTI 2010 e do ILC 2014.
concorda totalmenteconcorda em partenão concorda nem discordadiscorda em partediscorda totalmentens/nrpesquisa
O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais2821-13353MCTI 2010
O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais21321814122ILC 2014
Os governos devem aumentar os recursos que destinam à pesquisa científica e tecnológica6823-423MCTI 2010
O governo deveria investir mais na ciência, pois ela tem importância estratégica para o país482915521ILC 2014

Por motivos que não entendi bem, resolveram concentrar o público na faixa entre 15 e 40 anos. Somado ao fato de restringirem às regiões metropolitanas e à capital federal, infelizmente não podemos extrapolar diretamente os resultados para a população brasileira. A comparação com os dados de atitudes e consumo de informações científicas dos levantamentos do MCTI também é prejudicada.

Seria legal se tivessem incluído perguntas utilizadas nos principais levantamentos de alfabetização científica no mundo - particularmente da NSF e da Eurobarometer. Mas é o que tem pra hoje. (De todo modo, pPelo que pudemos perceber, aparentemente os resultados do PISA, mesmo restritos à população de estudantes com 15 anos, podem ser extrapolados para a população inteira - ao menos para o Brasil em relação ao conhecimento científico.) De todo modo é o primeiro levantamento em nível nacional do letramento científico (de parte) dos brasileiros. Que venham as edições futuras.

Agora sabemos o tamanho do buraco da educação e divulgação científicas no Brasil.

Veja o que foi publicado em outros blogues:
Ceticismo - Uma catástrofe chamada letramento científico
Minas faz Ciência - Reflexões sobre o letramento científico

Upideite(25/ago/2014): Comparativo entre as categorias do PISA 2012 e o grupo de 15-19 anos do ILC 2014.
O nível abaixo de 1 do PISA parece corresponder ao nível 1 do ILC, assim como os níveis 4 e acima do PISA e o nível 4 do ILC das duas aferições parecem corresponder entre si.

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