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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Especial GR: Microcefalia e zika

Relação de textos sobre a epidemia de microcefalia e zika publicados no GR:

Microcefalia e zika: o Ministério da Saúde precipitou-se em declarar associação?
Entrevista com uma médica geneticista - Lavinia Schüler Faccini
Sai zika: mitos sobre o vírus zika e a microcefalia - 2

Relação de textos sobre epidemia de microcefalia e zika publicados na DCsfera:
Do Nano ao Macro: O que sabemos sobre o Zika?
Rainha Vermelha: Zika vírus e suas complicações
  Zika, patentes, Rockefeller e a diferença entre saber e entender
  Porque a transmissão sexual de zika não é preocupante
Café na Bancada: Zika, dengue ou chikungunya? Prepare o seu Natal!
Dotô, é virose?: Dotô, deu zika?
   Dotô, tô grávida e com medo do zika, o que eu faço?
Nerdologia: Vírus Zika (vídeo)
Coluna Ciência: O mosquito da microcefalia
Canal do Pirulla: Zika: 'brigada' anti-boato
  Zika e boatos zicados
  Zika: Água parada pra combater mosquito???
  Zika é propriedade dos Rockefeller?
Carlos Orsi: Teorias da conspiração: zika, rubéola, microcefalia

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Sai zika: mitos sobre o vírus zika e a microcefalia - 2

Como previsto, mais e mais boatos foram surgindo, e outras bobagens haverão de aparecer ainda; então seguirei atualizando a lista de mitos e esclarecimentos aqui. (O que significa que vou desagrupar alguns mitos que poderiam ser encaixados como submitos de outros que já foram comentados na postagem anterior.)

Antes o aviso necessário:
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NUNCA REENVIE NENHUMA MENSAGEM A SEUS CONTATOS DENTRE AS QUE PEDEM PARA SEREM REENVIADAS.

Mesmo as que parecem bem intencionadas. Em uma corrente, como no telefone sem fio, sempre há alguma coisa que se altera no meio do caminho - pode ser um espírito de porco (bem apropriado para a gripe suína e em linha com a zika), pode ser um erro involuntário. Essa alteração pode ser grave.

Procure informações sempre em fontes confiáveis. (Desconfie até das informações dadas por este blogue.) Não sou especialista na área. Se receberem os mesmos spam/correntes/hoaxes/posts/atualizações/tweets/conteúdos aqui respondidos e forem contra-argumentar, não indiquem esta postagem, usem as referências aqui citadas: OMS, MS, Fiocruz... Procurei trazer informações relevantes, mas posso inadvertidamente ter interpretado erroneamente ou ter tirado do contexto devido.)
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13) O vírus foi criado pela Fundação Rockefeller (fonte: Rainha Vermelha, e-Farsas, Canal do Pirulla)
Embora o vírus tenha sido isolado e descrito por equipe de cientistas ligados à Fundação Rockefeller e a instituição venda amostras da cepa, o vírus foi isolado em 1947 (e a descrição publicada em 1952). A estrutura de uma molécula de ADN só foi descrita em 1953, e só a partir de 1955 é que seriam realizados experimentos que levariam à descoberta da polimerase de ARN. Em 1957, a compreensão da natureza dos vírus, embora avançasse muito, ainda engatinhava.

Isto é, à época da descoberta do vírus zika pelos pesquisadores da Fundação Rockefeller não havia nenhuma das tecnologias de manipulação genética que pudessem levar ao desenvolvimento em laboratório de vírus novo.

Mas aí provavelmente um certo greco-suíço descabelado tem uma palavra para isso: Aliens!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Microcefalia e zika: uma observação sobre os casos descartados

No último dia 27.jan.2016, o MS atualizou os dados de casos suspeitos e confirmados de microcefalia associada à infecção por ZIKV.

São um total de 4.180 casos notificados desde 2015 até o dia 23.jan.2016. Em 270 foi confirmada a microcefalia, das quais em 6 a infecção por ZIKV, em 462 a presença microcefalia foi descartada; outros 3.448 casos seguem em investigação. (Sem contar bem os casosdados de SP, que insiste em não divulgar os casos suspeitos - apenas os que os laboratórios do estado confirmam.)*

Mas mesmo o total dos casos até o momento já descartados é muito superior à média anual registrada entre 2010 e 2014: 156,2 ± 14,7 casos. Só de descartados até o momento temos 2,96 vezes os casos esperados em um ano.

Se a epidemia de microcefalia se deve ao ZIKV - a associação está bem estabelecida, mas não a relação causal, nem a extensão da associação - seria esperado que 90 a 96% dos casos dessem positivo para a presença do ZIKV (por ora apenas 6/270= 2,22% tiveram a confirmação da presença)**,6. Em que se pese o fato de que provavelmente os descartes sejam mais fáceis de se estabelecer do que se confirmar - o que significa que a proporção de casos confirmados deve crescer mais pra frente - mesmo que todas as demais amostras sob investigação deem positivo, teríamos 89% de presença de ZIKV: quase certamente será bem inferior a isso.

A discrepância, então, merece explicação. Há algumas potenciais:

1) Subnotificação pregressa de microcefalias. A subnotificação para várias outras morbidades é bem estabelecida por vários motivos. Com o alerta emitido pelo MS, a varredura por casos de microcefalia tornou-se mais rígida. Mas teríamos uma taxa de mais de 2 para 3 (de 9 em 10, se a proporção de casos positivos de microcefalia confirmados puder ser extrapolada para os que aguardam investigação)** de casos de microcefalia que deixam de ser notificados normalmente? (Fernando Reinach desconfia que a subnotificação seria ainda maior - pela regra dos 2DP, o número de casos anuais esperados seria de 19.250 microcefálicos.)****

2) Casos de falsos negativos para a presença de ZIKV. O vírus, dentro de poucos dias, é combatido pelo nosso sistema imune, de modo que o exame de RT-PCR (que detecta traços de material genético do vírus) só é possível normalmente até o 5° dia após o início dos sintomas. O exame sorológico - que detecta a presença de anticorpos contra o ZIKV - permite saber se o corpo do indivíduo entrou em contato com o vírus (porém como há reação cruzada também com anticorpos para a dengue, muitos casos podem estar sendo considerados de dengue)**. Mas nos dois casos, é preciso que as amostras estejam bem conservadas a pelo menos -20°C. Nem sempre a coleta e o transporte ocorrem em condições ideais. Além disso, a confirmação de ZIKV, por protocolo, dá-se diante da negativação de outras causas (infecciosas ou não) de microcefalia. Mas pode ser que o ZIKV seja co-ocorrente a essas outras causas. P.e., pode haver coinfecção de ZIKV e citomegalovírus, mas nesse caso, a causa é atribuída apenas ao citomegalovírus e o caso é descartado.

3) A causa do surto de microcefalia é, de fato, outra***, provavelmente ainda não conhecida - já que as outras causas possíveis conhecidas foram previamente analisadas e descartadas.

4) Combinação das causas anteriores.

Qual, se alguma, delas é de fato o responsável pela discrepância merece uma análise atenta. Isso parece ter passado um tanto batido pelas autoridades sanitárias e pela imprensa (ou a comunicação disso passou batido por mim - o que não é nem um pouco improvável)5.

*Upideite(03/fev/2016): alterado a esta data.
**Upideite(03/fev/2016): adido a esta data.
***Upideite(03/fev/2016): link adido a esta data.
****Upideite(06/fev/2016): adido a esta data.
5Upideite(06/fev/2016): A reportagem na Nature é de 28.jan.2015, então pelo menos essa passou batido por mim.

6Upideite(09/fev/2016): No boletim do dia 02/fev/2016 com dados atualizados até 30/jan/2016, são 404 casos confirmados 709 descartados: 36,3% de confirmação (contra 270:462 ou 36,9% de confirmação no boletim anterior). Dos confirmados, 17 foram relacionados ao zika: 4,21% dos casos (contra 2,22% no boletim anterior).

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A união faz... vídeos de divulgação científica

Os principais vloggers (e também não vloggers) de ciências do Brasil reuniram-se entre os dias 23 e 24.jan.2015 em Campinas-SP, nas dependências da Estuderia/Numina Labs, para discutirem as estratégias de unificação de seus esforços de divulgação científica.

O grupo está recrutando pessoal de apoio técnico engajado na causa: designers, administradores, editores de vídeo, publicitários/mercadólogos, assessores de imprensa, entre outros. Contatos com: iniciativadoconhecimento@gmail.com ou o perfil do facebook de Vinícius Camargo.


Participantes da reunião de Solvay Campinas. Crédito da foto: CR Dias.

Canais participantes da iniciativa (a lista ainda está incompleta):
Alimente o Cérebro (Devanil Júnior)**
Canal do Pirulla (Pirulla)
Canal do Slow (Estêvão Slow)
Carlos Orsi (Carlos Orsi)* - blog
Ciência Todo Dia (Pedro Loos)
Cultura Científica (Leandro Tessler)* - blog
Discutindo Ecologia (Luiz Bento)* - blog
Dragões de Garagem (Patrick Simões e cia.) - podcast
iBioMovies (Vinicius Camargo)
Matemática Rio (Rafael Procópio)
Nerdologia (Átila Iamarino)
Papo de Primata (David Ayrolla)
Primata Falante (Davi Simões)
Peixe Babel (Camila Laranjeira)
Quer que Desenhe? (Carlos Ruas)
Revista Pesquisa Fapesp (Renata Oliveira do Prado - aquela jornalista da revista).***
ReVisão (Flávio Lico)
Scienceblogs Brasil (Rafael Soares e cia.) - blogs

Outros textos:
Carlos Orsi. Divulgação científica: pequenos detalhesdilemas.

*Upideite(25/jan/2015): adido a esta data.
**Upideite(26/jan/2016): adido a esta data.
***Upideite(27/jan/2016): adido a esta data.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

It's alive, it's alive! 3c

O texto abaixo também estava disponível no site Feira de Ciências, que atualmente encontra-se fora do ar. Ele faz parte da complementação ao texto sobre conceituação de vida.

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Introdução
O METABOLISMO1 é o conjunto das reações físico-químicas2 que ocorrem em um organismo3. Nos organismos atuais tais conjuntos são bastante intrincados com milhares a milhões de reações diferentes interconetadas. As reações têm suas taxas alteradas por estímulos ambientais e também pela taxa de outras reações: pela alteração de fatores como concentração de reagentes, quantidades de catalisadores, ativadores, competidores e inibidores de reação e também por elementos físicos como temperatura e distribuição espacial dos reagentes.

Por meio dessas reações os organismos reagem ao ambiente e às alterações nas condições internas, mantendo um estado interno mais ou menos estável – a homeostase4, 5. Essa estabilidade, no entanto, não é absoluta. As condições internas do organismo não permanecem exatamente as mesmas ao longo do tempo – o ponto de equilíbrio, isto é, o estado em torno do qual as condições tendem a variar, geralmente muda com o desenvolvimento do organismo ou periodicamente: a temperatura corporal média de um animal em hibernação é diferente da do mesmo animal em estado ativo ou a concentração hormonal em plantas adultas certamente é diferente da de plântulas imaturas. (O desenvolvimento orgânico, na verdade, pode ser pensando como a variação do ponto de equilíbrio ao longo do tempo, fazendo com que as características dos organismos mudem ao longo do tempo – seu tamanho, sua concentração interna de sais, seu comportamento e assim por diante.)
Embora os processos de alterações físico-químicas nos organismos atuais tendam a ser complexos, mesmo em alguns sistemas simples (e inorgânicos) podemos perceber essa tendência ao equilíbrio (dinâmico) em respostas a alterações externas e internas – uma reação química simples, por exemplo, pode-se deslocar para um ou outro sentido de acordo com a concentração maior ou menor de reagentes ou produtos; ou ainda um sistema de tampão ácido-base pode contrabalançar (dentro de uma certa faixa de variação) a adição ou subtração de prótons à solução permitindo que o pH varie muito pouco.

As reações que compõem o METABOLISMO podem ser divididas em dois grupos interdependentes:

Catabolismo6 – é o conjunto de reações que degradam as substâncias em componentes menores (ou melhor seria dizer menos energéticos). Geralmente são acompanhadas da liberação da energia contida nas ligações químicas rompidas. Essa energia pode ser perdida para o ambiente ou utilizada em outros processos biológicos – movimento, síntese de compostos, reprodução, crescimento e desenvolvimento.

Anabolismo6 – é o conjunto de reações que produzem compostos e substâncias a partir de componentes menores (ou menos energéticos – muitas vezes as reações não envolvem a união de dois componentes, mas a transformação de um componente em um componente mais energético, como no caso da alteração do estado de oxidação de íons). Freqüentemente vale-se da energia liberada nas reações catabólicas para produzir dos compostos necessários no crescimento e desenvolvimento do organismo – ou pode utilizar-se mais diretamente de fontes externas de energia como no caso da fotossíntese.

Da relação entre os processos catabólicos e anabólicos depende o que ocorre com o organismo. Se os processos catabólicos predominam, o organismo pode se degenerar até sua total degradação – como ocorre no processo de senescência (envelhecimento) – se são os processos anabólicos que predominam, o organismo pode acumular reservas e recursos, crescendo em tamanho, organização e complexidade. Porém os processos anabólicos dependem fundamentalmente dos catabólicos como fonte de energia (e componentes). No caso em que ambos os processos ocorrem em intensidades equivalentes, as condições internas tendem a permanecer mais ou menos iguais.

O catabolismo e o anabolismo são em grande medida processos opostos – o que é produzido por um processo o outro desfaz. Isso faz com que, grosso modo, sejam incompatíveis. Se ambos ocorrerem no mesmo lugar ao mesmo tempo teremos pouco mais do que o trabalho de Penélope ou de Sísifo. É indispensável uma separação desses processos – a separação temporal pode ser obtida por meio de controles que inibem um dos processos enquanto o outro está correndo, a separação espacial pode ser alcançada por meio da compartimentalização. A termodinâmica deve ser consultada.

O METABOLISMO, sendo fundamentalmente um processo de transferência e transformação de energia (vide nota 2), está sob ação dos princípios termodinâmicos. Uma importante implicação disso é que, dado que os processos biológicos dependem dos processos metabólicos, a Vida só pode ocorrer em sistemas ou subsistemas abertos – isto é, que troquem materiais e energia com o ambiente (ou pelo menos que não sejam isolados, que troquem energia com o meio externo). Isso porque se não há troca de energia com o meio, o metabolismo não pode continuar indefinidamente já que as transformações sempre geram uma quantidade de energia na forma que não pode ser utilizada no processo – a energia útil (a que pode realizar trabalho nas condições do sistema) é gradativamente consumida (isto é, transformada em uma forma que não é capaz de realizar trabalho) até que o processo de transformação não possa mais prosseguir.
Os seres vivos devem então se interpor a um fluxo de energia – como a da luz solar rumo ao espaço sideral no caso dos organismos fotossintéticos ou que deles dependem (caso da maioria dos organismos conhecidos). Corte-se o fluxo de energia e, rapidamente, a Vida deixa de existir – como flores no escuro ou pessoas em inanição7. O corte do fluxo não precisa se dar necessariamente na entrada de energia, pode ocorrer também pelo bloqueio da saída de energia – impeça-se, por exemplo, a dispersão de energia térmica com camadas e camadas de material isolante e em um tempo bem curto atingiremos uma situação bastante crítica8.

Embora o METABOLISMO seja essencial para os processos biológicos, certos organismos em condições especiais podem suspender suas atividades metabólicas, retomando-as quando as condições lhes forem mais favoráveis – essa capacidade de retomada das atividades metabólicas e das demais atividades biológicas depende da preservação de sua estrutura interna9. Para a maioria dos casos, no entanto, a cessação das atividades metabólicas significa a morte. Um leve asteísmo está presente neste fato: embora seja extremamente embaraçoso aos biólogos a incapacidade de se dar uma definição de Vida(vide "O que é Vida?"), podemos definir a morte de um organismo como a cessação irreversível de seus processos metabólicos.


Notas
Nota1: do grego metabolê, ês (metá 'para além de' + bálló 'lançar, jogar') 'transformação; mudança de natureza, caráter ou costume'. Noção que surge em outros vocábulos como a-hemi- e holometábolo, referindo-se à condição de certos organismos – notadamente insetos – de passarem ou não pelo processo de metamorfose (uma transformação em sua constituição física), ou metábole, figura de linguagem que consiste na repetição das mesmas idéias, apenas com palavras diferentes, ou a repetição das mesmas palavras com alteração na ordem.
Nota2: em uma definição mais ampla, o metabolismo pode ser entendido como o conjunto de transformações energéticas que ocorrem em um sistema físico e as alterações físicas que causam essas transformações, acompanham-nas ou delas decorrem – nesse sentido, poderemos falar até mesmo de metabolismo de geladeiras e estrelas. Uma definição ainda mais ampla seria o conjunto de operações realizadas sobre elementos de um sistema – aqui, sistemas abstratos como programas de computadores (mesmo desconsiderando-se a questão do hardware) ou mesmo uma equação matemática podem ser acusados de ter metabolismo.
Nota3: 'no organismo' - por vezes, tais reações podem ocorrer também fora do organismo: algumas espécies iniciam sua digestão extracorporalmente, como as das aranhas – cujo veneno injetado na vítima digere seus tecidos, permitindo ao predador apenas sorver a massa liqüefeita.
Nota4: Termo criado pelo fisiologista americano Walter Cannon (1871-1945), cunhado sobre o grego hómois, a, on 'semelhante, de mesma natureza' e stásis, eós 'estabilidade, fixidez'.
Nota5: Não deixa de ser irônico que por meio do metabolismo (essencialmente uma transformaçãomudança nas condições) se obtenha a homeostase (essencialmente uma permanência das condições internas). Ainda que possamos ver uma ironia – certamente involuntária – nisso, não chega a ser um paradoxo. Lembremo-nos da passagem de "Alice do outro lado do espelho" de Lewis Carrol, em que a Rainha de Copas diz para Alice: "É preciso correr o mais rápido que você puder para ficar no mesmo lugar!" ou do ato de baldear a água para fora de uma canoa furada ou da expressão "enxugar gelo" – como o ambiente interno e o externo tendem a se alterar com o tempo (ver no texto principal a questão sobre as implicações termodinâmicas do metabolismo), as transformações metabólicas, em muitos casos, atuam no sentido de contrabalançar essas alterações.
Nota6: "Catabolismo" e "anabolismo" – dos gregos katá 'para baixo' e aná 'para cima'.
Nota7: A energia útil que mantém o processo varia de sistemas para sistema. Apesar das alegações em contrário, para humanos é inútil a simples presença de energia na forma luminosa – assim como para um carro à gasolina, energia elétrica não serve; não estamos aparelhados para utilizar diretamente essa fonte de energia. Para nosso organismo, a energia deve estar na forma de ligações químicas de compostos orgânicos como açúcares e gorduras.
Nota8: Tal bloqueio impede o funcionamento de outros sistemas além de organismos individuais. Vide o que acontece com uma cidade que sofre com uma greve prolongada dos coletores de lixo.
Nota9: "depende da preservação de sua estrutura interna" – Assim, o sonho da ressuscitação após o congelamento do corpo permanece bastante distante, a despeito das promessas de algumas empresas, pois o processo de congelamento de um volume tão grande quanto o humano não é rápido o bastante para se evitar a formação de cristais de gelo maiores – que rompem a integridade das células.
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sábado, 9 de janeiro de 2016

It's alive, it's alive! 3b

O texto abaixo também estava disponível no site Feira de Ciências, que atualmente encontra-se fora do ar. Ele faz parte da complementação ao texto anterior de conceituação de vida.

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Introdução
A replicação de um elemento ou fator (organismo, objeto, símbolos, sistemas, etc.) nada mais é do que a produção de novas cópias, mais ou menos idênticas ao original. A auto-replicação é um processo de replicação eliciado pela presença do original: isto é, a presença de um original é uma condição necessária para a produção de cópias. A reprodução é um tipo especial de auto-replicação1, na qual, não apenas novas cópias são produzidas – com o processo requerendo a presença do original -, como informações genéticas são também replicadas do original para as cópias – ou seja há herança2.

Replicação
Imaginemos um elemento A que é produzido a partir de outros elementos: B, C e D. E imaginemos que, ao lado de A, são também produzidos os elementos: E e F.
B + C + D  A + E + F   [1]

O processo [1] é o processo de produção de A – e também de E e F (considerados subprodutos, quando analisamos o processo com ênfase em A). A repetição de [1] leva a mais produção de A (e de E e F) – levando à uma replicação de A (e de E e F). B, C e D são insumos do processo [1] e A, E e F são produtos desse processo.
Imaginemos agora que C=E:
B + C + D  A + C + F   [2]

Consideremos ainda o processo abaixo:
B + D  A + F   [3]

Se o processo [3] não é possível ou ocorre a uma taxa menor do que [2], o elemento C é dito facilitador3do processo [2]: a produção de A e F a partir de B e D. O C é um elemento necessário para a ocorrência de [2] (ao menos a uma certa taxa), mas não é consumido nesse processo (aparece tanto no termo à esquerda, quanto à direita da seta do processo)4.

Auto-replicação
Imaginemos agora           A=D=F (CE):
B + C + A  A + E + A   [4.1]

Ou reescrevendo:
A + B + C  2A + E   [4.2]

Consideremos o processo abaixo:
B + C  A + E   [5]

Se o processo [5] não é possível ou ocorre a uma taxa muito menor do que [4.2], a presença de A é necessária, o que a torna um insumo, mas ela não é consumida (está presente nos termos à esquerda e à direita da representação do processo), o que faz de A um facilitador. Mas A também é um produto do processo: não apenas o A inicial está presente no termo à direita, mas um A extra. Nesse caso temos uma auto-replicação: há um aumento no número de cópias e a presença do original é requerida.

Numa reação química, os insumos (exceto os facilitadores) são chamados de reagentes, os facilitadores são chamados de catalisadores. Em termos químicos, um auto-replicante equivale a um composto que catalisa a reação de sua própria produção – o processo é chamado de autocatálise. Um exemplo é a tripsina no estômago: a tripsina é formada pela quebra de uma cadeia de tripsinogênio, essa quebra, por sua vez, pode ser catalisada pela própria tripsina. Uma certa quantidade de tripsinogênio, então, gera inicialmente uma pequena quantidade de tripsina. Essa tripsina gerada atua sobre o tripsinogênio restante, acelerando a quebra, liberando mais tripsina. Com uma maior quantidade de tripsina, a quebra do tripsinogênio é acelerada. E o ciclo rapidamente aumenta de velocidade até que todo ou praticamente todo o tripsinogênio seja quebrado. A partir daí a reação cessa. Esse é também o processo de geração de príons – proteínas modificadas ligadas a certas doenças como o mal da vaca louca – que atuam sobre proteínas normais presentes em nosso organismo, gerando mais príons.

Notas
Nota1: "A reprodução é um tipo especial de auto-replicação..." - nem todos os autores seguem a terminologia aqui empregada. Boa parte entende a replicação ou a auto-replicação simplesmente como o nome que se dá à reprodução de organismos mais simples – bactérias, arqueas e vírus – ou de moléculas e sistemas como vírus de computador e memes. Outros tratam os termos como sinônimos.
Nota2: "...ou seja há herança" – na reprodução há dois componentes, o computador universal e o construtor universal (conforme a denominação de von Neumann). Em termos biológicos: o genótipo e o fenótipo; em termos computacionais: o software e o hardware. O primeiro componente dirige as ações do segundo, que produz cópias dos dois componentes.
Nota3: Por outro lado, se o processo [3] ocorre a uma taxa maior do que o [2], diz-se que C é um elemento inibidor.
Nota4: Isso, claro, considerando-se a produção de A e F. Sob o ponto de vista de C, o processo [2] pode ser na verdade um processo de replicação de C envolvendo a destruição do original. Nos casos que não envolvem reprodução (ver nota 1) ou a reprodução é 100% fiel, os processos [2] e [3], do ponto de vista de C, são indistinguíveis. Se houver reprodução de C, no entanto, e a taxa de fidelidade for menor do que 100%, os processos [2] e [3] serão distintos.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

It's alive, it's alive! 3

Já tratei do tema de definição da vida no GR em outras ocasiões. Volto ao tema porque o sítio web Feira de Ciências, do saudoso prof. Luiz Ferraz Netto, parece estar fora do ar - não sei se em caráter temporário ou permanente - lá eu havia contribuído com uma série de textos sobre biologia e conceituação de vida.

Reproduzo abaixo o texto inicial em que eu discuto o que é vida (inspirado e baseado em boa medida no texto "Life is..." do jornalista Bob Holmes publicado na New Scientist na edição de 13 de junho 1998).

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O que é vida?

Introdução
Em sendo a BIOLOGIA o ramo das Ciências que estuda os seres vivos, seria de se esperar que a definição de VIDA – o objeto final de estudo do campo – fosse um pré-requisito para todas as pesquisas da área.

Não é, contudo, exatamente o que ocorre. Não existe uma definição universalmente aceita pelos biólogos do que seja VIDA, ainda assim eles não hesitam em estudá-la: e até mesmo em procurá-la em outros cantos do universo. Mas como estudar algo que não se sabe o que é?

Pode parecer um tanto paradoxal – e, de fato, não deixa de ser – porém, de outro lado, estuda-se algo justamente para se descobrir o que o objeto estudado é (quais as suas características, o que faz, como surgiu, do que é feito, etc.). Além disso, independentemente de uma definição precisa, sabemos desde criança que um cavalo é um ser vivo, mas um livro não – assim, os biólogos podem contornar, ao menos parcialmente, o problema. (Antes de atirarmos pedras nos biólogos lembremo-nos de que eles não estão sozinhos nessa delicada situação de lidar com algo que não sabem bem o que é ou, se sabem, não sabem externá-la em palavras. Para embaraçar um físico basta perguntar-lhe o que é matéria, energia ou tempo – elementos básicos em seu estudo dos fenômenos naturais –, um matemático não se sai melhor em explicar o que é um número. E, para além do terreno estrito das Ciências, perguntemos a um literato o que vem a ser poesia ou a um marchand o que é arte afinal de contas.) De todo modo a questão persiste: o que faz então de um cavalo um ser vivo; mas de um livro, um ser inanimado1?

Um problema adicional é que conhecemos apenas um tipo de VIDA, a da Terra. E esse conhecimento é – ainda que bastante detalhado sob muitos aspectos – somente parcial.
A despeito disso diversas tentativas foram feitas. E, a partir dos estudos das formas de VIDA como a conhecemos, algumas propriedades em comum podem ser levantadas. Alguns conceitos-chave que precisam ser levados em conta para a definição de VIDA são: auto-replicação, metabolismo (homeostase/entropia/auto-organização), delimitação (compartimentalização/individualização) e evolução/hereditariedade.

Auto-replicação
Uma característica marcante dos seres vivos é a sua capacidade de se reproduzir, isto é, induzir a formação de cópias de si mesmo a partir de elementos tomados do ambiente. De todo modo ela não pode ser considerada a propriedade distintiva dos seres vivos ou, no mínimo, teremos problema se a considerarmos isoladamente: se definirmos seres vivos como entidades auto-replicantes, robôs programados para construir robôs iguais a si em uma linha de montagem teriam que ser considerados vivos; além disso, mulas, provectos senhores e eunucos não seriam seres vivos dada a sua incapacidade reprodutiva. (Para ver mais.)

Metabolismo (homeostase/entropia/auto-organização)
O metabolismo é o conjunto de reações químicas que ocorrem no interior do organismo (por vezes, no exterior também) que mantém mais ou menos estáveis as condições internas do organismo (homeostase). Através do metabolismo o organismo obtém energia utilizada em seu crescimento e reprodução, transformando os compostos que absorve do ambiente e incorporando-os em sua estrutura – com isso os seres vivos são capazes de manter uma organização interna indefinidamente (auto-organização)2. Os seres vivos são redutores puntuais de entropia (uma medida de desordenação de um sistema3) – isto é, eles diminuem ou mantêm o seu grau interno de desorganização, desorganizando ainda mais o ambiente em que estão. O metabolismo, porém também apresenta restições como marcador do que seja VIDA. Uma geladeira realiza algo análogo ao metabolismo: mantém sua entropia interna mais ou menos inalterada (mais frio dentro do que fora), consumindo energia (a elétrica proveniente da tomada) e aumentando a entropia do ambiente (o radiador lança constantemente a energia térmica resultante para o ambiente); uma chama de vela também mantém a sua organização interna às custas da organização do ambiente. Por outro lado, organismos debilitados pela idade avançada ou tomado por uma doença terminal estão perdendo a batalha para a entropia – seu organismo está em franco processo de degeneração – mas ainda não os consideramos mortos. (Para ver mais.)

Delimitação (compartimentalização/individualização)
Os seres vivos são fenômenos localizados, isto é, ocupam uma região limitada do espaço. E também são distintos do ambiente em que estão. Isso permite manter um ambiente interno, onde podem manter e concentrar os elementos que capturam do ambiente externo: nutrientes, por exemplo – impedindo que se percam dispersos no meio ou sejam utilizados por outros. Permite também a formação de um ambiente mais propício aos processos que os mantêm, por exemplo, otimizando as reações químicas com concentrações adequadas de reagentes. Todos os organismos vivos que conhecemos possuem uma delimitação de natureza física – os seres vivos são baseados em células, tendo nelas a sua unidade morfológica e funcional, delimitadas por uma membrana formada por uma camada bilipídica que as separa do meio externo – mesmo os vírus, seres acelulares (são basicamente uma capa de proteína envolvendo um pedaço de ADN ou ARN), funcionam apenas dentro de células (são parasitas intracelulares obrigatórios, fora delas ficam inertes a ponto de alguns biólogos não o considerarem seres vivos de fato). A delimitação certamente não define um ser vivo, porém. Um carro é delimitado, sendo distinto do ambiente em que se encontra.

Evolução
A auto-replicação faz com que os organismos produzam cópias de si mesmo. Porém, as cópias não são sempre idênticas. Há sempre, por mais baixa que seja, uma taxa inerente de erro no processo. As novas variantes podem ser eliminadas então pela seleção natural – caso a alteração signifique a produção de uma característica desvantajosa ao indivíduo – ou permanecer na população ou até mesmo prosperar. Porém definir VIDA como um processo de evolução (particularmente por seleção natural) pode ser um pouco complicado: vírus de computador são capazes de produzir cópias alteradas de si mesmo (normalmente as variantes produzidas por acaso são as que mais danos causam ao funcionamento do computador), alterações que podem garantir uma maior capacidade de proliferação (produzem cópias mais rapidamente ou que escapam ao programas antivírus) e com isso ocorrer uma evolução da população desse tipo de vírus. Serão tais programas seres vivos? Alguns biólogos estão prontos para achar que sim e não apenas vírus de computador, como também idéias que passam de uma mente para outra e se multiplicam e mudam ao longo das gerações, muitos outros, contudo, torcem o nariz para tal concepção. (Para ver mais.)

Bibliografia
El-Hani, CN & Videira, AAP (orgs.) 2000 O que é vida? – para enteder a Biologia do século XXI. Rio de Janeiro, Faperj/Relume Dumará, 311 págs.
Holmes, R 1998 Life is... New Scientist (13 jun). http://www.newscientist.com/hottopics/astrobiology/lifeis.jsp (link quebrado)
Margullis, L & Sagan, D 2002 O que é vida? Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 289 págs.
Schrödinger, E 1997 O que é vida? – o aspecto físico da célula viva seguido de Mente e matéria eFragmentos autobiográficos. São Paulo, Unesp, 192 págs.

Notas
Nota1: "inanimado". A palavra remete a anima, palavra latina significando alma. Se o inanimado – desprovido de alma – contrasta com os seres vivos, a idéia original era a de que a Vida representava a posse da alma. A Vida seria uma propriedade especial a diferenciar os seres vivos da matéria comum como pedras, água, terra, ar... Esse princípio desenvolveu-se nas idéias vitalistas de certos sistemas filosóficos antigos, casando-se com o ponto de vista de diversas religiões. Nas Ciências foi progressivamente perdendo terreno, tendo início com o surgimento da visão mecanicista do mundo (como os seres vivos não passando de autômatos – sistemas físicos obedecendo simplesmente às leis naturais, como um complexo relógio que pode ser reduzido e explicado pelo funcionamento de suas engrenagens – na visão de Descartes, embora ele ainda reservasse uma posição privilegiada aos seres humanos – que ainda possuiriam uma porção intangível) e fortemente abalada com a síntese inorgânica – por reações químicas ordinárias fora do corpo dos seres vivos a partir de substâncias comuns – de compostos tidos como possíveis de serem produzidos apenas pela ação direta do princípio vital: como no experimento de Wöhler em 1828 produzindo uréia pelo aquecimento de cianato e sal de amônio.
Nota2: À primeira vista isso pareceria contrariar a segunda lei da termodinâmica – a lei descreve o princípio fundamental de que em sistemas isolados as transformações tendem a ocorrer do estado menos provável para o mais provável ao longo do tempo. Se deixado à própria sorte nas condições do meio em que viçam as árvores, um pedaço de madeira tende a se desfazer em pequenos fragmentos (mesmo se as bactérias e outros organismos decompositores não estivessem no local, a madeira aos poucos iria se desfazer – embora levasse muito mais tempo), o mesmo com um naco de carne de vaca largado no meio de uma pastagem. Não obstante a árvore viva está sempre a produzir mais madeira, a partir basicamente de gás carbônico e água, incorporando-a em seu tronco e a vaca a produzir as fibras musculares de sua carne a partir do capim e da água. No entanto os seres vivos não são sistemas fechados, eles trocam matéria e energia com o ambiente. A árvore e o gado mantém ou aumentam a sua organização interna, lutando contra a tendência natural da desagregação de suas partes, aumentando a desordem do meio em que vivem – se considerarmos o sistema árvore/ambiente ou vaca/ambiente, aí sim perceberemos que esse sistema segue o previsto pela segunda lei da termodinâmica. Embora a madeira e o pedaço de carne também não seja sistemas isolados, neles não ocorrem os processos que substituem as porções perdidas como ocorriam no interior dos organismos de onde vieram.

Nota3: "uma medida de desordenação de um sistema". Ordem é um conceito intuitivo e tem a sua utilidade na compreensão da entropia. Mas pode ser enganoso. Não devemos entender ordem estritamente como um estado de disposição organizada, simétrica, coordenada. Tem mais a conotação de um estado particular, uma dada disposição específica. Se pensarmos em um quarto, a nossa noção de um quarto ordenado se casa com a noção de ordem entrópica na medida em que apenas um conjunto restrito de disposição das partes será considerado um quarto bem arrumado: as roupas e meias dentro das gavetas, as gavetas todas fechadas, o colchão sobre a cama, o lençol sobre o colchão e estirado, a fronha cobrindo o travesseiro e assim por diante. Uma meia fora da gaveta é um elemento de 'desordem' – quer em cima da cama, sobre a escrivaninha, em baixo do armário, sob o travesseiro, etc. Há então mais disposições diferentes que consideraremos 'desordem' (quarto desarrumado) do que 'ordem' (quarto bem arrumado). Se deixarmos a disposição ao acaso mais provavelmente ela se dará em uma das que consideraremos desarrumada. Devemos despender energia para que o quarto permaneça na disposição que consideramos arrumado. Por outro lado, imaginemos que se cometeu um crime nesse quarto – o lençol foi arrancado da cama, o colchão foi tombado, as gavetas abertas pelo criminoso que procurava alguma coisa e toda revirada, as meias espalhadas pelo chão, o armário escancarado. A cena do crime deve ser conservada para que a polícia possa desvendar o crime: a disposição dos objetos pode revelar se houve luta ou se a vítima foi pega enquanto dormia, qual foi o último lugar em que o assassino fez a sua busca e outras pistas importantes (para saber quem pode ser o assassino ou para, uma vez capturado, saber qual o grau de gravidade do crime cometido pelo assassino – se ele matou a sangue frio ou depois de uma discussão, por exemplo). Nesse caso, mesmo a disposição que consideraríamos arrumada – por nossa experiência do dia-a-dia e por nosso senso estético – não serve, ela não corresponde à disposição equivalente à cena do crime. Essa cena é bagunçada, mas corresponde a um estado particular. E agora qualquer modificação aleatória desfaz essa disposição. Para manter esse estado particular desarrumado temos que empregar energia. A ordem no caso dos seres vivos é uma disposição particular que garanta a eles a capacidade de explorar o ambiente, dele obter recursos e se reproduzir, por exemplo – a maioria das disposições possíveis dos elementos que compõem um ser vivo em particular resultariam em um ser inviável, sem essas características: se os átomos que nos compõem fossem juntados aleatoriamente dificilmente resultaria em qualquer coisa semelhante a nós.
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domingo, 27 de dezembro de 2015

Minidiretório de podcasts e DC em áudio

Segue uma compilação de podcasts e programas de rádio (disponíveis via web) de DC em português. (Certamente está longe de exaustiva, por isso indiquem nos comentários os que escaparam desta primeira leva.)

Ativos
.Dragões de Garagem
.Eureka Podcast
.Fronteiras da Ciência (UFRGS)
.Ondas da Ciência (Fapemig)
.Oxigênio (Labjor/RTV Unicamp) (só streaming)
.Paideia (UFSCar)
.Pesquisa Brasil (Fapesp)
.Podcast Unesp
.PODEntender - contribuição do Luiz Bento, nos comentários
.Rádio CNPq - contribuição do Luiz Bento, nos comentários
.Rock com Ciência
.SciCast

Inativos
.Dispersando (Scienceblogs Brasil)
.Estúdio CH (Ciência Hoje)

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Sai zika: mitos sobre o vírus zika e a microcefalia

Manterei aqui uma lista de esclarecimentos a respeito de mitos sobre o ZIKV e a microcefalia (procurarei atualizá-la à medida em que surgirem, infelizmente surgirão, mais boatos). A desinformação tende a ser um vírus muito mais letal.

Como no caso da pandemia da gripe H1N1, começam a circular textos/vídeos/áudios, muitas vezes apócrifos, sem nenhum embasamento científico que, se levados a sério, podem causar problemas bastante graves às pessoas.

Repito o apelo que já fiz antes:
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NUNCA REENVIE NENHUMA MENSAGEM A SEUS CONTATOS DENTRE AS QUE PEDEM PARA SEREM REENVIADAS.

Mesmo as que parecem bem intencionadas. Em uma corrente, como no telefone sem fio, sempre há alguma coisa que se altera no meio do caminho - pode ser um espírito de porco (bem apropriado para a gripe suína e em linha com a zika), pode ser um erro involuntário. Essa alteração pode ser grave.

Procure informações sempre em fontes confiáveis. (Desconfie até das informações dadas por este blogue.) Não sou especialista na área. Se receberem os mesmos spam/correntes/hoaxes/posts/atualizações/tweets/conteúdos aqui respondidos e forem contra-argumentar, não indiquem esta postagem, usem as referências aqui citadas: OMS, MS, Fiocruz... Procurei trazer informações relevantes, mas posso inadvertidamente ter interpretado erroneamente ou ter tirado do contexto devido.)
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1) Crianças e idosos com sintomas neurológicos, em especial o coma, devido ao vírus zika, (fonte: BBC)
Segundo a Fiocruz, até o momento não há nenhum registro de crianças, jovens, adultos e idosos com sintomas neurológicos decorrentes do vírus zika. Ainda que não seja algo impossível de vir a ocorrer, nenhum caso foi notificado e muito menos confirmado pelas autoridades de saúde.

Porém, há confirmação da relação entre infecção por vírus zika e ocorrência da síndrome de Guillain-Barré: fraqueza muscular devido a danos no sistema nervoso *periférico* - por um ataque autoimune (isto é, as próprias células de defesa atacam células do corpo do indivíduo).

2a) Inseticidas e repelentes naturais contra o mosquito transmissor do ZIKV (fonte: Bolsa de Mulher)
Inseticidas e repelentes ditos 'naturais' a base de óleo de citronela, cravo, andiroba e outros não têm nenhuma comprovação científica de eficácia e nem têm registro na Anvisa. Há formulações comerciais registradas com fórmulas que contêm tais compostos, porém elas apresentam sempre outro princípio ativo, cuja eficácia e eficiência foram devidamente testadas.

2b) Ingerir ou passar sobre a pele vitamina B afasta mosquitos (fonte: iG)***
Não há comprovação científica de que a ingestão ou aplicação tópica de vitamina B evite que a pessoa seja picada por mosquitos. Estudos disponíveis indicam que não tem efeito: Khan et al. 1969Maasch 1973Ives et al. 2005, entre outros.

2c) Crotalária contra de mosquito (fonte G1)8
Não há nenhum indício de que a Crotalaria spp. tenha efeito de combater o mosquito da dengue pela presença de libélulas que seriam atraídas pela planta.

Diz o documento do Instituto Agronômico de Campinas a respeito da prática:
"A divulgação dessa informação, como prática eficaz e comprovada e considerada por alguns até como de vanguarda é de fato alarmante e irresponsável porque, além da semeadura em praças e farta distribuição de vasinhos com mudas de crotalária, como ações de alguns políticos e de prefeituras do interior dos Estados de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, por exemplo, foram propostos muitos projetos de lei de âmbito municipal, alguns vetados e outros, preocupantemente já aprovados, para incentivo ao cultivo de crotalárias (geralmente de C. juncea), bem como de citronela, muitos deles baseados em justificativas no mínimo, não adequadas, particularmente no quesito comprovação científica."
"Segundo o professor Andrade, 'seriam necessários milhões de libélulas para combater apenas algumas larvas do mosquito'. Informa também que, além de ser uma predadora inespecífica, ou seja, não preda preferencialmente as larvas do Aedes, é raro que as libélulas sejam constatadas em locais onde, também, é comum o mosquito da dengue. Além disso, a libélula faz a postura de seus ovos em grandes depósitos de água enquanto o mosquito precisa apenas de uma gota de água (Lange, 2001)."

2d) Espalhar potes de água e trocar a água três vezes por semana para eliminar o mosquito (fonte: Canal do Pirulla)9
O grande problema é que  medida não foi testada (por exemplo, aplicando-se em um bairro e comparando os níveis de infestação com bairros próximos). É temerária a indicação de medidas de saúde pública sem testes prévios adequados.

Sem testes, no entanto, há elementos que nos fazem suspeitar que a medida traz perigos potenciais.

As pessoas não têm disciplina suficiente para manter a troca da água do pote dia sim, dia não. E uma semana que deixem de trocar, pode ser o suficiente para que as larvas virem pupas e os adultos alados emerjam - do ovo ao adulto o ciclo pode levar cerca de 10 dias.

A população não tem disciplina nem de eliminar os focos de água parada nos quintais - uma fração da população tem, mas outra não - por isso que praticamente todo verão vemos surtos de dengue e outras doenças transmitidas por mosquitos (embora não seja um problema exclusivo do cidadão comum).

"Apesar dos níveis de conhecimento satisfatório em praticamente todos os estudos, foram observados elevados níveis de infestação domiciliar pelo vetor, indicando que as campanhas educativas, embora relativamente eficientes na transmissão de informações, não têm alcançado seu principal objetivo, que é a mudança de comportamento das populações quanto ao efetivo controle dos criadouros do vetor. [...] Duas questões levantadas por esses estudos parecem explicar, na maior parte, a pequena adesão das comunidades às estratégias de eliminação dos criadouros do vetor – as representações sobre o dengue [como algo inevitável, mas passageiro, como gripe] e sobre os riscos associados aos mosquitos; e as dificuldades em evitar a infestação de recipientes domésticos em função de problemas de saneamento nas comunidades. Duas questões levantadas por esses estudos parecem explicar, na maior parte, a pequena adesão das comunidades às estratégias de eliminação dos criadouros do vetor – as representações sobre o dengue e sobre os riscos associados aos mosquitos; e as dificuldades em evitar a infestação de recipientes domésticos em função de problemas de saneamento nas comunidades." (Claro et al. 2004.)

E mesmo que todos realmente trocassem a água a cada dois dias, onde essa água irá parar? Quase certamente no ralo. Aí selecionaremos as linhagens cujas larvas são capazes de completar o ciclo nos esgotos.

Medidas testadas e aplicadas são as campanhas de eliminação de criadouros (inclusive com fiscalização casa a casa), introdução de controle biológico (predadores, patógenos, competidores, técnicas de macho estéril...), controle químico, vacinação e combinações dessas estratégias.

3) A microcefalia causada por agrotóxicos como a 2,4 D (fonte: prefiro não linkar)
Há várias causas de microcefalia: genéticas, infecção por rubéola e abuso de álcool e drogas durante a gravidez., E vários agrotóxicos, incluindo o herbicida 2,4-D, têm efeitos teratogênicos - como entre outros, a microcefalia - comprovados em vertebrados. Porém, o surto atual corresponde a um número de casos mais de 10 vezes maior do que a média dos 5 anos anteriores: de cerca de 150 casos por ano para mais de 1.700 registrados até a primeira semana de dezembro. Não temos um registro de aumento súbito e nesse nível da utilização de agrotóxicos no país: o aumento foi de 700% ao longo dos últimos 40 anos.

4a) A epidemia de zika é invenção para cobrir contaminação de vacina contra rubéola, um plano para reduzir a população mundial (fonte: twitter, Extra**)
A introdução da vacinação para reduzir a população mundial deve ser o plano de conspiração mais ineficiente da história, já que tudo o que a população mundial tem feito desde a introdução das campanhas de vacinação é crescer e crescer muito. Só a vacina contra o sarampo sozinha deve ter salvado algo como 17 milhões de vidas desde o ano 2000.

Há casos de lotes ou linhas de vacinas com problemas - por exemplo, por inativação ineficiente do patógeno ou utilização de um componente que causa alergia -, quando detectado, a utilização destes tende a ser rapidamente suspensa (para os que não acreditam em suspensão humanitária, pode pensar que a continuação do uso pode significar mais casos de processos indenizatórios) - embora o processo de indenização tenda a não ser tão veloz.

O zika, até o momento, está associado a 19 óbitos no Brasil. Seria, novamente, um processo altamente ineficaz de redução da população. Compare-se, p.e., com as mortes por homicídio no país, 53.646 em 2013, ou as 43.800 mortes no trânsito no mesmo ano. É menor até mesmo do que o número de pessoas que morrem por ano atingidas por raio no Brasil: média anual de 111 mortes.

*Embora o vírus da rubéola (RuV) seja uma das causas de microcefalia, as vacinas contra a rubéola (dupla ou tripla viral), contendo vírus atenuados, não são aplicadas em grávidas (mesmo os dados indicando que são seguros também durante a gravidez) - o período crítico da RuV é entre 1 a 3 meses de gestação. O protocolo para relacionar um caso de microcefalia à infecção por ZIKV exclui os principais fatores causadores da má formação: rubéola, citomegalovírus, toxoplasmose... e de síndrome exantemática (manchas vermelhas na pele):; dengue, chicungunha, herpes...

4b) Vacina de HPV responsável pelo surto de microcefalia (fonte twitter)5
O padrão espacial e demográfico também não dão apoio ao mito. Uma grande campanha de vacinação contra o HPV foi iniciada no primeiro semestre de 2014 e em todo o Brasil; se houvesse vínculo, o aumento dos casos deveria se dar entre o fim de 2014 e início de 2015 e não se concentrar nos estados do Nordeste.

Além disso, o público alvo foram meninas de 11 a 13 anos.

5) Mosquito transgênico causou o zika e a microcefalia (fonte: prefiro não linkar)
O ZIKV tem existência registrada há bem mais tempo do que os mosquitos transgênicos. Foi isolado pela primeira vez em 1947, a partir de macaco reso mantido em gaiola como sentinela para detecção de expansão de doenças, na floresta de Zika, em Uganda. Os primeiros surtos maiores fora da África foram detectados em 2007, em ilhas da Federação da Micronésia.

Os primeiros testes com mosquito transgênico no Brasil ocorreram em 2011, em Juazeiro-BA. O surto de microcefalia só ocorreu em 2015. Além disso os municípios com mais casos de microcefalia no Estado são: Salvador (53), Lauro de Freitas (4) e Camaçari (3) - cidades litorâneas a uns 500 km de Juazeiro.

Ou seja, os padrões de tempo e espaço são incompatíveis com a liberação de mosquitos transgênicos estar relacionada com a epidemia de zika e microcefalia.

6) A inexistência de epidemia de microcefalia nos países africanos prova que a zika não tem relação com a má formação (fonte: O Sul)***
Embora não haja registro de epidemia de microcefalia nos países africanos, a incidência da má formação é relativamente alta. Em um estudo com 3.196 recém-nascidos entre 2005 e 2007 no sudoeste da Nigéria, 340 apresentavam microcefalia, isto é, uma incidência de 10.638 casos a cada 100.000 nascimentos - compare-se com a média de 2010 a 2014 no Brasil de 5,38 casos a cada 100.000 nascimentos. Mesmo em situação de epidemia, aqui, por enquanto, a média nacional está em 60,64 casos por 100.000 nascidos vivos. Nessa região da Nigéria, durante o período do estudo, há uma incidência 175 vezes maior do que no Brasil durante a epidemia. Lá, a maior parte dos casos possivelmente tem a contribuição da infecção por citomegalovírus (CMV): virtualmente 100% dos recém-nascidos estão infectados.

Um estudo feito entre 2004 e 2005 com crianças em idade pré-escolar em Kinshasa, República Democrática do Congo, encontrou, entre as 90 crianças controle (sem infecção pelo HIV), 1 caso de microcefalia. Se isso reflete a incidência ao nascer, corresponderia a uma taxa de 1.111 casos em 100.000.

Faltam estudos para saber se alguma fração desses casos deve-se à incidência de zika. Afinal, foi com a epidemia no Brasil que se aventou a possibilidade de associação - portanto, ninguém poderia pensar em pesquisar isso antes. Desconsiderando-se que a microcefalia possa ser uma manifestação nova de infecção por zika - os vírus, ao se espalharem por novas áreas, podem sofrer mutações e, com isso, induzir novos sintomas -, há várias outras possibilidades. Pode ser que a infecção por zika por gestantes em países da África sub-saariana esteja também relacionada a casos de microcefalia fetal, mas esteja mascarado pela alta incidência geral da má formação. Como não parece haver uma flutuação na taxa de infecção por zika nesses países (repetindo que faltam informações para saber o quanto é verdade que realmente não haja essa flutuação), o nível de microcefalia não varia - permanece alto. Pode ser que, como o ZIKV circula há mais tempo por lá, boa parte da população apresente imunidade, não havendo infecção nova entre as gestantes. Pode ser que a relação entre ZIKV e a microcefalia dependa de outros fatores - como infecção pregressa por determinados sorotipos de vírus da dengue.

O motivo exato de não se ter registro de relação entre ZIKV e casos de microcefalia em países africanos ainda precisa ser esclarecido, mas desde já parece claro que não se constitui em prova de que essa relação não possa existir - ao contrário, dados da Polinésia Francesa e do Brasil indicam a associação.

7a) Carência nutricional - como falta de iodo e magnésio na dieta - como causa principal da microcefalia e fator de predisposição à microcefalia associada à zika (fonte: prefiro não linkar)***
A carência nutricional materna - sobretudo durante a gravidez - está associado a casos de microcefalia congênita. Mas não há registro de que tenha havido um surto de deficiência nutricional materna concomitante ao aumento atual dos casos de microcefalia.

A desnutrição também tende a tornar o organismo de modo geral mais vulnerável a infecções. Mas, novamente, não há registro de aumento súbito no nível de desnutrição dos brasileiros nas áreas com epidemia de zika e microcefalia.

Uma população bem nutrida certamente deve ser mais resistente a epidemias do que uma população com carências nutricionais, no entanto, dificilmente deixaria de haver uma alta do número de casos de zika e de microcefalia se, em tudo o mais sendo igual, o brasileiro tivesse acesso a uma dieta mais rica e equilibrada: epidemias de outras doenças como a dengue correlacionam-se muito mais com a população de vetores - no caso, os mosquitos - do que com o estado nutricional geral da população: o brasileiro não tende a ficar subitamente mal nutrido em época de calor e chuvas, quando os casos de dengue tendem a subir muito.

7b) Carência de vitamina D/falta de exposição ao sol como causa/agravante da zika (fonte: prefiro não linkar)8
Os padrões geográficos entre incidência de hipovitaminose D e febre zika não são compatíveis com a hipótese de relação causal entre elas. Se a falta de exposição ao sol tivesse uma influência significativa, então os estados do sul deveriam ser mais afetados do que os do NE.

Um dos textos assume que no Brasil haveria febre zika e não nos países africanos pela diferença de exposição à luz solar, mas não sabemos bem se realmente não há casos da doenças por lá pela falta de dados confiáveis - na epidemia recente, a transmissão autóctone de ZIKV foi registrada em Cabo Verde. Em anos passados, em vários países africanos houve casos reportados de febre zika, como na Nigéria, nos Camarões e na República Central Africana.

Curiosamente, na Nigéria não há registro de maior hipovitaminose D nas crianças com raquitismo, mas há registro de incidência bastante alta (83%) entre as mulheres da etnia fula. Entre as crianças sul-africanas, há insuficiência de vitamina D em 19% e em 7% delas há deficiência. A falta de exposição pode ser a causa especialmente por causa da vestimenta das mulheres de certas culturas e religiões, que devem ficar praticamente toda coberta. Há também carência da vitamina em função da dieta.

No Brasil, a hipovitaminose D é rara - ainda que possa ocorrer em nível subclínico, especialmente entre as mulheres idosas.

8) Remédios homeopáticos para prevenção e tratamento de zika (fonte: prefiro não linkar)****
Nas epidemias de dengue há vários casos de uso de formulações homeopáticas, inclusive por autoridades sanitárias locais, para o tratamento da doença - em especial como auxiliar ao tratamento convencional (não como substituto). Mas, de modo geral, falta um bom acompanhamento do resultado.

Os melhores resultados disponíveis, no entanto, indicam que *não* há eficácia na utilização de tratamentos homeopáticos contra a dengue.

Considerando-se que meta-análises mostram que a homeopatia não é melhor do que o placebo para uma ampla gama de doenças e condições: câncer, TDAH, asma, demência, indução de trabalho de parto, entre outros, seria surpreendente que funcionasse contra a dengue. Do mesmo jeito seria surpreendente que funcionasse contra a febre zika.

De todo modo, como se trata de uma epidemia recente, não há nenhum estudo para o uso de tratamento homeopático contra a infecção por ZIKV; portanto, não há nenhum dado científico a sustentar sua eficácia. (No caso da dengue, nem mesmo associações médicas homeopáticas sustentam que a homeopatia previna a doença.)

9a) O vírus zika chegou ao Brasil com os imigrantes haitianos (fonte: prefiro não linkar)5
O padrão temporal e geográfico são contrários ao mito.

Os haitianos entram pelo Brasil principalmente através do Acre, via Peru e Equador. A grande maioria dirige-se, então, para São Paulo, Minas Gerais e estados do Sul. Até 05/dez não havia registro nem epidemia de zika, nem de surto de microcefalia.

Além disso, esse fluxo migratório iniciou-se em 2010, com o grande terremoto de magnitude 7 que arrasou o país. E até o momento não há registro de surto de ZIKV no Haiti.

9b) O zika veio com os médicos cubanos (fonte: prefiro não linkar)7
Mais um caso em que o padrão temporal e geográfico não bate com a alegação.

Os primeiros médicos cubanos do Programa Mais Médicos chegaram ao fim de 2013. O estado que mais recebeu médicos do país caribenho é São Paulo - com 1.914 profissionais atuando em agosto de 2014 (apenas o 15° entre os estados com mais suspeitas de microcefalia até 15/dez/2015); seguido da Bahia: 1.067 (3° em microcefalia), Minas Gerais: 1.012 (13°), RS: 808 (20°, com apenas um caso suspeito) e PR: 704 (sem casos suspeito registrado até o momento). PE, com mais casos de microcefalia até 15/dez/2015, é apenas o nono estado com mais médicos de Cuba: 504.

Até o momento não há registro de ZIKV em Cuba.

10) A causa da microcefalia é a sífilis. Ocultam isso porque gastam mais no combate ao mosquito da dengue do que com a prevenção da sífilis. (fonte: prefiro não linkar)6
Infecção materna por Treponema pallidum, bactéria causadora da sífilis, realmente é uma das causas de microcefalia. Mas não há registro de epidemia de sífilis no país (nos comentários, a leitora Sher Duarte observa que há profissionais de saúde classificam o aumento do número de casos de sífilis desde 2007 como epidêmica; no entanto, o padrão de aumento não é de 10 vezes em um ano; em AC, o aumento foi de 96% nos registros entre 2013 e 2014; em PE, de 95%; no Paraná, de 63,1%; o padrão geográfico não bate com as taxas de aumentos de microcefalia)10. E o protocolo de diagnóstico de vírus zika nos casos suspeitos de microcefalia incluem testes sorológicos contra a sífilis.

De fato, a prevenção à sífilis dependeria apenas de uma mudança no comportamento sexual: uso de preservativo, principalmente. E há campanhas de incentivo ao sexo seguro, no contexto das DST (a sífilis é uma das várias DST) e aids. Mas o combate ao mosquito também envolveria basicamente uma mudança comportamental: as pessoas eliminarem locais de acúmulo de água da chuva em suas residências. E há campanhas para isso.

11) A relação entre o vírus zika e o surto de microcefalia foi confirmada pelo governo com base em um único caso de detecção do ZIKV em tecidos de um bebê. (fonte: prefiro não linkar)6
Na apresentação do "Protocolo de vigilância e resposta à ocorrência de microcefalia relacionada à infecção pelo vírus zika", o MS lista os indícios que relacionam o ZIKV com o surto de microcefalia.
"1. Constatação de que os padrões de distribuição dos casos suspeitos de microcefalia pós-infecciosa
apresentam características de dispersão e não indicam concentração espacial;
2. Constatação de que os primeiros meses de gestação das mulheres com crianças microcefálicas
correspondem ao período de maior circulação do vírus Zika na região Nordeste;
3. Constatação, após investigação epidemiológica de prontuários e entrevistas com mais de 60
gestantes, que referiram doença exantemática na gestação e cujas crianças com microcefalia,
sem histórico de doença genética na família e/ou exames de imagem sugestivo de processo
infeccioso; 
4. Constatação de alteração no padrão de ocorrência de microcefalias no SINASC (Sistema de
Informação de Nascidos Vivos), apresentando um claro excesso no número de casos em várias
partes do Nordeste;
5. Observações de especialistas em diversas áreas da medicina (infectologia, pediatria,
neuropediatria, ginecologia, genética, etc.) de que há alteração no padrão clínico individual
desses casos que apresentam características de comprometimento do Sistema Nervoso Central,
similar às infecções congênitas por arbovírus em animais, como descrito na literatura;
6. Evidência na literatura de que o vírus Zika é neurotrópico, demostrado em modelo animal e pelo
aumento na frequência de quadros neurológicos relatados na Polinésia Francesa e no Brasil após
infecção por Zika e confirmado em Pernambuco, após isolamento do vírus em paciente com
síndrome neurológica aguda;
7. Identificação de casos de microcefalia também na Polinésia Francesa após notificação do Brasil
à Organização Mundial da Saúde; 
8. Constatação da relação de infecção pelo vírus Zika com quadros graves e óbitos a partir da
identificação de casos que evoluíram para óbito em estados diferentes e ambos com
identificação do RNA viral do Zika e resultados negativos para os demais vírus conhecidos, como
dengue, chikungunya entre outros;
9. Identificação do vírus Zika em líquido amniótico de duas gestantes cujo feto apresentava
microcefalia, no interior da Paraíba;
10. Identificação de óbitos de recém-nascidos com malformações e padrão sugestivo de infecção no
estado do Rio Grande do Norte e outros Estados;
11. Identificação de recém-nascido, no estado do Ceará, com diagnóstico de microcefalia durante a
gestação e resultado positivo para o vírus Zika, tendo evoluído para óbito nos primeiros 5
minutos de vida."

Pelos dados divulgados no boletim do dia 15/dez, dos casos suspeitos de microcefalia já analisados, em 134 foi diagnosticada a zika e em 102 houve descarte da presença do vírus. Outros 2.165 casos estão sob investigação. (Na verdade, os casos de confirmação é de diagnóstico inicial de microcefalia. Os casos de microcefalia com confirmação de presença de ZIKV até 23.jan.2016 são 6.)11

12) A recomendação pelo Ministério da Saúde para que as mulheres não engravidem é para controlar as mulheres (fonte: prefiro não linkar)6
O MS *não* fez recomendação para que as mulheres não engravidem. Nas orientações às gestantes, o MS diz explicitamente:
"Não há uma recomendação do Ministério da Saúde para evitar a gravidez. As informações estão sendo divulgadas conforme o andamento das investigações. A decisão de uma gestação é individual de cada mulher e sua família."

Agora, de fato, há profissionais de saúde, inclusive ligados aos órgãos do MS, que fazem a recomendação de evitar a gravidez enquanto houver a epidemia de zika. Mas é uma recomendação, não uma imposição. A decisão final é da mulher.

*Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
**Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
***Upideite(10/dez/2015): adido a esta data.
****Upideite(11/dez/2015): adido a esta data.
5Upideite(19/dez/2015): adido a esta data.
6Upideite(23/dez/2015): adido a esta data.
7Upideite(27/dez/2015): adido a esta data.
8Upideite(25/jan/2016): adido a esta data.
9Upideite(31/jan/2016): adido a esta data.
10Upideite(05/fev/2016): adido a esta data.
11Upideite(05/fev/2016): corrigido a esta data.

Upideite(27/jan/2016): Veja também
Educação na Web/Material de apoio docente para Zika (material produzido pela turma de 2015 da disciplina Internet no Ensino de Ciências e Biologia, ministrada pelo Dr. Átila Iamarino e pela Profa. Dra. Sônia Lopes.
Zika: "Brigada" Anti-Boato (Canal do Pirulla)
Zika e os boatos zicados (Canal do Pirulla)

Parte 2 da lista.

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