Plínio, o Velho, em seu "Naturalis Historia", descreveu os seros, habitantes da Sérica, região himalaia que hoje pertence à China, baseado em relato do embaixador Rachias da Taprobana ao imperador Cláudio: "Eles informaram-nos também que o lado de sua ilha que fica defronte à Índia tem um comprimento de dez estádios e se estende na direção sudeste e que além das Montanhas Emodianas [Himalaias] estão os Seros, de quem tomaram conhecimento com o propósito de comércio; e o pai de Rachias tem visitado com frequência suas terras e os seros sempre vêm ao seu encontro quando de sua chegada. Esse povo, dizem, excedem o homem ordinário em altura, têm cabelos avermelhados e olhos azuis, e um produzem um tipo rústico de ruído ao falar, não tendo nenhuma língua própria para o propósito de comunicar seus pensamentos." (Cap. 24, Taprobana).
Não há uma confirmação da acuidade desses relatos. Mas há registros de chineses han (e não caucasianos como parecem os seros descritos por Plínio) de olhos azuis. Um caso recente relatado na imprensa é de uma garotinha de 11 anos - encontrei referências apenas em sítios web em português e um em espanhol, nenhum na imprensa anglófona ou de outras línguas (nem mesmo na agência citada como fonte da notícia, Barcroft Media).
Diz a matéria no blog Page Not Found:
"A menina nasceu com olhos azuis. [...] Os pais têm olhos castanhos e não há qualquer registro na família de olhos azuis. / A cor da pele e dos cabelos de Chen é a mesma de outras crianças chinesas. Mas a chinesinha, que é surda, tem grande dificuldade de fazer amizades por causa da cor dos olhos. [...] Segundo eles [os médicos que examinaram a garota], a paciente enxerga normalmente mas o fato de ela ter olhos azuis continua sem explicação, de acordo com a agência Barcroft Media."
O relato soa crível - e é tristíssimo o registro da reação dos colegas de escola e dos vizinhos - e as fotos não aparentam manipulação.
É possível que seja o caso da Síndrome de Waardenburg (WS). Trata-se de uma alteração genética rara: acomete cerca de 1 a cada 4.000 nascidos vivos, associada a distúrbio pigmentar e deficiência auditiva causada por deficiência na migração de células da crista neural durante o desenvolvimento embrionário e na síntese da melanina. Há quatro tipos descritos: nos tipos I, III e IV, ocorre o deslocamento do canto interno do olho (dystopia canthorum), característica ausente no tipo II. No tipo III, há anomalias musculoesquelética nos membros superiores e retardo mental com microcefalia; no tipo IV, há um megacolo aganglionar. Os tipos I e III estão associados a mutações no gene PAX3 - que codifica uma proteína que se liga ao ADN regulando a expressão gênica durante o desenvolvimento; o tipo II, à mutação no gene da microftalmia MITF, a proteína é um fator de transcrição que controla o desenvolvimento de osteoclasto e de melanócitos; o do tipo IV, a mutações em genes da endotelina-3, que controlam o desenvolvimento de células neurais e neurônios entéricos. (Singh et al. 2006.)
Pelas fotos, a garota não apresenta o deslocamento do canto do olho, parece ser, assim, WS-2. Para o diagnóstico de casos isolados de WS-2, o indivíduo deve apresentar pelo menos duas de quatro características: (1) perda auditiva sensorineural congênita; (2) distúrbio pigmentar da íris; (3) distúrbio pigmentar do cabelo e (4) parente de primeiro ou segundo grau com duas ou mais das características anteriores (1-3). (Singh et al. 2006, Tassabehji et al. 1994.)
A menina parece ter as características 1 e 2; pela descrição e pela foto, o cabelo é preto sem alteração (assim, o item 3 não se aplica) e não há caso registrado na família (o item 4 também não se aplica).
As células das cristas neurais dão origem a diversas células. Entre elas, as células pigmentares - o que explica os olhos azuis -; e células nervosas - o que explica a surdez.
Um outro relato, mais antigo, envolve um menino, também chinês. Mas há elementos que tornam o caso mais suspeito - como a alegação de que os olhos do garoto brilham no escuro e que ele é capaz de enxergar no escuro. De todo modo, não há uma confirmação de que seja uma história verídica.
Via: ciencialist.
Referências
Singh I, Maharjan M, Gautam DK, Mehar R, Gathwala G. 2006 Waardenburg syndrome Type II. Kathmandu University Medical Journal. 4(4): 506-9
Tassabehji, M.; Newton, V.E. & Read, A. P. 1994. Waardenburg syndrome type 2 caused by mutations in the human microphthalmia (MITF) gene. Nature Genetics 8, 251 - 255
sábado, 18 de maio de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Como é que é? - Jabuticaba só existe no Brasil?
A planta arbórea de fruto negro com branca e doce polpa que se desenvolve diretamente no tronco é conhecida popularmente por vários nomes: jabuticabeira (preta, rajada, rósea, vermelho-branca, paulista, ponhema, açu), jaboticabeira, guapuru, pé de fruita... Cientificamente também possui várias sinonímias: Eugenia cauliflora (Mart.) DC, Eugenia jaboticaba (Vell.) Kiaersk., Myrcia jaboticaba (Vell.) Ball., Myrciaria cauliflora (Mart.) O. Berg, Myrciaria jaboticaba (Vell.) O. Berg, Myrtus cauliflora Mart., Myrtus jaboticaba Vell., Plinia jaboticaba (Vell.) Kausel. Seu nome científico válido ainda é alvo de disputa na literatura: Myrciaria cauliflora ou P. cauliflora (Sobral 1985). [Há pelo menos oito outras espécies de jabuticabeiras, como a sabarazeiro (ou jabuticabeira-murta) - P. jaboticaba (Vell) ou Myrciaria jaboticaba.]
O que está fora de disputa é que ela é de ocorrência exclusiva em terras tupiniquins, afinal "ser uma jabuticaba" é sinônimo de "só no Brasil" (geralmente com conotação negativa). Será?
Bem, pelos exemplos:
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Benjamin Steinbruch "País diferente" Folha de São Paulo, 9/out/2012, pág. B8
"A jabuticaba dos juros desse país diferente não poderia continuar para sempre."
(No acervo da Folha, de 61 menções à fruta em 2012, pelo menos 7 eram nesse sentido.)
José Roberto de Toledo "É a geografia, estúpido" O Estado de São Paulo, 12/nov/2012, pág. 5
"O voto geográfico não é exclusividade paulistana. Aparece de Manaus a Salvador, diz Marcia Cavallari. Tampouco é uma jabuticaba, um brasileirismo. Nos EUA, é até mais fácil de ver por conta do bipartidarismo."
Ricardo Noblat "Como jabuticaba" Blog do Noblat 11/nov/2008
"Pois a segunda invenção à espera de reconhecimento universal é o vereador pago. O vereador pago é como a jabuticaba, uma fruta genuinamente nacional."
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A ideia da exclusividade sobre a fruita está bem arraigada... Mas a jabuticaba é "uma fruta genuinamente nacional"? Na verdade, ela ocorre naturalmente também na Bolívia; no Peru; no Paraguai; e no nordeste argentino (Lim 2012, Brack et al. 2011).
Além de ocorrência introduzida também na Venezuela e Guiana Francesa, América Central e nos EUA, especialmente na Flórida. (Figura 1.)
Há que se levar em consideração a existência de uma certa confusão taxonômica - o que se reflete na disputa acerca do nome científico. A identificação da jabuticabeira-açu em outros países pode ser errônea. Como a referência à jabuticaba não especifica a espécie, no entanto, certamente não faz sentido atribuir exclusividade da fruta ao território brazuca - seja na distribuição total, seja na distribuição de ocorrência natural.
Além disso, é referida em expressão popular na Bolívia como na canção "Cunumicita":
"Cunumicita linda que tienes ojos de guapurú"
Ou em conto infantil:
"Yazi era muy bella, de largos cabellos oscuros y ojos de guapurú, pero lo que más llamaba la atención de ella era su forma de ser, tan alegre y risueña que hasta el viento le hacía cosquillas."
Com o mesmo sentido de "olhos de jabuticaba" (redondos e negros como jabuticaba).
Mesmo na eventualidade da jabuticaba ser uma introdução mais recente na Bolívia, ela está bem integrada à cultura local - particularmente da região de Santa Cruz. (Negar, assim, que seja a fruta também boliviana seria o mesmo que dizer que feijão com arroz não é um prato típico brasileiro por serem ambos introduzidos: o primeiro da América Central, o segundo, da Ásia.)
Não sei exatamente quando esse sentido se desenvolveu - ainda não se encontra dicionarizado, pelo menos não no Houaiss, no Aurélio, no Michaelis, nem no Aulete. Pelos acervos da Folha e do Estadão, aparentemente passou a ser usado na imprensa brasileira a partir dos anos 1990s. Talvez referir-se à jabuticaba como sendo exclusividade brasileira seja mais uma jabuticaba (cegueira tipicamente brasileira no que se refere à cultura e eventos nos países vizinhos).
Referências
Brack, P.; Grings, M.; Kinupp, V.; Lisboa, G. & Barros, I. 2011. Espécies arbóreas de uso estratégico para agricultura familiar. (lista preliminar)
Lim, T.K. 2012. Plinia cauliflora. In: Edible Medicinal and Non Medicinal Plants. Vol 3: pp 665-70.
Sobral, M. Alterações nomenclaturais em Plinia (Myrtaceae). Boletim do Museu Botânico de Curitiba, Curitiba, n. 63, p.1-4, 1985.
O que está fora de disputa é que ela é de ocorrência exclusiva em terras tupiniquins, afinal "ser uma jabuticaba" é sinônimo de "só no Brasil" (geralmente com conotação negativa). Será?
Bem, pelos exemplos:
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Benjamin Steinbruch "País diferente" Folha de São Paulo, 9/out/2012, pág. B8
"A jabuticaba dos juros desse país diferente não poderia continuar para sempre."
(No acervo da Folha, de 61 menções à fruta em 2012, pelo menos 7 eram nesse sentido.)
José Roberto de Toledo "É a geografia, estúpido" O Estado de São Paulo, 12/nov/2012, pág. 5
"O voto geográfico não é exclusividade paulistana. Aparece de Manaus a Salvador, diz Marcia Cavallari. Tampouco é uma jabuticaba, um brasileirismo. Nos EUA, é até mais fácil de ver por conta do bipartidarismo."
Ricardo Noblat "Como jabuticaba" Blog do Noblat 11/nov/2008
"Pois a segunda invenção à espera de reconhecimento universal é o vereador pago. O vereador pago é como a jabuticaba, uma fruta genuinamente nacional."
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Além de ocorrência introduzida também na Venezuela e Guiana Francesa, América Central e nos EUA, especialmente na Flórida. (Figura 1.)
Figura 1. Distribuição de jabuticabeira (Plinia cauliflora) - pontos amarelos. Fonte: Discover Life.
Há que se levar em consideração a existência de uma certa confusão taxonômica - o que se reflete na disputa acerca do nome científico. A identificação da jabuticabeira-açu em outros países pode ser errônea. Como a referência à jabuticaba não especifica a espécie, no entanto, certamente não faz sentido atribuir exclusividade da fruta ao território brazuca - seja na distribuição total, seja na distribuição de ocorrência natural.
Além disso, é referida em expressão popular na Bolívia como na canção "Cunumicita":
"Cunumicita linda que tienes ojos de guapurú"
Ou em conto infantil:
"Yazi era muy bella, de largos cabellos oscuros y ojos de guapurú, pero lo que más llamaba la atención de ella era su forma de ser, tan alegre y risueña que hasta el viento le hacía cosquillas."
Com o mesmo sentido de "olhos de jabuticaba" (redondos e negros como jabuticaba).
Mesmo na eventualidade da jabuticaba ser uma introdução mais recente na Bolívia, ela está bem integrada à cultura local - particularmente da região de Santa Cruz. (Negar, assim, que seja a fruta também boliviana seria o mesmo que dizer que feijão com arroz não é um prato típico brasileiro por serem ambos introduzidos: o primeiro da América Central, o segundo, da Ásia.)
Não sei exatamente quando esse sentido se desenvolveu - ainda não se encontra dicionarizado, pelo menos não no Houaiss, no Aurélio, no Michaelis, nem no Aulete. Pelos acervos da Folha e do Estadão, aparentemente passou a ser usado na imprensa brasileira a partir dos anos 1990s. Talvez referir-se à jabuticaba como sendo exclusividade brasileira seja mais uma jabuticaba (cegueira tipicamente brasileira no que se refere à cultura e eventos nos países vizinhos).
Referências
Brack, P.; Grings, M.; Kinupp, V.; Lisboa, G. & Barros, I. 2011. Espécies arbóreas de uso estratégico para agricultura familiar. (lista preliminar)
Lim, T.K. 2012. Plinia cauliflora. In: Edible Medicinal and Non Medicinal Plants. Vol 3: pp 665-70.
Sobral, M. Alterações nomenclaturais em Plinia (Myrtaceae). Boletim do Museu Botânico de Curitiba, Curitiba, n. 63, p.1-4, 1985.
domingo, 12 de maio de 2013
Padecendo no paraíso 3
A galinha tem sido o símbolo por excelência da maternidade e dos cuidados parentais com os filhotes, enquanto o polvo é relegado a representante do submundo (Werness 2006), mas talvez o polvo fêmea fosse um símbolo igualmente ou mais adequado da atenção da mãe à sua cria.
Apesar de os cuidados parentais com ovos serem relativamente raros em organismos marinhos, em várias espécies de polvos - especialmente do gênero Octopus -, as fêmeas apresentam cuidados bastante elaborados. Batham (1957) descreve um caso típico de uma fêmea de Octopus maorum tomando conta de sua massa de ovos em um aquário de Portobello, Nova Zelândia.
Durante todo o período de incubação, a fêmea manteve guarda de sua massa de aproximadamente 7.000 ovos (cimentados no substrato em grupos de 3 a 10 ovos) - saindo para se alimentar provavelmente somente à noite (em outras espécies a fêmea pode deixar completamente de se alimentar, até mesmo recusando alimentos oferecidos pelos criadores). Com movimento dos tentáculos os ovos foram mantidos limpos e sob um leve fluxo de água, ocasionalmente, com o sifão, um jato de água era dirigido aos ovos. Predadores como lesmas marinhas - detectados tanto tátil como visualmente - eram mantidos longe dos ovos com a ajuda dos tentáculos.
A mãe acabou morrendo pouco depois de ocorrer a eclosão das larvas.
Em cefalópodos, tanto machos quanto fêmeas passam por processo de senescência que culmina com a morte dos indivíduos. As fêmeas geralmente passam o período de senescência nesse cuidado com os ovos. Machos senescentes do polvo gigante do Pacífico também param de se alimentar e perdem cerca de 17% de massa corporal antes de morrer; já as fêmeas perdem muito mais: entre 50 e 70% da massa, enquanto tomam conta dos ovos. (Anderson et al. 2002.)
Referências
Anderson RC, Wood JB, & Byrne RA (2002). Octopus senescence: the beginning of the end. Journal of applied animal welfare science : JAAWS, 5 (4), 275-83 PMID: 16221078
Batham, E.J. (1957). Care of eggs by Octopus maorum. Transactions of the Royal Society of New Zealand, 84 (3), 629-638
Werness, H.B. 2006. Hen. In: The Continuum Encyclopedia of Animal Symbolism in World Art. Continuum International Publishing Group. 476 pp.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Mitos na ciência: O que mede o índice de citação de artigo?
"An analysis of several quantative studies show that large parts of the field of bibliometry is not pseudo-science in the Popper sense of the world, as they can be shown to be clearly false."
["Uma análise de diversos estudos quantitativos demonstra que grande parte do campo da bibliometria não é uma pseudociência no sentido popperiano, uma vez que se pode demonstrar que são claramente falsas."]
Esta postagem inaugura uma nova série no GR que aborda crenças arraigadas *dentro* do meio científico.
Mito: "Índice de citações mede a qualidade do artigo."
Status: Altamente duvidoso.
Uma questão importante na ciência e para a sociedade é a medida da produtividade científica. Como grande parte dela é financiada pela sociedade, há satisfações a se dar. O principal produto entregue é o artigo científico - o relato pormenorizado dos achados da pesquisa. Mas há produtos bons e produtos ruins. Como diferenciá-los?
Atualmente, mais de
Na década de 1960 surge o Science Citation Index, um produto proprietário que basicamente listava os artigos incluídos em seu banco de dados juntamente com artigos que os usavam em suas referências bibliográficas. Passando de lista impressa, para versões eletrônicas distribuídas e, então, um banco de dados eletrônico acessível pela internet - e de alimentação manual para atualização automática (através de robôs de leitura de metadados) - o SCI incorporava o índice de citação (quantas menções um artigo recebia ao longo do tempo), metodologia discutida na segunda metade da década de 1950. O argumento era que artigos mais relevantes tenderiam a ser mais citados por outros trabalhos. Sendo, assim, a citação um indicador de qualidade. Ao eliminar a necessidade de leitura e avaliação tediosa de artigo por artigo, o índice de citação tornaria a avaliação da qualidade dos trabalhos muito mais fácil e tremendamente mais barato: um artigo com um número de citação maior do que o outro, naturalmente, teria mais relevância e, portanto, qualidade.
Por décadas, o SCI (inicialmente da Institute for Scientific Information, depois absorvido pela Thomson-Reuters) reinou absoluto, sem concorrentes. Nos último 20 anos, vem ganhando adversários. A Scirus (da Elsevier), o Google Scholar, CiteSeerX e outros.
Mas, a despeito de questionamentos, a suposição básica de que o índice de citações é medida de qualidade da pesquisa permaneceu e se fortaleceu - sendo utilizado por agências de fomento na avaliação da produção dos cientistas.
Não faço a menor ideia do que realmente índices de citação de artigos medem, mas há indicações de que, apesar de frequentemente utilizados como medida de qualidade do trabalho, a relação é tudo, menos direta - talvez até inexistente. Abaixo, uma pequena seleção, longe de exaustiva, mas mais ou menos aleatória de artigos encontrados no Google Scholar pesquisando por: "'citation index' validation", "'citation count' validation", "'citation index' 'paper quality'" e expressões afins. Não consegui encontrar nenhum artigo de meta-análise (mesmo procurando por "'citation index' ''meta-analysis" e afins).
- Wallmark 1986: Compararam-se avaliações por pares (com especialistas internacionais indicados para o estudo) com as citações de trabalhos suecos em 7 áreas. Houve uma correlação de 0,6 entre as classificações dos trabalhos nos dois métodos.
- Callaham, Wears & Weber 2002. 204 artigos (de 493 trabalhos originalmente submetidos a um encontro de medicina de emergência realizado em 1991) foram analisados. A capacidade preditiva geral do número de citações por ano foi baixa (pseudo R2 = 0,14), o principal fator preditivo foi o fator de impacto do periódico em que o trabalho foi publicado, seguido de tamanho amostral (0,265 do poder preditivo do fator de impacto), escore de noticiabilidade (determinado em painel de especialistas, 0,260), uso de grupo controle (0,243), escore de qualidade (determinado em painel de especialistas, 0,158), aceito para apresentação no encontro (0,055), apresentação explícita da hipótese (0,047), retrospectivo vs. prospectivo (0,027), tipo de sujeitos experimentais (0,021), estudo cego (0,007). Aleatorização e resultados positivos não tiveram nenhum poder preditivo.
- Berghmans et al. 2003: 181 artigos (de pesquisa clínica de câncer pulmonar) foram analisados em duas escalas de qualidade (Chalmers e ELCWP). A correlação entre as escalas de qualidade e índice de citação foi fraca (0,21 a 0,38 na escala ELCWP; 0,18 a 0,40 na ELCWP). Autores americanos com mais frequência publicaram em revistas de maior impacto do que europeus e outros não-americanos a despeito de os trabalhos não apresentarem uma qualidade maior.
- Gupta, Nicol & Johnson 2004: Dois especialistas analisaram 94 estudos (publicados entre 1966 e 2002 sobre tratamento de pitiríase versicolor) quanto a parâmetros de qualidade (como aleatorização, cegueira, cálculo apriorístico de tamanho amostral, explicação clara de regimes de tratamento e parâmetros de eficácia bem definidos, no total de 20 pontos). Não foi encontrada relação entre qualidade e número de citações recebidas pelos artigos.
- Nieminen et al. 2006: 448 artigos (publicados em 1996 em 4 revistas de psicologia) foram analisados quanto à qualidade da análise estatística e do relato. Não foi encontrada relação entre os parâmetros analisados e o número de citações recebidas. Após ajuste para o periódico em que foram publicados, uma apresentação mais detalhada dos métodos estatísticos empregados correlacionou-se com maior citação. Análise estatística inadequada não afetou o índice de citação.
- Bornmann et al. 2012: Cerca de 2.000 artigos (manuscritos submetidos à Angewandte Chemie International Edition e publicados na revista ou em outras) foram analisados. Houve correlação entre o número de citações e a pontuação dada pelos revisores sobre a importância dos achados. Desempenho de citação dos artigos nas referências bibliográficas, língua do periódico, subárea da Química e reputação dos autores também correlacionaram-se com o índice de citação.
E abaixo a tradução das principais conclusões de estudo conjunto da União Internacional de Matemática, do Conselho Internacional de Matemática Industrial e Aplicada e do Instituto de Estatística Matemática (Adler et al 2009):
- "Basear-se na estatística não é mais preciso quando a estatística é usada inapropriadamente. De fato, a estatística pode ser enganosa quando mal aplicada e mal compreendida. Muito da bibliometria moderna parece se basear na experiência e na intuição sobre a interpretação e validade das estatísticas de citações.
- Embora os números pareçam ser 'objetivos', sua objetividade pode ser ilusória. O significado de uma citação pode ser ainda mais subjetivo do que a revisão por pares. Como essa subjetividade é menos óbvia para as citações, os que usam dados de citação menos provavelmente compreendem essas limitações.
- A dependência unicamente de dados de citação oferece, no máximo, uma compreensão incompleta e, frequentemente, rasa da pesquisa - uma compreensão que é válida somente quando reforçada por julgamento de outras pessoas. Números não são inerentemente superiores a julgamentos sólidos.
- Para periódicos, o fator de impacto é mais frequentemente utilizado para ranqueamento. Isso é uma simples média derivada da distribuição de citações de uma coleção de artigos do periódico. A média captura apenas uma pequena fração da informação sobre a distribuição e é uma estatística bastante crua. Além disso, há vários fatores concorrentes no julgamento de periódicos pelas citações e qualquer comparação requer cuidado quando se usa o fator de impacto. Usar somente o fator de impacto para avaliar um periódico é como usar apenas o peso para avaliar a saúde de uma pessoa.
- Para artigo, no lugar de se basear na própria contagem de citações para comparar artigos individuais, as pessoas frequentemente substituem pelo fato de impacto dos periódicos em que os trabalhos foram publicados. Elas creem que fatores de impactos mais altos devem significar maior número de citações. Mas muitas vezes não é o caso! Esse é um mau uso pervasivo da estatística que necessita ser desafiado sempre que ocorrer.
- Para cientistas individuais, o registro completo de citações pode ser difícil de comparar. Em consequência, tem havido tentativas de se encontrar estatísticas simples para capturar toda a complexidade desse registro com um único número. O mais destacado dessas tentativas é o índice-h, que parece estar ganhando popularidade. Mas mesmo uma inspeção casual do índice-h e variantes mostra que eles são uma tentativa ingênua de se compreender registros complicados de citações. Ao captarem apenas uma pequena parte da informação sobre a distribuição de citações do cientista, eles perdem informações cruciais para a avaliação da pesquisa."
As coisas complicam quando várias táticas (de eticidade duvidosa) são implementadas com vistas a turbinar os índices principalmente o fisiologismo/camaradagem (troca de citações entre autores) e a autocitação (de autores ou de periódicos). Armadilhas também são criadas como cientistas reorientarem suas pesquisas para áreas com maiores chances de receber menções.
*Upideite(11/05/2013): Corrigido a esta data. 30 mil é, na verdade, uma estimava grosseira de periódicos científicos com revisão por pares existente atualmente.
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Entrevista com uma integrante da Comissão do Futuro - Débora Calheiros
Em 2011, o MCTI anunciou o estabelecimento da Comissão do Futuro, órgão consultivo formado por cientistas e personalidades brasileiros e estrangeiros voluntários com a missão de sugerir melhorias para a Ciência brasileira.
Presidida pelo Prof. Dr. Miguel Nicolelis, uma das primeiras ações da comissão foi a criação de uma rede social. Há também um processo de diagnóstico dos gargalos à prática científica em fase de finalização.
Abaixo, segue uma breve entrevista via email gentilmente concedida por uma das integrantes, a Profa. Dra. Débora Fernandes Calheiros, da Embrapa Pantanal e da UFMT (uma das vozes ativas a questionar as alterações do Código Florestal que fragilizam a proteção à cobertura vegetal nativa).
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GR. Como foi o convite para participar da Comissão do Futuro?
DC. Foi através do MCTI, por indicação do Dr. Miguel Nicolelis.
GR. Quantas reuniões (presenciais ou por videoconferência) foram realizadas desde a instalação da comissão? Quais foram as pautas?
DC. Foram várias reuniões, abordando sobre questões envolvendo a otimização da prática científica no país, valorização do pesquisador e do professor universitário, como, por exemplo, tirar o ônus de toda a administração e contabilidade dos projetos científicos ficarem a cargo unicamente do professor, como ocorre na maioria das instituições de pesquisa, entre outros aspectos.
GR. Existe alguma metodologia dos trabalhos da comissão: Reuniões ou contatos regulares entre os membros ou com representantes do MCTI; acolhimento de sugestões da comunidade científica e acadêmica; levantamento de problemas na pesquisa nacional, etc.?
DC. Cada membro ficou responsável por fazer uma amostragem em sua área de atuação específica. Eu, por exemplo, solicitei informações aos pesquisadores da Embrapa, tendo repassado os resultados à coordenação.
GR. Foi produzido algum documento ou trabalho de aconselhamento para o MCTI? Em caso positivo, qual foi a recepção? Sugestões foram implantadas? Neste momento a comissão está engajada na discussão de algum tema?
DC. Um relatório está sendo finalizado pelo coordenador e em breve será entregue ao governo, sendo informado à sociedade por meio de anúncio público.
GR. Gostaria de acrescentar alguma observação de uma questão que não foi abordada acima?
DC. Obrigada pelo interesse! Maiores detalhes o senhor conseguirá quando o relatório em questão for disponibilizado.
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Presidida pelo Prof. Dr. Miguel Nicolelis, uma das primeiras ações da comissão foi a criação de uma rede social. Há também um processo de diagnóstico dos gargalos à prática científica em fase de finalização.
Abaixo, segue uma breve entrevista via email gentilmente concedida por uma das integrantes, a Profa. Dra. Débora Fernandes Calheiros, da Embrapa Pantanal e da UFMT (uma das vozes ativas a questionar as alterações do Código Florestal que fragilizam a proteção à cobertura vegetal nativa).
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GR. Como foi o convite para participar da Comissão do Futuro?
DC. Foi através do MCTI, por indicação do Dr. Miguel Nicolelis.
GR. Quantas reuniões (presenciais ou por videoconferência) foram realizadas desde a instalação da comissão? Quais foram as pautas?
DC. Foram várias reuniões, abordando sobre questões envolvendo a otimização da prática científica no país, valorização do pesquisador e do professor universitário, como, por exemplo, tirar o ônus de toda a administração e contabilidade dos projetos científicos ficarem a cargo unicamente do professor, como ocorre na maioria das instituições de pesquisa, entre outros aspectos.
GR. Existe alguma metodologia dos trabalhos da comissão: Reuniões ou contatos regulares entre os membros ou com representantes do MCTI; acolhimento de sugestões da comunidade científica e acadêmica; levantamento de problemas na pesquisa nacional, etc.?
DC. Cada membro ficou responsável por fazer uma amostragem em sua área de atuação específica. Eu, por exemplo, solicitei informações aos pesquisadores da Embrapa, tendo repassado os resultados à coordenação.
GR. Foi produzido algum documento ou trabalho de aconselhamento para o MCTI? Em caso positivo, qual foi a recepção? Sugestões foram implantadas? Neste momento a comissão está engajada na discussão de algum tema?
DC. Um relatório está sendo finalizado pelo coordenador e em breve será entregue ao governo, sendo informado à sociedade por meio de anúncio público.
GR. Gostaria de acrescentar alguma observação de uma questão que não foi abordada acima?
DC. Obrigada pelo interesse! Maiores detalhes o senhor conseguirá quando o relatório em questão for disponibilizado.
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segunda-feira, 29 de abril de 2013
Paulo Emílio Vanzolini: no refúgio do samba
“Quando Deus me fez zoólogo sabia o que estava fazendo” Paulo Vanzolini***
Morreu na madrugada de hoje, aos 89/90 anos*, o doutor Paulo Vanzolini em decorrência de complicações de uma pneumonia. Mesmo sendo uspiano, infelizmente não tive nenhum convívio com Vanzolini, mesmo tendo várias aulas com o pessoal do Museu de Zoologia.
Aqui compilo links para alguns textos com homenagens, entrevistas e perfis do herpetosambista ou sambo-herpetólogo:
Agência Fapesp: Paulo Vanzolini morre aos 89 anos***
Curupira: Cobras e lagartos
Darwin e Deus: Vanzo e seus incríveis lagartos evoluídos amestrados***
Diário do Centro do Mundo: O mundo de Paulo Vanzolini era outro***
Dr. Drauzio Varella: Paulo Vanzolini - Brilhante na ciência e na música
Folha: "A Amazônia quer destruir a floresta", diz Vanzolini**
Folha: Livro reúne artigos de Paulo Vanzolini**
Folha: Teve participação direta em momentos-chave da ciência nacional***
Folha: Zoólogo, Vanzolini teve grande importância para a ciência***
Química de Produtos Naturais: Paulo Vanzolini (1924 – 2013)***
Revista Educação: O cientista-poeta**
Teoria de Tudo: O simpático mau humor de Vanzolini
The Drunkeynesian: PauloVanzolini, 1923-2013
*Obs: Algumas fontes dão mesmo
Upideite (29/abr/2013): Entrevista de Paulo Vanzolini ao Brasilianas.org
**Upideite(29/abr/2013): adido a esta data.
***Upideite(30/abr/2013): adido a esta data.
***Upideite(30/abr/2013): adido a esta data.
segunda-feira, 22 de abril de 2013
Perdendo-se na linha fina: como o G1 atribuiu o aquecimento global a causas naturais
Divulgação científica não é tarefa fácil. Trabalho com isso há quase vinte anos e ainda não sei nem um terço dos macetes. Mas ela é fundamental sobretudo em temas que afetam diretamente a vida dos indivíduos. Louvo o trabalho dos jornalistas de ciências que têm um alcance (e uma responsabilidade) muito maior do que a maioria dos blogues (não dá nem para colocar o GR na brincadeira, apesar de contar com a ilustre audiência da fiel leitora e do fiel leitor).
Um desses temas relevantes - e mais ou menos intensamente trabalhado aqui - é a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas. E muitas vezes os jornalistas têm pisado na bola ao dar espaço, além do devido, aos negacionistas climáticos. A situação piora quando cometem erros de divulgação que invertem completamente o sentido de um trabalho (erros de divulgação na mídia, infelizmente, é frequente, a nos valermos de análise do jornalismo de ciências norueguês sobre o clima).
A nosvalermos do basearmos no título e dna linha fina (frases auxiliares de menor destaque que se seguem ao título complementando a informação) de uma reportagem no G1 sobre um trabalho recém-publicado do grupo PAGES (Pasto Global Changes 2k Consortium), seríamos levado a crer que o aquecimento global do último século deve-se às causas naturais (não-antropogênicas).
"Temperatura global no século 20 foi a maior em 1.400 anos, diz estudo
Cientistas analisaram as temperaturas no planeta nos últimos 2 mil anos.
Fato é atribuído a ciclo natural do Sol e a flutuação de erupções vulcânicas."
O primeiro parágrafo fica algo misterioso de entender diante disso:
"Estudo publicado neste domingo (22) na revista 'Nature Geoscience' reconstruiu em escala global as temperaturas do planeta dos últimos 2 mil anos e constatou que o século 20, período em que a influência humana se tornou mais significativa, foi o mais quente em todo o planeta em 1.400 anos."
Se a influência humana se tornou mais significativa, como o Sol e erupções vulcânicas explicam?
Mas segue o texto:
"De 1971 a 2000, a temperatura média ponderada foi maior do que em qualquer outro momento em cerca de 1.400 anos, diz o estudo.
A pesquisa da 'Nature' mostra que o fato pode ser atribuído a ciclos naturais na órbita planetária e a flutuações causadas por erupções vulcânicas e variações na atividade solar."
Ou seja, o G1 reforça o que sugere no título: o aquecimento do último século, em especial dos últimos 30 anos do século passado, seria mesmo causado por fatores naturais e não pela intervenção humana.
Porém, essa leitura é completamente equivocada frente ao que o estudo realmente diz.
A atividade solar e as erupções vulcânicas são mesmo atribuídas como causas da variação de temperatura estudada pelo grupo, mas para explicar o *resfriamento* entre os anos de 1580 e 1880: uma *menor* atividade solar e uma *maior* emissão de partículas por erupções vulcânicas.
No FAQ da página do grupo é explicado:
"The results show that some regions were likely warmer during some decades of the medieval period and Roman times than they were in 1971-2000. Does this suggest that recent warming is part of a natural cycle?
Determining the extent to which recent temperature changes are unusual is different than ascribing them to natural or anthropogenic causes. Because temperatures have been higher during past periods of Earth’s history does not imply that humans activities are not presently influencing climate. The global warming that occurred in the 20th century reversed a long-term global cooling trend. This pre-industrial cooling trend was likely caused by natural factors that continued to operate through the 20th century, making the 20th century warming more difficult to explain without the likely impact of increased greenhouse gasses."
["Os resultados mostram que algumas regiões provavelmente foram mais quentes durante algumas décadas do período medieval e em tempos romanos do que foram em 1971-2000. Isso sugere que o aquecimento recente é parte de um ciclo natural?
Determinar em que extensão as alterações recentes de temperaturas são incomuns é diferente de atribuí-las a causas naturais ou antropogênicas. As temperaturas serem maiores durante períodos anteriores na história da Terra não implica que as atividades humanas não estão influenciando o clima hoje em dia. O aquecimento global que ocorreu no século 20 reverteu uma longa tendência de resfriamento global.EstaEssa tendência de resfriamento pré-industrial provavelmente foi causada por fatores naturais que continuaram a atualatuar através do século 20, fazendo com que o aquecimento do século 20 seja mais difícil de explicar sem o provável impacto de gases-estufa."]
O painel g da figura 4 do trabalho (Figura 1 abaixo) mostra a variação estimada das forçantes radiativas (o quanto contribuem para o aquecimento) dos diferentes fatores.
O vulcanismo e o Sol tiveram valores de forçante oscilante, mas sem tendência de aumento ou diminuição. (Episódios seguidos de baixa na forçante desses fatores puderam ser identificados entre os anos de 1200 e 1800 - que devem ter contribuído para as baixas temperaturas entre 1580 e 1880*.) Somente a forçante de gases-estufa apresenta uma tendência clara de crescimento, sobretudo a partir do século 19.
O aquecimento global e mudanças climáticas jáésão um tema um tanto árido para o público. Piora com o ruído gerado pelos negacionistas. E fica impossível de se compreender corretamente com esse tipo de erro de divulgação.
Obs: Agradecimento a @oatila por ajudar na obtenção do artigo.
*Upideite(23/abr/2013): Adido a esta data.
Um desses temas relevantes - e mais ou menos intensamente trabalhado aqui - é a questão do aquecimento global e das mudanças climáticas. E muitas vezes os jornalistas têm pisado na bola ao dar espaço, além do devido, aos negacionistas climáticos. A situação piora quando cometem erros de divulgação que invertem completamente o sentido de um trabalho (erros de divulgação na mídia, infelizmente, é frequente, a nos valermos de análise do jornalismo de ciências norueguês sobre o clima).
A nos
"Temperatura global no século 20 foi a maior em 1.400 anos, diz estudo
Cientistas analisaram as temperaturas no planeta nos últimos 2 mil anos.
Fato é atribuído a ciclo natural do Sol e a flutuação de erupções vulcânicas."
O primeiro parágrafo fica algo misterioso de entender diante disso:
"Estudo publicado neste domingo (22) na revista 'Nature Geoscience' reconstruiu em escala global as temperaturas do planeta dos últimos 2 mil anos e constatou que o século 20, período em que a influência humana se tornou mais significativa, foi o mais quente em todo o planeta em 1.400 anos."
Se a influência humana se tornou mais significativa, como o Sol e erupções vulcânicas explicam?
Mas segue o texto:
"De 1971 a 2000, a temperatura média ponderada foi maior do que em qualquer outro momento em cerca de 1.400 anos, diz o estudo.
A pesquisa da 'Nature' mostra que o fato pode ser atribuído a ciclos naturais na órbita planetária e a flutuações causadas por erupções vulcânicas e variações na atividade solar."
Ou seja, o G1 reforça o que sugere no título: o aquecimento do último século, em especial dos últimos 30 anos do século passado, seria mesmo causado por fatores naturais e não pela intervenção humana.
Porém, essa leitura é completamente equivocada frente ao que o estudo realmente diz.
A atividade solar e as erupções vulcânicas são mesmo atribuídas como causas da variação de temperatura estudada pelo grupo, mas para explicar o *resfriamento* entre os anos de 1580 e 1880: uma *menor* atividade solar e uma *maior* emissão de partículas por erupções vulcânicas.
No FAQ da página do grupo é explicado:
"The results show that some regions were likely warmer during some decades of the medieval period and Roman times than they were in 1971-2000. Does this suggest that recent warming is part of a natural cycle?
Determining the extent to which recent temperature changes are unusual is different than ascribing them to natural or anthropogenic causes. Because temperatures have been higher during past periods of Earth’s history does not imply that humans activities are not presently influencing climate. The global warming that occurred in the 20th century reversed a long-term global cooling trend. This pre-industrial cooling trend was likely caused by natural factors that continued to operate through the 20th century, making the 20th century warming more difficult to explain without the likely impact of increased greenhouse gasses."
["Os resultados mostram que algumas regiões provavelmente foram mais quentes durante algumas décadas do período medieval e em tempos romanos do que foram em 1971-2000. Isso sugere que o aquecimento recente é parte de um ciclo natural?
Determinar em que extensão as alterações recentes de temperaturas são incomuns é diferente de atribuí-las a causas naturais ou antropogênicas. As temperaturas serem maiores durante períodos anteriores na história da Terra não implica que as atividades humanas não estão influenciando o clima hoje em dia. O aquecimento global que ocorreu no século 20 reverteu uma longa tendência de resfriamento global.
O painel g da figura 4 do trabalho (Figura 1 abaixo) mostra a variação estimada das forçantes radiativas (o quanto contribuem para o aquecimento) dos diferentes fatores.
Figura 1. Reprodução parcial da figura 4 de PAGES 2k Network 2013. Note no painel g, a linha verde (forçante radiativa de gases-estufa).
O vulcanismo e o Sol tiveram valores de forçante oscilante, mas sem tendência de aumento ou diminuição. (Episódios seguidos de baixa na forçante desses fatores puderam ser identificados entre os anos de 1200 e 1800 - que devem ter contribuído para as baixas temperaturas entre 1580 e 1880*.) Somente a forçante de gases-estufa apresenta uma tendência clara de crescimento, sobretudo a partir do século 19.
O aquecimento global e mudanças climáticas já
Obs: Agradecimento a @oatila por ajudar na obtenção do artigo.
*Upideite(23/abr/2013): Adido a esta data.
Traduttore, traditore: silício e silicone
Há cerca de 25 anos, era um erro muito comum nas notícias sobre o Silicon Valley, a região da Baía de São Francisco que concentra empresas de alta tecnologia ser referida como Vale do Silicone. Hoje em dia muito raramente isso ocorre, especialmente no noticiário.
Buscando no acervo da Folha de São Paulo, há 5 registros para "Vale do Silicone" para os anos de 1980 (um em texto da coluna do jornalista econômico Joelmir Beting - Figura 1a); 3 dos anos de 1990 (duas que corrige o mau uso da expressão na TV - Figura 1b e c); e um nos anos 2000 (um uso jocoso do termo em coluna da jornalista Barbara Gancia em 2008). Para os períodos respectivos, "Vale do Silício" aparece 64; 70 e 80 vezes.
No acervo de O Estado de São Paulo, há 5 menções para os anos de 1980, 2 para os anos de 1990 e 1 para os anos 2000. (Nenhum uso é jocoso ou como correção. A ocorrência mais recente é de 2005.) Para "Vale do Silício", há 1 menção para os anos de 1970, 20 para 1980, 139 para 1990 e 399 para 2000.
Mas a troca de 'silício' por 'silicone' ainda ocorre. Principalmente em documentários traduzidos.
Não sei se há restrições orçamentárias que impedem a contratação de um revisor técnico ou talvez o tempo entre o recebimento do material original e a entrega da versão em português seja extremamente curto. Porém, há algumas dicas que permitem ao tradutor não especializado rapidamente saber qual expressão usar.
Em inglês, 'silicon' se refere ao 'silício' (o elemento químico); 'silicone' é 'silicone' (composto polimérico à base de silício, carbono, hidrogênio e oxigênio). A diferença é de apenas uma letra, mas é fácil de se identificar. Se for um material em áudio, é preciso prestar atenção nas diferenças do modo como são pronunciados: 'silicon' é lido como algo entre '/síliquem/' e '/sílican/'; 'silicone' é pronunciado como 'silicôn'.
Nos dois casos, escrito ou falado, o contexto também costuma ajudar. No mais das vezes em que se estiver falando de chip de computador - e semicondutores em geral (como em células fotovoltaicas) -, é silício; para formas de vida alternativa, normalmente também é silício - vida baseada em silício (como alternativa a vida baseada em carbono). Para materiais semelhantes a borracha ou plástico ou a líquidos e géis, tende a ser silicone: espátula de silicone, implante mamário de silicone, silicone automotivo.
Um caso que pode confundir bem é de chips flexíveis de silício. Chips ultrafinos sanfonados são montados sobre plataformas flexíveis como borrachas, permitindo aplicação em superfícies dobráveis ou sujeitas à torção. É preciso prestar atenção se está se referindo ao material do chip ou da base flexível. Por exemplo, em: "Active electrode arrays by chip embedding in a flexible silicone carrier", 'silicone' está bem usado referindo-se ao material flexível feito de silicone.
Buscando no acervo da Folha de São Paulo, há 5 registros para "Vale do Silicone" para os anos de 1980 (um em texto da coluna do jornalista econômico Joelmir Beting - Figura 1a); 3 dos anos de 1990 (duas que corrige o mau uso da expressão na TV - Figura 1b e c); e um nos anos 2000 (um uso jocoso do termo em coluna da jornalista Barbara Gancia em 2008). Para os períodos respectivos, "Vale do Silício" aparece 64; 70 e 80 vezes.
Figura 1. Folha de São Paulo, a) 20/10/1982, pág. 21; b) 16/05/1993, TV Folha pág. 5
No acervo de O Estado de São Paulo, há 5 menções para os anos de 1980, 2 para os anos de 1990 e 1 para os anos 2000. (Nenhum uso é jocoso ou como correção. A ocorrência mais recente é de 2005.) Para "Vale do Silício", há 1 menção para os anos de 1970, 20 para 1980, 139 para 1990 e 399 para 2000.
Mas a troca de 'silício' por 'silicone' ainda ocorre. Principalmente em documentários traduzidos.
Não sei se há restrições orçamentárias que impedem a contratação de um revisor técnico ou talvez o tempo entre o recebimento do material original e a entrega da versão em português seja extremamente curto. Porém, há algumas dicas que permitem ao tradutor não especializado rapidamente saber qual expressão usar.
Em inglês, 'silicon' se refere ao 'silício' (o elemento químico); 'silicone' é 'silicone' (composto polimérico à base de silício, carbono, hidrogênio e oxigênio). A diferença é de apenas uma letra, mas é fácil de se identificar. Se for um material em áudio, é preciso prestar atenção nas diferenças do modo como são pronunciados: 'silicon' é lido como algo entre '/síliquem/' e '/sílican/'; 'silicone' é pronunciado como 'silicôn'.
Nos dois casos, escrito ou falado, o contexto também costuma ajudar. No mais das vezes em que se estiver falando de chip de computador - e semicondutores em geral (como em células fotovoltaicas) -, é silício; para formas de vida alternativa, normalmente também é silício - vida baseada em silício (como alternativa a vida baseada em carbono). Para materiais semelhantes a borracha ou plástico ou a líquidos e géis, tende a ser silicone: espátula de silicone, implante mamário de silicone, silicone automotivo.
Um caso que pode confundir bem é de chips flexíveis de silício. Chips ultrafinos sanfonados são montados sobre plataformas flexíveis como borrachas, permitindo aplicação em superfícies dobráveis ou sujeitas à torção. É preciso prestar atenção se está se referindo ao material do chip ou da base flexível. Por exemplo, em: "Active electrode arrays by chip embedding in a flexible silicone carrier", 'silicone' está bem usado referindo-se ao material flexível feito de silicone.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Triunidos erraremos: como NÃO evoluiu o cérebro humano
A Folha Online fez uma resenha do novo livro do físico Leonard Mlodinow: "Subliminar", que destaca o papel do inconsciente e subconsciente nas decisões e escolhas humanas.
Não li o livro. E não contesto a tese (discutida, aliás, na entrevista da Suzana Herculano-Houzel ao Roda Viva).
Acho estranho é o infográfico que acompanha a reportagem-resenha, cujo texto reproduzo abaixo:
"Os três cérebros: Cada parte do órgão tem funções específicas.
1. Reptiliano: Região primitiva presente em vertebrados (aves, répteis, anfíbis, peixes e mamíferos). É responsável por funções de sobrevivência: atividade de órgãos ou reflexos como fugir
2. Sistema límbico. Áreas relacionadas à percepção social inconsciente, à regulação de emoções, aos relacionamentos e ao impulso sexual. Comum a todos os mamíferos.
3. Neocórtex. Massa cinzenta que diferencia os humanos de outros seres vivos. É o lugar relacionado à consciência e ao raciocínio lógico.
Fonte: Leonardo Mlodinow, físico autor de 'Subliminar'"
É basicamente a Teoria do Cérebro Triuno de Paul D. MacLean. Pela teoria, o cérebro humano reflete as relações de ancestralidades carregando estruturas formadas sequencialmente durante sua evolução, com três estágios de estabilidade relativamente longa da evolução do cérebro vertebrado refletindo-se na estruturação do cérebro humano.
A teoria de MacLean tem seus (sérios) problemas, mas o texto acima do infográfico tem mais.
Há questões quase semânticas como o uso do termo primitivo; outras mais graves envolvem erros factuais: o sistema límbico é, de fato, comum a todos os mamíferos, mas não quer dizer que *apenas* mamíferos os tenha, répteis têm também sistema límbico. De fato, Bruce e Neary (1995) concluem que o ancestral em comum dos mamíferos e répteis teria já um sistema límbico bem desenvolvido.
Tampouco o neocórtex é exclusivo de seres humanos, como é dado a entender do texto. Um neocórtex com 6 camadas de células já estaria presente nos primeiros mamíferos (Northcutt e Kaas, 1995). De fato, em humanos é uma camada bem desenvolvida e convoluta. Mas o de golfinhos também é bem desenvolvido (vide, p.e., Figura 2 de Krubitzer e Kahn, 2003).
Mesmo que dividamos o cérebro de humanos nessas três grandes estruturas, elas estava presentes já nos primeiros mamíferos (na verdade já no ancestral em comum entre répteis e mamíferos) - a diferença do cérebro humano, então, reside, não na estruturação, mas na organização e tamanho.
O infográfico credita as informações ao texto de Mlodinow. Se assim for, é um ponto fortemente negativo para o físico. Seu "O Andar do Bêbado" é muito bom e recomendo. Mas, embora não tenha lido "Subliminar", se ele se baseia na teoria do cérebro triuno, torço mesmo o nariz que não tenho.
Não li o livro. E não contesto a tese (discutida, aliás, na entrevista da Suzana Herculano-Houzel ao Roda Viva).
Acho estranho é o infográfico que acompanha a reportagem-resenha, cujo texto reproduzo abaixo:
"Os três cérebros: Cada parte do órgão tem funções específicas.
1. Reptiliano: Região primitiva presente em vertebrados (aves, répteis, anfíbis, peixes e mamíferos). É responsável por funções de sobrevivência: atividade de órgãos ou reflexos como fugir
2. Sistema límbico. Áreas relacionadas à percepção social inconsciente, à regulação de emoções, aos relacionamentos e ao impulso sexual. Comum a todos os mamíferos.
3. Neocórtex. Massa cinzenta que diferencia os humanos de outros seres vivos. É o lugar relacionado à consciência e ao raciocínio lógico.
Fonte: Leonardo Mlodinow, físico autor de 'Subliminar'"
É basicamente a Teoria do Cérebro Triuno de Paul D. MacLean. Pela teoria, o cérebro humano reflete as relações de ancestralidades carregando estruturas formadas sequencialmente durante sua evolução, com três estágios de estabilidade relativamente longa da evolução do cérebro vertebrado refletindo-se na estruturação do cérebro humano.
A teoria de MacLean tem seus (sérios) problemas, mas o texto acima do infográfico tem mais.
Há questões quase semânticas como o uso do termo primitivo; outras mais graves envolvem erros factuais: o sistema límbico é, de fato, comum a todos os mamíferos, mas não quer dizer que *apenas* mamíferos os tenha, répteis têm também sistema límbico. De fato, Bruce e Neary (1995) concluem que o ancestral em comum dos mamíferos e répteis teria já um sistema límbico bem desenvolvido.
Tampouco o neocórtex é exclusivo de seres humanos, como é dado a entender do texto. Um neocórtex com 6 camadas de células já estaria presente nos primeiros mamíferos (Northcutt e Kaas, 1995). De fato, em humanos é uma camada bem desenvolvida e convoluta. Mas o de golfinhos também é bem desenvolvido (vide, p.e., Figura 2 de Krubitzer e Kahn, 2003).
Mesmo que dividamos o cérebro de humanos nessas três grandes estruturas, elas estava presentes já nos primeiros mamíferos (na verdade já no ancestral em comum entre répteis e mamíferos) - a diferença do cérebro humano, então, reside, não na estruturação, mas na organização e tamanho.
O infográfico credita as informações ao texto de Mlodinow. Se assim for, é um ponto fortemente negativo para o físico. Seu "O Andar do Bêbado" é muito bom e recomendo. Mas, embora não tenha lido "Subliminar", se ele se baseia na teoria do cérebro triuno, torço mesmo o nariz que não tenho.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Especulando: Regulamentação da profissão de cientista = valorização do trabalho?
A neurobióloga Suzana Herculano-Houzel havia lançado seu manifesto para o reconhecimento de "cientista" como profissão. Expôs rapidamente sua ideia em entrevista recente ao Roda Vida da TV Cultura de São Paulo (só no quarto bloco teve a oportunidade*).
Após o programa, um deputado entrou em contato com a cientista para discutir a proposição de uma lei de regulamentação da profissão de cientista. Herculano-Houzel está fazendo uma enquete com seus leitores para preparar sua apresentação no Congresso Nacional.
Pelos compartilhamentos no twitter, facebook e G+, vários colegas e conhecidos meus, a maioria pós-graduando ou recém pós-graduados, estão animados.
Eu não tenho barba, mas as coloco um pouco de molho. Expus mais detalhadamente minhas discordâncias (e concordâncias) com a proposta de SHH aqui mesmo no GR.
Ainda é fase inicial e não sei se e como serão ouvidas outras partes na elaboração desse projeto de lei. A impressão que tenho é que o andar da carruagem está em um ritmo acelerado - mais do que sugeriria a prudência em uma estrada esburacada que se atravessa.
A minha sugestão é que, afinal estamos lidando com cientistas, apliquemos uma metodologia científica por excelência: teste-controle com divisão aleatorizada dos sujeitos. *Antes* de se fazer qualquer lei, testemos a hipótese central da proposta de SHH: regime de contrato para pesquisa em vez de docência nas IES públicas e pós-graduação profissionalizada. Teríamos algumas instituições em que se trabalharia com o regime atual e outras com o novo regime proposto. Os candidatos passariam em um concurso comum e, posteriormente, seriam encaminhados a um ou outro sistema**. Ao fim do período do experimento, compararíamos os resultados. Não sei qual alfa deveríamos usar nos testes estatísticos de comparação: se o 5% tradicional, um maior (10%?) ou um mais rigoroso (1%?). Tendo a ser favorável a uma condição mais liberal: um alfa de 10%, no caso.
Infelizmente não seria possível trabalharmos com um teste duplo cego. Não seria nada cego, aliás, já que os sujeitos experimentais saberiam exatamente em qual sistema estariam engajados. E demandaria mais pelo menos uns 10 anos para uma condição minimamente razoável de comparação.
De todo modo, creio que seria melhor ter uma base empírica antes de sair modificando todo um sistema que, com todos os seus defeitos, não é completamente disfuncional.
*Upideite(03/abr/2013): adido a esta data.
**Upideite(03/abr/2013): haveria uma questão trabalhista a se superar - a possibilidade de se usar um mesmo concurso para dois regimes diferenciados de trabalho com posterior alocação. Uma opção menos ideal, seria a realização de dois concursos separados e acompanhamento de grupos que sejam socioeconomicamente similares.
Após o programa, um deputado entrou em contato com a cientista para discutir a proposição de uma lei de regulamentação da profissão de cientista. Herculano-Houzel está fazendo uma enquete com seus leitores para preparar sua apresentação no Congresso Nacional.
Pelos compartilhamentos no twitter, facebook e G+, vários colegas e conhecidos meus, a maioria pós-graduando ou recém pós-graduados, estão animados.
Eu não tenho barba, mas as coloco um pouco de molho. Expus mais detalhadamente minhas discordâncias (e concordâncias) com a proposta de SHH aqui mesmo no GR.
Ainda é fase inicial e não sei se e como serão ouvidas outras partes na elaboração desse projeto de lei. A impressão que tenho é que o andar da carruagem está em um ritmo acelerado - mais do que sugeriria a prudência em uma estrada esburacada que se atravessa.
A minha sugestão é que, afinal estamos lidando com cientistas, apliquemos uma metodologia científica por excelência: teste-controle com divisão aleatorizada dos sujeitos. *Antes* de se fazer qualquer lei, testemos a hipótese central da proposta de SHH: regime de contrato para pesquisa em vez de docência nas IES públicas e pós-graduação profissionalizada. Teríamos algumas instituições em que se trabalharia com o regime atual e outras com o novo regime proposto. Os candidatos passariam em um concurso comum e, posteriormente, seriam encaminhados a um ou outro sistema**. Ao fim do período do experimento, compararíamos os resultados. Não sei qual alfa deveríamos usar nos testes estatísticos de comparação: se o 5% tradicional, um maior (10%?) ou um mais rigoroso (1%?). Tendo a ser favorável a uma condição mais liberal: um alfa de 10%, no caso.
Infelizmente não seria possível trabalharmos com um teste duplo cego. Não seria nada cego, aliás, já que os sujeitos experimentais saberiam exatamente em qual sistema estariam engajados. E demandaria mais pelo menos uns 10 anos para uma condição minimamente razoável de comparação.
De todo modo, creio que seria melhor ter uma base empírica antes de sair modificando todo um sistema que, com todos os seus defeitos, não é completamente disfuncional.
*Upideite(03/abr/2013): adido a esta data.
**Upideite(03/abr/2013): haveria uma questão trabalhista a se superar - a possibilidade de se usar um mesmo concurso para dois regimes diferenciados de trabalho com posterior alocação. Uma opção menos ideal, seria a realização de dois concursos separados e acompanhamento de grupos que sejam socioeconomicamente similares.
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