SNCT 2015

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terça-feira, 28 de julho de 2015

Celebridades científicas são necessárias? - meu centavo e meio

Na postagem anterior comentei de passagem uma discussão que surgiu diante da constatação do baixo conhecimento do brasileiro a respeito de ciências, dos cientistas e das instituições científicas. Ela se conecta com as tentativas de se atrair mais pessoas para as carreiras de STEM (science, technology, engineer and mathematics).

Há várias iniciativas nesse sentido. No ensino básico por meio das "olimpiadas do conhecimento" (sim, eu sei que deveria haver acento no segundo 'i' de olimpiadas, mas como o COI e o COB são extremamente ciosos com o uso do termo e o último já chegou a notificar tais competições para que mudassem de denominação, vai sem acento mesmo) nessas áreas: na última reunião da SBPC foram premiados vencedores em várias categorias nacionais e a olimpiada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, OBMEP, é uma das maiores do gênero. [Artur Avila, nosso medalhista Fields, levou bronze na olimpiada Brasileira de Matemática, OBM (não confundir com a OBMEP), em 1992.] E feiras de conhecimento, como a Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), da LSI/Poli/USP. No ensino superior, o Ciência Sem Fronteiras, originalmente voltada especificamente para os STEM, e, por isso mesmo, alvo de várias críticas por não incluir ciências humanas, p.e. Para o público em geral a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Entre outras iniciativas locais, estaduais, federais, particulares e governamentais.

Na discussão ocorrida na reunião da SBPC a que me referi na postagem passada, surgiu o tema do "cientista celebridade" ou "celebridade cientista". Antes é preciso deixar claro que não se está dando nem um sentido negativo de celebridade (o que se acha, o que amealha para si todas as glórias mesmo a que deveria ser compartilhada ou atribuída a outros, o que trata os demais com descaso), nem o sentido que atualmente seria o mais convencional: alguém simplesmente famoso por ser famoso (e não por ser um destaque em uma área relevante na vida das pessoas - ao contrário, a ideia é exatamente que se destaquem por isso - aproximar-se do sentido anterior ligado exatamente ao termo primitivo 'célebre': no sentido, p.e., em que Einstein foi um célebre físico e não apenas um físico célebre). Em uma postagem do Rafael Bento, do RNAm, com o link para o artigo de André Rabelo, do SocialMente, um comentarista disse: "mais ego é algo que a ciência realmente não precisa".

As demais críticas têm sido: há outras coisas a se fazer (como valorizar as ciências dando melhores condições de trabalhos aos cientistas - entre salários, bolsas, direitos trabalhistas, desburocratização para a pesquisa...), linha adotada na crítica de Rabelo e também de Luiz Bento, do Discutindo Ecologia; a questão é superficial; e, para Atila Iamarino, do Rainha Vermelha e Nerdologia, é preciso que a Capes e o CNPq incentivem a divulgação científica de modo geral, reconhecendo a atividade na avaliação do pesquisador e dando verba para isso.

Como adiantei na postagem anterior, eu tendo a me alinhar mais com Stevens Rehen, da UFRJ, e com a Helena Nader, presidente da SBPC, e Jacob Palis, da ABC.

Mas, antes, abordemos as críticas: sim, há mais coisas a se fazer, apenas ter celebridades não é a solução para todos os problemas da ciência brasileira. Esse ponto é pacífico até entre os defensores de que haja mais cientistas conhecidos e admirados pelo grosso da população. Só que o fato de haver outras coisas não quer dizer que seja inútil haver os tais cientistas celebridades, ponto reconhecido pelo próprio Rabelo, crítico à ideia. Creio que esse ponto seria relevante se se propusesse que a promoção de "heróis da ciência" fosse a única ou a principal ação para a melhoria da ciência nacional. Não é o caso. Ou se fosse concorrente por recursos escassos. O que não é necessariamente o caso. A construção de reputação popular de indivíduos pode demandar muito dinheiro - como pagar anúncios em veículos de comunicação -, mas, aqui, não é algo que seja preciso. Agências de fomento, associações científicas, órgãos de governo têm seus relações públicas. E, não se trata aqui de personalismo, podemos eleger notáveis na forma de instituições ou mesmo personalidades já com boa reputação entre os pares - claro, há que se cuidar da transparência e não de fomentar panelinhas e intrigas de salão (infelizmente nada raro na comunidade científica). Bastaria, por exemplo, que órgãos de governo trabalhassem mais na promoção da *premiação* José Reis de divulgação científica junto aos veículos de comunicação (incluindo aí os social media): Artur Avila, não obstante o reconhecimento entre os pares pela qualidade de seu trabalho, ganhou boa notoriedade popular por meio da Fields - comparecendo à FLIP deste ano. Fora um Nobel, então, sua fama iria às alturas.

O ponto levantado por Atila, talvez um dos que podemos considerar o mais próximo de uma celebridade científica (é reconhecido por um bom público de jovens estudantes e alvo de tietagem), é interessante, mas também não é exatamente algo contrário à ideia de eleição de "campeões da ciência". E, sim, pode até ser, como argumenta, um meio indutor para o surgimento das celebridades.

Porém, todo esse blablablá acima serve mais como um intróito do que eu gostaria de realmente argumentar. Eu, confessadamente, não tenho conhecimento suficiente para argumentarpredicar a respeito de políticas públicas e apontar caminhos que devemos ou não trilhar. Então, mais do que apenas falar do que eu acho, é melhor eu trazer argumentos *científicos*. A questão dos "role models", dos modelos de vida, é bastante discutida mesmo na questãono problema da atração para as áreas STEM. Sapna Cheryan e colaboradores (2011) avaliaram a influência desses modelos na visão de mulheres quanto a suas possibilidades de sucesso nas STEM.

"Women who have not yet entered science, technology, engineering, and mathematics (STEM) fields underestimate how well they will perform in those fields (e.g., Correll, 2001; Meece, Parsons, Kaczala, & Goff, 1982). It is commonly assumed that female role models improve women’s beliefs that they can be successful in STEM. The current work tests this assumption. Two experiments varied role model gender and whether role models embody computer science stereotypes. Role model gender had no effect on success beliefs. However, women who interacted with nonstereotypical role models believed they would be more successful in computer science than those who interacted with stereotypical role models. Differences in women’s success beliefs were mediated by their perceived dissimilarity from stereotypical role models. When attempting to convey to women that they can be successful in STEM fields, role model gender may be less important than the extent to which role models embody current STEM stereotypes."
["Mulheres que ainda não entraram nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) subestimam quão bem elas irão desempenhar nessas áreas. Geralmente se assume que modelos femininos de vida melhoram a crença das mulheres em que elas serão bem sucedidas nas STEM. O presente trabalho testa essa suposição. Dois experimentos variaram o gênero do modelo e se o modelo incorpora estereótipos das ciência da computação. O gênero do modelo não teve efeito sobre a crença no sucesso. No entanto, mulheres que interagiram com modelos não-estereotípicos acreditaram que elas podem ser mais bem sucedidas em ciência da computação do que as que interagiram com modelos estereotípicos. Diferenças nas crenças no sucesso das mulheres foram mediadas pela dissimilaridade percebida em relação ao modelo estereotípico. Na tentativa de convencer mulheres que elas podem ser bem sucedidas nas áreas STEM, o gênero do modelo deve ser menos importante do que a extensão em que os modelos incorporam estereótipos correntes sobre as STEM."]

Seria, claro, pretensioso acreditar que isso encerra a discussão. A literatura é extensa e nem sempre há concordância quanto a isso. Mas espero que esse exemplo sirva para demonstrar que a proposta não é despropositada. E, embora eu não queira ser pretensioso de dar a palavra final, eu sou pretensioso o suficiente para querer que esta abordagem incentive a discussão a tomar uma base mais factualmente embasada. Opiniões pessoais (e históricos de vida) e ideologias importam, no entanto, a análise fica mais rica e sólida quando podemos amarrar com base em dados e estudos.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Percepção Pública da Ciência e Tecnologia 2015

A quarta edição da pesquisa de “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil”, agora conduzida pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos coordenado pelo MCTI, não traz muitas novidades em relação a outras.

Mostra a tendência geral de melhora das atitudes em relação às ciências: mais pessoas consideram que a atividade traz só benefícios ou mais benefícios do que malefícios (o que não deixa de ser também um fato preocupante*) - tendência que se dá por motivos não muito claros. (Fig. 1.)

Figura 1. Atitude do brasileiro em relação às ciências. Percepção de benefícios x malefícios. Fonte: CGEE 2015.

Em relação ao interesse declarado, não é possível uma comparação com toda a série pela mudança na metodologia de codificação das respostas na pesquisa de 2010. Mas é possível se verificar que praticamente não há alteração pelo interesse declarado em ciências - a maior variação ocorre em relação à moda, por motivo que desconheço - em relaçãocomparação ao último levantamento.(Fig. 2a e b.)

a) 
b) 
Figura 2. Interesse declarado do brasileiro por a) temas selecionados com destaque para b) ciências. Fonte: CGEE 2015.

Como comentei em uma análise sobre os resultados do Indicador de Letramento Científico da Abramundo, esses valores devem ser tomados com um bom grau de reticências. Há incongruências quando comparamos atitudes declaradas e ações medidas. O interesse manifestado não se concretiza, por exemplo, na busca pelas informações sobre o tema - 93,3% dos entrevistados não se lembram do nome de nenhum cientista brasileiro, 87,2% não sabem o nome de nenhuma instituição de pesquisa; além disso, a visão de que a ciência só traz benefícios não se casa com a opinião de que os cientistas têm poderes que os tornam perigosos (31,5% concordam totalmente, 35,9% concorda em parte), que a C&T é responsável pela maior parte dos problemas ambientais (21,9% totalmente e 34,6% em parte)*.

Os resultados de 2015 podem ser analisados online combinando-se vários filtros por categorias socioeconômicas. Ferramente similar à disponível na base dados da GSS americana e do SIDRA do IBGE. Uma sugestão de melhoria é permitir também o cruzamento entre as perguntas, p.e., saber, dentre os que responderam que as ciências só trazem benefícios, quantos acham que os cientistas são perigosos.
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O ponto em que os entrevistados continuam a manifestar um alto grau de desconhecimento sobre cientistas e instituições científicas brasileiras é motivo de preocupação por parte de acadêmicos e autoridades. Uma discussão lateral que surge é sobre o papel que cientistas célebres - ou cientistas "celebridades" - poderiam ter na atração de novos talentos para a área de STEM (ciências naturais, tecnologia, engenharia e matemática). André Rabelo, do DivertidaSocialMente, escreve contrariamente à ideia. Não exatamente contrariamente, mas acha que a questão é outra: a atratividade passaria pela valorização profissional - salários e condições de trabalho. Já Steven Rehen da UFRJ acredita que teria um impacto positivo. Talvez mais tarde eu aborde essa questão aqui no GR. Adiando que por ora tendo a me alinhar com a visão de Rehen e Helena Nader - sem maiores prejuízos à questão da valorização do trabalho do cientista defendida por Rabelo.***

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* É legal que se tenha uma visão positiva das ciências. Sim, as ciências são muito úteis e trazem vários benefícios. Mas, de um lado, claro que é exagero se considerar que ela *só* traz benefícios. Há vários perigos embutidos na atividade científica e em seus produtos. A energia nuclear é útil e pode ser que, em uma análise ponderada sobre riscos e benefícios, conclua-se que valha a pena investir nela. No entanto, não dá para dizer que não haja perigos em sua utilização (Three Miles Island, Chernobyl e Goiânia que o digam). Que 54% acreditem que não haja malefício algum na atividade científica é, assim, problemática. O outro ponto é que, o que em parte explica os 54%, essa visão positiva não se dá através de uma análise ponderada sobre o papel das ciências na sociedade moderna e na vida cotidiana. O baixo conhecimento - declarado e medido - em relação às ciências mostra que essa visão grandemente positiva está calcada exatamente em uma ignorância quanto à questão. Claro que não é apenas uma questão de ignorância: ela provavelmente não explica, por exemplo, um aumento da visão positiva ao longo do tempo - teria o nível de ignorância sobre ciências aumentada com o tempo? Não temos dados diretos a respeito dessa questão, mas os resultados etários do ILC não parece corroborar que haja um decréscimo geracional no grau de conhecimento científico - sempre fomos tão ignorantes em relação às ciências quanto somos hoje (ao menos na janela das últimas três décadas). Retornando à visão positiva calcada na ignorância, bem, esse grau de ingenuidade é bastante perigosa: tanto na manipulação de anúncios do tipo "cientificamente comprovado" quanto em campanhas anticiência baseadas em teorias da conspiração. Verdade que a ingenuidade é longe de total: a maior parte dos entrevistados considera que os cientistas são perigosos e a ciência (e a tecnologia) causam a maior parte dos problemas ambientais**. O que, por uma feita, traz ainda outro problema para os relações públicas das ciências resolverem, e, por outra, estabelece um conundro - que se resolve pela observação da incongruência dos pensamentos da população a respeito da C&T (em parte, certamente o conhecido fenômeno das pesquisas de opinião em que o entrevistado tenta dar a resposta que acha que o entrevistador considera a correta).

Talvez esse problema pudesse ser minorado invertendo-se a ordem das perguntas. A questão sobre se consideram que as ciências trazem mais benefícios do que malefícios ficasse depois de perguntas que dão exemplos de potenciais malefícios: cientistas perigosos por deterem poder do conhecimento e conhecimento e tecnologia que resultam em danos ambientais. Claro que isso criaria outro viés. Então, talvez seja o caso de aleatorizar a ordem das perguntas. Aí seria possível se ter uma ideia de o quanto a visão positiva sobre as ciência dá-se por não se ter à mente um exemplo de malefício das ciências e o quanto dá-se por realmente desconsiderar tais malefícios.

**Upideite(27/jul/2015): corrigido a esta data.
***Upideite(28/ju/2015): meus pitacos sobre a questão de cientistas celebridades.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Biólogo e a Divulgação Científica 2.5

Minha apresentação no último dia 21.jul durante o XII Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia.



As cores ficaram um pouco zoadas na conversão.

Disclêimer: As opiniões apresentadas são de exclusiva responsabilidade do autor. Não refletem necessariamente a visão institucional do Labjor. Nem da Fapesp, nem do IB/Unicamp ou outras instituições citadas.

Upideite (23/jul/2015): Agradecimentos especiais a @marifiora, @luizbento, Simone Pallone e Germana Barata pela revisão de versão preliminar da apresentação. Todos os erros que tenham persistidos são de inteira responsabilidade do autor.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ciência x Mídia x Novas Mídias: a cobertura do IBRO

O neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ, postou em seu perfil na rede do tio Zucko uma reclamação quanto à cobertura da imprensa nacional (mídia impressa e online) do IBRO 2015 - 9° Congresso Mundial da Organização Internacional de Pesquisa do Cérebro, um dos principais eventos científicos da área. Veículos das organizações Globo, onde o pesquisador tem bons contatos, cobriram o evento: CBN, Globo News, Globo Repórter, O Globo (combo quase total: rádio, cabo, tv aberta, impresso; não foi mencionado, mas suspeito que o G1 também ). mais a Record e a Revista Fapesp. (Sinceramente, no Brasil, eu já ficaria mais do que satisfeito com 'apenas' a Globo cobrindo...)

Verdade que o próprio Rehen, um dos organizadores do evento, não postou nada sobre isso em seu blogue (verdade também que eu mesmo não costumo publicar aqui no GR eventos com os quais estou envolvido, então não posso censurar ninguém quanto a isso). A última atualização é de 12/jun "US$ 28 bi jogados no lixo com artigos científicos irreproduzíveis?". Mas sua conta no twitter esteve bem ativa com detalhes sobre o evento, antes mesmo de seu início no último dia 7/jul; bem como seu perfil no facebook.

Rafael Soares, do RNAm e da Numina Labs, foi por conta própria. Mas Silmar Geremias, do SciCast, e o Carlos Cardoso, do Meio Bit, e Luiz Bento, do Discutindo Ecologia*, reclamaram que não houve nenhuma comunicação para os divulgadores científicos que utilizam as novas mídias.

A jornalista Sofia Murtinho, assessora de imprensa do evento, foi um tanto dura nas respostas (ainda que as reclamações também tenham sido duras): "Eu não entendo quem critica mídias tradicionais e fica sentado esperando um release chegar na caixa de e-mail". (Vale a pena conferir - quebrando a zerésima regra da internet - os comentários à postagem de Rehen no facebook.)

Conversando com pessoal de ciências de um importante portal brasileiro, parece que por lá também não chegou nenhuma comunicação sobre o evento.

O perfil do Scienceblogs Brasil no facebook pergunta: "Falta cobertura por falta de interesse da mídia ou dos espectadores? As pessoas gostam de ciências e de neuro!"

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Um elemento que também é preciso se considerar - afora a questão de se a comunicação foi eficiente ou não, de se os alvos escolhidos foram acertados ou não, de se há interesse ou não das mídias ditas tradicionais - é que as redações das empresas de comunicação estão muito reduzidas devido aos sucessivos cortes de pessoal. Nem sempre conseguem destacar gente para cobrir um evento ou mesmo para acompanhá-los via internet. Aí acabam se valendo mesmo de material de agências ainda que seja um evento no próprio país.

Há também um pouco da questão do timing. Parte do evento pegou o feriadão no Estado de São Paulo, da Revolução Constitucionalista de 1932, emendando desde quinta-feira (09/jul). Muitos dos principais veículos atuam de SP. Cobrir o evento em esquema de plantão também pode ser complicado, ainda mais em cenário de crise econômica.

Claro que isso, por outro lado, pode botar pressão para os organizadores apelarem para o "sexing-up". Daí pra aparecerem coisas como "10 motivos científicos por que seu cérebro não resiste a gatinhos na internet" não irá muita distância. Do chamativo ao apelativo não se requerem grandes esforços. Mas pode garantir maior cobertura da mídia (sobretudo online) e atrair mais leitores/ouvintes/espectadores (e, principalmente, clicadores).

*Upideite(10/jul/2015): adido a esta data.

domingo, 28 de junho de 2015

Identidade de Euler: a mais bela equação matemática?

"Like a Shakespearean sonnet that captures the very essence of love, or a painting that brings out the beauty of the human form that is far more than just skin deep, Euler’s equation reaches down into the very depths of existence."
["Como um soneto de Shakespeare que captura a própria essência do amor ou uma pintura que traz à tona a beleza da forma humana mais profunda, a equação de Euler alcança o âmago da existência."]
Keith Devlin

PixaçãoIntervenção artística em um ponto de ônibus na Unicamp.

"É bom saber que a equação certamente é a única a ter se tornado evidência num julgamento criminal. Em agosto de 2003, atentados ecoterroristas a uma série de revendedoras de automóveis na região de Los Angeles resultaram em prejuízo de US$ 2,3 milhões; um prédio foi incendiado e mais de cem SUVs foram destruídos ou danificados. O vandalismo incluía pichações dizendo 'BEBEDOR DE GASOLINA' e 'ASSASSINO'; e num Mitsubishi Montero escreveu-se a fórmula e^(i.π) + 1 = 0. Usando isso como pista e posteriormente como prova, o FBI prendeu William Cottrell, estudante de pós-graduação em física teórica no Instituto de Tecnologia da Califórnia, por oito acusações de incêndio criminoso e conspiração para provocar incêndio. No julgamento, que terminou com sua condenação, em novembro de 2004*, Cottrell admitiu ter escrito aquela equação no Montero. 'Eu acho que conheço aquela equação desde os cinco anos de idade', declarou Cottrell durante o julgamento. 'Todos deveriam conhecer o teorema de Euler.'" P: 81.

Crease, R.P. 2011. As grandes equações: a história das fórmulas matemáticas mais importantes e os cientistas que as criaram. Zahar. 276 p.

*Em 2009, a sentença foi anulada na apelação em função da Síndrome de Asperger de Cottrell, que, no entendimento da corte, impediria-o de atuar com dolo. A condenação por conspiração foi mantida. Cottrell foi liberado em 2011.
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Fórmula de Euler. Quando o ângulo φ é igual a 90° (π radianos) temos a identidade de Euler.Fonte: Wikimedia Commons.
A edição de outono de 1988 da The Mathematical Intelligencer perguntou a seus leitores - matemáticos industriais e acadêmicos - qual dentre 24 teoremas matemáticos listados era o mais bonito. As respostas deveriam dar notas de 0 a 10 para cada item. O resultado seria publicado no verão de 1990: em primeiro lugar com uma nota média de 7,7 foi, claro, a identidade de Euler (em segundo, com 7,5 de média, uma outra fórmula de Euler, a do poliedro: V + F = E + 2 - o número de vértices mais o de faces é igual ao número de arestas mais 2; com a mesma média, em terceiro lugar o teorema que diz que o número de números primos é infinito). Como trata-se de uma publicação matemática e não de estatística, deram apenas a média, não os desvios padrões para sabermos se são significativamente diferentes os valores (com n=68 respostas válidas). Em 2004, Robert P. Crease conduziu uma enquete em seu blogue no Physics World, sobre as maiores equações de todos os tempos (o que acabou rendendo seu livro citado mais acima), a identidade de Euler empatou em primeiro lugar juntamente com as quatro equações de Maxwell do eletromagnetismo.
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Fonte: xkcd
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O fato de a identidade envolver três (ou quatro) constantes matemáticas proeminentes é constanfrequentemente citado em sua classificação como belo. Mas apenas isso basta para justificá-lo como tal? O filósofo mexicano Ulianov Montaño Juarez considera um panorama maior:

"The aesthetic experience associated with Euler’s identity depends not only on the person’s inner events occurring during the act of contemplating the formula, but also on things like a person’s knowing the mathematics which allows us to make sense of the sign e^(i.π) + 1 = 0, the way a person’s preferences were formed, other people’s opinions, and so forth. The aesthetic experience of Euler’s identity depends on events that are not necessarily occurring at the exact moment of the experience, but which have an influence on it; that is, the process of experiencing Euler’s identity is embedded in a larger aesthetic-process." P: 86.
["A experiência estética associada à identidade de Euler depende não apenas dos eventos internos à pessoa que ocorrem durante o ato de se contemplar a fórmula, mas também de coisas como a pessoa conhecer a matemática que permite fazer sentido dos símbolos e^(i.π) + 1 = 0, o modo como as preferências da pessoa são formados, a opinião de outras pessoas e assim por diante. A experiência estética da identidade de Euler depende de eventos que não ocorrem necessariamente no momento exato da experiência, mas que têm influência sobre ela; isto é, o processo de experienciar a identidade de Euler é embutida em um processo estético mais amplo."]

Montano, U. 2014. Explaining Beauty in Mathematics: An Aesthetic Theory of Mathematics. Springer. 224 pp.
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A história da identidade de Euler é um tanto enigmática. Certamente o matemático suíço Leonhard Euler (1707-1783) foi o primeiro a obter a fórmula e^(i.v) = cos v + i.sen v e demonstrá-la com rigor matemático no capítulo 8 de seu Introductio in analysin infinitorum. Mas ele nunca escreveu a identidade e^(i.π) + 1 = 0. O mais próximo a que chegou foi o equivalente: ln(−1) = πi. (Sandifer, C.E. 2014. How Euler did even more. MAA. 240pp. Pp: 83-7.)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DC = RP? Leitores comentam

Subo aqui comentários à postagem em que discuto a distinção feita pelo jornalista Bernardo Esteves entre jornalismo científico e divulgação científica.

O jornalista Carlos Orsi, do blogue Olhar Cético, da revista Galileu, e da ACI da Unicamp, escreve:
"Uma coisa que me incomoda um pouco nessas discussões é o uso impreciso da palavra 'ciência'. Que pode ser referir à busca de conhecimento sobre o mundo material, pode se referir aos instrumentos e métodos usados nessa busca, pode se referir às instituições e às pessoas que, na civilização atual, são encarregadas de usar esses instrumentos e executar essa busca. Muito do debate sobre jornalismo científico, principalmente o inspirado no meio acadêmico 'de humanas', tente a tomar a terceira acepção pelo todo: a ideia da "construção social forte" das ciências ainda paira muito por aí."
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A jornalista Verônica Soares, do Minas Faz Ciência/Fapemig, diz:
"Tem um aspecto interessante nessa discussão que raramente é abordado: o fato de que muitas assessorias de imprensa e programas de divulgação das instituições se apropriam das técnicas do jornalismo para divulgar ciência (principalmente em revistas especializadas). Mas, nesses casos, nem sempre há uma busca pelo contraditório, nem sempre há um questionamento mais contundente ao cientista, porque o jornalismo praticado é um jornalismo "institucional", de release, pautado pelas instituições de fomento, por exemplo. Particularmente, acho que esse tipo de divulgação também tem seu lugar e não há demérito em fazer assessoria de imprensa para a ciência, mas o quadro demonstra que há jornalismos, plurais, ou seja, não é só uma questão de fazer a pauta, entrevistar, apurar, mas de identificar de que jornalismo estamos falando. Infelizmente, acho que há cada vez menos espaço para a produção de um jornalismo crítico como o que o Bernardo Esteves defendeu e crescem os Programas e Projetos relacionados ao jornalismo mais institucional, feito no âmbito das assessorias."

terça-feira, 16 de junho de 2015

Divulgação científica = relações públicas das ciências?

O jornalista Bernardo Esteves, da Piauí, faz uma interessante reflexão, em seu blogue "Questões da Ciência", sobre o papel do jornalista de ciências a partir de debate ocorrido na Conferência Mundial dos Jornalistas de Ciências - WCSJ 2015. A necessidade de se postar criticamente em relação ao conhecimento científico e de tornar o processo de produção desse conhecimento mais transparente ao público.

Discordo apenas de um ponto em que ele contrapõe jornalismo de ciências e divulgação científica: "Mas é importante não perder de vista que os profissionais dos dois campos atendem a interesses distintos – se os divulgadores têm como função aproximar a ciência da sociedade, aos jornalistas cabe defender os leitores e cidadãos". Esteves não é nem de longe o único a fazer, mais do que distinção, uma antítese entre os dois conceitos.

No meu entender, o jornalismo de ciências *é* uma *forma* de divulgação científica, uma modalidade dela. No GR, na primeira postagem da série sobre divulgação científica expressei a relação aninhada em termos de meios/agentes. Na terceira postagem trouxe definições acadêmicas das expressões, reproduzo-as novamente:

"Divulgação científica: todo tipo de atividade de ampliação e atualização do conhecimento. Envio de mensagens elaboradas mediante a transcodificação da linguagem técnica para uma linguagem compreensível pelo público amplo. Calvo Hernando 2006.

Também se usam as expressões: vulgarização científica, popularização científica e alfabetização científica."

"Jornalismo científico: transmissão ao público, por meio de notícias, reportagens, entrevistas e artigos, o sentido e o sabor do conhecimento científico, assim como suas crescentes implicações sociais, com papel informativo e formativo. Contribui para preencher lacunas escolares e para atualizar o cidadão. Reis 1984.

Conjunto das atividades jornalísticas que se dedica a assuntos científicos e tecnológicos e que se direciona para o grande público não-especializado, por meio de diversas mídias: rádio, televisão, jornais especializados e outras publicações de divulgação. Thiollent 1984.

Não se restringe à cobertura de assuntos específicos de CT&I, o conhecimento científico pode ser usado para compreender melhor qualquer fato, p.e. sobre uma enchente (divulgada na editoria de cidade), um jornalista pode conversar com meteorologistas para entender o fenômeno natural. Oliveira 2002."

Essas definições preservam a missão que muitos jornalistas, incluindo Esteves, atribuem ao jornalismo: de visão crítica dos processos sociais e instrumentação (atenção, não instrumentalização, que seria quase o oposto) cognitiva dos leitores para que possam se posicionar em relação aos temas que os afetam.

Mas, de um lado, não se pode dizer que seja uma missão que se possa (nem que se deva) atribuir exclusivamente ao jornalismo. De outro, não vejo como uma missão necessariamente vinculada ao jornalismo. Não entendo que a distinção seja em termos de objetivos almejados. Para mim, a distinção é tão somente de processos (a distinção mencionada acima de meio pode ser vista como condicionante do processo e/ou condicionado por este) envolvidos na elaboração do texto/mensagem. O jornalismo de ciências é uma modalidade de divulgação científica que lança mão de um conjunto de técnicas e instrumentos jornalísticos como: montagem de pauta, entrevistas com fontes, apuração das informações... (o condicionamento pelo meio pode ser visto por tais técnicas e instrumentos serem demandados pelo ofício em jornais, revistas, canais de rádio e TV em programas de jornalismo... o condicionamento do meio pode ser visto por tais técnicas transformarem os canais efetivamente em um canal jornalístico: digamos um blogue irá assumir uma cara de jornal com textos/mensagem geradas com o uso de tais instrumentos, ao mesmo tempo em que o blogueiro estará atuando como um jornalista).

A transmissão (essencialmente) passiva) do conhecimento científico, a função de aproximação entre ciência e sociedade, sim, são objetivos compatíveis com a divulgação de modo geral, mas não são definidoras dela. Isso é mais uma caracterização da ação de relações públicas. Sim, a divulgação científica *pode* assumir a forma de relações públicas das ciências, mas *não necessariamente* precisa assumir tal feição.

Se se contrapõe jornalismo de ciências à divulgação de ciências, está a se reduzir a última a ação de RP. É mais útil pensar que a DC engloba tanto o JC quanto o RPC (e mais coisas). Do mesmo modo como tanto jornalismo quanto relações públicas pertencem ao grande campo da comunicação social (que inclui ainda outras coisas como publicidade).

A DC tanto pode como muitas vezes assume a forma de crítica às ciências. P.e., o caso mais recente das declarações sexistas do nobelista Timothy Hunt, no mesmo WCSJ 2015, foi bastante analisados por vários blogues de divulgação científica. PZ Myers, em seu Pharyngula, não é e não atua como jornalista ao opinar sobre o caso. Ben Goldacre não é e geralmente não atua como jornalista ao criticar a Big Pharma e a indústria autointitulada "medicina alternativa complementar" (que, via de regra, não é nenhuma das três coisas). Mas ambos estão, sim, atuando como divulgadores de ciências.

Mostrar os intestinos das ciências é uma tarefa nobre do bom jornalismo de ciências, mas não é uma tarefa que só o JC saiba fazer, nem que só ele deva fazer. Não há oposição. Deve haver complementaridade. E essa complementaridade não se dá por um ser uma coisa e outra ser outra coisa. Se, no geral, é mais fácil ao jornalista de ciências ter o afastamento necessário; ao cientista, no geral, é mais fácil ter acesso em primeira mão. Um não jornalista e não cientista também pode contribuir com a DC fazendo a sua análise na posição de cidadão - ou de sua outra expertise (filósofo, cozinheiro, político, dono de casa, empresário, banqueiro, limpador de piscinas...). Se o cientista pode estar preso dentro dos interesses da academia  - ou do complexo político-industrial que sustenta sua pesquisa -, há que se considerar que o jornalista tampouco será necessariamente isento dos interesses que seu veículo representa. Interesses que podem perfeitamente ser legítimos, diga-se. (Idem para outros atores da DC.)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 22

Um tema muito debatido nos estudos sobre divulgação científica é o chamado "modelo do déficit". Há uma variação em torno do que se entende pela expressão, mas uma das definições consiste na hipótese de que há uma correlação positiva (causacional?) entre "conhecimento científico" e "atitude em relação às ciências". Isto é, as pessoas tendem a ter uma visão mais positivas em relação à prática científica quanto maior seu conhecimento sobre ciências.

Muitos pesquisadores da área e divulgadores de ciências, especialmente os que têm uma formação mais afim das Humanidades (jornalistas, cientistas sociais, historiadores...) e, em menor grau, de Ciências da Vida e Saúde (biologia, medicina, psicologia...), tendem a rejeitar o modelo.

Nick Allum e cols. 2008 resolveram colocar a questão à prova em uma base mais sólida. Fizeram um estudo de meta-análise compilado dados para várias culturas.
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Allum, N. et al. 2008. Science knowledge and attitudes across cultures: a meta-analysis. Public Understanding of Science 17(1): 35-5. doi: 10.1177/0963662506070159.

18 palavras-chaves foram utilizadas para se buscar por artigos em bancos de dados como o ISI Web of Knowledge, Medline, Google... “public”, “science”, “knowledge”, “citizens”, “understanding”, “technology”, “survey”, “biotechnology”, “awareness”, “environment”, “risk”, “perception”, “measurement”, “genetic”, “literacy”, “opinion”, “engineering” e “attitudes” com conectores "and" ou "or".

Dos 300 artigos, relatórios e outros resultados, 193 amostras de dados foram selecionadas (com base em se as amostram eram aleatórios e representativas de populações em nível nacional) abrangendo 40 países e cobrindo os anos de 1989 a 2004.

As escalas de conhecimento científico puderam ser classificadas em duas categorias abrangentes: conhecimentos científicos de livros-textos gerais de ciências e conhecimento sobre biologia e genética (como "tomates comuns não contêm genes, enquanto tomates geneticamente modificados têm").

As escalas de atitude incluíam 5 grandes áreas: 1) ciência em geral, 2) energia nuclear, 3) medicina genética, 4) alimentos geneticamente modificados (OGMs) e 5) ciências ambientais.

Corrigindo para idade, sexo e escolaridade, a relação geral entre conhecimento e atitude foi baixa (0,08) mas significativa (a alfa=5%). Foi significativamente negativa para atitudes sobre OGMs e ciências ambientais. E quanto maior o conhecimento de biologia/genética mais negativa a atitude em relação às ciências. Quanto maior o conhecimento sobre biologia, melhor a atitude em relação aos OGMs e às ciências ambientais.

Pessoas com formação no ensino superior tiveram uma melhor atitude em relação às ciências.

Corrigindo para fatores como PIB per capita, acesso à internet, número de pessoas com ensino superior, os americanos foram os que apresentaram a melhor atitude em relação às ciências entre as populações analisadas no levantamento; os gregos, a pior.

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Infelizmente, o Brasil não esteve entre os países analisados. O que não surpreende, dada a falta de estudos de abrangência nacional que contemplem tanto as atitudes (foco dos levantamentos do MCTI) quanto o conhecimento (foco do estudo da Abramundo). Estudos que contemplam as duas dimensões são apenas regionais, como o do Labjor (estado de São Paulo). (Sim, um dia compilo os dados da pesquisa GR, mesmo não tendo representatividade nacional.)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Bomba de chocolate: a comunicação científica ética

O biólogo e jornalista John Bohannon, criador do "Dance your PhD" e autor de um experimento de submissão de artigo falso para vários periódicos de acesso aberto, parece ter aprontado mais uma: em um artigo no site io9 "I fooled millions into thinking chocolate helps weight loss. Here' how." ["Enganei milhões fazendo-os pensarem que chocolate ajuda a emegrecer. Eis como."] ele revela ser o o 'autor' do 'estudo' que dizia que o consumo de chocolate ajudava a emagrecer e que teve uma boa cobertura (isto é, um generoso espaço foi disponibilizado) na mídia (corporativa e nas sociais), ele teria pregado uma peça com a intenção de demonstrar como o processo de apuração jornalística é falha.

Um pseudoexperimento foi realizado. Dados reais, mas obtidos com uma metodologia falha (p.e. não indicava o número de sujeitos experimentais em cada grupo), foram usados para produzir um artigo em que se 'demonstra' que comer chocolate todos os dias ajuda a perder peso.

O artigo Bohannon et al. 2015 Chocolate with high cocoa content as a weight-loss accelerator, International Archives of Medicine 8(55): 8 pp, não está mais disponível (embora possa, por enquanto, ser lido no cachê do Google - o abstract e o pdf). A revista não colocou nenhum aviso. Segundo o blogue Retraction Watch, o IAM alega que o artigo não foi, de fato, aceito e a publicação foi em decorrência de uma falha; mas, ao contrário da nota da revista, o artigo ficou no site por muito mais do que algumas horas, ficando desde abril até a revelação da farsa por Bohannon. (A IAM foi criada pela gigante Biomed Central em 2008 e mantida até 2014. Este ano, a revista passou para a iMedPub, da Internet Medical Society.)

Na Folha saiu na seção F5 (cuidado! contém paywall poroso), destinada a fofocas e bobagens em geral. Não encontrei matéria sobre isso no site do G1, nem no do Estadão.

Em 2012 um outro artigo foi publicado em uma outra revista com nome parecido, Archive of Internal Medicine (atualmente JAMA Internal Medicine), sobre putativos efeitos emagrecedores do consumo regular de chocolate. O estudo, Golomb BA, Koperski S, White HL. Association Between More Frequent Chocolate Consumption and Lower Body Mass Index. Arch Intern Med. 2012; 172(6): 519-52, foi citado pelo artigo de Bohannon e, à época, teve também uma boa cobertura pela mídia. Na Folha saiu um ano depois na seção Saúde e Equilíbrio (cuidado! contém paywall poroso).

Como dito, a intenção de Bohannon foi mostrar a falha no processo de apuração jornalística (e dar mais uma espicaçada nas publicações 'científicas' predadoras). Não é o primeiro experimento do tipo. Em outra área, temos, por exemplo, o "Abraço Corporativo". No fim das contas, qual o real valor do 'experimento' de Bohannon? Não é novidade a existência de tais falhas: o websítio Observatório da Imprensa decidadedica-se à análise das falhasdas patologias do jornalismo contemporâneo. Nem as denúncias. Nem esse tipo de denúncia por meio do logro intencional com posterior revelação 'bombástica': "rá, pegadinha do Mallandro!". Talvez um: "olhem só, vocês continuam errando". Ok, mas parece muito pouco por conta de um detalhe - dois.

Primeiro detalhe. Como no título do artigo no io9 de Bohannon, ele enganou milhões. Gary Schwitzer, no Retraction Watch, concede que Bohannon enganou mesmo foram só um punhado de jornalistas. Coube a estes a tarefa de enganar os milhões de leitores. De todo modo o efeito foi que milhões (a bem dizer é um chute em função do alcance potencial dos meios de comunicação que sabidamente deram espaço e tempo para apresentar os resultados do 'estudo') foram logrados. Isso era sabido que ocorreria se o objetivo do experimento fosse alcançado. A publicação do desmentido raramente tem a mesma repercussão do erro inicial. Não serão os mesmos milhões que serão 'desenganados'. Com a repercussão inicial das mídias sociais e a dinâmica que conhecemos, informações erradas e já desmentidas sempre retornam para nos assombrar (não é mesmo, Gilmar?).

Segundo detalhe. A despeito do que pensa Bohannon: "I don’t think I really put anyone at risk by getting them to eat a little chocolate." ["Não acho que tenha realmente colocado alguém em risco por fazê-lo comer um pouco de chocolate."], não é uma mentira completamente sem consequências. Dentre os milhões desinformados inicialmente (e os que continuarão a ser desinformados), haverá os que terão comido chocolate na esperança de emagrecer, mesmo em situações em que isso não seria recomendado: diabete, sobrepeso, intolerância à lactose ou alergia a algum componente do produto; ou pelo simples fato de se gastar dinheiro inutilmente (já que não se está a consumir apenas pelo prazer). Uma atenuante seria a existência de um estudo verdadeiro que sustenta a relação entre a ingestão de chocolate e o emagrecimento. No entanto, uma vez que o autor não acredita na veracidade dessa relação, ou que ela é ainda sem base suficiente, não há como tirar o corpo complemente fora em relação àsvista das consequências danosas potenciais da 'brincadeira'.

Isso Brohannon não discute em seu artigo de revelação do truque - embora alguns leitores o façam nos comentários. Não sei se ele submeteu seu projeto para algum comitê de ética. Não quero aqui crucificar o autor em sua tentativa, acredito, bem intencionada de esclarecer o modus operandi problemático do jornalismo (científico) atual. Apenas pincelar alguns aspectos que ficaram de lado na discussão principal a respeito desses problemas denunciados (a NPR traz também uma discussão dos aspectos éticos da diatribe do jornalista).

Pode ser que o saldo final do brinquedo seja positivo. Mas temos que colocar na balança os aspectos negativos também.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Normas sociais nas ciências? E daí?

O jornalista especializado em ciências, saúde e viagens Chris Woolston escreveu para a seção de notícias da Nature sobre uma discussão iniciada há pouco mais de um mês.

O geneticista Yoav Gilad publicou no twitter sua reanálise dos dados publicados em um artigo da PNAS contestando as conclusões do estudo.
A isso seguiu-se toda uma discussão. Woolston crê que isso é uma demonstração de como as mídias sociais estão mudando o modo como a ciência é discutida. Há três anos, sobre um artigo reportando a capacidade de bactérias de usarem arsênio, a microbióloga Rosie Redfield fez boa parte da discussãocrítica em seu blogue. Para mim, então, a participação das mídias sociais no (post-publication) peer review é uma notícia um tanto velha.

O que me chamou a atenção foi a declaração de um dos co-autores do artigo para contra-argumentar Gilad. Relata Woolston: "Michael Snyder, a geneticist at Stanford University in California and co-author of the original paper, stands by his team’s study and its conclusions and says that Gilad broke the 'social norms' of science by initially posting the critique on Twitter." ["Michael Snyder, geneticista da Stanford University na Califórnia e co-autor do artigo original, defende o estudo de sua equipe e suas conclusões e diz que Gilad quebrou as 'normas sociais' da ciência ao postar inicialmente as críticas no Twitter."]

Não é novidade a identificação da existência de 'normas sociais' nas ciências. Os sociólogos das ciências, pelo menos desde Thomas Kuhn (e talvez antes), vêm denunciando a existência dela deste a década de 1960. Porém, notemos, a existência dessas normas é alvo de denúncia: não é esperado a existência de tais normas no fazer científico. O discurso é que o processo é objetivo, só os fatos contam. Ok, há questões éticas: não fazer os sujeitos experimentais sofrerem inutilmente e, no caso de humanos, sem consentimento prévio; não forjar dados, não plagiar... Há questões de validação: prioridade da descoberta para a publicação mais antiga, nome científico só válido com publicação oficial, aceitação de artigos publicados somente em revistas indexadas para fins de avaliação de produção... Mas regras sociais construídas na forma que seja um tabu abertamente reprovável a não conformidade a elas?

Não é usual o caminho da publicação de contestação pelo twitter? Não, não é. Até porque, dentro da tradição multicentenária da comunicação científica, as mídias sociais são uma novidade recentíssima. No entanto, qual é realmente o problema de tal caminho, ainda mais para se levantar a bandeira das 'normas sociais'?

Poderia se dizer que responderia após a publicação formal. Não haveria mal nisso. Contudo, ao criticar via 'normas sociais' está deixando de responder à crítica não pelo que ela realmente é - se as contestações são ou não procedentes, no caso, se a análise feita apoia ou não a conclusão -, mas simplesmente por causa da forma.

'Normas sociais' podem ser levantadas no sentido de tentar explicar a forma como determinados cientistas ou grupos de cientistas agem: compadrio, moda, formalidades, manias, rapapés... não como exatamente 'normas': regras (mais ou menos arbitrárias e não validadas cientificamente, contando apenas com o peso da tradição e da ditadura da maioria) às quais as pessoas *devem* se conformar.

Em geral, quebrar 'normas sociais', em ciências, deveria ser alvo até de admiração, não de censura.

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