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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Um ano atribulado: retrospectiva da DC no Brasil #AmigoCientista

Vários youtubeiros de ciências se reuniram em uma brincadeira de amigo secreto e o Gene Repórter entrou nessa. Epa! Mas o GR não é vlog... TLDR: Não importa. Entramos de café com leite.

O presente é fazermos um conteúdo (vídeo para a maioria, uma postagem aqui do penetra) relacionado com o canal que tiramos no sorteio para o público tentar adivinhar quem é o presenteado. Então lá vai, quem foi que tirei?

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*Meu amigo secreto ou minha amiga secreta participou ativamente de pelo menos um dos eventos abaixo.

O ano de 2018 foi terrível para as ciências no Brasil. Mais cortes e mais drásticos no financiamento, o anunciado incêndio do Museu Nacional com uma perda irreparável de material científico e histórico, o fim (ou ameaça de fechamento) de várias outras instituições científicas importantes (a extinção da Fundação Zoobotânica do RS está suspensa pela Justiça, mas não foi afastada de vez; também está suspenso o leilão do terreno do Planetário do Rio de Janeiro). E há um prenúncio para um ano ainda pior para 2019.

Mas quero falar de algumas coisas que podemos salvar desse desastre - como o crânio da Luzia, o meteorito Angra dos Reis e alguns outros artefatos que sobreviveram (ainda que com eventuais danos) sob os escombros do MN. Tivemos 3 eventos de divulgação científica de destaque: o Conhecer: 1o Encontro de Divulgação Científica, em 19 de maio, em São Paulo, organizado pelo pessoal do Dispersciência, que reuniu centenas de divulgadores científicos em apresentações flash e collabs; o Conhecer Eleições 2018, em 29 de julho, em São Paulo, organizado também pelo Dispersciência em conjunto com os Science Vlogs Brasil e HuffPost Brasil, em que representantes de pré-candidatos e mesmo os próprios pré-candidatos puderam apresentar seus diagnósticos e propostas para a ciência brasileira em sabatina com divulgadores, cientistas e jornalistas; e o Camp do Serrapilheira para projetos de divulgação científica, em que cerca de 850 propostas de todo o Brasil foram apresentadas e, dentre os 50 inicialmente selecionados para o Camp, 12 foram contempladas com grants de até R$ 100 mil cada (fico particularmente feliz por vários amigos meus terem emplacados seus projetos e, mais do que isso, no conjunto serem trabalhos com um potencial muito grande para avançar ainda mais a DC no país).

*Minha amiga ou meu amigo oculto tem um canal de menos de 5 anos.

Grandes eventos já estabelecidos também ocorreram: a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que chegou à 15a edição, e o Pint of Science Brasil, em sua 4a edição. Consolidação de várias outras iniciativas: o Chopp comCiência, já firme em sua base de Campinas, lançou spin-offs no Rio de Janeiro e em BH; o USP Talks chegou ao 25o encontro, e (o que me toca particularmente) a Rede de Blogs de Ciência da Unicamp foi oficialmente instituída por portaria da Reitoria da universidade (o projeto existe desde 2015). E também comemoraram-se os 70 anos da SBPC. E a volta dos que não foram, como o relançamento (em versão digital) do Ciência Hoje das Crianças.

Novas iniciativas e projetos foram lançados como Pergunte a um(a) Cientista, do Via Saber, levando pesquisadores às ruas para conversar com as pessoas; diversos canais: Nunca Vi um Cientista, Via Saber, DivulgaMicro, 37Graus, podcast do Ciência USP... E dois que destacaria: a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (em processo de institucionalização, mas já existente de fato), uma associação de divulgadores científicos (ocupando o espaço deixado pelas finadas ABJC e Abradic) e o Instituto Questão de Ciência, que tem por objetivo promover o uso de conhecimento científico na formulação de políticas públicas. Dentro do espírito da atuação política mais ativa, vários cientistas e acadêmicos se lançaram candidatos (mas acho que nenhum se elegeu).

Novos cursos de divulgação científica também vêm sendo abertos como o do LAbI/UFSCar: Especialização em Divulgação da C&T e Promoção da Cultura Científica (que se junta a outros já tradicionais de especialização como da Fiocruz e do Labjor); do IQ/USP, com o Prof. Carlos Hotta: Divulgação Científica na Internet; e um aberto Introdução à Divulgação Científica, da Fiocruz Campus Virtual e INCT/CPCT, com as profas. Luiza Massarani e Catarina Chagas. Além de concursos, como o  LIGAndo a Ciência: 1o Concurso Nacional de Divulgação Científica, do pessoal da Liga Nacional de Divulgação Científica (há outros tradicionais como o Science Slam Brasil, organizado pela Euraxess Brasil, e o FameLab Brasil, organizado pelo BritishCouncil).

*Meu amigo ou amiga invisível (e seus comparsas de canal) usa nome artístico.

Enfim, foi um ano movimentado - apesar de as atividades aqui no GR terem diminuído, mas isso, em parte, foi exatamente pela movimentação no cenário geral (p.e. ajudei - ou atrapalhei? - na organização do Pint em Campinas) - para a divulgação científica no Brasil. Velhos projetos retomando o fôlego, novos se consolidando e sendo abertos; de iniciativa individual ou institucional, vinculada à academia ou a empresas. Em parte essa agitação parece ser reflexo exatamente dos terríveis golpes sofridos pela ciência - a necessidade de explicar ainda mais à população a importância das ciências e, por isso, de recompor os níveis de financiamento da pesquisa.

*O símbolo do canal é um capítulo de Taraxacum officinale estilizado com suas cipselas se espalhando a partir de órbitas eletrônicas de um átomo de Bohr também estilizado.

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E, então, adivinhou quem eu tirei? E, na sua visão, quais os eventos e fatos mais marcantes das ciências e da DC no Brasil e no mundo? (Não, o filme do Aquaman não conta.)

Veja também quem me tirou e o que eles aprontaram.

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Os canais participantes do Amigo Cientistas são:
A Matemaníaca
Arqueologia Egípcia - Escaravelhos Carnívoros no Egito Antigo?
BláBlálogia/Há ideia 3 - A Física da Evolução
Café e Ciência - Linha de Gelo
Canal Cura Quântica - Jogaram Elementos Radioativos na sua Água (e Isso É Bom)
Delta T - Os Superlentos - Aedes aegypti em Super Câmera Lenta
Dispersciência - Como os Astros Podem Ter Influência na sua Vida
Dragões de Garagem/Notícias da Garagem - Natureza e Beleza
Olá, Ciência! - Qual a Importância das Mulheres na História da Computação?
Papo de Primata - Animais Pequenos Enxergam em Câmera Lenta!
Peixe Babel - A Computação Imita a Vida
Terra Negra

Veja a playlist.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Sim, paraquedas salvam vidas. Problemas das críticas à medicina baseada em evidência e títulos sensacionalistas.

Críticas ao fundamento da medicina baseada em evidências (EBM) usando como uma espécie de metáfora ou paradigma os estudos sobre a eficácia dos paraquedas parecem ter sido inauguradas por Smith e Pell em um artigo de 2003.

Para os autores, como não havia em bases médicas estudos sobre a eficácia dos paraquedas para diminuir injúrias por queda, se levassem os preceitos da EBM, de receitar tratamentos com base em evidências devidamente coletadas, não seria possível receitar o uso de paraquedas para saltar de aviões. Como, claro, faz todo o sentido do mundo usar paraquedas quando for saltar de uma grande altitude, para os autores, isso implicaria em uma falha da EBM.

Mas essa crítica é uma caracterização errônea da EBM. Como Sackett et al. 1996 escreveram: "Evidence based medicine is not restricted to randomised trials and meta-analyses. It involves tracking down the best external evidence with which to answer our clinical questions. To find out about the accuracy of a diagnostic test, we need to find proper cross sectional studies of patients clinically suspect of harbouring the relevant disorder, not a randomised trial. For a question about prognosis, we need proper follow up studies of patients assembled at a uniform, early point in the clinical course of their disease. And sometimes the evidence we need will come from the basic sciences such as genetics or immunology. It is when asking questions about therapy that we should try to avoid the non-experimental approaches, since these routinely lead to false positive conclusions about efficacy. Because the randomised trial, and especially the systematic review of several randomised trials, is so much more likely to inform us and so much less likely to mislead us, it has become the 'gold standard'' for judging whether a treatment does more good than harm. However, some questions about therapy do not require randomised trials (successful interventions for otherwise fatal conditions) or cannot wait for the trials to be conducted. And if no randomised trial has been carried out for our patient's predicament, we must follow the trail to the next best external evidence and work from there." ["A medicina baseada em evidência não é restrita a estudos aleatorizados e meta-análises. Ela envolve buscar indícios externos que podem responder a questões clínicas. Para encontrar a precisão de um teste diagnóstico, precisamos encontrar estudos transversais adequados de pacientes clinicamente suspeitos de terem transtornos relevantes, não de testes aleatorizados. Para uma questão sobre prognóstico, precisamos de estudos adequados de acompanhamento temporal de pacientes reunidos em um ponto inicial uniforme em relação ao desenvolvimento clínico da doença. às vezes os indícios de que necessitamos virão das ciências básicas como a genética e a imunologia. É quando elaboramos questionamentos sobre uma terapia que precisamos evitar abordagens não experimentais, já que elas levam rotineiramente a conclusões sobre a eficácia baseadas em falsos positivos. Porque os estudos aleatorizados e, especialmente, a revisão sistemática de vários estudos aleatorizados, são muito mais prováveis de nos informar e muito menos prováveis de nos enganar, que se tornaram 'padrões ouro' na hora de julgar se um tratamento faz mais bem do que mal. No entanto, algumas questões sobre uma terapia não requer estudos aleatorizados (intervenções bem sucedidas para condições, de outro modo, fatais) ou não podem esperar para que tais estudos sejam realizados. E, caso nenhum estudo aleatorizado tiver sido realizado para o azar de nosso paciente, devemos seguir a trilha dos indícios que são os melhores a partir daí."]

Ou seja, mesmo se não houver estudos que mostrem diretamente a eficácia do uso de paraquedas para saltar de uma grande altura, pode-se prescrever seu uso com base em outros indícios existentes. Tanto de um ponto de vista teórico: a lei da gravitação e mecânica newtoniana são bem estabelecidas, bem como modelagem aerodinâmica para calcular o arrasto, e prever matematicamente a velocidade terminal da pessoa ao cair de uma determinada altura - e conhecimento do estrago que altas desacelerações causam em organismos modelos e em humanos. Como em bases empíricas: o fato de a velocidade de cargas usadas em testes serem bastante reduzidas; e também pelo histórico de baixa taxa de morte entre os que usam paraquedas (virtualmente zero; com ferimentos graves a uma taxa de cerca de 1 a 2 casos a cada 1.000 saltos) em comparação com pessoas que caem sem paraquedas de alturas até menores (quedas a partir do 8o andar costumam ser 100% fatais, do 6o andar, a taxa de mortalidade é de 80%; pouco mais de 10% do 2o andar e menos de 5%, do 1o andar) - mesmo que não sejam estudos sistemáticos e aleatorizados. No caso totalmente hipotético, em que a ética permitisse realizar com humanos estudos sistemáticos aleatorizados com número suficiente, aí, sim, poderíamos nos valer disso e, garantido que a metodologia seja adequada, se os resultados indicarem o contrário do que dizem esses outros indícios mais indiretos, poderíamos confiar e declarar que os paraquedas seriam inúteis com um razoável grau de confiança.

Esses dados disponíveis da eficácia de paraquedas tornam inúteis os dados de relatos de casos como de Bekerom et al. 2016, com dois eventos em que pessoas caindo de altas altitudes sem paraquedas sobreviveram (sendo que uma caiu sobre uma rede de segurança a 60 metros de altura) ou os experimentos de Yeh et al. 2018 descrevendo o resultado de saltos de aeronaves em solo paradas. O primeiro por serem relatos de caso tipo de indícios muito mais fraco do que um do tipo caso-controle (isso de modo geral, há fatores que alteram a relevância relativa); o segundo por uma falha da metodologia, ao usar alturas não relevantes (ao menos considerando o tamanho amostral utilizado).

Embora críticas a metodologias, teorias e procedimentos científicos sejam importantes para o aperfeiçoamento, elas precisam ser relevantes. Pra começar, precisam mirar em um alvo devidamente caracterizado, não em espantalhos e estereótipos que não condizem com o objeto da crítica. Não se pode acusar a EBM de falhar ao só considerarem válidos dados que venham de estudos aleatorizados quando isso não é verdade. A metodologia dos estudos críticos também precisam ser válidas.

O efeito colateral vai muito além de simplesmente gerar uma crítica mal feita. Tais estudos chamam a atenção e espalham manchetes engraçadinhas como "estudo prova que paraquedas não servem pra nada" - mesmo quando no corpo do texto da notícia explicam os detalhes, muita gente só irá ler o título. É um risco que precisamos ponderar (talvez estudos mais sistemáticos mostrando o quanto isso afeta a percepção sobre a utilidade do paraquedas sejam necessários para uma condenação mais forte; sem falar em estudos sobre o quanto isso afeta a confiança nos prognósticos e prescrições médicos).

domingo, 30 de dezembro de 2018

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 34

Minhas anotações do trabalho de Zorn et al. 2012. É o único que vi medindo quantitativamente alterações da atitude dos participantes em modelo dialógico. (Não quer dizer que não haja outros, apenas que eu não fui capaz de encontrar em uma busca rápida. Se souberem de mais, por favor, indiquem nos comentários.)

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Zorn, TE et al. 2012. Influence in science dialogue: Individual attitude changes as a result of dialogue between laypersons and scientists. PUS 21(7): 848-864. doi: 10.1177/0963662510386292.

Metodologia
Público não-especialista neo-zelandês foi formado por produtores rurais, pessoas de negócios, mães de crianças em idade pré-escola, estudantes de cursos superiores de artes e ciências sociais e maoris recrutados por pesquisadores, assistentes de pesquisas, empresas comerciais de pesquisa - entre contatos pessoais e listas publicamente disponíveis - por meio do método bola de neve (em que os participantes indicam outros participantes)

14 cientistas participarem de até 3 grupos de diálogo: cada grupo contava com 2 a 3 cientistas.

4 formas de diálogos foram usadas: pequenos grupos, 'diálogo cidadão', fórum público e grupos de discussão online. Participantes dos três primeiros tipos de grupo receberam folhetos informativos e recortes de notícias de jornais sobre o tema para se inteirarem a respeito da biotecnologia em humanos (HBT - human biotechnology).

Para cada grupo, facilitadores prepararam os cientistas e os não-especialistas a respeito dos princípios e regras do diálogo: o modelo usado foi o de diálogo de Bohm (um diálogo livre, em que os participantes têm como objetivo a compreensão mútua de modo respeitoso e sem julgamentos).

Pequenos grupos: 4 grupos formados por cientistas (2 cada) e não-especialistas (pelo menos um de cada grupo, exceto produtores rurais - pela distância geográfica), com 4 a 15 não-cientistas por grupo. Total de 39 não-especialistas.

Grupos online: 5 grupos  (1 para cada grupo alvo) com cientistas (5 participando em todos os grupos) e não-especialistas (5 a 9 de um dos grupos alvo). 42 participantes no total. Formulário online usado para avaliação.

'Diálogo cidadão': 12 cidadãos ouviram a apresentação de 4 cientistas (10 minutos cada): em que cada cientista se apresentava brevemente e expunha seu ponto de vista em relação ao tema. Após cada apresentação os cidadãos poderiam perguntar para os cientistas. Em seguida, os cientistas e os não-especialistas eram levados a salas separadas para discutir entre si e avaliar o diálogo. Depois eram novamente reunidos para trocarem suas impressões.

Fórum público: convites foram enviados para organizações científicas, escolas secundárias, departamentos de universidade, organizações jornalísticas, conselhos municipais e regionais, que poderiam se interessar pelo tema HBT. 3 cientistas e 25 não-especialistas participaram do fórum. Os cientistas fizeram uma breve apresentação (5 minutos cada) no início do evento. O protocolo seguiu o modelo dos pequenos grupos.

117 participantes não-especialistas, 86 respostas (39 pequenos grupos, 11 diálogo cidadão, 16 online e 20 fórum público). 14 cientistas, 13 respostas (no caso de cientistas que participaram de mais de um evento, apenas o formulário do primeiro evento foi considerado).

Medidas
1. Atitudes em relação aos cientistas de HBT;
2. Empatia em relação aos cientistas de HBT e à ciência de HBT;
3. Atitudes em relação à HBT: favorabilidade em relação à HBT + preocupação em relação à HBT;
4. Autoeficácia para o diálogo (conforto, confiança e motivação para se envolver em discussões públicas sobre HBT).

Resultados
*pré-diálogo
favorabilidade à HBT: cientistas (M=5,67; SD=0,75); não-cientistas (M=4,26; SD=1,14), t(89)=4.59, p<0 cientistas="" favor="" mais="" p="" unicaudal="" veis="">preocupação com HBT: cientistas (M=5,40; SD=1.00); não-cientistas (M=6.47; SD=0,67), t(16,55) = 3,95, p <0 cientistas="" menos="" p="" preocupados="" unicaudal="">
*hipótese 1: atitudes em relação aos ciensitas de HBT e empatia em relação aos ciensitas de HBT devem aumentar com o diálogo
atitudes: pré-diálogo (M=3,98; SD=0,98), pós-diálogo (M=4,33; SD=0,96), t(73)=-4,86, p<0 cohen="0,36</p" d="" de="" unicaudal="">empatia: pré (M=4,90; SD=1,06), pós (M=5,10; SD=1,02), t(72) = -2,13; p <0 cohen="0,19</p" d="" de="" unicaudal="">
*hipótese 2: atitudes em relação à HBT de cientistas e não-especialistas devem convergir
.não-especialistas:
favorabilidade: pré (M=4,26; SD=1,14), pós (M=4,58; SD=1,20), t(75) = -3,46, p<0 d="0,27</p" unicaudal="">preocupação: pré (M=6,47; SD=0,67), pós (M=6,32; SD=0,66), t(75) = -1,92, p <0 d="0,23</p" unicaudal="">.cientistas:
favorabilidade: pré (M=5,49; SD=0,66); pós (M=4,36; SD=0,77), t(10) =0,83, p=n.s.
preocupação: pré (M=5,22; SD=1,03); pós (M=5,64; SD=0,78), T(11)=-1,94, p<0 d="0,46</p" unicaudal="">
*autoeficácia:
.não-especialistas: pré (M=4,61; SD=1.04); pós (M=4,92; SD=1.09), t(73) = -3,22, p<0 bicaudal="" d="0,29;</p">.cientistas: pré (M=5,51; SD=0,45); pós (M=5,78; SD = 0,26); t(9)=1,82, p=n.s.

A Tabela 1 sumariza os efeitos em diferentes formatos de diálogo.

Tabela 1. Diferenças das médias (e desvios padrões) das variáveis
favorabilidade preocupação autoeficácia empatia atitude em relação aos cientistas
pequenos grupos 0,59 (0,67)a -0,28 (0,51)b 0,44 (0,80) 0,14 (0,86) 0,51 (0,51)
diálogo cidadão 0,26 (0,66) -0,45 (0,72)c 0,45 (1,27) 0,20 (0,76) 0,04 (0,67)
fórum público -0,11 (0,51)a 0,28 (0,79) 0,28 (0,53) 0,13 (0,51) 0,46 (0,72)
online 0,29 (0,53) -0,16 (0,40) -0,08 (0,69) 0,17 (0,77) 0,24 (0,53)
Letras: Comparação univariada significativa a 0,05.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Minidiretório de cursos de DC, JC e afins

Uma relação de cursos de ofertas regulares (ou contínuas) em divulgação científica e jornalismo científico. À medida em que eu souber de mais, vou acrescentando.

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G/P: gratuito/pago; A/F: aberto (sem processo seletivo)/fechado; E/Pr: EaD/presencial; S/C: sem certificação/com certificação; CH: carga horária

GAES:
Curso On line de Jornalismo Científico: WFSJ (CH: ?)
Introdução à Divulgação Científica: Fiocruz Campus Virtual/INCT-CPCT (CH: 30 h)
Introdução ao Jornalismo Científico: NeuroMat (CH: ?)

GAPrC:
Curso de Comunicação e Divulgação Científica: ICB/USP (CH: 16h; 3 dias)
Fala Ciência: curso de comunicação pública da ciência e tecnologia: Rede Mineira de Comunicação Científica (CH: 5,5 h; 1 dia) - vários locais

GFPrC:
.Lato Sensu
Especialização em Jornalismo Científico: Labjor/Unicamp (CH: 360 h; 3 semestres)
Especialização em Divulgação e Popularização da Ciência: Museu da Vida, Casa da Ciência/UFRJ, Cecierj, Mast, Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do RJ (CH: 390 h: 8 meses)
Especialização em Educação e Divulgação Científica: IFRJ (CH: 360 h; 3 semestres)
.Stricto Sensu
Mestrado em Divulgação Científica e Cultural: Labjor/Unicamp
Mestrado em Divulgação de Ciência, Tecnologia e Saúde: COC, IP Jardim Botânico do RJ, Mast, Cecierj, UFRJ
Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento: UFBA

PFPrC:
Especialização em Jornalismo Científico, Médico e Ambiental: FIAM/FAAM (CH: 400h; 3 semestres)
Especialização em Divulgação da C&T e Promoção da Cultura Científica: LAbI/UFSCar (CH: 378 h; 3 semestres)
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Não incluí disciplinas específicas que são ofertadas em algumas IES, já que o processo de seleção é para outros cursos (como o caso do curso "Divulgação Científica na Internet", como disciplina de pós-graduação do IQ/USP).

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Da alegada edição genética de bebês chineses

Manterei aqui uma lista de textos de análise pela DCsfera sobre o caso da edição gênica de embriões humanos pela tecnologia CRISPR por um cientista chinês - em que pelo menos dois foram implantados e deram origem a dois bebês gêmeos.

Lygia da Veiga Pereira. (O Globo). 27/nov/18. O limite entre ousadia e irresponsabilidade.
Mayana Zatz. (Rádio USP) 28/nov/18. Arriscada, edição gênica de bebês chineses desconsiderou ética (áudio)
(Dispersciência) 29/nov/18. Bebês modificados geneticamente/DisperDebate. (vídeo)
Ed Yong. (The Atlantic) 03/dez/18. The CRISPR baby scandal gets worse by the day
Pirula. (Canal do Pirula) 04/dezq18. CRISPR/Cas9 e os bebês geneticamente modificados na China (vídeo)
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Eu recomendo particularmente o artigo de Ed Yong, que compila os principais pontos problemáticos do feito.

(A lista será atualizada à medida que eu souber de mais textos.)

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

#EleNão

Sempre procurei não abordar a questão política diretamente aqui - existem diferença de visões de mundo que não são diretamente tratáveis com ciência e o direito de as pessoas terem tais diferenças de visões deve ser respeitado. Claro que, de um modo, a política está presente em tudo. Inclusive nas ciências.

A escolha de se ouvirem ou não os cientistas na hora de se definir políticas públicas como o Código Florestal, assinar tratados sobre controle de emissões de gases de efeito-estufa, o currículo nacional nas escolas públicas, as vacinas que serão incluídas na calendário de imunização, etc, etc. é uma decisão política. O quanto se irá investir em P&D, se irão organizar um ministério próprio de C&T ou misturá-lo com outras pastas, se irão priorizar um campo de conhecimento, etc, etc. é uma decisão política.

Mas estamos em um momento em que isso tudo pode ser afetado de modo dramático. E, não apenas isso, valores fundamentais como liberdade individual (direito à expressão, à sexualidade, à informação, à religiosidade ou à não-religiosidade, etc, etc.) estão em jogo. Valores tão básicos como direito à vida estão em jogo. Pessoas já morreram indubitavelmente por motivação calcada nos discursos de um dos candidatos. Um discurso contra as minorias, um discurso de defesa da violência física contra adversários, a apologia à tortura, um discurso de desprezo à democracia.

Omitir-se quanto a isso é dizer que isso é uma alternativa aceitável. Tão aceitável quanto a outra, que não prega nada disso - por mais divergências que alguém possa ter a respeito de outros aspectos ideológicos e visão sobre questões como a economia.

Não é. Não é uma alternativa aceitável. Mesmo na hipótese de que tal candidato seja apenas um bufão e não pense de verdade o que diz, o que diz já está causando efeitos terríveis sobre a vida e a liberdade das pessoas que pensam diferente, que são diferentes. O discurso desse candidato é tão claramente violento e antidemocrático, que é de grupos violentos e antidemocráticos que têm recebido apoio (mesmo que o candidato recuse).

E não apenas o candidato diz coisas terríveis. Todos os sinais das pessoas ao seu redor: seu vice, seus potenciais ministros e coordenadores de campanha - são péssimos sinais no que diz respeito à manutenção da liberdade e da democracia.

Este é e será sempre um blogue de ciências. Mas agora não é apenas questão de ciências - que, a propósito, também indicam que o candidato é a pior escolha possível: por seus feitos e propostas que devem piorar a própria ciência brasileira, e também por um programa que vai contra o que indicam os melhores dados científicos (p.e. armar a população tende a piorar a violência: casas com armas têm uma probabilidade *maior* de que seus moradores morram vítimas de homicídios) -, é mais do que isso. É a civilização contra a barbárie. É a vida contra a violência.

#EleNão
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Veja também:
Dragões de Garagem (17.out.2018): Dragões de Garagem em Defesa da Democracia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"Por que e como investir em divulgação científica?"

No dia 29 de julho, foi realizado o Conhecer Eleições 2018 uma série de sabatinas com, então, pré-candidatos à Presidência da República e representantes, a respeito de propostas e plataformas para a Ciência. Organizado conjuntamente pela equipe do DispersciênciaScience Vlogs Brasil e Huffpost Brasil (HPB), contou com a participação de jornalistas, cientistas e divulgadores científicos nas bancas de entrevistadores, a íntegra pode ser vista no YouTube.

Como preparação para o evento, uma série de artigos foram publicados no HPB com análises e diagnósticos dos problemas da ciência e da divulgação científica brasileira que poderiam ser abordados pelos projetos dos (pré-)candidatos. A mim foi encomendado um texto sobre "por que e como investir em divulgação científica?". A versão final saiu com o título: "O papel da ciência e dos divulgadores científicos no desenvolvimento da sociedade".

Abaixo reproduzo não essa versão publicada, mas (com pequenas modificações) a inicial - realmente era inadequada ao canal (não tinha captado bem a proposta nesse primeiro momento, pensei mais nos próprios divulgadores e não no público geral), que, não obstante, creio trazer mais detalhes pertinentes aqui.

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"Por que e como investir em divulgação científica?"

[...] Confesso, no entanto, que não me considero habilitado a dar respostas definitivas a elas, em particular para a segunda. Mas podemos nos aventurar em algumas tentativas de respostas.

"Por que investir em divulgação científica?" é, das duas, a pergunta mais fácil... ou menos difícil. Sim, não há um consenso entre as pessoas que estudam e praticam a ciência e a arte de trazer para o público temas relacionados às ciências de qual é, afinal, a importância da atividade. No entanto, embora as respostas eventualmente ocasionem brigas de foices entre os especialistas, podemos mapear as motivações preferenciais dos diferentes autores, grupos e comunicadores. P.e. Thomas & Durant 1987 agruparam os motivos para se fazer divulgação científica em 9 classes; Martín-Sempere  et al. 2008, em 4; Semir & Revuelta 2010, em 5; Besley et al 2017, em 8. Aqui proponho apenas três (e um quarto de miscelâneas).

Um pacote de respostas podemos classificar bem grosseiramente como de natureza egoísta corporativista: elas apontam as vantagens da comunicação para a própria comunidade científica e acadêmica. Por exemplo, as atividades de divulgação podem ajudar a atrair novos talentos (muitos da geração atual de divulgadores e de cientistas - ali na casa dos trintas anos - tiveram como inspiração inicial "O Mundo de Beakman"), podem ajudar a manter ou aumentar a confiança pública na comunidade científica (o que é bem preocupante em relação a certos temas como mudanças climáticas em que certos grupos resistem a aceitar as conclusões defendidas pela quase totalidade dos pesquisadores) ou aumentar a visibilidade do trabalho (alguns estudos indicam que artigos científicos que recebem cobertura midiática acabam sendo mais citados - na média - do que artigos ignorados pela mídia). Por egoísta corporativista não quero dizer que sejam motivações ruins ou erradas, apenas que o objetivo é voltado mais para os interesses dos próprios cientistas - mas que podem beneficiar também a sociedade e indivíduos não ligados à academia.

Outro conjunto de respostas podemos nomear de cívico democrático: os argumentos gravitam em torno de questões de benefícios do público e da sociedade. Muitas decisões importantes, como regulamentação de novas tecnologias, protocolos de mitigação de efeitos do aquecimento global ou inclusão de novas vacinas no calendário de imunização nacional, passam por se ter conhecimentos científicos embasados. A divulgação científica pode ajudar a população trazendo não apenas informações a respeito, mas a ajudando a contextualizar tais informações: que interesses estão em jogo, quais os riscos, qual o grau de incerteza em torno dos resultados? Nesta linha também incluímos correlações entre desenvolvimento econômico e o grau de conhecimento científico da população ou a necessidade de se prestar contas à sociedade, que financia as ciências. Possivelmente uma das variantes mais conhecidas desta modalidade seja a de Carl Sagan em seu clássico "O Mundo Assombrado pelos Demônios": "Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e toda as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara." O cívico democrático não deixa de ser algo egoísta na medida em que, se as coisas desandarem como os que sustentam esses argumentos sugerem, também seria contra os interesses destes.

E um terceiro, denominável de festivo cultural. Argumentos dessa estirpe enfatizam o conhecimento pelo conhecimento, a diversão proporcionada tanto pelo que se sabe sobre ciências quanto pelo próprio processo de aquisição de informações por meio do chamado edutainment, o apelo estético e as relações com as artes.

Podemos notar que os argumentos podem se prestar a mais de uma categoria: o citado "O Mundo de Beakman" objetiva mais à educação informal por meio da diversão, mas com consequências previsíveis de encantar parte da audiência e induzi-la a seguir carreira em alguma área científica. Alguns eventualmente não se encaixarão nessas grandes categorias mais gerais.

Ok, mesmo não havendo consenso, há vários tipos de argumentos para por que investir em divulgação científica que podemos escolher, isoladamente ou em conjunto (ou em baciada). E quanto à segunda pergunta?

De um jeito ou de outro é importante comunicarmos sobre ciência ao público, mas como fazer isso? Embora estudos sobre a comunicação de ciências ao público venham sendo feitos há bem uns 60 anos; somente há coisa de 10 anos o corpo de conhecimentos acumulados sobre o que funciona ou não na divulgação científica começou a ser sistematizado com tentativas de criação de modelos de comunicação que mapeiam importantes fatores que influenciam - positiva ou negativamente - a troca de informações sobre ciências (vide, por exemplo, Trench 2008 ou Eveland et al. 2013).

Certamente ainda há muita coisa que falta se estudar mais e a maior parte do que se sabe é baseada em estudos com alunos de universidades americanas atrás de créditos para se formarem. O que representa um porção bastante restrita da diversidade de público que encontraremos na população em geral. Além disso, as mudanças da paisagem de comunicação, com uma maior segmentação ocasionada pela ascensão das mídias sociais frente às mídias tradicionais, tem trazido novos desafios, em que estratégias de comunicação em massa - sobre as quais a maior parte do conhecimento acumulado recai - podem não mais funcionar. Mas não devemos ignorar esse tanto que se sabe, mesmo que não haja garantias de que funcionará em um contexto diferente. P.e. pelos estudos sabemos que a forma mais comum com que enfrentamos uma notícia falsa ou hoax: geralmente apresentando primeiro o boato - descrevendo em detalhes a história que circula - e só depois tratar da refutação, pode ter um efeito contrário ao aumentar a crença das pessoas na história que se deseja demonstrar falsa. Reapresentar o boato acaba ajudando a fixá-lo na memória dos incautos e, mais tarde, poderá tomar o fato de ele lhe ser familiar como indicador de que seja verdadeiro. Há alguma discussão a respeito de qual a melhor maneira de enfrentar esse problema (Peter & Koch 2016 propõem fazer com que o receptor da informação julgue o boato tão logo seja informado da história e de sua refutação; o relatório de consenso sobre comunicação pública efetiva de ciências da Academia Americana de Ciências, Engenharia e Medicina, de 2017, propõe que se evite uma refutação longa e complexa de um boato originalmente curto e simples; Bastian 2017 defende que não há ainda um caso forte para se defender nenhum tipo de recomendação específica). De todo modo, pelo menos à primeira vista, essas conclusões sobre a necessidade de se atentar para esses fenômenos não devem se alterar pela mudança dos meios de comunicação.

Dos estudos de psicologia cognitiva e social, um modelo do funcionamento de nossa mente tem sido bastante defendido entre os especialistas: o das duas vias de processamento de informações. Uma rápida, mais intuitiva, e uma mais lenta, mais analítica. Nós usamos na maior parte do tempo a primeira via, que, aparentemente, demanda menos energia e esforço. Ela nos ajuda a tomar decisões rápidas, porém está sujeita a muitos erros induzidos pelos atalhos utilizados - o efeito mencionado mais acima sobre notícias falsas da familiaridade de uma informação levar a se tomá-la como verdadeira é um desses atalhos com grande potencial a levar a erros de julgamentos. Certas condições experimentais parecem induzir a ativação da segunda via. Por exemplo, fazer com que uma pessoa resolva determinados tipos de exercícios matemáticos de comparação de proporções parece levar a que ela examine mais atenta e detidamente alegações que lhe são apresentadas logo em seguida. Potencialmente, comunicações que se aproveitem dessas características para gerar mensagens que, ou seja mais facilmente assimiladas pela via rápida, ou que ativem a via analítica para tentar barrar a aceitação de dadas alegações sem exame prévio poderiam ser mais eficientes.

Somando às mencionadas incertezas quanto à aplicabilidade dessas conclusões para grupos culturalmente distintos dos sujeitos experimentais em que tais estudos foram validados, é difícil dar uma receita de qual o melhor modo de se fazer a divulgação científica em casos concretos. Esse conhecimento parcialmente consolidado, no entanto, é muito útil ao fornecer parâmetros em que devemos prestar atenção ao desenvolvermos nossas estratégias e trabalhos de comunicação. Idealmente, para cada caso devemos fazer pequenos estudos pilotos e avaliações periódicas para verificar o que funciona para a situação específica: aquele tema para aquela população com aquelas mídias disponíveis com aquela quantidade de dinheiro que temos para investir no projeto, etc. Na impossibilidade disso, podemos usar como guia, mais do que nossas intuições, preconcepções e experiências pessoais, esse conjunto sempre crescente de conhecimento científico da nascente área da ciência da comunicação de ciências. Se não há uma receita pronta de bolo, há um conjunto de utensílios e ingredientes pré-testados para cada qual preparar seu próprio confeito personalizado.

Respeitando o estilo pessoal de cada divulgador e mirando as características particulares de cada grupo, vejo a divulgação científica cada vez mais como um ecossistema com cada divulgador ou projeto atendendo um nicho, uma especialidade, e eventualmente "concorrendo" entre si, numa grande teia de colaborações diretas e indiretas.

Mas temos que notar que esse tipo de conhecimento leva a questionamentos éticos bastante sérios. O quanto se valer desses macetes corresponde uma tentativa de manipulação do público?

Então, como devemos fazer divulgação de ciências? Uma tentativa de resposta (admito, um tanto elusiva) é: cientificamente, mas também eticamente.

Divulgador de ciências freelancer e autor do blog Gene Repórter, colabora com vários projetos de divulgação científica: Blogs de Ciência da Unicamp (ASCOM/Labjor-Unicamp), podcast Oxigênio (Labjor/RTV Unicamp), Pint of Science Campinas.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional (1818-2018)

"Só espero que não seja necessário ocorrer algum desastre provocado por problemas de manutenção para que as autoridades resolvam tomar medidas positivas para a mudança do quadro atual."
Alexander Kellner, 13.jan.2012 
"O Brasil não sabe da grandeza, da riqueza disso aqui. Se soubesse, não deixaria chegar neste estado."
AK, mai.2018

Aqui um registro dos depoimentos, relatos e análises dos divulgadores de ciência sobre o desastre do incêndio do Museu Nacional. À medida em que souber de mais materiais, acrescento aqui.
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Walter Neves. Cientistas Engajados (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Pirula. Canal do Pirula (02/set/2018): Fim do Museu Nacional. (vídeo)
Isis Nóbile Diniz. Xis-Xis (02/set/2018): Museu Nacional pega fogo. Fim.
Sabine Righetti. Abecedário (02/set/2018): Perda de acervo raro do Museu Nacional afeta ciência e educação básica do país.
Hugo Fernandes-Ferreira. (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Emílio Garcia. 120 segundos (02/set/2018): Incêndio do Museu Nacional!!! (vídeo)
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (02/set/2018): É a sua história que está queimando.
SciCast. Spin #296. (03.set.2018) Museu Nacional - 21|18.
Ciência Explica (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional: reflexo de um governo que não se importa com ciência e cultura.
Luiz Bento (03.set.2018): Uma carta para minha filha sobre o Museu Nacional.
Camila Laranjeira. Peixe Babel (03.set.2018): [Luto] Museu Nacional. (vídeo)
Maurício Tuffani. Direto da Ciência (03.set.2018): Tragédia do Museu Nacional mostra déficit civilizatório do Brasil.
Ana Arnt. PEmCie (03.set.2018): A casa de Luzia (ou sobre o Luto pelo Museu Nacional).
Sérgio Sacani. Space Today (03.set.2018): Bate-Papo Sobre o Museu Nacionall. (vídeo)
Aline Ghilardi & Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (03.set.2018): A Queda do Museu Nacional: desabafo de dois cientistas. (vídeo)
Millor Fernandes. Normose (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional - Você sabe quem é o culpado? (vídeo)
Estêvão Slow. Canal do Slow (03.set.218): Museu Nacional em Chamas!!! (e daí?) (vídeo)
Caio Gomes. O Físico Turista (03.set.2018): Destruição do Museu Nacional. (vídeo)
Meteoro (04.set.2018): "Museu Nacional: encontre o culpado". (vídeo)
Orlando Calheiros. Ciência na Rua (04.set.2018): Aquilo que se perdeu com o Museu Nacional.
Davi Simões. Primata Falante (05.set.2018): "Incêndio do Museu Nacional: Tragédia inesperada ou projeto de sociedade?"
Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (05.set.2018): Sr. Prefeito, não basta só reconstruir o Museu. (vídeo)
Maíra Padgurschi. Biota+10 (05.set.2018). Museu Nacional (1818*-2018†).
Jefferson Picança. PaleoMundo (05.set.2018): O Museu, você e eu.
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (11.set.2018): Museu Nacional: Perguntas, respostas e lições, um compilado de (quase) tudo.
Filipe Figueiredo. Nerdologia (11.set.2018): O nosso Museu Nacional. (vídeo)
Atila Iamarino. Nerdologia (13.set.2018): O passado perdido do Museu Nacional. (vídeo)
Davi Calazans. Ponto em Comum (13.set.2018): O incêndio do Museu Nacional: onde eu estava? (vídeo)
Pedro Loos. Ciência todo Dia (13.set.2018): O Dia em que a Nossa História Queimou. (vídeo)
Sidcley Lyra (14.set.2018): O dia em que eu chorei com o diretor do Museu Nacional.
Dispersciência (15.set.2018): Memórias vivas do Museu Nacional. (vídeo)
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Labjor (03.set.2018): Nota de pesar – incêndio no Museu Nacional/UFRJ.
Daniela Klebis (03.set.2018): Perda inestimável: entidades científicas lamentam incêndio no Museu Nacional.
Jornal da USP. (03.set.2018): Um retrato do descaso com a cultura e a pesquisa no Brasil.

Manifesto SBPC, ABC e outras. (04.set.2018): "A Vida e a Morte da Ciência e da Memória Nacionais"
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Alguns textos sobre o bicentenário do MN anteriores ao incêndio.
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Rodrigo de Oliveira Andrade. Pesquisa Fapesp. mai/2018. Para voltar aos velhos tempos.
Allison Almeida. Ciência e Cultura. jul/set. 2018: Museu Nacional celebra 200 anos.
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Conhecendo Museus (06.ago.2012): Episódio 13: Museu Nacional -- UFRJ.

Turma do Penadinho (21.set.2018): Insubstituível!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Minha cordial (e natural) mas marcada e severa divergência do Dr. Max Langer

Na edição de 28 de julho do caderno Ilustríssima, o Prof. Dr. Max Langer, eminente paleontólogo brasileiro, publicou sua visão (cuidado! contém paywall poroso!) a respeito da ação humana no ambiente, particularmente no efeito sobre outras espécies, levadas a ou em vias de desaparecer por culpa direta e indireta de nossa atuação: poluição, desmatamento, caça, pesca, introdução de doenças, predadores e competidores... Fiquei um tempo pensando se respondia ou não - alguns amigos meus ficaram de responder também, achei que seria redundante - e, como se percebe, acabei optando por fazê-lo.

A divergência começa logo na primeira frase. "Vivemos um momento na história da humanidade em que as atitudes ditas ambientalmente corretas são aceitas de forma quase unânime e sem maiores questionamentos, seja na esfera científica, seja na política, na educacional ou na social."

Fiquei pelo menos uns 5 minutos pensando e não consegui encontrar muita coisa de que eu pudesse factualmente discordar mais - sei lá, talvez se ele tivesse dito que a evolução não ocorre. A situação atual de mudanças climáticas e acelerada taxa de extinção (muito mais alta do que a taxa normal - de fundo) de espécies só ocorre exatamente porque somos ambientalmente *IN*corretos. Cada mudança na legislação para diminuir nosso impacto deletério sobre o ambiente é uma batalha e muitas são perdidas (retrocesso do código florestal alguém?). A despeito das inúmeras cúpulas, tratados e relatórios do IPCC, as emissões dos gases de efeito estufa só aumentam ano a ano (Fig. 1).

Figura 1. Emissões globais anuais de equivalentes de carbono. Fonte: CDIAC.

Conhecedor da história geológica da Terra que é, Langer desfila a relação de algumas mudanças dramáticas nas condições de clima e composição atmosférica pela qual o planeta passou conforme podemos ler nos registros geológicos e fossilíferos. Tais mudanças deixam marcas na composição química dos minerais - como ferro oxidado indicando uma maior quantidade de oxigênio na atmosfera -, e nas características dos fósseis - por exemplo, espécies tropicais em latitudes mais altas nos fazem suspeitar que a temperatura global era maior (e isso pode ser verificado independentemente com a composição de isótopos de oxigênio, por exemplo, em calcário: temperaturas mais altas diminuem a solubilidade mais de um isótopo do que de outro). Estão também registrados intensos episódios de extinção, quando fósseis de grupos abundantes em camadas mais profundas de rochas deixam de ser encontrados em camadas logo acima.

Aqui um ponto de concordância com o professor. Sim, isso mostra que episódios de alterações ambientais são recorrentes e que, sim, extinções são naturais. Concordo até com o elemento-chave de sua argumentação: "A resposta é simples: as extinções em curso não diferem dessas outras, a não ser pelo agente causador."

Mas, então, qual o babado? O babado é o truque semântico ao se usar a palavra "natural". Sim, nossas ações são naturais no sentido de que ocorrem na natureza, de que estão de acordo com as leis físicas, químicas e biológicas conhecidas. Porém, do mesmo modo, a violência é natural. Animais praticam violência: primatas cometem infanticídio, guerras, roubos, estupros. E os humanos, uma espécie de primata, também. E isso não viola nenhuma lei física ou química. E segue até uma explicação de natureza biológica - um certo nível de violência, do ponto de vista evolutivo, é até adaptativo: ajuda a deixar mais descendentes na próxima geração.

Agora, isso significa que, como a violência é natural, devemos aceitá-la? Oras, a história da civilização - entre indas e vindas - é exatamente a de se conter tal violência. Em alguns casos ritualizá-la como em demonstrações esportivas. Mas no geral contê-la por meio de punições convencionadas: prisões e, em alguns lugares, inclusive a pena capital. Até mesmo quando o agente violento, ao contrário de nós, é incapaz de refletir a respeito de suas próprias ações, nós atuamos para conter tal violência: capturamos animais perigosos que apareçam nas imediações de povoados (não raro os sacrificamos), marcamos culturalmente certas plantas como inadequadas ao consumo, criamos serviços de alertas de tsunamis, tempestades e deslizamentos e investimos milhões em pesquisas para previsão de terremotos.

A palavra "natural" tem uma pluralidade de sentidos e validá-la em um não implica na validação automática em outros. Há até um termo lógico-filosófico para isso: a falácia naturalista ou apelo à natureza. O "a não ser pelo agente causador" é fundamental aqui em um ponto: o tal agente somos nós e nós somos dotados de uma capacidade intelectiva que permite prever e avaliar as consequências dos atos. Nós, ao contrário de uma tempestade que destrói casas e ceifa vidas, podemos ser responsabilizados.

Isto é, independentemente da natureza da causa isso não é um impeditivo para que atuemos para evitar as consequências e, se possível, debelar a causa. E, ligado à natureza da causa, podemos - e devemos - responsabilizar o agente quando este é consciente.

Langer pontua a respeito das incertezas existentes em relação ao nível da taxa de extinção atual. Mas, embora, sim, mais estudos devam continuar a serem feitos para refinar as estimativas, isso não deve ser um convite à inação. Há dados suficientes para um cálculo, ainda que os números comportem uma faixa de incógnita - sim, pode ser sensivelmente mais baixo; e, sim, pode ser sensivelmente mais alto. Há um risco e tal risco deve ser abordado. Especialmente porque as consequências são bem danosas (a extinção de anfíbios pode levar a um grande aumento de vetores de doenças, p.e.). Além disso, há casos bem documentados de animais que foram extintos mais diretamente por ação humana: como o dodô, a vaca-marina-de-steller, o pombo passageiro, a alca-gigante... Sem falar em populações locais. Temos responsabilidade direta sobre isso. Por mais natural que seja a caça, por mais natural que seja derrubar florestas para construir casas.

Assim, em resposta à conclusão de Langer: "Se, nesse processo, levarmos algumas à extinção, certamente não seremos os primeiros" - devo dizer que, tanto quanto os registros geológicos e paleontológicos nos permitem saber, somos os primeiros seres conscientes a fazê-lo (e serão bem mais do que "algumas"). E grande é a nossa responsabilidade, como diria um certo amigo da vizinhança.

Veja também:
24.ago Darwin & Deus/Alex Hubbe & Olívia Mendonça-Furtado: "Não fazer nada é o melhor que podemos fazer sobre o nosso futuro?" (cuidado! contém paywall poroso)
26.ago Folha/Reinaldo José Lopes: "Homem não pode ignorar efeitos das transformações que causa no planeta" (cuidado! contém paywall poroso)

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