SNCT 2015

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domingo, 28 de junho de 2015

Identidade de Euler: a mais bela equação matemática?

"Like a Shakespearean sonnet that captures the very essence of love, or a painting that brings out the beauty of the human form that is far more than just skin deep, Euler’s equation reaches down into the very depths of existence."
["Como um soneto de Shakespeare que captura a própria essência do amor ou uma pintura que traz à tona a beleza da forma humana mais profunda, a equação de Euler alcança o âmago da existência."]
Keith Devlin

PixaçãoIntervenção artística em um ponto de ônibus na Unicamp.

"É bom saber que a equação certamente é a única a ter se tornado evidência num julgamento criminal. Em agosto de 2003, atentados ecoterroristas a uma série de revendedoras de automóveis na região de Los Angeles resultaram em prejuízo de US$ 2,3 milhões; um prédio foi incendiado e mais de cem SUVs foram destruídos ou danificados. O vandalismo incluía pichações dizendo 'BEBEDOR DE GASOLINA' e 'ASSASSINO'; e num Mitsubishi Montero escreveu-se a fórmula e^(i.π) + 1 = 0. Usando isso como pista e posteriormente como prova, o FBI prendeu William Cottrell, estudante de pós-graduação em física teórica no Instituto de Tecnologia da Califórnia, por oito acusações de incêndio criminoso e conspiração para provocar incêndio. No julgamento, que terminou com sua condenação, em novembro de 2004*, Cottrell admitiu ter escrito aquela equação no Montero. 'Eu acho que conheço aquela equação desde os cinco anos de idade', declarou Cottrell durante o julgamento. 'Todos deveriam conhecer o teorema de Euler.'" P: 81.

Crease, R.P. 2011. As grandes equações: a história das fórmulas matemáticas mais importantes e os cientistas que as criaram. Zahar. 276 p.

*Em 2009, a sentença foi anulada na apelação em função da Síndrome de Asperger de Cottrell, que, no entendimento da corte, impediria-o de atuar com dolo. A condenação por conspiração foi mantida. Cottrell foi liberado em 2011.
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Fórmula de Euler. Quando o ângulo φ é igual a 90° (π radianos) temos a identidade de Euler.Fonte: Wikimedia Commons.
A edição de outono de 1988 da The Mathematical Intelligencer perguntou a seus leitores - matemáticos industriais e acadêmicos - qual dentre 24 teoremas matemáticos listados era o mais bonito. As respostas deveriam dar notas de 0 a 10 para cada item. O resultado seria publicado no verão de 1990: em primeiro lugar com uma nota média de 7,7 foi, claro, a identidade de Euler (em segundo, com 7,5 de média, uma outra fórmula de Euler, a do poliedro: V + F = E + 2 - o número de vértices mais o de faces é igual ao número de arestas mais 2; com a mesma média, em terceiro lugar o teorema que diz que o número de números primos é infinito). Como trata-se de uma publicação matemática e não de estatística, deram apenas a média, não os desvios padrões para sabermos se são significativamente diferentes os valores (com n=68 respostas válidas). Em 2004, Robert P. Crease conduziu uma enquete em seu blogue no Physics World, sobre as maiores equações de todos os tempos (o que acabou rendendo seu livro citado mais acima), a identidade de Euler empatou em primeiro lugar juntamente com as quatro equações de Maxwell do eletromagnetismo.
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Fonte: xkcd
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O fato de a identidade envolver três (ou quatro) constante matemáticas proeminentes é constantemente citado em sua classificação como belo. Mas apenas isso basta para justificá-lo como tal? O filósofo mexicano Ulianov Montaño Juarez considera um panorama maior:

"The aesthetic experience associated with Euler’s identity depends not only on the person’s inner events occurring during the act of contemplating the formula, but also on things like a person’s knowing the mathematics which allows us to make sense of the sign e^(i.π) + 1 = 0, the way a person’s preferences were formed, other people’s opinions, and so forth. The aesthetic experience of Euler’s identity depends on events that are not necessarily occurring at the exact moment of the experience, but which have an influence on it; that is, the process of experiencing Euler’s identity is embedded in a larger aesthetic-process." P: 86.
["A experiência estética associada à identidade de Euler depende não apenas dos eventos internos à pessoa que ocorrem durante o ato de se contemplar a fórmula, mas também de coisas como a pessoa conhecer a matemática que permite fazer sentido dos símbolos e^(i.π) + 1 = 0, o modo como as preferências da pessoa são formados, a opinião de outras pessoas e assim por diante. A experiência estética da identidade de Euler depende de eventos que não ocorrem necessariamente no momento exato da experiência, mas que têm influência sobre ela; isto é, o processo de experienciar a identidade de Euler é embutida em um processo estético mais amplo."]

Montano, U. 2014. Explaining Beauty in Mathematics: An Aesthetic Theory of Mathematics. Springer. 224 pp.
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A história da identidade de Euler é um tanto enigmática. Certamente o matemático suíço Leonhard Euler (1707-1783) foi o primeiro a obter a fórmula e^(i.v) = cos v + i.sen v e demonstrá-la com rigor matemático no capítulo 8 de seu Introductio in analysin infinitorum. Mas ele nunca escreveu a identidade e^(i.π) + 1 = 0. O mais próximo a que chegou foi o equivalente: ln(−1) = πi. (Sandifer, C.E. 2014. How Euler did even more. MAA. 240pp. Pp: 83-7.)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DC = RP? Leitores comentam

Subo aqui comentários à postagem em que discuto a distinção feita pelo jornalista Bernardo Esteves entre jornalismo científico e divulgação científica.

O jornalista Carlos Orsi, do blogue Olhar Cético, da revista Galileu, e da ACI da Unicamp, escreve:
"Uma coisa que me incomoda um pouco nessas discussões é o uso impreciso da palavra 'ciência'. Que pode ser referir à busca de conhecimento sobre o mundo material, pode se referir aos instrumentos e métodos usados nessa busca, pode se referir às instituições e às pessoas que, na civilização atual, são encarregadas de usar esses instrumentos e executar essa busca. Muito do debate sobre jornalismo científico, principalmente o inspirado no meio acadêmico 'de humanas', tente a tomar a terceira acepção pelo todo: a ideia da "construção social forte" das ciências ainda paira muito por aí."
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A jornalista Verônica Soares, do Minas Faz Ciência/Fapemig, diz:
"Tem um aspecto interessante nessa discussão que raramente é abordado: o fato de que muitas assessorias de imprensa e programas de divulgação das instituições se apropriam das técnicas do jornalismo para divulgar ciência (principalmente em revistas especializadas). Mas, nesses casos, nem sempre há uma busca pelo contraditório, nem sempre há um questionamento mais contundente ao cientista, porque o jornalismo praticado é um jornalismo "institucional", de release, pautado pelas instituições de fomento, por exemplo. Particularmente, acho que esse tipo de divulgação também tem seu lugar e não há demérito em fazer assessoria de imprensa para a ciência, mas o quadro demonstra que há jornalismos, plurais, ou seja, não é só uma questão de fazer a pauta, entrevistar, apurar, mas de identificar de que jornalismo estamos falando. Infelizmente, acho que há cada vez menos espaço para a produção de um jornalismo crítico como o que o Bernardo Esteves defendeu e crescem os Programas e Projetos relacionados ao jornalismo mais institucional, feito no âmbito das assessorias."

terça-feira, 16 de junho de 2015

Divulgação científica = relações públicas das ciências?

O jornalista Bernardo Esteves, da Piauí, faz uma interessante reflexão, em seu blogue "Questões da Ciência", sobre o papel do jornalista de ciências a partir de debate ocorrido na Conferência Mundial dos Jornalistas de Ciências - WCSJ 2015. A necessidade de se postar criticamente em relação ao conhecimento científico e de tornar o processo de produção desse conhecimento mais transparente ao público.

Discordo apenas de um ponto em que ele contrapõe jornalismo de ciências e divulgação científica: "Mas é importante não perder de vista que os profissionais dos dois campos atendem a interesses distintos – se os divulgadores têm como função aproximar a ciência da sociedade, aos jornalistas cabe defender os leitores e cidadãos". Esteves não é nem de longe o único a fazer, mais do que distinção, uma antítese entre os dois conceitos.

No meu entender, o jornalismo de ciências *é* uma *forma* de divulgação científica, uma modalidade dela. No GR, na primeira postagem da série sobre divulgação científica expressei a relação aninhada em termos de meios/agentes. Na terceira postagem trouxe definições acadêmicas das expressões, reproduzo-as novamente:

"Divulgação científica: todo tipo de atividade de ampliação e atualização do conhecimento. Envio de mensagens elaboradas mediante a transcodificação da linguagem técnica para uma linguagem compreensível pelo público amplo. Calvo Hernando 2006.

Também se usam as expressões: vulgarização científica, popularização científica e alfabetização científica."

"Jornalismo científico: transmissão ao público, por meio de notícias, reportagens, entrevistas e artigos, o sentido e o sabor do conhecimento científico, assim como suas crescentes implicações sociais, com papel informativo e formativo. Contribui para preencher lacunas escolares e para atualizar o cidadão. Reis 1984.

Conjunto das atividades jornalísticas que se dedica a assuntos científicos e tecnológicos e que se direciona para o grande público não-especializado, por meio de diversas mídias: rádio, televisão, jornais especializados e outras publicações de divulgação. Thiollent 1984.

Não se restringe à cobertura de assuntos específicos de CT&I, o conhecimento científico pode ser usado para compreender melhor qualquer fato, p.e. sobre uma enchente (divulgada na editoria de cidade), um jornalista pode conversar com meteorologistas para entender o fenômeno natural. Oliveira 2002."

Essas definições preservam a missão que muitos jornalistas, incluindo Esteves, atribuem ao jornalismo: de visão crítica dos processos sociais e instrumentação (atenção, não instrumentalização, que seria quase o oposto) cognitiva dos leitores para que possam se posicionar em relação aos temas que os afetam.

Mas, de um lado, não se pode dizer que seja uma missão que se possa (nem que se deva) atribuir exclusivamente ao jornalismo. De outro, não vejo como uma missão necessariamente vinculada ao jornalismo. Não entendo que a distinção seja em termos de objetivos almejados. Para mim, a distinção é tão somente de processos (a distinção mencionada acima de meio pode ser vista como condicionante do processo e/ou condicionado por este) envolvidos na elaboração do texto/mensagem. O jornalismo de ciências é uma modalidade de divulgação científica que lança mão de um conjunto de técnicas e instrumentos jornalísticos como: montagem de pauta, entrevistas com fontes, apuração das informações... (o condicionamento pelo meio pode ser visto por tais técnicas e instrumentos serem demandados pelo ofício em jornais, revistas, canais de rádio e TV em programas de jornalismo... o condicionamento do meio pode ser visto por tais técnicas transformarem os canais efetivamente em um canal jornalístico: digamos um blogue irá assumir uma cara de jornal com textos/mensagem geradas com o uso de tais instrumentos, ao mesmo tempo em que o blogueiro estará atuando como um jornalista).

A transmissão (essencialmente) passiva) do conhecimento científico, a função de aproximação entre ciência e sociedade, sim, são objetivos compatíveis com a divulgação de modo geral, mas não são definidoras dela. Isso é mais uma caracterização da ação de relações públicas. Sim, a divulgação científica *pode* assumir a forma de relações públicas das ciências, mas *não necessariamente* precisa assumir tal feição.

Se se contrapõe jornalismo de ciências à divulgação de ciências, está a se reduzir a última a ação de RP. É mais útil pensar que a DC engloba tanto o JC quanto o RPC (e mais coisas). Do mesmo modo como tanto jornalismo quanto relações públicas pertencem ao grande campo da comunicação social (que inclui ainda outras coisas como publicidade).

A DC tanto pode como muitas vezes assume a forma de crítica às ciências. P.e., o caso mais recente das declarações sexistas do nobelista Timothy Hunt, no mesmo WCSJ 2015, foi bastante analisados por vários blogues de divulgação científica. PZ Myers, em seu Pharyngula, não é e não atua como jornalista ao opinar sobre o caso. Ben Goldacre não é e geralmente não atua como jornalista ao criticar a Big Pharma e a indústria autointitulada "medicina alternativa complementar" (que, via de regra, não é nenhuma das três coisas). Mas ambos estão, sim, atuando como divulgadores de ciências.

Mostrar os intestinos das ciências é uma tarefa nobre do bom jornalismo de ciências, mas não é uma tarefa que só o JC saiba fazer, nem que só ele deva fazer. Não há oposição. Deve haver complementaridade. E essa complementaridade não se dá por um ser uma coisa e outra ser outra coisa. Se, no geral, é mais fácil ao jornalista de ciências ter o afastamento necessário; ao cientista, no geral, é mais fácil ter acesso em primeira mão. Um não jornalista e não cientista também pode contribuir com a DC fazendo a sua análise na posição de cidadão - ou de sua outra expertise (filósofo, cozinheiro, político, dono de casa, empresário, banqueiro, limpador de piscinas...). Se o cientista pode estar preso dentro dos interesses da academia  - ou do complexo político-industrial que sustenta sua pesquisa -, há que se considerar que o jornalista tampouco será necessariamente isento dos interesses que seu veículo representa. Interesses que podem perfeitamente ser legítimos, diga-se. (Idem para outros atores da DC.)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 22

Um tema muito debatido nos estudos sobre divulgação científica é o chamado "modelo do déficit". Há uma variação em torno do que se entende pela expressão, mas uma das definições consiste na hipótese de que há uma correlação positiva (causacional?) entre "conhecimento científico" e "atitude em relação às ciências". Isto é, as pessoas tendem a ter uma visão mais positivas em relação à prática científica quanto maior seu conhecimento sobre ciências.

Muitos pesquisadores da área e divulgadores de ciências, especialmente os que têm uma formação mais afim das Humanidades (jornalistas, cientistas sociais, historiadores...) e, em menor grau, de Ciências da Vida e Saúde (biologia, medicina, psicologia...), tendem a rejeitar o modelo.

Nick Allum e cols. 2008 resolveram colocar a questão à prova em uma base mais sólida. Fizeram um estudo de meta-análise compilado dados para várias culturas.
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Allum, N. et al. 2008. Science knowledge and attitudes across cultures: a meta-analysis. Public Understanding of Science 17(1): 35-5. doi: 10.1177/0963662506070159.

18 palavras-chaves foram utilizadas para se buscar por artigos em bancos de dados como o ISI Web of Knowledge, Medline, Google... “public”, “science”, “knowledge”, “citizens”, “understanding”, “technology”, “survey”, “biotechnology”, “awareness”, “environment”, “risk”, “perception”, “measurement”, “genetic”, “literacy”, “opinion”, “engineering” e “attitudes” com conectores "and" ou "or".

Dos 300 artigos, relatórios e outros resultados, 193 amostras de dados foram selecionadas (com base em se as amostram eram aleatórios e representativas de populações em nível nacional) abrangendo 40 países e cobrindo os anos de 1989 a 2004.

As escalas de conhecimento científico puderam ser classificadas em duas categorias abrangentes: conhecimentos científicos de livros-textos gerais de ciências e conhecimento sobre biologia e genética (como "tomates comuns não contêm genes, enquanto tomates geneticamente modificados têm").

As escalas de atitude incluíam 5 grandes áreas: 1) ciência em geral, 2) energia nuclear, 3) medicina genética, 4) alimentos geneticamente modificados (OGMs) e 5) ciências ambientais.

Corrigindo para idade, sexo e escolaridade, a relação geral entre conhecimento e atitude foi baixa (0,08) mas significativa (a alfa=5%). Foi significativamente negativa para atitudes sobre OGMs e ciências ambientais. E quanto maior o conhecimento de biologia/genética mais negativa a atitude em relação às ciências. Quanto maior o conhecimento sobre biologia, melhor a atitude em relação aos OGMs e às ciências ambientais.

Pessoas com formação no ensino superior tiveram uma melhor atitude em relação às ciências.

Corrigindo para fatores como PIB per capita, acesso à internet, número de pessoas com ensino superior, os americanos foram os que apresentaram a melhor atitude em relação às ciências entre as populações analisadas no levantamento; os gregos, a pior.

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Infelizmente, o Brasil não esteve entre os países analisados. O que não surpreende, dada a falta de estudos de abrangência nacional que contemplem tanto as atitudes (foco dos levantamentos do MCTI) quanto o conhecimento (foco do estudo da Abramundo). Estudos que contemplam as duas dimensões são apenas regionais, como o do Labjor (estado de São Paulo). (Sim, um dia compilo os dados da pesquisa GR, mesmo não tendo representatividade nacional.)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Bomba de chocolate: a comunicação científica ética

O biólogo e jornalista John Bohannon, criador do "Dance your PhD" e autor de um experimento de submissão de artigo falso para vários periódicos de acesso aberto, parece ter aprontado mais uma: em um artigo no site io9 "I fooled millions into thinking chocolate helps weight loss. Here' how." ["Enganei milhões fazendo-os pensarem que chocolate ajuda a emegrecer. Eis como."] ele revela ser o o 'autor' do 'estudo' que dizia que o consumo de chocolate ajudava a emagrecer e que teve uma boa cobertura (isto é, um generoso espaço foi disponibilizado) na mídia (corporativa e nas sociais), ele teria pregado uma peça com a intenção de demonstrar como o processo de apuração jornalística é falha.

Um pseudoexperimento foi realizado. Dados reais, mas obtidos com uma metodologia falha (p.e. não indicava o número de sujeitos experimentais em cada grupo), foram usados para produzir um artigo em que se 'demonstra' que comer chocolate todos os dias ajuda a perder peso.

O artigo Bohannon et al. 2015 Chocolate with high cocoa content as a weight-loss accelerator, International Archives of Medicine 8(55): 8 pp, não está mais disponível (embora possa, por enquanto, ser lido no cachê do Google - o abstract e o pdf). A revista não colocou nenhum aviso. Segundo o blogue Retraction Watch, o IAM alega que o artigo não foi, de fato, aceito e a publicação foi em decorrência de uma falha; mas, ao contrário da nota da revista, o artigo ficou no site por muito mais do que algumas horas, ficando desde abril até a revelação da farsa por Bohannon. (A IAM foi criada pela gigante Biomed Central em 2008 e mantida até 2014. Este ano, a revista passou para a iMedPub, da Internet Medical Society.)

Na Folha saiu na seção F5 (cuidado! contém paywall poroso), destinada a fofocas e bobagens em geral. Não encontrei matéria sobre isso no site do G1, nem no do Estadão.

Em 2012 um outro artigo foi publicado em uma outra revista com nome parecido, Archive of Internal Medicine (atualmente JAMA Internal Medicine), sobre putativos efeitos emagrecedores do consumo regular de chocolate. O estudo, Golomb BA, Koperski S, White HL. Association Between More Frequent Chocolate Consumption and Lower Body Mass Index. Arch Intern Med. 2012; 172(6): 519-52, foi citado pelo artigo de Bohannon e, à época, teve também uma boa cobertura pela mídia. Na Folha saiu um ano depois na seção Saúde e Equilíbrio (cuidado! contém paywall poroso).

Como dito, a intenção de Bohannon foi mostrar a falha no processo de apuração jornalística (e dar mais uma espicaçada nas publicações 'científicas' predadoras). Não é o primeiro experimento do tipo. Em outra área, temos, por exemplo, o "Abraço Corporativo". No fim das contas, qual o real valor do 'experimento' de Bohannon? Não é novidade a existência de tais falhas: o websítio Observatório da Imprensa decidadedica-se à análise das falhasdas patologias do jornalismo contemporâneo. Nem as denúncias. Nem esse tipo de denúncia por meio do logro intencional com posterior revelação 'bombástica': "rá, pegadinha do Mallandro!". Talvez um: "olhem só, vocês continuam errando". Ok, mas parece muito pouco por conta de um detalhe - dois.

Primeiro detalhe. Como no título do artigo no io9 de Bohannon, ele enganou milhões. Gary Schwitzer, no Retraction Watch, concede que Bohannon enganou mesmo foram só um punhado de jornalistas. Coube a estes a tarefa de enganar os milhões de leitores. De todo modo o efeito foi que milhões (a bem dizer é um chute em função do alcance potencial dos meios de comunicação que sabidamente deram espaço e tempo para apresentar os resultados do 'estudo') foram logrados. Isso era sabido que ocorreria se o objetivo do experimento fosse alcançado. A publicação do desmentido raramente tem a mesma repercussão do erro inicial. Não serão os mesmos milhões que serão 'desenganados'. Com a repercussão inicial das mídias sociais e a dinâmica que conhecemos, informações erradas e já desmentidas sempre retornam para nos assombrar (não é mesmo, Gilmar?).

Segundo detalhe. A despeito do que pensa Bohannon: "I don’t think I really put anyone at risk by getting them to eat a little chocolate." ["Não acho que tenha realmente colocado alguém em risco por fazê-lo comer um pouco de chocolate."], não é uma mentira completamente sem consequências. Dentre os milhões desinformados inicialmente (e os que continuarão a ser desinformados), haverá os que terão comido chocolate na esperança de emagrecer, mesmo em situações em que isso não seria recomendado: diabete, sobrepeso, intolerância à lactose ou alergia a algum componente do produto; ou pelo simples fato de se gastar dinheiro inutilmente (já que não se está a consumir apenas pelo prazer). Uma atenuante seria a existência de um estudo verdadeiro que sustenta a relação entre a ingestão de chocolate e o emagrecimento. No entanto, uma vez que o autor não acredita na veracidade dessa relação, ou que ela é ainda sem base suficiente, não há como tirar o corpo complemente fora em relação àsvista das consequências danosas potenciais da 'brincadeira'.

Isso Brohannon não discute em seu artigo de revelação do truque - embora alguns leitores o façam nos comentários. Não sei se ele submeteu seu projeto para algum comitê de ética. Não quero aqui crucificar o autor em sua tentativa, acredito, bem intencionada de esclarecer o modus operandi problemático do jornalismo (científico) atual. Apenas pincelar alguns aspectos que ficaram de lado na discussão principal a respeito desses problemas denunciados (a NPR traz também uma discussão dos aspectos éticos da diatribe do jornalista).

Pode ser que o saldo final do brinquedo seja positivo. Mas temos que colocar na balança os aspectos negativos também.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Normas sociais nas ciências? E daí?

O jornalista especializado em ciências, saúde e viagens Chris Woolston escreveu para a seção de notícias da Nature sobre uma discussão iniciada há pouco mais de um mês.

O geneticista Yoav Gilad publicou no twitter sua reanálise dos dados publicados em um artigo da PNAS contestando as conclusões do estudo.
A isso seguiu-se toda uma discussão. Woolston crê que isso é uma demonstração de como as mídias sociais estão mudando o modo como a ciência é discutida. Há três anos, sobre um artigo reportando a capacidade de bactérias de usarem arsênio, a microbióloga Rosie Redfield fez boa parte da discussãocrítica em seu blogue. Para mim, então, a participação das mídias sociais no (post-publication) peer review é uma notícia um tanto velha.

O que me chamou a atenção foi a declaração de um dos co-autores do artigo para contra-argumentar Gilad. Relata Woolston: "Michael Snyder, a geneticist at Stanford University in California and co-author of the original paper, stands by his team’s study and its conclusions and says that Gilad broke the 'social norms' of science by initially posting the critique on Twitter." ["Michael Snyder, geneticista da Stanford University na Califórnia e co-autor do artigo original, defende o estudo de sua equipe e suas conclusões e diz que Gilad quebrou as 'normas sociais' da ciência ao postar inicialmente as críticas no Twitter."]

Não é novidade a identificação da existência de 'normas sociais' nas ciências. Os sociólogos das ciências, pelo menos desde Thomas Kuhn (e talvez antes), vêm denunciando a existência dela deste a década de 1960. Porém, notemos, a existência dessas normas é alvo de denúncia: não é esperado a existência de tais normas no fazer científico. O discurso é que o processo é objetivo, só os fatos contam. Ok, há questões éticas: não fazer os sujeitos experimentais sofrerem inutilmente e, no caso de humanos, sem consentimento prévio; não forjar dados, não plagiar... Há questões de validação: prioridade da descoberta para a publicação mais antiga, nome científico só válido com publicação oficial, aceitação de artigos publicados somente em revistas indexadas para fins de avaliação de produção... Mas regras sociais construídas na forma que seja um tabu abertamente reprovável a não conformidade a elas?

Não é usual o caminho da publicação de contestação pelo twitter? Não, não é. Até porque, dentro da tradição multicentenária da comunicação científica, as mídias sociais são uma novidade recentíssima. No entanto, qual é realmente o problema de tal caminho, ainda mais para se levantar a bandeira das 'normas sociais'?

Poderia se dizer que responderia após a publicação formal. Não haveria mal nisso. Contudo, ao criticar via 'normas sociais' está deixando de responder à crítica não pelo que ela realmente é - se as contestações são ou não procedentes, no caso, se a análise feita apoia ou não a conclusão -, mas simplesmente por causa da forma.

'Normas sociais' podem ser levantadas no sentido de tentar explicar a forma como determinados cientistas ou grupos de cientistas agem: compadrio, moda, formalidades, manias, rapapés... não como exatamente 'normas': regras (mais ou menos arbitrárias e não validadas cientificamente, contando apenas com o peso da tradição e da ditadura da maioria) às quais as pessoas *devem* se conformar.

Em geral, quebrar 'normas sociais', em ciências, deveria ser alvo até de admiração, não de censura.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Hiperautoria: crescei e multiplicai

O artigo "Drosophila Muller F Elements Maintain a Distinct Set of Genomic Properties Over 40 Million Years of Evolution" de Wilson Leung et al. 2015 chamou a atenção pelo tamanho do "et al.": com um total de 1.014 coautores. De acordo com a história da seção de notícias da Nature, nos blogues e nas redes sociais foram publicados vários comentários questionando a necessidade e legitimidade de tantos autores relacionados para um mesmo estudo. Como através das redes sociais fiquei sabendo da história publicada na Nature e me vi meio que instado a comentar no blogue, temos uma volta quase completa - faltando apenas um outro artigo multiautoral analisando o episódio.





Segundo o texto na Nature, um dos questionamentos é se realmente é possível acreditar que tanto de gente contribuiu de modo decisivo para a produção do artigo. A Nature lembra que, por exemplo, o artigo sobre a detecção do bóson de Higgs teve quase 3.000 autores. Mas, assim, como outras pessoas a quem chamei atenção para esse detalhe, o texto diz que é "uma tradição" na física artigos com tantos autores. Implicando que, como não o é na pesquisa biológica e biomédica, o inusitado é suspeito.

Acho "tradição" um argumento fraco para ficarmos encucados - e, ainda mais, abismados ou, pior, indignados - com artigos quiloautorados em biologia/genética, enquanto ficamos sussa com artigos quiloautorados em física.

Não considero que biólogos sejam mais suspeitos do que físicos. "Tradição" quer dizer pouca coisa nesse caso. Há tradições corretas e incorretas, aceitáveis e inaceitáveis. E, do modo como a História das Ciências costuma ser narrada, a ênfase é justamente na batalha do conhecimento científico contra o conhecimento tradicional: as "verdades" passadas de geração a geração apenas por se acreditar nelas.

Se essa quantidade de autores é, por si mesma, um indício de atribuição errônea de autoria - um trem da alegria, um bonde da felicidade para incluir quem pouco ou nada fez de verdade, apenas para agradá-los e turbinar seus currículos, não há motivos para se suspeitar de biólogos/geneticistas, mas não de físicos de alta energia.

E acredito que não seja indício por si só. O importante não é apenas o número bruto de autores listados, mas também a complexidade relativa da empreitada. Estudos multicêntricos, multidisciplinares, com técnicas variadas e complexas, com grande número de dados... tendem a exigir um maior número de pessoas diretamente envolvidas.

Tampouco acho muito correto dizer que haja uma *tradição* de hiperautoria em física. A definição operacional de hiperautoria (ou mega-autoria) pode variar (p.e. Knudson 2011 define como 6 ou mais autores; Morris & Goldstein 2007, como 20 ou mais autores). De fato, há uma tendência de haver um maior número médio de autores em trabalhos de física do que em ciências biológicas; mas usando o critério de 1.000 autores ou mais - já que foi esse valor que chamou a atenção para esse estudo de genoma de drosófilas - obtive a lista abaixo (certamente não é exaustiva, mas, suponho, algo representativa).

ano no. de autores área página web
referente
Artigo
2015 5.154 física alta energia @RobertGaristo Physical Review Letters*
2015 1.014 genômica
2012 2.932 física alta energia Nature Physics Letters B
2011 3.179 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.221 física alta energia Science Watch Physics Letters B
2010 3.172 física alta energia Pubmed Physical Review Letters
2010 1.055 física alta energia Vivek Haldar European Physical Journal C
2008 3.101 física alta energia Science Watch Journal of Instrumentation
2007 2.011 física alta energia Science Watch Journal of Physics G
2006 2.517 física alta energia Science Watch Physics Reports
2004 2.459 biomedicina Science Watch Circulation Journal
2001 2.851 genômica Quora Nature

Uma "tradição" de cerca de 10 anos. Uma "tradição" com menos de 1 artigo por ano. Uma "tradição" centrada em uma subárea bem específica: "física de alta energia/partículas" (HEP). Uma tradição que envolve basicamente um projeto: os aceleradores do Cern.

Segundo Cronin (2001), a área da HEP é particularmente rica em parcerias institucionalizadas em função da escala e do montante de investimentos necessários. Com a concentração dos recursos em grandes laboratórios como o Cern e o Fermilab, é preciso uma colaboração distribuída de vários outros centros para lidar com problemas básicos. Envolvendo também o financiamento em vários níveis. Esse arranjo instrumental, operacional, administrativo e científico complexo envolve, então, facilmente centenas de especialistas e pesquisadores. (Note-se que o trabalho é de 2001, quando boa parte desses artigos na ordem de 10^3 autores ainda não havia sido publicada; mas já havia vários com 10^2 autores.)

Isso tende a ocorrer também na pesquisa biomédica/genômica. A diferença é que a comunidade biomédica - particularmente as publicações na área - criaram um sistema para inibir a hiperautoria. Até 2002, o New England Journal of Medicine,  p.e., limitava o número de autores por artigo a 12. E, mesmo tendo levantado a barreira, a revista ainda discute com os autores sempre que acha que o número é excessivo.

Para Cronin, a diferença da abertura da comunidade HEP à hiperautoria e a resistência da comunidade biomédica está na força relativa da socialização e comunicação oral e sistema de valores das áreas. P.e., na HEP, um artigo só é publicado após um intenso escrutínio interno entre os colaboradores e comitês das instituições envolvidas, o pre-print como no arXiv.org é incentivado, tudo é discutido abertamente, deixando pouca margem para fraudes sistemáticas. A pesquisa biomédica, frequentemente envolvendo patentes, tende a ser bem menos transparente, dificultando a avaliação do papel de cada um dos envolvidos na pesquisa.

Então, ao contrário das vozes desconfiadas e preocupadas com a dissolução do sentido da autoria, eu vejo com bons olhos a hiperautoria também no mundo da genética e biomedicina. Salvo a existência de indícios em contrário, menos do que significar atribuição liberal de autoria para quem pouco ou nada vez, tende mais a significar que os autores - e o investigador principal - têm confiança o suficiente para defender os papéis relativos das contribuições individuais.

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Para quem quiser brincar de análise de tendências a multiautorias e hiperautorias Robert Boukhalil, de The Winnower, disponibilizou seu programa para análise de autoria na base de dados Pubmed. Chirstopher King, do Science Watch, fez uma análise usando, claro, a base da Thomson Reuters.

Upideite(15/mai/2015): O André Carvalho, do Ceticismo, também escreveu um texto. Ele, como se percebe pelo tweet acima, tem uma opinião oposta à minha. Além disso, eu também não chamaria o artigo de meia boca. Não é um breakthrough, mas tem uma contribuição original.
*Upideite(15/mai//2015): Via @SibeleFausto.

sábado, 9 de maio de 2015

Padecendo no paraíso 5

Hippocampus barbouriFonte: Wikimedia Commons.
Os singnatídeos (cavalos marinhos, peixes cachimbos, dragões do mar...) são uma família muito peculiar de peixes ósseos que compreende cerca de 300 espécies que vivem no mar, estuários e rios. Todas as espécies conhecidas apresentam uma característica única: a gravidez paterna - os ovos são fertilizados e incubados dentro de uma estrutura no corpo do macho, com a emergência de filhotes vivos. (Wilson & Orr 2011.)

Em várias espécies, ocorre a inversão dos papéis sexuais com a competição entre as fêmeas por machos, que é o sexo que escolhe o parceiro (no caso, a parceira) sexual. Aparentemente a inversão dos papéis correlaciona-se com o padrão de acasalamento: espécies poligâmicas tendem a apresentar inversão, enquanto o padrão sem inversão tende a ocorrer em espécies monogâmicas. (Wilson et al. 2003.)

A estrutura de incubação dos ovos pelos machos parece ter se desenvolvido de modo independente duas vezes ao longo da evolução dos singnatídeos: um grupo com incubação na região abdominal (Gastrophori) e outro com incubação na região caudal (Urophori). Dentro de cada grupo, parece haver uma tendência geral de complexificação da estrutura (embora com exceções): de uma simples região no corpo à qual os ovos são aderidos, mantidos expostos; à uma bolsa para dentro da qual os ovos são transferidos e incubados (Fig. 1). (Stölting & Wilson 2007.)

Figura 1. Evolução de estrutura de incubação em machos de Syngnathidae. Fonte: Stölting & Wilson 2007.

Syngnathus acusFonte: Wikimedia Commons.
A viviparidade dos singnatídeos é conhecida desde pelo menos a Grécia Antiga. Em 350 AEC, Aristóteles descreveu provavelmente o parto de Syngnathus acus, peixe cachimbo muito comum na costa mediterrânea próxima às praias: "Quando o tempo de dar à luz chega, [o peixe cachimbo] explode em dois e a prole é liberada (...) o peixe tem uma diáfise ou sulco sob sua barriga ou abdômen e após a desova pela abertura da diáfise, as metades divididas crescem e se unem novamente. (...) Os jovens peixes juntam-se ao redor de quem lhe gerou (...) porque o peixe libera os filhotes sobre si mesmo; e se alguém toca nos jovens, eles fogem nadando." (Frias-Torres 2004.) Por muito tempo, considerou-se que eram as fêmeas quem davam à luz aos filhotes. Só em 1831, C.U. Ekström descreveria a "falsa barriga" no macho. Mas levaria ainda mais umas quatro décadas até que vários cientistas demonstrassem a transferência de ovos da fêmea para o macho. (Ahnesjö & Craig 2011.)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Racismo no IB/USP? - O que Stephen J. Gould tem a nos dizer?

A propósito do possível caso de racismo no IB/USP, não pretendo aqui fazer pré-julgamentos. Que os devidos canais competentes: sindicância, Ministério Público, Polícia Civil, etc. façam a sua parte para apurar devidamente o ocorrido. E, por óbvio, que se punam os eventuais culpados.

A versão do IB segue na Nota de Esclarecimento publicada. A versão do coletivo Ocupação Preta está em uma postagem do grupo no facebook.

Quanto aos fatos as duas versões - incluindo a do professor de acordo com as reportagens, como a do G1 - parecem essencialmente compatíveis: há uma disciplina de pós-graduação em inglês para aperfeiçoar o domínio do idioma entre os estudantes (visando a uma melhora futura nos índices cienciométricos do instituto e da universidade no âmbito internacional), o professor utilizou como texto base para a aula um artigo editorial publicado na revista Medical Hypothesis em 2008 (uma defesa do argumento de James Watson a respeito da inferioridade intelectiva dos negros em relação aos brancos e asiáticos). Somente com esse conjunto de fatos é difícil apurar que tenha mesmo havido tentativa de incutir uma visão racista durante a aula. É perfeitamente possível, como argumenta o docente e o instituto, que o objetivo fosse analisar um tema polêmico.

Porém, à parte a aparente falta de cuidado devido na abordagem de um tema bastante delicado, a fonte escolhida é altamente inadequada do ponto de vista de sustentação de um debate científico. A Medical Hypothesis foi obrigada pela editora a adotar o peer review em 2010 após publicação de um artigo de Peter Duesberg sobre sua inválida hipótese de que o HIV não causa Aids. Ou seja, o artigo de 2008 não passou nem mesmo pelo processo de revisão pelos pares. Se a disciplina tem como objetivo, ainda que não imediato, de preparar os alunos à submissão de trabalhos em revistas internacionais, usar como modelo um artigo publicado em periódico que não segue os padrões usuais - e, em decorrência disso, não tem a melhor reputação no meio científico - não parece a melhor escolha.

Quanto à validade dos dados para sustentar a discussão. Em março publiquei na revista ComCiência uma resenha do livro "A falsa medida do homem" de Stephen J. Gould a respeito das medidas de inteligência e seu uso na ideologia da inferioridade racial dos negros. Reproduzo trechos abaixo:
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Na segunda edição, Gould ainda mantém um forte ceticismo a respeito da correlação entre inteligência e tamanho cerebral. Na crítica a Gould, Rushton cita estudos com ressonância magnética que mostram a ligação entre volume do cérebro e QI. Deve-se ter em mente, porém, que isso não chega a ser central na argumentação geral de Gould. Por um lado, um de seus questionamentos era exatamente se o QI mediria mesmo a inteligência. De outro, para ele, o problema é a caracterização da inteligência como um pacote “descritível como um único número, capaz de classificar pessoas em uma ordem linear, com base genética e efetivamente imutável”. Na visão de Gould, mesmo que a craniometria (e sua correspondente moderna de medição do volume cerebral por meio de ressonância magnética) e a psicometria (essencialmente os testes de QI) sejam eficazes em medir algo que chamamos de inteligência e que a inteligência seja algo herdável, isso não significa que seja algo imutável. Assim como a inteligência, ele exemplifica, mesmo a miopia sendo uma característica herdável, podemos efetivamente fazer algo para eliminar seus efeitos: usar lentes corretivas. No caso da inteligência, ainda que possua componentes genéticos (como estudos recentes tendem a confirmar; a exemplo do trabalho da equipe de Gail Davies, de 2011), ela pode ser cultivada e melhorada por conta de fatores ambientais: boa alimentação na infância e acesso a uma boa educação.

Gould se voltava justamente contra a conclusão de que, sendo hereditária e imutável, a medição do QI (ou do tamanho craniano) indicava o destino certeiro das potencialidades dos indivíduos. Nesse sentido, sua decisão de não se ater excessivamente a questões factuais de natureza científica – se a inteligência é ou não herdável, se ela pode ou não ser medida por um único índice, o que significa o fator “g” de Spearman – parece justificada. Ao deter-se mais a respeito da ideologia por trás dos fundadores da visão biodeterminista da inteligência e de como ela molda os argumentos pretensamente objetivos, o cerne de obra se mantém de pé mesmo hoje, 34 anos após a primeira edição (19 anos após a segunda). Guido Barbujani, em um artigo de 2013, sobre o trigésimo aniversário de A falsa medida do homem, reconhece a contribuição de Gould (e outros como Richard Lewontin, biólogo evolutivo, e Frank B. Livingstone, bioantropólogo, ambos americanos) em questionar a utilidade de “raça” como um conceito aplicável à espécie humana – quando a diversidade dentro de cada grupo (“raça”) tende a ser maior do que a diversidade entre os grupos.

A declaração do nobelista americano James Watson ao jornal inglês The Times, em 2007, de que os negros são inerentemente menos inteligentes, e a exibição, em 2009, de documentário no canal inglês Channel 4 com cientistas ecoando Watson também nos convidam a revisitar a obra clássica de Gould, ainda que alguns detalhes factuais possam não ter resistido ao teste do tempo.
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Disclêimer(29/abr/2015): Tenho vínculos acadêmicos (formei-me pelo IB/USP e fiz minha pós lá) e afetivos (não se passam 12 anos - mesmo com interregno - impunes em um mesmo local).

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Um novo programa de divulgação científica no ar

Segurem o fôlego.

Salvo apocalipse zumbi - ou se Silvio Santos decidir colocar Tom & Jerry no lugar - estreia hoje, 17/abr/2015, na web rádio da Unicamp, o programa Oxigênio (desculpem, não tenho o horário confirmado - mas como é na web, não haverá como perder: o programa ficará disponível online para ser ouvido quando você quiser).

A atração terá cerca de 30 minutos de duração com formato jornalístico: reportagens, entrevistas, notas curtas e serviços como resenhas de livros e peças teatrais, e uma agenda de eventos científicos e de divulgação.

Produzido em conjunto pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo - o Labjor - e a RTV Unicamp, a produção o programa é coordenadoa pela Profa. Dra. Simone Pallone, do Labjor. A equipe conta ainda com Patrícia Santos, Ana Paula Zaguetto, Carolina Medeiros, Janaína Quitério, Kátia Kishi, Tatiana Venâncio, Jeverson Barbieri e Victoria Monti. (Há boatos de que esta besta que vos escreve também contribui com alguma coisa.)

Ouçam, curtam (sim, já tem página no facebook), comentem (na página ou enviem email: oxigenio.noticias[arroba]gmail[ponto]com). Sim, vale criticar. (Sim, nesse caso vamos colocar no caderninho negro pro Papai Natal colocar carvão na sua meia.)

Pronto, podem respirar.

Upideite(17/abr/2015): Já está no ar a primeira edição de Oxigênio.

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