SOS - ESPÍRITO SANTO

Como ajudar as vítimas da enchente no Espírito Santo.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Como é que é? - Garota de 12 anos rouba autoria de importante descoberta em biologia marinha?

Uma garota de 12 anos filha de cientista - seu pai, D. Albrey Arrington, é ecólogo de peixes - apresentou em 2012 seu projeto de feira de ciências com resultados que mostravam que o peixe-leão (Pterois sp.) é capaz de sobreviver em águas de baixa salinidade (até 5 g/litro). Vários veículos destacaram o feito e a NPR (rádio educativa americana) não foi nada sutil:

"Sixth-Grader's Science Fair Finding Shocks Ecologists" ["Achado de Feira de Ciências de Alunaos de Sexto Ano Deixa Ecólogos Chocados" - mudado agora para "Sixth-grader's science project catches ecologists' attention": "Projeto de ciências do sexto ano chama a atenção de ecólogos."]

A NBC não ficou atrás:

"Sixth-Grader's Lionfish Science Project Stuns Conservation Experts" ["Projeto de Ciências de Sexto Ano sobre Peixe-Leão Espanta Especialistas da Conservação"]

Nem a CBS:

"Sixth grader credited with scientific breakthrough on lionfish" ["Aluna do sexto ano reconhecida com descoberta surpreendente sobre peixe-leão"]

A tolerância à variação na salinidade tem uma implicação ecológica importante. Duas espécies de peixe-leão: P. volitans e miles - nativas das águas do Indo-Pacífico, estão agora invadindo o litoral atlântico americano (inclusive no Brasil), onde não encontra predadores. Se toleram ambientes de baixa salinidade podem invadir também ambientes de água doce.

Seria mais um belo caso de incentivo às crianças - como a das crianças do primário de Blackawton estudando abelhas mamangabas ou das crianças do quinto ano em Ubatuba-SP planejando lançar um satélite, entre outras -, porém parece que a coisa é meio, como diriam os americanos, "fishy" (yay! trocadilho!). Em sua página no facebook, o biólogo marinho Zachary R. Jud reclama para si a autoria da descoberta*.

"My lionfish research is going viral...but my name has been intentionally left out of the stories, replaced by the name of the 12-year-old daughter of my former supervisor's best friend. The little girl did a science fair project based on my PREVIOUSLY PUBLISHED DISCOVERY of lionfish living in low-salinity estuarine habitats. Her story has been picked up nationally by CBS, NPR, and CORAL magazine, and has received almost 90,000 likes on Facebook, yet my years of groundbreaking work on estuarine lionfish are being completely and intentionally ignored. At this stage in my career, this type of national exposure would be invaluable...if only my name was included in the stories. I feel like my hands are tied. Anything I say will come off as an attempt to steal a little girl's thunder, but it's unethical for her and her father to continue to claim the discovery of lionfish in estuaries as her own.

I'm looking towards you - my valued friends and colleagues - for suggestions on how I might be able to remedy this intentional misrepresentation without doing anything to disparage the little girl. Most of you are aware of the massive amount of time I put into exposing kids to science, and I obviously don't want to do anything to diminish this young lady's curiosity or enthusiasm. I'm thrilled that she chose to look at lionfish for her science fair project, but encouraging an outright lie is poor parenting and a horrible way to introduce a youngster to a career in the sciences.

This picture was taken in 2010, when I first discovered lionfish occupying estuarine habitats - 3 years before the little girl's 'discovery'.
"
["Minha pesquisa sobre peixe-leão está viralizando... mas meu nome tem sido intencionalmente deixado de fora nos relatos, substituído pelo nome da filha de 12 anos do melhor amigo de meu antigo orientador. A garotinha fez um projeto de feira de ciências baseado em minha DESCOBERTA ANTERIORMENTE PUBLICADA sobre peixe-leões vivendo em hábitats estuarinos de baixa salinidade. Sua história vem sendo destacada pela CBS, NPR e revista CORAL, e recebeu quase 90.000 curtidas no facebook, porém meus anos de trabalho de base com peixes-leões estuarinos estão sendo completa e intencionalmente ignorados. Neste estágio de minha carreira, esse tipo de exposição nacional seria valioso... se meu nome fosse incluído nos relatos. Sinto como se de mãos atadas. Tudo o que eu disser parecerá como uma tentativa de roubar o brilho de uma garotinha, mas é antiético que ela e seu pai continuem a clamar para si a descoberta de peixes-leões em estuários.

Peço a vocês - meus valorosos amigos e colegas - sugestões sobre como posso remediar essa representação intencionalmente errada sem denegrir a garotinha. A maioria de vocês está ciente da quantidade de tempo que dedico a expor as crianças às ciências e, obviamente, não quero fazer nada para diminuir a curiosidade e o entusiamos da jovem senhorita. Estou emocionado que ela tenha escolhido o peixe-leão para seu projeto de feira de ciências, mas encorajar uma mentira deslavada é um modo errado de se criar filhos e um modo horrível de se introduzir os jovens à carreira nas ciências.

Esta foto foi tirada em 2010, quando descobri pela primeira vez peixe-leão ocupando hábitats estuarinos - 3 anos antes da 'descoberta' da garota."]

O relato original da NPR dizia: "Lionfish had been found to live in water with salt levels of 20 parts per thousand. But no one knew that they could live in water salinity below that" ["Peixes-leões são encontrados em águas com salinidades de 20 partes por mil. Mas ninguém sabia que poderia viver em salinidade abaixo disso"]. Segundo Jud, o trabalho da garota é baseado em seu achado de que os peixes-leões estavam invadindo o ambiente estuarino - onde a salinidade é bem abaixo da de oceano aberto (Jud et al. 2011). Nesse trabalho, um dos co-autores é o pai da menina. No recente artigo de Jud et al. 2014 sobre a eurialinidade das espécies, a menina é citada no corpo do artigo:

"To address our first objective, identifying the long-term effects of reduced salinity on lionfish survival, growth, and behavior, we exposed fish to a salinity of 7‰ for 28 days in a laboratory setting. We chose this salinity based on our findings from the in situ cage study (above), in situ observations of wild lionfish at 8‰ (Z. Jud, unpubl. data), as well as the results of a small pilot study that showed lionfish could survive and feed at 6‰ for short periods of time (L. Arrington, unpubl. data)."

E nos agradecimentos:

"Acknowledgement This project was made possible by a close partnership with the Loxahatchee River District. Lauren Arrington (King’s Academy, West Palm Beach, FL) conducted preliminary laboratory experiments that helped give rise to our experimental design. We thank Joel Trexler for facilitating our use of Florida International University’s aquarium facilities and Diana Churchill for assistance during the laboratory portion of the study. Research protocols were approved by Florida International University’s Institutional Animal Care and Use Committee (IACUC-13-030- AM01), and a Florida Fish and Wildlife Conservation Commission Special Activities License (SAL-13-1487-SR)." [Trecho destacado sem itálico: "Lauren Arrington (King's Academy, West Palm Beach, FL) realizou os experimentos preliminares em laboratório que ajudaram a moldar nosso design experimental."]

Arrington, o pai, disse ao The Scientist que sua filha leu o artigo de 2011 e assistiu às palestras de Jud e Layman explicando os resultados quando elaborou, por conta própria, o experimento de tolerância à variação na salinidade. (Incluindo a citação ao artigo nas referências da apresentação do projeto na feira de ciências.)

Então, o achado é de quem?

A situação pode ser um pouco mais complicada do que se considerar um caso de simples plágio ou roubo de autoria. Poderia, por exemplo, ser o caso de uma percepção diferente do sentido de propriedade da ideia. Do ponto de vista da garota e de seus amigos e parentes pode ser algo assim: "Eu fiz o experimento, então o achado é meu". Do ponto de vista de Jud pode ser: "A concepção do experimento é minha, então a descoberta é minha". Além disso, o objeto é um tanto distinto. Do ponto de vista da Lauren Arrington: "Eu demonstrei que eles vivem em salinidade de até 6 partes por mil"; do ponto de vista de Jud: "Eu demonstrei que eles devem viver em ambientes com salinidade abaixo de 10 partes por mil e de, pelo menos, até 8 partes por mil". E a ênfase é distinta. Ela: "Eles podem invadir os rios"; ele: "Mostrei que já estão nos estuários."

Mas o papel de como a mídia esteve, até então, relatando o caso é, sem dúvida, relevante na percepção de Jud de que estava sendo escanteado.

Arrington sênior afirma, segundo o The Scientist, que em todos os contatos com a imprensa têm mencionado o trabalho em co-autoria com Jud. O orientador de Jud, Craig Layman, escreveu sua versão da história. Sua conclusão é que muito do problema foi gerado pelo sensacionalismo da imprensa: o trabalho da garota é, sim, uma contribuição original para a ciência (uma demonstração mais controlada do que era observacionalmente sugerido), mas não é algo que tenha chocado a comunidade de ecologia de peixes - afinal, já se sabia que os peixes-leões eram capazes de viver em ambiente com salinidade abaixo da do mar aberto (estuarinos, no caso) (descoberta que alguns relatos da imprensa, como a da NPR, erradamente atribuíram à Arrington, a filha, e que irritou profundamente Jud).

Pelo modo como os veículos estão cobrindo o caso agora:
o sensacionalismo continua. Sobretudo transformando uma demanda pela correta atribuição de créditos em uma acusação de roubo.

O blogue Science Sushi está fazendo a cronologia do caso:


(*via Camila Mano facebook)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como é que é? - É perigoso voar em 17 de julho?

O portal Terra, em razão da queda (por possível abate) do voo MH17 da Malaysia Airlines (a mesma empresa que teve um avião desaparecido entre Kuala Lumpur e Beijing), que fazia a rota entre Amsterdã e a capital malaia, fez um levantamento de outros acidentes na mesma data de 17 de julho nos registros históricos de acidentes aéreos da base de dados da B3A (Bureau of Aircraft Accidents Archives).

"Depois desta quinta-feira marcada pela queda de um avião de passageiros da Malaysia Airlines, na Ucrânia, a dica da redação do Terra é: evite viajar de avião no dia 17 de julho. Isso porque esse acidente que deixou pelo menos 298 mortos já é o quinto desastre aéreo que acontece nesta data, ao longo dos últimos 70 anos."

Nos registros da B3A, há 21.629 acidentes desde 1918. Em 365,25 (considerando-se o dia extra nos anos bissextos), temos uma média de 59,2 acidentes em qualquer data do ano. Cinco quedas acumuladas parecem indicar até uma data excepcionalmente segura. O número total de quedas registradas na base da B3A para a data é de 57 casos (em 17.312 casos que consegui recuperar - média esperada de 47 acidentes e desvio padrão de 10 eventos). Claro, isso inclui os acidentes sem fatalidades. Considerando-se apenas os casos com mortes, são 33 casos para 17/jul (contra média de 27 e desvio padrão de 6); fazendo um corte de mínimo de 25 fatalidades, a média é de 2,7 com desvio padrão de 1,7 - e, para o dia 17/jul, há 7 casos no banco de dados - de todo modo não é o dia mais acidentado: com 9 acidentes, 11/set é a data com mais registros; outros 9 dias no ano também têm 7 ou mais acidentes acumulados (Fig. 1).

Figura 1. Distribuição de acidentes aéreos com 25 ou mais vítimas fatais por dia do ano. Fonte: B3A.

Na Figura 2, temos a distribuição invertida - número de dias do ano de acordo com o número de acidentes registrados com mais de 24 vítimas.

Figura 2. Distribuição de dias do ano por número acumulados de acidentes com 25 ou mais vítimas fatais. Fonte: B3A.

Cerca de 3% dos dias do ano têm 7 ou mais acidentes acumulados no registro. O dia 17 de julho parece estar bem dentro da variação normal esperada.

Upideite(22/jul/2014): Como se espera uma variação essencialmente ao acaso da relação entre data e acidentes (partido-se de alguns pressupostos como não haver grande variação na operação entre os diferentes dias), espera-se que *não* haja associação entre datas com mais acidentes dentro de um dado período e datas com mais acidentes em outro período. Dividi os 1001 casos de acidentes com 25 ou mais vítimas nos registros da B3A em dois períodos - entre 1935 e 1972 e entre 1973 e 2014 - e plotei em gráfico de correlação os números de acidentes em um período contra os números em outro (Fig. 3). Se houvesse correlação, os pontos deveriam se organizar ao longo de uma reta ascendente. Não é o caso.

Figura 3. Correlação entre números de acidentes aéreos com 25 ou mais vítimas entre 1935 e 1972 e ente 1973 e 2014. Fonte: B3A.

É uma análise similar à feita por FiveThirtyEight em relação a companhias aéreas.

domingo, 20 de julho de 2014

"Houston, Tranquility Base here. The Eagle has landed."

A 16 de julho de 1969, propelida pelo empuxo de 34.020.000 N dos motores do Saturn V, a missão tripulada Apollo 11 decolava do Centro de Operações de Lançamento (atual Centro Espacial John F. Kennedy) rumo à Lua. Quatro dias depois, o módulo lunar Eagle pousaria na superfície de nosso satélite natural, com pouco mais de 25 segundos de combustível restantes. Nove horas depois, já no dia 21, Neil Armstrong se tornaria o primeiro ser humano a pisar no regolito lunar - sob olhares atentos de uma audiência global estimada de 600 milhões de pessoas que assistiram à façanha ao vivo (naturalmente, não em HD).

Buzz Aldrin desceria depois. Michael Collins, no módulo orbital Columbia, não teria essa oportunidade. Em duas horas e meia na superfície da Lua, Armstrong e Aldrin instalaram alguns equipamentos científicos como um sismógrafo passivo (pelo que sabemos, não descobriram que a Lua era um ovo gigante de monstro devorador de montanha) e um retrorrefletor - que, refletindo o laser emitido da Terra, permite calcular com extrema precisão a distância até a Terra. De volta para casa, trouxeram mais de 20 kg de amostras de solo e rocha lunares. Deixaram para trás também, além de pegadas, dos equipamentos e da base do módulo de pouso, uma bandeira americana e uma placa com o mapa da Terra e os dizeres:

"Here men from the planet Earth first set foot upon the Moon, July 1969 A.D. We came in peace for all mankind."
["Aqui, homens do planeta Terra pisaram pea primeira vez na Lua, Julho 1969 d.C. Viemos em paz em nome de toda a humanidade."]

Vídeo 1. Aproximação final e pouso do módulo lunar Águia da missão Apolo 11.
Fonte: Wikimedia Commons.

Efeméride na blogocúndia cientófila lusófona:

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Como é que é? - Atividade solar causa AVC?

O bom doutor @Karl_MD brindou-nos com a referência de um artigo muito estranho.

Rosebaum & Weil 2014, brincando com dados da National Inpatient Sample entre 1988 e 2010, encontraram uma correlação (defasada) entre atividade solar (número médio mensal de manchas solares) e a incidência de hemorragias subaracnóideas aneurismáticas (SAH) -derramamento de sangue para dentro das meninges (membranas que recobrem o cérebro) por rompimento de vaso sanguíneo enfraquecido (no caso, por aneurisma) - uma forma de acidente vascular cerebral (AVC).
"When using NIS data to model two 10-year periodic cycles, aneurysmal SAH incidence peaks appear to be delayed behind solar activity peaks (both solar flux and sunspots) by 64 months (95% CI; 56–73 months)."

Correlação não é causação e há muita correlação espúria. Os autores reconhecem que o achado é inusitado, mas sugerem que haja, sim, uma relação causal, por meio do efeito no sistema imunológico.
"We admit that the neurosurgeon may find it unusual to draw an association between solar activity and the incidence of aneurysmal SAH. Nevertheless, there exists an association, in which solar activity (solar flux and sunspots) appears to be associated with the incidence of aneurysmal SAH. As solar activity reaches a relative maximum, the incidence of aneurysmal SAH reaches a relative minimum. The causality of this association is uncertain but may reflect the effects of solar activity on immune modulation, Hrushesky et al. (2011) postulated associations based on UVB irradiation, solar protons, heavy charged particles, geomagnetic storminduced gravitational field changes, fluctuations, and resonance signals. Others have noted similar associations between sunspots and cholera incidence (Ohtomo et al., 2010)."

Estranho que os autores não tenham levado em conta um efeito muito mais simples: a temperatura. Peguei os dados das anomalias mensais médias de temperaturas dos EUA - calculei as médias móveis com janela de 5 meses - e corrigi a tendência de aumento para os períodos entre abril de 1971 e março de 2014, e plotei sobre o gráfico de incidência de SAH no artigo (infelizmente não tenho acesso direto aos dados numéricos) com uma defasagem de cerca de 100 meses. (Fig. 1.)

Figura 1. Sobreposição de gráfico de médias móveis de anomalia de temperatura mensal média (abr/1971 a jun/2000) - azul - e incidência de hemorragia subaracnóidea aneurismática nos EUA (jan/1988 a dez/2010).

Infelizmente não tenho como fazer uma análise estatística - pela falta dos dados numéricos da hemorragia. Mas pelo visual a sobreposição parece ser muito boa.

Um eventual efeito da atividade solar sobre as taxas de incidência de SAH pode ser por variação na temperatura ambiente.

sábado, 5 de julho de 2014

Qual foi a carga sobre as costas de Neymar Jr.?


Em função de uma fratura no processo transverso da terceira vértebra lombar (Fig. 1) após uma trombada por trás com um jogador colombiano, o atacante Neymar Jr. não poderá participar das duas últimas partidas da seleção brasileira na Copa 2014.

Figura 1. Painel superior: Vértebras lombares (vermelho). Painel inferior: detalhes anatômicos de uma vértebra lombar - o processo espinhoso (spinous process) é o que sentimos quando passamos os dedos sobre as saliências no meio das costas; a esses processos ligam-se músculos e tendões que erguem a coluna vertebral em posição ereta e a rotaciona. Fonte: Wikimedia Commons.

A trombada foi feita. Mas qual foi a força exercida para fraturar a porção da vértebra?

Podemos obter (de modo beeem grosseiro) alguns parâmetros cinemáticos e dinâmicos a partir da análise do vídeo. Na Fig. 2 temos três frames da cena do impacto.

Figura 2. Detalhes do impacto sobre Neymar Jr. no jogo Brasil x Colômbia em partida válida pelas quartas de final da Copa do Mundo Fifa 2014. Segmento azul maior: 1,72m. Copirráite das imagens originais: Fifa.

A velocidade desempenhada pelo jogador colombiano foi de cerca de 2,7 m/s (deslocando-se o correspondente a cerca de 1/4 de sua altura - 1,72 m - em ~0,15 s). Sua massa é de 72 kg. O tempo de contato do joelho foi de cerca de 0,1 s. Correspondendo a um impacto com força média de 1.935 N ou 197 kgf (isto é, a força do peso de um corpo de 197 kg).

A força de ruptura média do processo transverso é de 479 ± 235 N.*

Se considerarmos uma área de contato circular de 5 cm de diâmetro e um processo transverso de dimensões de 2,5 cm x 2 cm, teríamos uma força média de 493 N aplicada sobre essa parte da vértebra.

Mesmo descontando os casos de entradas propositais, impactos acidentais podem ocorrer no decorrer das partidas. Seria o caso de se usar joelheiras (ou protetor lombar) como equipamentos obrigatórios?

*Upideite(05/jul/2014): Pelo twitter, @Karl_MD, alerta que esse valor corresponde à vértebra testada sem músculo e sem ligamentos; quando devidamente montada em nosso corpo, a resistência é bem maior. Devemos ter em mente que no cálculo do impacto, a resultante é a força média - o valor da força do pico inicial deve ser bem mais alto também.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Visualização de dados: agora você vê, agora você não vê

Duas buzz words em jornalismo científico e divulgação científica: visualização de dados e storytelling.

Fonte: xkcd.

A imagem acima é bem bacana visualmente. Até ajuda a ver que a superfície da Terra é bem maior do que a de Marte. Mas não ajuda muito a ver se Vênus é maior, igual ou menor do que nosso planeta em termos de superfície: o formato irregular das áreas não ajuda.

Um modo de permitir uma melhor comparação entre os tamanhos das áreas envolvidas seria um gráfico em barra.

Ou mesmo em tabela:
Corpo
Área
(milhões km²)
Terra 510,1
Vênus 460,2
Marte 144,8
Ganimede 87,0
Titã 83,0
Mercúrio 74,8
Calisto 73,0
Io 41,9
Lua 38,0
Europa 30,9
Tritão 23,0
Éris 17,0
Plutão 16,6
Réia 7,3
Caronte 4,6
Ceres 2,8
Vesta 0,8

Mas, se fizerem uma análise de impacto visual e emocional - por exemplo, com pesquisa de opinião, provavelmente a apresentação do xkcd será mesmo a melhor.

Haverá um modo de se ter o melhor dos dois mundos? Uma representação mais artística - esteticamente mais aprazível e emocionalmente mais impactante - e que permita uma leitura mais acurada?

Uma possibilidade seria uma mescla: tornar a figura em mapa interativa, com dados numéricos pipocando com a passagem do mouse sobre ela (não consigo fazer aqui pela limitação do uso de scripts no blogue). Caso não seja possível acrescentar elementos de interatividade - por exemplo, em mídia impressa - poderia se acrescentar rótulos com valores numéricos.

Agora a grande questão: será que funciona? Os textos com que tenho trombado sobre visualização de dados são mais sobre as diferentes técnicas, dicas gerais, como deixar mais bonito... mas não tenho visto nada sobre estudos mais rigorosos sobre os efeitos sobre aprendizagem, retenção de informação, facilidade de contextualização... É a mesma dúvida que tenho em relação ao storytelling. Não há mal em si em tornar dados e informações mais palatáveis, bem ao contrário; mas será que é compatível com uma transmissão com pouca distorção?

E se os fatores que melhorem a percepção, a aceitação, a viralização, atrapalharem a compreensão, a memorização, a análise crítica?

HT: Danilo Abergaria FB.

Upideite(06/jul/2014): @alesscar sugere o livro "El Arte Funcional" de Alberto Cairo.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Comensais das ciências: conceitos satélites às ciências

Filósofos, historiadores, sociólogos das ciências e cia. gastam bastante energia para definir o que são as ciências. Sem consenso. Mas além das ciências em si, uma série de conceitos correlacionados surgem identificando elementos que se parecem com ciência, mas não chegam a sê-lo ou ficam em uma zona cinza entre ciência bona fide e algo claramente não científico.

---------------------
Ciência de borda/marginal (fringe science): "ideias altamente especulativas ou fracamente confirmadasSteven I. Dutch 1982.

Ciência extrapolada (extrapolated science): concepção de estado da arte da ciência e tecnologia de um futuro - imediato ou mais distante -, a partir da extrapolação do desenvolvimento científico e tecnológico atual: especialmente aplicado em obras de ficção científica. Particularmente úteis para essa concepção são relações como a lei de Moore ou a curva de Carlson.

Ciência patológica (pathological science): "não há desonestidade envolvida, mas as pessoas são iludidas por resultados falsos devido à falta de compreensão dos modos como os humanos podem ser desencaminhados por efeitos subjetivos, pensamentos sequiosos [wishful thinking] ou interações limítrofes [threshold interacions]. [...] São coisas que atraem grande atenção. Normalmente centenas de artigos são publicados sobre isso. Às vezes duram por 15, 20 anos e, então, gradualmente desaparecem."
"Sintomas de ciência patológica: 1) O efeito máximo observado é produzido por agentes causativos de intensidade quase indetectável e a magnitude do efeito é substancialmente independente da intensidade da causa; 2) O efeito é de uma magnitude que se mantém perto do limite da detectabilidade ou muitas medidas são necessárias por causa da baixa significância estatística dos resultados; 3) alegações de grande exatidão; 4) teorias fantásticas contrárias à experiência; 5) as críticas são respondidas com desculpas ad hoc inventadas na hora; 6) a razão entre apoiadores e críticos aumenta para algo próximo a 50% e então gradualmente cai no esquecimento." Irving Langmuir 1953.

Metaciência (metascience): "estudo da estrutura lógica das teorias científicas." Pearce & Rantala 1982.

Paraciência (parascience): "sistema pseudocientífico de crenças não testáveis baseadas em ilusão, erro e fraude." Marks 1986.

Protociência, ciência emergente (proto-science, emerging science): "obviamente é uma ciência em statu nascendi. Se sobreviver, tal campo pode se desenvolver eventualmente em uma ciência matuda, em uma semiciência ou em uma pseudociência. Em outras palavras, quando uma disciplina é chamada de protociência, é muito cedo para dizer se ela é científica ou não. Por exemplos: a física antes de Galiley e Huygens, a química antes de Lavoisier e a medicina antes de Virchov e Bernard. Todas essas disciplinas amadureceram rapidamente e se tornaram científicas por completo. (A medicina e a engenharia pode ser chamadas de científicas mesmo que elas sejam mais tecnologias do que propriamente ciências.)Bunge 2006.

Pseudociência (pseudoscience): "usa terminologias científicas, mas não critérios científicos. [...] Não há 'nenhuma linha demarcação bem definida entre ciência e pseudociência, mas a ausência de quadro teórico independentemente testável capaz de apoiar, conectar e explicar as alegações'. (Groove 1986). Nas pseudociências, com frequência é difícil de se falsear uma afirmação, o que significa que é provar que ela não seja verdadeira. 'A virtude das ciências como sistema é que elas podem remover seus erros e o fazem. As pseudociência, não' (Gould 1986). [...] Os três principais pecados das pseudociências em sua [(Derksen 1989)] opinião são: opinião baseada em evidências observacionais insuficientes; imunização [desconsideração de dados contrários] infundada; abdução (abdução = tirar conclusão a partir de coincidências; prática que, como primeiro passo, não é errada em si e é comum nas ciências) infundada.Cornelis de Jager 1990.

Semiciência (semi-science): "disciplina surgida como ciência e normalmente chamada de ciência, mas que ainda não se qualifica totalmente como talBunge 2010.

Transciência (trans-science): "Muitaos dos problemas que surgem no curso da interação entre ciência ou tecnologia e sociedade - p.e., os efeitos colaterais deletérios dos procedimentos científicos - estão ligados a questões que podem ser feitas pelas ciências, mas não podem por elas ser respondidas. Proponho o termo transcientífico para essas questões uma vez que, embora sejam, epistemologicamente falando, questões de fatos e podem ser feitas na linguagem das ciências, são irrespondíveis pelas ciências; elas transcendem às ciências." Weinberg 1972.

--------------
Outros termos para os quais não consegui encontrar uma definição.
Quasiciência (quasi-science), perisciência (periscience).

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O criptoesqueleto da Copa: não é só pelos 3 segundos #robocopa

Já disse antes, sou admirador confesso do trabalho de Miguel Nicolelis - mesmo ele tendo me bloqueado no twitter. Então sou suspeito para falar sobre o exoesqueleto (quase não) apresentado na abertura da Copa 2014 (veja os detalhes nos textos listados abaixo), de todo modo, há algumas críticas que avalio como exageradas ao projeto WalkAgain.

Precisamos ter em mente que os 33 x 10^6 BRL investidos pela Finep no projeto *não* foram só para essa apresentação. A pesquisa segue, o desenvolvimento do BRA-Santos Dumont 1 (e 2, e 3, e 4...) também. Para equipamentos de uso corrente, o prazo estimado por Nicolelis é de 10 anos,

Há, claro, desvios do que foi anunciado inicialmente: a) o sinal usado foi de EEG, não de sinais de implantes cerebrais de microeletrodos; b) o paciente é um adulto, não um adolescente; c) não houve caminhada (embora, segundo o diretor da Finep a coba... o paciente tenha andado); d) não foi um chute no meio do campo logo antes da partida; e) o rapaz não tirou um boné do bicampeão brasileiro da Série B para colocá-lo na cabeça.

Mas isso ocorre rotineiramente em qualquer projeto de P&D. Sempre há problemas não previstos, há a necessidade de se adaptar às circunstâncias que surgem. (A questão de uso de implante cerebral e, especialmente, de um menor de idade sempre foram motivos de ceticismo para mim - duvidava que o comitê de ética permitisse isso em uma fase tão inicial do projeto, ainda mais em demonstração pública, não sei se Nicolelis chegou a apresentar o projeto nesses moldes para o comitê - em entrevista ao SciAm, ele afirmou que o uso de implantes de microeletrodos em humanos ainda demanda pesquisa. Embora, pela inteligência do bom doutor, eu tenha certeza de que o item 'e' foi deixado de lado após uma boa reflexão. Houvera tempo para uma reflexão mais profunda, chegariam à conclusão de que o boné a ser usado seria o do dono do estádio. ) O prazo anunciado por Nicolelis foi desafiador. Propositadamente.

Foi a partir de meados de 2009 que o neurocientista passou a cogitar a fazer a apresentação pública. O financiamento da Finep saiu em janeiro de 2013 (não é a única fonte de verbas do projeto, mas certamente é uma das mais substanciais). Em fins do ano passado, o exoesqueleto começou a ser testado em humanos.

Em um ano e meio, o projeto produziu um aparato mecânico que permite uma pessoa paraplégica caminhar comandando os movimentos por meio de sinais de seu cérebro (captados por uma toca com sensores e processados por um computador) e receber de volta sinais de sensores no aparato. "Realmente naquele momento eu voltei a ter a sensação de andar novamente", disse o voluntário Juliano Alves Pinto (escolhido apenas horas antes da cerimônia de abertura, entre os pré-selecionados que haviam testado o protótipo em laboratório), que pilotou o exoesqueleto BRA-Santos Dumont 1 para uma entrevista à Folha de São Paulo. É mesmo pouco isso?

O objetivo era mostrar o feito para o mundo. Escondido na lateral do campo, longe da apresentação no meio do gramado, e passando só de relance - menos de 3 segundos de tela - foi frustrante. Mas mesmo assim o noticiário internacional registrou e destacou o chute dado com o exoesqueleto.

BBC: Paraplegic in robotic suit kicks off World Cup
Bloomberg: Formidable Brain Makes First Kick of World Cup
CBC: Mind-controlled exoskeleton kicks off World Cup
CBS: World Cup 2014: First kick made by mind-controlled exoskeleton
Clarín: Un puntapié muy especial
CNN: Mind-controlled exoskeleton kicks off World Cup
Die Welt: Mit "Iron Man" sollen Gelähmte wieder gehen
El Comercio: Parapléjico dio play de honor en inauguración de Brasil 2014
El Observador: Brasil 2014: una cerimonia inaugural con críticas y sin exoesqueleto
El Mercurio: Ausencia de exoesqueleto marca largada del Mundial e indigna a los televidentes
El Nacional: El exoesqueleto: autogol de la neurociencia
Het Belang Van Limburg: Verlamde jongen kleurt voetbalfeest
Materia: El exoesqueleto de Brasil,¿un timo?
NBC: 'We Did It!' Brain-Controlled 'Iron Man' Suit Kicks Off World Cup
          Paraplegic to Kick Off Soccer World Cup After Medical Miracle
Neue Zürcher Zeitung: Wissenschaft an der WM: kick-off eines Gelähmten
Repubblica: Brasile 2014, il tiro di un paraplegico inaugura i Mondiali
Univisión: El momento más esperado de la inauguración del Mundial dejó a todos con las ganas
Vozpópuli: La verdad sobre el exoesqueleto del Mundial de Brasil 2014: más espectáculo que ciencia

The Scientist: Paralyzed Man Kicks Off World Cup

KSJ Tracker: Decepcionante saque inaugural por parapléjico em Mundial
La Razón: Mundial Brasil 2014: dos segundos de exoesqueleto
NIH Director's Blog: Neuroscience Research Kicks Off World Cup
Scope (Stanford Medicine): World Cup debut of robotic exoskeleton grounded in more than two decades of scientific research

O tom pessimista é marcado na imprensa nacional e na hispanofônica (seria por influência da imprensa brasileira?), já a anglogermanófona (em especial a americana) é francamente otimista (e tendendo ao ufanismo). Nem sempre a verdade está no meio, mas a minha avaliação do projeto até aqui, neste caso, é intermediária, tendendo ao otimismo, mas sem vê-lo como "milagre", "formidável". É um avanço no aspecto de incluir o feedback sensório. Mas mesmo sem isso já é um pequeno feito de engenharia pelo tempo - 16 meses - e mesmo que não acrescentasse em nada, haver projetos paralelos tem seu valor: se houver patentes, a concorrência tende a evitar que os preços finais sejam exorbitantemente caros; não havendo, projetos concorrentes chegarão a soluções diferentes para o mesmo problema geral, elas poderão ser mescladas para uma solução superior, ou elas pode ser melhores para casos específicos.

Como disse antes, o projeto segue. Foi só um marco - importante - no cronograma. Os próximos passos (com e sem trocadilho) devem incluir a incorporação dos implantes cerebrais (que permitem uma coleção de sinais mais ricos, essencial para um controle mais fino e variado do equipamento), redução do tamanho, aumento da autonomia da bateria...

-----------
Em uma observação secundária, uma das polêmicas em torno da apresentação é sobre a razão dada pela Fifa para que o exoesqueleto ficasse de fora dos gramados: o peso. Algumas críticas a respeito compararam a massa total do paciente+aparelho (~70+~70 ~ 140 kg) com o da bola digital/palco+cantores (provavelmente entre várias centenas de quilogramas a algumas toneladas). Não devemos comparar apenas as massas, mas, sim, a pressão sobre o gramado. Se o exoesqueleto seguramente tem um peso muito menor do que a bola palco, certamente sua base de apoio também é muito menor. Seria o suficiente para exercer uma pressão que pudesse danificar o gramado? Muito provavelmente não. Mesmo desconsiderando-se a lona estendida durante a apresentação de abertura, usada justamente para proteger o gramado. Durante as partidas, é frequente que um jogador suba apoiando-se no ombro de outro. Isso gera pressões sobre o gramado muito mais elevadas do que as que seriam geradas pelo exoesqueleto. Claro, isso gera algum dano ao gramado, mas nada terrivelmente catastrófico. Corridas, saltos e pousos durante o jogo também produzem pressões mais elevadas, com danos relativamente pequenos ao gramado.
-----------

-----------
Considerar que os 33 mi BRL serviram só pra comprar 3 segundos de tela é tão correto quanto dizer que os 150 bi USD da ISS foram usados para produzir o video clipe mais caro da história.
-----------

=======================
Biorritmo - E a ciência passou em branco...
Ciência na Mídia - A polêmica saga do exoesqueleto que apareceu invisível
Contraditorium - Exoesqueleto da Copa - Brasileiro sendo viralata até o osso
Devaneios Biológicos - Copa do Mundo com golaço da ciência (postagem de antes da abertura)
Geek Café - Copa do Mundo e o marco científico de Nicolelis que o Brasil não viu
Herton Escobar - Exoesqueleto toca bola na abertura da Copa
                           Andar de Novo: O que a TV não mostrou
Meio Bit (Carlos Cardoso) - Globo e FIFA dão rasteira em paraplégico
Meio Bit (Caio Gomes) - Robocopa: incrível? Sim. Polêmico? Também.
Papo de Homem - O que o exoesqueleto do Nicolelis diz sobre ele e nós mesmos
Pirulla (videoblog) - Keep walking, Nicolelis
Teoria de Tudo - O espetáculo da ciência
=======================

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Terra Estrangeira

A revista ComCiência, editada em parceria entre o Labjor/Unicamp e a SBPC, deste mês tem como tema a "intolerância". Em parceira com a Tatiana Venancio, fizemos uma reportagem a respeito do racismo (e do racismo no futebol), com edição da Profa. Dra. Simone Pallone. Acabou ficando de fora a parte da xenofobia (que inicialmente eu faria - e a Tati ficaria com a parte do racismo; no fim, ela escreveu sobre o racismo em geral e eu foquei na parte do racismo no futebol), porque não conseguimos a tempo da edição declarações originais exclusivas dos entrevistados sobre o tema. Embaixo reproduzo a parte que fiz sobre o preconceito e intolerância contra pessoas nascidas em outros países (e seus descendentes).

-----------------------------
Era tarde da noite 11 de maio de 2008, grupo de homens armados com tacos de golfe, pedaços de paus, facões e machados avançaram sobre um conjunto de barracos de madeira no distrito de Alexandra, na região nordeste de Johannesburgo, África do Sul. Alguns apontavam: “este é estrangeiro, este não é”. Casas foram queimadas, lojas saqueadas e destruídas. A violência era direcionada a imigrantes de outras partes da África: Malauí, Zimbábue, Moçambique, Somália, Etiópia… Ela se espalhou para outras cidades do país ao longo do mês, em episódio de convulsão social que seria chamada de Distúrbios Xenofóbicos de Maio de 2008 da África do Sul com saldo de 62 mortos, inclusive 21 sul-africanos, e mais de 100.000 desalojados, muitos dos quais tornaram-se refugiados.
Depois disso, o governo nacional instituiu uma série de programas para tentar combater a xenofobia; mas esse episódio foi apenas o ápice de um processo que existia já no início da redemocratização em 1994, e talvez antes, mas os efeitos poderiam ter sido mascarados sob o regime do apartheid. Ataques a imigrantes e refugiados foram denunciados em relatório da Humans Right Watch de 1998. Os esforços das autoridades sul-africanas, preocupadas com a realização da Copa dali a dois anos, parecem ter surtido algum efeito. Pesquisas de opinião encomendadas pelo Programa de Migração no Sul da África mostram que houve uma redução generalizada na visão negativa dos sul-africanos em relação a imigrantes e refugiados, inclusive os ilegais, entre 2006 e 2010.
Na história recente do Brasil não vivenciamos ações de violência explícita contra estrangeiros nessas dimensões. E os casos velados e explícitos de discriminação no futebol, ao contrário do que ocorre na Europa, parecem não ter ligações quanto à nacionalidade das vítimas.
Quando, tomando de empréstimo ao diplomata Ribeiro Couto, o historiador Sérgio Buarque de Holanda empregou o termo “homem cordial” em sua obra maior “Raízes do Brasil” para definir o brasileiro, usou-o no sentido de alguém fortemente influenciado pelas emoções - o coração (cordis, em latim) -, em oposição ao “homem racional, civilizado”. Com o tempo, adquiriu um significado mais positivo, moldando a imagem do cordial como cortês, receptivo, caloroso. Em entrevista com um grupo focal de universitários brasileiros, Szilvia Simai e Rosana Baeninger, pesquisadoras do Núcleo de Estudos da População (Nepo) da Unicamp, verificaram que os estudantes tinham uma imagem do país como receptivo à imigração, do brasileiro como respeitoso aos vários grupos étnicos e raciais com origem em outros países [2012. "Discurso, negação e preconceito: bolivianos em São Paulo”. In: Baeninger, R. (org.) Imigração Boliviana no Brasil. Nepo/Unicamp. 316 pp. Pp: 195-210.]
Essa imagem parece ser partilhada com os estrangeiros. A CNN listou o povo brasileiro como o mais “legal”; a Forbes, o Brasil como um dos 15 países mais amistosos; em tabulação realizada pelo Estadão Dados a partir de uma pesquisa em 65 países realizada por um grupo de institutos de pesquisas, a WIN, o país ficou em 12° lugar entre os destinos mais desejados para os que sonham em emigrar de sua terra natal.
O ideário projetado de povo alegre e receptivo a quem vem de fora, porém, pode ocultar um lado mais negativo. Segundo pesquisa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD realizada entre 2005 e 2006, apenas 9% dos brasileiros concordavam em liberar a entrada de estrangeiros no país, 43% defendiam uma lei de imigração mais restritiva e 45% concordavam com a entrada de estrangeiros desde que houvesse emprego disponível. Uma resistência similar à dos espanhóis e intermediária entre os países pesquisados (23° entre 46 nações).
Em outra pesquisa de atitudes sobre imigração, de 2011, realizada pela Ipsos-MORI, 41% dos brasileiros concordavam que havia imigrantes demais no país (66% dos sul-africanos), 37%, que sobrecarregavam o serviço público (63% dos respondentes na África do Sul) e 38% (contra 64%), que sua presença tornavam mais difícil encontrar empregos - mesmo o total de estrangeiros residentes no Brasil sendo de cerca de 680 mil indivíduos (0,34% da população). Ainda assim, entre os 23 países avaliados, o Brasil foi o que se mostrou mais positivo em relação à contribuição dos imigrantes: 49% concordaram que eles tornam o país um lugar mais interessante e 47%, que sua presença é boa para a economia. 26% e 18% respectivamente entre os sul-africanos têm a mesma opinião sobre os imigrantes.
Nas redes sociais não é difícil de se encontrar manifestações ofensivas e hostis a determinados grupos de estrangeiros. Como o boato de que os haitianos concentrados no Acre formariam um exército mercenário para o governo brasileiro realizar um autogolpe de estado e publicações sistemáticas de denúncias não averiguadas contra médicos cubanos por supostas falhas. Segundo os dados da Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da ONG SaferNet, em 2006, 519 páginas distintas (1% do total) com origem no Brasil foram relatadas como disseminadoras de conteúdos de intolerância contra estrangeiros; em 2013, foram 1.998 IPs (3% do total) - depois de um pico de 2.423 páginas denunciadas em 2009, os valores têm oscilado em torno de 2.000.
Em relatório de 2005, o enviado especial da ONU reportou que os imigrantes latino-americanos no Brasil “se sentem discriminados em suas vidas cotidianas e são vistos e tratados como inferiores, principalmente por causa da imagem negativa retratada pela mídia, a qual os mostra como pessoas criminosas e não civilizadas”. Segundo o relatório, alguns imigrantes parecem ser discriminados pela origem indígena. Em consequência da legislação restritiva, são empregados como trabalhadores ilegais, inclusive em condições análogas à escravidão, têm medo constante da polícia e enfrentam dificuldades de matricular seus filhos nas escolas pela falta de documentação exigida. No relatório de 1995, não havia nenhuma menção a casos de xenofobia.
Simai e Baeninger descrevem as formas retóricas da negação pelos brasileiros da existência de xenofobia/racismo em relação aos bolivianos em São Paulo. Há desde a negação explícita até alegação de desconhecimento sobre o tema, seguida de algum fato que poderia indicar que não existe a xenofobia. Esse comportamento para as pesquisadoras é uma forma de autoproteção: “ao lidar com a realidade, as pessoas recusam vê-la e expressam suas experiências através da negação”, concluem no artigo. Mas também elas, ao contrário da conclusão do relatório da ONU, identificaram um discurso positivo dos bolivianos entrevistados em relação aos brasileiros, ao mesmo tempo em que criticavam os demais bolivianos. Segundo as pesquisadoras igualmente seria um mecanismo de autoproteção: “Para tolerar todos os tipos de desigualdades, a comunidade de imigrantes bolivianos, bem como a sociedade hospedeira brasileira, dão suporte ou racionalizam o status quo, mesmo quando isso contradiz seu próprio autointeresse.
Alex Manetta, então doutorando do Instituto de Geografia da Unicamp e atualmente pós-doutorando da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, analisou como os bolivianos são retratados na mídia brasileira [2012. “Bolivianos no Brasil e o discurso da mídia jornalística”. In: Baeninger, S. (org.) op. cit. Pp: 257-70]. Do mesmo modo como o discurso dos brasileiros em relação aos bolivianos entrevistados por Simai e Baeninger, nossos vizinhos são quase sempre associados a uma situação negativa: trabalhos degradantes, conflitos com policiais e outros imigrantes, tráfico de drogas. “As opiniões formuladas ou sustentadas com base no discurso jornalístico tendem, portanto, a associar os bolivianos à miséria e ao crime, por exemplo, ignorando outros aspectos não veiculados pela mídia e também relacionados à presença de bolivianos no Brasil”, conclui Manetta.
Duval Magalhães Fernandes, da PUC-MG, a pedido do Conselho Nacional de Imigração, do Ministério do Trabalho e Emprego e da Organização Internacional para a Migração, coordenou a pesquisa “Migração Haitiana ao Brasil: Diálogo Bilateral”, para a qual foram entrevistados 340 haitianos vivendo no Brasil. Vários casos de discriminação pelos brasileiros são denunciados pelos haitianos, especialmente de marca racial e agravada pela barreira da língua. “Às vezes nós somos mal vistas por causa da cor da nossa pele. Sofremos de muito preconceito até no trabalho, quando a patroa quer demitir a gente, ela inventou algumas coisas, isso é uma forma de preconceito. O que piora as coisas é que nós não falamos o português direito.” - relata uma haitiana, baseada em Porto Velho/RO, para o relatório.
A imigração de haitianos no Brasil começou em 2010, com não mais do que 200 pessoas. Para 2014 estima-se que haja um total de 50.000 haitianos no Brasil. “Tal fluxo fez com que a percepção da presença dos haitianos fosse vista com alguma desconfiança por certa parcela da sociedade, nesse grupo estando incluídos alguns órgãos da impressa nacional que compararam a chegada dos imigrantes a uma invasão”, diz o relatório.
Essa discriminação não se estende a todos os grupos de imigrantes. No relatório de 2005 da ONU, os membros da comunidade japonesa em São Paulo disseram ser respeitados e estarem muito bem integrado; sendo livres para praticar sua religião e havendo alta taxa (65%) de casamentos mistos.
O fluxo migratório atual de latino-americanos difere da imigração ocorrida nos séculos XIX e início do XX, quando mais de 6% da população era constituída por pessoas nascidas em outros países. Apesar de ser em um número bem menor, dirige-se mais aos grandes centros urbanos - São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Campinas, Porto Velho… “Dessa forma, mesmo que os volumes sejam menores do que em períodos anteriores, esses imigrantes são muito mais visíveis”, explicou Baeninger em uma entrevista ao Jornal da Unicamp. Além disso, o fluxo de imigrantes europeus e japoneses deu-se dentro da política de branqueamento da população, substituindo os escravos negros como força de trabalho nas lavouras, em vários casos com concessão de terrenos para produção. Os sul-americanos e caribenhos, em sua maior parte, vêm por conta própria e, no caso dos haitianos, dependentes de “coiotes” - agentes de tráfico humano - no Peru, que cobram de US$ 1.000 a US$ 12.000 para transportá-los através da fronteira do Brasil, sobretudo entre Peru e Acre.
No estado de São Paulo, os asiáticos - em particular chineses e coreanos - são principalmente empreendedores, abrindo pequenas lojas de confecção e de comércio - as famosas lojinhas de 1,99 -; os sul-americanos - sobretudo os bolivianos, mas também peruanos e paraguaios - ocupam principalmente o nicho de mão de obra em confecções; os haitianos têm substituído os migrantes nordestinos - cujo fluxo a São Paulo tem diminuído - em ocupações nas lavouras e na construção civil, mesmo com qualificação, os haitianos dificilmente conseguem empregos melhores.
Muitos africanos - sobretudo os cabo-verdianos e de outros países africanos lusófonos - vêm para estudar, mas também não estão livres do preconceito. Na Unesp de Araraquara, por exemplo, houve uma ação xenofóbica e racista contra estudantes africanos em 2012: uma parede da Faculdade de Ciências e Letras foi pichada com os dizeres: “sem cotas aos animais da África”.
Na mesma entrevista ao Jornal da Unicamp, Baeninger conclui: “Se não houver um trabalho para que a sociedade receptora entenda a importância dessa migração, a visão negativa pode ser reafirmada.” Medidas como as tomadas pelo governo sul-africano mostraram-se eficazes.

Belo e estranho mundo 4 - Um misterioso devorador de (etiquetas de) tubarões

Um dispositivo de rastreamento fixado em uma tubarão branco fêmea de cerca de 3m nas águas australianos nos apresenta um pequeno mistério.

O aparelho havia sido colocado 4 meses antes de ser encontrado em uma praia, a 2,5 milhas do local em que a tubarão foi marcada. Pelos dados registrados, o rastreador passou por uma brusca mudança de temperatura: de 7°C para 25°C; e de profundidade: desceu 580m e foi liberado depois de oito dias movendo-se entre a superfície a uma profundidade de 100m.

O aumento de temperatura é interpretado como a entrada no sistema digestório de um predador. Alguma criatura teria comido a tubarão e mergulhado. (Vídeo 1.)

Vídeo 1. Misterioso registro de rastreador de tubarão.

A sonda é espetada no dorso do tubarão, não necessariamente indica que o indivíduo foi devorado. Em todo caso, levanto um suspeito. Dica: o capitão Ahab talvez se interessasse.

Ela é mais conhecida como devoradora de lulas gigantes. O Physeter macrocephalus é também notável pelo hábito de mergulhar a grandes profundidades. Costuma alimentar-se a cerca de 400 m sob a superfície, mas pode chegar a mais de 1 km.

Embora os cefalópodos sejam sua principal fonte de alimentos: até 95% de sua dieta em massa, outras coisas também são devoradas pelo leviatã. Inclusive não exatamente comestíveis (com consequências fatídicas). Tubarões não escapam de seu apetite, inclusive gigantes como tubarão peregrino, como registrado por Backus 1956.

A cachalote está presente em todos os mares tropicais, equatoriais e subtropicais - estão ausentes apenas nos polos (Fig 1.); estando, assim, presente também nas águas em torno de quase toda a Austrália - ausente apenas no mar entre a terra dos cangurus, e a ilha de Timor e de Nova Guiné - possivelmente pela baixa profundidade.

Figura 1. Distribuição da cachalote (Physeter macrocephalus)

Outro suspeito. Dica: o capitão de polícia Martin Brody rangeria os dentes e soltaria: "Smile you son of  a  b####". Sim, poderia ser obra de outro tubarão branco. Há registros de que a espécie mergulhe a profundidade de até 1.875 m. Machos cortejam fêmeas na época de acasalamento com todo o carinho seláquio: mordendo-a. Poderia isso ter levado o aparelho a parar em seu interior? Ou poderia ser um ataque de canibalismo. Um tubarão branco seria mais compatível com a temperatura registada de 25°C. A temperatura corporal de uma cachalote é de cerca de 33,5°C, a do tubarão, entre 7 e 14°C acima da temperatura ambiente. (Mas o aparelho pode não ter sido engolido - permanecido na boca em contato com a água do mar.)

Um único episódio de mergulho profundo seguido de uma semana de atividade próxima à superfície também desfavorece a hipótese da cachalote. A baleia passa apenas cerca de 1/4 de seu tempo próxima à superfície, outro 1/4 em mergulhos rasos (menos de 200m de profundidade) e cerca de 1/2 do tempo em mergulhos profundos (mais de 400m de profundidade). Uma baleia acompanhada por telemetria na região do Caribe, em 5 dias, mergulhou 158 vezes, 65 rasos e 93 profundos.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails