CONCURSO CULTURAL

Concorra a um exemplar de "Em Busca do Infinito".

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A quem interessa o catastrofismo categórico irrevogável?

Folha 10/nov/2014 "Mas talvez agora já seja tarde demais: há fortes sinais de falência do sistema amazônico, que incui a floresta e sua influência sobre o clima continental."

Opção 5-11/out/2014 "É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma."

Não duvido que tais sentenças tenham sido dadas da mais boa fé. Mas, de um lado, a ecologia de biomas é um tema complexo demais para uma afirmação do tipo: "está extinto" ou "falência" seja dada de modo categórico. Sim, podemos falar com alta dose de certeza de que o bioma da flora de Dicroidium está extinta. Mas temos dificuldades de dizer até se  alguma espécie recente está extinta - temos um parâmetro de 50 anos sem registro no ambiente selvagem a despeito de coletas sistemáticas, mas há vários casos de organismos que foram encontrados depois de declarados extintos.

A situação de um bioma inteiro é muito mais complicada. Existem espécies-chave? Funções-chave? Que nível mínimo populacional deve ser alcançado? Que nível mínimo dos parâmetros funcionais são considerados? Qual o grau de resiliência e de redundância? O quão generalizável são os parâmetros de um ambiente para os demais? O que se estabelece para certos fragmentos é extrapolável para uma área maior? Não são elementos fáceis de se determinar - até por isso há intensos estudos de larga escala e longo curso agora na Amazônia como a capitaneada por Thomas Lovejoy.

De outro, há uma implicação econômica e ética complicada.

Uma coisa é o alerta de que um ambiente, formação vegetal, paisagem natural, ecossistema, bioma corre sérios riscos. Isso envida o *aumento* dos esforços conservacionistas. Outra é dizer que tais áreas estão condenadas.

Declarar um bioma extinto ou além da possibilidade de salvação implica que a continuidade de quaisquer esforços atuais são inúteis, salvo para mercadores da falsa esperança. Melhor aplicar os recursos em outras áreas. E, fora alguma conservação de relicto na forma de museu natural, seria melhor derrubar o que resta para aproveitar melhor o espaço.

A quem interessa, então, o discurso catastrofista categórico irrevogável em relação ao destino de um bioma? Ainda mais quando os indícios em que se baseiam tais declarações estão longe de estar além de qualquer dúvida razoável.

domingo, 9 de novembro de 2014

SaganDay 80

Oquei, sem aquela piadinha macabra de que se Carl Edward Sagan estivesse vivo hoje estaria arranhando a tampa do caixão. Hoje comemoramos o octogésimo aniversário do nascimento do grande astrônomo e divulgador científico americano.

Não sou exatamente um saganiano, mas admiro o respeito que ele inspira entre seus devotados seguidores* (que devem estar se deliciando com os arquivos disponíveis online). Sua obra de divulgação iniciou muita gente boa - um dos mais eminentes sendo Neil deGrasse Tyson (apresentador da nova versão de Cosmos) - às maravilhas e agruras da ciência e do ceticismo. Por sua postura mais aberta ao diálogo acabou despertando também a admiração de grupos que não classificaríamos (eu pelo menos não) como cético-racionalistas: houve uma briga entre a família de Sagan, administradora do legado, e grupo de ufólogos brasileiros que queriam batizar seu projeto de Instituto Carl Sagan - no fim, tiveram que mudar de nome para Instituto Galileu Galilei.

Entusiasta da ideia de que o Universo seria coalhado de vida e até de vida inteligente (sim, na época não havia caixa de comentários de portais de notícias), foi um grande apoiador do projeto SETI. Na esperança de que algum dia alguma civilização pudesse encontrar nossos vestígios, colocou uma série de instruções pictográficas na placa a bordo das sondas Pioneer 10 e 11, e também no disco folheado a ouro das Voyager 1 e 2 sobre a nossa localização. Ele tinha uma convicção não baseada em fatos de que os alienígenas compartilhariam sua visão pacifista da exploração espacial. Uma aplicação mais criteriosa do princípio da precaução recomendaria que evitássemos divulgar abertamente nosso endereço - no mínimo, corremos riscos de sermos entupidos por spams interestelares; em uma hipótese menos caridosa, talvez recebêssemos uma visita indesejada que não poderíamos expulsar com uma vassoura de ponta cabeça atrás da porta. Mas, dado que já disseminamos involuntariamente nossa presença por meio de sinais de rádio e TV, a concordância da Nasa com a iniciativa de Sagan talvez seja compreensível.

Abaixo manterei uma lista de homenagens prestadas a Carl Sagan pela blogocúndia lusofonocientífica neste ano (não encontrei ainda nenhuma postagem sobre o aniversário - se souber de alguma, por favor, indique nos comentários***):


Obs: Não se esqueça também de participar do Concurso Cultural e concorrer a um exemplar do livro "Em Busca do Infinito" de Ian Stewart.

*Upideite(09/nov/2014): Registro aqui o protesto de Danilo Albergaria quanto à sua classificação como "devotado seguidor".
**Upideite(09/nov/2014): Adido a esta data.
***Upideite(09/nov/2014): Encontrei alguns, mas se souberem de outros, por favor, indiquem.

domingo, 2 de novembro de 2014

"Experimentos Extraordinários": uma boa notícia e outra nem tanto

Nunca mencionei aqui o trabalho do jornalista Iberê Thenório e cia. no "Manual do Mundo" por alguma razão que não sei dizer qual seria. Minha desculpa é uma que, na verdade, piora ainda mais pro meu lado: tem monte de coisa legal de que eu ainda não falei no GR.

Todo mundo já sabe, mas direi mesmo assim: é um trabalho extraordinário. Menos pessoas sabem, porém é algo com que sonhei uma vez: o saudoso Prof. Leo fazendo em seu Feira de Ciências vídeos dos experimentos (como ele fazia na TV Cultura).

Foi com grande alegria e expectativa que recebi a notícia de que Iberê estrearia um programa no canal Cartoon Networks, o "Experimentos Extraordinários" - onde ele e uma equipe de adolescentes cuidariam de levar ao ar um programa homônimo ficcional diário sobre, bem, experimentos científicos.

Vi agora há pouco acompanhado de uma pessoa para ter uma opinião sob a perspectiva infantil: eu mesmo. Fiquei meio frustrado porque o programa real é sobre a produção de um programa fictício, não sobre experimentos científicos. No programa de estreia de uma hora de duração, mais de 50 minutos são sobre a contratação de Iberê por um canal de TV, seu encontro e desencontros com sua trupe de jovens ajudantes - na preparação do roteiro, do cenário, do guarda-roupa, etc. Em 5 minutos, na exibição do quadro ficcional dos experimentos, dos três preparados: sobre crescimento fototrópico do feijão, funcionamento de uma buzina e foguete de gelo seco, só a montagem do gelo seco é mostrada por inteiro - mas de modo extremamente sucinto e sem nenhuma explicação sobre seu *funcionamento*.

Como escrevi alhures, acho um tremendo desperdício utilizar Iberê em um programa unicamente dramatúrgico, sem nenhum componente maior de divulgação científica. Não acho o programa ruim, do ponto de vista do entretenimento (ainda que minhas credenciais como crítico de TV sejam as mesmas de Denise Fraga como analista educacional ou de Ruth de Aquino - sim, nunca me esquecerei - como assessora científica); e até serve como algum tipo de divulgação científica - nem tanto para explicar, para disseminar conhecimento diretamente, quanto para criar uma cultura pró-ciência, de naturalizar mais sua presença no cotidiano, despertar o interesse da petizada.

Mas Paul "Beakman" Zaloom já mostrou que ensinar ciência, ter audiência e conquistar corações são objetivos plenamente compatíveis. Não que se espere de Thenório um "Beakman's Show", por vários motivos, um deles é que já tivemos o "Beakman's Show", se fosse pra fazer uma versão ou uma cópia, bastaria reprisar os episódios; mas por que não inserir mais divulgação no meio da ficção?

Talvez um cross media storytelling do bem: ligar o sítio web do "Manual do Mundo" ao programa, onde os detalhes dos experimentos apresentados por Valentino são dados, com instruções detalhadas sobre como fazer e as explicações dos conceitos científicos por trás do fenômeno demonstrado.

Concurso Cultural

No próximo dia 27 de novembro, completam-se 6 anos desde a primeira postagem no GR.

Mantendo a tradição do blogue, vai ter, sim, um concurso cultural - e, se reclamarem, vai ter dois. Adequando-se às novas instruções do Ministério da Fazenda, o concurso cultural chamar-se-á... concurso cultural; não envolverá nenhum tipo de sorteio nem adivinhação - eles dizem que não são instruções novas, que são apenas esclarecimentos da lei vigente; pra mim parece uma interpretação por demais restritiva, porém, regulamento legal é regulamento legal e devemos obedecer.

Bem, valendo um exemplar completamente gratuito do livro "Em busca do infinito: uma história da matemática dos primeiros números à teoria do caos" de Ian Stewart (2014, Ed. Zahar, 383 pp.) para concorrer basta enviar um texto de até 1.000 caracteres em língua portuguesa com o tema: "Quais as consequências do analfabetismo científico para o Brasil?" - como o baixo conhecimento científico dos cidadãos brasileiros de modo geral influencia (positiva e/ou negativamente) a sociedade brasileira nos mais variados aspectos: social, ambiental, político, econômico, afetivo...

------------------------------


Regulamento:
0. Somente concorrerão os que enviarem formulários corretamente preenchidos.
1. Parentes meus até segundo grau não valem.
2. A resposta deve ser enviada até às 23h59 (hora de Brasília) do dia 27/11/2012. (Vale o "timestamp" do sistema.)
3. Os critérios para a escolha do texto vencedor serão completamente subjetivos.
4. O prêmio será enviado gratuitamente, mas somente para um endereço coberto pelos Correios brasileiros em porte nacional.
5. O vencedor ou a vencedora será contatado/a por email e terá uma semana para responder. Findo o prazo, o prêmio estará prescrito e o segundo colocado será contatado. (E assim por diante.)
6. Pode-se responder ao formulário quantas vezes quiser, mas o participante estará concorrendo apenas com o último enviado.
7. Este concurso segue a lei federal 5.768/1971 e legislação correlata.
8. A participação no concurso implica em concordância total com os termos deste regulamento.
------------------------------

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Yo no creo em brujas... 2

...pero en sacis...

Além do Sacisaurus, outros elementos científicos são batizados em homenagem ao personagem mítico de nosso folclore.

Satélite de Aplicações Científicas 1 e 2. Microssatélites desenvolvido pelo INPE para realizar diversas missões científicas. O Saci-1 foi lançado por meio do foguete chinês Longa Marcha, mas não chegou a entrar em órbita devido, provavelmente, a uma falha no computador. O Saci-2 foi destruído com falha do foguete brasileiro VLS, destruído em pleno ar.

Saci & Perere. Retrotransposons - sequências genéticas capazes de "saltar" de um lugar a outro do genoma por meio da transcrição reversa - encontrados no material genético do Schistosoma mansoni.

Rede SACI. Criada em 1999, congrega várias iniciativas de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia de comunicação para deficientes (físicos, auditivos, visuais...) com o objetivo de disseminar infomações sobre a deficiência em âmbito nacional. Seu nome remete aos princípios da rede: solidariedade, apoio, comunicação e informação.

Smart Adaptive Cloud Identification. Sistema automático de identificação de nuvens para imageamento do céu e previsão de irradiação solar.

Sistema Ancilar de Cintiladores - Pequeno Espectrofotômetro de Radiação Eletromagnética com Rejeição de Espalhamento. Espectrofotômetro de partículas gama para estudos de mecanismos de reações nucleares.

---------------
Há também acrônimos aparentemente não relacionados ao ente travesso:
Selective Arterial Calcium Injection.
Spark Assisted Compression Ignition.
Surface-Activated Chemical Ionization.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

SNCT 2014 - Água que passarinho não bebe

Pra este ano, o tema da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia foi "Ciência e Tenologia para o Desenvolvimento Social".

-----------------
Tecnologia social é "um método ou instrumento capaz de solucionar algum tipo de problema social e que atenda aos quesitos de simplicidade, baixo custo, fácil aplicabilidade e geração de impacto social". Uma das tecnologias sociais de maior impacto e simplicidade que conheço é o soro caseiro.

Dentre as figuras envolvidas no desenvolvimento dessa tecnologia, podemos destacar o médico austríaco naturalizado americano Norbert Hirschhorn. Em 1964, na divisão médica do exército americano, atuava em Bangladesh, então parte do Paquistão, combatendo uma epidemia de cólera. O tratamento aplicado era a hidratação por via endovenosa - um procedimento relativamente caro e que demandava instalações hospitalares. Outros já estavam trabalhando no processo de desenvolvimento de uma solução para administração oral com mistura de água, açúcar e sal; por heurística (nome pomposo para o processo de tentativa e erro), Hirschhorn acabou chegando a uma proporção ideal para a Terapia de Reidratação Oral. Algumas estimativas dão conta de que 50 milhões de pessoas foram salvas de morrerem desidratadas por várias das doenças diarreicas, cólera e similares. Hoje, aposentado, o médico dedica-se à poesia. O que Oslo espera para conferir o Nobel da Paz a Hirschhorn é um mistério para mim. De todo modo, ele deve ser uma das quarenta pessoas no mundo que podem deitar a cabeça de noite sem nenhum peso na consciência.

Infecções causadoras de diarreia são difundidas principalmente por falta de acesso à água de boa qualidade. De um lado, há uma ampla pesquisa para o desenvolvimento de novos métodos de purificação da água: com descarga elétrica, com nanopartículas, com plasma, com grafenos, etc. De outro, há incentivos para projetos de gerenciamento para conservação das fontes de água como a 'Água, fonte de vida' da ONU Água; o 'Grande Prêmio Mundial Rei Hassan II para a Água', do governo de Marrocos e do Conselho Mundial da Água; e o 'Prêmio da Água de Estocolmo', do Instituto Internacional da Água de Estocolmo (que conta também com uma categoria júnior, para estudantes). Mas são projetos nem sempre facilmente aplicáveis em regiões remotas e áreas sem infraestrutura mínima. A ONG "Engenharia para a Mudança" lista 10 métodos de baixo custo para tratamento local de água.

Mas uma tecnologia social ainda mais simples de purificação da água é a SODIS (de 'solar disinfection'): acondiciona-se água de baixa turbidez (as águas com sujeira em suspensão - como lodo -; devem ser deixadas para descansar antes, assentando a sujeira e pegando a água mais clareada) em garrafas PET, sacode-se para oxigenar a água e deixa-a exposta à luz solar por cerca de 6 horas (se o céu estiver limpo) ou por dois dias (em dias nublados). A radiação UV, a temperatura e a oxigenação destroem boa parte dos protozoários, bactérias e vírus causadores de doenças. O uso da tecnologia tem reduzido a internação por diarreia entre 9 e até 86% em alguns locais e épocas. Aftim Acra, farmacêutico e sanitarista palestino, apresentou a SODIS em um livreto da Unicef em 1984. A EAWAG (Instituto Federal Suíço de Ciência e Tecnologia da Água) realizou uma série de testes com a tecnologia no início da década de 1990 e tem divulgado sua aplicação em países em desenvolvimento. Infelizmente, Acra não poderá vir a receber o Nobel, o cientista faleceu em 2007 e a o prêmio não permite indicações póstumas.
-----------------

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A importância das redes de pesquisa no desenvolvimento da ciência

No começo de agosto participei de um evento sobre Genômica Translacional na Unicamp para cobri-lo dentro do projeto que estou desenvolvendo. Produzi o texto abaixo para a seção de notícias da Com Ciência, mas acabou não sendo publicado.

Mais abaixo publico na íntegra (ou quase, parte da entrevista acabou não sendo gravada) transcrição do depoimento de Glaucius Oliva sobre pesquisa em rede e internacionalização da ciência brasileira - tema da palestra que deu no evento.

-----------------------------------
Cientistas ressaltam importância de redes de pesquisa em evento na Unicamp
Entre os dias 4 e 6 de agosto, o Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) e o Laboratório Central de Tecnologias de Alto Desempenho em Ciências da Vida (LaCTAD) realizaram o Advanced Topics in Genomics and Cell Biology (“Tópicos Avançados em Genômica e Biologia Celular”) no Centro de Convenções da Unicamp. Na edição deste ano, o tema foi a genômica translacional – área relativamente nova da pesquisa genética que procura integrar os conhecimentos genômicos no entendimento dos mecanismos moleculares de desenvolvimento de doenças. Em seu primeiro dia, o principal tópico destacado foi a formação de redes de pesquisa e sua importância para o desenvolvimento da ciência atual.

O presidente do CNPq, o físico Glaucius Oliva, em sua palestra destacou as ações do governo federal para a indução de formação de redes de pesquisa e seu fortalecimento. “Você não pode pensar em fazer ciência hoje sem ser em rede”, disse Oliva. Dentre os desafios do sistema de Ciência e Tecnologia no Brasil que podem ser enfrentados pela pesquisa em rede listados pelo dirigente estão a qualidade e o impacto social, econômico e educacional dos estudos, o melhor uso da infraestrutura científico-acadêmica, a internacionalização da ciência brasileira e a inovação. “Em função da necessidade do crescimento interno, nós perdemos muito da nossa capacidade de cooperação internacional nos anos recentes e por isso a participação em redes internacional é extremamente importante”, reconheceu Oliva em entrevista exclusiva ao Com Ciência Notícia. Mas esse processo de integração a redes internacionais tem seus próprios desafios. “Um exemplo recente é o do ESO [Observatório Europeu do Sul, principal organização astronômica intergovernamental da Europa]; há uma proposta de participação brasileira, mas que a própria comunidade científica discutia, porque achava que era muito dinheiro num laboratório internacional, quando devia colocar esse dinheiro para os laboratórios do próprio país”, disse completando: “A gente tem que, de fato, olhar de uma forma mais abrangente a interação dentro do país e, principalmente, fora do país no formato de redes.


O biólogo Wen Hwa Lee, do Structural Genomic Consortium (consório de pesquisa em parceira público-privada com sede em Toronto, Canadá), apontou a necessidade da realização da pesquisa dentro do modelo de “Ciência Aberta” com uma rede de pesquisadores sem o envolvimento de propriedade intelectual sobre as ferramentas de pesquisa e outros insumos, diferentemente da pesquisa farmacêutica tradicional.

Elise Feingold, bióloga, líder do Projeto ENCODE de anotação do genoma humano, não pôde comparecer ao evento em que palestraria sobre o papel da integração de dados no entendimento das doenças humanas. Mas, em entrevista por e-mail, Feingold apontou que ferramentas disponíveis na internet como wikis, compartilhamento de documentos na nuvem para edição coletiva e teleconferências ajudam a reduzir a necessidade de encontros presenciais – nem sempre possíveis dado o fato de que os cientistas em geral estão bastante atarefados desenvolvendo suas pesquisas.
-----------------------------------

Depoimento de Glaucius Oliva sobre a importância das redes de pesquisa no Brasil e o papel da internacionalização da ciência brasileira.
-----------------------------------
[…] habilidades instrumentais, elas requerem uma forte interação com o mundo exterior aonde os problemas importantes estão aí para serem resolvidos, e por isso, no mundo todo, os principais projetos hoje têm sido desenvolvido sempre nesse formato de redes. No Brasil, esse programa foi pioneiramente desenvolvimento pela Fapesp, que ao longo de sua história foi antecipando, no nível nacional, várias modalidades de apoio a redes, inicialmente apoiava projetos individuais. Projetos temáticos já foi uma forma de introduzir redes. Programas multiusuários, uma outra forma de introduzir redes. E depois os CEPIDs, já no final da década de 90, quando ela lança o programa para terem redes maiores neste caso. No nível nacional, nós também fomos tendo diversos programas para apoiar redes, desde o programa Pronex, Grupos de Excelência, depois o programa dos Institutos do Milênio, depois o programa dos INCTs, que agora está sendo renovado, e todos eles requerendo essa conjugação de grupos mais consolidados com grupos emergentes no país. Evidente que hoje o grande desafio da ciência brasileira é também se internacionalizar mais. Em função da necessidade de crescimento interno, nós perdemos muito da nossa capacidade de cooperação internacional nos anos recentes e por isso a participação em redes internacionais é, de fato, extremamente importante, embora isso mesmo dentro das comunidades às vezes gera olhares contraditórios, nós tivemos um exemplo recente que é o do ESO, European Southern Observatory, que, enfim, há uma proposta de participação brasileira, que evidentemente tem que ser aprovada pelo Congresso Nacional, se a gente quer aportar recursos vultosos, mas que a própria comunidade científica discutia, porque achava que era muito dinheiro num laboratório internacional, quando devia colocar esse dinheiro para os laboratórios do próprio país. O programa Ciência sem Fronteiras também gerou esse tipo de reação: “ah, será que vale a pena pagar para estudantes brasileiros irem para o exterior quando a gente podia pegar esse mesmo dinheiro e botar nos laboratórios de ensino das universidades brasileiras”, mas essas coisas tem que ser completares, entendeu? A gente tem que, de fato, olhar de uma forma mais abrangente a interação dentro do país e, principalmente, fora do país no formato de redes.

Tem duas modalidades no Ciência sem Fronteiras para atrair pesquisadores do exterior. Uma é para jovens talentos, que são pós-docs diferenciados, com uma bolsa diferenciada com auxílio à pesquisa. Equivalente ao Jovem Pesquisador aqui da Fapesp. Nós já temos 500 bolsas dessa modalidade concedidas nos últimos três anos. E o outro programa é o programa de Professor Visitante Especial, esse é um programa bem interessante, porque você pega um pesquisador sênior, cientista de alto nível internacional, e que está disposto a vir ao Brasil, um, dois meses por ano, por um período de três anos inicial[mente]. Ele ganha uma bela bolsa pelo mês que passa aqui. São 14 mil reais pessoais, por mês. Esse mês não precisa ser contínuo, pode ser dividido em estágios. Ele ganha uma bolsa de pós-doc, para deixar um pós-doc aqui trabalhando durante três anos. Uma bolsa de doutorado sanduíche para cada vez que vem levar um estudante junto com ele de volta para seu país de origem. E 50 mil reais por ano para fazer pesquisas aqui no laboratório que o hospeda. E um acordo com agências de fomentos locais, estaduais e federais de que esses indivíduos nesses programas podem pedir projetos maiores nas agências liderando esses projetos. Porque eles têm um certo vínculo, então, com as instituições que os hospedam. Nós já temos 8 centros desses pesquisadores no Brasil trabalhando hoje em dia.

Não, não [não temos metas numéricas para esses programas]. Nós temos agora a renovação do programa Ciência sem Fronteiras pelos próximos 4 anos. Mais 100 mil bolsas. E portanto a gente espera ter aí um número maior para os próximos anos a seguir.
-----------------------------------
Agradecimentos: Aos entrevistados; à comissão organizadora do evento. Às orientadoras Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

Este trabalho foi produzido sob financiamento da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência).

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Como é que é? - Tubarões não adoecem?

Já tinha ouvido falar que tubarões não têm câncer, mas parece que tem um mito ainda mais abrangente: a de que tubarões simplesmente não desenvolveriam nenhuma doença (Fig. 1).

O mito é explorado por uma ampla gama de produtos milagrosos, como extrato de cartilagem de tubarão, supostamente com poderes protetivos contra tumores (há pesquisas em andamento sobre o efeito antiangiogênico - isto é, inibidor de formação de vasos sanguíneos - da cartilagem de tubarão que poderia ser útil no tratamento de tumores, mas não há nada definitivo, muito menos sobre as vias de administração). (Ostrander et al. 2004.)

Figura 1. Meme desinformativo (à esquerda). Seu real valor (à direita).

Não preciso dizer que é bobagem, certo? Bem, mas vamos aos dados:

Várias espécies de bactérias do gênero Vibrio (sim, parentas da que causa a cólera em humanos) estão associadas à mortalidade em tubarões mantidos em cativeiro (Grimes et al. 1984, Grimes et al. 1985).

O parasitismo pelo copépodo Nemesis robusta nas guelras leva a uma deficiência na respiração (Benz & Adamson 1990).

O fungo Fusarium solani pode atacar os canais da linha lateral de tubarões-martelo em cativeiro (Crow et al. 1995).

E, sim, tubarões *TÊM* câncer:  neoplasia na gengiva (Borucinska 2004), melanoma (Waldoch et al. 2010), lesões proliferativas (Robbins et al 2013)... Conforme Ostrander et al. (2004), casos de neoplasias em condríctios (grupo dos peixes cartilaginosos a que pertencem os tubarões) são conhecidos há mais de 150 anos (mais de 160 anos agora). A primeira descrição (em uma raia) data de 1853. Há até condroma (tumor benigno na... cartilagem).

------------------
Essa proliferação de perfis nas redes sociais que supostamente relatam fatos (curiosos, pouco conhecidos, interessante) sem nenhum tipo de referência é uma praga. Essas bobagens não são raras, não sei se fruto somente de uma ausência de um mecanismo mínimo de conferência ou se por má fé. A se aplicar a navalha de Hanlon, eu deveria me ater à primeira hipótese. Mas, diante do fato de a quase totalidade se manter alheia às correções feitas, não dá pra não pensar em algo além da ingenuidade e do trabalho de má qualidade. O melhor a se fazer é ignorar tais perfis - talvez se cometa alguma injustiça, mas se evita a exposição à informações factualmente erradas (ou pelo menos de natureza duvidosa que não merecem nem de longe serem chamadas de fatos).
-----------------

Referências
Benz, G.W & Adamson, S.A.M. (1990). Disease caused by Nemesis robusta (van Beneden, 1851) (Eudactylinidae: Siphonostomatoida: Copepoda) infections on gill filaments of thresher sharks (Alopias vulpinus (Bonnaterre, 1758)), with notes on parasite ecology and life history Canadian Journal of Zoology, 68 (6), 1180-1186 : 10.1139/z90-175

Borucinska, J., Harshbarger, J., Reimschuessel, R., & Bogicevic, T. (2004). Gingival neoplasms in a captive sand tiger shark, Carcharias taurus (Rafinesque), and a wild-caught blue shark, Prionace glauca (L.) Journal of Fish Diseases, 27 (3), 185-191 DOI: 10.1111/j.1365-2761.2004.00532.x

Crow, G., Brock, J., & Kaiser, S. (1995). Fusarium solani Fungal Infection of the Lateral Line Canal System in Captive Scalloped Hammerhead Sharks (Sphyma lewini) in Hawaii Journal of Wildlife Diseases, 31 (4), 562-565 DOI: 10.7589/0090-3558-31.4.562
Grimes DJ, Stemmler J, Hada H, May EB, Maneval D, Hetrick FM, Jones RT, Stoskopf M, & Colwell RR (1984). Vibrio species associated with mortality of sharks held in captivity. Microbial ecology, 10 (3), 271-82 PMID: 24221148

Grimes, D., Gruber, S., & May, E. (1985). Experimental infection of lemon sharks, Negaprion brevirostris (Poey), with Vibrio species Journal of Fish Diseases, 8 (2), 173-180 DOI: 10.1111/j.1365-2761.1985.tb01212.x

Ostrander GK, Cheng KC, Wolf JC, & Wolfe MJ (2004). Shark cartilage, cancer and the growing threat of pseudoscience. Cancer research, 64 (23), 8485-91 PMID: 15574750

Robbins, R., Bruce, B., & Fox, A. (2013). First reports of proliferative lesions in the great white shark, L., and bronze whaler shark, Günther Journal of Fish Diseases DOI: 10.1111/jfd.12203

Waldoch JA, Burke SS, Ramer JC, & Garner MM (2010). Melanoma in the skin of a nurse shark (Ginglymostoma cirratum). Journal of zoo and wildlife medicine : official publication of the American Association of Zoo Veterinarians, 41 (4), 729-31 PMID: 21370659
------------
via @oatila.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Comboio de cordas que se chama evolução: a origem de nossa notocorda

Por algum motivo a imprensa brasileira parece ter comido bola. É um trabalho certamente de grande relevância no nosso entendimento da evolução dos vertebrados e seus parentes próximos, os cordados (e também dos outros bilatérios - animais que primitivamente apresentam uma simetria bilateral: mesmo que alguns, como a estrela do mar, tenham perdido ao longo da evolução).

Pelo menos eu não fui capaz de encontrar menção ao estudo de Lauri et al. 2014 sobre o desenvolvimento de Platynereis dumerilii publicado na Science.

O princípio é simples: em nós e nossos parentes cordados, durante o desenvolvimento, surge uma estrutura rígida de sustentação - chamada de notocorda (e daí o nome de cordados ao grupo que inclui os vertebrados, o anfioxo e alguns outros). Em nós, vertebrados, a notocorda é substituída pela coluna vertebral; no anfioxo, ela persiste durante a vida adulta. Nos animais como moluscos, insetos, nemátodos, minhocas, estrelas do mar e outros, essa estrutura não está presente.

O que os pesquisadores da EMBL (Laboratório Europeu de Biologia Molecular), da Janelia Farm Research Campus e da Universidade de Heidelberg fizeram foi pegar os genes que estão ativos nas células que dão origem à notocorda no cordados e verificar sua atividade na larva de um invertebrado sem notocorda - um poliqueto marinho (parente próximo da minhoca) chamado P. dumerilli.

O resultado é que o mesmo conjunto de genes (10 dos 11 utilizados no estudo) estavam ativos e em posição similar - no eixo longitudinal entre o cordão nervoso e a aorta. No caso do poliqueto, esse eixo é formado por células musculares dispostas ao longo do comprimento que secretam uma matriz extracelular de colágeno. E elas são fundamentais para a locomoção do organismos - se danificadas por um pulso de laser, o animal não é mais capaz de nadar. Como formavam um eixo e parecem ser homólogos (estruturas evolutivamente afins) com a notocorda, ele foi chamado de axocorda.

Os autores buscaram, então, se o mesmo padrão estava presente em outros invertebrados não-cordados. Bingo!

No quetognato Sagitta, e no quítão (molusco) Lepidochiton também identificaram uma axocorda muscular. Na drosófila, representante dos artrópodos, há uma linha média formada por células gliais. A interpretação é que entre os protostômios (grupo que abarca esses organismos), a axocorda é uma característica presente no ancestral em comum - e na linha que deu origem ao artrópodos, a natureza muscular foi perdida.

No paulistinha Danio, representante dos vertebrados, há uma notocorda não muscular; no cefalocordado Branchiostoma, o anfioxo, a notocorda é muscular; no hemicordado Saccoglossus há músculos longitudinais centrais; e na estrela do mar Asterias, membro dos equinodermos, não há nenhuma estrutura central contrátil. O padrão que emerge é que do lado dos deuterostômios, a condição ancestral é a presenta de uma estrutura central de natureza contrátil - muscular.

Ou seja, o ancestral dos bilatérios - grupo que engloba os protostômios e deuterostômios - haveria uma conjunto de células mesodérmicas que formariam um eixo central, contrátil, envolto por por uma capa secretada por essas células. A origem da notocorda pode ter se dado, especulam os autores, com a vacuolização dessas células e um maior enrijecimento da matriz extracelular - adquirindo uma natureza cartilaginosa.

Futuros estudos devem permitir determinar a condição ancestral nos equinodermos e nos ecdisozoários (grupo formado pelos artrópodos, nemátodos e parentes próximos). De todo modo, os resultados contribuem para o quadro de um urbilatério (hipotético ancestral em comum exclusivo dos bilatérios atuais) relativamente complexo: de corpo segmentado, olhos (simples), sistema nervoso com avançado grau de centralização (mas talvez ainda sem um cérebro).

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 6

Cerca de um ano depois, uma nova rodada de textos produzidos acerca da putativa crise nos blogues brasileiros sobre ciências.

*Meghie Rodrigues A crise dos blogs de ciência no Brasil — and le qüiproquó goes on
*Wesley Santos Do Nano ao Macro E agora, Jorn Barger[1]? Sobre divulgação científica

--------------------
Em meados de 2009, num panorama mundial (ou ao menos anglófono), havia uma discussão de se os blogues de ciências (então em ascensão) poderiam vir a substituir o jornalismo científico tradicional (então em crise). Em 2014, dentro do panorama brasileiro, aparentemente, há uma crise tanto do jornalismo científico tradicional (uma crise que se arrasta desde pelo menos 2009, mas agudizado agora com o fim da editoria de ciências do Estadão - Herton Escobar agora atua apenas como freelancer; a Folha segue como um foco de resistência, mas, por exemplo, Claudio Angelo já não trabalha mais por lá), quanto dos blogues de ciências (nosso foco aqui).

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 2
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 3
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 4
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 5
--------------------------
Upideite(29/set/2014): No facebook, Roelf Cruz Rizzolo, do Coluna Ciência, comenta: "Roberto, o que noto é que a versão FB do blog da Coluna Ciência acaba sendo muito mais visualizada, apesar da superficialidade inerente ao veículo."

Roberto Berlinck, do antigo Quiprona, comenta na postagem do Nano ao Macro, e o Wesley Santos responde. Vale ver lá. Sim, neste caso não se aplica a lei zero da internet de não ler comentários.

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails