SOS - ESPÍRITO SANTO

Como ajudar as vítimas da enchente no Espírito Santo.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Nem tudo o que doureja é lúzio 6

Uma rodada especial de gaiata ciência: o tema é "bloqueio criativo".

Dois artigos já haviam sido citados na segunda rodada.
Mas é praticamente uma subárea à parte da psicologia:

Tem até meta-análise:

Mas sempre tem aqueles que não sabem brincar:

domingo, 7 de setembro de 2014

Revista em quadrinhos é objeto de estudos de zoólogos

Reproduzo abaixo notícia que publiquei na seção de notícias da Com Ciência (publicação temática mensal do Labjor em parceria com a SBPC). Por algum motivo, o texto não está mais disponível no site.

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Revista em quadrinhos é objeto de estudos de zoólogos
Por Roberto Takata
22/07/2014
No lugar de caminhada no meio da floresta com redes e armadilhas, leitura minuciosa de páginas de gibi. Foi assim que os autores de A Zoologia de "Sete Soldados da Vitória": análise dos animais presentes na obra e sua possível utilização para fins didáticos coletaram seus dados para o estudo. Os pesquisadores fizeram o levantamento faunístico de “Sete Soldados da Vitória”, metassérie (conjunto de minisséries interligadas) em quadrinhos de Grant Morrison lançada em 2005 pela DC Comics e publicada no Brasil em 2007 pela Panini Comics. 

Cerca de metade das personagens, entre super-heróis, vilões, humanos comuns e até bichos de estimação, representam ou são baseadas em animais. Destes, 63% pertencem ao filo dos cordados – que inclui os vertebrados como nós – e 37%, protostômios – grupo ao qual pertencem os insetos, as aranhas, minhocas e moluscos. Como notam os autores no artigo, a presença no nosso cotidiano parece ser o principal fator determinante na presença nos quadrinhos: mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes, insetos e aranhas predominam –, em contraste com o número de espécies conhecidas em cada grupo. 

O trabalho, à primeira vista inusitado, faz parte da linha de pesquisa do grupo liderado pelo zoólogo Elidiomar Ribeiro da Silva, da Unirio, de facilitar o aprendizado de biologia com a inclusão de elementos da cultura pop, despertando, assim, o interesse dos alunos – uma das autoras do artigo, Tainá Ribeiro da Silva, é estudante do ensino médio. Ela é filha de Elidiomar, mas, mesmo havendo realizado outros trabalhos com o pai, esta foi sua primeira experiência na classificação de organismos. “Certamente me ajudou a ter uma noção mais ampla do assunto”, contou por email Tainá, ávida leitora de quadrinhos e fã de Batman. 

“Mesmo informações zoologicamente incorretas podem ser exploradas em sala de aula, com os devidos ajustes e correções”, escrevem os autores no artigo. Por exemplo, o desenho de uma “cabeça” de aranha em um dos quadros pode ser usado como gancho para falar da morfologia dos aracnídeos: em que não há uma cabeça e um tórax separados como em insetos, mas formam uma única estrutura fundida em um cefalotórax. As incorreções podem também ser base para atividades do tipo “encontre o erro”. 

Sete Soldados da Vitória

Cada uma das sete minisséries que compõem a obra gira em torno de um super-herói e pode ser lida de modo independente. Porém, um fio condutor une as histórias que convergem para a batalha final na qual os heróis salvam a humanidade de uma raça de seres vinda do futuro, os sheedas, e que controlam insetos e aranhas, utilizando-os como armas e montarias.
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Confira a íntegra da entrevista por email gentilmente cedida pela aluna Tainá Ribeiro da Silva, uma das autoras do estudo:

GR. Como foi sua participação no trabalho? Você quem pediu pra fazer, seu pai a convidou?
TS. Meu pai me chamou para participar, sendo que eu fiz parte de um outro projeto similar que focou na taxonomia de personagens baseados em aranhas. Nesse trabalho, eu o ajudei a fazer os cálculos estatísticos e também pesquisei sobre a origem de alguns personagens.

GR. O que achou da atividade?
TS. Foi complicado e demorado. Pra falar a verdade, tomou uma boa quantidade do meu tempo, mas eu realmente gostei de ver o resultado final!

GR. Você já tinha experiência em fazer classificação de organismos? A pesquisa a ajudou a desenvolver essa habilidade?
TS. Não tive experiência em fazer classificação de organismos antes desse trabalho, mas ele certamente me ajudou a ter uma noção mais ampla do assunto.

GR. Você gosta de quadrinhos? Se sim, quais? Gostou dessa obra que analisaram?
TS. Gosto de quadrinhos desde pequena! Meus pais sempre me encorajaram a ler, e eles mesmos adoram. Eu amo as séries do Batman e tenho gostado bastante dos Novos 52. Sobre “Sete Soldados da Vitória”, a história não chegou a chamar muito a minha atenção, porque é confusa e diferente de tudo que eu estou acostumada a ler. Tem vários personagens que eu desconheço, sobrando só a Zatanna. Não sei se posso dizer que gostei, mas não é ruim.

GR. Já tem alguma escolha profissional? Pretende fazer biologia?
TS. Certeza absoluta eu não tenho, mas tenho pensado bastante em fazer arquitetura. Biologia seria muito legal, mas eu não sinto que é ideal para mim.
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Agradecimentos:
Obviamente à estudante Tainá Ribeiro da Silva pela entrevista e ao Prof. Dr. Elidiomar Ribeiro da Silva pela autorização da entrevista. Às orientadoras Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

Este trabalho foi produzido sob financiamento da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência).

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Nem tudo que doureja é lúzio 5

Uma nova rodada de gaiata ciência.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Indicador de Letramento Científico

Saiu o tão aguardado (pelos que acompanham os dramas da cultura científica no Brasil) resultado da primeira edição do Indicador de Letramento Científico, o ILC, realizado pelo Instituto Abramundo em parceria com a Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro. Gostaria muito que esse tipo de levantamento fosse incluído nas pesquisas do MCTI sobre a Percepção Pública de Ciências - infelizmente o então diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do MCTI, Ildeu de Castro Moreira, foi voto vencido e o estudo sobre o conhecimento científico do brasileiro não foi incluída.

O resultado do 1° ILC não é nem um pouco diferente do que seria o esperado - o diabo é tão feio quanto pintam. Entre os entrevistados (2.002 pessoas entre 15 e 40 anos de nove regiões metropolitanas e do DF), apenas 5% apresentam o nível 4 - letramento científico proficiente: e a proficiência não é um nível particularmente alto de conhecimento, envolve coisas como interpretar gráficos de acordo com certas hipóteses (no exemplo do relatório, verificar o gráfico de projeção de temperaturas globais de acordo com as emissões de carbono em dois cenários e dizer o que significam essas duas projeções) (Tabela 1).

Tabela 1. Níveis de letramento científico dos entrevistados.
Nível Descrição %
Nível 1 "Não científico: Localiza, em contextos cotidianos, informações explícitas em textos simples (tabelas ou gráficos, textos curtos) envolvendo temas do cotidiano (consumo de energia em conta de luz, dosagem em bula de remédio, identificação de riscos imediatos à saúde), sem a exigência de domínio de conhecimentos científicos." 16
Nível 2 "Letramento científico rudimentar: Resolve problemas que envolvam a interpretação e a comparação de informações e conhecimentos científicos básicos, apresentados em textos diversos (tabelas e gráficos com mais de duas varáveis, imagens, rótulos), envolvendo temáticas presentes no cotidiano (benefícios ou riscos à saúde, adequações de soluções ambientais)." 48
Nível 3 "Letramento científico básico: Elabora propostas de resolução de problemas de maior complexidade a partir de evidências científicas apresentadas em textos técnicos e/ou científicos (manuais, esquemas, infográficos, conjunto de tabelas) estabelecendo relações intertextuais em diferentes contextos." 31
Nível 4 "Letramento científico proficiente: Avalia propostas e afirmações que exigem o domínio de conceitos e termos científicos em situações envolvendo contextos diversos (cotidianos ou científicos). Elabora argumentos sobre a confiabilidade ou veracidade de hipóteses formuladas. Demonstra domínio do uso de unidades de medida e conhece questões relacionadas ao meio ambiente, à saúde, astronomia ou genética." 5


Mesmo com metodologias distintas e público-alvo da pesquisa também totalmente diferentes, o mesmo padrão geral delineado em outras pesquisas como o PISA é obtido: um certo número de indivíduos sem nenhum conhecimento de ciências, a grande parte tendo apenas um conhecimento muito básico, e muitos poucos com conhecimentos mais avançados. (Figura 1a,b.)

a)
b)
Figura 1. a) Resultados para o Brasil do PISA 2012 de ciências (estudantes de 15 anos). b) ILC 2014 (brasileiros entre 15 e 40 anos).

Entre os que estão no ensino superior ou o completaram, apenas 11% têm nível de proficiência; entre os com nível superior completo, apenas 18% têm nível 4. Entre profissionais da administração pública, somente 6% e entre os profissionais de educação, apenas 10% (este é o ramo com maior porcentagem de indivíduos com nível 4). Entre os funcionários com altos cargos, de nível gerencial, são apenas 12% os proficientes (é a segunda categoria funcional com maior proporção de indivíduos com nível 4; a categoria com maior proporção é a dos profissionais liberais, empresários e empregadores: 15%).

Entre os com nível mais alto de letramento científico, 31% teriam problema em calcular a quantidade de combustível consumido para percorrer uma dada distância sabendo o consumo médio do veículo. Isso mesmo, entre os com maior capacidade de compreensão científica, quase 1/3 não saberia aplicar uma simples conta de multiplicação.

A pesquisa incluiu algumas perguntas sobre percepção e atitudes públicas sobre ciências, mas o relatório, infelizmente, não detalhou os resultados por nível de letramento. Entre as perguntas sobre interesses em temas científicos, os resultados poderiam ser alentadores (Tabela 2), mas a realidade sobre o grau de informação parece demonstrar que precisamos interpretar essas declarações de interesse com não apenas um grão de sal, mas com salinas inteiras (Tabela 3).

Tabela 2. Interesses declarados dos entrevistados a respeito de temas científicos.
Frase concorda (total ou parcialmente) não concorda nem discorda discorda (total ou parcialmente) ns/nr
A ciência me ajuda a compreender o mundo em que vivo 72 15 12 1
Procuro estar sempre bem informado sobre novidades no campo da ciência e da tecnologia 62 13 26 0
Gosto de ler textos sobre temas científicos 45 17 39 0
Sempre gostei de estudar ciências 44 17 39 0

Tabela 3. Conhecimento de temas científicos tratados nos meios de comunicação.
Tema Não sei nada/quase nada Conheço pouco/apenas ouvi falar Conheço bastante sobre o assunto Conheço bem o assunto e procuro estar atualizado
Mudanças climáticas/efeito estufa 24 59 14 3
Informática e tecnologia 26 48 21 6
Poluição/uso de recursos naturais/biodiversidade 27 52 17 4
Evolução das espécies; origem da vida 31 51 16 3
Cura de doenças/novos medicamentos 31 55 12 2
Fontes de energia renováveis 35 48 14 2
Animais pré-históricos, fósseis e descobertas arqueológicas 38 49 11 2
Engenharia genética/organismos geneticamente modificados/transgênicos 47 43 8 2
História do desenvolvimento científico 48 42 8 2
Exploração do universo/buracos negros/quedas de asteroides 50 41 8 2
Robótica e nanotecnologia 61 32 6 2

As opções de temas (Tabela 3) são bem abrangentes para uma interpretação de que os entrevistados consideram-se bem informados em outras áreas de ciências possa ser considerada com maior seriedade. Como compatibilizar a declaração de que se procura informar muito sobre ciências (Tabela 2) com a declaração de que se sabe pouco sobre ciências (Tabela 3)? Poderia ser por modéstia em declarar seu próprio conhecimento? Poderia ser por considerarem os textos que leem como pouco informativos? Darei a cara a bater e avançarei a hipótese de que os dados sobre interesses são pouco confiáveis: os entrevistados exageram seu grau de interesse. Alerto que pelos dados disponíveis *não* se pode testar a validade de tal interpretação que defendo aqui. É só um palpite.


Os dados mais bisonhos - ainda que não exatamente surpreendentes -:
77% dos entrevistados concordam (em parte ou totalmente) com a frase: "O governo deveria investir mais na ciência, pois ela tem importância estratégica para o país";
53% dos entrevistados concordam (em parte ou totalmente) com a frase: "O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais". (Tabela 4.)

Isso significa que entre 2430 (77-5347, no caso da sobreposição mínima entre os grupos) e 53% (sobreposição máxima) concordam *ao mesmo tempo* com as duas frases. Uma fração não desprezível dos entrevistados acham tanto que se deve aportar mais e menos dinheiro em Ciência e Tecnologia. (Incongruência presente também na pesquisa de 4 anos atrás feita sob encomenda do MCTI.) É mais um alerta de como devemos interpretar pesquisas de percepção e atitude públicas com um matacão de NaCl.

Tabela 4. Comparação da concordância dos entrevistados quanto aos investimentos em C&T e destinação dos recursos nas pesquisas do MCTI 2010 e do ILC 2014.
concorda totalmenteconcorda em partenão concorda nem discordadiscorda em partediscorda totalmentens/nrpesquisa
O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais2821-13353MCTI 2010
O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais21321814122ILC 2014
Os governos devem aumentar os recursos que destinam à pesquisa científica e tecnológica6823-423MCTI 2010
O governo deveria investir mais na ciência, pois ela tem importância estratégica para o país482915521ILC 2014

Por motivos que não entendi bem, resolveram concentrar o público na faixa entre 15 e 40 anos. Somado ao fato de restringirem às regiões metropolitanas e à capital federal, infelizmente não podemos extrapolar diretamente os resultados para a população brasileira. A comparação com os dados de atitudes e consumo de informações científicas dos levantamentos do MCTI também é prejudicada.

Seria legal se tivessem incluído perguntas utilizadas nos principais levantamentos de alfabetização científica no mundo - particularmente da NSF e da Eurobarometer. Mas é o que tem pra hoje. (De todo modo, pPelo que pudemos perceber, aparentemente os resultados do PISA, mesmo restritos à população de estudantes com 15 anos, podem ser extrapolados para a população inteira - ao menos para o Brasil em relação ao conhecimento científico.) De todo modo é o primeiro levantamento em nível nacional do letramento científico (de parte) dos brasileiros. Que venham as edições futuras.

Agora sabemos o tamanho do buraco da educação e divulgação científicas no Brasil.

Veja o que foi publicado em outros blogues:
Ceticismo - Uma catástrofe chamada letramento científico
Minas faz Ciência - Reflexões sobre o letramento científico

Upideite(25/ago/2014): Comparativo entre as categorias do PISA 2012 e o grupo de 15-19 anos do ILC 2014.
O nível abaixo de 1 do PISA parece corresponder ao nível 1 do ILC, assim como os níveis 4 e acima do PISA e o nível 4 do ILC das duas aferições parecem corresponder entre si.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ELA não pode ganhar: Challenge Accepted - Cabeça fria, coração quente, banho gelado

Todo mundo já sabe do desafio da água gelada para levantar donativos para o tratamento e a pesquisa da cura da esclerose lateral amiotrófica, doença neurodegenerativa relativamente rara (1 a 2 casos por 100.000 pessoas-ano).

Crédito da foto: dnunciate/Worth1000.com

O GR nomeia o Do Nano ao Macro (que está fazendo 5 anos) e o Hypercubic (que deve estar faturando horrores com a venda do Patentes Patéticas) para realizar o desafio.

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Doações:
ABrELA
Banco Santander - Ag. 3919
CC: 130001906
CNPJ: 02.998.423/0001-78 

Mais informações: ABrELA
Tel: (11) 5579-2668
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Claro que você pode doar para qualquer outra instituição de sua preferência.

Upideite(26/ago/2014): Como houve quem duvidasse que o Calíquio tenha enfrentado o balde de gelo, aqui tem um vídeo que prova o feito.


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Denise Fraga, eliminar a Química do currículo é mesmo a solução? - leitores respondem

Reproduzo abaixo comentários de leitores do GR sobre o texto da Denise Fraga propondo a eliminação (ou drástica redução) do ensino de química nas escolas.

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Alexandre disse...
Tenho certeza que a fórmula de ensino usada em nossas escolas poderia ser melhorada. Sem nenhuma autoridade no assunto, eu tenho grande simpatia pelo método de aprendizado por projetos, pois me parece buscar o que mais falta na escola: alinhar o interesse e curiosidade da criança com o conteúdo a ser aprendido, além do enorme valor didático de aprender fazendo.

Mas a Denise Fraga foi de um simplismo lamentável. Sugerir que a internet substitui o conteúdo escolar foi muito infeliz. Como você disse, a criança ou jovem não teriam nem a base pra julgar a qualidade do conteúdo que encontrassem. Seria simplismo meu achar que isso acabaria em pornografia, Facebook e teorias conspiratórias?
8 de agosto de 2014 04:14
Prof. José Antonio Dias disse...
Simplesmente sensacional. Quem sabe algum químico genial consiga criar um antídoto para a falta de senso das celebridades e pessoas públicas notórias, as quais vêm com frequência aos meios de comunicação prestar um desserviço à já tão combalida educação do nosso país?
8 de agosto de 2014 05:21
João Carlos disse...
Há dois lados nesta moeda... A química, assim como a física e a biologia são assuntos fascinantes. Eu só gostaria de saber por que mil raios o ensino da química no 2º grau consegue transformar tudo isso em trabalho braçal, chato, desmotivante e repulsivo.
Existe coisa mais chata do que ser "armadilhado" com um "equilíbrio de equação química", notadamente daquelas que só acontecem no papel?
Será que a introdução ao princípio da "valência" tem mesmo que ser pretexto para exercícios e questões de prova de preenchimento dos suborbitais spdf?
Mas tudo o que eu disse sobre química, física (por que se tem que decorar as fórmulas, pelamordedeus?!... A aplicação das fórmulas é que é importante), serve para todas as matérias. Se eu não pretendo ser um linguista, de que me serve saber se tal ou qual poeta é gongórico ou romântico?
8 de agosto de 2014 06:36
Caruê disse...
Compreendo a ´´critica`` extremamente simplista que a Denise fez, já fiz ela a respeito da literatura e da gramatica quando criança. Não preciso refutar ela o texto já fez isso.
O ensino de Química tem muito a ser melhorado, mas reduzir a 1 ano é uma piada, Decisões fundamentais a respeito do clima e da própria saúde necessitam de um conhecimento em Química, um cidadão e eleitor precisa saber Química, Física, Matemática Historia, economia e Geografia para votar.
Como sugestão: precisamos unir a teoria com a pratica realizando experimentos, precisamos dar uma abordagem ampla de como a ciência é feita, socar fatos é o que gera pessoas ignorantes.
´´Ciência é muito mais uma maneira de pensar do que um corpo de conhecimentos`` Carl Sagan
8 de agosto de 2014 12:06
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quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Denise Fraga, eliminar a Química do currículo é mesmo a solução? Não seria precipitado?*

A atriz da Rede Globo de Televisão Denise Rodrigues Fraga Villaça escreveu um artigo na Folha de São Paulo reclamando do conteudismo escolar pegando a Química pra cristo (e sobrando até pra biologia): [cuidado, paywall poroso!] "Química, pra que te quero?".

Arrisquei-me a discutir algo similar (com conclusão virtualmente oposta), mas em um contexto de educação *informal*, não na escola. Não me sinto muito confortável discutindo políticas educacionais. Não tenho formação na área, não cursei a Escola de Teatro Martins Pena.

Assim, não irei discutir tanto sobre como a educação deve ser e o que deve ser ensinado, quanto apontar inconsistências nas críticas da atriz e convidar para um outro olhar.

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No primeiro parágrafo a atriz faz a provocação: "Que me perdoem os químicos, mas alguém poderia me dizer por que ainda se estuda química nas escolas?" Curiosamente, ela mesmoa dá uma resposta logo em seguida: "É uma linda ciência e concordo que deveríamos ter ao menos um ano de estudo da matéria para entender a composição das coisas que juntas e inter-relacionadas compõem o Universo."

A bem dizer, a Física dos Elétrons de Valência - aka Química - trata só da matéria comum: átomos formados por um núcleo de prótons e nêutrons orbitados por elétrons ou na forma de plasma - que compõe menos de 5% do Universo (uns 70% são formados por energia escura e uns 25% por matéria escura). Mas no nosso dia a dia está ostensiva e fundamentalmente presente. Dá mesmo para abrir mão disso? Quando há campanhas contra aditivos químicos nos alimentos vamos confiar apenas no que nos dizem ou usaremos nossos instintos para saber quem tem ou não razão? E sobre o uso e controle de agrotóxicos? Medidas de combate à poluição atmosférica, das águas e do solo? A sua resposta é: "O acesso à informação anda no nosso bolso a um clique de nossos dedos e mesmo assim precisamos decorar os nomes do aparelho reprodutor dos platelmintos?/Podemos saber de tudo navegando por aí. Tanto pra aprender! E quem nos ensina a escolher o que queremos saber?". Bem, há mais de um aspecto que precisamos levar em conta:

1) Por enquanto, pouco mais de 100 milhões de pessoas têm acesso à internet. Cerca de metade dos brasileiros *não* tem acesso à informação "a um clique".
2) É preciso ter uma certa habilidade para pesquisar na internet: saber os termos para pesquisar e filtrar os resultados. Seria interessante que se ensinasse a nossos filhos nas escolas, ao menos assim me parece. Mas isso substitui as aulas de química e de biologia? Como pesquisar sobre aparelho reprodutor de platelmintos se você não sabe o que significa "aparelho reprodutor" e nem sabe que platelmintos existem? A pesquisa tende a se tornar ineficiente e há grandes os riscos de ir parar em uma página pouco confiável.
3) Talvez a maturidade a respeito da escolha do que queremos saber passe por ter um bom conhecimento básico e que seja amplamente partilhado. Algum aluno pode se interessar por saber mais como a pesquisa por melhores corantes de tecidos levou ao desenvolvimento da indústria da química fina, que, entre outras coisas, permitiu o desenvolvimento de novos medicamentos. Mas como ele iria saber que se interessa por isso sem nem saber sobre química? Como teremos alunos inclinados a serem químicos, bioquímicos, engenheiros químicos, petroquímicos, técnicos diversos (como aqueles essenciais que fazem testes de segurança de um sem número de compostos que você e todo mundo usa: de cosméticos a alimentos e medicamentos -?) sem que eles saibam o que é química?
4) Decorar o nome do aparelho reprodutor dos platelmintos - que, por acaso, tem o mesmo nome do nosso: "aparelho reprodutor" (sim, alguns órgãos têm nomes diferentes como o "poro genital"; outros, como "testículo", o mesmo) - é menos importante do que entender a diversidade de modos reprodutivos entre os seres vivos e como os padrões de similaridades e diferenças nos unem a todos. Sério, Denise Fraga, não faz sua cabeça explodir saber que somos relacionados por *parentesco* aos platelmintos? Saber que temos um ancestral em comum remoto com eles e outros ancestrais em comum - mais recentes ou mais antigos - com todos os demais seres vivos conhecidos até o momento? Saber que a despeito de tantas diferenças na aparência, platelmintos e nós, somos formados essencialmente do mesmo modo: a partir da fusão de células reprodutoras e posterior divisão celular e diferenciação das células resultantes?

Para a atriz, ensinar um jogo seria mais negócio: "Mas por que não optar por xadrez, por exemplo? Você já viu alguém jogar cadeias de carbono e hidrogênio com um amigo numa tarde chuvosa? Imagina que maravilha seria se todos nós fôssemos potenciais jogadores de xadrez formados pela escola?". Novamente, vários aspectos:

1) Há escolas que ensinam xadrez e outros jogos de tabuleiro e salão, além de práticas desportivas diversas (e até artes dramáticas). Mas não fazem isso *no lugar* da química. São atividades distintas, não concorrentes.
2) Imagina, então, se todos fôssemos pessoas que entendessem bem de química? Uma porção de dinheiro seria economizada fugindo-se de bobagens pseudocientíficas como homeopatia - com o bônus de melhora em nossa saúde. Não cometeríamos imprudências várias: como queimar a mão no gesso, ingerir metanol, cozinhar com ascarel, deixar de vacinar por causa do esqualeno, misturar água sanitária com amoníaco, provocar incêndio por largar pano com linhaça, etc., etc., etc.
3) Resistirei à tentação de maldar com a imagem de dois amigos lançando moléculas hidrocarbônicas um no outro (de compostos psicoativos a secreções biológicas); mas há vários jogos baseados na química - eu adorava os kits de químico mirim ou, em vez de decorar a tabela periódica, pode-se jogar com ela.

Provavelmente há necessidade na revisão da abordagem, já que nem você, nem seus filhos aprenderam adequadamente - não que eu saiba tudo o que se deva saber sobre química. Mas será que essa revisão é a simples eliminação da disciplina ou sua drástica redução a apenas um ano durante todos os 12 anos do ensino básico? Não poderia justamente ser uma melhora na ênfase da relevância do conhecimento químico? Da aproximação de tais conhecimentos com o nosso dia a dia? (Não são nenhuma abordagem revolucionária e estão presentes como parâmetros curriculares nacionais desde meados da década de 1990. Talvez o problema seja de sua efetiva implementação.)

*Uma das vantagens de ter uma cultura mínima em Química é entender a piada do título.

Upideite(07/ago/2014):  Uma compilação do que outros blogues de ciências comentarem será feita aqui.

Ceticismo.net: Químicos, para que vos quero?

Upideite(08/ago/2014): Só estou pegando no pé, mas Denise Fraga cometeu um autoplágio, muito do que ela escreveu para a Folha, ela já havia escrito para a revista Crescer.

Para a atriz, sem surpresas, ir ao teatro é mais importante do que conhecer química. Bem, um bom número de brasileiros também viveram até hoje sem nunca ter assistido a uma única peça de teatro. É triste, mas ao mesmo tempo revela que o teatro não é tão importante assim para se usar no dia a dia. Não digo que as pessoas não devam ir ao teatro, acho que até devem ir e seria interessante haver uma introdução à cultura do teatro para crianças. (Eu pessoalmente não tenho as melhores lembranças da experiência com a nobre arte dramática - não entro em detalhes, pois seria oversharing e não vem ao caso.) Mas, se o argumento é que o ensino da química não é importante porque as pessoas não usam, bem, teatro seria menos importante ainda. E também posso baixar encenações de Shakespeare na internet, bem como o texto, se eu quiser impressionar alguma gateeenha recitando trechos de Romeu e Julieta.

O texto na Crescer é de 2009; o da Folha, de agora, 2014. Ela já achava o ensino da química na escola ruim há 5 anos. Não sei se chegou a trocar de escola, a contratardo professor particular, a ter ela mesmo aproveitado que o conhecimento de química estava a um clique de distância e usado isso pra ensinar a seus filhos. Se não fez, não foi um tanto relapsa e omissa quanto à educação dos filhos? Se o fez, não significa que o "conhecimento a um clique de distância" não é tão efetivo assim?

Upideite(08/ago/2014): Ainda é só pegação de pé, mas, em 2002, o Conselho Regional de Química da 4a Região cedeu espaço para que cenas do filme que ela estrelava fosse gravado. Fosse, hoje, o pessoal do CRQ-IV poderia aproveitar para dar uma palestra sobre a importância do conhecimento de química para uma pessoa poder exercer sua cidadania mais plenamente.

Upideite(10/ago/2014): Disclêimer - sei que pelo texto acima não parece, mas eu sou fã do trabalho de Denise Fraga como atriz.

Upideite(16/ago/2014): A Sociedade Brasileira de Química manifestou-se sobre o texto na Folha.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Na saúde e na doença: distorções representativas e sensacionalismo na cobertura da Aids e do câncer

Talvez o suprassumo do sensacionalismo no jornalismo e na divulgação científicas seja na área de saúde. Em especial quanto aos anúncios de curas do câncer e da Aids. Por motivos de... é o que vende mais.

Outros temas de saúde amplamente explorados nas capas são envelhecimento, dietas, saúde do coração. O padrão geral é que se destacam as questões de saúde que mais interessam às classes mais altas - o perfil do público alvo de boa parte dos impressos (Tabela 1).

Tabela 1. Número de artigos de O Estado de São Paulo que citam 
determinadas doenças ou fatores de saúde humana.*

Período
Fator/doença 1990-atual 1875-atual %
câncer 38.512 65.417 58,9
aids 15.834 18.291 86,6
dengue 5.782 6.280 92,1
cardíaca 4.501 10.811 41,6
diabetes 3.694 11.688 31,6
hipertensão 2.795 4.394 63,6
polio/poliomielite 2.741 7.892 34,7
tuberculose 2.425 26.002 9,3
malária 2.282 7.171 31,8
desnutrição 1.440 2.984 48,3
sarampo 1.003 4.121 24,3
esquistossomose 176 1.338 13,2
Para alguns termos como câncer, o contexto é difícil de se analisar - 
pode, p.e., referir-se a um signo zodiacal.

A tentação é grande, até uma revista primordialmente voltada aos negócios dá de botar uma capa sobre a "cura do câncer", como a edição do mês passadode junho* da revista Forbes. Na verdade é uma terapia gênica com células T, específica para leucemia linfoblástica aguda. A versão brasileira transformou em um tratamento geral para câncer - usando incidência para todos os tipos da doença para falar do potencial de alcance do novo tratamento: "Cerca de 14 milhões de pessoas são diagnosticadas anualmente com câncer. Já imaginou se fosse possível encontrar uma cura? Pois é o que a Novartis propõe com um tratamento revolucionário." A LLA tem uma incidência anual global estimada entre 1 a 4,75 novos casos por 100.000 pessoas. O que significa entre 75.000 e cerca de 360.000 novos casos por ano - significativo, mas bem longe dos 14 milhões mencionados pela Forbes Brasil.

Em julho de 1992, a revista Globo Ciência (hoje Galileu) anunciava: "Aids sob controle. Comprovada a eficiência da droga brasileira SB-73." (Não sei em que pé está a pesquisa com isso, buscando no Google Scholar por "hiv"+"Streptomyces brasiliensis" não encontro nenhum artigo. Em 1992, foi apresentado resultados de experimento clínico em fase II - com apenas 14 sujeitos experimentais - na 8a. Conferência sobre Aids em Amsterdã, Países Baixos.)  Em novembro de 1995, a mesma Globo Ciência voltaria à carga, agora dupla: "Câncer e Aids. A cura nas plantas.".

Em outubro de 1996, foi a vez da Superinteressante: "Aids a 1% da cura". A pior de todas, em dezembro de 2000, a Super vinha com a capa: "Aids. O HIV é inocente?" abrindo espaço para a hipótese não substanciada em fatos de que a Aids seria causada por desequilíbrio químico (em outubro, a revista tinha publicado uma entrevista com Duesberg, na qual o químico defendia essa ideia, por essa entrevista a revista se sentiu na obrigação de se desculpar, treze anos depois.). Janeiro de 2001, capa: "O fim do câncer?". A machete mudava pra "Câncer: viramos o jogo" em maio de 2013. No mesmo ano em agosto, a revista se saiu com "Enfim, a cura da Aids".

Um blogue da revista Time tentou fazer gracinha com um achado de uma pesquisa, sobre o papel protetor às mitocôndrias do sulfeto de hidrogênio produzido no interior das células em situação de estresse (mas, deve-se admitir, foi na toada do release infeliz - lá se faz associação do gás com o odor de flatulência). Levou na cabeça com a resposta do Boing Boing no facebook (Fig. 1).

Figura 1. O processo de distorção entre o que é produzido e o que é anunciado. Fonte: Boing Boing FB.

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Embora mesmo a OMS esteja esperançosa quanto ao controle e até erradicação da Aids, não é pra agora. Anúncios recentes de casos de eliminação de HIV do corpo de pacientes sofreram um baque na segunda semana de julhoretrasada*: um bebê tido por "curado" há dois anos, voltou a apresentar carga virótica detectável em seu organismos. Não é tão simples combater o HIV, sua taxa de mutação é relativamente alta e partículas virais podem se esconder no interior de células progenitoras de células de defesa  - onde ficam a salvo do ataque de medicamentos dos coquetéis e dos anticorpos. A sobrevida média, no Brasil, após o diagnóstico de Aids, é de cerca de 9 anos atualmente. Mas os infectados pelo HIV que começam o tratamento antes de desenvolver os sintomas da Aids podem viver décadas. No entanto, a despeito de uma dezena de casos isolados relatados na literatura, não há ainda uma cura - os pacientes precisam continuar tomando seus medicamentos para manter a carga virótica suficientemente baixa.

O câncer, por sua vez, não é uma única doença. Há mais de 200 tipos. E, praticamente, cada evento de câncer é único, com seu próprio conjunto de alterações genéticas. Não É muito complicado (impossível?) desenvolver um tratamento único, sem contar as diferenças de reações de indivíduo para indivíduo. Muitos tipos têm tratamentos adequados e até bons índices de cura - especialmente com diagnóstico precoce. Falar em "cura do câncer", assim, de modo genérico, denota, então, um tratamento único com índice de cura muito alto (mais de 90%) para uma ampla gama de tipos em praticamente qualquer fase de desenvolvimento da doença - estamos, infelizmente, longe disso.

Os meios de comunicação não apenas refletem o gosto de seu público alvo, eles também o molda, influenciando seus leitores. Não é de se surpreender que o brasileiro pense que no país morra-se mais de câncer do que de infarto ou AVC. As distorções representativas, o enviaesamento da cobertura, o sensacionalismo, o alarmismo... atingem não apenas a reputação dos veículos, mas expõem a saúde dos próprios leitores/telespectadores/ouvintes.
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via Ruth Helena Bellinghini FB, @oatila, Adalberto Cesari FB.

*Upideite(04/ago/2014): Fui postergando a publicação desta postagem que as datas relativas originalmente referidas ficaram bem defasadas.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Como é que é? - Garota de 12 anos rouba autoria de importante descoberta em biologia marinha?

Uma garota de 12 anos filha de cientista - seu pai, D. Albrey Arrington, é ecólogo de peixes - apresentou em 2012 seu projeto de feira de ciências com resultados que mostravam que o peixe-leão (Pterois sp.) é capaz de sobreviver em águas de baixa salinidade (até 5 g/litro). Vários veículos destacaram o feito e a NPR (rádio educativa americana) não foi nada sutil:

"Sixth-Grader's Science Fair Finding Shocks Ecologists" ["Achado de Feira de Ciências de Alunaos de Sexto Ano Deixa Ecólogos Chocados" - mudado agora para "Sixth-grader's science project catches ecologists' attention": "Projeto de ciências do sexto ano chama a atenção de ecólogos."]

A NBC não ficou atrás:

"Sixth-Grader's Lionfish Science Project Stuns Conservation Experts" ["Projeto de Ciências de Sexto Ano sobre Peixe-Leão Espanta Especialistas da Conservação"]

Nem a CBS:

"Sixth grader credited with scientific breakthrough on lionfish" ["Aluna do sexto ano reconhecida com descoberta surpreendente sobre peixe-leão"]

A tolerância à variação na salinidade tem uma implicação ecológica importante. Duas espécies de peixe-leão: P. volitans e miles - nativas das águas do Indo-Pacífico, estão agora invadindo o litoral atlântico americano (inclusive no Brasil), onde não encontra predadores. Se toleram ambientes de baixa salinidade podem invadir também ambientes de água doce.

Seria mais um belo caso de incentivo às crianças - como a das crianças do primário de Blackawton estudando abelhas mamangabas ou das crianças do quinto ano em Ubatuba-SP planejando lançar um satélite, entre outras -, porém parece que a coisa é meio, como diriam os americanos, "fishy" (yay! trocadilho!). Em sua página no facebook, o biólogo marinho Zachary R. Jud reclama para si a autoria da descoberta*.

"My lionfish research is going viral...but my name has been intentionally left out of the stories, replaced by the name of the 12-year-old daughter of my former supervisor's best friend. The little girl did a science fair project based on my PREVIOUSLY PUBLISHED DISCOVERY of lionfish living in low-salinity estuarine habitats. Her story has been picked up nationally by CBS, NPR, and CORAL magazine, and has received almost 90,000 likes on Facebook, yet my years of groundbreaking work on estuarine lionfish are being completely and intentionally ignored. At this stage in my career, this type of national exposure would be invaluable...if only my name was included in the stories. I feel like my hands are tied. Anything I say will come off as an attempt to steal a little girl's thunder, but it's unethical for her and her father to continue to claim the discovery of lionfish in estuaries as her own.

I'm looking towards you - my valued friends and colleagues - for suggestions on how I might be able to remedy this intentional misrepresentation without doing anything to disparage the little girl. Most of you are aware of the massive amount of time I put into exposing kids to science, and I obviously don't want to do anything to diminish this young lady's curiosity or enthusiasm. I'm thrilled that she chose to look at lionfish for her science fair project, but encouraging an outright lie is poor parenting and a horrible way to introduce a youngster to a career in the sciences.

This picture was taken in 2010, when I first discovered lionfish occupying estuarine habitats - 3 years before the little girl's 'discovery'.
"
["Minha pesquisa sobre peixe-leão está viralizando... mas meu nome tem sido intencionalmente deixado de fora nos relatos, substituído pelo nome da filha de 12 anos do melhor amigo de meu antigo orientador. A garotinha fez um projeto de feira de ciências baseado em minha DESCOBERTA ANTERIORMENTE PUBLICADA sobre peixe-leões vivendo em hábitats estuarinos de baixa salinidade. Sua história vem sendo destacada pela CBS, NPR e revista CORAL, e recebeu quase 90.000 curtidas no facebook, porém meus anos de trabalho de base com peixes-leões estuarinos estão sendo completa e intencionalmente ignorados. Neste estágio de minha carreira, esse tipo de exposição nacional seria valioso... se meu nome fosse incluído nos relatos. Sinto como se de mãos atadas. Tudo o que eu disser parecerá como uma tentativa de roubar o brilho de uma garotinha, mas é antiético que ela e seu pai continuem a clamar para si a descoberta de peixes-leões em estuários.

Peço a vocês - meus valorosos amigos e colegas - sugestões sobre como posso remediar essa representação intencionalmente errada sem denegrir a garotinha. A maioria de vocês está ciente da quantidade de tempo que dedico a expor as crianças às ciências e, obviamente, não quero fazer nada para diminuir a curiosidade e o entusiamos da jovem senhorita. Estou emocionado que ela tenha escolhido o peixe-leão para seu projeto de feira de ciências, mas encorajar uma mentira deslavada é um modo errado de se criar filhos e um modo horrível de se introduzir os jovens à carreira nas ciências.

Esta foto foi tirada em 2010, quando descobri pela primeira vez peixe-leão ocupando hábitats estuarinos - 3 anos antes da 'descoberta' da garota."]

O relato original da NPR dizia: "Lionfish had been found to live in water with salt levels of 20 parts per thousand. But no one knew that they could live in water salinity below that" ["Peixes-leões são encontrados em águas com salinidades de 20 partes por mil. Mas ninguém sabia que poderia viver em salinidade abaixo disso"]. Segundo Jud, o trabalho da garota é baseado em seu achado de que os peixes-leões estavam invadindo o ambiente estuarino - onde a salinidade é bem abaixo da de oceano aberto (Jud et al. 2011). Nesse trabalho, um dos co-autores é o pai da menina. No recente artigo de Jud et al. 2014 sobre a eurialinidade das espécies, a menina é citada no corpo do artigo:

"To address our first objective, identifying the long-term effects of reduced salinity on lionfish survival, growth, and behavior, we exposed fish to a salinity of 7‰ for 28 days in a laboratory setting. We chose this salinity based on our findings from the in situ cage study (above), in situ observations of wild lionfish at 8‰ (Z. Jud, unpubl. data), as well as the results of a small pilot study that showed lionfish could survive and feed at 6‰ for short periods of time (L. Arrington, unpubl. data)."

E nos agradecimentos:

"Acknowledgement This project was made possible by a close partnership with the Loxahatchee River District. Lauren Arrington (King’s Academy, West Palm Beach, FL) conducted preliminary laboratory experiments that helped give rise to our experimental design. We thank Joel Trexler for facilitating our use of Florida International University’s aquarium facilities and Diana Churchill for assistance during the laboratory portion of the study. Research protocols were approved by Florida International University’s Institutional Animal Care and Use Committee (IACUC-13-030- AM01), and a Florida Fish and Wildlife Conservation Commission Special Activities License (SAL-13-1487-SR)." [Trecho destacado sem itálico: "Lauren Arrington (King's Academy, West Palm Beach, FL) realizou os experimentos preliminares em laboratório que ajudaram a moldar nosso design experimental."]

Arrington, o pai, disse ao The Scientist que sua filha leu o artigo de 2011 e assistiu às palestras de Jud e Layman explicando os resultados quando elaborou, por conta própria, o experimento de tolerância à variação na salinidade. (Incluindo a citação ao artigo nas referências da apresentação do projeto na feira de ciências.)

Então, o achado é de quem?

A situação pode ser um pouco mais complicada do que se considerar um caso de simples plágio ou roubo de autoria. Poderia, por exemplo, ser o caso de uma percepção diferente do sentido de propriedade da ideia. Do ponto de vista da garota e de seus amigos e parentes pode ser algo assim: "Eu fiz o experimento, então o achado é meu". Do ponto de vista de Jud pode ser: "A concepção do experimento é minha, então a descoberta é minha". Além disso, o objeto é um tanto distinto. Do ponto de vista da Lauren Arrington: "Eu demonstrei que eles vivem em salinidade de até 6 partes por mil"; do ponto de vista de Jud: "Eu demonstrei que eles devem viver em ambientes com salinidade abaixo de 10 partes por mil e de, pelo menos, até 8 partes por mil". E a ênfase é distinta. Ela: "Eles podem invadir os rios"; ele: "Mostrei que já estão nos estuários."

Mas o papel de como a mídia esteve, até então, relatando o caso é, sem dúvida, relevante na percepção de Jud de que estava sendo escanteado.

Arrington sênior afirma, segundo o The Scientist, que em todos os contatos com a imprensa têm mencionado o trabalho em co-autoria com Jud. O orientador de Jud, Craig Layman, escreveu sua versão da história. Sua conclusão é que muito do problema foi gerado pelo sensacionalismo da imprensa: o trabalho da garota é, sim, uma contribuição original para a ciência (uma demonstração mais controlada do que era observacionalmente sugerido), mas não é algo que tenha chocado a comunidade de ecologia de peixes - afinal, já se sabia que os peixes-leões eram capazes de viver em ambiente com salinidade abaixo da do mar aberto (estuarinos, no caso) (descoberta que alguns relatos da imprensa, como a da NPR, erradamente atribuíram à Arrington, a filha, e que irritou profundamente Jud).

Pelo modo como os veículos estão cobrindo o caso agora:
o sensacionalismo continua. Sobretudo transformando uma demanda pela correta atribuição de créditos em uma acusação de roubo.

O blogue Science Sushi está fazendo a cronologia do caso:


(*via Camila Mano facebook)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Como é que é? - É perigoso voar em 17 de julho?

O portal Terra, em razão da queda (por possível abate) do voo MH17 da Malaysia Airlines (a mesma empresa que teve um avião desaparecido entre Kuala Lumpur e Beijing), que fazia a rota entre Amsterdã e a capital malaia, fez um levantamento de outros acidentes na mesma data de 17 de julho nos registros históricos de acidentes aéreos da base de dados da B3A (Bureau of Aircraft Accidents Archives).

"Depois desta quinta-feira marcada pela queda de um avião de passageiros da Malaysia Airlines, na Ucrânia, a dica da redação do Terra é: evite viajar de avião no dia 17 de julho. Isso porque esse acidente que deixou pelo menos 298 mortos já é o quinto desastre aéreo que acontece nesta data, ao longo dos últimos 70 anos."

Nos registros da B3A, há 21.629 acidentes desde 1918. Em 365,25 (considerando-se o dia extra nos anos bissextos), temos uma média de 59,2 acidentes em qualquer data do ano. Cinco quedas acumuladas parecem indicar até uma data excepcionalmente segura. O número total de quedas registradas na base da B3A para a data é de 57 casos (em 17.312 casos que consegui recuperar - média esperada de 47 acidentes e desvio padrão de 10 eventos). Claro, isso inclui os acidentes sem fatalidades. Considerando-se apenas os casos com mortes, são 33 casos para 17/jul (contra média de 27 e desvio padrão de 6); fazendo um corte de mínimo de 25 fatalidades, a média é de 2,7 com desvio padrão de 1,7 - e, para o dia 17/jul, há 7 casos no banco de dados - de todo modo não é o dia mais acidentado: com 9 acidentes, 11/set é a data com mais registros; outros 9 dias no ano também têm 7 ou mais acidentes acumulados (Fig. 1).

Figura 1. Distribuição de acidentes aéreos com 25 ou mais vítimas fatais por dia do ano. Fonte: B3A.

Na Figura 2, temos a distribuição invertida - número de dias do ano de acordo com o número de acidentes registrados com mais de 24 vítimas.

Figura 2. Distribuição de dias do ano por número acumulados de acidentes com 25 ou mais vítimas fatais. Fonte: B3A.

Cerca de 3% dos dias do ano têm 7 ou mais acidentes acumulados no registro. O dia 17 de julho parece estar bem dentro da variação normal esperada.

Upideite(22/jul/2014): Como se espera uma variação essencialmente ao acaso da relação entre data e acidentes (partido-se de alguns pressupostos como não haver grande variação na operação entre os diferentes dias), espera-se que *não* haja associação entre datas com mais acidentes dentro de um dado período e datas com mais acidentes em outro período. Dividi os 1001 casos de acidentes com 25 ou mais vítimas nos registros da B3A em dois períodos - entre 1935 e 1972 e entre 1973 e 2014 - e plotei em gráfico de correlação os números de acidentes em um período contra os números em outro (Fig. 3). Se houvesse correlação, os pontos deveriam se organizar ao longo de uma reta ascendente. Não é o caso.

Figura 3. Correlação entre números de acidentes aéreos com 25 ou mais vítimas entre 1935 e 1972 e ente 1973 e 2014. Fonte: B3A.

É uma análise similar à feita por FiveThirtyEight em relação a companhias aéreas.

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