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segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Apresentação: "Que história é essa de storytelling?"

Apresentação para a disciplina de pós-graduação DSO 803 Seminário temático, do Prof. Dr. Marden Campos, em 23 de outubro de 2019.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Desmatamento na Amazônia aumentou 29% em 2019. O que isso quer dizer?

Pelo twitter, perguntaram o quanto se pode atribuir os números divulgados pelo programa Prodes de 9762 km² de desmatamento da Amazônia Legal entre os períodos de agosto de 2018 a julho de 2019 às ações e omissões do novo governo.

Uma coisa que podemos notar é que, a partir de 2012, provavelmente não por coincidência, ano da aprovação da modificação do Código Florestal que diminuiu a proteção sobre a cobertura vegetal nativa, houve um reversão na tendência até então de diminuição das taxas de desmatamento. (Fig. 1.)

Figura 1. Variação na tendência do desmatamento anual na Amazônia Legal brasileira. Dados do Prodes/Inpe.

Então, muito do aumento atual pode ser creditado a uma tendência recente de crescimento das taxas de desmatamento. Porém, a última taxa divulgada pelo Inpe para a temporada de agosto de 2018 a julho de 2019, está acima do esperado pelo ritmo do crescimento de 2012 até 2017. (Fig. 2)

Figura 2. Tendência recente da variação na taxa de desmatamento da Amazônia Legal brasileira. Dados do Prodes/Inpe.

Dois pontos parecem estar mais distantes da curva - ambos bem acima. O ano de 2016 (temporada 2015/16) e o ano de 2019 (temporada 2018/19). Em 2016, com apoio da bancada ruralista, o governo da presidenta Dilma Rousseff foi derrubado. Em 2018 tivemos uma eleição presidencial que resultou na vitória de um candidato que apresentava um discurso contra uma suposta indústria ambiental da multa, com promessas de perdões das penas pecuniárias de infrações por desmatamento, e cujo governo, assumindo em 2019, passou a desmontar as políticas e os órgãos de fiscalização e controle ambientais, demitir e perseguir funcionários...

Mesmo se considerarmos o desmatamento apenas durante o ano de 2019 - que corresponde, usando como proxy a distribuição das taxas do sistema Deter, a cerca de 56% do total do desmatamento da temporada (Fig. 3) - teríamos 667 km² (acumulados de janeiro a julho deste ano) acima do esperado, que seria de 8.570 km², uma alta de cerca de 7,8% pelo menos que podemos atribuir ao que ocorreu durante o presente ano - incluindo as ações do governo federal de fragilização das políticas de proteção ambiental**. Considerando toda a temporada, o aumento foi de 13,8% acima da tendência (1.190 km²).

Figura 3. Variação mensal do desmatamento detectado pelo sistema Deter/Inpe.*

*Upideite(22.nov.2019): A imagem anterior não mostrava os valores da temporada 2019/20.

**Upideite(24.nov.2019): A Climate Policy Iniciative, grupo que produz análises e atua junto a governos e políticos para orientar a constituição de políticas públicas de uso de terra e energia, produziu um relatório que mostra como a estratégia combinada de monitoramento remoto com ação local por agentes públicos é vital no combate ao desmatamento na Amazônia.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Amerek, um cutucão em seu cérebro com novo Curso de Especialização em Comunicação Pública da Ciência da UFMG

A Diretoria de Divulgação Científica e a Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG abriram um novo curso de especialização em Comunicação Pública da Ciência.

Com duração prevista de 18 meses (mas que pode ser concluído em até 24 meses), o curso pretende formar profissionais dedicados à democratização das ciências. Mais do que meramente levar conhecimento das ciências para o público, na visão da coordenação da especialização, a divulgação científica deve envolver a população a participar dos processos de troca. Daí também a escolha do nome fantasia de "amerek", palavra no idioma dos krenak, que significa algo como "cutucão", "beliscão" - referência um contato social próximo e interação pessoa a pessoa. No vídeo abaixo, o Prof. Dr. Yurij Castelfranchi, coordenador do curso explica a filosofia e a visão que norteiam o projeto, que conta com o apoio do Instituto Serrapilheira:



As inscrições estão abertas, mas vão só até o dia 25 de outubro. Podem se inscrever pessoas com formação superior em qualquer área interessadas na comunicação da ciência com o público.

As aulas serão principalmente às 2as e 3as de manhã e à tarde em modo presencial na câmpus da Pampulha da UFMG. (Algumas disciplinas eletivas poderão ser ofertadas à noite e em outros dias e poderão contar com momentos à distância.)

Mais informações podem ser acessadas nas mídias sociais do Amerek:
Facebook; twitter; instragram e linkedin.

E também pelos telefones:
DDC/UFMG: (31) 3409-4427 / 4428

e email:
ddc-secretaria@proex.ufmg.br.

Com exceção de mim, o corpo docente é altamente capacitado com experiência em pesquisa em DC e/ou na prática.

domingo, 13 de outubro de 2019

Barraco científico: dos recentes bate-bocas públicos entre cientistas

Estas últimas semanas foram bem movimentadas e ilustrativas das disputadas que há em várias áreas das ciências.

Houve a polêmica em torno do artigo que detectou introgressão de genes de uma linhagem modificada em laboratório em populações naturais de mosquito da dengue; e outra sobre resultados anunciados de um estudo a respeito de efeitos biológicos dos agrotóxicos; e uma discussão aberta entre físicos a respeito da teoria das cordas e seu status científico*.

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Transferência de genes de mosquitos modificados para populações naturais

Com o disclêimer de minha ligação com as partes envolvidas a respeito do estudo do mosquito transgênico - fui orientado de mestrado de um dos autores do estudo (e que defende o artigo na íntegra), pelo que pude acompanhar da polêmica (tentei entrevistar tanto a Oxitec, quanto os autores do artigo que concordam e que discordam da versão publicada do próprio estudo, mas não consegui respostas), minha conclusão é que a discussão gira a respeito de um detalhe que nem afeta tanto - salvo a amplificação criada por interpretações equivocadas em certos veículos.

Os detalhes, além do artigo original podem ser lidos em:
.Bill Hathaway/YaleNews (10.set.2019): "Transgenic mosquitoes pass on genes to native species".
.Oxitec (18.set.2019): "Oxitec responds to article entitled 'Transgenic Aedes aegypti mosquitoes transfer genes into a natural population".
.Cesar Baima/Revista Época (21.set.2019): "A 'fake news' do 'supermosquito' transgênico que está gerando pânico no Brasil".
.Natália Pasternak/Revista Questão de Ciência (24.set.2019): "Autora repudia artigo sobre mosquito transgênico".
.Bernado Esteves/Revista Piauí (02.out.2019): "O supermosquito que nunca existiu".

Todos: a Oxitec, os autores do estudo que querem alteração ou retirada da publicação e os autores que defendem como está - concordam com o principal: a metodologia e os dados do estudo. Genes pertencentes à linhagem criada em laboratório - com a introdução de genes que fazem com que os machos não deixem descendentes viáveis - foram encontrados na população selvagem depois que a linhagem modificada foi liberada em massa para reduzir a população selvagem. Não os genes modificados que causam a inviabilidade da descendência, mas os genes que constituem o genoma das populações cruzadas para produzir a linhagem modificada.

A disputa está em algumas afirmações mais pontuais feitas no artigo:

*"The three populations forming the tri-hybrid population now in Jacobina (Cuba/Mexico/Brazil) are genetically quite distinct (Extended Data Fig. E2), very likely resulting in a more robust population than the pre-release population due to hybrid vigor."
["As três populações que formam a população agora tri-híbrida de Jacobina (Cuba/México/Brasil) são geneticamente bem distintas, muito provavelmente resultará em uma população mais robusta do que a população anterior à liberação em função do vigor híbrido."]

A Oxitec rebateu dizendo: "The data published in this paper and in the entire body of peer-reviewed literature do not support this hypothesis." ["Os dados publicados no artigo e em todo o corpo de literautra revisada pelos pares não sustenta essa hipótese."]

É bem verdade que no artigo é detectada uma tendência a diminuir o número de indivíduos com os genes da população modificada e nele é dito que: "This observation also implies that introgressed individuals may be at a selective disadvantage causing their apparent decrease after release ceased, although much more data would be needed to confirm this." ["Essa observação também implica que os indíviduos introgredidos podem estar em desvantagem seletiva causando sua aparente diminuição após a cessação da liberação, embora muito mais dados sejam necessários para confirmar isso."] O que é um tanto contraditório com o "muito provável" vigor híbrido.

Mas na literatura há, sim, precedentes de vigor híbrido (híbridos com maior capacidade de sobrevivência) em mosquitos (no caso, em Anopheles coluzzii). Descendentes de cruzamentos de populações distintas (ou os heterozigotos) que apresentam características de maior robustez e/ou capacidade reprodutiva do que os indivíduos das populações originais são um fenômeno bem conhecido na literatura. Não é, nem de longe, um resultado universal, mas é bastante frequente - ainda que os mecanismos ainda não estejam consensualmente esclarecidos (e.g. Comings & MacMurray 2000; Groszmann et al. 2013) .

Chamar de "muito provável" pode ser um exagero. Mas também dizer que a "não há apoio em toda a literatura" também é. É uma possibilidade, difícil de calcular, mas bem longe de zero. É algo a se olhar com atenção.

*"Also, introgression may introduce other relevant genes such as for insecticide resistance." ["Além disso, a introgressão pode introduzir outros genes relevantes tais como os que conferem resistência a inseticida."]

A Oxitec observa: "To the contrary, Oxitec has demonstrated that OX513A is not resistant to commonly used insecticides." ["Ao contrário, a Oxitec já demonstrou que o OX513A não é resistente a inseticidas comumente utilizados"]

É uma observação relevante, mas é preciso verificar a possibilidade de recombinação genética gerando um novo alelo ou uma nova combinação de alelos que possam conferir tal resistência. Novamente, não há um cálculo fácil dessa probabilidade; mas é também coisa para se acompanhar.

*"These results demonstrate the importance of having in place a genetic monitoring program during releases of transgenic organisms to detect un-anticipated consequences." ["Estes resultados demonstram a importância de se ter um programa de monitoramento genético durante as liberações de organismos transgênicos para se detectar consequências não-antecipadas."]

Ninguém contesta a necessidade de se manter um programa de monitoramento. Alguns autores contestam de que a introgressão seja uma consequência não-antecipada - já que, em laboratório, cerca de 3 a 4% dos machos modificados eram capazes de se reproduzir. Mas Powell, um dos autores que defendem o artigo, salienta que os descendentes se mostram pouco viáveis no laboratório e, por isso, imaginava-se que, em campo, não haveria uma transferência significativa de genes.
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Uma observação feita por críticos é que pelo menos alguns autores fazem parte de uma empresa que agora é concorrente da Oxitec Brasil - a Moscamed. No entanto, não anotaram nada no campo de declaração de interesses conflitantes. Isso deveria ter sido deixado claro.

Mas uma coisa que não ficou claro é por que os autores que discordam a versão publicada do artigo não leram antes o texto final. Não consegui informações de se foi distribuído ou não para os autores - dos autores que concordam com o artigo, apenas um se manifestou, e disse haver lido. Apenas uma pessoa que não concorda com o artigo parece haver se manifestado publicamente até agora e disse não haver lido nem recebido.

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As outras duas celeumas não acompanhei tão de perto e não tenho uma opinião formada - apenas em alguns pontos.

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Efeitos dos agrotóxicos
.Roberta Jansen/Estadão (04.ago.2019): "Pesquisa indica que não há dose segura do agrotóxico"
.Cristiano Zaia/Valor (06.ago.2019): "Anvisa e Agricultura contestam pesquisa do Butantã sobre agrotóxicos"
.Marina Simões/A Pública (30.set.2019): "Pesquisadora é perseguida após comprovar que não existe dose segura de agrotóxicos"
.Natalia Pasternak/Revista Questão de Ciência (04.out.2019): "Sim, existe 'concentração segura' de agrotóxicos"
.Mônica Lopes Ferreira (5.out.2019): Pronunciamento!

Punição/persecução
Minhas observações. Pelo que pude levantar a punição à pesquisadora deveu-se ao fato de ela não haver submetido o projeto ao conselho de ética do instituto - o que é necessário por se utilizar animais nos experimentos. Não falei ainda com a pesquisadora a respeito.

Dose segura.
Há uma certa briga na literatura acerca da definição de dose segura (e.g. Hrudey & Krewski 1995, Polkey et al. 1995Fryer & McLean 2011,  Moss 2013). Existem críticas a modelos chamados de lineares sem limiar - neles, as concentrações não nulas de substâncias terão efeitos (benéficos e maléficos) em qualquer dose (de modo proporcional). Pode-se argumentar, com razão, que, em muitos casos, em concentrações suficientemente pequenas os efeitos deletérios serão também muito pequenos e poderão ser aceitáveis (em níveis determinados por agências reguladoras - direta ou indiretamente envolvendo a sociedade para dizer o que é aceitável). Em outros casos, pode haver concentração abaixo da qual não é observado nenhum efeito. De qualquer maneira, é usada na literatura - ainda que de modo minoritário - a expressão "sem dose segura" ("no safe dose") quando qualquer nível não nulo causa algum efeito ruim, por mais baixo que seja.

A minha proposta, levando em conta a análise de benefício/custo, é comparar a dose máxima de aplicação em que não ocorre nenhum efeito grave e a dose mínima de aplicação para que ocorra algum efeito benéfico significativo. Se a dose para efeito benéfico for igual ou maior do que a dose sem efeito grave, podemos considerar como "sem dose segura". Se a dose para o efeito benéfico for menor do que a dose sem efeito grave, a "dose segura" é o intervalo entre os dois.

Se é um ou outro caso, seria preciso verificar o que a pesquisadora encontrou. Que o relatório seja liberado logo para uma análise.

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As discordâncias são importantes para as ciências - elas ajudam a trazer pontos de vistas não vislumbrados anteriormente, o que pode levar a correções de falhas ou ao aperfeiçoamento de medidas e métodos -, mas essas parecem ter extrapolado um pouco no tom. No caso dos mosquitos transgênicos talvez nem todos os detalhes relevantes estejam abertos para o público para se entender por que diferenças tão pequenas de interpretação parecem tão vitais para as partes envolvidas. Ok, da Oxitec como empresa que fornece a tecnologia talvez seja mais fácil de se compreender. No caso do estudo sobre agrotóxicos também informações relevantes estão faltando do pouco que consegui apurar e acompanhar.

Não são polêmicas que a imprensa foi buscar dos recônditos das discussões acadêmicas. As próprias partes envolvidas vieram a público para externar seus pontos de vista, mas, na hora de um esclarecimento maior a respeito de detalhes importantes, parecem recuar.

Não é tanto o dissenso público que pode causar danos à ciência e eventualmente à sua reputação junto ao público, mas mais o comportamento das partes - o tom usado e a falta de transparência em muitos casos.

*Upideite(13.out.2019): Na verdade, a briga dos físicos é mais velha, de 2016. Porém, houve uma retomada recentemente.

domingo, 15 de setembro de 2019

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 35

Anotações do trabalho de Krause & Rucker 2019 sobre o efeito do uso de narrativas na persuasão das pessoas através de fatos.

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Krause, RJ & Rucker, DD. 2019. Strategic storytelling: When narratives help versus hurt the persuasive power of facts. Personality and Social Psychology Bulletin doi: 10.1177/0146167219853845.

*Experimento 1

Metodologia
>Design e participantes: entre-sujeitos 2 x 2 (2 apresentações: apenas fatos vs fatos dentro de uma história; 2 qualidades dos fatos: forte vs fraco).
397 (de 403 iniciais, após eliminação por checagem de atenção) adultos residentes nos EUA, recrutados mediante pagamento no serviço Mechanical Turk. Idade média = 35,9 anos; 44,1% mulheres.
>Procedimento: Todos os participantes inicialmente foram apresentados a instruções (os participantes da condição de "apenas fatos" foram instruídos a lerem com muita atenção).
.Condição de "apenas fatos": lista de atributos de um celular fictício da marca Moonstone. Os fatos foram criados para variar em sua qualidade persuasiva: p.e. "O aparelho resiste a uma queda de até 30 pés" (forte) x "O aparelho resiste a uma queda de até 3 pés" (fraco) (pré-teste com 79 sujeitos confirmou a força relativa de convencimento das diferentes versões do fato).
.Condição de "história": fatos inseridos em uma história; participantes instruídos a ler e mergulha na história.
.Indicação de reação à marca Moonstone: escala diferencial semântica de 3 itens de 1 ('bad/strongly dislike/unfavorable' ['ruim/desgosta fortemente/desfavorável']) a 9 ('good/strongly like/favorable' ['bom/gosta fortemente/favorável']).
.Checagem de manipulação: 'To what extent did the text you read in this survey seem like a story?' ['O quanto o texto que você leu nesta pesquisa se parece com uma história?'].
.Checagem de atenção: pergunta sobre o nome da marca.
.Questões básica de demografia dos respondentes.
.Questões não-relacionadas de um projeto diferente.
>Materiais de estímulo:
.Condição de "apenas fatos": lista de fatos - fortes ou fracos - sobre o produto.
.Condição de "história": duas páginas de um homem (Dan) e uma mulher (Amelia) escalando uma montanha; conforme escalam, Dan descreve seu amor intenso por Amelia; uma hora Amelia despenca e se machuca muito; Dan deve pedir ajuda através do celular de Amelia.

Resultados
>Checagem de manipulação:
.ANOVA de dois fatores;
.Se parece mais com uma história:
+condição de "história" (M=7,81; SD=1,60) > condição de "apenas fatos" (M=3,41; SD=2,25); F(1, 393)=501,5; p<0,001; η2p =0,561;
+condição de "fatos fortes" (M=5,54; SD=2,88) = condição de "fatos fracos" (M=5,56; SD=3,01); F(1, 393)=0,36; p=0,550; η2p = 0,001;
.Apresentação x qualidade: F(1, 393)=6,06; p=0,014; η2p = 0,015.
>Atitude em relação ao produto:
.escala diferencial semântica de 3 itens: α = 0,98 - média como uma única escala de atitude;
.ANOVA de dois fatores;
.Condição de "fatos dentro de uma história" (M=6,83; SD=2,09) > condição de "apenas fatos" (M=5,80; SD=2,38); F(1, 393)=30,71; p<0,001; η2p =0,72;
.Condição de "fatos fortes" (M=7,20; SD=1,76) > condição de "fatos fracos" (M=5,44; SD=2,43); F(1, 393)=85,90; p<0,001; η2p =0,179;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 393)=86,16; p<0,001; η2p =0,180;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=6,83; SD=2,06) > "apenas fatos" (M=4,04; SD=1,92); F(1, 393)=112,64; p<0,001; η2p =0,223, [2,27; 3,30];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=6,82; SD=2,14) < "apenas fatos" (M=7,53; SD=1,27); F(1, 393)=6,83; p=0,009; η2p =0,17, [-1,23; -0,174].

*Experimento 2

Metodologia
>Design e participantes: entre-sujeitos 2 x 2 (2 apresentações: apenas fatos vs fatos dentro de uma história; 2 qualidades dos fatos: forte vs fraco).
389 (de 405 iniciais, após eliminação por checagem de atenção) adultos residentes nos EUA, recrutados mediante pagamento no serviço Mechanical Turk. Idade média = 36,2 anos; 51,7% mulheres.
.Exposição a condições ou de "apenas fatos" ou de "fatos dentro de uma história" com os mesmos fatos e história sobre o celular Moonstone do experimento 1.
.Questões sobre intenção: 'If you were in the market for a new phone, how likely would you be to try using the Moonstone cell phone?' ['Se você estivesse numa loja para comprar um celular novo, quão provável seria de você experimentar o celular Moonstone?'] (1='very unlikely' ['muito improvável'] a 9='very likely' ['muito provavelmente']) e 'How willing would you be to try using the Moonstone cell phone next time you need a phone?' ['O quanto você desejaria experimentar usar o celular Moonstone na próxima vez em que você precisar de um celular?'] (1=´very unwilling' ['não desejaria nem um pouco'] a 9='very willing' ['desejaria muito']);
.10 caixas/células em que os participantes deveriam expressar os pensamentos que tiveram durante as tarefas: no máximo 1 pensamento em cada caixa e, no mínimo, 3 pensamentos diferentes no total (medida de valência e relevância dos pensamentos, avaliação da contra-argumentação aos fatos e histórias);
.Questões de checagem de atenção e de demografia.

Pensamentos relacionados à messagem
.Relevância: Pensamentos relativos a qualquer dos fatos da mensagem='relevante', outros pensamentos='irrelevante';
.Valência: 'positiva', 'negativa', 'neutra' de acordo com a favorabilidade em relação ao produto ou ao estímulo;
.Dois codificadores de modo independente e cegos em relação às condições analisaram os pensamentos: concordância de 85,8% em relação à relevância (kappa de Cohen=0,7) e de 80,2% em relação à valência (kappa de Cohen=0,7).

Resultados
>Checagem de manipulação:
.ANOVA de dois fatores;
.Se parece mais com uma história:
+condição de "história" (M=7,76; SD=1,55) > condição de "apenas fatos" (M=3,00; SD=2,11); F(1, 382)=632,99; p<0,001; η2p =0,624;
+condição de "fatos fortes" (M=5,25; SD=3,02) = condição de "fatos fracos" (M=5,46; SD=3,02); F(1, 382)=0,04; p=0,846; η2p = 0,000;
.Apresentação x qualidade: F(1, 382)=0,910; p=0,341; η2p = 0,002.
>Intenção de uso:
.itens de intenção de uso altamente correlacionados: r = 0,93 (p<0,001) - média como uma única escala de intenção;
.ANOVA de dois fatores;
.Condição de "fatos dentro de uma história" (M=6,16; SD=2,26) > condição de "apenas fatos" (M=5,22; SD=2,87); F(1, 385)=22,81; p<0,001; η2p =0,056;
.Condição de "fatos fortes" (M=6,99; SD=1,92) > condição de "fatos fracos" (M=4,43; SD=2,60); F(1, 385)=150,81; p<0,001; η2p =0,281;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 385)=65,73; p<0,001; η2p =0,146;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=5,75; SD=2,31) > "apenas fatos" (M=3,04; SD=2,13); F(1, 385)=84,56; p<0,001; η2p =0,180, [2,13; 3,28];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=6,62; SD=2,12) < "apenas fatos" (M=7,32; SD=1,66); F(1, 385)=5,45; p=0,020; η2p =0,14, [-1,29; -0,11].


>Pensamentos relacionados à mensagem:
*% de pensamentos negativos;
.ANOVA de dois fatores;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 383)=87,23; p<0,001; η2p =0,185;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=1,13%; SD=5,38%) < "apenas fatos" (M=42,3%; SD=31,2%); F(1, 383)=254,97; p<0,001; η2p =0,400, [-42,6%; -36,1%];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=1,74%; SD=8,45%) < "apenas fatos" (M=8,53%; SD=15,6%); F(1, 383)=6,68; p=0,010; η2p =0,017, [-11,9%; -1,6%].
*% de pensamentos positivos;
.ANOVA de dois fatores;
.Interação "apresentação" x "qualidade": F(1, 383)=27,68; p<0,001; η2p =0,067;
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (M=0,4%; SD=2,8%) < "apenas fatos" (M=8,3%; SD=16,7%); F(1, 383)=9,80; p=0,002; η2p =0,025, [-12,9%; -2,9%];
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (M=5,2%; SD=12,5%) < "apenas fatos" (M=32,1%; SD=28,4%); F(1, 383)=109,04; p<0,001; η2p =0,222, [-32,0%; -21,9%].
>Mediação moderada:
.PROCESS madro (modelo 8) SPSS com 5.000 amostras para bootstrapping: apresentação (variável independente), qualidade (variável moderadora), intenção de uso (variável dependente), % pensamentos positivos e negativos (variáveis mediadoras);
.Padronização das variáveis em função das escalas de medida distintas;
.Interação "apresentação" x "qualidade":
+"% pensamentos positivos": B=-0,88; SE=0,17; t=-5,26; p<0,001; IC95%: [-1,21; -0,55];
+"% pensamentos negativos": B=1,39; SE=015; t=9,34; p<0,001; IC95%: [1,10; 1,69];
."% pensamentos negativos" x "intenção de uso": B=-0,28; SE=0,05; t=-5,32; p<0,001; IC95%:[-0,38; -0,18];
+índice de mediação moderada: B=-0,39; SDE=0,08; IC95%: [-0,54; -0,24];
."% pensamentos positivos (após controle pela % pensamentos negativos)" x "intenção de uso": B=0,17; SE=0,05; t=3,68; p<0,001; IC95%: [0,08; 0,26];
+índice de mediação moderada: B=-0,15; SE=0,04; IC95%: [-0,24; -0,08].

Experimento 3

Metodologia
>Design e participantes: entre-sujeitos 2 x 2 (2 apresentações: apenas fatos vs fatos dentro de uma história; 2 qualidades dos fatos: forte vs fraco).
291 (de 293 iniciais, após eliminação por checagem de atenção) indivíduos de uma grande universidade do Meio Oeste americano e da comunidade ao redor atraídos para um laboratório comportamental mediante recompensa por pagamento. Idade média = 21,1 anos; 63,2% mulheres.
>Procedimento: similar aos experimentos anteriores, mas com a troca de produto (e fatos e história relacionados): remédio contra gripe "TruFlu".
>Medida dependente: Se os participantes gostariam de fornecer email para receberem notícias sobre a disponibilidade do "TruFlu" para compra ("Sim" ou "Não").
>Checagem de manipulação como nos experimentos 1 e 2, e checagem de atenção e perguntas de demografia.

Resultados
>Checagem de manipulação:
.ANOVA de dois fatores;
.Se parece mais com uma história:
+condição de "história" (M=7,46; SD=1,75) > condição de "apenas fatos" (M=1,56; SD=1,25); F(1, 286)=1084,05; p<0,001; η2p =0,791;
+condição de "fatos fortes" (M=4,59; SD=3,26) = condição de "fatos fracos" (M=4,50; SD=3,39); F(1, 286)=0,09; p=0,770; η2p = 0,000;
.Apresentação x qualidade: F(1, 286)=1,55; p=0,214; η2p = 0,005.
>Escolha de fornecer email: 18,2% "sim".
."fatos fortes" (25,7%) > "fatos fracos" (10,9%): z=3,56; p<0,001; IC95%: [0,79; 2,73];
."apenas fatos" (21,0%) = "fatos dentro de uma história" (15,5%): z=1,02; p=0,307; IC95%: [-0,51; 1,63];
.Interação "apresentação" x "qualidade": z=-2,16; p=0,031; IC95%: [-2,77; -0,13];
+"fatos fracos": "fatos dentro de uma história" (13,5%) > "apenas fatos" (8,2%): χ2 =1,04; p=0,307;
+"fatos fortes": "fatos dentro de uma história" (17,6%) < "apenas fatos" (34,3%): χ2 =5,11; p=0,024.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

"A torre de marfim é indefensável quando suas muralhas são assaltadas." Um pequeno teste

Teste.

Leia atentamente o excerto abaixo:
"Os ataques incipientes e reais à integridade da ciência tem levado os cientistas a reconhecerem sua dependência de certos tipos de estrutura social. Manifestos e declarações de associações científicas são dedicados às relações entre a ciência e a sociedade. Uma instituição que sofre ataques tem que examinar seus fundamentos, revisar seus objetivos, buscar sua explicação racional. As crises convidam à autocrítica. Agora que tem que enfrentar ameaças ao seu modo de vida, os intelectuais foram lançados a um estado de aguda conscientização: consciência da própria personalidade como elemento integrante da sociedade, e das obrigações e interesses correspondentes. A torre de marfim é indefensável quando suas muralhas são assaltadas. Depois de prolongado período de relativa segurança, durante o qual o culto à ciência e a difusão dos conhecimentos tinham chegado a uma posição de destaque, senão de primeiro plano, na escala de valores culturais, os cientistas se vêem obrigados a justificar os caminhos da ciência para os homens. Assim eles fecharam o círculo, levando-o de volta ao ponto e momento em que a ciência reapareceu no mundo moderno. Três séculos atrás, quando a instituição da ciência pouca justificação podia apresentar para conseguir o apoio da sociedade, os filósofos naturais eram levados assim mesmo a justificar a ciência como um meio para fins culturalmente válidos de utilidade econômica ou de glorificação de Deus. O cultivo da ciência não era então um valor evidente por si mesmo. Mas, com a interminável corrente de êxitos obtidos pela ciência, o instrumental se transformou em final, os meios se transformaram em fins. Assim fortalecido, o cientista chegou a considerar-se independente da sociedade e a encarar a ciência como empresa que se justifica por si mesma e que 'está' na sociedade, mas não 'faz parte' dela. Era necessário que se desse um ataque frontal contra a autonomia da ciência, para transformar esse isolacionismo otimista em participação realista do conflito revolucionário das culturas. A consequência dessa associação leva a clarificar e reafirmar o 'ethos' da ciência moderna."

Qual o autor e época a que se refere o trecho acima?

a. Robert Merton. 1942.
b. Thomas Kuhn. 1962.
c. Bruno Latour. 1979.
d. Bruno Latour. 2018.

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Resposta:
a. Robert Merton, 1942 (pp: 651-2; Merton, R. 1949. "Sociologia - Teoria e Estrutura").

É uma sensação bizarra de dia da marmota que um texto de quase 80 anos atrás possa se encaixar à perfeição nos dias atuais. E, mais do que isso, possa descrever diversos períodos intermediários. O mesmo diagnóstico de encastelamento e distanciamento do restante da população, e o mesmo receituário da necessidade da reaproximação. Será que desta vez vai? Talvez seja a última chance, dados os desmontes - e não apenas ataques verbais à autoridade cultural e epistemológica da ciência, mas a desestruturação, no nosso subcontexto, de todo o Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia por asfixia financeira com os cortes e o aparelhamento.

sábado, 31 de agosto de 2019

Pequeno diretório de minicursos em vídeos de DC

Abaixo uma breve compilação de vídeos de cursos e aulas sobre divulgação científica.

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Divulgação Científica em Novas Mídias (Atila Iamarino):
(em progressão: novos vídeo serão linkados futuramente)

Talking Science (Greg Foot - inglês)

Divulgação Científica na Internet (LabHotta - Carlos Hotta)

Becoming the Next Bill Nye: Writing and Hosting the Educational Show (MIT - Biological Engineering)

sábado, 20 de julho de 2019

Da Terra à Lua - e de volta à Terra (e de volta à Lua?): 50 anos depois.

Cena de "Viagem à Lua" de  Georges Méliès, 1902. Fonte: Wikimedia Commons.

Em 1865, o escritor francês, Jules Verne, lança seu "Da Terra à Lua", influente obra de ficção científica em que narra a conquista do satélite natural de nosso planeta através de um projeto balístico. (Incidentalmente, esse modo de viagem é impraticável, posto que exige aceleração acima do que o corpo humano é capaz de suportar.)

Pouco mais de 100 anos depois, às 17h17 (horá de Brasília) do dia 20 de julho de 1969, o módulo lunar Eagle, da missão Apollo 11, pousaria num canto do Mar da Tranquilidade, uma planície formada há bilhões de anos por derramamento de lava e coberta por fragmentos de rocha algo similar a areia grossa e cascalho, o regolito lunar, resultante dos inúmeros impactos de meteoritos e partículas solares e interestelares contra a superfície da Lua. Seis horas mais tarde, às 23h56, o astronauta americano Neil Armstrong se tornaria a primeira pessoa a pisar em outro corpo celeste além de nosso próprio mundo.

Fotografia do local do pouso da missão Apollo 11, tirada em 2012 pelo Lunar Reconnaissance Orbiter. LM: módulo lunar; LRRR: refletor para medição de distância lunar por laser; PSEP: pacote de experimento sismológico passivo Fonte: Wikimedia Commons.
Depois do primeiro artefato lançado ao espaço em órbita terrestre: o satélite artificial Sputnik 1, em 4.out.1957; o primeiro ser vivo lançado ao espaço em órbita terrestre: a cadela Laika, 3.nov.1957; o primeiro homem - e ser humano - lançado ao espaço em órbita terrestre: o cosmonauta Yuri Gagarin, 12.abr.1961; e a primeira mulher lançada ao espaço em órbita terrestre: a cosmonauta Valentina Tereshkova, 16.jun.1963- todos pioneirismos que couberam à União Soviética, o grande adversário dos EUA durante a Guerra Fria -, os americanos ultrapassaram os soviético na corrida à Lua, o próximo objetivo natural da chamada Corrida Espacial. No total 12 seres humanos, todos homens e todos americanos, pisaram na Lua - todos pelas missões Apollo, sendo a última visita a 11.dez.1972 com a Apollo 17. Caras demais, as missões tripuladas foram deixadas de lado - inclusive para o objetivo seguinte, Marte - por décadas. Vezes sem conta, desde então sempre ressurge a conversa de retomada das missões com pessoas a bordo para além da órbita da Terra. Atualmente, a China se mostra interessada em enviar seu primeiro taikonauta para o nosso satélite. E, claro, também a Nasa realiza planos para voltar à Lua, desta vez, incluindo mulheres: o programa se chama Artemis, deusa da Lua e gêmea de Apolo.

Desta vez, o interesse é menos político-militar e esportivo, e mais científico e econômico. A longo prazo, a ideia é estabelecer uma base lunar com presença permanente de humanos; permitiria o lançamento de sondas e talvez missões tripuladas a Marte com mais facilidade; e a mineração lunar permitiria a obtenção de recursos valiosos: água (há água na forma de gelo no fundo de crateras nos polos - além de abastecer as bases permanentes, poderiam fornecer hidrogênio para propulsão de foguetes lançados do satélite), hélio-3 (que permitiria a exploração da fusão nuclear - assim que a tecnologia se tornar viável) e terras raras (elementos metálicos importantes para a indústria eletrônica).

O feito de Michael Collins (que permaneceu no módulo de comando em órbita, sem pisar na Lua), "Buzz" Aldrin e Neil Armstrong - e centenas de técnicos, engenheiros e outros funcionários da agência espacial americana - há meio século legou não apenas muito da miniaturização eletrônica e outras tecnologias de amplo uso e frases de efeito inesquecíveis ("A Águia pousou", "Um passo pequeno para o Homem, um salto gigantesco para a Humanidade", "Eu levantei meu dedão e fechei um olho, e meu dedão cobriu totalmente a Terra. Eu não me senti um gigante. Me senti muito, muito pequeno.", entre outras.). Inserido em um contexto político complexo (como sempre estamos, afinal) e dentro de toda uma série de realizações (às vezes interrompidas tragicamente, com desastres, explosões e mortes, sempre nos lembrando quão perigosa é a viagem espacial em todas as suas etapas) anteriores e posteriores, a conquista da Lua ainda inspira o avanço do conhecimento e do que, com trabalho dedicado e coordenado, a Humanidade é capaz de alcançar.

Localmente é de fazer notar o contraste com o cenário atual de desinvestimento em ciência e educação no país, globalmente é de fazer refletir se seria possível congregar tais esforços em escala planetária para deter o pior cenário da crise climática global.

Abaixo, uma seleção de peças produzidas pela DCsfera lusófona sobre a efeméride:
*SciCast. 12.jul.2019: A Conquista da Lua - Parte I; Parte II e Parte III. (áudios)
*Ponto em Comum. 15.jul.2019: Por que PARAMOS de ir à LUA? (vídeo)
*Canal Metrologia. 16.jul.2019: Infográfico: 50 anos da Apollo 11: primeiro pouso na Lua.
*Herton Escobar/Ciência USP. 19.jul.2019: O legado da lua: 50 anos depois.
*E-farsas. 20.jul.2019. Descubra a verdade sobre várias teorias conspiratórias envolvendo a Lua!
*Papo de Primata. 20.jul.2019. Há 50 anos, alienígenas invadiram a Lua!
*SpaceToday. 12.jul.2019. 50 anos do homem na Lua - Parte I, Parte II, Parte III, Parte IV (vídeos)
*Fake em Nóis. 24.jul.2019. 50 anos do homem na lua: o que é fato e o que é fake news (vídeo)

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ciência: a longa (longa) marcha 4

De início mesmo com a pressão do orçamento reduzido, que já se anunciava como insuficiente para cobrir, por exemplo, as bolsas durante todo o ano, o pessoal da academia parecia, sim, triste, mas também bastante desmotivado e um tanto resignado. Era o ruim, mas seria inevitável, o lance seria tentar se ajeitar com o que se desenhava - iniciativas como ciência com orçamento baixo ou zero vão um tanto nesse sentido (oquei, é algo pragmático e até prudente, porém pode soar um tanto quanto conformista). Em suma, apesar de reclamações em conversas e postagens de redes sociais a temperatura parecia baixa para protestos.

De um lado, o astronauta Marcos Pontes, titular do MCTIC, apesar de aparentemente sem poder para efetivamente reverter os cortes e contingenciamentos do orçamento na pasta, ao menos se mostrava solícito e solidário. Pelo menos tomava para si a tarefa de dialogar com os demais departamentos do governo e com o legislativo, além de representantes da comunidade científica, para minorar os efeitos. Boa vontade era demonstrada.

Do lado do MEC... o então ministro Ricardo Vélez Rodrigues se mostrava de uma inoperância que paralisava as ações do ministério da educação. Praticamente um cone fora colocado na cadeira frente à pasta. Depois de ser severamente admoestado pelos deputados em sabatina na Câmara, acabou caindo em pouco mais de três meses de governo. Já depois de criar entreveros como a desastrosa sugestão de fazer com que os alunos das escolas pronunciassem o lema de campanha do atual presidente em cerimônias de hasteamento da bandeira, num ato patentemente ilegal por personalismo vetado à administração pública; e que elas fossem filmadas cantando o hino, outra ilegalidade, já que, sem anuência dos pais, imagens de menores de idade não podem ser veiculadas.

Mal o novo ministro da educação, Abraham Weintraub, assumiu, em 8 de abril, o cargo e os atritos com a comunidade educacional e acadêmica escalaram. Inicialmente anunciou o corte (ou contingenciamento - trato como corte no restante do texto) de verbas discricionárias de três universidades federais: a de Brasília, a Fluminense e a da Bahia, supostamente por mau desempenho e por promoverem "balbúrdia", isto é, atos contrários ao governo federal. Como mau desempenho era uma mentira crassa, as federais de modo geral (inclusive as três) estão entre as melhores universidades brasileiras e estão entre as melhores do mundo e, além disso, as avaliações delas vêm melhorando; e o corte por "balbúrdia" é ilegal, seria uma represália do governo federal; anunciou-se que os cortes seriam em todas as IFES e também em institutos e colégios técnicos federais. E pouco depois o ministro falou em cortar as verbas de cursos como Sociologia e Filosofia por não serem úteis. O presidente só piorava a situação ao mentir em entrevista dizendo que pouco se faz pesquisa em universidades públicas (que estariam concentradas em instituições privadas e, depois, também em institutos militares).

A coleção de atos contra a educação e a ciência foi acumulando mal estar entre os pesquisadores e alunos.

Para o dia 8 de maio, um grupo de estudantes da USP organizou um protesto em São Paulo, - que contou com apoio da SBPC, dos Cientista Engajados e da Marcha pela Ciência em São Paulo - com concentração em frente ao Masp a partir das 14h. Entre 600 (minha contagem) e 3.000 (estimativa da organização) pessoas compareceram.

Para o dia 15 de maio, havia um protesto de Greve Geral da Educação convocada pelos sindicatos de profissionais da educação. A pauta inicialmente se referia à reforma da previdência, cujo projeto apresentado pelo atual governo é considerado deletério para a categoria. Mas, com os ataques do governo federal, a pauta se ampliou e o movimento estudantil e dos acadêmicos afluiu para o ato. Era uma defesa geral da educação contra as ações do Palácio do Planalto. Em cerca de 170 cidades houve atos que, segundo algumas estimativas, totalizaram mais de 1,5 milhão de participantes - inclusive secundaristas e estudantes de universidades particulares. O tom belicoso do governo federal se manteve, com o presidente classificando os participantes de "idiotas úteis e imbecis". À véspera chegou a circular o anúncio de que o presidente havia cancelado os cortes, desmentido logo depois por setores do governo. Deputados da base, que testemunharam o presidente anunciar o cancelamento, criticaram o desmentido do recuo e a desinformação gerada. Desinformação também foi a tática do ministro Weintraub, ao comparar o corte de cerca de 30% no orçamento discricionário - o que efetivamente entra no caixa das universidades para o custeio e outras despesas - com o orçamento total (incluindo a parte que não pode ser mexida: salários e aposentadorias) para dizer que seria um corte de apenas 3,5%, ilustrando com chocolates.

A dose se repetiu em 30 de março, com protesto convocado pela UNE e o movimento estudantil. Mais de 130 cidades registraram atos. A tática desinformacional do MEC também se repetiu, com vídeo performático de Weintraub com um guarda-chuva negando os cortes no orçamento do Museu Nacional, prontamente rebatido pela UFRJ. O ataque aos educadores também se repetiu, com o ministro enviando nota às escolas para denunciar professores e pais que divulgassem em horário de aula os protestos, atitude ilegal que fez o MPF solicitar o cancelamento da nota.

O conjunto da obra dos ataques verbais e verborrágicos do novo ministro da educação lhe rendeu um processo pelo MPF, que pede indenização de 5 milhões de reais por danos morais aos estudantes.

Enquanto isso, uma greve geral para o dia 14 de junho está convocada pelas centrais sindicais e provavelmente contará com adesão do setor da educação.

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Enfim o setor acadêmico parece haver aderido às mobilizações de rua e parece contar com apoio da população em geral. Foi necessário um conjunto de ações deliberada e abertamente hostis e persecutórias contra os educadores e os cientistas para se romper a passividade - no limite de total inviabilização das atividades das universidades. Mas, é isso, agora é questão de sobrevivência. Venceremos?*

*Havemos de vencer. Como sociedade.

domingo, 19 de maio de 2019

A (re)união faz... (re)lançamento do ScienceVlogs Brasil

Comentei que novos projetos de DC na internet vêm sendo criados recentemente. Além de novos que surgem e se estabelecem, há também projetos já estabelecidos que se reafirmam.

Entre os últimos está o ScienceVlogs Brasil. Iniciativa lançada há 3 anos de um selo de qualidade de canais científicos no YouTube, o SVBR avança para uma nova fase: consolidando os canais já integrantes e os recém-incorporados ao grupo, busca para futuro breve uma nova expansão com novos parceiros.

Embora já contando com uma audiência considerável de 500 milhões de views (somando o histórico das visualizações acumuladas de todos os canais), o objetivo é expandir o alcance. Para tanto conta com os chamados patronos: personalidades e canais (participando ou não diretamente do selo) com um grande número de seguidores e/ou que atingem um público representativo de minorias (visando a aumentar a diversidade do público - furando o clube do bolinha classe média que tende a ser a maioria dos consumidores de informações de divulgação científica no Brasil e no Mundo). Os patronos irão promover os canais do selo entre seus públicos, enfatizando a necessidade de se preocupar com a qualidade da informação consumida na internet.

Um patrono de peso, p.e., é o canal do médico Dr. Drauzio Varella, que anunciou o apoio à iniciativa.

E, como uma etapa para uma possível incorporação futura, os canais participantes passarão a adotar canais amigos: canais não associados ao SVBR que contarão com a tutoria ou mentoria dos responsáveis pelo canal membro. Dicas sobre como produzir conteúdo de qualidade e embasado serão compartilhadas, aproximando-se de um padrão mínimo exigido para os parceiros da iniciativa.

Live do lançamento:

Vídeo do relançamento:

Vídeo do Dr. Drauzio Varella:

Veja também:
Reinaldo José Lopes. Darwin e Deus. 15.mai.2019. SVBR (Science Vlogs Brasil) entra em nova fase e quer a sua ajuda!
Juliana Sayuri. Nexo Jornal. 18.mai.2019. Esta é a maior rede de divulgação científica no país.

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