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terça-feira, 21 de junho de 2016

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 25 (parte 1 de 2)

Lewandowsky et al. 2012 fazem uma revisão da literatura a respeito do processamento mental de dados inválidos (desinformações) e de por que muitas vezes eles persistem mesmo após correções; analisam ainda alternativas para o enfrentamento bem sucedido dessas desinformações.

Abaixo parte das minhas anotações desse artigo. Considero-o um dos mais úteis abordados até o momento nesta série sobre estudos científicos e acadêmicos da divulgação científica.

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Lewandowsky et al. 2012. Misinformation and its correction: continued influence and successful debiasing. Psychological Science in the Public Interest 13(3): 106-31. DOI  10.1177/1529100612451018.

Fontes de desinformação:
.boatos/lendas  e obras de ficção:
>excitação emocional aumenta propensão das pessoas a repassarem histórias, aquelas com conteúdos que provoquem desgosto, medo e felicidade são mais compartilhadas em redes sociais do que histórias neutras
>contato com uma desinformação em uma história de ficção aumenta a crença ilusória de conhecimento prévio: pessoas assumem que sabia e integra-a a seu conjunto de conhecimento prévio
.governos e políticos
>as pessoas estão conscientes de que há desinformação politicamente motivada na sociedade, mas, instadas a fornecerem exemplos específicos, falham em diferenciar informações corretas de errôneas
.interesses instituídos ('vested interests') e ONGs:
>corporações e grupos de interesses não-governamentais;
>agnogênese (Badford 2010): fabricação deliberada de desinformação
.mídia/meios de comunicação:
> mídia corporativa, mídias sociais;
>erros sistemáticos: 1) falta de tempo para apuração, urgência, 2) supersimplificação, interpretação errônea e sensacionalismo, 3) objetivo de apresentar uma história 'equilibrada'
>fragmentação da mídia ('media fractionation'): exposição seletiva, câmara de eco, ciberguetos, extremismo estratégico (angariar apoio de setores extremos, sem perder muito do de setores mais ao centro).

Avaliando a veracidade de uma declaração
Estratégias do receptor
A aceitação da informação como verdadeira é uma norma tácita na conversação diária;
A suspensão da crença é possível, mas isso exige um alto grau de atenção, implausibilidade considerável da mensagem ou alto grau de desconfiança em relação a ela.
Quando a pessoa avalia de modo consciente a veracidade de uma informação, ela tende a se concentrar em um conjunto limitado de características:
a) "A informação é compatível com aquilo em que creio?"
>Um dado tem mais probabilidade de ser assimilado quanto mais compatível com as coisas que alguém considera verdadeiras;
>Quando alguém confere um dado contra seus conhecimento prévios, o processo requer esforço ativo, motivação e recursos cognitivos;
>Um processo que requer menos esforço é por meio da experiência metacognitiva e de resposta afetiva ao novo dado;
>Dados inconsistentes com crenças prévias tendem a eliciar sentimentos negativos e serem processados com menor fluência;
b) "A história é coerente?"
>Dados são aceitos como verdadeiros se se encaixam bem em uma história mais ampla que confere sentido e coerência aos elementos individuais;
>Estratégia de avaliação mais usada quando dados individuais não podem ser examinados isoladamente por dependerem de outras peças relacionadas;
>Histórias coerentes são processadas mais facilmente do que as incoerentes;
c) "A informação provém de uma fonte confiável?"
>Quando não têm motivação, oportunidade ou expertise, as pessoas podem se valer da avaliação da confiabilidade da fonte;
>A força de persuasão de uma mensagem seja maior quanto maior a credibilidade e expertise percebida do comunicador;
> Mas mesmo fontes inconfiáveis podem ser bastante influentes: 1) insensibilidade aos sinais contextuais dependentes da credibilidade da fonte, 2) o núcleo da mensagem pode ser mais destacado do que a fonte;
>A simples repetição de um nome desconhecido leva à familiaridade para com este e aumento de sua credibilidade.
d) "Outras pessoas acreditam na informação?"
>exposição repetitiva pode levar a uma falsa impressão de consenso social;
>ignorância pluralística (diferença entre a prevalência real de uma crença na sociedade e o que o sujeito na sociedade acha que os outros pensam)/efeito do falso consenso

Efeito da influência continuada (continued influence effect)
Retratação (retraction) falha em eliminar influência da desinformação
>Modelo Wilkes & Leatherbarrow (1988) and Johnson & Seifert (1994) - narrativa de história reportada em tempo real com posterior retratação de desinformação alvo para o grupo teste (e sem alteração no grupo controle). E.g. incêndio em um armazém inicialmente reportado como causado por cilindro de gás e tinta a óleo guardados negligentemente em um armário; posteriormente é relatado que o armário, na verdade, estaria vazio; os participantes devem então responder a perguntas como 'o que causou a fumaça preta?'.
>Retratação raramente tem efeito de eliminar a dependência em dados errôneos, mesmo que as pessoas acreditem na retratação, a compreendam e dela se lembrem: no melhor dos casos, reduz em 50% a referência a desinformações;
>Correção reforçada como "cilindro de gás e tinta a óleo nunca estiveram na propriedade" *aumenta* o uso da desinformação na resposta ("efeito tiro pela culatra");
>Inclusão de elementos como explicação da origem da desinformação, p.e. "greve de caminhoneiros impediram a entrega dos itens", diminuiem o uso da desinformação, mas não o elimina.

Explicações possíveis para o efeito da influência continuada
a) Modelos mentais (mental models)
>Pessoas constroem modelos mentais de narrativas em andamento. P.e. A ('negligência') leva a B ('armazenamento impróprio de material inflamável') e B em conjunção com C ('falha elétrica') leva a D ('incêndio'); a retratação de um elemento central, no caso, B, cria uma lacuna no modelo, que deixa de fazer sentido; pessoas continuam a usar o elemento retratado B para completar o modelo.
b) Falha de recuperação (retrieval failure)
>1) confusão de fontes ou atribuição errônea: P.e. atribuir 'o incêndio foi causadoa por tinta' ao relatório final da polícia e não a relatos iniciais negados;
>2) falha do processo de monitoramento estratégico: entradas válidas e inválidas de memórias competem pela ativação automática, integração contextual requer processamento estratégico.
>3) perda de "etiqueta de negação" ("negation tag"): o processo de retratação é similar a se adicionar uma etiqueta "não" a um dado ("havia tinta a óleo e cilindros de gás - NÃO"), esse marcador pode ser perdido em algum momento; a retratação por sentenças afirmativas correspondentes pode ser mais eficiente quando isso é possível (p.e. "na verdade, ele é arrumado" em vez de "ele não é bagunceiro").
c) Fluência e familiaridade (fluency and familiarity)
>A experiência metacognitiva da fluência é usada na análise de informações reapresentadas sem um questionamento direto a respeito de seu valor de verdade;
>Enquanto os pensamentos fluem desimpedidamente as pessoas veem poucos motivos para questionar a veracidade da história;
>A retratação falha ao aumentar a familiaridade da desinformação por repeti-la direta ou indiretamente durante o processo de sua negação;
>Pessoas que leem folhetos do tipo mitos x fatos distinguem corretamente ambos imediatamente após a leitura, mas com o tempo acabam se lembrando das desinformações como fatos com mais frequência do que pessoas que não foram expostas a esses folhetos;
d) Reatância (reactance)
>Pessoas não gostam que lhes digam o que e como pensar; retratações particularmente fortes e de altas autoridades podem ser rejeitadas.

Correções diante de sistemas de crenças existentes
Visão de mundo (worldview)
>A visão de mundo ou ideologia pessoal podem afetar o modo como um dado ou história é recebida ou rejeitada, bem como a retratação desse dado ou história;
>Crenças pessoais facilitam a aquisição de desinformação em consonância com a atitude, podem aumentar a confiança na desinformação e imunizar contra a correção de crenças falsas;
Tiro pela culatra
>Efeito de tiro pela culatra ('backfire effect') ou de bumerangue ('boomerang') pode ocorrer se a retratação vai contra a visão de mundo do sujeito, pode fazer também com que não apenas a mensagem seja rejeitada como mensagens futuras da mesma fonte também o sejam;
>Isso pode acentuar 'polarização de crença' ('belief polarization'): a exposição à retratação aumenta a crença na desinformação dos que têm a visão de mundo ameaçada e diminui entre os que têm a visão de mundo reafirmada;
Domando a visão de mundo através de sua afirmação
>Retratações e eliminação de vieses podem ser facilitadas pela formulação em termos compatíveis com a visão de mundo das pessoas;
>Elas também são mais provavelmente aceitas quando acompanhadas por autoafirmação: permitir que as pessoas expressem seus valores básicos como parte do processo de correção.
Ceticismo
>Reduz a susceptibilidade à desinformação se faz as pessoas questionarem a origem dos dados ou da história que mais tarde se revelam falsos;
>Suspeição ou ceticismo em relação ao contexto geral leva a uma processamento mais acurado das informações;
>Garante também que informações corretas sejam reconhecidas acuradamente, i.e., não leva a um cinismo ou negacionismo generalizado;
>Mas o ceticismo só tem efeito se ativo durante a exposição à mensagem, se a retratação é apresentada após a aceitação da mensagem, a desinformação pode continuar.

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Na 2a. parte das anotações deste artigo, os modos eficientes para reduzir o impacto das desinformações.

sábado, 11 de junho de 2016

BláBláLogia: Ciência sem blá blá blá

Aquele encontro de janeiro deste ano em Campinas-SP rendeu não apenas a iniciativa dos ScienceVlogs Brasil, um selo de qualidade para canais de ciências no YouTube, mas também, e principalmente, um novo canal de divulgação científica e educação no mesmo YouTube: o BláBláLogia.

No dia 05.jun foi ao ar um breve teaser do projeto:



E um hangout ao vivo com os participantes:


Dia 06.jun foi a estreia oficial do canal, indo ao ar o primeiro episódio do primeiro programa: Curiosity com Pirula e Carlos Ruas.


Vários outros foram lançados desde então - um por dia, devendo totalizar cerca de 12 programas quinzenais neste primeiro momento.

Abaixo, a apresentação do canal por seus próprios participantes (canal pessoal/programa no BBL) (acrescento mais a medida em que souber de novos):

Camila Laranjeira (Peixe Babel/Clube da Toalha) + Natália Rangel (-/Por Dentro)

Davi Simões (Primata Falante/Clube da Toalha)

Estêvão Slow (Canal do Slow/A Origem de Tudo)

Pirula (Canal do Pirula/Curiosity)

Carlos Ruas (Um Sábado Qualquer/Curiosity&Quer Que Desenhe?)
Mais sobre a iniciativa:

Especial GR: Fosfoetanolamina

Manterei aqui uma lista das postagens no GR referentes à fosfoetanolamina sintética (Pho-S, "fosfo", FS que compõe a "pílula do câncer" ou "pílula da USP").

Os baPho-S da fosfoetanolamina sintética:
1) relação de textos, áudios e vídeos sobre o tema produzidos pelos divulgadores de ciência na internet.
2) resultados in vitro do GT-FOS do MCTI.
3) análises das objeções do grupo de Chierice aos primeiros resultados do GT-FOS do MCTI.
4) resultados in vivo do GT-FOS do MCTIC.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Os baPho-s da fosfoetanolamina sintética 4

Três novos relatórios sobre os efeitos da fosfoetanolamina sintética (Pho-S, uma mistura de vários compostos) em células tumorais foram liberados pelo GT-Fos do MCTI (agora, ao menos por enquanto, MCTIC). Agora in vivo.

Em resumo, para sarcoma 180 (tumor de Crocker) em camundongo Swiss e para carcinossarcoma 256 (Walker) em ratos Wistar a fosfoetanolamina em dosagem de 1g/kg não obteve nenhum efeito de inibição durante 10 dias de tratamento (ambos realizados pela equipa de Moraes Filho, da UFC, Universidade Federal do Ceará); para melanoma humano A-375 em rato nude atímico a Pho-S em dosagem de 0,5g/kg teve um efeito inibidor de 34% em 24 dias de tratamento (da equipa de Marcon, do CIEnP - Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos).

Figura 1. Efeito da fosfoetanolamina sintética sobre diversos tipos de tumos in vivo. A) sarcoma 180 (turmo de camundongo) em camundongo Swiss; B) carcinossarcoma 256 (tumor de rato) em rato Wistar; C) melanoma humano A-375 em camundongo nude. Fontes: Moraes Filho et al. 2016 b, Moraes Filho et al. 2016a, Marcon et al. 2016.

No caso dos estudos da UFC, o tratamento começou tão logo as células tumorais foram inoculadas nos indivíduos. No ensaio do CIEnP, os animais não receberam nenhum tratamento durante 12 dias, enquanto o tumor transplantado se estabelecia e se desenvolvia. Nos três estudos, a administração foi por via oral.

A linhagem nude, usada pelo grupo de Marcon, têm um sistema imunológico deficitário por conta de uma mutação que impede o desenvolvimento do timo. Isso contraria a hipótese defendida por Chierice de que o efeito da Pho-S seria por meio da atuação do sistema imunológico do paciente; além disso, nos estudos do grupo de Moraes Filho, foram realizadas contagens de células imunológicas no sangue. Em que pese as contagens de leucócitos e monócitos estarem *diminuídas* nos camundongos e de linfócitos aumentada nos ratos (em comparação com o controle), de um lado, a inconsistência entre os dois estudos dos efeitos da Pho-S sobre células imunológicas, e, de outro, o fato de estar dentro do número esperado de parâmetros alterados pelo simples efeito do acaso (em um alfa=0,05, espera-se uma variação significativa ao acaso em 2,7 parâmetros de 54 estudados nos dois estudos - um total de 4 alterações significativas foram relatadas), parece que a melhor conclusão é que a Pho-S não parece ter nenhum efeito sobre o sistema imunológico.

Foram acompanhadas eventuais metástases no estudo com carcinossarcoma de Walker 256 e no com melanoma humano A-375. No caso do carcinossarcoma, foi observada metástase pulmonar em 7 de 15 ratos no grupo tratado com Pho-S, contra 3 de 15 no controle negativo (no controle com ciclofosfamida não houve nenhuma metástase). No caso do melanoma, não foi observada metástase em nenhum dos grupos.

O efeito inibidor no estudo com o melanoma humano parece estar bem dentro do esperado para o efeito da monoetanolamina (e não da fosfoetanolamina pura). In vitro, a monoetanolamina apresentou um IC50 de cerca de 7,5 mM. A concentração usada no teste in vivo com xenográfico de melanoma humano em ratos equivale, grosso modo, a 3,5 mM - com efeito de 34% de redução no volume*. Na dosagem de 200 mg/kg dia, grosso modo, 1,5 mM, não apresentou nenhum efeito inibidor.

A variação do efeito da mistura sobre diferentes tumores também foi obtida nos testes in vitro anteriormente relatados.

Em todos os estudos, o efeito da mistura Pho-S foi bem inferior ao tratamento padrão recomendado.

*Upideite(03/jun/2016): Como observa Lucia Borges nos comentários, essa redução é relativa em relação ao controle - o tamanho dos tumores continua a aumentar em todos os tratamentos, mas em ritmos diferentes.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Como é que é? - Zoológicos fazem mais mal do que bem para a conservação? O caso do gorila Harambe.

Na trilha do triste episódio do abatimento de um gorila no zoológico de Cincinnati para o resgate de um menino de quatro anos, alguns protestos foram gerados tanto em relação ao sacrifício do animal quanto, mais genericamente, aos zoológicos.

Já tratei aqui no GR a respeito das críticas aos zoos; mas volto ao tema em função de um texto que vi compartilhado no facebook.

Antes, duas observações menores. A primeira: O texto diz que há somente 700 gorilas no mundo. Parece que confundiram com o gorila das montanhas (Gorilla beringei beringei), com uma população em torno de 880 indivíduos. Mas o gorila das montanhas *não* é mantido em zoos. Programas de captura para criação em cativeiro fracassaram. A espécie de gorila que vemos nos zoos é o das planícies (Gorilla gorilla), é espécie criticamente ameaçada, mas tem uma população provavelmente muito maior do que 700 indivíduos na natureza. A subespécie ocidental (G. g. gorilla) parece ter uma população de cerca de 90.000 a 100.000 indivíduos.

A segunda: Também é dito que o gorila não agrediu o garoto nos 10 minutos em que ele ficou no habitáculo dos animais. É verdade, mas bom dizer que embora o gorila não tenha agredido o menino, estava arrastando-o pra lá e pra cá, inclusive na água, onde a criança corria o risco de se afogar. Se a decisão de abater o animal em vez de tentar sedá-lo (o argumento é que levaria tempo até o efeito se fazer notar) ou descer pessoal para tentar afastar o bicho do garoto (com o risco de assustar o animal e ferir o menino) foi a melhor, é passível de discussão. Embora meu desejo seja de que o primata não fosse morto, não tenho condição de avaliar a correção da decisão pelos elementos disponíveis.*

Agora o ponto principal. Para o autor do texto, o incidente é um exemplo de que os zoológicos são danosos à preservação dos animais. Bem o parque zoológico (e botânico) de Cincinnati é dos zoos modernos (apesar de ser o segundo mais antigo dos EUA) com ambientes enriquecidos e 'humanizados'. Um de seus programas de conservação envolve a reabilitação e liberação de manatis. Outro projeto é o de reprodução de gorilas. E, em agosto de 2015, comemorou-se o nascimento do 50o. (quinquagésimo) bebê gorila no zoo de Cincinnati desde o início do programa de reprodução da espécie em 1970. O tamanho do sucesso levou à necessidade de *desacelerar* o programa para impedir a introdução de um número grande de indivíduos geneticamente próximos, o que poderia reduzir a variabilidade genética da população de gorilas mantida nos EUA.

Quando se pensa no fechamento de zoos, pensa-se em sua substituição por santuários - basicamente áreas protegidas particulares. A comparação normalmente é feita com base em zoos precários contra santuários bem estruturados. Mas assim como há zoos em condições terríveis e zoos bem estruturados (caso do de Cincinnati), também há uma variedade de condições entre os santuários: dos com boa infraestrutura e pessoal capacitado a meros depósitos de animais.

Em uma análise das reservas privadas, Langholz & Lassoie (2001) concluem:
"Private reserves are no panacea for the world's biodiversity conservation woes. The total amount of land they currently protect is unknown, but it certainly represents less than 1% of the Earth's land area, with undetermined potential for expansion. As is the case with community-based natural resource management, integrated conservation and development projects, and other recent conservation themes, private protected areas represent but one option in the conservation toolbox. Like all tools, they are best used in situations that maximize their particular strengths while minimizing their weaknesses.

Privately owned parks will not and should not replace government parks. Likewise, governments should resist pressure to privatize existing public protected areas. Biodiversity benefits from having a core constituency within the government, a public agency capable of battling against competing ministries such as forestry, mining, fishing, agriculture, tourism, and other sectors that can disrupt park protection. Too much reliance on the private sector could erode crucial internal support provided by a fully staffed park agency. Similarly, excessive clamoring over private parks runs the risk of lowering political will to support publicly protected areas."
["Reservas particulares não são nenhuma panaceia para as misérias da conservação da biodiversidade mundial. A área total atualmente protegida por essas reservas é desconhecida, mas certamente representa menos de 1% da área total da Terra, com potencial não determinado para expansão. Como é o caso de manejo de recursos naturais centrado nas comunidades, projetos integrados de conservação e desenvolvimento e outros temas recentes de conservação, áreas protegidas particulares são apenas uma das opções na caixa de ferramentas da conservação. Como toda ferramenta, elas são mais bem utilizadas em situações que maximizem seus pontos fortes e minimizem seus pontos fracos.

Parques privados não devem e não irão substituir parques estatais. Assim, os governos devem resistir à pressão de privatizar as áreas públicas protegidas existentes. A biodiversidade se beneficia da existência de um núcleo representante permanente no governo, uma agência pública capaz de lutar contra ministérios adversários como das florestas, minas, pesca, agricultura, turismo e outros setores que podem contestar a proteção do parque. A dependência excessiva do setor privado pode corroer o apoio interno crucial dado por uma agência de parques completamente provida de recursos humanos. Igualmente, a grita excessiva em prol de parques privados leva ao risco de diminuir a vontade política em apoio a áreas públicas protegidas."]

Nota: O material genético do corpo de Harambe, o gorila morto, foi recolhido e pode ajudar no programa de reprodução da espécie.

*Upideite(31/mai/2016): O primatólogo Frans de Waal fala mais em sua página no facebook sobre a dificuldade da decisão tomada pela direção do zoo em sacrificar o gorila. via Andressa Menezes fb.

Upideite(31/mai/2016): O que a DCsfera está falando sobre o assunto?
31.mai.2016 Papo de Primata: Quem será responsabilizado pela morte do gorila Harambe?
02.jun.2016 Canal do Pirula: O gorila e o dilema dos zoológicos (vídeo, não vi)

Upideite(31/mai/2016): Yara de Melo Barros, do Parque das Aves, também fala sobre o episódio, sobre as dificuldades da decisão tomada e da importância dos zoo na conservação dos gorilas. via @discutindoeco tw.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Diversidade no trabalho: variedade é bom? Sim (talvez).

Panelinhas, atração de semelhantes, preconceitos, razões históricas, interesses em comum... Por diversas razões, muitas vezes equipes e grupos acabam sendo formados com pouca diversidade (sexual, étnica, cultural, etária...). Por exemplo, há baixa participação de mulheres e de negros em várias áreas científicas; na reunião dos ScienceVlogs também acabou havendo poucas mulheres, sendo a maioria do grupo composta de homens, jovens e brancos - no caso, não por exclusão ativa e consciente de outros grupos, posso atestar.

Esforços são dispendidos para promover a diversidade (política de ações afirmativas, p.e.), enquanto críticas são feitas em relação a esses esforços. Mas a diversidade é boa? Ela atrapalha?

De um lado, a diversidade de indivíduos ajuda a trazer uma diversidade cognitiva, diferentes pontos de vista, diferentes trajetórias pessoais. Essa diversidade cognitiva pode ser positiva para o desempenho da equipe: p.e. trazendo soluções que outros não conseguiram imaginar por não serem imediatamente relacionadas às suas vidas. Por outro lado, grupos homogêneos podem ser mais coesos, tornando as tarefas mais eficientes. Qual dos pontos de vista é mais correto?

Vários estudos têm sido realizados deste pelo menos a década de 1950. Mas os resultados são variados: alguns favorecendo equipes homogêneas; outros, equipes heterogêneas. Metanálises em cima desses estudos indicam que... tanto faz... bem, mais ou menos.

Uma metanálise realizada por Horwitz & Horwitz (2007) sobre 35 artigos publicados entre 1985 a 2006 concluiu que a diversidade de características relacionadas às tarefas (e.g. expertise funcional, escolaridade, tempo na organização...) tem um efeito positivo sobre o desempenho da equipe; mas que a diversidade bio-demográfica (e.g. sexo, raça, etnia...) tem efeito nulo.

Em outra metanálise, Webber & Donahue (2001), com 24 estudos realizados desde 1980, as autoras não encontraram nenhum efeito (positivo ou negativo) geral da diversidade/homogeneidade no desempenho das tarefas pelas equipes.

Bowers et al. (2000) fizeram uma metanálise de 13 estudos realizados desde a década de 1960 sobre efeito de diversidade no desempenho de equipes na execução de tarefas. De modo geral, não há uma diferença significativa entre os desempenhos de equipes homogêneas na composição em relação a equipes heterogêneas. Porém, em tarefas mais complexas, equipes mais diversas tendem a se sair melhor:

"[T]he data from this integration do suggest that homogeneous teams will benefit from tasks that (a) are well-defined, (b) require little integration of data, and (c) require simple responses. Tasks in which limited available data require a great deal of computation and complex responses may be better suited to teams with more diverse membership. This finding lends added support to much of the research on team composition. Complex tasks defined by limited data, by definition, would require higher levels of creativity to perform. Thus, the findings of Triandis and his colleagues (1965) that teams that are heterogeneous in attitude are more creative is supported by this integration. Furthermore, the fact that these complex tasks would also require individuals to seek out all available sources of information supports Bantel’s (1994) findings of a positive relationship between heterogeneity and planning openness. Heterogeneous teams working on complex tasks with limited information must focus on a wider range of options to perform their task effectively." Bowers et al. 2000.
["[O]s dados desta integração sugerem que equipes homogêneas irão se beneficiar de tarefas que (a) são bem definidas, (b) requerem pouca integração de dados e (c) requerem respostas simples. Tarefas em que dados disponíveis limitados requerem um grande esforço computacional e respostas complexas devem cair melhor em equipes com composição mais diversa. Estes achados dão apoio adicional à maior parte da pesquisa sobre composição de equipes. Tarefas complexas definidas por dados limitados, por definição, exigirão níveis mais elevados de criatividade para serem executadas. Assim, os achados de Triandis e colaboradores (1965) que as equipes que são heterogêneas na atitude são mais criativas são apoiados por esta integração. Mais, o fato que essas tarefas complexas também exigiriam que os indivíduos busquem por todas fontes de informação apoia os achados de Bantel (1994) de uma relação positiva entre heterogeneidade e abertura de planejamento. Equipes heterogêneas trabalhando em tarefas complexas com informações limitadas devem se focar em um leque mais amplo de opções para executarem suas tarefas efetivamente. "]

Já na meta-análise de Bell et al. (2010), com 92 fontes (como artigos e teses) de 1980 a 2009, a diversidade funcional teve um efeito positivo, ainda que pequeno, (ρ = 0,9; DP = 0,15) e a diversidade sexual (ρ = -0,10; DP = 0,13) e racial (ρ = -0,06; DP = 0,11), um pequeno efeito negativo no desempenho das tarefas pelas equipes.

Pelos melhores dados, então, a diversidade de gêneros e étnico-racial ou não têm efeito (não ajudam, mas também não atrapalham) ou têm efeito pequeno (negativo ou positivo para certas condições). Nessas circunstâncias, vale a penas exigir maior diversidade (bio-demográfica)?

Tendo a achar que sim. Já que, no pior dos casos, haveria apenas uma pequena queda do desempenho, os ganhos potenciais não relacionados diretamente ao desempenho: a representatividade, a diversidade em si, a inclusão de minorias, a inspiração dos role models... mais do que compensariam. Em situações mais específicas (em que a queda de desempenho seja maior e significativa - ou que qualquer ganho de desempenho seja necessário - ou que os custos de geração de diversidade sejam desmesuradamente altos, p.e. campanhas de outreach sejam muito caras) grupos homogêneos podem ser defensáveis ou desejáveis.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

GR Apresenta: palestras, apresentações, seminários, aulas... sobre DC

Relação de minhas apresentações a respeito de divulgação científica em diversos eventos disponibilizados no GR.

.O Biólogo e a Divulgação Científica 2.5: XII Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia. 21 de julho de 2015. Campinas/SP.
.Divulgação Científica nas Interwebs: dos blogs às mídias sociais: palestra para disciplina de Seminários de Ciência e Cultura, do curso de especialização em Jornalismo Científico do Labjor. 16 de novembro de 2015. Campinas/SP.
.Divulgação Científica nas Interwebs: dos blogs às mídias sociais (2):  EDICC 3 - 3° Encontro de Divulgação Científica de Ciência e Cultural. 29 de março de 2016. Campinas/SP.
.Introdução ao mundo dos blogues/Blogues de ciências de sucesso: 2° Curso de Blogs para a Comunidade Científica da Unicamp. 3 e 4 de maio de 2016. Campinas/SP.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Introdução ao mundo dos blogues/Blogues de ciências de sucesso

Dias 3 e 4 de maio, o EA2 e o Labjor da Unicamp realizaram o 2° Curso de Blogs para a Comunidade Científica da Unicamp. Voltado para pós-graduandos, pesquisadores e docentes da Unicamp, o curso é parte do projeto de divulgação científica por meio da comunidade institucional de blogues da universidade.

Abaixo seguem minhas apresentações para o curso.
Nota: Alguns slides são reaproveitados de apresentações minhas anteriores.*



*Upideite(20/mai/2016): adido a esta data.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Medicina vs. terapias alternativas: mal menor?

Venho adiando a publicação desta postagem por vários motivos: necessidade de uma investigação maior, superveniência de outros temas mais candentes, outras tarefas... Mas com a publicação da postagem de Carlos Orsi sobre um novo estudo da influência (negativa) do uso de terapias alternativas e complementares no tratamento do câncer, creio que este texto possa servir como um bom... ahem, complemento.

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Críticos das ciências (ou do cientificismo), com razão, apontam para os perigos da crença cega no conhecimento científico. Por outro lado, a rejeição cega às ciências também é danosa.

Uma pergunta que lancei há algum tempo era: o que é pior, acreditar cegamente nas ciências ou adotar uma postura de rejeição automática a ela?
Um campo potencial de se tentar responder a isso é a medicina. Há perigo maior, por exemplo, em seguir todas as recomendações médicas (incluindo exames desnecessários, remédios e procedimentos errados e outras iatrogenias - doenças e problemas de saúde causadas pelos próprios agentes de saúde) ou ignorá-las e seguir terapias alternativas?

Levantamentos a respeito do uso de técnicas classificadas como "medicina complementar e alternativa" (CAM, "complementary and alternative medicine") resultam em uma fração variada de prevalência entre pacientes de câncer (dependendo, por exemplo, da definição adotada de CAM). Uma variação de 7% a 64% tem sido obtido - com valor médio de 30 a 35%.

Há uma visão da população em geral - e de muitos políticos e autoridades sanitárias - de benignidade da CAM: no pior dos casos, não funcionariam, mas serviriam de alento aos pacientes. Um estudo com pacientes noruegueses publicado em 2003 mostra, no entanto, o perigo dessas técnicas. Pacientes com câncer que lançam mão delas têm um risco 30% maior de morrer do que pacientes que não as usam.

Mas e quanto aos problemas causados pela própria medicina - como erros médicos, excessos, negligências, ganâncias, informações incompletas e outros -?

Só nos EUA, estimam-se as mortes iatrogênicas como algo entre 44.000 a 225.000 casos por ano. Algo entre 1,7 a 8,7% do total de mortes nos EUA. Muita coisa.*

E no caso de câncer? Um estudo com câncer testicular nos EUA, de 1982, detectou uma razão de morte iatrogênica de 6%. Outro, de 2004, no Japão, com carcinoma esofágico, reportou 1 caso iatrogênico em 43 mortes relatadas (2,3%).

Considerando-se as cerca de 590 mil mortes em 2015 por câncer nos EUA, em pouco menos de 14,5 milhões de pacientes com a doença por lá; aplicando-se uma prevalência de 30% no uso de CAM e a razão de perigo de 1,3 em seu uso, por ano teremos cerca de 48.700 mortes atribuíveis ao uso de técnicas ditas alternativas em pacientes de câncer. Ao mesmo tempo, considerando uma razão de 6% de morte iatrogênica, serão 35.400 mortes atribuíveis a diversos erros e negligências médicas em pacientes com câncer.

O risco, pelos melhores dados que temos, é substancialmente maior no uso de CAM do que em decorrência de problemas iatrogênicos: 30% vs. 6%. Em termos absolutos, parte disso é compensado pela maior base de casos de pacientes submetidos a procedimentos médicos - virtualmente 100% - do que a procedimentos ditos alternativos: cerca de 30%.
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Hendriks et al. (2015) desenvolveram um teste para diagnosticar as características que as pessoas leigas usam (um dia entro na polêmica sobre o uso do termo 'leigo' para se referir às pessoas sem especialização em um dado tema) como critério para confiar ou não em especialistas. Talvez seja o caso de aplicar tal teste para orientar como os especialistas que usam métodos cientificamente validados possam se apresentar como mais confiáveis do que terapeutas ditos alternativos.

*Upideite(17/mai/2016): Para uma visão crítica em relação estes números, uma postagem do Respectful Insolence. (via @carlosom71)

sábado, 7 de maio de 2016

Padecendo no paraíso 6

Figura 1. Aquilonifer spinosus. Autor: Derek Briggs.
Fonte: Wikimedia Commons
Durante a preparação de fóssil de um pequeno artrópodo marinho (cerca de 1 cm de comprimento), o paleontólogo Derek Briggs e colaboradores (2016) notaram estruturas ainda menores (cerca de 2 mm de comprimento) ligados aos espécimes por meio de filamentos. (Fig. 1)

Cada uma dessas estruturas parecem com um saco dos quais em alguns deles brotam pequenos apêndices. A organização aparentemente segmentada e a presença desses apêndices levaram os cientistas a suspeitar que são também artrópodos.

Três grandes hipóteses foram avaliadas quanto à natureza desses pequenos anexos. Poderiam ser parasitas, caroneiros epizoóticos ou... filhotes do artrópodo maior.

Para os autores do trabalho, a posição afastada do hospedeiro, na extremidade de filamentos, não seria favorável a uma ação de parasitismo, de sugar os fluidos corporais do organismo parasitado. Também não seriam caroneiros, porque o hospedeiro dificilmente toleraria um número tão grande deles - 10 -, sendo que poderia facilmente removê-los com seus longos apêndices da cabeça (em verde na Fig. 1): argumento que também valeria para a hipótese do parasitismo.

As 10 cápsulas com pernas ligadas por longos filamentos seriam, então, jovens presos ao corpo do adulto que seriam arrastados para lá e para cá, enquanto o pai ou a mãe (não se sabe o sexo do indivíduo carreador) nadava pelos mares da região que hoje é a Inglaterra.

A visão deslumbrada pelos cientistas que descreveram os espécimes é de pipas (papagaios, pandorgas, quadrados, etc.) empinadas, o que levou-os a batizarem a espécie de Aquilonifer spinosus, do lat. 'aquila' (águia, pipa), 'fer-' (o que porta) e 'spinosus' (espinhoso, pelos espinhos laterais nos tergitos - elementos da carapaça do adulto).

Aparentemente esse tipo de cuidado parental - com filhotes ou jovens carreados por meio de filamentos - é desconhecido em outras espécies até o momento.
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Se o adulto realmente seria capaz de eliminar parasitas ou caroneiros por meio de seus apêndices cefálicos é discutível na medida em que sabemos pouco sobre a resistência dos filamentos. Certamente eram fortes o bastante para manterem-nos firmemente presos enquanto o pai/mãe/hospedeiro nada por aí. E também para mantê-los afixados enquanto os processos de soterramento e fossilização dos indivíduos ocorria.

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