SNCT 2015

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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um novo programa de divulgação científica no ar

Segurem o fôlego.

Salvo apocalipse zumbi - ou se Silvio Santos decidir colocar Tom & Jerry no lugar - estreia hoje, 17/abr/2015, na web rádio da Unicamp, o programa Oxigênio (desculpem, não tenho o horário confirmado - mas como é na web, não haverá como perder: o programa ficará disponível online para ser ouvido quando você quiser).

A atração terá cerca de 30 minutos de duração com formato jornalístico: reportagens, entrevistas, notas curtas e serviços como resenhas de livros e peças teatrais, e uma agenda de eventos científicos e de divulgação.

Produzido em conjunto pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo - o Labjor - e a RTV Unicamp, a produção o programa é coordenadoa pela Profa. Dra. Simone Pallone, do Labjor. A equipe conta ainda com Patrícia Santos, Ana Paula Zaguetto, Carolina Medeiros, Janaína Quitério, Kátia Kishi, Tatiana Venâncio, Jeverson Barbieri e Victoria Monti. (Há boatos de que esta besta que vos escreve também contribui com alguma coisa.)

Ouçam, curtam (sim, já tem página no facebook), comentem (na página ou enviem email: oxigenio.noticias[arroba]gmail[ponto]com). Sim, vale criticar. (Sim, nesse caso vamos colocar no caderninho negro pro Papai Natal colocar carvão na sua meia.)

Pronto, podem respirar.

Upideite(17/abr/2015): Já está no ar a primeira edição de Oxigênio.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

É mentira, Terta? - Folha seca

É possível que poucas coisas sejam maismenos apetitosas do que uma folha seca encarquilhada, cheia de lignina (fibra indigesta), tanino (composto amargo). Presente em grande quantidade em certos ambientes - sobre o solo de florestas, em galhos, e no fundo de rios próximo a áreas florestadas - e com alguma mobilidade ao sabor dos ventos e das correntes de água, passa a ser um interessante alvo de imitação por certos organismos, permitindo a estes ao mesmo tempo: confundirem-se com o ambiente, não despertarem interesse de predadores e deslocarem-se sem chamar a atenção.

Lagartixa-satânica-cauda-de-folha. Fonte: Wired.
Um dos imitadores de folha seca que considero dos mais impressionantes é o Uroplatus phantasticus (à esquerda). Não apenas por sua aparência bastante convincente, como pelo nome - tanto o científico, quanto o popular: lagartixa-satânica-cauda-de-folha.

É um lagarto de hábitos arborícolas endêmico de Madagascar, vivendo nas florestas (no pouco que resta delas) do norte e da região central.

Seu nome popular deriva, além da óbvia referência ao formato da cauda (e não apenas dela), a seus olhos vermelhos e protuberâncias sobre eles parecendo chifres.

Peixe-folha-amazônico. Foto: Peter Pfeiffer.
O peixe-folha-amazônico, Monocirrhus polyacanthus, (à direita) não tem um nome tão impressionante. Mas sua imitação é também digna de nota. Projeção em sua mandíbula inferior parece com o pecíolo partido de uma folha caída.

Assemelha-se não apenas no aspecto, mas o peixe também nada imitando o movimento das folhas ao sabor do fluxo da água.

Sua distribuição abrange as águas claras e túrbidas dos rios da bacia Amazônica no na Bolívia, Brasil, na Colômbia, no Peru e na Venezuela.

Sapo gigante africano. Foto: Vaclav Gvozdik.
O sapo gigante africano, Amietophrynus superciliaris, (à esquerda) é encontradiço na região central e ocidental da África.

O uso de seus ossos para medicina tradicional e o desaparecimento de seu hábitat são motivos de alguma preocupação quanto a seu futuro - mesmo que sua área de distribuição seja relativamente grande.


Tetigoniídeos do gênero Mimetica. Foto: James Castner.
Sem contar a variedade de insetos: lepidópteros, fasmatódeos, mantódeos, ortópteros... Alguns imitam até danos às folhas: partes comidas por lagartas, manchas de fungos, quebra mecânica... e em diversos estágios de ressecamento.

Como tetigoniídeos do gênero apropriadamente denominado Mimetica (à esquerda).

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mary Tsingou: O enigma matemático dos três homens e uma mulher

Muitos dos leitores do GR já devem estar cientes da descoberta de uma solução (parcial) para o problema Fermi-Pasta-Ulam.

Info 24/mar/2015: "Enigma matemático que durava mais de 60 anos é finalmente solucionado"
Ciências e Tecnologia 25/mar/2015: "Enigma de Fermi-Pasta-Ulam resolvido após 60 anos"
Phys.org 23/mar/2015: "Mathematicians solve 60-year-old problem"

Press release da Unviersidade de East Anglia s.d. "UEA mathematician solves 60-year-old problem"
Press release do Instituto Politécnico Rensselaer (RPI) 23/mar/2015: "A mathematical explanation for the Fermi-Pasta-Ulam system problem first proposed in 1953"

Artigo no PNAS 23/mar/2015: "Route to thermalization in the α-Fermi-Pasta-Ulam system"

Só a Info e o comunicado à imprensa do RPI mencionam a contribuição de Mary Tsingou na formulação original do problema.

Usando a base de dados do Google Acadêmico, a busca por "Fermi-Pasta-Ulam problem" e "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem" tem os resultados representados no gráfico abaixo (Fig.1).

Figura 1. Menções ao problema como de "Fermi-Pasta-Ulam" (FPU) ou de "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou" (FPUT) em artigos científicos por período. Fonte: Google Scholar.

Em 2008, o físico francês Thierry Dauxois da Escola Normal Superior em Lyon publicou um artigo que resgata a participação essencial de Mary Tsingou (depois, Mary Tsingou Menzel) na questão.

Embora o relatório original de 1955 leve a assinatura apenas de Enrico Fermi, físico italiano; John Pasta, físico computacional americano; Stanislaw Ulam, matemático americano de origem polonesa (então parte do Império Austro-Húngaro); Mary Tsingou fez boa parte do trabalho de elaboração do algoritmo e programação (Fig. 2) - uma tarefa nada trivial, nem um pouco fácil com os poucos recursos computacionais (mesmo em laboratório como Los Alamos, com seus famosos monstrengos adequadamente denominados "Mathematical Analyzer, Numerator, Integrator, and Computer", MANIAC para os íntimos) disponíveis.

Figura 2. Algoritmo desenvolvido por Mary Tsingou para abordagem computacional do problema de Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou. Fonte: Dauxois 2008.

Dauxois faz um breve relato da vida de Tsingou. Nascida em Milwaukee, no estado americano de Wisconsin, em 1928, cresceria na América da Grande Depressão, mudando-se com a família para a Bulgária em 1936 atrás de melhores condições de vida. Mas em junho 1940, seguindo recomendação da embaixada americana, retornaram para os EUA devido ao aumento da tensão no subcontinente balcânico (a Segunda Guerra Mundial já corria solta na Europa Central; em outubro, a Grécia viria a ser invadida pela Itália).

Ela formou-se em 1951. No ano seguinte, buscou uma vaga em Los Alamos, contando com o apoio de uma professora sua de equações diferenciais avançadas. Mesmo a matemática sendo um campo ainda fechado às mulheres, a Guerra da Coreia provocava uma redução de mão de obra masculina, então, ela, juntamente com outros recém-graduados, foram contratados para fazerem cálculos matemáticos à mão.

Foi das primeiras pessoas a conseguirem programar o recém-construído MANIAC I. O principal uso do trambolho era, claro, relacionado ao desenvolvimento de armas, mas ocasionalmente encontravam brechas para utilizar o brinquedo para algo mais produtivo: resolução de problemas da Física e jogo de xadrez. Tsingou e Pasta foram os primeiros a desenvolverem gráficos no MANIAC.

Fermi, professor em Chicago, visitava Los Alamos apenas brevemente. Mas foi dele a ideia de utilizar o computador não apenas para realizar cálculos padrões, e, sim, também para testar hipóteses físicas. Nascia disso a experimentação numérica e a era das simulações computacionais científicas.

Com sua experiência na programação do computador, proximidade com Pasta e Ulam, foi incumbida a ela a tarefa de desenvolver os algoritmos da simulação de um cristal unidimensional - sem saber o resultado surpreendente que iriam obter.

Modelando os átomos como massas conectadas linearmente por molas que obedeciam à lei de Hooke, mas com um pequeno termo não-linear, observaram que, ao contrário do previsto, a energia não acabava sendo partilhada igualmente pelo sistema, mas o sistema, de tempos em tempos, voltava à sua condição original. A busca pela resolução desse paradoxo levou ao desenvolvimento do campo dos sólitons (ondas localizadas com propriedades de partículas) e o problema FPUT se tornou central também nos estudos sobre o caos.

Em 1955, Tsingou obteria seu mestrado. Em 1958, casou-se com com Joseph Menzel, que conheceu no próprio Los Alamos. Além do problema FPUT, ela também trabalhou com soluções numéricas para a equação de Schrödinger e trabalhou com von Neumann na modelagem de mistura de fluidos com densidades diferentes. Além de contribuir com estudos sobre o programa Guerra nas Estrelas da administração Reagan.

Aposentou-se em 1991 e desde então mora com o marido nos arredores de Los Alamos.

Por que, tendo papel tão essencial, Mary Tsingou foi deixada de lado? Poderia ser por, apesar de ter botado a mão na massa, não haver participado da elaboração do artigo. Mas ela participou da produção dos gráficos e Fermi, morto um ano antes, não tinha como colaborar com o manuscrito, porém foi listado como primeiro autor.

Não era a primeira vez que o efeito Matilda aprontava das suas, não seria a última. Talvez o caso mais famoso de uma mulher alijada do reconhecimento seja de Rosalind Franklin e sua contribuição para o desvendamento da estrutura do ADN - creditada, normalmente apenas a Watson e Crick, e, ocasionalmente a Wilkins também.

Em sua linha final, Dauxois propõe: "Let us refere from now on to the Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem". ["Chamemos de agora em diante de problema Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou"]. Alguns atenderam à convocação, mas são somente 15 trabalhos publicados desde então (e indexados na base do Google Acadêmico) referem-se a FPUT contra mais de 400 que citam apenas FPU.

domingo, 15 de março de 2015

Humor: Quantas pessoas havia na Avenida Paulista?

"Estimating the size of a crowd is a difficult business – even for those who actually want to get it right."

Diante da pequena divergência de números de manifestantes nas imediações da Avenida Paulista nos protestos de 15/mar/2015 entre a PM, que avaliou como 1 milhão de pessoas, e o Instituto Datafolha, que estimou em 210 mil indivíduos (veja detalhes da metodologia do Datafolha - cuidado! contém paywall poroso), fica a pergunta: afinal, quantas pessoas estavam na Paulista?

Provavelmente nunca saberemos ao certo, mas o Instituto GR de Pseudopesquisas convocou especialistas de várias áreas para darem seus palpites de como medir.

Ecólogo populacional: "Basta capturar alguns manifestantes aleatoriamente, marcá-los, soltá-los e depois recapturar o mesmo número também aleatoriamente. Se o tamanho da amostra é de 100 pessoas e na recaptura 10 estiverem marcadas, o total será de 1.000 manifestantes."

Físico teórico: "Considere que os manifestantes sejam todos esféricos de raio de 1m no vácuo... "

Estatístico preguiçoso: "O número de manifestantes será, com 95% de confiança, algo entre 0 e 7 bilhões de pessoas."

Fisiologista da respiração: "Cerque a região de interesse com uma cúpula impermeável ao ar. Meça a variação do teor de O2 do ar no interior da região cercada por um período (tenha certeza de haver obtido permissão de um comitê de ética antes; e o período de observação não deve induzir acidose). Multiplique o teor pelo volume total de ar em litros e divida por 72 e multiplique pelo tempo de observação em horas."

Batman: "Hackeie o sistema de telefonia celular da cidade e use as emissões dos celulares como um sonar. Ah, você quer algo legalmente permitido, Lucius? Bem, pergunte pra um engenheiro eletrônico."

Engenheiro eletrônico: "Peça pros usuários baixarem um aplicativo para emitirem um som específico e colocar um microfone sensível em local apropriado."

Engenheiro de som carioca: "É na Paulista, né? Simples. Grite 'biscoito'. E com um decibelímetro meça a intensidade com que vem a resposta 'bolacha'."

Social media expert: "Faça um bot que capture todas as hashtags #EuNaPaulista #SelfieNaPaulista, filtre os retuítes e repetições; divida pela taxa de uso de smartphones e corrija pelo número de usuários de redes sociais... hein? como assim validação da metodologia?"

Físico experimental: "Na região do cruzamento com a Paraíso instale um canhão de laser de raios-X de baixa intensidade... o quê? como assim comitê de ética de pesquisa com animais?"

Obs. Um texto mais sério - de divulgação - sobre métodos de contagem de multidões.

terça-feira, 10 de março de 2015

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 7

Aparentemente a discussão pode ser mais ampla do que o círculo dos blogues filomáticos brasileiros (ou lusófonos).

Carlos Hotta chamou a atenção para uma discussão similar no âmbito internacional - ao menos anglófono. Muitos dos elementos levantados são similares à discussão que travamos quanto ao cenário brasilo-lusófono.

Bia Granja discutiu a crise no contexto dos blogues brasileiros de modo geral - não os de ciências.

Curiosamente o debate sobre crise e morte se dá quando parece que os trabalhos acadêmicos sobre blogues começam a se multiplicar. Só no Labjor, desde 2013, tivemos duas defesas de mestrado sobre o tema e há mais uma a caminho:
2013 - Vanessa Fagundes: "Blogs de ciência: comunicação, participação e as rachaduras na torre de marfim".
2015 - Meghie Rodrigues: "Entre jalecos brancos e Blackberries: as novas tecnologias e os modelos de divulgação científica".
TBA - Bruno de Pierro: "Descentralização da informação científica na Internet: o abismo entre a proliferação híbrida e o engano da interação por justaposição".

No Google Scholar, a busca por "science blogs" resulta no gráfico abaixo (Fig. 1):

Figura 1. Evolução do número de resultados no Google Scholar para busca por "science blogs".

(Não filtrei por falsos hits; creio que isso não afete a tendência geral.)

Uma explicação possível é que os trabalhos acadêmicos sempre têm um delay na publicação. No caso de doutorado, tem os 4 anos da pesquisa, mais cerca de 1 ano para a publicação final dos artigos. Haverá uma queda a partir deste ano dos trabalhos acadêmicos sobre blogues de ciências? Talvez. Ou talvez leve mais alguns anos - pode haver também um lapso entre a queda da relevância do tópico e a queda do interesse pela academia (como há entre o aumento da relevância do tópico e o início do interesse pela academia). Mas, com a discussão a respeito da crise, um tanto paradoxalmente (mas não muito), poderia ainda *aumentar* o interesse pela academia: tentando investigar se há mesmo uma crise quais seriam as causas e as consequências.

Um popperiano mais empedernido poderia imaginar que o parágrafo acima sobre os possíveis efeitos da crise na pesquisa acadêmica sobre blogues científicos e cientofílicos prevê tanto uma coisa como seu oposto, não sendo, portanto, uma previsão propriamente dita. Mas, embora não seja uma previsão que se pretenda científica, não é uma infalseável. Terá notado o atento leitor que são previsões distintas: por exemplo, a hipótese do aumento prevê que seria pela investigação sobre uma crise atribuída - nesse caso, deveriam aumentar os trabalhos que pesquisem os blogues de ciência sob a perspective de crise, não de um interesse geral - sobre, p.e., o impacto discursivo ou o efeito didático dos blogues.

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Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 2
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 3
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 4
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 5
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 6

sábado, 28 de fevereiro de 2015

I (don't) see your true colors: não é (só) sobre as cores do vestido

Com o devido aviso de que neurofisiologia visual é beeeeem longe de minha especialidade.

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Na semana passadaHá uns três dias - isto é, no neo-Ordoviciano para os padrões da internet - causou certo bochincho a foto de um vestido com a pergunta a respeito de sua cor - segundo o G1, isso teria começado com uma foto no tumblr swiked, de Caitlin McNeill Além da resposta variada para a pergunta: "branco/dourado" ou "azul/preto" e algumas variantes menos frequentes, houve também uma variação nas respostas a respeito do que causaria essa variação nas respostas.

O que me faz tentar responder à pergunta não feita de o que causa a variação nas respostas sobre o que causa variação nas respostas. (Haverá uma variação de terceira ordem nas metaexplicações?)

Uma parte da variação pode-se dever à ambiguidade da pergunta. Mas que ambiguidade pode haver em "qual a cor do vestido?". Bem, a pergunta pode significar coisas ligeira, mas significativamente distintas:

1) A despeito da impressão que você está tendo, qual é a verdadeira cor que você acha que tem o vestido *representado* na imagem?
2) A despeito da impressão que você está tendo, qual é a verdadeira cor do vestido *na* imagem?
3) Qual a sua impressão visual de cor ao visualizar esta imagem?

A pergunta 1 aparentemente tem uma resposta definitiva: é azul e preto.

A pergunta 2 também aparentemente tem uma resposta definitiva: é azul e dourado.

A pergunta 3 é a que realmente gera a diversidade de respostas e as respostas 1 e 2 têm pouco a dizer a respeito.

Mas o que faz umas pessoas terem a impressão de que o vestido - que é azul e preto, mas que tem tons azul e dourado na foto - é azul e preto e outras branco/azul claro e dourado?

Certamente não é uma questão de variante biológica da percepção de cores - como os daltonismos: as mesmas pessoas podem ver de um jeito numa hora e de outro, em outra (embora possa explicar parte da variação das respostas). Houve quem dissesse tratar-se de variação do estado emocional. Também pouco provável.

A principal explicação é a compensação de luminosidade que normalmente leva à constância de cores - no sentido inverso: uma interpretação de diferente luminosidade levaria à interpretação diferente das cores. Isso cria ilusões de óptica bem conhecidas, como na Figura 1.

Figura 1. Os quadrados A e B na verdade têm o mesmo tom de cinza. Fonte: Wikimedia Commons.

Se uma imagem é tida como estando na sombra, as tonalidades são interpretadas como sendo mais escuras do que seriam na realidade e nosso cérebro/retina faria a compensação. Se, ao contrário, a imagem é tida como estando à luz, as tonalidades são interpretadas como sendo mais claras do que o normal e nosso cérebro/retina compensa no sentido oposto. Por isso a quadrícula A na figura 1 se parece mais escura do que a quadrícula B na mesma imagem - mesmo tendo, na realidade, o mesmo tom. Ou, na versão do xkcd (Figura 2):

Figura 2. Variação da percepção das cores - os tons dos vestidos nos quadrinhos da esquerda e da direita são os mesmos. Fonte: xkcd.

Um efeito que vi menos discutido é quanto às configurações do monitor. Monitores de marcas diferentes poderão exibir as cores de modo ligeiramente distintos, além da configuração de brilho e contraste variar de um para o outro. Além disso, se eu inclino o monitor para cima ou para baixo, percebo a imagem com tonalidades mais escuras ou mais claras. A luminosidade ambiente dos interneteiros também pode afetar a percepção.

Outro fator que pode afetar é o uso de óculos e outras lentes (com a ressalva de que se trata de um levantamento online - mas, embora, a proporção real possa ser afetada, a relação dos fatores parece ser mais robusta). A luz do monitor é polarizada, lentes podem filtrar parte da luz emitida - especialmente se tiver tratamento antirreflexo -, alterando ligeiramente a tonalidade percebida.

A idade também parece afetar (valendo a mesma ressalva sobre o caso da influência do uso de lentes - trata-se da mesma enquete). Aqui há alguma disputa na literatura científica. Segundo os dados de Wuerger 2013, apesar das alterações do sistema visual periférico (olhos e nervos), não há uma variação sensível não há uma alteração na percepção das cores - haveria algum efeito compensatório nas regiões corticais. Mas, segundo Werner e Ehmer 2006, ocorre uma alteração na percepção da constância de cores com a idade que não depende da alteração no sistema visual periférico, atribuindo a mudança à modificação na dinâmica temporal dos processos neurais.

Então parece que a variação nas explicações dadas deve-se, ao menos em parte, por se tratar de um fenômeno que pode ser afetado por diversos fatores de diferentes naturezas: iluminação ambiente do sujeito, interpretação da iluminação da foto, idade do observador, uso ou não de lentes corretivas, características da tela do dispositivo (computador, tablet, smartphone...).

O que a blogosfera científica brasileira falou?
Dulcidio Braz Jr, Física na Veia: Qual é a cor do vestido?
Tatiana Nahas, Ciência na Mídia: Carona no Vestido
Scicast, Responde A.I. #01: De que cor é o vestido, afinal? (podcast)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Oras bolas. Microesferas alienígenas como sementes panespérmicas? Short answer: Não.

Revista Galileu foi na onda do site do tabloide inglês Daily Express e publicou a matéria:
"Esfera de metal vinda do espaço expele material biológico e intriga cientistas"*

(Pausa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... Inspira. Expira. Inspira. Expira...)

Nada disso teria ocorrido se o Pica Pau tivesse avisado às autoridades tivessem seguido o protocolo alfa de notícia sobre astrobiologia, já publicado anteriormente no GR, mas reproduzido abaixo.

Figura 1. Reduza 83+/-24% dos micos do noticiário de astrobiologia com este simples diagrama.

A bizarrice está resumida no... bem, resumo do "artigo" (ahem) "científico" publicado, onde mais?, no Journal of Cosmology.

"A sphere of diameter 30 microns was isolated from the stratosphere at a height of between 22–27 kilometres. It was found to be mainly composed of titanium (with smaller amounts of vanadium). Nanomanipulation and EDX analysis showed that the titanium sphere contains a carbonaceous non-granular material which we suggest is a biological protoplast. Damage to the surface of the sphere revealed a carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature. The titanium sphere produced a distinct impact crater when it impacted the carbon sampling stub. We conclude by suggesting that this largely titanium sphere contains biological elements which impacted the sampling stub at speed as it made the journey from space to the stratosphere."
["Uma esfera de diâmetro de 30 mícrons foi isolada da estratosfera a uma altitude entre 22 e 27 quilômetros. Descobriu-se que ela é composta principalmente por titânio (com uma quantidade menor de vanádio). Nanomanipulação e análise por EDX mostraram que o titânio da esfera contém um material carbonáceo não granular que sugerimos ser um protoplasma biológico. Dano na superfície da esfera revelou um material carbonáceo, filamentoso com uma 'aparência tricotada', que também sugerimos ser de natureza biológica. A esfera de titânio produziu uma distinta cratera de impacto quando chocou-se contra o suporte de amostragem de carbono. Concluímos sugerindo que esta esfera composta principalmente de titânio contém elementos biológicos que se chocou contra o suporte de amostragem a alta velocidade enquanto fazia sua jornada do espaço para a estratosfera."]

Meodeos, liga de titânio e vanádio... só pode ser tecnologia <voz do grego louco
Tsoukalos mode on>ALIEN <voz do grego louco Tsoukalos mode off>. Não é algo que a Nasa usaria, por exemplo, nos escudos térmicos de suas naves:
"Temperatures will climb highest at the bottom of the Orion capsule, which will be pointed into the heat as it returns to Earth. The heat shield is built around a titanium skeleton and carbon-fiber skin that gives the shield its shape and provides structural support for the crew module during descent and splashdown." (Grifos meus.)
["As temperaturas irãoá subir ao máximo na parte debaixo da cápsula Orion, que estará voltada para o calor quando retornar para a Terra. O escudo de calor é construído em torno de um esqueleto de titânio com peleo de fibra de carbono que confere ao escudo sua forma e confere apoio estrutural ao módulo de tripulação durante sua descida e impacto na água."]

Ok, não é da Nasa, é da Lockheed Martin.

Liga de titânio-alumínio-vanádio como Ti-6Al-4V é usada em artefatos espaciais - (em uma das figuras do artigo, de espectrometria EDX - energy-dispersive X-ray spectroscopy - da liga, há um pico correspondente a alumínio, por algum motivo, não mencionam no texto - figura 2 desta postagem) - e, em sua composição, há traços de carbono e nitrogênio que os autores encontraram.

Figura 2. Aparência da microesfera metálica (painel A) e composição da liga metálica (painel B). O X é uma protuberância de material de composição distinta (rica em carbono). Fonte: Wainwright et al. 2014.

Não afirmo que seja exatamente de um escudo de calor, mas o que acharam pode perfeitamente serem restos desprendidos de um artefato que mandamos para o espaço. O balão utilizado no "experimento" dos autores foi lançado no dia 31 de julho de 2013.

Nessa data, o cargueiro espacial Progress M-023M fez uma reentrada destrutiva na atmosfera depois de levar suprimentos para a EEI. Outro objeto espacial a fazer reentrada no mesmo dia foi o corpo do foguete Delta 2. (Não sei se esses objetos especificamente contêm partes com titânio e glúten fibras de carbono, mas vários outros objetos espaciais reentram todo dia na atmosfera.)

Grifei também "fibras de carbono" porque os autores do "artigo" "científico" falaram em: "carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature".

No texto: "The particles of terrestrial origin also do not possess the 'knitted' layer of the LSO and any carbon they might contain would also likely be in the form of solid, granular soot particles which is not consistent with the organic ooze released from the LSO."["As partículas de origem terrestre também não têm a camada 'tricotada' do LSO - large spherical object, objeto esférico grande - e todo o carbono que elas contenham provavelmente estaria na forma de partículas de fuligem sólidas e granulares o que não é consistente com o limo orgânico liberado pelo LSO"] (Veja figura 3 desta postagem.)

Figura 3. Aparência do simbionte alienígena do uniforme negro do Homem-Aranha do material rico em carbono associado às esferas metálicas. Fonte: Wainwright et al. 2014

Aparentemente os autores acham que nanofibra de carbono é material extraterrestre.

Sério, os autores nem tentaram. O pessoal da Galileu também não. Não dá pra desculpar muito os jornalistas agora - não é a primeira vez que o Journal of Cosmology apronta: e, além dos impostos e da morte, podemos ter certeza também de que não será a última.

Via @OLucasConrado tw e Lúcia Eneida fb.

Upideite (22/fev/2015): Gilmar Lopes também comenta a nãotícia no e-farsas. Eu só discordo dos exemplos que ele traz de outros casos de esferas de titânio. Na verdade são esférulas de grafita de corpos celestes - como asteroides - com *traços* de titânio na forma de cristais de carbeto de titânio.

Upideite(25/fev/2015): Vou cravar a natureza dessa microesfera de titânio: é uma esfera de pó de liga de titânio Ti-6Al-4V grau 23: que apresenta diâmetros entre 17,36 e 44,31 µm. Esse pó é usado, por exemplo, para impressão 3D de objetos metálicos - geralmente com fusão (sinterização) com laser. O processo de sinterização leva a uma alteração da microestrutura e pode produzir poros. A microestrutura após a sinterização por tratamento térmico é muito similar à encontrada pelos autores (figuras 4a e 4b desta postagem).

a)
b)
Figura 4. a) Textura da esfera analisada por Wainwright et al. 2014. b) Alteração da textura por efeito da sinterização. Fonte: Reig et al. 2013.

A metalurgia de pó tem sido usada, por exemplo, para produzir compósitos de matriz de titânio reforçada por fibras de carbono.

Cuidado! Semente alien! Fonte: CNET.
Ou seja, a microesfera provavelmente é tão alienígena quanto o Banguela que os cientistas imprimiram para dar para uma garotinha que pediu a eles um dragão.

*Upideite(25/fev/2015): Em uma atitude louvável a Galileu acrescentou uma atualização de cautela na matéria.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um conto de Carnaval: O dia em que Richard Feynman desfilou em uma "escola de samba" no Rio

Not Richard Feinman (sic). Crédito: @oatila.
Depois de uma rápida passagem em 1949, Richard Feynman retornou o Brasil lecionando eletromagnetismo por 10 meses no recém-fundado Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro.

Conversando com um funcionário da embaixada dos Estados Unidos, comentou que, em sua primeira estada no Brasil, tomou contato com o samba. O homem disse que tinha um grupo que se reunia em seu apartamento para ensaiar e o convidou.

No Carnaval, Feynman saiu nos "Farsantes de Copacabana" tocando um instrumento hoje raramente utilizado: a frigideira. Em suas memórias, "O Senhor Está Brincando, Sr. Feynman?" (ou “Deve ser Brincadeira, Sr. Feynman!”, na edição da Editora da UnB), o cientista chama o bloco de "escola de samba".

Os Arquivos da Caltech tem uma fotografia que registra Feynman fantasiado no Carnaval carioca em 1952 (não sei se ele estava fantasiado em diabão).

Não seria o último festejo por estas paragens. Em edição de 24/fev/1966, o Jornal do Brasil, registra, entre outros flagrantes da comemoração de Momo, "Feygman: [sic] Premio Nobel de Física, entre pernas e garrafas" (página 2, Caderno B) - tocando agora, não uma frigideira, mas um tamborim. (Veja mais detalhes dessa passagem no Nightfall in Magrathea de Alan Mussoi.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Entrevista com uma educadora - Gladys Beatriz Barreyro

A Profa. Dra. Gladys Beatriz Barreyro é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da USP. Em razão da reportagem sobre rankings universitário na edição da revista ComCiência sobre Avaliações de Ensino, ela gentilmente concedeu uma entrevista por email sobre o tema. Abaixo reproduzo a entrevista no íntegra - já que nem tudo coube no texto da reportagem.

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1) Um comitê norueguês classificou os rankings como inúteis em função da subjetividade dos pesos atribuídos aos itens aferidos e falta de transparência da metodologia. A senhora concorda com essas críticas? É possível se corrigir essas limitações?

GB. Os rankings internacionais têm a função de hierarquizar universidades de pesquisa. Eles recebem muitas críticas pela metodologia, que às vezes muda de edição a edição e que privilegia a pesquisa, não considera ou minimiza o ensino, ignoram ciências sociais ou humanidades, consideram apenas as publicações em inglês ou a quantidade de prêmios Nobel, ou seja, simplificam as atividades das instituições de educação superior e as padronizam.

Concordo com essas críticas.

O “sucesso” deles é porque simplificam os resultados e, num mundo competitivo, comparam as instituições e isso facilita a divulgação, a compreensão e tem apelo de público e de mídia.
Quanto a corrigir as limitações, sugiro que pergunte aos adoradores e defensores dos rankings!

2) Quais as consequências - positivas ou negativas - de se moldar políticas públicas para o ensino superior moldados em rankings universitários?

GB. Se são utilizados os rankings como único elemento, dadas suas limitações e falhas, teremos dados falhos no diagnóstico ao momento de elaborar uma políticas pública.

Indo ao caso brasileiro, como não há rankings oficiais, se as políticas se basearam em resultados de rankings internacionais elas teriam todos esses problemas, mas o fato de ignorar as prioridades nacionais para a educação superior, estariam baseados apenas em critérios externos. Além disso, no Brasil existem distintos tipos de instituições não apenas as universidades para as quais a indissociabilidade pesquisa-ensino-extensão é um requisito.

A questão da equidade no acesso à educação superior tem sido uma das prioridades de política na última década e ela não foi produto da influência de nenhum ranking internacional, pois não é um quesito considerado neles, porém tem sido uma prioridade nacional.

Além disso, não deve ser esquecida a autonomia das universidades quando se pensa em políticas públicas para a educação superior.

3) Com frequência quando se estabelecem classificações e medidas de avaliação, há tentativas de burla do sistema: como contratação de mestres e doutores em época de avaliação e demissão após o período. Considera que esses rankings são robustos contra a estratégia do "gaming" dos parâmetros e das burlas?

GB. Os rankings, pelos menos os internacionais mais “famosos”, com maior divulgação, priorizam pesquisa, geralmente considerando o número de publicações, prêmios Nobel, etc. então não estão interessados no número de mestres e doutores. A questão da titulação de mestres e doutores, da condição de tempo integral ou horista é relevante na avaliação da educação superior brasileira, notadamente para o Sistema Nacional da Educação Superior – SINAES, esse é um parâmetro importante para a avaliação de cursos e de instituições. Ele é imporatante na composição do indicador – CPC (conceito preliminar de curso) que mostra resultados da avaliação dos cursos no Brasil.

4) Em relação ao Enade, considera que a avaliação tem atingido o objetivo de mensurar a qualidade dos cursos e das IES brasileiras? Em caso negativo, quais as falhas principais e o que considera que deveria ser feito? Em caso positivo, há melhorias a serem feitas (quais)?

GB. Quem avalia a qualidade dos cursos e das IES brasileiras é o SINAES (Sistema de Avaliação da Educação Superior Brasileira) do qual o ENADE é apenas um dos instrumentos, junto à avaliação de instituições e cursos.

O exame ENADE avalia os alunos, ou melhor, os resultados da aprendizagem dos alunos. Isto não pode ser confundido com a qualidade de cursos e instituições, apenas é um componente. Contudo, com a criação de índices como o CPC que considera os resultados do ENADE e os supervaloriza, lamentavelmente, ele extrapola sua função. Tem que se considerar os três elementos da avaliação tal como o SINAES propõe.

Além disso, as próprias instituições devem criar uma cultura de avaliação, se auto-avaliarem e se preocupar com a qualidade. E os usuários da educação superior deveriam ser mais exigentes quanto a isso, especialmente naquelas de escassa qualidade.Finalmente, a mídia destaca excessivamente os resultados nos rankings internacionais, mas dedica pouco espaço a matérias serias sobre qualidade e sobre o Brasil, destacando casos negativos ou propondo que se copie o sistema de educação superior de X país, ignorando as diferenças entre os países.
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Este trabalho foi desenvolvimento com apoio financeiro da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência), sob supervisão da Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

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