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Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

domingo, 24 de julho de 2016

Contra o método: uma pedra no meio do caminho*

Método vem do grego methodos 'perseguição, busca, sistema' (meta 'além, após' e hodos 'via, caminho'). É uma das principais seções de um artigo científico típico, onde é descrito idealmente todos os passos seguidos para se obter os dados reportados - e que, supostamente, se outras pessoas reproduzirem, deverão obter os mesmos resultados. O método é um dos pilares da ciência, na medida em que serve de garantia da reprodutibilidade dos dados e, portanto, da correção e honestidade destes.

Em função disso, exige-se a máxima transparência em relação à descrição do método. Porém, alguns casos têm vindo à tona de graves falhas na metodologia empregada que passaram despercebidas e, agora, afetam seriamente a credibilidade de milhares e milhares de artigos e lança sombra sobre suas respectivas áreas.

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'O que faremos amanhã à noite, Cérebro?' 'O mesmo que fazemos todas as noites, Pinky; tentar consertar o método.'
Apesar do imageamento por ressonância magnética funcional (fMRI) - em que se busca detectar regiões do cérebro em que há um aumento do consumo de açúcares radiomarcados durante a realizações de determinadas tarefas - já ter um quarto de século com intenso uso em pesquisa e diagnóstico, o principal algoritmo estatístico de detecção de padrões usado nessa técnica nunca foi devidamente validado com testes comparativos com dados reais.

Eklund e cols. (2012) resolveram, então, colocar isso à prova e obtiveram um resultado muito ruim: até 70% (a depender dos ajustes utilizados nos programas) de falsos positivos foram obtidos na análise de 1.484 dados de repouso disponíveis publicamente em um bando de dados com o uso do pacote SPM - contra a taxa esperada de falsos positivos de 5% O mesmo grupo em.Eklund, Nichols e Knutsson (2016)** expandiu a análise incluindo os principais softwares utilizados nesse tipo de análise (além do SPM, também o FSL, o AFNI e o método de permutação não-paramétrica) e também foram obtidos taxa de falsos positivos muito acima do esperado. O problema provavelmente deve-se ao fato de os dados reais não seguirem uma distribuição teórica (gaussiana) como suposto nas análises estatísticas implementada nos softwares.

O achado deve afetar cerca de 40.000 artigos que utilizam a técnica de fMRI.

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Corretor celular
Em uma revisão, Hugues e cols. (2007), estimaram que 18% a 36% das linhagens celulares utilizadas em pesquisa estavam contaminadas ou eram objeto de erro de identificação.

Em 2012, foi formado o Comitê Internacional de Autenticação de Linhagens Celulares (ICLAC) para avaliar o perfil das linhagens celulares utilizadas em pesquisa. Mais de 400 linhagens estão catalogadas como contaminadas ou erroneamente identificadas.

Christopher Korch, um dos principais pesquisadores da área, estima que apenas com duas linhagens: HEp-2 e INT 407 (contaminadas há muito tempo e atualmente constituídas essencialmente por células HeLa), 7.125 artigos estão comprometidos.

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*Obs: Apenas um trocadilho com título da principal obra do filósofo Paul Feyrabend. Não é nenhum abono a ela - não que minha recomendação ou restrição conte alguma coisa. (Claro, também uma referência ao conhecido a abusado verso do poeta Carlos Drummond de Andrade.)
**via Rafael Garcia fb
***ht Stevens Rehen fb

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Carros com faróis acesos durante o dia: o que a ciência tem a dizer?

No dia 23 de maio deste ano, foi sancionada a lei federal 13.290/2016 que modifica o Código de Trânsito Brasileiro, tornando obrigatório por veículos automotores o uso de luz baixa nas rodovias durante o dia.

Apesar de reclamações, a medida tem razão de ser. O efeito do uso do farol para aumentar a visibilidade dos veículos - e com isso diminuir colisões e atropelamentos - é estudado mais sistematicamente desde pelo menos a década de 1980. Os resultados indicam que a medida reduz os acidentes em algo como 3% a 7%.

Um relatório de 1997 para a Comissão de Transporte da Comunidade Européia concluiu:
"DRL as a road safety measure is often difficult to understand for the road user because he or she `knows' that with sufficient attention every road user can be seen in daylight. Nevertheless, the research reviewed shows that visual perception in daytime traffic is far from perfect and it is worse in conditions of low ambient illumination. In a striking example 8% of cars in an open field in broad daylight were not visible from relevant distances without the use of DRL. On shady roads or those with backgrounds which mask objects in the foreground the visibility and contrast of cars in popular colours is greatly reduced.
[...]
The psychological research reviewed shows that DRL does not only improve the visibility of motor vehicles in daytime, but also influences the timely peripheral perception of vehicles making conflicting movements. Moreover, cars with DRL are better identified as cars and their distances are estimated more safely compared to cars without DRL."
["O farol de rodagem diurna - daytime running lamp -, como medida de segurança rodoviária, frequentemente é difícil de ser compreendida pelos usuários de estradas porque ele ou ela 'sabe' que com atenção suficiente todo usuário de estradas podem ver sob a luz do dia. No entanto, a pesquisa revisada mostra que a percepção visual no tráfego diurno é longe de perfeita e piora em condições de baixa iluminação ambiente. Em um exemplo de destaque, 8% dos carros em um campo aberto em plena luz do dia não eram visíveis de distâncias relevantes sem o uso de DRL. Em estradas sombreadas ou em fundos que mascaram objetos à frente a visibilidade e o contaste dos carros em cores populares é grandemente reduzida.
[...]
A pesquisa psicológica revisada mostra que o DRL não apenas melhora a visibilidade dos veículos automotivos durante o dia, como também influencia a percepção periférica a tempo dos veículos em movimentos conflitantes. E mais, carros com DRL são mais bem identificados como carros e suas distâncias são estimadas com mais segurança em comparação a carros sem DRL."]

Somente nas rodovias federais brasileiras, em 2014, foram 8.227 mortes, das quais, 4.787 resultantes de colisão, e 26 mil feridos graves em acidentes, 13.511 em colisões. Em 2011, 62% dos acidentes nas rodovias deram-se entre as 6h e as 18h. Então, nas rodovias federais, algo entre 90 e 200 mortes e 250 e 600 feridos graves podem ser evitados por ano.

Em farol baixo, a lâmpada consome cerca de 55W. Se os cerca de 90 milhões de veículos do Brasil fossem, com a mudança na lei, obrigados a ficar com os faróis acesos por 12 horas/dia, isso significaria algo como 4,5 milhões de litros de gasolina a mais; algo como R$ 20 milhões de reais por ano. Grosso modo, entre R$ 90 mil e R$ 210 mil por morte evitada. Deal. (A relação é ainda melhor porque não são todos os veículos que trafegam pelas rodovias brasileiras, nem ficarão com 12 horas a mais de faróis baixos acesos por dia, e não foram computadas as mortes nas rodovias estaduais. Considerando valores mais realistas de 20 milhões de veículos e 3 horas a mais de uso de farol, os custos ficam entre R$ 5.000 e R$ 12.000 por morte evitada.)*,**

Um potencial efeito negativo é que o uso de farol aceso pelos carros pode levar à diminuição da percepção de motocicletas. Outro é o impacto ambiental causado pelo aumento do consumo de combustível**. Por outro lado, reduz significativamente os casos de atropelamento de pedestres.

*Upideite(13/jul/2016): O cálculo inicial considerava apenas uma lâmpada do conjunto. Naturalmente, os valores dobram contando com as duas lâmpadas. Mas, ainda assim, é um custo muito baixo por morte evitada.

**Upideite(14/jul/2016): Com um litro de gasolina (teor energético de 34,2 MJ/l), é possível se manter as duas lâmpadas (2 x 55W) acesas por cerca de 85 mil horas (cerca de 3.600 dias - quase dez anos). Ou seja, o gasto individual é insignificante.

A produção de CO2 na queima de gasolina é de cerca de 2,5 kg/l (~20 lb/gal). No cenário de 4,5 milhões de gasolinas extras consumidas por ano, teremos 11.250 tCO2 produzidos por ano. Em comparação, o total de emissão de equivalentes de CO2  no Brasil em 2013, foi de 32,27 bilhões de toneladas.

domingo, 10 de julho de 2016

Melhores canais de DC na internet - resultado: facebook, twitter e outras mídias sociais

Na postagem anterior, foram apresentados os resultados na categoria de blogues da votação dos melhores canais de divulgação científica na internet; seguem agora a tabulação para as categorias de perfis/páginas de facebook, de twitter e outras mídias sociais.

Nota-se um índice muito baixo de indicações: apenas 21/40 (52,5%) para facebook, 15/40 (37,5%) para twitter, e 4/40 (10% - sendo que a metade dos votos para sítios web, não propriamente para mídias sociais). Duas possibilidades não mutuamente excludentes para esse resultado são: 1) as pessoas ainda consomem pouco informações sobre ciências nessas mídias; 2) a ordem das questões desestimulou as respostas (eram os últimos itens no questionário).

Na próxima postagem, os dados para as categorias 'vlogs' e 'podcasts'.


domingo, 3 de julho de 2016

Melhores canais de DC na internet - resultado: blogues

Segue tabulado o resultado parcial (correspondentes à categoria de blogues) da pesquisa sobre os melhores canais de DC na internet.

Foram 40 respondentes válidos. Um total de 33 canais (independentes ou em portais) foram mencionados na categoria de blogues. Dois considero mais como podcasts (embora tenham blogues de apoio).

A coluna "total" apenas soma os votos totais para o blogue, sem atribuir nenhum peso. A coluna "pond." dá um resultado ponderado com peso 3 para o voto como "o melhor", 2 para o "segundo melhor" e 1 para o "terceiro melhor".

Agradeço a participação de todos. Mais tarde publico o resultado para outras categorias.*


*Upideite(10/jul/2016): Confira aqui o resultado para facebook, twitter e outras mídias sociais.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 25 (parte 2 de 2)

Parte final de minhas anotações sobre o artigo de Lewandowsky et al. 2012.

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Lewandowsky et al. 2012. Misinformation and its correction: continued influence and successful debiasing. Psychological Science in the Public Interest 13(3): 106-31. DOI 10.1177/1529100612451018.

Reduzindo o impacto da desinformação
Até o momento, três fatores foram identificados como aumentando a eficiência das retratações.
a) Alerta pré-exposição
>Avisar destacadamente que o que virá a seguir é uma desinformação; o aviso deve apontar para os efeitos da desinformação e não apenas dizer que fatos falsos estão presentes;
>O alerta pode induzir estado de ceticismo, permitindo as pessoas a maximizarem suas habilidades em discriminar entre informações verdadeiras e desinformações;
>Aviso após a exposição é menos eficiente, mas ainda pode ter algum efeito: possivelmente por eliciar um processo de monitoramento estratégico de avaliação da validade da informação/desinformação recuperada automaticamente;
b) Repetição de retratações
>Repetições podem ajudar a diminuir, mas não eliminar o efeito da desinformação;
>Mais eficientes para casos de exposições reiteradas de desinformação;
>Sem efeito sobre exposição única a uma desinformação;
>Repetição de correção pode, no entanto, diminuir a eficácia da própria correção: 1) efeito do 'protesto excessivo' ('protest-too-much') reduz confiança na veracidade da correção, 2) repetição da desinformação na correção pode aumentar a familiaridade com o dado errôneo.
c) Preenchendo lacunas: fornecendo uma narrativa alternativa
>Oferecer uma explicação causal alternativa preenche lacuna deixada pela retratação da desinformação: p.e. "não havia cilindros de gás nem tintas a óleo, mas havia material para incêndio criminoso";
>A explicação alternativa deve ser plausível, dar conta de importantes qualidades causais dos relatos iniciais e, idealmente, por que a desinformação foi tomada como correta em primeiro lugar;
>A alternativa deve se integrar às demais informações da fonte inicial da desinformação;
>Se a alternativa for muito mais complexa do que a desinformação inicial, pode gerar o efeito de tiro pela culatra 'por excesso' ('overkill') de contra-argumentos;
>Em caso de correção de desinformações ligadas à política, a suspeita sobre o raciocínio e motivação por trás da correção e da desinformação inicial é importante na aceitação ou não da correção.

Usando desinformação para informar
A dissecção prolongada e cuidadosa dos argumentos errados pode facilitar a aquisição da informação correta.

Recomendações concisas para praticantes
.Considere que lacunas serão geradas no modelo mental das pessoas com a retratação e procure preenchê-las com explicações alternativas;
.Repita a retratação, mas cuidado com o efeito de tiro pela culatra com a exposição repetida da desinformação na retratação;
.Enfatize os fatos que quer passar em vez do mito que deseja refutar para evitar a familiarização com o mito;
.Forneça um alerta explícito antes de mencionar o mito para garantir que as pessoas se previnam e sejam menos influenciadas pela desinformação;
.Garanta que seu material seja simples e breve, use linguagem clara e gráficos quando possível,
.Considere se seu material não é uma ameaça à visão de mundo das pessoas, pois pode haver efeito de tiro pela culatra;
.Se apresentar indícios que sejam ameaças às visões de mundo das pessoas, procure apresentá-los de modo que reafirme essas visões de mundo (p.e. focando-se nas oportunidades e benefícios potenciais, em vez de nas ameaças e riscos) ou que encoraje a autoafirmação;
.Pode-se evitar o papel da visão de mundo focando-se em técnicas comportamentais como em design de arquiteturas de escolha (p.e. doação presumida x declarada) em vez de desenviesamento ostensivo.

Figura 1. Resumo gráfico das melhores estratégias para refutar uma desinformação. Tradução na Tabela 1. Fonte: Lewandoswky et al. 2012.

Tabela 1. Resumo das melhores estratégias para refutar uma desinformação.
Problema Soluções e boas práticas
Efeito da influência continuada
A despeito da retratação as pessoas continuam a confiar na desinformação
Narrativa alternativa
Explicações alternativas preenchem lacunas deixadas pela retratação da desinformação
Retratação repetida
Fortalecer retração pela repetição (sem reforçar o mito)
Efeito de tiro pela culatra por familiaridade ('Familiarity backfire effect')
Repetição do mito aumenta sua familiaridade, reforçando-o
Ênfase em fatos
Evitar repetição do mito, reforçar fatos corretos no lugar
Aviso pré-exposição
Alertar antes que o que virá é uma desinformação
Efeito de tiro pela culatra por excesso ('Overkill backfire effect')
Mitos simples são cognitivamente mais atrativos do que refutações complexas
Refutação simples e curta
Usar poucos argumentos na refutação do mito - menos é mais
Incentivar ceticismo saudável
Ceticismo a respeito da fonte de informação reduz a influência da desinformação
Efeito de tiro pela culatra por visão de mundo ('Worldview backfire effect')
Indícios que ameaçam uma visão de mundo podem reforçar crenças inicialmente mantidas
Afirme a visão de mundo
Enquadre os indícios de um modo a afirmar a visão de mundo endossando os valores da audiência
Afirme a identidade
Autoafirmação de valores pessoais aumenta a receptividade da audiência


Direções futuras
Pontos cujos papéis no efeito da desinformação ainda necessitam de mais esclarecimentos:
a) emoção;
b) diferenças individuais: raças, cultura...
c) rede social

terça-feira, 21 de junho de 2016

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 25 (parte 1 de 2)

Lewandowsky et al. 2012 fazem uma revisão da literatura a respeito do processamento mental de dados inválidos (desinformações) e de por que muitas vezes eles persistem mesmo após correções; analisam ainda alternativas para o enfrentamento bem sucedido dessas desinformações.

Abaixo parte das minhas anotações desse artigo. Considero-o um dos mais úteis abordados até o momento nesta série sobre estudos científicos e acadêmicos da divulgação científica.

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Lewandowsky et al. 2012. Misinformation and its correction: continued influence and successful debiasing. Psychological Science in the Public Interest 13(3): 106-31. DOI  10.1177/1529100612451018.

Fontes de desinformação:
.boatos/lendas  e obras de ficção:
>excitação emocional aumenta propensão das pessoas a repassarem histórias, aquelas com conteúdos que provoquem desgosto, medo e felicidade são mais compartilhadas em redes sociais do que histórias neutras
>contato com uma desinformação em uma história de ficção aumenta a crença ilusória de conhecimento prévio: pessoas assumem que sabia e integra-a a seu conjunto de conhecimento prévio
.governos e políticos
>as pessoas estão conscientes de que há desinformação politicamente motivada na sociedade, mas, instadas a fornecerem exemplos específicos, falham em diferenciar informações corretas de errôneas
.interesses instituídos ('vested interests') e ONGs:
>corporações e grupos de interesses não-governamentais;
>agnogênese (Badford 2010): fabricação deliberada de desinformação
.mídia/meios de comunicação:
> mídia corporativa, mídias sociais;
>erros sistemáticos: 1) falta de tempo para apuração, urgência, 2) supersimplificação, interpretação errônea e sensacionalismo, 3) objetivo de apresentar uma história 'equilibrada'
>fragmentação da mídia ('media fractionation'): exposição seletiva, câmara de eco, ciberguetos, extremismo estratégico (angariar apoio de setores extremos, sem perder muito do de setores mais ao centro).

Avaliando a veracidade de uma declaração
Estratégias do receptor
A aceitação da informação como verdadeira é uma norma tácita na conversação diária;
A suspensão da crença é possível, mas isso exige um alto grau de atenção, implausibilidade considerável da mensagem ou alto grau de desconfiança em relação a ela.
Quando a pessoa avalia de modo consciente a veracidade de uma informação, ela tende a se concentrar em um conjunto limitado de características:
a) "A informação é compatível com aquilo em que creio?"
>Um dado tem mais probabilidade de ser assimilado quanto mais compatível com as coisas que alguém considera verdadeiras;
>Quando alguém confere um dado contra seus conhecimento prévios, o processo requer esforço ativo, motivação e recursos cognitivos;
>Um processo que requer menos esforço é por meio da experiência metacognitiva e de resposta afetiva ao novo dado;
>Dados inconsistentes com crenças prévias tendem a eliciar sentimentos negativos e serem processados com menor fluência;
b) "A história é coerente?"
>Dados são aceitos como verdadeiros se se encaixam bem em uma história mais ampla que confere sentido e coerência aos elementos individuais;
>Estratégia de avaliação mais usada quando dados individuais não podem ser examinados isoladamente por dependerem de outras peças relacionadas;
>Histórias coerentes são processadas mais facilmente do que as incoerentes;
c) "A informação provém de uma fonte confiável?"
>Quando não têm motivação, oportunidade ou expertise, as pessoas podem se valer da avaliação da confiabilidade da fonte;
>A força de persuasão de uma mensagem seja maior quanto maior a credibilidade e expertise percebida do comunicador;
> Mas mesmo fontes inconfiáveis podem ser bastante influentes: 1) insensibilidade aos sinais contextuais dependentes da credibilidade da fonte, 2) o núcleo da mensagem pode ser mais destacado do que a fonte;
>A simples repetição de um nome desconhecido leva à familiaridade para com este e aumento de sua credibilidade.
d) "Outras pessoas acreditam na informação?"
>exposição repetitiva pode levar a uma falsa impressão de consenso social;
>ignorância pluralística (diferença entre a prevalência real de uma crença na sociedade e o que o sujeito na sociedade acha que os outros pensam)/efeito do falso consenso

Efeito da influência continuada (continued influence effect)
Retratação (retraction) falha em eliminar influência da desinformação
>Modelo Wilkes & Leatherbarrow (1988) and Johnson & Seifert (1994) - narrativa de história reportada em tempo real com posterior retratação de desinformação alvo para o grupo teste (e sem alteração no grupo controle). E.g. incêndio em um armazém inicialmente reportado como causado por cilindro de gás e tinta a óleo guardados negligentemente em um armário; posteriormente é relatado que o armário, na verdade, estaria vazio; os participantes devem então responder a perguntas como 'o que causou a fumaça preta?'.
>Retratação raramente tem efeito de eliminar a dependência em dados errôneos, mesmo que as pessoas acreditem na retratação, a compreendam e dela se lembrem: no melhor dos casos, reduz em 50% a referência a desinformações;
>Correção reforçada como "cilindro de gás e tinta a óleo nunca estiveram na propriedade" *aumenta* o uso da desinformação na resposta ("efeito tiro pela culatra");
>Inclusão de elementos como explicação da origem da desinformação, p.e. "greve de caminhoneiros impediram a entrega dos itens", diminuiem o uso da desinformação, mas não o elimina.

Explicações possíveis para o efeito da influência continuada
a) Modelos mentais (mental models)
>Pessoas constroem modelos mentais de narrativas em andamento. P.e. A ('negligência') leva a B ('armazenamento impróprio de material inflamável') e B em conjunção com C ('falha elétrica') leva a D ('incêndio'); a retratação de um elemento central, no caso, B, cria uma lacuna no modelo, que deixa de fazer sentido; pessoas continuam a usar o elemento retratado B para completar o modelo.
b) Falha de recuperação (retrieval failure)
>1) confusão de fontes ou atribuição errônea: P.e. atribuir 'o incêndio foi causadoa por tinta' ao relatório final da polícia e não a relatos iniciais negados;
>2) falha do processo de monitoramento estratégico: entradas válidas e inválidas de memórias competem pela ativação automática, integração contextual requer processamento estratégico.
>3) perda de "etiqueta de negação" ("negation tag"): o processo de retratação é similar a se adicionar uma etiqueta "não" a um dado ("havia tinta a óleo e cilindros de gás - NÃO"), esse marcador pode ser perdido em algum momento; a retratação por sentenças afirmativas correspondentes pode ser mais eficiente quando isso é possível (p.e. "na verdade, ele é arrumado" em vez de "ele não é bagunceiro").
c) Fluência e familiaridade (fluency and familiarity)
>A experiência metacognitiva da fluência é usada na análise de informações reapresentadas sem um questionamento direto a respeito de seu valor de verdade;
>Enquanto os pensamentos fluem desimpedidamente as pessoas veem poucos motivos para questionar a veracidade da história;
>A retratação falha ao aumentar a familiaridade da desinformação por repeti-la direta ou indiretamente durante o processo de sua negação;
>Pessoas que leem folhetos do tipo mitos x fatos distinguem corretamente ambos imediatamente após a leitura, mas com o tempo acabam se lembrando das desinformações como fatos com mais frequência do que pessoas que não foram expostas a esses folhetos;
d) Reatância (reactance)
>Pessoas não gostam que lhes digam o que e como pensar; retratações particularmente fortes e de altas autoridades podem ser rejeitadas.

Correções diante de sistemas de crenças existentes
Visão de mundo (worldview)
>A visão de mundo ou ideologia pessoal podem afetar o modo como um dado ou história é recebida ou rejeitada, bem como a retratação desse dado ou história;
>Crenças pessoais facilitam a aquisição de desinformação em consonância com a atitude, podem aumentar a confiança na desinformação e imunizar contra a correção de crenças falsas;
Tiro pela culatra
>Efeito de tiro pela culatra ('backfire effect') ou de bumerangue ('boomerang') pode ocorrer se a retratação vai contra a visão de mundo do sujeito, pode fazer também com que não apenas a mensagem seja rejeitada como mensagens futuras da mesma fonte também o sejam;
>Isso pode acentuar 'polarização de crença' ('belief polarization'): a exposição à retratação aumenta a crença na desinformação dos que têm a visão de mundo ameaçada e diminui entre os que têm a visão de mundo reafirmada;
Domando a visão de mundo através de sua afirmação
>Retratações e eliminação de vieses podem ser facilitadas pela formulação em termos compatíveis com a visão de mundo das pessoas;
>Elas também são mais provavelmente aceitas quando acompanhadas por autoafirmação: permitir que as pessoas expressem seus valores básicos como parte do processo de correção.
Ceticismo
>Reduz a susceptibilidade à desinformação se faz as pessoas questionarem a origem dos dados ou da história que mais tarde se revelam falsos;
>Suspeição ou ceticismo em relação ao contexto geral leva a uma processamento mais acurado das informações;
>Garante também que informações corretas sejam reconhecidas acuradamente, i.e., não leva a um cinismo ou negacionismo generalizado;
>Mas o ceticismo só tem efeito se ativo durante a exposição à mensagem, se a retratação é apresentada após a aceitação da mensagem, a desinformação pode continuar.

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Na 2a. parte das anotações deste artigo, os modos eficientes para reduzir o impacto das desinformações.

sábado, 11 de junho de 2016

BláBláLogia: Ciência sem blá blá blá

Aquele encontro de janeiro deste ano em Campinas-SP rendeu não apenas a iniciativa dos ScienceVlogs Brasil, um selo de qualidade para canais de ciências no YouTube, mas também, e principalmente, um novo canal de divulgação científica e educação no mesmo YouTube: o BláBláLogia.

No dia 05.jun foi ao ar um breve teaser do projeto:



E um hangout ao vivo com os participantes:


Dia 06.jun foi a estreia oficial do canal, indo ao ar o primeiro episódio do primeiro programa: Curiosity com Pirula e Carlos Ruas.


Vários outros foram lançados desde então - um por dia, devendo totalizar cerca de 12 programas quinzenais neste primeiro momento.

Abaixo, a apresentação do canal por seus próprios participantes (canal pessoal/programa no BBL) (acrescento mais a medida em que souber de novos):

Camila Laranjeira (Peixe Babel/Clube da Toalha) + Natália Rangel (-/Por Dentro)

Davi Simões (Primata Falante/Clube da Toalha)

Estêvão Slow (Canal do Slow/A Origem de Tudo)

Pirula (Canal do Pirula/Curiosity)

Carlos Ruas (Um Sábado Qualquer/Curiosity&Quer Que Desenhe?)
Mais sobre a iniciativa:

Especial GR: Fosfoetanolamina

Manterei aqui uma lista das postagens no GR referentes à fosfoetanolamina sintética (Pho-S, "fosfo", FS que compõe a "pílula do câncer" ou "pílula da USP").

Os baPho-S da fosfoetanolamina sintética:
1) relação de textos, áudios e vídeos sobre o tema produzidos pelos divulgadores de ciência na internet.
2) resultados in vitro do GT-FOS do MCTI.
3) análises das objeções do grupo de Chierice aos primeiros resultados do GT-FOS do MCTI.
4) resultados in vivo do GT-FOS do MCTIC.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Os baPho-s da fosfoetanolamina sintética 4

Três novos relatórios sobre os efeitos da fosfoetanolamina sintética (Pho-S, uma mistura de vários compostos) em células tumorais foram liberados pelo GT-Fos do MCTI (agora, ao menos por enquanto, MCTIC). Agora in vivo.

Em resumo, para sarcoma 180 (tumor de Crocker) em camundongo Swiss e para carcinossarcoma 256 (Walker) em ratos Wistar a fosfoetanolamina em dosagem de 1g/kg não obteve nenhum efeito de inibição durante 10 dias de tratamento (ambos realizados pela equipa de Moraes Filho, da UFC, Universidade Federal do Ceará); para melanoma humano A-375 em rato nude atímico a Pho-S em dosagem de 0,5g/kg teve um efeito inibidor de 34% em 24 dias de tratamento (da equipa de Marcon, do CIEnP - Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínicos).

Figura 1. Efeito da fosfoetanolamina sintética sobre diversos tipos de tumos in vivo. A) sarcoma 180 (turmo de camundongo) em camundongo Swiss; B) carcinossarcoma 256 (tumor de rato) em rato Wistar; C) melanoma humano A-375 em camundongo nude. Fontes: Moraes Filho et al. 2016 b, Moraes Filho et al. 2016a, Marcon et al. 2016.

No caso dos estudos da UFC, o tratamento começou tão logo as células tumorais foram inoculadas nos indivíduos. No ensaio do CIEnP, os animais não receberam nenhum tratamento durante 12 dias, enquanto o tumor transplantado se estabelecia e se desenvolvia. Nos três estudos, a administração foi por via oral.

A linhagem nude, usada pelo grupo de Marcon, têm um sistema imunológico deficitário por conta de uma mutação que impede o desenvolvimento do timo. Isso contraria a hipótese defendida por Chierice de que o efeito da Pho-S seria por meio da atuação do sistema imunológico do paciente; além disso, nos estudos do grupo de Moraes Filho, foram realizadas contagens de células imunológicas no sangue. Em que pese as contagens de leucócitos e monócitos estarem *diminuídas* nos camundongos e de linfócitos aumentada nos ratos (em comparação com o controle), de um lado, a inconsistência entre os dois estudos dos efeitos da Pho-S sobre células imunológicas, e, de outro, o fato de estar dentro do número esperado de parâmetros alterados pelo simples efeito do acaso (em um alfa=0,05, espera-se uma variação significativa ao acaso em 2,7 parâmetros de 54 estudados nos dois estudos - um total de 4 alterações significativas foram relatadas), parece que a melhor conclusão é que a Pho-S não parece ter nenhum efeito sobre o sistema imunológico.

Foram acompanhadas eventuais metástases no estudo com carcinossarcoma de Walker 256 e no com melanoma humano A-375. No caso do carcinossarcoma, foi observada metástase pulmonar em 7 de 15 ratos no grupo tratado com Pho-S, contra 3 de 15 no controle negativo (no controle com ciclofosfamida não houve nenhuma metástase). No caso do melanoma, não foi observada metástase em nenhum dos grupos.

O efeito inibidor no estudo com o melanoma humano parece estar bem dentro do esperado para o efeito da monoetanolamina (e não da fosfoetanolamina pura). In vitro, a monoetanolamina apresentou um IC50 de cerca de 7,5 mM. A concentração usada no teste in vivo com xenográfico de melanoma humano em ratos equivale, grosso modo, a 3,5 mM - com efeito de 34% de redução no volume*. Na dosagem de 200 mg/kg dia, grosso modo, 1,5 mM, não apresentou nenhum efeito inibidor.

A variação do efeito da mistura sobre diferentes tumores também foi obtida nos testes in vitro anteriormente relatados.

Em todos os estudos, o efeito da mistura Pho-S foi bem inferior ao tratamento padrão recomendado.

*Upideite(03/jun/2016): Como observa Lucia Borges nos comentários, essa redução é relativa em relação ao controle - o tamanho dos tumores continua a aumentar em todos os tratamentos, mas em ritmos diferentes.

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