SNCT 2015

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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Hiperautoria: crescei e multiplicai

O artigo "Drosophila Muller F Elements Maintain a Distinct Set of Genomic Properties Over 40 Million Years of Evolution" de Wilson Leung et al. 2015 chamou a atenção pelo tamanho do "et al.": com um total de 1.014 coautores. De acordo com a história da seção de notícias da Nature, nos blogues e nas redes sociais foram publicados vários comentários questionando a necessidade e legitimidade de tantos autores relacionados para um mesmo estudo. Como através das redes sociais fiquei sabendo da história publicada na Nature e me vi meio que instado a comentar no blogue, temos uma volta quase completa - faltando apenas um outro artigo multiautoral analisando o episódio.





Segundo o texto na Nature, um dos questionamentos é se realmente é possível acreditar que tanto de gente contribuiu de modo decisivo para a produção do artigo. A Nature lembra que, por exemplo, o artigo sobre a detecção do bóson de Higgs teve quase 3.000 autores. Mas, assim, como outras pessoas a quem chamei atenção para esse detalhe, o texto diz que é "uma tradição" na física artigos com tantos autores. Implicando que, como não o é na pesquisa biológica e biomédica, o inusitado é suspeito.

Acho "tradição" um argumento fraco para ficarmos encucados - e, ainda mais, abismados ou, pior, indignados - com artigos quiloautorados em biologia/genética, enquanto ficamos sussa com artigos quiloautorados em física.

Não considero que biólogos sejam mais suspeitos do que físicos. "Tradição" quer dizer pouca coisa nesse caso. Há tradições corretas e incorretas, aceitáveis e inaceitáveis. E, do modo como a História das Ciências costuma ser narrada, a ênfase é justamente na batalha do conhecimento científico contra o conhecimento tradicional: as "verdades" passadas de geração a geração apenas por se acreditar nelas.

Se essa quantidade de autores é, por si mesma, um indício de atribuição errônea de autoria - um trem da alegria, um bonde da felicidade para incluir quem pouco ou nada fez de verdade, apenas para agradá-los e turbinar seus currículos, não há motivos para se suspeitar de biólogos/geneticistas, mas não de físicos de alta energia.

E acredito que não seja indício por si só. O importante não é apenas o número bruto de autores listados, mas também a complexidade relativa da empreitada. Estudos multicêntricos, multidisciplinares, com técnicas variadas e complexas, com grande número de dados... tendem a exigir um maior número de pessoas diretamente envolvidas.

Tampouco acho muito correto dizer que haja uma *tradição* de hiperautoria em física. A definição operacional de hiperautoria (ou mega-autoria) pode variar (p.e. Knudson 2011 define como 6 ou mais autores; Morris & Goldstein 2007, como 20 ou mais autores). De fato, há uma tendência de haver um maior número médio de autores em trabalhos de física do que em ciências biológicas; mas usando o critério de 1.000 autores ou mais - já que foi esse valor que chamou a atenção para esse estudo de genoma de drosófilas - obtive a lista abaixo (certamente não é exaustiva, mas, suponho, algo representativa).

ano no. de autores área página web
referente
Artigo
2015 5.154 física alta energia @RobertGaristo Physical Review Letters*
2015 1.014 genômica
2012 2.932 física alta energia Nature Physics Letters B
2011 3.179 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.221 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.172 física alta energia Pubmed Physical Review Letters
2010 1.055 física alta energia Vivek Haldar European Physical Journal C
2008 3.101 física alta energia Science Watch Journal of Instrumentation
2007 2.011 física alta energia Science Watch Journal of Physics G
2006 2.517 física alta energia Science Watch Physics Reports
2004 2.459 biomedicina Science Watch Circulation Journal
2001 2.851 genômica Quora Nature

Uma "tradição" de cerca de 10 anos. Uma "tradição" com menos de 1 artigo por ano. Uma "tradição" centrada em uma subárea bem específica: "física de alta energia/partículas" (HEP). Uma tradição que envolve basicamente um projeto: os aceleradores do Cern.

Segundo Cronin (2001), a área da HEP é particularmente rica em parcerias institucionalizadas em função da escala e do montante de investimentos necessários. Com a concentração dos recursos em grandes laboratórios como o Cern e o Fermilab, é preciso uma colaboração distribuída de vários outros centros para lidar com problemas básicos. Envolvendo também o financiamento em vários níveis. Esse arranjo instrumental, operacional, administrativo e científico complexo envolve, então, facilmente centenas de especialistas e pesquisadores. (Note-se que o trabalho é de 2001, quando boa parte desses artigos na ordem de 10^3 autores ainda não havia sido publicada; mas já havia vários com 10^2 autores.)

Isso tende a ocorrer também na pesquisa biomédica/genômica. A diferença é que a comunidade biomédica - particularmente as publicações na área - criaram um sistema para inibir a hiperautoria. Até 2002, o New England Journal of Medicine,  p.e., limitava o número de autores por artigo a 12. E, mesmo tendo levantado a barreira, a revista ainda discute com os autores sempre que acha que o número é excessivo.

Para Cronin, a diferença da abertura da comunidade HEP à hiperautoria e a resistência da comunidade biomédica está na força relativa da socialização e comunicação oral e sistema de valores das áreas. P.e., na HEP, um artigo só é publicado após um intenso escrutínio interno entre os colaboradores e comitês das instituições envolvidas, o pre-print como no arXiv.org é incentivado, tudo é discutido abertamente, deixando pouca margem para fraudes sistemáticas. A pesquisa biomédica, frequentemente envolvendo patentes, tende a ser bem menos transparente, dificultando a avaliação do papel de cada um dos envolvidos na pesquisa.

Então, ao contrário das vozes desconfiadas e preocupadas com a dissolução do sentido da autoria, eu vejo com bons olhos a hiperautoria também no mundo da genética e biomedicina. Salvo a existência de indícios em contrário, menos do que significar atribuição liberal de autoria para quem pouco ou nada vez, tende mais a significar que os autores - e o investigador principal - têm confiança o suficiente para defender os papéis relativos das contribuições individuais.

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Para quem quiser brincar de análise de tendências a multiautorias e hiperautorias Robert Boukhalil, de The Winnower, disponibilizou seu programa para análise de autoria na base de dados Pubmed. Chirstopher King, do Science Watch, fez uma análise usando, claro, a base da Thomson Reuters.

Upideite(15/mai/2015): O André Carvalho, do Ceticismo, também escreveu um texto. Ele, como se percebe pelo tweet acima, tem uma opinião oposta à minha. Além disso, eu também não chamaria o artigo de meia boca. Não é um breakthrough, mas tem uma contribuição original.
*Upideite(15/mai//2015): Via @SibeleFausto.

sábado, 9 de maio de 2015

Padecendo no paraíso 5

Hippocampus barbouriFonte: Wikimedia Commons.
Os singnatídeos (cavalos marinhos, peixes cachimbos, dragões do mar...) são uma família muito peculiar de peixes ósseos que compreende cerca de 300 espécies que vivem no mar, estuários e rios. Todas as espécies conhecidas apresentam uma característica única: a gravidez paterna - os ovos são fertilizados e incubados dentro de uma estrutura no corpo do macho, com a emergência de filhotes vivos. (Wilson & Orr 2011.)

Em várias espécies, ocorre a inversão dos papéis sexuais com a competição entre as fêmeas por machos, que é o sexo que escolhe o parceiro (no caso, a parceira) sexual. Aparentemente a inversão dos papéis correlaciona-se com o padrão de acasalamento: espécies poligâmicas tendem a apresentar inversão, enquanto o padrão sem inversão tende a ocorrer em espécies monogâmicas. (Wilson et al. 2003.)

A estrutura de incubação dos ovos pelos machos parece ter se desenvolvido de modo independente duas vezes ao longo da evolução dos singnatídeos: um grupo com incubação na região abdominal (Gastrophori) e outro com incubação na região caudal (Urophori). Dentro de cada grupo, parece haver uma tendência geral de complexificação da estrutura (embora com exceções): de uma simples região no corpo à qual os ovos são aderidos, mantidos expostos; à uma bolsa para dentro da qual os ovos são transferidos e incubados (Fig. 1). (Stölting & Wilson 2007.)

Figura 1. Evolução de estrutura de incubação em machos de Syngnathidae. Fonte: Stölting & Wilson 2007.

Syngnathus acusFonte: Wikimedia Commons.
A viviparidade dos singnatídeos é conhecida desde pelo menos a Grécia Antiga. Em 350 AEC, Aristóteles descreveu provavelmente o parto de Syngnathus acus, peixe cachimbo muito comum na costa mediterrânea próxima às praias: "Quando o tempo de dar à luz chega, [o peixe cachimbo] explode em dois e a prole é liberada (...) o peixe tem uma diáfise ou sulco sob sua barriga ou abdômen e após a desova pela abertura da diáfise, as metades divididas crescem e se unem novamente. (...) Os jovens peixes juntam-se ao redor de quem lhe gerou (...) porque o peixe libera os filhotes sobre si mesmo; e se alguém toca nos jovens, eles fogem nadando." (Frias-Torres 2004.) Por muito tempo, considerou-se que eram as fêmeas quem davam à luz aos filhotes. Só em 1831, C.U. Ekström descreveria a "falsa barriga" no macho. Mas levaria ainda mais umas quatro décadas até que vários cientistas demonstrassem a transferência de ovos da fêmea para o macho. (Ahnesjö & Craig 2011.)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Racismo no IB/USP? - O que Stephen J. Gould tem a nos dizer?

A propósito do possível caso de racismo no IB/USP, não pretendo aqui fazer pré-julgamentos. Que os devidos canais competentes: sindicância, Ministério Público, Polícia Civil, etc. façam a sua parte para apurar devidamente o ocorrido. E, por óbvio, que se punam os eventuais culpados.

A versão do IB segue na Nota de Esclarecimento publicada. A versão do coletivo Ocupação Preta está em uma postagem do grupo no facebook.

Quanto aos fatos as duas versões - incluindo a do professor de acordo com as reportagens, como a do G1 - parecem essencialmente compatíveis: há uma disciplina de pós-graduação em inglês para aperfeiçoar o domínio do idioma entre os estudantes (visando a uma melhora futura nos índices cienciométricos do instituto e da universidade no âmbito internacional), o professor utilizou como texto base para a aula um artigo editorial publicado na revista Medical Hypothesis em 2008 (uma defesa do argumento de James Watson a respeito da inferioridade intelectiva dos negros em relação aos brancos e asiáticos). Somente com esse conjunto de fatos é difícil apurar que tenha mesmo havido tentativa de incutir uma visão racista durante a aula. É perfeitamente possível, como argumenta o docente e o instituto, que o objetivo fosse analisar um tema polêmico.

Porém, à parte a aparente falta de cuidado devido na abordagem de um tema bastante delicado, a fonte escolhida é altamente inadequada do ponto de vista de sustentação de um debate científico. A Medical Hypothesis foi obrigada pela editora a adotar o peer review em 2010 após publicação de um artigo de Peter Duesberg sobre sua inválida hipótese de que o HIV não causa Aids. Ou seja, o artigo de 2008 não passou nem mesmo pelo processo de revisão pelos pares. Se a disciplina tem como objetivo, ainda que não imediato, de preparar os alunos à submissão de trabalhos em revistas internacionais, usar como modelo um artigo publicado em periódico que não segue os padrões usuais - e, em decorrência disso, não tem a melhor reputação no meio científico - não parece a melhor escolha.

Quanto à validade dos dados para sustentar a discussão. Em março publiquei na revista ComCiência uma resenha do livro "A falsa medida do homem" de Stephen J. Gould a respeito das medidas de inteligência e seu uso na ideologia da inferioridade racial dos negros. Reproduzo trechos abaixo:
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Na segunda edição, Gould ainda mantém um forte ceticismo a respeito da correlação entre inteligência e tamanho cerebral. Na crítica a Gould, Rushton cita estudos com ressonância magnética que mostram a ligação entre volume do cérebro e QI. Deve-se ter em mente, porém, que isso não chega a ser central na argumentação geral de Gould. Por um lado, um de seus questionamentos era exatamente se o QI mediria mesmo a inteligência. De outro, para ele, o problema é a caracterização da inteligência como um pacote “descritível como um único número, capaz de classificar pessoas em uma ordem linear, com base genética e efetivamente imutável”. Na visão de Gould, mesmo que a craniometria (e sua correspondente moderna de medição do volume cerebral por meio de ressonância magnética) e a psicometria (essencialmente os testes de QI) sejam eficazes em medir algo que chamamos de inteligência e que a inteligência seja algo herdável, isso não significa que seja algo imutável. Assim como a inteligência, ele exemplifica, mesmo a miopia sendo uma característica herdável, podemos efetivamente fazer algo para eliminar seus efeitos: usar lentes corretivas. No caso da inteligência, ainda que possua componentes genéticos (como estudos recentes tendem a confirmar; a exemplo do trabalho da equipe de Gail Davies, de 2011), ela pode ser cultivada e melhorada por conta de fatores ambientais: boa alimentação na infância e acesso a uma boa educação.

Gould se voltava justamente contra a conclusão de que, sendo hereditária e imutável, a medição do QI (ou do tamanho craniano) indicava o destino certeiro das potencialidades dos indivíduos. Nesse sentido, sua decisão de não se ater excessivamente a questões factuais de natureza científica – se a inteligência é ou não herdável, se ela pode ou não ser medida por um único índice, o que significa o fator “g” de Spearman – parece justificada. Ao deter-se mais a respeito da ideologia por trás dos fundadores da visão biodeterminista da inteligência e de como ela molda os argumentos pretensamente objetivos, o cerne de obra se mantém de pé mesmo hoje, 34 anos após a primeira edição (19 anos após a segunda). Guido Barbujani, em um artigo de 2013, sobre o trigésimo aniversário de A falsa medida do homem, reconhece a contribuição de Gould (e outros como Richard Lewontin, biólogo evolutivo, e Frank B. Livingstone, bioantropólogo, ambos americanos) em questionar a utilidade de “raça” como um conceito aplicável à espécie humana – quando a diversidade dentro de cada grupo (“raça”) tende a ser maior do que a diversidade entre os grupos.

A declaração do nobelista americano James Watson ao jornal inglês The Times, em 2007, de que os negros são inerentemente menos inteligentes, e a exibição, em 2009, de documentário no canal inglês Channel 4 com cientistas ecoando Watson também nos convidam a revisitar a obra clássica de Gould, ainda que alguns detalhes factuais possam não ter resistido ao teste do tempo.
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Disclêimer(29/abr/2015): Tenho vínculos acadêmicos (formei-me pelo IB/USP e fiz minha pós lá) e afetivos (não se passam 12 anos - mesmo com interregno - impunes em um mesmo local).

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um novo programa de divulgação científica no ar

Segurem o fôlego.

Salvo apocalipse zumbi - ou se Silvio Santos decidir colocar Tom & Jerry no lugar - estreia hoje, 17/abr/2015, na web rádio da Unicamp, o programa Oxigênio (desculpem, não tenho o horário confirmado - mas como é na web, não haverá como perder: o programa ficará disponível online para ser ouvido quando você quiser).

A atração terá cerca de 30 minutos de duração com formato jornalístico: reportagens, entrevistas, notas curtas e serviços como resenhas de livros e peças teatrais, e uma agenda de eventos científicos e de divulgação.

Produzido em conjunto pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo - o Labjor - e a RTV Unicamp, a produção o programa é coordenadoa pela Profa. Dra. Simone Pallone, do Labjor. A equipe conta ainda com Patrícia Santos, Ana Paula Zaguetto, Carolina Medeiros, Janaína Quitério, Kátia Kishi, Tatiana Venâncio, Jeverson Barbieri e Victoria Monti. (Há boatos de que esta besta que vos escreve também contribui com alguma coisa.)

Ouçam, curtam (sim, já tem página no facebook), comentem (na página ou enviem email: oxigenio.noticias[arroba]gmail[ponto]com). Sim, vale criticar. (Sim, nesse caso vamos colocar no caderninho negro pro Papai Natal colocar carvão na sua meia.)

Pronto, podem respirar.

Upideite(17/abr/2015): Já está no ar a primeira edição de Oxigênio.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

É mentira, Terta? - Folha seca

É possível que poucas coisas sejam maismenos apetitosas do que uma folha seca encarquilhada, cheia de lignina (fibra indigesta), tanino (composto amargo). Presente em grande quantidade em certos ambientes - sobre o solo de florestas, em galhos, e no fundo de rios próximo a áreas florestadas - e com alguma mobilidade ao sabor dos ventos e das correntes de água, passa a ser um interessante alvo de imitação por certos organismos, permitindo a estes ao mesmo tempo: confundirem-se com o ambiente, não despertarem interesse de predadores e deslocarem-se sem chamar a atenção.

Lagartixa-satânica-cauda-de-folha. Fonte: Wired.
Um dos imitadores de folha seca que considero dos mais impressionantes é o Uroplatus phantasticus (à esquerda). Não apenas por sua aparência bastante convincente, como pelo nome - tanto o científico, quanto o popular: lagartixa-satânica-cauda-de-folha.

É um lagarto de hábitos arborícolas endêmico de Madagascar, vivendo nas florestas (no pouco que resta delas) do norte e da região central.

Seu nome popular deriva, além da óbvia referência ao formato da cauda (e não apenas dela), a seus olhos vermelhos e protuberâncias sobre eles parecendo chifres.

Peixe-folha-amazônico. Foto: Peter Pfeiffer.
O peixe-folha-amazônico, Monocirrhus polyacanthus, (à direita) não tem um nome tão impressionante. Mas sua imitação é também digna de nota. Projeção em sua mandíbula inferior parece com o pecíolo partido de uma folha caída.

Assemelha-se não apenas no aspecto, mas o peixe também nada imitando o movimento das folhas ao sabor do fluxo da água.

Sua distribuição abrange as águas claras e túrbidas dos rios da bacia Amazônica no na Bolívia, Brasil, na Colômbia, no Peru e na Venezuela.

Sapo gigante africano. Foto: Vaclav Gvozdik.
O sapo gigante africano, Amietophrynus superciliaris, (à esquerda) é encontradiço na região central e ocidental da África.

O uso de seus ossos para medicina tradicional e o desaparecimento de seu hábitat são motivos de alguma preocupação quanto a seu futuro - mesmo que sua área de distribuição seja relativamente grande.


Tetigoniídeos do gênero Mimetica. Foto: James Castner.
Sem contar a variedade de insetos: lepidópteros, fasmatódeos, mantódeos, ortópteros... Alguns imitam até danos às folhas: partes comidas por lagartas, manchas de fungos, quebra mecânica... e em diversos estágios de ressecamento.

Como tetigoniídeos do gênero apropriadamente denominado Mimetica (à esquerda).

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mary Tsingou: O enigma matemático dos três homens e uma mulher

Muitos dos leitores do GR já devem estar cientes da descoberta de uma solução (parcial) para o problema Fermi-Pasta-Ulam.

Info 24/mar/2015: "Enigma matemático que durava mais de 60 anos é finalmente solucionado"
Ciências e Tecnologia 25/mar/2015: "Enigma de Fermi-Pasta-Ulam resolvido após 60 anos"
Phys.org 23/mar/2015: "Mathematicians solve 60-year-old problem"

Press release da Unviersidade de East Anglia s.d. "UEA mathematician solves 60-year-old problem"
Press release do Instituto Politécnico Rensselaer (RPI) 23/mar/2015: "A mathematical explanation for the Fermi-Pasta-Ulam system problem first proposed in 1953"

Artigo no PNAS 23/mar/2015: "Route to thermalization in the α-Fermi-Pasta-Ulam system"

Só a Info e o comunicado à imprensa do RPI mencionam a contribuição de Mary Tsingou na formulação original do problema.

Usando a base de dados do Google Acadêmico, a busca por "Fermi-Pasta-Ulam problem" e "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem" tem os resultados representados no gráfico abaixo (Fig.1).

Figura 1. Menções ao problema como de "Fermi-Pasta-Ulam" (FPU) ou de "Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou" (FPUT) em artigos científicos por período. Fonte: Google Scholar.

Em 2008, o físico francês Thierry Dauxois da Escola Normal Superior em Lyon publicou um artigo que resgata a participação essencial de Mary Tsingou (depois, Mary Tsingou Menzel) na questão.

Embora o relatório original de 1955 leve a assinatura apenas de Enrico Fermi, físico italiano; John Pasta, físico computacional americano; Stanislaw Ulam, matemático americano de origem polonesa (então parte do Império Austro-Húngaro); Mary Tsingou fez boa parte do trabalho de elaboração do algoritmo e programação (Fig. 2) - uma tarefa nada trivial, nem um pouco fácil com os poucos recursos computacionais (mesmo em laboratório como Los Alamos, com seus famosos monstrengos adequadamente denominados "Mathematical Analyzer, Numerator, Integrator, and Computer", MANIAC para os íntimos) disponíveis.

Figura 2. Algoritmo desenvolvido por Mary Tsingou para abordagem computacional do problema de Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou. Fonte: Dauxois 2008.

Dauxois faz um breve relato da vida de Tsingou. Nascida em Milwaukee, no estado americano de Wisconsin, em 1928, cresceria na América da Grande Depressão, mudando-se com a família para a Bulgária em 1936 atrás de melhores condições de vida. Mas em junho 1940, seguindo recomendação da embaixada americana, retornaram para os EUA devido ao aumento da tensão no subcontinente balcânico (a Segunda Guerra Mundial já corria solta na Europa Central; em outubro, a Grécia viria a ser invadida pela Itália).

Ela formou-se em 1951. No ano seguinte, buscou uma vaga em Los Alamos, contando com o apoio de uma professora sua de equações diferenciais avançadas. Mesmo a matemática sendo um campo ainda fechado às mulheres, a Guerra da Coreia provocava uma redução de mão de obra masculina, então, ela, juntamente com outros recém-graduados, foram contratados para fazerem cálculos matemáticos à mão.

Foi das primeiras pessoas a conseguirem programar o recém-construído MANIAC I. O principal uso do trambolho era, claro, relacionado ao desenvolvimento de armas, mas ocasionalmente encontravam brechas para utilizar o brinquedo para algo mais produtivo: resolução de problemas da Física e jogo de xadrez. Tsingou e Pasta foram os primeiros a desenvolverem gráficos no MANIAC.

Fermi, professor em Chicago, visitava Los Alamos apenas brevemente. Mas foi dele a ideia de utilizar o computador não apenas para realizar cálculos padrões, e, sim, também para testar hipóteses físicas. Nascia disso a experimentação numérica e a era das simulações computacionais científicas.

Com sua experiência na programação do computador, proximidade com Pasta e Ulam, foi incumbida a ela a tarefa de desenvolver os algoritmos da simulação de um cristal unidimensional - sem saber o resultado surpreendente que iriam obter.

Modelando os átomos como massas conectadas linearmente por molas que obedeciam à lei de Hooke, mas com um pequeno termo não-linear, observaram que, ao contrário do previsto, a energia não acabava sendo partilhada igualmente pelo sistema, mas o sistema, de tempos em tempos, voltava à sua condição original. A busca pela resolução desse paradoxo levou ao desenvolvimento do campo dos sólitons (ondas localizadas com propriedades de partículas) e o problema FPUT se tornou central também nos estudos sobre o caos.

Em 1955, Tsingou obteria seu mestrado. Em 1958, casou-se com com Joseph Menzel, que conheceu no próprio Los Alamos. Além do problema FPUT, ela também trabalhou com soluções numéricas para a equação de Schrödinger e trabalhou com von Neumann na modelagem de mistura de fluidos com densidades diferentes. Além de contribuir com estudos sobre o programa Guerra nas Estrelas da administração Reagan.

Aposentou-se em 1991 e desde então mora com o marido nos arredores de Los Alamos.

Por que, tendo papel tão essencial, Mary Tsingou foi deixada de lado? Poderia ser por, apesar de ter botado a mão na massa, não haver participado da elaboração do artigo. Mas ela participou da produção dos gráficos e Fermi, morto um ano antes, não tinha como colaborar com o manuscrito, porém foi listado como primeiro autor.

Não era a primeira vez que o efeito Matilda aprontava das suas, não seria a última. Talvez o caso mais famoso de uma mulher alijada do reconhecimento seja de Rosalind Franklin e sua contribuição para o desvendamento da estrutura do ADN - creditada, normalmente apenas a Watson e Crick, e, ocasionalmente a Wilkins também.

Em sua linha final, Dauxois propõe: "Let us refere from now on to the Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou problem". ["Chamemos de agora em diante de problema Fermi-Pasta-Ulam-Tsingou"]. Alguns atenderam à convocação, mas são somente 15 trabalhos publicados desde então (e indexados na base do Google Acadêmico) referem-se a FPUT contra mais de 400 que citam apenas FPU.

domingo, 15 de março de 2015

Humor: Quantas pessoas havia na Avenida Paulista?

"Estimating the size of a crowd is a difficult business – even for those who actually want to get it right."

Diante da pequena divergência de números de manifestantes nas imediações da Avenida Paulista nos protestos de 15/mar/2015 entre a PM, que avaliou como 1 milhão de pessoas, e o Instituto Datafolha, que estimou em 210 mil indivíduos (veja detalhes da metodologia do Datafolha - cuidado! contém paywall poroso), fica a pergunta: afinal, quantas pessoas estavam na Paulista?

Provavelmente nunca saberemos ao certo, mas o Instituto GR de Pseudopesquisas convocou especialistas de várias áreas para darem seus palpites de como medir.

Ecólogo populacional: "Basta capturar alguns manifestantes aleatoriamente, marcá-los, soltá-los e depois recapturar o mesmo número também aleatoriamente. Se o tamanho da amostra é de 100 pessoas e na recaptura 10 estiverem marcadas, o total será de 1.000 manifestantes."

Físico teórico: "Considere que os manifestantes sejam todos esféricos de raio de 1m no vácuo... "

Estatístico preguiçoso: "O número de manifestantes será, com 95% de confiança, algo entre 0 e 7 bilhões de pessoas."

Fisiologista da respiração: "Cerque a região de interesse com uma cúpula impermeável ao ar. Meça a variação do teor de O2 do ar no interior da região cercada por um período (tenha certeza de haver obtido permissão de um comitê de ética antes; e o período de observação não deve induzir acidose). Multiplique o teor pelo volume total de ar em litros e divida por 72 e multiplique pelo tempo de observação em horas."

Batman: "Hackeie o sistema de telefonia celular da cidade e use as emissões dos celulares como um sonar. Ah, você quer algo legalmente permitido, Lucius? Bem, pergunte pra um engenheiro eletrônico."

Engenheiro eletrônico: "Peça pros usuários baixarem um aplicativo para emitirem um som específico e colocar um microfone sensível em local apropriado."

Engenheiro de som carioca: "É na Paulista, né? Simples. Grite 'biscoito'. E com um decibelímetro meça a intensidade com que vem a resposta 'bolacha'."

Social media expert: "Faça um bot que capture todas as hashtags #EuNaPaulista #SelfieNaPaulista, filtre os retuítes e repetições; divida pela taxa de uso de smartphones e corrija pelo número de usuários de redes sociais... hein? como assim validação da metodologia?"

Físico experimental: "Na região do cruzamento com a Paraíso instale um canhão de laser de raios-X de baixa intensidade... o quê? como assim comitê de ética de pesquisa com animais?"

Obs. Um texto mais sério - de divulgação - sobre métodos de contagem de multidões.

terça-feira, 10 de março de 2015

Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 7

Aparentemente a discussão pode ser mais ampla do que o círculo dos blogues filomáticos brasileiros (ou lusófonos).

Carlos Hotta chamou a atenção para uma discussão similar no âmbito internacional - ao menos anglófono. Muitos dos elementos levantados são similares à discussão que travamos quanto ao cenário brasilo-lusófono.

Bia Granja discutiu a crise no contexto dos blogues brasileiros de modo geral - não os de ciências.

Curiosamente o debate sobre crise e morte se dá quando parece que os trabalhos acadêmicos sobre blogues começam a se multiplicar. Só no Labjor, desde 2013, tivemos duas defesas de mestrado sobre o tema e há mais uma a caminho:
2013 - Vanessa Fagundes: "Blogs de ciência: comunicação, participação e as rachaduras na torre de marfim".
2015 - Meghie Rodrigues: "Entre jalecos brancos e Blackberries: as novas tecnologias e os modelos de divulgação científica".
TBA - Bruno de Pierro: "Descentralização da informação científica na Internet: o abismo entre a proliferação híbrida e o engano da interação por justaposição".

No Google Scholar, a busca por "science blogs" resulta no gráfico abaixo (Fig. 1):

Figura 1. Evolução do número de resultados no Google Scholar para busca por "science blogs".

(Não filtrei por falsos hits; creio que isso não afete a tendência geral.)

Uma explicação possível é que os trabalhos acadêmicos sempre têm um delay na publicação. No caso de doutorado, tem os 4 anos da pesquisa, mais cerca de 1 ano para a publicação final dos artigos. Haverá uma queda a partir deste ano dos trabalhos acadêmicos sobre blogues de ciências? Talvez. Ou talvez leve mais alguns anos - pode haver também um lapso entre a queda da relevância do tópico e a queda do interesse pela academia (como há entre o aumento da relevância do tópico e o início do interesse pela academia). Mas, com a discussão a respeito da crise, um tanto paradoxalmente (mas não muito), poderia ainda *aumentar* o interesse pela academia: tentando investigar se há mesmo uma crise quais seriam as causas e as consequências.

Um popperiano mais empedernido poderia imaginar que o parágrafo acima sobre os possíveis efeitos da crise na pesquisa acadêmica sobre blogues científicos e cientofílicos prevê tanto uma coisa como seu oposto, não sendo, portanto, uma previsão propriamente dita. Mas, embora não seja uma previsão que se pretenda científica, não é uma infalseável. Terá notado o atento leitor que são previsões distintas: por exemplo, a hipótese do aumento prevê que seria pela investigação sobre uma crise atribuída - nesse caso, deveriam aumentar os trabalhos que pesquisem os blogues de ciência sob a perspective de crise, não de um interesse geral - sobre, p.e., o impacto discursivo ou o efeito didático dos blogues.

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Há uma crise nos blogues brazucas de ciências?
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 2
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 3
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 4
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 5
Há uma crise nos blogues brazucas de ciências? - 6

sábado, 28 de fevereiro de 2015

I (don't) see your true colors: não é (só) sobre as cores do vestido

Com o devido aviso de que neurofisiologia visual é beeeeem longe de minha especialidade.

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Na semana passadaHá uns três dias - isto é, no neo-Ordoviciano para os padrões da internet - causou certo bochincho a foto de um vestido com a pergunta a respeito de sua cor - segundo o G1, isso teria começado com uma foto no tumblr swiked, de Caitlin McNeill Além da resposta variada para a pergunta: "branco/dourado" ou "azul/preto" e algumas variantes menos frequentes, houve também uma variação nas respostas a respeito do que causaria essa variação nas respostas.

O que me faz tentar responder à pergunta não feita de o que causa a variação nas respostas sobre o que causa variação nas respostas. (Haverá uma variação de terceira ordem nas metaexplicações?)

Uma parte da variação pode-se dever à ambiguidade da pergunta. Mas que ambiguidade pode haver em "qual a cor do vestido?". Bem, a pergunta pode significar coisas ligeira, mas significativamente distintas:

1) A despeito da impressão que você está tendo, qual é a verdadeira cor que você acha que tem o vestido *representado* na imagem?
2) A despeito da impressão que você está tendo, qual é a verdadeira cor do vestido *na* imagem?
3) Qual a sua impressão visual de cor ao visualizar esta imagem?

A pergunta 1 aparentemente tem uma resposta definitiva: é azul e preto.

A pergunta 2 também aparentemente tem uma resposta definitiva: é azul e dourado.

A pergunta 3 é a que realmente gera a diversidade de respostas e as respostas 1 e 2 têm pouco a dizer a respeito.

Mas o que faz umas pessoas terem a impressão de que o vestido - que é azul e preto, mas que tem tons azul e dourado na foto - é azul e preto e outras branco/azul claro e dourado?

Certamente não é uma questão de variante biológica da percepção de cores - como os daltonismos: as mesmas pessoas podem ver de um jeito numa hora e de outro, em outra (embora possa explicar parte da variação das respostas). Houve quem dissesse tratar-se de variação do estado emocional. Também pouco provável.

A principal explicação é a compensação de luminosidade que normalmente leva à constância de cores - no sentido inverso: uma interpretação de diferente luminosidade levaria à interpretação diferente das cores. Isso cria ilusões de óptica bem conhecidas, como na Figura 1.

Figura 1. Os quadrados A e B na verdade têm o mesmo tom de cinza. Fonte: Wikimedia Commons.

Se uma imagem é tida como estando na sombra, as tonalidades são interpretadas como sendo mais escuras do que seriam na realidade e nosso cérebro/retina faria a compensação. Se, ao contrário, a imagem é tida como estando à luz, as tonalidades são interpretadas como sendo mais claras do que o normal e nosso cérebro/retina compensa no sentido oposto. Por isso a quadrícula A na figura 1 se parece mais escura do que a quadrícula B na mesma imagem - mesmo tendo, na realidade, o mesmo tom. Ou, na versão do xkcd (Figura 2):

Figura 2. Variação da percepção das cores - os tons dos vestidos nos quadrinhos da esquerda e da direita são os mesmos. Fonte: xkcd.

Um efeito que vi menos discutido é quanto às configurações do monitor. Monitores de marcas diferentes poderão exibir as cores de modo ligeiramente distintos, além da configuração de brilho e contraste variar de um para o outro. Além disso, se eu inclino o monitor para cima ou para baixo, percebo a imagem com tonalidades mais escuras ou mais claras. A luminosidade ambiente dos interneteiros também pode afetar a percepção.

Outro fator que pode afetar é o uso de óculos e outras lentes (com a ressalva de que se trata de um levantamento online - mas, embora, a proporção real possa ser afetada, a relação dos fatores parece ser mais robusta). A luz do monitor é polarizada, lentes podem filtrar parte da luz emitida - especialmente se tiver tratamento antirreflexo -, alterando ligeiramente a tonalidade percebida.

A idade também parece afetar (valendo a mesma ressalva sobre o caso da influência do uso de lentes - trata-se da mesma enquete). Aqui há alguma disputa na literatura científica. Segundo os dados de Wuerger 2013, apesar das alterações do sistema visual periférico (olhos e nervos), não há uma variação sensível não há uma alteração na percepção das cores - haveria algum efeito compensatório nas regiões corticais. Mas, segundo Werner e Ehmer 2006, ocorre uma alteração na percepção da constância de cores com a idade que não depende da alteração no sistema visual periférico, atribuindo a mudança à modificação na dinâmica temporal dos processos neurais.

Então parece que a variação nas explicações dadas deve-se, ao menos em parte, por se tratar de um fenômeno que pode ser afetado por diversos fatores de diferentes naturezas: iluminação ambiente do sujeito, interpretação da iluminação da foto, idade do observador, uso ou não de lentes corretivas, características da tela do dispositivo (computador, tablet, smartphone...).

O que a blogosfera científica brasileira falou?
Dulcidio Braz Jr, Física na Veia: Qual é a cor do vestido?
Tatiana Nahas, Ciência na Mídia: Carona no Vestido
Scicast, Responde A.I. #01: De que cor é o vestido, afinal? (podcast)

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