SNCT 2015

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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Oras bolas. Microesferas alienígenas como sementes panespérmicas? Short answer: Não.

Revista Galileu foi na onda do site do tabloide inglês Daily Express e publicou a matéria:
"Esfera de metal vinda do espaço expele material biológico e intriga cientistas"*

(Pausa. 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10... Inspira. Expira. Inspira. Expira...)

Nada disso teria ocorrido se o Pica Pau tivesse avisado às autoridades tivessem seguido o protocolo alfa de notícia sobre astrobiologia, já publicado anteriormente no GR, mas reproduzido abaixo.

Figura 1. Reduza 83+/-24% dos micos do noticiário de astrobiologia com este simples diagrama.

A bizarrice está resumida no... bem, resumo do "artigo" (ahem) "científico" publicado, onde mais?, no Journal of Cosmology.

"A sphere of diameter 30 microns was isolated from the stratosphere at a height of between 22–27 kilometres. It was found to be mainly composed of titanium (with smaller amounts of vanadium). Nanomanipulation and EDX analysis showed that the titanium sphere contains a carbonaceous non-granular material which we suggest is a biological protoplast. Damage to the surface of the sphere revealed a carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature. The titanium sphere produced a distinct impact crater when it impacted the carbon sampling stub. We conclude by suggesting that this largely titanium sphere contains biological elements which impacted the sampling stub at speed as it made the journey from space to the stratosphere."
["Uma esfera de diâmetro de 30 mícrons foi isolada da estratosfera a uma altitude entre 22 e 27 quilômetros. Descobriu-se que ela é composta principalmente por titânio (com uma quantidade menor de vanádio). Nanomanipulação e análise por EDX mostraram que o titânio da esfera contém um material carbonáceo não granular que sugerimos ser um protoplasma biológico. Dano na superfície da esfera revelou um material carbonáceo, filamentoso com uma 'aparência tricotada', que também sugerimos ser de natureza biológica. A esfera de titânio produziu uma distinta cratera de impacto quando chocou-se contra o suporte de amostragem de carbono. Concluímos sugerindo que esta esfera composta principalmente de titânio contém elementos biológicos que se chocou contra o suporte de amostragem a alta velocidade enquanto fazia sua jornada do espaço para a estratosfera."]

Meodeos, liga de titânio e vanádio... só pode ser tecnologia <voz do grego louco
Tsoukalos mode on>ALIEN <voz do grego louco Tsoukalos mode off>. Não é algo que a Nasa usaria, por exemplo, nos escudos térmicos de suas naves:
"Temperatures will climb highest at the bottom of the Orion capsule, which will be pointed into the heat as it returns to Earth. The heat shield is built around a titanium skeleton and carbon-fiber skin that gives the shield its shape and provides structural support for the crew module during descent and splashdown." (Grifos meus.)
["As temperaturas irãoá subir ao máximo na parte debaixo da cápsula Orion, que estará voltada para o calor quando retornar para a Terra. O escudo de calor é construído em torno de um esqueleto de titânio com peleo de fibra de carbono que confere ao escudo sua forma e confere apoio estrutural ao módulo de tripulação durante sua descida e impacto na água."]

Ok, não é da Nasa, é da Lockheed Martin.

Liga de titânio-alumínio-vanádio como Ti-6Al-4V é usada em artefatos espaciais - (em uma das figuras do artigo, de espectrometria EDX - energy-dispersive X-ray spectroscopy - da liga, há um pico correspondente a alumínio, por algum motivo, não mencionam no texto - figura 2 desta postagem) - e, em sua composição, há traços de carbono e nitrogênio que os autores encontraram.

Figura 2. Aparência da microesfera metálica (painel A) e composição da liga metálica (painel B). O X é uma protuberância de material de composição distinta (rica em carbono). Fonte: Wainwright et al. 2014.

Não afirmo que seja exatamente de um escudo de calor, mas o que acharam pode perfeitamente serem restos desprendidos de um artefato que mandamos para o espaço. O balão utilizado no "experimento" dos autores foi lançado no dia 31 de julho de 2013.

Nessa data, o cargueiro espacial Progress M-023M fez uma reentrada destrutiva na atmosfera depois de levar suprimentos para a EEI. Outro objeto espacial a fazer reentrada no mesmo dia foi o corpo do foguete Delta 2. (Não sei se esses objetos especificamente contêm partes com titânio e glúten fibras de carbono, mas vários outros objetos espaciais reentram todo dia na atmosfera.)

Grifei também "fibras de carbono" porque os autores do "artigo" "científico" falaram em: "carbonaceous, filamentous material, having a 'knitted appearance', which we also suggest is biological in nature".

No texto: "The particles of terrestrial origin also do not possess the 'knitted' layer of the LSO and any carbon they might contain would also likely be in the form of solid, granular soot particles which is not consistent with the organic ooze released from the LSO."["As partículas de origem terrestre também não têm a camada 'tricotada' do LSO - large spherical object, objeto esférico grande - e todo o carbono que elas contenham provavelmente estaria na forma de partículas de fuligem sólidas e granulares o que não é consistente com o limo orgânico liberado pelo LSO"] (Veja figura 3 desta postagem.)

Figura 3. Aparência do simbionte alienígena do uniforme negro do Homem-Aranha do material rico em carbono associado às esferas metálicas. Fonte: Wainwright et al. 2014

Aparentemente os autores acham que nanofibra de carbono é material extraterrestre.

Sério, os autores nem tentaram. O pessoal da Galileu também não. Não dá pra desculpar muito os jornalistas agora - não é a primeira vez que o Journal of Cosmology apronta: e, além dos impostos e da morte, podemos ter certeza também de que não será a última.

Via @OLucasConrado tw e Lúcia Eneida fb.

Upideite (22/fev/2015): Gilmar Lopes também comenta a nãotícia no e-farsas. Eu só discordo dos exemplos que ele traz de outros casos de esferas de titânio. Na verdade são esférulas de grafita de corpos celestes - como asteroides - com *traços* de titânio na forma de cristais de carbeto de titânio.

Upideite(25/fev/2015): Vou cravar a natureza dessa microesfera de titânio: é uma esfera de pó de liga de titânio Ti-6Al-4V grau 23: que apresenta diâmetros entre 17,36 e 44,31 µm. Esse pó é usado, por exemplo, para impressão 3D de objetos metálicos - geralmente com fusão (sinterização) com laser. O processo de sinterização leva a uma alteração da microestrutura e pode produzir poros. A microestrutura após a sinterização por tratamento térmico é muito similar à encontrada pelos autores (figuras 4a e 4b desta postagem).

a)
b)
Figura 4. a) Textura da esfera analisada por Wainwright et al. 2014. b) Alteração da textura por efeito da sinterização. Fonte: Reig et al. 2013.

A metalurgia de pó tem sido usada, por exemplo, para produzir compósitos de matriz de titânio reforçada por fibras de carbono.

Cuidado! Semente alien! Fonte: CNET.
Ou seja, a microesfera provavelmente é tão alienígena quanto o Banguela que os cientistas imprimiram para dar para uma garotinha que pediu a eles um dragão.

*Upideite(25/fev/2015): Em uma atitude louvável a Galileu acrescentou uma atualização de cautela na matéria.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um conto de Carnaval: O dia em que Richard Feynman desfilou em uma "escola de samba" no Rio

Not Richard Feinman (sic). Crédito: @oatila.
Depois de uma rápida passagem em 1949, Richard Feynman retornou o Brasil lecionando eletromagnetismo por 10 meses no recém-fundado Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, no Rio de Janeiro.

Conversando com um funcionário da embaixada dos Estados Unidos, comentou que, em sua primeira estada no Brasil, tomou contato com o samba. O homem disse que tinha um grupo que se reunia em seu apartamento para ensaiar e o convidou.

No Carnaval, Feynman saiu nos "Farsantes de Copacabana" tocando um instrumento hoje raramente utilizado: a frigideira. Em suas memórias, "O Senhor Está Brincando, Sr. Feynman?" (ou “Deve ser Brincadeira, Sr. Feynman!”, na edição da Editora da UnB), o cientista chama o bloco de "escola de samba".

Os Arquivos da Caltech tem uma fotografia que registra Feynman fantasiado no Carnaval carioca em 1952 (não sei se ele estava fantasiado em diabão).

Não seria o último festejo por estas paragens. Em edição de 24/fev/1966, o Jornal do Brasil, registra, entre outros flagrantes da comemoração de Momo, "Feygman: [sic] Premio Nobel de Física, entre pernas e garrafas" (página 2, Caderno B) - tocando agora, não uma frigideira, mas um tamborim. (Veja mais detalhes dessa passagem no Nightfall in Magrathea de Alan Mussoi.)

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Entrevista com uma educadora - Gladys Beatriz Barreyro

A Profa. Dra. Gladys Beatriz Barreyro é professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da USP. Em razão da reportagem sobre rankings universitário na edição da revista ComCiência sobre Avaliações de Ensino, ela gentilmente concedeu uma entrevista por email sobre o tema. Abaixo reproduzo a entrevista no íntegra - já que nem tudo coube no texto da reportagem.

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1) Um comitê norueguês classificou os rankings como inúteis em função da subjetividade dos pesos atribuídos aos itens aferidos e falta de transparência da metodologia. A senhora concorda com essas críticas? É possível se corrigir essas limitações?

GB. Os rankings internacionais têm a função de hierarquizar universidades de pesquisa. Eles recebem muitas críticas pela metodologia, que às vezes muda de edição a edição e que privilegia a pesquisa, não considera ou minimiza o ensino, ignoram ciências sociais ou humanidades, consideram apenas as publicações em inglês ou a quantidade de prêmios Nobel, ou seja, simplificam as atividades das instituições de educação superior e as padronizam.

Concordo com essas críticas.

O “sucesso” deles é porque simplificam os resultados e, num mundo competitivo, comparam as instituições e isso facilita a divulgação, a compreensão e tem apelo de público e de mídia.
Quanto a corrigir as limitações, sugiro que pergunte aos adoradores e defensores dos rankings!

2) Quais as consequências - positivas ou negativas - de se moldar políticas públicas para o ensino superior moldados em rankings universitários?

GB. Se são utilizados os rankings como único elemento, dadas suas limitações e falhas, teremos dados falhos no diagnóstico ao momento de elaborar uma políticas pública.

Indo ao caso brasileiro, como não há rankings oficiais, se as políticas se basearam em resultados de rankings internacionais elas teriam todos esses problemas, mas o fato de ignorar as prioridades nacionais para a educação superior, estariam baseados apenas em critérios externos. Além disso, no Brasil existem distintos tipos de instituições não apenas as universidades para as quais a indissociabilidade pesquisa-ensino-extensão é um requisito.

A questão da equidade no acesso à educação superior tem sido uma das prioridades de política na última década e ela não foi produto da influência de nenhum ranking internacional, pois não é um quesito considerado neles, porém tem sido uma prioridade nacional.

Além disso, não deve ser esquecida a autonomia das universidades quando se pensa em políticas públicas para a educação superior.

3) Com frequência quando se estabelecem classificações e medidas de avaliação, há tentativas de burla do sistema: como contratação de mestres e doutores em época de avaliação e demissão após o período. Considera que esses rankings são robustos contra a estratégia do "gaming" dos parâmetros e das burlas?

GB. Os rankings, pelos menos os internacionais mais “famosos”, com maior divulgação, priorizam pesquisa, geralmente considerando o número de publicações, prêmios Nobel, etc. então não estão interessados no número de mestres e doutores. A questão da titulação de mestres e doutores, da condição de tempo integral ou horista é relevante na avaliação da educação superior brasileira, notadamente para o Sistema Nacional da Educação Superior – SINAES, esse é um parâmetro importante para a avaliação de cursos e de instituições. Ele é imporatante na composição do indicador – CPC (conceito preliminar de curso) que mostra resultados da avaliação dos cursos no Brasil.

4) Em relação ao Enade, considera que a avaliação tem atingido o objetivo de mensurar a qualidade dos cursos e das IES brasileiras? Em caso negativo, quais as falhas principais e o que considera que deveria ser feito? Em caso positivo, há melhorias a serem feitas (quais)?

GB. Quem avalia a qualidade dos cursos e das IES brasileiras é o SINAES (Sistema de Avaliação da Educação Superior Brasileira) do qual o ENADE é apenas um dos instrumentos, junto à avaliação de instituições e cursos.

O exame ENADE avalia os alunos, ou melhor, os resultados da aprendizagem dos alunos. Isto não pode ser confundido com a qualidade de cursos e instituições, apenas é um componente. Contudo, com a criação de índices como o CPC que considera os resultados do ENADE e os supervaloriza, lamentavelmente, ele extrapola sua função. Tem que se considerar os três elementos da avaliação tal como o SINAES propõe.

Além disso, as próprias instituições devem criar uma cultura de avaliação, se auto-avaliarem e se preocupar com a qualidade. E os usuários da educação superior deveriam ser mais exigentes quanto a isso, especialmente naquelas de escassa qualidade.Finalmente, a mídia destaca excessivamente os resultados nos rankings internacionais, mas dedica pouco espaço a matérias serias sobre qualidade e sobre o Brasil, destacando casos negativos ou propondo que se copie o sistema de educação superior de X país, ignorando as diferenças entre os países.
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Este trabalho foi desenvolvimento com apoio financeiro da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência), sob supervisão da Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Mais uma... ou melhor (ou pior) menos uma: RIP Unesp Ciência? - A reposta

Em função dos rumores do fim da revista Unesp Ciência, entrei em contato com a Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp. Abaixo seguem as respostas gentilmente enviadas por email pelo Prof. Dr. Oscar Alejandro Fabian d'Ambrosio, assessor-chefe da ACI-Reitoria da Unesp.

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A Revista Unesp Ciência não vai acabar. Pelo contrário, a publicação manterá o nome, mas será sim reformulada a partir de março. Isso significa que será um novo produto, nem pior ou melhor, categorias simplistas, mas diferente. A redução de três jornalistas da equipe dá-se no contexto do momento orçamentário e financeiro das universidades estaduais paulistas. Manter a qualidade da Revista Unesp Ciência é um compromisso, mas dentro de um novo projeto, aprimorando virtudes e tendo como meta uma maior proximidade com o público interno, sem se afastar do externo, além de uma nova página na internet e de um projeto de ação para mídias sociais, algo inexistente até o momento.

A migração progressiva do papel para online se dá no espírito de maior respeito ao meio ambiente, com a redução do corte de árvores, e do desenvolvimento de uma atuação maior nas mídias sociais. De agosto de 2014 a janeiro de 2015, essa nova política gerou, nos veículos oficiais da Reitoria, métricas com aumentos da presença da instituição da ordem de 35% no facebook; 70,4% no Instagram; e 15,4% no Twitter. 

Os profissionais responsáveis pelo novo projeto gráfico são Ricardo Miura e Andrea Cardoso, ambos da equipe anterior. Os jornalistas que passam a escrever e a fotografar para a publicação têm ampla experiência em divulgação cientifica e em universidade pública. Além disso, haverá maior participação de assessores de imprensa das diferentes unidades, da universidade, assim como de seus institutos e núcleos localizados nas 24 cidades que integram a Unesp.

As decisões editoriais (pautas, abordagens) mantêm plena autonomia, mas passarão a ter maior interação aos outros produtos da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp, a saber Portal Unesp, Jornal Unesp, Podcast Unesp, Minuto Unesp e Mídias Sociais, todos alinhados a Política de Comunicação Social da Universidade, a ser votada em breve pelo Conselho Universitário, órgão máximo da instituição (aliás esta, creio, seria uma ótima pauta para vocês! Avalie).

Sobre a distribuição da revista para a rede pública, ela era encaminhada aos diretores das escolas de ensino médio, já que seria impossível, pela tiragem necessária atender todos os alunos de ensino médio do Estado de São Paulo. A progressiva migração do papel para o online inclui uma campanha junto aos mencionados diretores de como a revista, ao ser bem divulgada pela Unesp e por eles, na internet, tem o potencial de atingir mais leitores e com maior interação do que uma publicação impressa.

Espero ter atendido as suas indagações e fico à disposição se não fui claro em alguma reposta.
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Mais uma... ou melhor (ou pior) menos uma: RIP Unesp Ciência?

Não é novidade a crise por que passa o mercado editorial periódico brasileiro de modo geral, e, também de modo geral, o jornalismo brasileiro. E, em particular, o mercado editorial brasileiro de divulgação científica e o espaço para o jornalismo científico na imprensa brasileira.

Redações têm sido fechadas, editorias e veículos que se vão ou precisam passar por downsizing para redução de despesas (e consequente redução de qualidade - embora haja quem diga que a relação causal seja inversa).

Mas parece que a crise agora afeta também a divulgação científica institucional. Mesmo não estando diretamente ao sabor da flutuação do mercado: afinal são mantidas com verbas de universidades - em particular das públicas - ainda que possam estar sujeitas ao humor do corpo diretor e da reitoria, normalmente são tidas como instituições que agregam prestígio às IES e, por tabela, aos diretores.

A revista Unesp Ciência é vítima da retração que assola a DC no Brasil. Sabine Righetti, jornalista da Folha (especializada em ciências, atualmente mais voltada à educação superior e políticas no setor) publicou em sua TL no twitter o fim da revista:
Não tenho detalhes. O twitter oficial deles está mudo desde set.2013. No blogue a postagem mais recente corresponde à última edição da revista, dez.20145. O mesmo com a página no facebook.

Perguntei para uma colaborada freelancer da revista. Ela também não tem mais informações, apenas confirma o encerramento da Unesp Ciência.

Rodrigo de Oliveira Andrade, jornalista de ciências freelancer (escreve pro SciDev.net), pelo twitter, diz que a revista não acabou - mas a equipe foi dispensada:
Como trabalhariam sem equipe? Contratarão outros? Utilizarão bolsistas (a ComCiência usa essencialmente essa metodologia)? Valerão apenas de freelancers? Nota de agência? (Até é possível manter um site noticioso ou mesmo um jornal com material de agências, mas revista é - ou deveria ser - diferente; textos exclusivos, mais elaborados, mais extensos. Senão vira almanaque.)

Atualizarei esta postagem à medida em que conseguir obter mais informações.

(Ainda tenho esperança de que seja um anúncio precipitado como foi com o caso da revista Quanta.)

Upideite(30/jan/2015): Segundo o twitter oficial da Unesp, a revista continuará:
A se ver o que significa o "normalmente". Pelas informações de fontes diversas, o que o Rodrigo Andrade disse se confirma: o editordiretor de redação e os dois jornalistaseditores assistentes (a equipe de texto) foram dispensados.

Estou vendo se a versão impressa irá continuar e se haverá mudança na linha editorial.

Upideite(10/fev/2015): Oscar d'Ambrosio, assessor-chefe da Assessoria de Comunicação e Imprensa da Unesp, responde a algumas das questões sobre o futuro da Unesp Ciência.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Uma breve (subjetiva e altamente incompleta) história dos blogues brazucas de ciências

*Uma* história. Não *a* história. Há várias que podem ser contadas. Todas certamente parciais. Uma pretensão é que esta postagem motive que elas sejam contadas.

A motivação *desta* postagem é uma notícia que eu considero boa, o Dr. Nicolelis anunciou que criará um blogue de divulgação científica.




Louvável iniciativa de um cientista do porte de Nicolelis, aguardo com ansiedade o início do blogue. Mas, terá notado o leitor atento (como são todos os leitores do GR), o lapso ali do "primeiro Blog de Ciência a mostrar os bastidores da vida científica e o potencial impacto social da ciência no mundo".

Que me desculpe o bom doutor, mas, o GR faz isso e, nem de longe, é o primeiro blogue. Grande parte dos blogues de ciências faz isso. Mesmo que de modo involuntário, deixar isso passar é contribuir com uma falsificação inaceitável da história dos blogues filomáticos brazucas (e lusofônicos).

Resgato aqui, então, uma parte dessa história.

Há uma disputa a respeito de qual teria sido o primeiro blogue no mundo. Provavelmente surgiu em algum momento entre 1994 e 1995 (ainda que as raízes possam ser traçadas até a década de 1970). Parte do problema é de definição e conceito de blogues, parte é da volatilidade dos registros na internet - sites inteiros somem da noite para o dia com poucos traços ou até nenhum. (O que me remete à necessidade de uma iniciativa de arquivamento de blogues de ciências.)

Bora Zivkovic alerta que "Pin-pointing the exact date when the first science blog started is a fool’s errand". Mas alguns consideram que o "Astronomy Picture of the Day" (APOD para os íntimos) criado em 1995 por Robert Nemiroff e Jerry Bonnell, da Nasa, possa ser considerado o primeiro blog (e fotolog) de ciências. Outros, que foi o "This Week's Finds in Mathematical Physics" do matemático John Baez, mantido de jan/1993 a ago/2010.

Segundo relato da webentidade, Alexandre Inagaki, o primeiro blogue escrito por um brasileiro (em inglês) foi o Delights to Cheer, da gaúcha Viviane Vaz de Menezes, em fev/1998.

Em um levantamento que Sibele Fausto, Osame Kinouchi e eu estamos fazendo, até o momento o blog de ciências (e temas correlatos) brasileiro mais antigo é o Ceticismo Aberto, de Kentaro Mori, com a primeira postagem de jan/2001. Ênfase no, "até o momento".

Em 2006 já havia uma pequena massa crítica de blogues lusófonos de ciências para levar à necessidade de criação de um canal de diálogo entre eles. O Roda de Ciência surgiu para suprir essa demanda.

Em ago/2008 nascia o Lablogatórios - por iniciativa de Carlos Hotta e Átila LIamarino, o primeiro condomínio de blogues científicos em lusofonia (especialmente em pt-br), que logo depois iria se tornar o Scienceblogs Brasil.

Também em 2008, Kinouchi, do Semciência, criou o "Anel de Blogs Científicos" para catalogar os blogues de ciência em língua portuguesa - com o intuito de servir de base para estudos científicos sobre a mídia.

No fim de 2008, entre os dias 11 e 12 de dezembro, era realizado o 1° Euclipo (EWCLiPo - Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa), em Ribeirão Preto-SP. A 2a edição (e até o momento a última) ocorreria ente 25 e 27 de setembro de 2009, no Arraial do Cabo-RJ.

Em algum momento entre 2008 e 2010 parece ter ocorrido uma inflexão no ritmo de crescimento da blogocúndia cientófila brasileira. O que tentativamente chamei de crise, mas pode ser um artefato ou um processo de amadurecimento.

*Em 2014, são criados dois agregadores/planets de blogs: o Bolsão de Blogs, de Rubens Pazza, e o Periódico, de Filipe Saraiva - seguindo a discussão sobre blogagem (e crise de postagens) iniciada por Mariana Fioravanti, do Polimerase de Mesa (e agora do Dinobótico).

Como eu disse no começo, esta não é *a* história. Há omissões - nem sempre propositais (não sou profundo conhecedor da história dos blogues brasileiros e lusófonos de ciências). Fiquem à vontade para acrescentar seus capítulos. (Quem resolver escrever sobre ela, passe o link nos comentários que listarei abaixo. Fiquem também à vontade para fazer suas observações nos comentários.)

Que a entrada de um player de peso sirva para dar um boost na comunidade, que atraia novos interessados, que reanime os velhos guerreiros das primeiras gerações. Que sirva de marco para uma nova etapa. Mas não é mesmo o início desta história já mais do que decenária e extremamente rica.

*Upideite(27/jan/2015): adido a esta data.

Upideite(29/jan/2015):

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Se o príncipe da Nigéria tivesse se graduado...

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PEDIDO DE RELAÇÃO URGENTE DE PARCERIA CIENTÍFICA

EM PRIMEIRO LUGAR, SOLICITO A MÁXIMA CONFIDENCIALIDADE A RESPEITO DESTA TRANSAÇÃO. ISSO POR CAUSA DE SUA NATUREZA EXTREMAMENTE CONFIDENCIAL E 'TOP SECRET'. ESTOU CERTO E CONFIO EM SUA CAPACIDADE E CONFIABILIDADE EM EXECUTAR A TRANSAÇÃO DESTA MAGNITUDE QUE ENVOLVE UMA TRANSAÇÃO PENDENTE QUE REQUER A MÁXIMA CONFIDENCIALIDADE.

SOMOS DIRETORES DO CORPO EDITORIAL DE UMA PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA FEDERAL INTERESSADOS NA PARCERIA CIENTÍFICA PARA PUBLICAÇÃO DE ARTIGOS COM SEU GRUPO COM PESQUISAS QUE ESTÃO PRESAS NA NIGÉRIA. A FIM DE INICIAR ESTA PARCERIA SOLICITAMOS SEU AUXÍLIO PARA PERMITIR A SUBMISSÃO DE ARTIGO EM SEU NOME PARA LIBERAR AS REFERIDAS PESQUISAS PRESAS.

A ORIGEM DO FUNDO DA PESQUISA É COMO SEGUE: DURANTE O ÚLTIMO REGIME MILITAR NA NIGÉRIA, PESQUISADORES SENIORES INICIARAM UMA PESQUISA E PRODUZIRAM UM GRANDE VOLUME DE ARTIGOS COM GRANDE POTENCIAL DE CITAÇÕES CRUZADAS EM VÁRIAS ÁREAS. O ATUAL GOVERNO CIVIL CRIOU UMA REVISTA PARA DAR VAZÃO A ESSES ARTIGOS PRONTOS PARA PUBLICAÇÃO.

PORÉM EM RAZÃO DE NOSSA POSIÇÃO COMO MEMBRO DO CORPO EDITORIAL DESSA REVISTA, NÃO PODEMOS PUBLICAR ESSES ARTIGOS EM NOSSOS NOMES. ASSIM, FUI DESIGNADO EM RAZÃO DE CONFIANÇA POR MEUS COLEGAS DO CORPO EDITORIAL PARA PROCURAR POR PARCEIROS ESTRANGEIROS EM NOME DOS QUAIS TAIS ARTIGOS POSSAM SER PUBLICADOS EM NÚMERO SUPERIOR A 30.000 (TRINTA MIL) NO TOTAL. POR ISSO ESTAMOS ENVIANDO ESTA MENSAGEM. CONCORDAMOS EM DAR AUTORIA DESSES ARTIGOS NA FORMA: 1,20% PARA CADA PARCEIRO ESTRANGEIRO, 2,70% PARA NÓS, 3,10% PARA OUTROS PESQUISADORES DO COMITÊ. a PARTIR DE 70% QUE PRETENDEMOS INICIAR A REVISTA.

POR FAVOR, OBSERVE QUE ESTA TRANSAÇÃO É 100% SEGURA E ESPERAMOS INICIAR A PARCERIA EM, NO MAIS TARDAR, 7 DIAS ÚTEIS A PARTIR DA DATA QUE RECEBERMOS AS SEGUINTES INFORMAÇÕES PELO TEL/FAX: 555-1-0-2345678, SEU NOME COMPLETO, O NOME DA SUA INSTITUIÇÃO, SUA POSIÇÃO E SEUS DADOS DE CONTATO.

ESTAMOS ANSIOSOS POR FAZER ESTA PARCERIA COM VOCÊ E SOLICITAMOS CONFIDENCIALIDADE NESTA TRANSAÇÃO. POR FAVOR CONFIRME O RECEBIMENTO DESTA MENSAGEM ATRAVÉS DO NÚMERO TEL/FAX ACIMA. ENVIAREI OS DETALHES DESTE PROJETO QUANDO RECEBERMOS SEU CONTATO.

ATENCIOSAMENTE,

DR F. R. AUDE

NOTE; POR FAVOR USE ESTE NÚMERO DE REFERÊNCIA (VE/S/09/15) EM TODAS AS SUAS RESPOSTAS.
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Inspirado no caso relatado por Leandro Tessler, do Cultura Científica, de uma oferta de publicação em uma revista predadora. O texto acima é uma adaptação, claro, do esquema 419, também conhecido como "Príncipe Nigeriano" - não há nenhuma conotação de crítica à ciência da Nigéria.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Relação jornalista x pesquisador

Abaixo seguem minhas anotações de palestra do Prof. Ricardo Whiteman Muniz - bacharel de Direito, jornalista, mestre em Sociologia da Religião pela Metodista de São Paulo, editor da revista Ensino Superior da Unicamp - para o curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor/Unicamp no dia 03/nov/2014. (Imprecisões e erros são de minha inteira responsabilidade.)

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Relação entre jornalistas e pesquisadores

"não é possível avançar sem um retorno (crítico) ao básico"

Educação no Brasil: capital humano e valor posicional
- base da distinção social, mais do que como fonte de aprendizado e qualificação
- diplomas = títulos de nobreza.

DNA da notícia degeneração
novidade informação velha, requentada
importância entretenimento
interesse sensacionalismo
proximidade provincianismo
originalidade achismo
oportunidade efeito mercado

"fidelidade canina à verdade factual"
"crítica diuturna ao poder onde quer que se manifeste"

jornalismo: fazer coletivo -> refação
Ben Goldacre: 3 família de paródias científicas criadas pelos meios de comunicação
- matérias excêntricas;
- matérias para meter medo;
- matérias sobre avanços retumbantes, gloriosos, para já.

Por que insistir na interação?
- visibilidade, interesse, apoio;
- prestação de contas;
- informação do debate democrático;
- para o bem da ciência.

Mônica Teixeira:
- necessidade do contraditório: os problemas do 'outro lado', artigos científicos;
- abusos de formas como 'may, might';
- avaliador tem dificuldade para ler o artigo;
- uso de idioma é objeto de críticas pormenorizadas e violentas;
- palavras-chave das revisões mais comuns são: muito específicas, vagas, jargões, equivocadas, confusas e prolixas;
- contexto e objetivos da pesquisa não são apresentados com suficiente clareza;
- avaliadores não encontram originalidade na pesquisa nem a novidade dos resultados apresentados;
- raramente encontra-se o enunciado de uma controvérsia, como se os pesquisadores tivessem perdido o gosto pela argumentação, pela defesa de um ponto de vista, pelo confronto de ideias.

Conselhos para abrir espaço na mídia:
- bom release, título noticioso, clareza no contexto;
- todo bom repórter está atrás de exclusividade, de um 'furo': só garantir exclusividade se puder e for cumprir;
- dedicar tempo e paciência;
- não exigir revisar a reportagem ou a entrevista: colocar-se à disposição para checagens;
- padrão-ouro: disponibilizar boas imagens e esboços/esquemas para infografia;
- se você gostaria de ver apenas uma análise publicada, apenas escreva um texto redondo, com sugestão de título e no tamanho habitualmente publicado pelo veículo, acompanhar a publicação em que você deseja espaço;
- para influenciar no longo prazo e contribuir na formação de uma rede de fontes - eventos talhados sob medida para jornalistas.
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O jornalista Lucas Conrado escreveu em seu blogue Meus Pensamentos sobre a experiência pessoal dele nessa relação - em especial em seu trabalho no Ciência Hoje.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Especulando: Uma base de dados de referências documentais em produtos audiovisuais (de divulgação científica)

Um excelente banco de dados de produtos audiovisuais é o famoso IMDb. Não sei se há algum mais específico para documentários, programas e outras produções audiovisuais científicos.

Na catalogação de audiovisuais, normalmente se pensa em dados como: nome do produto, ano e local de produção, diretores, roteiristas, elenco, equipe técnica e, eventualmente, dados sobre crítica e avaliação. São, certamente, informações relevantes sobre autoria e participação.

Mas uma coisa de que sinto falta quando vejo esses programas e documentários são as referências de onde tiraram as informações que passam. Há excelentes programas sobre a história geral, de algum local ou fato. Muitos sendo superproduçõesão que procuram reproduzir o mais fielmente possível os detalhes da época retratada: as vestimentas, a caracterização das personagens, o vocabulário, os utensílios, efeitos gráficos para reconstruir a cena... Tudo isso, claro, depende de uma extensa pesquisa para levantar esses detalhes.

Seria, pra mim, interessantíssimo se um banco de dados disponibilizasse, por exemplo, os livros usados para essa pesquisa, que jornais consultaram (e onde estão seus arquivos), outras obras audiovisuais, toda a base documental. Se o apresentador diz: "As sucuris se alimentam apenas três vezes ao ano", de qual artigo científico essa afirmação foi tomada.

Tem jogos eletrônicos de estratégia com inspiração histórica que traz como item em seu menu a bibliografia consultada. Isso até poderia ser incorporado em audiovisuais distribuídos em mídias digitais como DVD ou Blu-Ray. Mas não seria viável passar em letreiros de documentários exibidos em salas de cinemas ou na televisão. Aí seria interessante haver um hotsite que disponibilizasse os dados - e a URL ser divulgada nos créditos da obra. Seria útil se houvesse também um banco de dados que centralizasse esse tipo de informação - facilitando a consulta e recuperação dos dados.

A partir disso poderia ser possível também de se obter indicadores que mensurassem a apropriação cultural das informações científicas - que é um dos objetivos das ciências: ser absorvida pela cultura da população em geral.

sábado, 3 de janeiro de 2015

Como é que é? - Câncer é mais questão de má sorte?

Vários sítios web noticiosos estão repercutindo um estudo recentemente publicado a respeito da variação do risco de câncer entre os diferentes tecidos do corpo humano.

BBC: "Pesquisa diz que má sorte é causa da maioria dos tipos de câncer"
EFE: "Estudo indica 'azar' como fator de peso no desenvolvimento do câncer"
Reuters: "Azar biológico é culpado por dois terços de casos de câncer, diz pesquisa"
Veja: "Maioria dos casos de câncer acontece por 'má sorte'" (sobre material da AFP)
Estadão: reproduziu reportagem da Reuters (cuidado! contém paywall poroso)
O Globo: também reproduziu material da Reuters (cuidado! contém paywall poroso)
Folha: reproduziu reportagem da BBC (cuidado! contém paywall poroso)

O próprio resumo feito pela editoria da Science vai nessa toada: "Remarkably, this 'bad luck' component explains a far greater number of cancers than do hereditary and environmental factors."

Então é isso mesmo? Estilos de vida, fatores ambientais, predisposições hereditárias têm, afinal, pouco peso no surgimento de tumores? Not so fast.

O argumento é baseado na linearidade (em curva de ajuste logarítmico) com um índice de correlação entre risco de desenvolver câncer em algum momento da vida e o número total de divisões das células-tronco no tecido de 66%. (Vide Figura 1.)

Figura 1. Correlação entre risco de desenvolver câncer durante a vida e o total de divisões de células-tronco do tecido. Fonte: Tomasetti & Vogelstein 2015/Science.

Mas agora observemos a Figura 2, que é a mesma Figura 1, mas com destaque entre os tipos de câncer correlacionados com fatores ambientais, genéticos e/ou comportamentais (destacados em vermelho - o tipo de câncer sem tais fatores, em verde).

Figura 2. Correlação câncer x divisão de células tronco. Em vermelho, câncer relacionado a alguma condição ambiental, hereditária ou de estilo de vida; em verde, câncer sem tais fatores; em azul câncer não relacionado de acordo com presença ou ausência de fatores não casuais.

Observamos que os tipos de câncer associado a fatores não casuais - fumo, infecção por vírus, casos familiares, etc. - os pontos vermelhos, estão concentrados na região de maior risco; as versões correspondentes sem tais fatores (os pontos verdes) ficam bem mais abaixo. Tipicamente a diferença nos riscos é de 9 vezes. A chance de se desenvolver câncer durante a vida é da ordem de 1%; na presença de fatores ambientais, hereditários ou comportamentais, a chance é da ordem de 10%.

Então é preciso tomar cuidado com o que esse estudo mostra. A variação *entre os diferentes tipos de tecido* se correlaciona mais com o total de divisões das células-tronco: basicamente, tecidos com células que se dividem o tempo todo, no geral, estão mais expostos a desenvolver algum tipo de câncer. O que é absurdamente diferente de dizer que a variação entre as pessoas ou o peso nos casos totais de câncer na população se devam ao acaso.

*Não* está tudo bem fumar, beber, fazer sexo desprotegido, manter dieta desregulada, aspirar ar poluído, expor-se à radiação, ter trocentos casos familiares de câncer... O achado de Tomasetti & Vogelstein está dentro do esperado - já se sabia que cerca de 1/3 dos casos de câncer eram preveníveis. Mas, note-se, *se* conseguíssemos prevenir - especialmente mudando nosso estilo de vida - esses casos de câncer, ficaríamos na situação de que 100% dos casos de câncer se dar-se-iam por mutações casuais. Seria pouco inteligente chegar à conclusão de que, em uma situação em que 100% dos casos de câncer são por acaso, então tudo bem ter um estilo de vida, digamos, excessivamente liberal e libertino. Não apenas porque causaria outros problemas (mortes no trânsito, insuficiência pulmonar, envelhecimento precoce, DSTs, obesidade...), mas aí causaria mais câncer ainda.

Cerca de 300 mil pessoas morrem de queimaduras por fogo por ano no mundo. A taxa de mortalidade total no mundo em 2012, era de 8 mortes por 1.000 pessoas, em uma população de 7,124 bilhões, isso representaria 57 milhões de mortos. Os queimados são, então, 0,5% dos mortos. Seria bobagem concluir que então tudo bem se encharcar de gasolina e riscar um fósforo.


Upideite(14/jan/2015): A jornalita Jennifer Couzin-Frankel revisita o tema de que tratou no blog da Science. Um dos autores do artigo esclarece o que foi comentado acima: "'We did not claim that two-thirds of cancer cases are due to bad luck,' Tomasetti told me gently. What the study argued, he explained, was that two-thirds of the variation in cancer rates in different tissues could be explained by random bad luck. (This is exactly the point made by the authors of the letter critiquing me.)"
Figura 3. Visualização gráfica da relação entre variância total inicial, variância residual após ajuste e coeficiente de determinação R².*

*Upideite(16/jan/2015):Imagem atualizada para corrigir a representação do coeficiente de determinação R². (Erroneamente, eu havia atribuído à barra azul.)

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