sexta-feira, 13 de novembro de 2009

(Auto)plágio?

Osame Kinouchi do Semciência postou nos comentários da postagem anterior uma observação anônima que ele recebeu a respeito do trabalho de Sant'Ana et al. 2008.

A figura 2 de Sant'Ana et al. 2008 seria uma modificação da figura 4 de França et al. 2007 (o primeiro trabalho citado nas referências de Sant'Ana et al. 2008 e também do grupo de trabalho de Andreimar M. Soares). Compare as duas abaixo.


Agora compare os painéis '4b' com '2b' e '4c' com '2a'.


Embora os organismos-alvo sejam os mesmos: leishmânias nos painéis superiores e tripanossomos nos painéis inferiores e se tratem todos de oxidades de L-aminoácidos (LAAOs), são extraídas de espécies distintas de Bothrops. Bjar se referindo à jararaca (B. jararaca), Bjussu à jararacuçu (B. jararacussu) e Bmoo ao jararacão (B. moojeni).

O fato de haver uma conservação da estrutura tridimensional, a despeito de pequenas diferenças na sequência primária, poderia explicar uma ação similar. De fato, quando comparamos os painéis 4a e 4b de França et al. 2007, notamos que as curvas são bastante parecidas.

Parecidas, mas não idênticas. A sequência primária da Bjar LAAO-I e da Bjussu LAAO-I não são idênticas, mas muito parecidas. P.e., a primeira começa com:ADDKNPLEEC FRETDYEEFL; a segunda com: ADDRNPLEEC FRETDYEEFL. De uma lisina (K) para uma arginina (R). Mas as sequências da Bmoo LAAO-I e Bjussu LAAO-I também são muito parecidas (as 70 primeiras posições de resíduos de aminoácidos são idênticas) e os gráficos, embora similares, apresentam diferenças reconhecíveis.

Se não errei nas contas, há mais diferenças entre Bjar LAAO-I e Bjussu LAAO-I - 11 posições com resíduos distintos - (ou Bmoo LAAO-I - 16 resíduos) do que entre Bjussu LAAO-I e Bmoo LAAO-I - 5 posições com resíduos diferentes. Bjar LAAO-I também é um pouco maior: 484 resíduos de ainoácidos contra 470 dos outros dois. Era de se esperar então que o gráfico de Bjar LAOO-I fosse mais diferente? Se as diferenças se concentrarem em regiões com algum efeito cinético, sim. Mas se as diferenças se concentrarem em regiões relativamente inertes quanto a reações químicas e que não mude a estrutura da proteína, o modo de ação poderia ser virtualmente idêntico.

De todo modo, mesmo que fossem a mesmíssima proteína, era de se esperar gráficos ligeiramente distintos, por conta da ação de outros fatores, que fazem com que um ensaio não seja exatamente igual a outro.

A coisa está mesmo estranha. Tentarei falar com o Prof. Dr. Andreimar M. Soares para falar a respeito dos gráficos e ouvir o que pode estar ocorrendo.

Upideite(13/nov/2009): Para facilitar a comparação fiz uma sobreposição dos dados (extraídos a partir das coordenadas dos pontos das figuras - creio que as legendas sejam mais ou menos autoexplicativas):

Upideite(13/nov/2009): Já havia destacado na outra postagem sobre o tema, mas é sempre bom alertar que não pretendo aqui fazer nenhum pré-julgamento. Entrei em contato com o Prof. Dr. Andreimar para ver se ouve mesmo algum erro ou se os dados são mesmo tão similares.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Limitações das ciências: fraudes

A propósito das discussões suscitadas pelo mais recente caso de plágio na USP, reproduzo abaixo trecho de um ensaio mais longo (em verdade, mais uma colcha de retalhos) que estou preparando (no andar da carruagem não termino antes do mundo acabar em 2012).

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Várias outras limitações surgem às ciências em função dela ser uma atividade humana. Não obstante, a mais insidiosa certamente é a adulteração deliberada dos dados: a fraude. Há vários motivos por que alguém relataria um achado falso. Ser o primeiro a anunciar a realização de um feito perseguido por vários outros pesquisadores é uma glória que satisfaria a muitos: no entanto, somente uma pessoa pode obter esse feito. E isso pode depender de recursos que não estão disponíveis ao pesquisador, ou ele pode estar sem sorte. Atualmente existe ainda a pressão por publicações: o pesquisador que não lança artigos a uma certa taxa é tido como improdutivo, preguiçoso e imerecedor de promoções ou da própria manutenção do cargo. Talvez a filha dele esteja doente, ele não tenha tido muito tempo para se dedicar às pesquisas e o órgão financiador ameaça suspender o financiamento de seu trabalho, o que mancharia seu currículo. Certamente uma fraude mancha de modo mais profundo e permanente, mas conquanto não seja descoberta... Vira um jogo. Um jogo duplamente perigoso. Não apenas à carreira do pesquisador, mas ao próprio sistema de produção de conhecimento científico: altamente dependente de uma relação de confiança. Há mecanismos para tentar inibir a fraude ou erros não propositais: os trabalhos devem apresentar a metodologia de modo que outros pesquisadores possam tentar replicar os achados, os artigos são submetidos ao exame de outros pesquisadores na área para que possam tentar detectar erros e sugerir melhorias. Mas não são mecanismos à prova de falhas. E há até mesmo uma forte pressão para que tal procedimento seja revisto, em parte, novamente, pela pressão para a publicação: o processo de revisão pelos pares tende a tornar tudo muito mais lento e custoso. Se erros são detectados após a publicação, os trabalhos podem ser retirados (na prática anuncia-se que eles não são mais válidos, se estiverem em servidores web o arquivo é removido do diretório e substituído por uma mensagem de alerta) por iniciativa da publicação e/ou dos autores do trabalho.

Estas fraudes, disse, minam a razão de ser do processo científico. É como a presença de notas falsas circulando no mercado. Isso debilita a credibilidade do sistema: quem recebe as notas não sabe se poderá trocá-las por produtos e serviços e tende a se recusar a recebê-las, independentemente de se são verdadeiras ou falsas. Tal fato foi usado como arma de guerra. Durante a Segunda Guerra, a Alemanha nazista, na operação Bernhard, produziu um grande número de libras falsas (estima-se que a produção correspondeu a um valor equivalente a 15% do montante de libras circulante à época), empregando as habilidades de prisioneiros judeus do campo de concentração de Sachsenhausen. O governo britânico, percebendo que poderia abalar a credibilidade da moeda do país, decidiu aceitar tais notas como meio circulante – retirando-as gradativamente à medida que chegavam aos bancos e eram detectadas. Certamente houve prejuízos, entretanto a alternativa: a dissolução da confiança na moeda, provavelmente traria danos ainda maiores. O episódio foi retratado em 2007 em um filme austríaco ganhador do Oscar, Die Fälscher (Os falsários).

Mas a aceitação de trabalhos científicos com resultados falsos não é possível. Se fraudes ocorrem em pequena escala, o problema é circunscrito. Infelizmente há indicações de que atualmente a prática não é tão rara. Na condição de manterem anonimato, 33% de 3.247 cientistas americanos pesquisados da área da saúde admitiram ter incorrido (nos três anos anteriores à pesquisa) em algum tipo de conduta antiética na pesquisa (plágio, não dar atenção ao contraditório, não prestar atenção nas falhas das análises de terceiros, etc.), 0,3% admitiram algum tipo de falsificação dos dados (Martinson, BC et al. 2005. Scientists behaving badly. Nature 435: 737-8). Em um estudo meta-analítico, 33,7% dos cientistas admitiam alguma conduta reprovável e 1,97% admitiam ter adulterado os dados pelo menos uma vez (Fanelli, D. 2009. How many scientists fabricate and falsify research? A systematic review and meta-analysis of survey data. Plos One 4(5): e5738. Acessado em: 16 de julho de 2009. Disponível em: http://www.plosone.org/article/info:doi/10.1371/journal.pone.0005738).

2% de fraude pode não parecer grande coisa, mas um levantamento de 2006 detectou 632 remoções de artigos (“retractions”) na base de dados PubMed (Liu, SV. 2006. Top journal’s top retraction rates. Scientific Ethics 1: 91-3). Claro, não são todas as remoções que correspondem a um caso de fraude, na verdade, os casos de remoções por fraude são bastante raros. Se considerarmos um número mais modesto dos 0,3% reportados no trabalho de Martinson e colaboradores (2005), os 632 trabalhos corresponderiam a um total de pouco mais de 210.000 trabalhos (se considerarmos os 2%, seriam pouco menos de 32.000 artigos). O número total de artigos indexados na base é muito maior do que isso [em 1995, a base Medline do PubMed tinha mais de 9 milhões de artigos indexados (Schulman, J-L. 2000. Using medical subject headings (MeSH) to examine atterns in American medicine. Acessado em: 17 de julho de 2009. Disponível em: http://www.nlm.nih.gov/mesh/patterns.html.); em 2008, mais de 16 milhões (Medline. 2008. Fact sheet: Mediline. Acessado em 17 de julho de 2009. Disponível em: http://www.nlm.nih.gov/pubs/factsheets/medline.html).] Então o processo de depuração (a autocorreção das ciências, na visão de Sagan) não parece mesmo estar dando conta – a situação fica ainda mais complicada se considerarmos o universo de ações reprováveis e erros na produção do trabalho que justificariam sua remoção. Por alto (e sendo generoso), o processo de depuração científica está trabalhando a uma taxa de apenas 2% de eficiência – 98% das fraudes e erros cometidos se acumulam, indetectados, na literatura científica mundial (atenção ao leitor ou leitora que tenha lido o trecho anterior com alguma pressa: não se disse que 98% da literatura científica contenha fraude ou erro, mas sim que, dentre os artigos que têm problemas, 98% passam incólume pela revisão posterior a sua publicação).

Todas essas questões e limitações e ocorrências de fraudes, um número delas certamente não detectado, devem fazer um cidadão consciencioso refletir sobre qual então a validade de tudo aquilo que se nos apresenta como conhecimento científico chancelado pela comunidade de pesquisadores.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Plágio?

O tema levantado por Eduardo Geraque da Folha (o artigo pode ser lido no blogue do Nassif) está a toda. Rafael Soares do RNAm já comentou, Marcelo Leite do Ciência em Dia também, Osame Kinouchi no Senciência (não confundir com Semciência) levanta uma série de questões. A Reitoria da USP divulgou nota. (Vários outros órgãos da imprensa também deram destaque ao caso, como o G1, o R7, iG... e toda a sopa de letrinhas internéticas.)

Eu, como de costume, não irei comentar no calor dos acontecimentos: há muito espaço para prejulgamentos - que, em geral, é mau conselheiro. Apurem-se os responsáveis e as devidas (e justas) sanções sejam aplicadas, bem como contramedidas efetivas para que os erros não se repitam.

Sem julgar pessoas, comento apenas o óbvio: as fotos são sim as *mesmas* - apenas que as do artigo de Sant'Ana et al. 2008 são um recorte das de Rosa et al. 2003 - e, como noticiado, não há menção da fonte original no artigo de Sant'Ana et al. 2008. Plágio? Sim. Plágio. Tecnicamente é um plágio. Se intencional, é um delito ético de grande monta.

Mas, eu e minhas idiossincrasias, noto um problema mais grave. Na legenda do artigo original (de Rosa e colaboradores), as fotos são atribuídas a Leishmania amazonensis (tratadas com óleo de Croton cajucara - caá-juçara e outras denominações populares) Já no artigo de Sant'Ana e colegas, as mesmas fotos - '3.A' a '3.C' (correspondentes às imagens '3.A', '3.D' e '3.E' de Rosa et al.)- são atribuídas a Trypanosoma cruzi (tratados com uma proteína extraída do veneno de Bothrops jararaca - sim, de jararaca). Isso introduz um *erro* factual, uma informação falsa. (Sim, erro de autoria também é um erro de informação, mas aqui é um erro quanto a um dado científico.) Isto é, se houve intenção por parte de alguém, teremos um caso de fraude.


Repito, analiso apenas as consequências potenciais, não quero aqui fazer prejulgamentos. Até prova em contrário, os erros - que existem e não se pode negá-los -, serão de natureza involuntária.

Upideite(05/nov/2009): O texto do RNAm foi atualizado enquanto eu produzia esta postagem. Lá consta também a observação em relação à troca das informações sobre a espécie a que as fotos se referem.
Upideite(05/nov/2009): O que torna a história mais complicada é que não formaforam apenas fotos, mas dois trechos do texto também foram plagiados.
Upideite(05/nov/2009):Em verde, o original de Rosa et al., em vermelho, a cópia de Sant'Ana et al.
"Untreated and treated (15.0 ng of essential oil per ml) promastigotes were observed by transmission electron microscopy, and photomicrographs of the promastigotes are shown in Fig. 3A to E, which show promastigotes with different degrees of damage. Disruption of flagellar membranes, mitochondrial swelling, and gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were detected. After 30 min in the presence of essential oil the parasites were completely destroyed." (p. 1898)
"Mitochondrial swelling and important alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were observed by electron microscopy when L. amazonensis parasites were treated for 20 to 30 min with 15.0 ng of essential oil from C. cajucara per ml (Fig. 3). " (p. 1900)
"Untreated and treated promastigotes (L. amazonensis) and epimastigotes (T. cruzi) were observed by transmission electron microscopy. Photomicrographs of the promastigotes with different degrees of damage are shown in Fig. 3. For treated T. cruzi with BjarLAAO-I, disruption of flagellar membranes, mitochondrial swelling and gross alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were detected. After 24 h in the presence of 15 μg of BjarLAAO-I, the parasites were completely destroyed (Fig. 3A–C). Mitochondrial swelling and important alterations in the organization of the nuclear and kinetoplast chromatins were observed by electron microscopy when L. amazonensis parasites were treated with 5.0 μg/ml of BjarLAAO-I (Fig. 3D and E)." (p. 283/6)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Patrulha purista vocabular 4

Com o destaque cada vez maior das Ciências Biológicas - em suas áreas ambiental e biomolecular -, tem crescido o uso de termos ou das próprias Ciências Biológicas ou calcados a partir delas. O radical "bio", coitado, com isso tem sido não apenas intensivamente utilizado para criar novos termos - muitos dos quais necessários e eufônicos, como biodiversidade (um modo de contrair a expressão "diversidade biológica"), outros mais discutíveis, como bioética (ética relacionada às questões biológicas ou da pesquisa biológica: células-tronco, aborto, pesquisa com humanos...).

Aqui quero falar de uma terceira classe, a dos termos com "bio" que, a meu ver, são verdadeiros abusos (a lista abaixo não é exaustiva e irá crescer à medida em que eu topar com mais termos do tipo).

*biogenética - é a mesmíssima coisa que genética (não tem a ver com biogênese);
*bioplástica capilar - reconstituição de fios de cabelo com aplicação de queratina e óleo;
*biocelulose - celulose de bactérias;
*biopapel (biopaper) - papel feito com biocelulose.

Nos usos acima o radical "bio" ou é enganoso ou não tem função alguma de modular o significado da palavra original da qual a nova expressão deriva.

"Bio" tem o significado de "vida", "biológico", "sobre material de origem biológica", nenhum desses sentidos se encaixam na formação das palavras listadas.

Há um tempo era tudo "quântico", até um carro (Santana Quantum) e vários discos (Quanta). "Bio" traz ainda a tentação de abuso por ser, dado que é bem curtinho, facilmente acrescentável a um termo preexistente para criar um novo.

Claro que novas tecnologias, novos conhecimentos exigem a criação de novas palavras, porém isso não deve ser feito de qualquer maneira. Cabe respeitar o significado dos elementos que a compõem - do contrário, isso deixa de fazer sentido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O nome do sapo

Depois de um mês de concurso, recebi uma quantidade astronômica de sugestões para o nome do troféu que ganhei como "comentarista de destaque" no II Euclipo: três (sim, astronômica - ou quantas geometrias poderia ter o universo por exemplo? só três: fechada, aberta e plana.)

Alessandra Lain Carvalho do Karapanã sugeriu Caco - o sapo de "The Muppets Show".
Igor Santos (uoleo) do 42 sugeriu Trillian - personagem de "O Mochileiro das Galáxias".
Lacy Barca do Amiga Jane sugeriu Takatatráquio e Takatasapo.

Houve mais uma sugestão, mas via twitter, ferindo a regra de que deveria ser nos comentários da postagem sobre o concurso. (Como foi uma mensagem DM, imagino que não deva cometer a indiscrição de dizer quem foi.)

Agora tenho um problema aqui. As duas primeiras sugestões ferem o quesito não-explícito de originalidade (sem falar nos direitos autorais que eu teria que pagar). A terceira sugestão me faria incorrer em cabotinismo (apesar da torcida de Kentaro Mori do 100nexos). Também não seria correto declarar simplesmente que não há nenhum vencedor.

Em uma decisão salomônica - menos pela sabedoria, do que pelo efeito de cortar o bebê - farei o seguinte: não, não dividirei o prêmio, mas o nome. No melhor estilo brazuca de fundir os nomes dos pais, o troféu vai se chamar: Calíquio ("ca" de "Caco", "li" de "Trillian" e "quio"de "Takatatráquio"; e ainda remetendo ao grego kháliks,iks 'pedrinha, seixo': sobre essa última referência guardarei em segredo o motivo). Sim, não dividirei o prêmio, o que não quer dizer que vão ficar sem: mas *cada* um receberá sua cópia (que é original) do CD "Extraordinary Machine" da espetacular cantora americana "Fiona Apple".

sábado, 24 de outubro de 2009

I see your true colors*

Esta é, acho, a primeira postagem "on demand" do Gene Repórter. Não, não é um post pago. Não recebi um tostão. Apenas uma sugestão de tema feita por @mariaguimaraes com base em uma troca de tweets entre @Karl_Ecce_Med, @uoleo, @oatila e eu. Confesso que é uma área que está bastante longe de minha especialidade, de modo que tive um bom trabalho de pesquisa - ainda assim corro risco de ter escrito muitas bobagens.

Reinaldo José Lopes publicou no Laboratório da Folha Online uma postagem sobre um estudo com saguis-de-cara-branca. Mais especificamente a respeito de por que diabos nas populações desses símios há tanto indivíduos com visão dicromática (com dois tipos de cones, cada qual com pico de sensibilidade para ondas de comprimentos diferentes) quanto tricromática (claro, com três tipos de cones).

Sabia-se já, de estudos anteriores, que os com visão tricromática tinham vantagem em distinguir mais claramente objetos avermelhados de um fundo esverdeado - isso é particularmente útil na localização, por exemplo, de frutos maduros em meio à folhagem.

Se essa fosse toda a história, então, por seleção natural, a visão dicromática deveria ter desaparecido por seleção direcional[**]. Então claro que havia outra coisa.

Essa outra coisa, sugerem os resultados do novo estudo (Caine et al. 2009), é uma maior acuidade visual em um ambiente mais escuro. (Um outro estudo, do mesmo grupo de pesquisadores, analisou a vantagem dos dicromatas em termos de encontrar alimentos camuflados - com a mesma cor do ambiente: por exemplo, um objeto verde sobre fundo verde ou um objeto laranja sobre um fundo alaranjado - Caine et al 2003.)

Até aqui está tudo bem explicado na postagem de Lopes no blogue da Folha Online.

O que deve ficar claro é que não se trata de uma negação da seleção natural. Não está a ocorrer a sobrevivência diferencial dos menos aptos. Por *definição*, uma característica evolutivamente vantajosa é uma que faz com que os indivíduos que a portem tenham, em média, mais descendentes na geração seguinte do que os indivíduos que não a portem. Então, o dicromatismo *é* uma característica (ao menos para certas circunstâncias) vantajosa. (Uma certa confusão pode se dar pelo fato de Lopes ter usado uma comparação com daltônicos humanos e pelo fato de considerarmos o daltonismo um defeito visual - na *nossa* vida *atual*, os daltônicos têm uma desvantagem geral, o que explica o baixo número de daltônicos nas populações humanas atuais. Deve se lembrar ainda que uma desvantagem não é uma desvantagem absoluta - ela é uma desvantagem em um dado *ambiente*, se houver uma alteração no ambiente, uma característica que era desvantajosa pode passar a ser vantajosa e vice-versa. Um exemplo de livros-textos é o do alelo da hemoglobina que causa anemia falciforme - em dose dupla é normalmente letal, o heterozigoto pode desenvolver anemia falciforme em determinadas circunstâncias, mas confere proteção contra o Plasmodium sp.: em regiões em que a malária é endêmica, os heterozigotos têm vantagem e o alelo recessivo da anemia falciforme permanece na população; em regiões em que não há malária, pessoas homozigotas de alelos que não causam anemia falciforme têm vantagem e o alelo que causa anemia tende a ser eliminado.)

Se o dicromatismo é vantajoso, então, por que o *tricromatismo* existe? Pela vantagem exposta acima. Mas isso não pode ser a história toda. Se o tricromatismo for ligeiramente mais vantajoso do que o dicromatismo (digamos, indivíduos da espécie passem mais tempo em áreas mais claras do que em regiões mais sombreadas), então a seleção faria com que a população fosse composta inteiramente por tricromatas[**]. De modo oposto, se o dicromatismo fosse ligeiramente mais vantajoso (p.e., os indivíduos ficam mais tempo em regiões mais sombreadas), então o dicromatismo deveria estar fixado. Então ambos são igualmente vantajosos? Vejamos.

Na situação em que não há vantagem relativa, teríamos uma neutralidade efetiva. Isso resolveria o problema da fixação pela seleção. No entanto, o tamanho populacional dos saguis é limitado. Sua área de distribuição total é de cerca de 230 mil km2 (Fig. 1). Se considerarmos que eles se distribuem homogenamente por essa área e aplicarmos uma densidade média de 3,5 indivíduos/km2 (São Bernardo & Galetti 2004) teremos um total de aproximadamente 800 mil indivíduos. Esse número está certamente superestimado - os animais não devem se distribuir por toda a área do mapa.

Figura 1. Área de distribuição de sagui-de-cara-branca (Callithrix geoffroyi): +. Fonte: Grelle & Cerqueira 2006.

Mas tomando esse número de 800 mil, eles vivem em bandos de 8 a 10 indivíduos, com um casal dominante - apenas o casal se reproduz no grupo. Isso faz com que o tamanho da população efetiva seja de cerca de 200 mil indivíduos. Isso faria - usando cálculos de probabilidade de perda de mutações neutras - que em cerca de 30 gerações, a variante tricromática fosse perdida. Os saguis-de-cara branca maturam em cerca de 1 ano e meio e vivem cerca de 10 anos, com o sistema do casal dominante (os demais indivíduos terão oportunidade de se reproduzir quando o casal dominante morrer - ou quando fundarem seu próprio grupo) - em pouco menos de 300 anos haveria de se perder o polimorfismo visual entre os saguis.

A existência atualmente do polimorfismo poderia ser explicada - sob o modelo neutro - se a mutação for relativamente recente: não houve tempo ainda para nenhuma das variantes se fixar. Mas 300 anos são pouco tempo. Então teremos que assumir que na origem o tamanho efetivo da população fosse muito menor (o que não é um absurdo de se pensar - especialmente se voltarmos ao tempo muito anterior ao surgimento dos saguis-de-cara branca, na época de um ancestral em comum de vários macacos do Novo Mundo) ou uma mudança no regime seletivo ao longo do tempo.

Temos, em suma, algo ainda não muito bem entendido na evolução e manutenção do polimorfismo visual nos saguis - e nos demais primatas.

A história é ainda mais complicada pelo fato de se detectar o tricromatismo também em lêmures (Leonhardt et al. 2008), isso pode significar que a visão tricromática seja ainda mais antiga e que várias linhagens a tenham perdido ou que tenha sido adquirida várias vezes de modo independente. Como nos macacos antropóides os genes dos três pigmentos visuais ocupam lugares distintos no cromossomo X, enquanto que nos macacos do Novo Mundo, os genes de dois dos três pigmentos ocupam uma mesma posição cromossômica (loco gênico) - ou seja, são alelos, é mais provável que tenha havido pelo menos dois eventos independentes de surgimento da visão tricromática entre os primatas. O fato de nos macacos do Novo Mundo dois genes serem alelos faz com que apenas indivíduos que sejam heterozigóticos possam ser tricromatas - para isso é preciso ter dois X, ou seja, apenas fêmeas podem ser tricromatas (uma boa revisão da genética e evolução da visão tricromática em primatas é encontrada em Surridge et al. 2003).

*Verso de sucesso de Cyndi Lauper.
Upideite(27/out/2009):
**O complicador é que os tricromatas nos macacos do Novo Mundo são fêmeas heterozigóticas. Na verdade, pode estar a atuar uma seleção favorável ao heterozigoto, que propiciaria uma seleção balanceadora - como no caso dos alelos da hemoglobina em regiões com malária endêmica.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O papel do CO2 nas mudanças climáticas‏

Enviei o email abaixo ao Observatório da Imprensa

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O papel do CO2 nas mudanças climáticas‏
De: Roberto Takata (rmtakata@xxxx)
Enviada: terça-feira, 20 de outubro de 2009 9:57:23
Para: canaldoleitor@xxx

Prezados Senhores,

Tendo em vista o artigo "A MÍDIA E O CO2: Toda unanimidade é burra publicado"[0] no Observatório da Imprensa, gostaria de informar que há nela um grande número de erros fatuais e de interpretação.

Seria trabalhoso listar todos, abaixo relaciono alguns:

1) Não existe a tal "camada de gases de efeito estufa". Os gases de efeito estufa distribuem-se, por efeito da dinâmica da atmosfera, mais ou menos uniformemente por toda a troposfera. Exceção é o ozônio - que se forma pela ação dos raios UV sobre moléculas de O2 - que se concentra na chamada camada de ozônio.
2) De fato o elemento carbono é essencial à vida como a conhecemos. O que isso tem a ver com o caso não consigo pensar. Se é uma sugestão de que, por ser esencial à vida, então qualquer composto que o contenha pode estar presente em qualquer quantidade que será boa à vida, então é algo totalmente errado: basta pensar que o CO2 em excesso acidifica o sangue - situação conhecida como hipercapnia - sendo bastante danoso à saúde.
3) De fato, se não houvesse efeito estufa algum, a vida na Terra não seria possível. Novamente, não sei a que lugar se quer chegar. Se for uma sugestão de que qualquer nível de efeito estufa será benéfico, basta pensar no forno que é o planeta Vênus com seus mais de 460oC de temperatura superficial média.
4) De fato, o CO2 perfaz apenas cerca de 0,3% da troposfera em massa. Ocorre que nem o N2, nem o O2 - principais componentes - apresentam efeito significativo ao aquecimento global, além de suas concentrações permanecerem essencialmente inalteradas. O fato da concentração de CO2 ser pequena, *não* quer dizer que seu efeito seja insignificante. Ao contrário, não fora esses 0,3% de CO2, a temperatura superficial média da Terra seria muito abaixa: sem os chamados gases estufa, a temperatura média do planeta seria de -18oC e não de +14oC. [1]
5) Fazendo uma conta simples: se 60% do carbono é capturado pelas algas e 40% pelas florestas, teremos 100% de captura de CO2 e não deveríamos detectar aumento de sua concentração na troposfera. Mas detectamos um aumento acentuado em sua concentração: desde 1960, subiu de cerca de 315 partes por milhão (ppm) para cerca de 380 ppm - os tais 20% não em 200 anos, mas em pouco mais de 40 anos. [2]
6) De fato, se não houvesse CO2 não haveria fotossíntese. Mas, mais uma vez, não sei aonde se quer chegar isso. Se se sugere que então qualquer nível de CO2 é bom, novamente lembro a questão da hipercania, p.e.
7) Se 50% do C está fixado na biomassa e 50% no solo, novamente temos 100% de C. Então não haveria nem CO2 na atmosfera, nem haveria hidrocarbonetos, nem seres vivos que não fossem árvores. Mas de todo modo, uma das preocupações principais é exatamente com o desmatamento, que mobilizaria o C fixado na biomassa das plantas.
8) É fatualmente errado dizer que o CO2 na atmosfera está concentrado sobre as cidades e regiões de queimadas. O que ocorre é que ali, a concentração de CO2 é maior, mas não significa que a maior parte do CO2 da troposfera está ali - do contrário, teríamos um ar realmente irrespirável nas cidades. Basta pensar que as cidades ocupam uma área de cerca de 1,2% do total da superfície da Terra [3], significaria que (considerando-se uma espessura mais ou menos uniforme da troposfera) que os 0,3% do CO2 estariam em 1,2% da troposfera. Se assim fosse, a concentração de CO2 no ar das cidades seria de 25%! Uma mistura gasosa com 5% de CO2 é considerada tóxica.
9) "O CO2 não esquenta nada". Se não fossem os gases estufa, como dito, a temperatura média da superfície do globo não seria de 14oC positivos como hoje, mas de 18oC negativos. [1]
10) Ninguém afirmou que o CO2 é a causa única do aquecimento global. E sim que o aumento de sua concentração é um dos componentes principais.

Mas o artigo não é todo demeritório. A necessidade de uso racional de solos e recuperação de áreas degradadas são importantes, não apenas na questão das mudanças climáticas. Na verdade, em relação ao aquecimento global, estudos têm indicado que a conversão de áreas tem um efeito de *resfriamento* - basicamente pelo aumento no albedo [4a,b].

A respeito do aquecimento global antropogênico, escrevi em meu blogue um texto em três partes, mostrando os indícios que suportam essa hipótese [5a,b,c].

[0] http://observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?msg=ok&cod=559JDB005&#c
[1] http://lwf.ncdc.noaa.gov/oa/climate/globalwarming.html#q1
[2] http://www.mlo.noaa.gov/programs/coop/scripps/co2/co2.html
[3] http://www.energy.ca.gov/2008publications/CEC-999-2008-020/CEC-999-2008-020.PDF
[4a] http://climate.uvic.ca/people/katrin/DamonGRL.pdf
[4b] http://ams.allenpress.com/archive/1520-0442/16/10/pdf/i1520-0442-16-10-1511.pdf
[5a] http://genereporter.blogspot.com/2009/04/aquecimento-global-parte-1-de-3.html
[5b] http://genereporter.blogspot.com/2009/09/aquecimento-global-parte-2-de-3.html
[5c] http://genereporter.blogspot.com/2009/10/aquecimento-global-parte-3-de-3.html
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[]s,

Roberto Takata
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Novamente, há vários erros de português que notei depois.
Publiquei acima sem correções.

Upideite(30/10/2009): O texto foi publicado no Observatório. (Leiam também os comentários - não só os desta postagem, como os do texto no OI - Upideite(05/nov/2009).)