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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Desenevoando a rede de neblina: sobre segurança e ética de captura de animais para pesquisa

Em o que me remete ao caso do Instituto Royal, uma docente universitária atacou a pesquisa de outros pesquisadores universitários que usam a rede de neblina - uma rede de malha bem fina fios bem finos para captura de aves e morcegos para fins de estudo.

Quando utilizada por pessoal devidamente autorizado e treinado, o instrumento é bastante seguro para os animais que acabam se emaranhando na rede.

Embora algum nível de estresse deva ser inevitável, segundo dados disponíveis, é bastante raro ocorrer ferimento - apenas 0,59% (± 0,68%) dos indivíduos capturados acabam sofrendo alguma injúria física - e mais raro ainda que algum morra - uma probabilidade de 0,23% (± 0,15%; menos de 3 indivíduos a cada 1.000 capturados morrem). E não parece interferir no sucesso reprodutivo das aves capturadas e liberadas em seguida.

A técnica pode aumentar a exposição dos indivíduos presos a predadores, mas isso pode ser controlado diminuindo-se o intervalo entre as visitas às redes para verificar se houve alguma captura. Tal cuidado também pode diminuir o grau de emaranhamento dos indivíduos na rede - o que pode levar a cortes e estrangulamentos, além de estresse mais alto. Protocolos geralmente garantem prioridade para a remoção da rede de indivíduos que pareçam estar em condições mais precárias ou potencialmente precárias (risco de ferimentos ao se debater, p.e.).

O uso da rede é necessário para estudo de espécies de hábitos noturnos - já que a simples observação com binóculos é bastante prejudicada - e também para a captura para aquisição de dados biométricos como peso corporal ou envergadura da asa; amostras biológicas como sangue e tecido; e marcação como anilhamento. Esses estudos permitem acompanhar a saúde das populações locais - quantos indivíduos são? estão diminuindo em número? estão conseguindo obter alimentos suficientes? qual o grau de cruzamento entre indivíduos proximamente aparentados? eles migram para outros locais? Essas e outras informações são fundamentais para não apenas se entender a biologia básica e o estado da população dos organismos, mas para a própria conservação das espécies - mapear áreas que são vitais para a sobrevivência (onde ocorrem os alimentos, p.e.), o tamanho da área necessária, que manejos podem ser necessários (controlar predadores? parasitas? trazer indivíduos de outros locais para repopular e aumentar a variabilidade genética?), etc.

Esses dados são essenciais para saber que espécies preservar e como preservar. Esse planejamento não é possível com simples achismos. Há outras técnicas que poderiam substituir as redes, mas com impacto definitivamente maior - como o abate de espécimes (que é praticado em algumas circunstâncias, como para obter espécimes de referência para museus) ou uso de armadilhas de gaiola (que podem acabar capturando outros organismos, como pequenos mamíferos arborícolas; e causar mais ferimentos no organismos que se debate em seu interior, já que não são tão flexíveis quanto redes).

A vigilância e o questionamento são necessários. É verdade que a rede de neblina foi utilizada por décadas sem que houvesse estudos sistemáticos sobre seu impacto e segurança - em parte porque os pesquisadores, na prática, não notavam um número muito grande de animais feridos ou mortos -, mas agora há. Podem ser necessários mais estudos? Talvez seja prudente - ainda que as mais de 600.000 capturas incluídas no estudo sejam uma amostra respeitável, pode ser que seja necessário estudar em mais locais.

Porém a simples destruição das instalações, a difusão impensada de opiniões mal embasadas - inclusive com mensagens agressivas e até xenofóbicas (um dos pesquisadores acusados é de origem peruana, ao que parece) -, não contribui nem com um eventual aperfeiçoamento das técnicas de estudo e muito menos com a conservação adequada das espécies. Incute também um espírito de caça às bruxas, como a que resultou na destruição do Instituto Royal - e consequente interrupção de importantes pesquisas.

Veja também:
Canal do Slow (14.jun.2018): A UERJ e a 'matança' de aves!
Jornal da Ciência (14.jun.2018): Entidades científicas divulgam manifestações em apoio à pesquisadora Maria Alice dos Santos Alves e equipe da Uerj
Canal do Pirula (15.jun.2018): Sabotagem à pesquisa e 'crueldade com animais'
BBC (21.jun.2018): Ativistas destroem experimento científico para libertar pássaros na Ilha Grande
Grrlscientist (01.jul.2011): How safe is mist netting for birds?

A péssima ideia de Thanos

Como já se passou um tempo desde a estreia de Vingadores: Guerra Infinita, em 23 de abril (dia seguinte ao Dia da Terra), acho que dá pra comentar uma parte principal do enredo sem que se caracterize como spoiler - se alguém ainda não viu (ainda está em cartaz em alguns cinemas no Brasil), então fica o alerta de spoiler.

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SPOILER ALERT!!!!!
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O plano de Thanos de usar as joias do infinito para sumir com metade da vida (sensciente) do Universo - no filme só falam genericamente em "vida", nos quadrinhos especificam "vida sensciente" -, além de eticamente absolutamente revoltante, não faz sentido racional.

Nos quadrinhos, ainda a intenção é de agradar a dona Morte, crush do titão louco; mas, no filme, o objetivo é trazer o equilíbrio ao Universo: os trilhões de habitantes estão consumindo recursos a um ritmo insustentável, o que logo causaria guerras e fomes (Malthus, alguém?). Em um verniz "humanitário", Thanos, então, elimina 50% dos seres sem distinção de sexo, raça, credo, cor, idade, status socioeconômico, ideologia política, sistema operacional de preferência, se marvete ou decenauta... (ele pode ser um vilão abjeto, mas preconceituoso pelo menos ele não é).

Mas isso traz equilíbrio para o Universo? Outro spoiler alert: não!

Peguemos o exemplo da Terra e seus primatas glabros. Em 1950, a população humana era estimada em torno de 2,5 bilhões de habitantes; em 1987, foi estimada em 5 bilhões de pessoas. Simplesmente dobramos em pouco mais de 35 anos.* (Fig. 1.) Se nos outros planetas a dinâmica demográfica for mais ou menos a mesma, em algumas dezenas de anos voltaríamos à mesma situação.

O tempo poderia ser até menor, porque hoje a tecnologia está muito mais avançada. E, depois de se recuperar do baque econômico que provavelmente adviria com o desaparecimento súbito de 50% da força de trabalho e do mercado consumidor, poderíamos ter um crescimento vertiginoso com o excesso de recursos por habitantes. Se eu sobrevivesse ao dustening, investiria todos os meus proventos no mercado ligado à maternidade e cuidados com bebês e crianças.
Figura 1. Tamanho estimado da população humana na Terra ao longo do tempo.

A perda súbita de um grande número de indivíduos pode colocar espécies em risco de extinção apenas se a população restante tem um número muito baixo de indivíduos reprodutivamente aptos. A população viável mínima (MVP - minimum viable population) varia de espécie para espécie - alguns invertebrados marinhos podem reconstituir a população inteira a partir de apenas um casal de indivíduos sobreviventes. Em humanos seria complicado porque significaria que irmãos procriariam com irmãos (e/ou com os pais), o que tornaria o risco de gerar descendentes com problemas genéticos (pela homozigose de alelos disfuncionais) muito alto e rapidamente inviabilizaria a continuidade reprodutiva. Em certos invertebrados isso não é um problema - com uma prole muito grande, a pequena fração de indivíduos que escapam de herdar cópias defeituosas já seria suficiente para garantir a continuidade reprodutiva. Mas para mamíferos, com taxas reprodutivas médias um pouco mais baixa do que de invertebrados, o MVP é mais alto - uma média de 95 indivíduos. Em humanos, com taxa reprodutiva menor do que a média dos mamíferos, o número deve ser em torno de 160 indivíduos. Ou seja, mesmo com a catastrófica redução da população atual à metade, ainda estaríamos longe, muito longe do risco de extinção.

Se o titã não fosse louco e obcecado com um plot destinado a fracassar (ao menos se a biologia reprodutiva dos demais seres senscientes do Universo for, grosso modo, similar à nossa - o que pode ser o caso para que híbridos interespecíficos como o Senhor das Estrelas possam existir) - mesmo que os Vingadores não fossem capazes de revertê-lo na continuação (e serão, óbvio; a Disney/Marvel não deixaria uma personagem que acabou de faturar mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria relegada ao pó) -, ele bem poderia usar a joia da mente combinada com o poder das outras para convencer toda a população sensível do Universo a adotarem medidas menos consumistas, a aproveitarem mais inteligentemente os recursos, valendo-se dos 4R (reduzir, reaproveitar, repensar, reciclar), desenvolvendo fontes de energia alternativas, e revertendo os danos causados ao ambiente, além de adotar práticas de planejamento reprodutivo - isso teria um efeito permanente sem o fim catastrófico de fome, miséria, doenças e guerras.

Com o devido pedido de desculpas à Marvel...
...(Acho que nunca me contratariam de roteirista em Oliúde.)

*Upideite(14.jun.2018): Outra comparação, por volta de 1971, a população era de cerca de 3,7 bilhões de pessoas, hoje somos cerca de 7,5 bilhões - uma janela de cerca de 50 anos.

Mas o impacto psicológico não afetaria as taxas reprodutivas? Alguns indícios disponíveis apontam que após desastres como guerras, terremotos e furacões, a população sobrevivente tem um *aumento* na taxa de nascimentos. Na cidade britânica de Aberfan, País de Gales, após a tragédia causada pelo desmoronamento do monte de rejeito de minério de carvão, em 1966, durante cinco anos foi notado um aumento da taxa de nascimentos na comunidade local - tanto em famílias que perderam como entre as que não perderam parentes. Também foi detectado aumento de taxas de nascimentos (e de casamentos - e de divórcios) em condados do estado americano da Carolina do Sul após a passagem do furacão Hugo, em 1989. O mesmo efeito foi observado na cidade de Oklahoma nos Estados Unidos, após o atentado a bomba em 1995. Após o tsunami de 2004 que devastou amplas áreas das costas no Oceano Índico, a taxa de natalidade em diversas comunidades na Indonésia aumentou significativamente.Nos meses seguintes ao terremoto da comuna italiana de Áquila em 2009, também foi detectado um aumento de nascimentos - aparentemente a decisão de ter filhos foi um ato consciente das mulheres como mecanismo de lidar com o estresse pós-traumático. O efeito parece ser variável, no entanto, após serem atingidos pelo furacão Katrina em 2004, cidades da região da costa do Golfo nos EUA apresentaram diferenças nas taxas de natalidade - houve queda em paróquias de Louisina e Mississippi, e aumento em Alabama. De qualquer forma, tomado em conjunto, esses dados parecem indicar que seria uma boa aposta que a recuperação populacional pós-dustening poderia ser acelerada (ao menos aqui na Terra).

Mas e as mudanças nas tecnologias assistivas de planejamento familiar? Novas gerações de anticoncepcionais, uma maior liberalização geral do aborto no mundo em relação há 50, 70 anos atrás, e maior renda e acesso à educação, certamente diminuíram as taxas de natalidade. Se levou 37 anos de 1950 a 1987 para dobrar a população, levou 47 anos de 1971 a 2018. Mas consideremos as projeções de que a população humana deverá ser algo em torno de 12 bilhões por volta do ano 2100. Se usarmos essa taxa mais lenta futura, para ir de 3,7 para 7,5 bilhões de pessoas, ainda assim levaria pouco menos de 70 anos.

domingo, 3 de junho de 2018

Especulando: Algumas sugestões de propostas para ciências e divulgação

A SBPC e a ABC, como já é tradição, lançaram propostas para serem encampadas por candidatos nas eleições deste ano.

Na onda o GR também gostaria de sugerir algumas - bem mais modestas no tamanho e alcance - como complemento. Publiquei alhures e reproduzo abaixo as propostas. Algumas já havia sugerido para o então ministro de CT&I em 2011.
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Aproveitando que temos um certo número de pré-candidatos cientistas, algumas propostas - que não necessariamente envolvem mudanças na legislação - pra considerarem e levarem a suas universidades.
1. Desenvolvimento de indicadores de retorno social de investimentos em P&D e nas universidades públicas. Talvez algo na linha do Balanço Social da Embrapa - mas que certamente precisaria ser adaptado. A discutir se se deveria estabelecer metas de indicadores ao longo do tempo - para unidades individuais ou pro sistema de ciência e tecnologia como um todo.
2. Criação de um banco da dados nacional que colija os microdados - com proteção da identificação de respondentes individuais - de toda pesquisa eleitoral e de toda pesquisa de opinião financiada por órgãos públicos (exceto talvez o IBGE, que publica em meios próprios). A se ver se ficaria aberta ao público - acho que deveria, com restrições de granulação (p.e. células que retornassem menos de 10 respostas não seriam disponibilizadas) - ou com acesso apenas a pessoal cadastrado: cientistas sociais, p.e. Seria necessária uma lei para obrigar os institutos de pesquisa de opinião a enviarem os microdados em formato determinado. (Seria preciso um trabalho prévio de definição de ontologia para uniformizar categorias de dados.)
3. (Se eu for selecionado, esta vou apresentar no Camp do Serrapilheira primeiro.)*
4. Criação de uma rede nacional de divulgação científica em instituições públicas de ensino e pesquisa. Uma coordenação leve - essencialmente disponibilização em agenda única online de todas as atividades de divulgação científica; talvez fornecimento de infraestrutura para disponibilizar o material online. Serviria de base também para trocas de experiências entre as instituições. Poderia se ampliar em uma rede de comunicação das instituições - incluindo comunicação institucional, p.e. Potenciais vantagens: uma instituição A vai trazer um palestrante X pro dia Z; uma instituição B, perto de A, poderia se oferecer a rachar a despesa de trazer o mesmo palestrante, e ter também uma palestra em outro dia próximo (ou talvez no mesmo); uma instituição que vai realizar um evento de um dado tema, já terá uma série de sugestões de possíveis convidados... poderá ver qual o melhor dia para realizar o evento, etc.
5. Criação de um banco de dados unificado de tecnologias e serviços dos IFES. A USP e, principalmente, a Unicamp têm um cadastro de inovações que podem servir de modelo; o Banco do Brasil também tem um inventário de tecnologias sociais. As pesquisas aplicadas ou com potencial de aplicação desenvolvidas nas universidades federais seriam mapeadas e seu grau de desenvolvimento e características poderiam ser consultadas pelo banco de dados por eventuais parceiros que queiram financiar a pesquisa ou licenciar o uso. Poderia envolver a criação de um showroom tecnológico - virtual ou mesmo físico - e realização de feiras periódicas. (Alguns dados poderiam ficar sob proteção de sigilo, como tecnologias a serem patenteadas.)
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*Se minha submissão ao camp for rejeitada, o que é mais provável, atualizo a postagem com a proposta.

domingo, 20 de maio de 2018

Do Euclipo ao Conhecer: uma década da (nova) DC na internet

Entre 11 e 12 de dezembro de 2008, em Ribeirão Preto, SP, era realizado o 1o Euclipo (Encontro de Weblogs Científicos de Língua Portuguesa). Como o nome indica o evento se concentrava na divulgação científica por meio de blogs, um meio relativamente novo à época (nem tããão novo - existem desde pelo menos o fim da década de 1990).

Participantes do 1o Euclipo: 11 e 12 de dezembro de 2008. Fonte: Charles Morphy.
No ano seguinte, de 25 a 27 de setembro, em Arraial do Cabo, RJ, seria realizado o 2o Euclipo.
Participantes do 2o Euclipo: 25 a 27 de setembro de 2009. Crédito: Thiago Camelo?/Ciência Hoje.
Nessa época, vários blogueiros já estavam organizados em um condomínio, o Lablogatórios, criado por Carlos Hotta e Atila Iamarino, que logo se tornaria o Scienceblogs Brasil.

O terceiro Euclipo nunca chegou a ser realizado. Talvez uma grande crise tenha ocorrido nessa época: seja com a migração para novas mídias, seja apenas pelos pioneiros estarem abandonando a empreitada.

Em 2016, uma reunião em Campinas, entre 23 e 24 de janeiro, marcava ao mesmo tempo o início e a consolidação de uma rede de vlogueiros de ciência: o selo ScienceVlogs Brasil e o canal BláBláLogia. Muitos já tinham seus próprios canais no YouTube, alguns ainda blogavam.

Participantes da reunião de lançamento do ScienceVlogs Brasil e criação do BláBláLogia: 23 e 24 de janeiro de 2016. Crédito: CR Dias.

Agora em 19 de maio de 2018, foi realizado o Conhecer: 1o Encontro Nacional de Divulgação Científica, em São Paulo. Ele marca a presença de uma grande diversidade de iniciativas de divulgação científica - a maioria online (e presença massiva de vlogs e de podcasts), mas algumas offlines.
Participantes do Conhecer, 19 de maio de 2018. Fonte: Vivi/Bit de Prosa.



A despeito do hiato de eventos, talvez em função de uma crise na blogosfera filomática, entre 2009 e 2016, dá pra se notar um aumento do número de participantes, possivelmente refletindo o aumento da comunidade de divulgação científica nas novas mídias no Brasil - a exploração de mídias tem se diversificado também (texto, fotos, áudio, vídeos...) à medida que os custos vão se reduzindo. Ainda é um clube do bolinha, mas a presença feminina tem sido maior e mais ativa. No entanto, a presença de negros e indígenas ainda é muito baixa.

Pioneiros como o Carlos Hotta, Atila Iamarino, Luiz Bento, Ísis Nóbile Diniz, Rafael Bento, Reinaldo José Lopes, Osame Kinouchi, Luís Brudna e outros ainda estão na ativa: vários migrando de mídia.

Avanços têm sido feitos, mas alguns desafios permanecem: como alcançar o público não "iniciado". No 2o Euclipo falava-se em monetização, no Conhecer falaram em profissionalização. O financiamento dos projetos e remuneração dos divulgadores também são outros desafios que permanecem.

Seria o caso de discutir também uma institucionalização com a formação de uma associação formal?

Upideite(24.mai.2018): Veja também:
Noêmia Lopes/Agência Fapesp (23.mai.2018): Divulgadores de ciência fortalecem redes e diversificam atuação.

domingo, 13 de maio de 2018

Especulando: Tolerância zero para pseudo e anticiências?

Lucas Camargo, do Dragões de Garagem e da UFSC, apresentou uma hipótese que gerou uma discussão no twitter que acho que merece ser acompanhada. Compilei os tweets num moments.





Fiquem à vontade para contribuir no twitter ou nos comentários aqui.

(Peço desculpas por eventuais erros gramaticas que eu tenha cometido.)

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Como é que é? - Molho de soja (shoyu) é feito com milho no Brasil? (Sim, mas...)

Causou alvoroço a notícia sobre um estudo brasileiro da composição isotópica (variantes de um mesmo elemento químico) do carbono em molhos de soja produzidos no Brasil, indicando uma grande presença provavelmente de derivado de milho na mistura.

Ocorre que é absolutamente normal o uso de outros componentes para a produção do molho além da soja (e sal e água). Geralmente é adicionada uma fonte de amido para promover o crescimento do fungo e a produção de suas enzimas - no Japão e outros países orientais é comum a adição de trigo.

O ministério da agricultura do Japão padroniza cinco tipos entre os principais, mas há variantes por todo o país. O tipo mais comum de shoyu comercializado no Japão é koikuchishoyu (濃口醤油), com uma proporção de 1:1 entre soja e trigo. O shiroshoyu (白醤油), shoyu branco, pode ser feito totalmente de trigo, mas o mais comum tem uma proporção de cerca de 75% (1 parte de soja para 3 de trigo). O usukuchishoyu (薄口醤油) tem uma coloração intermediária entre o shiroshoyu e o koikuchishoyu, tendo cerca de 66% de trigo. Quanto maior a proporção de soja, geralmente, maior o teor de glutamato (e outros aminoácidos livres), que confere(m) o umami ao molho. Quanto maior a proporção de fontes de amido, maior o teor de açúcares, que conferem um toque adocicado. (Veja na tabela 1 algumas das principais características de cada tipo.)

Tabela 1. Características de composição e coloração dos cinco tipos padronizados de shoyu japonês. (Modificado de: O'Toole 2004.)
tipo sal (g/100 ml) nitrogênio total (g/100 ml) açúcares redutores (g/100 ml) álcool (ml/100 ml) cor razão soja:trigo
koikuchi 16,9 1,57 3 2,3 marrom escuro 1:1 mais vendido no Japão (>80% do mercado)
usukuchi 18,9 1,19 4,2 2,1 marrom claro mais trigo
tamari 19 2,25 5,3 0,1 quase preto 10:1 principal tipo consumido na China
saishikomi 18,6 2,39 7,5 - quase preto 1:1 uso de shoyu cru no lugar da salmoura para fermentação líquida
shiro 19 0,5 20,2 - amarelado muito mais trigo

A figura abaixo representa simplificadamente o processo industrial de produção do koikuchishoyu.

Figura 1. Esquema simplificado da fabricação industrial do shoyu tipo koikuchi. Koji (ou kouji, ), o bolor de Aspergillus spp. sobre grãos e sementes para a iniciação da fermentação;  moromi (諸味), o mosto de fermentação do shoyu (Modificado de Luh 1995.)

Então é preciso observar- que: 1) não há proibição na legislação brasileira de adição de milho nem estabelecimento de limites para seu uso no molho de soja (como é comentado de passagem nas reportagens como a do UOL); 2) elementos amiláceos que não a soja são acrescentados normalmente na produção de shoyu, inclusive no Japão; 3) a presença de milho (e outros ingredientes) *está* indicada normalmente nos rótulos de shoyu nacionais, como determina a lei.

A única restrição que se poderia fazer é se a *ordem* dos ingredientes nos rótulos está de acordo com a quantidade de milho: se há mais milho do que soja, o milho precisa estar listado antes da soja nos ingredientes.

Os autores do estudo observam que a maioria das amostras estudadas (40 de 70 amostras de marcas brasileiras) apresentou um teor estimado de soja menor do que 20%. É preciso observar que o que o estudo determinou mais diretamente é a proporção de isótopos de carbono-13 (C-13). O milho, ao contrário da maioria das plantas, inclusive soja (e também trigo), tem o chamado metabolismo C4, em que o carbono é inicialmente fixado (incorporado) em um composto de quatro átomos de carbono (a maioria tem um metabolismo chamado de C3, que, como se pode deduzir, fixa o carbono inicialmente em um composto com três átomos de carbono). Nas plantas com metabolismo C4, ocorre uma fixação de gás carbônico com isótopo C-13 em proporção ligeiramente superior às plantas C3. Um nível mais elevado de C-13 indicaria o uso em maior quantidade de uma fonte como o milho. A metodologia, então, é bem indireta para se estabelecer a quantidade exata de milho usado - tanto é que, para pelo menos um dos pontos, a extrapolação a partir da medição de C-13 indicaria uma quantidade superior a 100% de soja, o que não faz sentido a não ser considerando-se as incertezas da avaliação para o teor de milho.

Para os pesquisadores, a possível alta quantidade de milho poderia se dever ao fato dos preços desses grãos serem, na média, menores do que os da soja. É possível e faz muito sentido (mesmo que correspondendo a alguns centavos por frasco). Mas um fator a se considerar é a diferença de gosto entre brasileiros e japoneses. Será que, em tudo o mais sendo igual (preço, quantidade de sal, cor...), o brasileiro preferiria um molho com maior umami ou um com mais açúcares? É possível que haja estudos de mercado sobre a preferência do consumidor, no entanto, como não sou da área, não tenho conhecimento a respeito.

Seria o caso de promover uma padronização do shoyu brasileiro? Não sei. Em termos de saúde - tirante legislações mais genéricas como em relação ao uso de sal, aviso de alergênicos, data de validade, tabela nutricional... -, não parece haver necessidade em função de um eventual risco pelo uso de milho. Em termos econômicos: em 2013, as vendas totais de shoyu no Brasil eram o equivalente a cerca de R$ 180 milhões/ano, não chega a ser insignificante (para fins de comparação, o ketchup movimentou cerca de 500 milhões BRL/ano em 2016); mas há lesão ao consumidor - exceto se no rótulo não for indicado o uso do milho ou a listagem sugerir um uso menor -? Essa discussão deixo para a leitora ou o leitor do GR.

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Algumas manchetes, excertos e comentários:
Exame 25.abr.2018: Estudo mostra que shoyu brasileiro é feito à base de milho
"Foram feitas análises com 70 amostras do condimento vendidas no Brasil. A presença média de soja nos produtos avaliados era de menos de 20%. Apesar de normalmente ser à base de soja no Oriente, ele é feito com milho no mercado nacional. O trigo e a cevada podem ser misturados ao shoyu, mas não fazem parte da composição principal do produto."
UOL 25.abr.2018: Shoyu produzido no Brasil não é de soja, é feito à base de milho
"Em países como Japão, China e Coreia do Sul, o molho shoyu é feito de soja com proporções pequenas de outros cereais como trigo ou cevada."
.O shoyu mais comumente vendido no Japão, por exemplo, leva 50% de trigo, o que é longe de pequeno e pode ser qualificado como fazendo parte da composição principal. Há variações que têm até 100% de trigo na composição (excetuando-se água e sal).
Terra 26.abr.2018: Estudo revela real composição do Shoyu fabricado no Brasil.
"O molho fabricado pelas indústrias brasileiras é composto por milho, e não por soja. [...] Já o milho, nesse mesmo processo apresenta o sistema de fotossíntese de C4 por gerar moléculas de açúcar que contêm quatro átomos de carbono. Essas moléculas de açúcar continuam presentes nos alimentos mesmo após seu processamento, portanto torna-se mais fácil identificar cada um deles."
.Embora o milho fosse o principal componente, havia soja - mesmo que apenas 5% (o menor teor estimado para algumas amostras), não houve nenhuma em que o molho tivesse apenas milho. O método usado não tem a ver com a quantidade de átomos de carbono nas moléculas de açúcares - porque, embora inicialmente nas plantas de metabolismo C4 o carbono seja fixado em uma molécula de 4 átomos de carbono, essa molécula é processada depois e a via fotossintética é muito similar às plantas C3; a diferença é pela fração de isótopos de carbono-13 que são incorporados (devido a afinidades das enzimas que realizam a reação).

domingo, 1 de abril de 2018

É mentira, Terta? - flor que se cheire

O gênero Rafflesia, consistindo atualmente de cerca de 28 espécies conhecidas de plantas parasitas do Sudeste Asiático, foi descrito pela primeira vez em 1820 pelo botânico britânico Robert Brown - o descobridor do movimento browniano.

As Rafflesia não têm folhas, caules nem raízes verdadeiras, parasitando cipós do gênero Tetrastigma do qual suga a seiva por meio de estruturas especializadas denominadas haustórios. A espécie R. arnoldii possui uma das maiores flores do mundo, com mais de 1 metro de diâmetro (mesmo a espécie com a menor flor conhecida, R. baletei, tem um órgão reprodutivo com respeitáveis 12 cm de diâmetro).

Além da redução extrema das porções vegetativas, a alta especialização e modificação e o fato de apresentar um alto grau de transferência horizontal - cerca de 3% do genoma nuclear e 50% do mitocondrial parecem ter origem do hospedeiro - tornam sua classificação especialmente complicada. Análises genéticas indicam que pertençam à ordem Malpighiales (que inclui de violetas a maracujazeiros e outras 16 mil espécies conhecidas) e possivelmente esteja aninhada dentro da família Euphorbiaceae - que, em contraste com as Rafflesia, possuem flores bem mais modestas, entre 0,07 e 2 cm (Barkman et al. 2004; Davis & Wurdack 2004; Davis 2008).

Figura 1. Flor e botões de R. arnoldii. Fonte: Wikimedia Commons.
Mas um aspecto que talvez seja o mais distintivo seja a intensa cor vermelha salpicada de pontos brancos e o pungente cheiro de carne pútrida das flores. (Fig.1)

Beaman et al. 1988 descreveram o processo de polinização da R. pricei. As flores são visitadas por moscas verejeiras dos gênero Lucilia e Chrysomya.

As moscas, especialmente as fêmeas, visitam as flores machos, voando em seu interior aleatoriamente até encontrarem a coluna central com os estames. As moscas sobem, guiadas por uma fenda, até as anteras, que grudam massas de polén no tórax dos insetos.

Para testar o efeito das cores e do odor, Beaman et al. 1988 cobriram algumas flores fêmeas com tecido escuro - mantendo a abertura da região do diagrama - e cobrindo com folhas secas e outras com filme plástico transparente. Aparentemente tanto as cores (e os padrões visuais) e o cheiro são importantes para atrair moscas. Não devendo ser uma mera coincidência que as flores lembrem a corpos de tetrápodos terrestres (em particular mamíferos) em decomposição.

Talvez não seja a flor mais popular para se dar no dia dos namorados. E nem deveria. Lamentavelmente, as Rafflesia e espécies próximas estão seriamente ameaçadas de extinção por perda de hábitat.

segunda-feira, 26 de março de 2018

SUS e "Medicina Alternativa": Terapia de florais

Continuando a série sobre as PICs - práticas integrativas e complementares - no SUS, vamos analisar o que a literatura científica diz a respeito da terapia de florais.

.terapia de florais
>O que é? proposta de tratamento com base em essências de flores ultradiluídas em solução alcoólica, independente de composição química ou ação farmacológica, mas por meio, supostamente, de transferência de energia ou vibração das flores para o preparado. (Vide: Ernst 2010.)
> Status: não funciona além de nível de placebo.
É ofertado pelo SUS desde março de 2018.

Thaler et al. 2009. Revisão sistemática de 4 artigos do tipo aleatorizado com controle e 2 de observações restrospectiva.
>>sem efeito: além do placebo para: dor e problemas psicológicos; ansiedade e TDAH.

Ernst 2010. Revisão sistemática de 7 artigos do tipo aleatorizado com controle.
>>sem efeito: além de placebo para: ansiedade, desempenho escolar de crianças com TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade), tempo de parto, uso de medicamentos durante o parto.

Nota: Ersnt 2010 amplia a revisão anterior Ernst 2002, para o qual não consegui acesso - apenas o resumo: 4 estudos foram incluídos na revisão, os dois estudos que controlam para o placebo e usa a aleatorização dos tratamentos falham em detectar efeito. A técnica é muito similar à homeopatia, na qual Edward Bach, médico britânico, baseou-se para criar sua proposta de terapia de florais; não surpreende que, como aquela, esta tampouco demonstre eficácia além do placebo. Não encontrei uma meta-análise, a quantidade de estudos incluídos nas revisões sistemáticas parecem apontar para uma falta de estudos de qualidade.

quinta-feira, 22 de março de 2018

SUS e "Medicina Alternativa": Musicoterapia

Continuando a série sobre as PICs - práticas integrativas e complementares - no SUS, vamos analisar o que a literatura científica diz a respeito da musicoterapia.

.musicoterapia
>O que é? Uso controlado da música, seus elementos (sons, ritmos, melodias, harmobias) e suas influências no ser humano a fim de ajudar na integração fisiológica, psicológica e emocional dos indivíduos durante o tratamento de uma doença ou deficiênciaMunro & Munro 1978.*
> Status: funciona para determinados grupos e condições.
É ofertado pelo SUS desde março de 2017.
>> crianças e adolescentes com psicopatologias
Whipple 2004. Meta-análise com 9 estudos (86 crianças e adolescentes com autismo): aumento dos comportamentos sociais adequados e diminuição de comportamentos inadequados, estereotípicos e autoestimulatórios; aumento da atenção às tarefas; aumento das vocalizações, verbalizações, gestos e compreensão vocabular; aumento da ecolalia (repetição de sons emitidos por outros), comunicação e diminuição do percentual de ecolalia sobre o total de sons emitidos; aumento de atos de comunicação e interação com outros; melhora da consciência corporal e coordenação; melhora de habilidade de autocuidado e brincadeiras simbólicas. redução da ansiedade.
Shi et al. 2016. Meta-análise com 6 estudos (300 crianças com autismo): melhora do humor ('mood'), habilidade com linguagem, percepção sensorial, comportamento e habilidade social.
Gold et al. 2004. Meta-análise com 11 estudos (188 crianças e adolescentes com psicopatologias): efeitos grandes sobre doenças comportamentais e de desenvolvimento, moderado para doenças emocionais; grande melhora de resultados comportamentais e de desenvolvimento, melhora média para grande da autoimagem e piora nas habilidades sociais.
>> doenças mentais graves ('serious mental disorders')
Gold et al. 2009. Meta-análise com 15 estudos (691 indivíduos): apresenta efeitos pequenos a partir de 3 a 10 sessões e grandes entre 16 e 51 sessões tanto para indivíduos com doenças mentais graves tanto psicóticas quanto não-psicóticas quando em combinação com tratamentos padrões, nos seguintes componentes: estado global, sintomas gerais, sintomas negativos, depressão, ansiedade, funcionalidade, engajamento musical.
Gold et al. 2006. Meta-análise com 4 estudos (266 indivíduos com esquizofrenia e outras psicoses): melhora dos estados mentais e da funcionalidade social a depender do número de sessões.
>> cognição de idosos
Li et al. 2015. Meta-análise com 5 estudos (234 indivíduos): sem efeito a curto prazo sobre a capacidade cognitiva de pacientes idosos.
>> demência
Ueda et al. 2013. Meta-análise com 20 estudos (651 indivíduos): efeito moderado sobre a ansiedade e pequeno sobre sintomas comportamentais.
Fusar-Poli et al. 2017. Meta-análise com 6 estudos (330 indivíduos): efeito moderado na melhora da cognição global.
Zhang et al. 2017. Meta-análise com 34 estudos (1.757 indivíduos idosos): diminuição do comportamento violento ('disruptive behavior'), depressão e ansiedade, e melhora da função cognitiva e qualidade de vida.
>> depressão em idosos
Zhao et al. 2016. Meta-análise com 19 estudos (1.494 indivíduos): redução da depressão em idosos.
>> estresse
Pelletier 2004. Meta-análise com 22 estudos (965 indivíduos): apresenta efeitos de relaxamento de pacientes com excitação por situação de estresse - medida por meio fisiológico (batimentos cardíacos), comportamentais ou auto-relato.
Rudin et al. 2007. Meta-análsise com 6 estudos (641 indivíduos): apresenta efeito de redução da ansiedade e necessidade de anestésicos para pacientes em sessão de endoscopia.
>> neonatos prematuros & pais
Standley 2002. Meta-análise com 10 estudos (290 recém-nascidos prematuros): melhora de nível de oxigenação, ganho de massa corporal, redução de tempo de internação, aumento de tolerância a estímulos, aumento do movimento de sucção, melhora da alimentação, promoção de ligação afetiva;
Standley 2012. Meta-análise com 30 estudos (1.243 recém-nascidos em unidades de terapia intensiva): frequência cardíaca, estado comportamental, frequência respiratória, saturação de oxigênio, habilidade de sugar/mamar, tempo de internação apresentaram grande melhora; peso/gasto energético em descanso, uma melhora média; e circunferência cefálica e pressão sanguínea, pequenas melhoras.
Bieleninik et al. 2016. Meta-análise com 14 estudos (964 bebês prematuros e 266 pais): melhora a taxa respiratória do bebê e a ansiedade maternal. Sem indício suficiente a respeito de outros parâmetros fisiológicos e comportamentais.
>> hipertensão
Amaral et al. 2016: Meta-análise com 2 estudos (90 indivíduos): melhora da pressão sanguínea sistólica. Sem efeito significativo sobre a pressão sanguínea diastólica.
>> criminosos
Chen et al. 2016: Meta-análise com 5 estudos (409 indivíduos, predominantemente homens): melhora a auto-estima e a funcionalidade social.
>> transtornos associados ao uso de drogas ('substance use disorders')
Hohmann et al. 2017. Meta-análise com 40 estudos (cerca de 1.900 indivíduos): inconclusivo pela variabilidade dos resultados sobre expressão das emoções, interações em grupo, desenvolvimento de habilidades e melhoria da qualidade de vida.
Nota: Várias meta-análises acabam incluindo relativamente poucos estudos, mas, no geral, parece haver um efeito primário da musicoterapia em acalmar os indivíduos (certamente pelas características das músicas escolhidas). É uma área que parece bem ativa em pesquisa - mas com grande parte dos estudos (a julgar pela redução que há durante a filtragem das meta-análises) com qualidade que ainda deixa a desejar. Queria incluir a meta-análise de Dileo 2006, que parece ser a mais abrangente, com 183 estudos em várias áreas médicas, infelizmente não encontrei uma cópia disponível - caso futuramente consiga uma, incluo nesta análise.

Parte 4: Terapia de florais.

*Upideite(22/mar/2018): modifique a definição - originalmente utilizei a que constava no site do MS sobre as PICs, mas substituí por uma mais objetiva.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Epigenética. "Cesse tudo o que a musa antiga canta"?

Com um certo grau de exagero é possível que a epigenética esteja para a genética como a mecânica quântica está para a física clássica. Nem tanto pela alteração da compreensão de aspectos fundamentais do funcionamento do Universo (ou de parte dele) - que, sim, é necessária -, quanto pelos abusos perpretados atribuindo-se uma série de fenômenos não bem estabelecidos (ou bem estabelecidos como ausentes) por conta de um mecanismos relativamente mal compreendido - no limite, nas explorações misticóides pseudocientíficas.

Mesmo especialistas podem ser tentados a cair em exageros a respeito do quão revolucionária à compreensão da evolução da a epigenética seria.

Um artigo de divulgação do Prof. Kevin Laland, originalmente publicado no site Aeon, foi recentemente traduzido para a Folha de S. Paulo. A versão brazuca dá um título diferente e amplamente enganador. O título original: "Science in flux: is a revolution brewing in evolutionary theory?" ["Ciência em transformação: estaria uma revolução sendo gestada na teoria da evolução?"] é mais comedido (a começar pela interrogação - ainda que, no texto, o autor procure responder positivamente) do que a afirmação do título da tradução: "Descobertas contestam hegemonia de Darwin e recuperam Lamarck".

O próprio autor, embora faça menção a Lamarck, reconhece que não dá pra cravar que a herança epigenética seja uma herança de caracteres adquiridos como teria sido proposta pelo naturalista francês: "Biologists dispute whether epigenetic inheritance is truly Lamarckian or only superficially resembles it [...]" ["Biólogos argumentam discutem se a herança genética é verdadeiramente lamarquiana ou apenas superficialmente se parece com ela [...]", o que é longe de "recuperar Lamarck" como o título brazuca diz. Cabe salientar que o mecanismos de herança é totalmente secundário tanto na teoria evolutiva de Lamarck quanto na de Darwin - que aceitava a possibilidade da ocorrência de herança de características adquiridas - de modo que é muita forçação de barra contrapor os dois gigantes com base nos achados sobre a epigenética.

Mas, afinal, o que é a epigenética?

O termo é ambíguo e com várias definições, de modo que o potencial de confusão é ainda maior, mas, grosso modo, pode-se referir a uma camada de informação além da codificada no ADN que permite que células e organismos com o mesmo conteúdo genético exibam características diferentes.

Na origem, o biólogo britânico Conrad H. Waddington, estudando a diferenciação celular (epigênese), definiu a epigenética, na década de 1940, como "estudo dos mecanismos causais pelos quais os genes de um genótipo levam a seus efeitos fenotípicos" (Haig 2004). Na década seguinte, o geneticista americano David L. Nanney redifiniu mecanismos epigenéticos como aqueles que permitem a perpetuação de diferença fenotípicas na ausência de diferenças na sequência de ADN, uma "persistência homeostática" não-genética (Greally 2018).

No uso mais recente - que emergiu nos últimos 30 a 40 anos -, a epigenética pode ser definida como o ramo da biologia que estuda fenômenos de alterações estruturais em partes dos cromossomos em resposta a fatores ambientais que registra, sinaliza ou perpetua alterações no estado de atividade de um ou mais genes [Bird 2007] - tais alterações podem ser transmitidas ao longo de várias gerações.

O geneticista médico americano John M. Greally (2018) propôs a seguinte lista de conferência para se decidir pelo uso do termo "epigenética" e correlatos:
"1) Você quer usar o termo 'epigenética' para descrever a memória celular, homeostase persistente na ausência da perturbação original ou o efeito sobre o destino celular que não é atribuível a mudanças na sequência de ADN?
Vá em frente. Waddington e Nanney ficariam orgulhosos de você.
2) Você quer descrever um nível mais elevado de informação que existe além do genoma e instrui aos genes como e quando se ativarem ou desativarem?
Você está descrevendo a regulação de transcrição. A menos que você esteja também descrevendo a situação do primeiro ponto, você não deve chamar isso de epigenética, ainda que você ache que isso faça sua pesquisa soar mais sexy. Aplique a precisão científica e use termos como 'regulação da transcrição'.
3) Você encontrou diferenças na metilação do ADN ao comparar dois conjuntos de amostras, mas não controlou influências que podem confundir como a proporção de subtipos celulares, polimorfismo da sequência de ADN ou causação reversa. Você quer chamar isso de 'epigenético'?
Não. Você não pode.
4) Se você quer saber se é OK acrescentar geleia real a geleia de petróleo e comercializar isso como 'creme facial epigenético'?
Se você puder vender isso para os otários, vá em frente. Mas não poderemos mais ser amigos."

Qual é a da epigenética?

Os fenômenos a que Laland se refere em seu texto são todos epigenéticos do tipo 1 de Greally? Nem todos foram estudados a ponto de isolar adequadamente os fatores de confusão.

A frase do autor em que reconhece a disputa que há entre biólogos para classificar os fenômenos como lamarckianos termina com: "[...] but there is no getting away from the fact that the inheritance of acquired characteristics really does happen" ("[...] mas não há como negar o fato de que a herança de características adquiridas realmente ocorrem"). Que pode ocorrer - como herança cultural e mesmo por marcações epigenéticas - é razoavelmente bem estabelecido. Porém, o quão frequente e distribuído é esse tipo de herança entre os organismos, isto é, o quão significativo é para se clamar por revolução ou contestação de hegemonia é algo por ser estabelecido.

Um dos estudos citados por Laland, de aparente transmissão de comportamento diante de um cheiro a que os ancestrais foram expostos (Dias & Ressler 2014), sofre do problema de ausência de mecanismos conhecidos em que a exposição a um cheiro e associação a uma situação traumática possa influenciar a gametogênese - especialmente resultando em uma marcação específica (os descendentes não parecem responder do mesmo modo a estímulos diversos dos apresentados à geração original). De modo geral, vários casos propostos de herança epigenética padecem do mesmo problema (Isbel & Whitelaw 2015).

De todo modo, as enzimas que controlam as modificações estruturais nos cromossomos - isto é, as marcações epigenéticas - são codificadas por genes e estão sob controle da expressão de outros genes. O processo de transdução do sinal também envolve a ação de produtos de outros genes. (Uma pena que a expressão 'hipogenética' já seja empregada como 'desenvolvimento abaixo do normal', daria um bom trocadilho para enfatizar que as alterações epigenéticas estão em grande parte sob controle genético.)

E, independentemente disso, os fenótipos resultantes das marcações epigenéticas estarão sujeitos aos mesmos processos evolutivos dos resultantes das mutações genéticas: seleção natural, deriva, migração, seleção sexual...

Nos animais, em que as células que darão origem aos gametas são segregadas muito cedo durante o desenvolvimento (ao contrário das plantas em que virtualmente qualquer célula pode acabar dando origem a um novo indivíduo), há mais fatores complicadores para estabelecer a marcação epigenética como um fator de alto potencial evolutivo. Durante a gametogênese e nos estágios iniciais do desenvolvimento embrionário, costuma ocorrer um amplo "apagamento" das marcações, restabelecendo um estado padrão de metilação do ADN; algumas regiões, como áreas de ADN repetitivo, resistem ao apagamento, mas não está bem estabelecido que a metilação dessas áreas seja responsiva a sinais ambientais (Isbel & Whitelaw 2015).

Porém, mais do que tudo, ainda faltam exemplos de efeitos evolutivos de longo prazo.

A herança epigenética pode eventualmente se mostrar relevante e realmente provocar uma significativa modificação na compreensão da evolução biológica. Mas clamar vitória, pelo menos até o momento, parece-me ainda altamente precipitado.

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