SNCT 2015

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ReprodutivaMente: da reprodutibilidade em Psicologia e nas ciências

Não tenho muito o que falar sobre o recente estudo com um índice relativamente baixo de replicação de resultados de estudos psicológicos publicados em três importantes revistas da área. Reproduzo a conclusão dos 270 autores do artigo (felizmente a Science deixou o artigo em acesso aberto):

"After this intensive effort to reproduce a sample of published psychological findings, how many of the effects have we established are true? Zero. And how many of the effects have we established are false? Zero. Is this a limitation of the project design? No. It is the reality of doing science, even if it is not appreciated in daily practice. Humans desire certainty, and science infrequently provides it. As much as we might wish it to be otherwise, a single study almost never provides definitive resolution for or against an effect and its explanation. The original studies examined here offered tentative evidence; the replications we conducted offered additional, confirmatory evidence. In some cases, the replications increase confidence in the reliability of the original results; in other cases, the replications suggest that more investigation is needed to establish the validity of the original findings. Scientific progress is a cumulative process of uncertainty reduction that can only succeed if science itself remains the greatest skeptic of its explanatory claims.

The present results suggest that there is room to improve reproducibility in psychology. Any temptation to interpret these results as a defeat for psychology, or science more generally, must contend with the fact that this project demonstrates science behaving as it should. Hypotheses abound that the present culture in science may be negatively affecting the reproducibility of findings. An ideological response would discount the arguments, discredit the sources, and proceed merrily along. The scientific process is not ideological. Science does not always provide comfort for what we wish to be; it confronts us with what is. Moreover, as illustrated by the Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), the research community is taking action already to improve the quality and credibility of the scientific literature.

We conducted this project because we care deeply about the health of our discipline and believe in its promise for accumulating knowledge about human behavior that can advance the quality of the human condition. Reproducibility is central to that aim. Accumulating evidence is the scientific community’s method of self-correction and is the best available option for achieving that ultimate goal: truth."
["Depois desse esforço intenso para reproduzir uma amostra de achados em Psicologia publicados, quantos desses efeitos estabelecemos como verdadeiros? Zero. E quantos desses efeitos estabelecemos como falso? Zero. É uma limitação do desenho do projeto? Não. Essa é a realidade de se fazer ciência, mesmo quando isso não é apreciado na prática do dia-a-dia. Os humanos desejam certezas e as ciências raramente podem dá-las. A despeito de nossos desejos de que as coisas fossem diferentes, um único estudo quase nunca dá uma resposta definitiva a favor ou contra um efeito e sua explicação. Os estudos originais examinados aqui ofereceram indícios provisórios: as réplicas que conduzimos ofereceram indícios adicionais confirmatórios. Em alguns casos, as réplicas aumentaram a segurança da confiabilidade dos resultados originais; em outros casos, as réplicas sugeriram que mais investigações são necessárias para estabelecer a validade dos achados originais. O progresso científico é um processo cumulativo de redução da incerteza que só pode ser bem sucedido se as próprias ciências permanecerem céticas a respeito de suas alegações explicativas.

Os resultados presentes sugerem que há espaço para a melhoria da reprodutibilidade na Psicologia. Qualquer tentação de interpretar estes resultados como uma derrota da Psicologia ou das ciências em geral devem ser contestada com o fato que este projeto mostra as ciências funcionando como deveria. Há uma abundância de hipóteses que a presente cultura nas ciências possa estar afetando negativamente a reprodutibilidade dos achados. Uma resposta ideológica irá desconsiderar os argumentos, desacreditar as fontes e simplesmente seguir adiante. O processo científico não é ideológico. As ciências nem sempre traz conforto para o que gostaríamos que fosse; elas podem nos confrontar com o que de fato é. Além disso, como ilustrado pelas Orientações da Transparency and Openness Promotion (TOP) Guidelines (http://cos.io/top), a comunidade de pesquisa está tomando ações para melhorar a qualidade e a credibilidade da literatura científica.

Conduzimos este projeto porque nos importamentos profundamente com a saúde de nossa disciplina e acreditamos em sua promessa de acumular conhecimento sobre o comportamento humano que pode aumentar a qualidade da condição humana. A reprodutibilidade é central nesse objetivo. A acumulação de indícios é o método de auto-correção da comunidade científica e é a melhor opção disponível para atingir sua meta definitiva: a verdade."]

Podemos relativizar a questão da 'verdade' e 'conhecimento cumulativo', mas é isso. Nenhum estudo isolado tem a palavra final sobre um dado tema. É preciso considerar o conjunto de indícios disponíveis. O processo científico se consolida nisso, com replicações (e revisões sistemáticas, e meta-análises).

O fato de conseguirem obter um resultado, dentro da margem de erro, igual ao original em 47 dos 100 estudos mostra como o processo científico, mesmo em sua fase inicial: da publicação de estudos originais, já atua como um filtro poderoso. (Não consigo pensar em outros processos de geração de conhecimento com essa taxa de confirmação independente.) Que isso possa ser ainda melhor, pra mim, é só motivo de otimismo.

Upideite(30/ago/2015): Uma análise bayesiana que procura evitar um binarismo (falha/sucesso) na análise. (via @andrelesouza RT)

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Zoológico = prisão animal?

Na postagem anterior abordei uma queixa (que considero injusta) (de parte) dos defensores dos direitos animais em relação à experimentação animal. Aproveito o embalo para comentar sobre outra queixa, também injusta, deles, a de que zoológicos são cativeiros cruéis de animais e que deveriam ser desativados.

"Pela Extinção do Zoológico, liberdade para os animais inocentes presos sem cometer crime!" bradam alguns ativistas.

É verdade que os animais não cometeram nenhum crime - por definição são incapazes de fazê-lo (ainda que alguns espécimes sejam capturados após ataque a seres humanos e suas propriedades). Mas zoológicos modernos não são meros gabinetes de curiosidades. Desde a década de 1990, os principais zoos do mundo passaram e continuam a passar por uma reformulação em seu papel, assumindo uma importância cada vez maior na conservação biológica.

Os zoos são também centros fundamentais de educação ambiental e de pesquisa biológica/veterinária.

"Zoological parks are evolving institutions in respect to the conservation of biological diversity. From past functions in recreation as menageries and in education as living museums, they are coming to discharge these functions, plus other meaningful ones in research and conservation, as internationally oriented conservation centers. Education is the primary function in conservation, but zoos have begun to make significant contributions as genetic refuges and reservoirs, especially for large vertebrate species threatened with extinction. In developing this capacity zoos have fostered investigations into several facets of small population biology. These have extended to simulation modelling to help predict the outcome of various combinations of ecological, genetic, and demographic factors on the viability of populations in captivity and in the wild. Because resources of zoos are limited in respect to their enlarged functions in conservation and research, they are encouraging development of criteria to help prioritize actions for conservation of biodiversity. North American, European, and Australian zoos are meanwhile assisting the development of technical capacities among zoo counterparts, government agencies, and protected areas in both developing and developed countries of the world to further the conservation of biodiversity. Similar involvement by other biological institutions and by biological professional associations can make important contributions to policies of nations and actions of people that determine the prospects for survival of much of the biota.Rabb 1994

["Parques zoológicos são instituições em evolução no que diz respeito à conservação da diversidade biológica. De funções pretéritas de recreação como mostruário de feras e na educação como museus vivos, eles estão cumprindo essas funções, além de outras igualmente significativas em pesquisa e conservação, como centros de conservação orientados internacionalmente. Educação é a função primária na conservação, mas os zoos começaram a ter contribuições significativas como refúgios genéticos e reservas, especialmente para grandes espécies vertebradas ameaçadas de extinção. Ao desenvolver essas capacidades, os zoos alimentaram pesquisas em várias facetas da biologia de pequenas populações. Isso se estendeu à modelagem de simulações para ajudar a prever o resultado de várias combinações de fatores ecológicos, genéticos e demográficos na viabilidade de populações em cativeiro e na natureza. Como os recursos dos zoos são limitados face à ampliação de suas funções na conservação e pesquisa, eles incentivam o desenvolvimento de critérios para ajudar na definição de ações prioritárias para a conservação da biodiversidade. Zoos norte-americanos, europeus e australianos, enquanto isso, estão auxiliando no desenvolvimento de capacidades técnicas entre suas contrapartes zoológicas, agências governamentais e áreas de proteção, tanto em países desenvolvidos quanto em desenvolvimento, para melhor conservação da biodiversidade. Envolvimento similar por parte de outras instituições biológicas e por associações profissionais biológicas podem dar importante contribuição para as políticas nacionais e ações pessoais que determinem as chances de sobrevivência de boa parte da biota." Raab 1994]

Boa parte da população de grandes centros urbanos têm pouca ou nenhuma oportunidade de contato com ambientes silvestres; os zoológicos oferecem oportunidade de uma experiência próxima com elementos da biota mundial. Praticamente apenas nos zoológicos podem conhecer e ter uma experiência mais próxima com exemplares de várias espécies - inclusive nativas de sua região.

Em vários zoos ocorrem pesquisas comportamentais, fisiológicas, veterinárias importantíssimas que ajudam a fornecer informações para orientar a conservação in situ de diversas espécies e biomas ameaçados. Algumas pesquisas só são possíveis com animais mantidos em cativeiro - ou, pelo menos, são grandemente facilitadas por se poder acompanhar o animal ao longo do tempo e ter controle sobre sua dieta, luminosidade, temperatura ambiente...

Programas de procriação e intercâmbio genético nos zoos são fundamentais para espécies que têm seu hábitat fortemente ameaçado: por caça ilegal, desmatamento, poluição, queimada, especulação imobiliária, expansão das fronteiras agrícolas, presença de espécies invasoras, doenças, etc.

Zoológicos modernos procuram oferecer condições 'humanitárias' de cativeiro, com enriquecimento ambiental, reprodução de características dos hábitats (plantas, iluminação, sombreamento, relevo, textura)...

A ararinha-azul-de-lear, natural do norte da Bahia, encontrava-se em situação de "criticamente ameaçada" até 2008. Graças a programas de reintrodução, que contou com a colaboração de programas de procriação de diversos zoos, a população na natureza aumentou, chegando a pouco mais de 950 indivíduos. Atualmente é classificada como "em perigo" - ainda inspira cuidados, mas houve uma melhora.

O órix-do-saara encontra-se extinto na natureza. Graças a exemplares mantidos em zoológicos, há esperanças de haver reintrodução em seu hábitat - claro, o Saara - de exemplares para repovoamento.

O panda-gigante provavelmente é o símbolo mais famoso dos esforços de conservação que passam pela reprodução em cativeiro, com fundamental participação de intercâmbio genético entre populações de diversos zoológicos.

Há zoológicos sem condições de funcionamento. Estes devem ser readequados e, em último caso, desativados. Mas campanhas genéricas contra zoológicos mostra uma falta de compreensão da importância desse importante instrumento de educação, pesquisa e conservação.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Experimentação animal: cientistas brutos?

Já abordei a questão da experimentação animal aqui no GR à época da invasão e destruição das instalações do Instituto Royal e São Roque, SP.

Retomo por causa de uma acusação feita por uma pessoa envolvida em ativismo das causas animais. Segundo essa pessoa: "cientistas brasileiros não buscam alternativas porque não se preocupam o suficiente com os animais que utilizam".

Se a afirmação/negação é falsa em pelo menos um dos dois pontos: "cientistas brasileiros não buscam alternativas ao uso de modelos animais na experimentação científica", "cientistas não se preocupam com os animais que usam", ela será falsa no conjunto.

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Em um levantamento publicado em 2009 com pesquisadores da Universidade Federal de Goiás, com 38 questionários respondidos:

a) sobre o uso de animais dentro da própria linha de pesquisa dos respondentes:
"03. Assinale a opção que mais se aproximaria de sua opinião sobre o uso de animais na sua linha de pesquisa?
(1) uso os animais, pois estes não sofrem, ou sofrem muito pouco, com os procedimentos que utilizo;
(2) o fato de que os animais foram criados para esta finalidade faz com que seu uso seja mais aceitável eticamente;
(3) tenho pena de usar os animais, mas não vejo outra forma de obter resultados;
(4) não tenho pena dos animais. A saúde humana é o que realmente me importa;
(5) se houvesse outras metodologias disponíveis, não utilizaria os animais por consideração aos mesmos;
(6) é uma metodologia padrão adotada praticamente em todo mundo nesta linha de pesquisa, logo não vejo nenhum problema com este uso."

43,2% utilizariam modelos alternativos se disponíveis; 20,5% não levantaram nenhum questionamento quanto às metodologias atualmente predominantes; 18,2% ignoravam ou desconsideravam o sofrimento animal;

b) sobre o uso de animais nas pesquisas em geral:
"04. Com qual das opiniões mais se identifica, sobre a experimentação animal em geral:
(1) não vejo motivos para controvérsias sobre a experimentação animal;
(2) quem critica a experimentação animal não entende, ou entende muito pouco, de pesquisa ou de ciência;
(3) a crítica à experimentação animal, quando bem feita, é saudável à ciência e à pesquisa;
(4) isso deve ser discutido entre especialistas no assunto, e não pela sociedade civil;
(5) a experimentação animal é indispensável à ciência e ao progresso para saúde animal e humana;
(6) a ciência é capaz de encontrar outros métodos que não envolvam a experimentação em animais, e isso deve ser tarefa da ciência;"

40% apresentaram abertura à crítica, consideram que esta, quando bem feita, é saudável à pesquisa; 36,4% apontam que o uso de animais é indispensável;

c) quanto ao incômodo moral com o uso de animais:
"05. Atualmente, ao manipular os animais em experimentos, sente algum tipo de incômodo moral?
( ) sempre / ( ) quase sempre / ( ) poucas vezes / ( ) nunca
06. Ao manipular os animais em experimentos, no início de sua formação acadêmica, costumava sentir algum tipo de incômodo moral?
( ) sempre / ( ) quase sempre / ( ) poucas vezes / ( ) nunca "

no início da formação acadêmica - 63,1% sentem algum incômodo, 28,9% nunca se sentiram incomodados; no estágio então atual da carreira - 55,2% sentiam algum incômodo, 36,8% nunca sentem tal incômodo;

d) percepção de sofrimento animal em suas pesquisas:

"08. Qual o nível de sofrimento animal (dor, estresse, angústia...) causado pelos procedimentos empregados em sua linha de pesquisa?
( ) nenhum sofrimento
( ) pouco sofrimento
( ) algum sofrimento
( ) muito sofrimento
( ) não saberia dizer"

65% consideram que os animais têm algum sofrimento; 21,1% consideram que os animais não passam por nenhum sofrimento em suas pesquisas;

e) justificação do uso de animais:

"10. Assinale a opção que mais corresponde à sua opinião: “O uso de animais pela ciência apenas pode ser eticamente justificado quando”:
( ) tem potencial de trazer benefícios à saúde humana;
( ) tem potencial de trazer benefícios à saúde de animais domésticos, além da saúde do próprio homem;
( ) além dos possíveis benefícios à saúde, tem potencial de trazer benefícios econômicos;
( )faz avançar o conhecimento humano;"

47,6% quando beneficia os seres humanos e animais domésticos; 31% quando faz avançar o conhecimento;

f) debate bioético promovido durante a formação dos respondentes:

"12. Na sua formação enquanto pesquisador (graduação e pós-graduação), os questionamentos e debates voltados à experimentação animal, provocados pelos professores em discussões abertas e críticas, eram
( ) muito freqüentes
( ) freqüentes
( ) ocasionais
( ) raros
( ) inexistentes
( ) não lembra"

42,1% ocasionalmente; 26,3% em raras ocasiões;

g) disciplina de ética na formação dos respondentes:

"13. Na sua formação enquanto pesquisador (graduação e pós-graduação), o papel da disciplina de ética, em seus conteúdos voltados à ética na experimentação animal a partir de perspectivas mais críticas, pode ser considerada como:
( ) satisfatório ( ) parcialmente satisfatório ( ) insatisfatório ( ) inexistente "

36,8% parcialmente satisfatória;

h) modelos substitutivos:

"14. Escolha a opção abaixo que melhor reflete sua opinião em relação aos métodos de pesquisa substitutivos ao modelo animal:
( ) envolvem grande investimento financeiro;
( ) não possuem validade científica;
( ) não oferecem um caminho seguro de investigação;
( ) são pouco conhecidos;
( ) na grande maioria dos casos, não é possível substituir o modelo animal na pesquisa científica;"

>50% experimentação animal é insubstituível; >20% pouco conhecidos;

Com esses dados é um tanto estranha a conclusão dos autores desse estudo de que: "O que temos aqui é uma situação provavelmente que mistura interesse e falta de informação. Os/as pesquisadores/as que disseram que substituiriam a experimentação animal parecem ter assinalado essa somente por ser, aparentemente, uma situação hipotética, já que a maioria considera que na maior parte dos casos ela não é substituível.

[Lista de métodos substitutivos: cultura de células e tecidos, simulações, nanotecnologia, etc.]

Como vimos, é bastante possível considerar a substituição de animais em procedimentos experimentais. O que parece se demonstrar é uma possível falta de interesse em desenvolver novas metodologias e até mesmo de buscar as existentes, uma vez que 23,3% dos/as pesquisadores/as amostrados/as tenham alegado ser tais técnicas pouco conhecidas. Com isso, parece haver a sugestão de uma resistência em abandonar uma prática à qual estão acostumados/as a empreender".

No questionário utilizado os pesquisadores não foram perguntados se utilizaram ou se procuraram utilizar dessas e outras alternativas.

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Um outro levantamento foi feito com pesquisadores do Instituto de Biociências da Unesp de Botucatu-SP apresentado em 2010: 34 questionários foram respondidos.

a) Justificativa:
"4)Justificativa do trabalho com os animais" (questão aberta)

~90% melhoria da saúde humana ou animal; ~10% avanço do conhecimento;

b) Preocupação com o bem estar animal:
"6)Existe incômodo moral ?(de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo de incômodo) 

7)Existe preocupação em relação ao sofrimento do animal ?(de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo de preocupação)"

"Sendo que, no geral, todas as pessoas com mais de 20 anos de trabalho com animais possuem
preocupação máxima com a minimização do sofrimento do animal, porém não demonstram
possuir incômodo moral em relação à prática, o que pode ser justificado pela consciência de
estar fazendo da melhor forma possível, ou pela cegueira ética condicionada com o tempo,
visto que as pessoas que possuem menor tempo de trabalho, abaixo de 10 anos são as que
demonstraram sentir pelo menos algum incômodo moral."

c) debate bioético promovido durante a formação dos respondentes:
"9) Houve debate sobre o assunto em sua formação?
( )sim, bastante ( )sim, suficiente ( )sim, pouco ( )não"

~50% sim; ~50% pouco ou nenhum.

d) modelos substitutivos:
"10) Opinião sobre a viabilidade de modelos alternativos (de 0 a 10, sendo 10 o limite máximo para a possibilidade)"

média 5,6

A conclusão da autora, no entanto, também é um tanto estranha: "As sinalizações gerais apontam para uma opinião simpatizante por parte dos pesquisadores na adoção dos modelos substitutivos para algumas pesquisas que não sejam a deles, demarcando também a falta de informação ou até mesmo de interesse por parte dos pesquisadores em buscar metodologias que não necessite de animais e que sejam tão ou até mais eficientes".

Não há no questionário nada relacionado ao interesse dos pesquisadores em modelos substitutivos.
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De modo geral, os pesquisadores respondentes estão preocupados com o bem estar dos animais utilizados em seus próprios experimentos e nos experimentos científicos de modo geral.

Os pesquisadores demonstram algum ceticismo da viabilidade da substituição do uso de animais em determinadas pesquisas sem perda importante de generalidade e precisão. Os autores dos dois estudos aqui citados interpretam isso como desconhecimento, mas os questionários utilizados não permitem essa conclusão - ainda que seja uma possível.

Embora o tamanho amostral seja reduzido, baseando-nos em uma certa homogeneidade (ainda que nem de longe absoluta) dos pesquisadores, podemos extrapolar (com o devido cuidado) que os pesquisadores brasileiros preocupam-se, sim, em minimizar o sofrimento de seus sujeitos experimentais: camundongos, ratos, sapos, peixes, alunos de graduação e pós-graduação... (nem que seja para atender às demandas e exigências dos comitês de ética).

Assim:

"cientistas brasileiros não buscam alternativas ao uso de modelos animais na experimentação científica" (V/F)
"cientistas não se preocupam com os animais que usam" (F)
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"cientistas brasileiros não buscam alternativas porque não se preocupam o suficiente com os animais que utilizam" (F)

Claro que se pode fazer alguma discussão em torno do termo "suficiente".

Upideite(21/ago/2015): Um levantamento online obteve 12 respostas com pesquisadores brasileiros que trabalham com diagnóstico da raiva. As justificativas mais frequentes para o uso de inoculação cerebral em camundongos em vez de métodos in vitro validados foram:
a) falta de recursos humanos e capacitação profissional - 5 respostas;
b) acomodação, hábito e falta de boa vontade das pessoas - 4;
c.i) falta de recursos financeiros - 3;
c.ii) barreiras regulatórias e falta de incentivo do governo - 3;
c.iii) barreiras cultural e ética - 3;
d.i) falta de estrutura dos laboratórios, equipamentos e materiais - 2;
d.ii) falta de conhecimento e conscientização - 2;
d.iii) importância dos fatores orgânicos para observação da doença - 2;
e.i) baixa sensibilidade ou falhas das técnicas in vitro - 1;
e.ii) facilidade e baixo preço do IVC - 1;
e.iii) falta de tempo - 1.

Com a mesma plataforma online os autores obtiveram respostas de 35 pesquisadores anglófonos e 12 lusófonos (dos quais 11 trabalhavam no Brasil).
7 anglófonos e 6 lusófonos utilizavam o método in vivo de diagnóstico de raiva.
1 anglófono e 5 lusófonos responderam que o custo de implementação do método in vitro levava a escolherem o procedimento in vivo.

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Para um trabalho de conclusão de curso de 2013, foram entrevistados 20 pesquisadores do Instituto de Biociências da Unesp/Botucatu-SP. Os entrevistados foram divididos em dois grupos: os contratados antes da lei Arouca 11.794/2008 e os contratados depois (mas no relato não é dado o tamanho de cada grupo).

"1) Do seu ponto de vista, qual é a abrangência da Bioética?"

58,5% citaram a ética na pesquisa e nas relações humanas, sem incluir questões ambientais (como OGMs, bem estar animal, agrotóxicos, etc).

"2) Você tem conhecimento de legislação sobre experimentação animal?
( ) Não.
( ) Sim. Se sim, cite exemplos."

100% dos pós-Arouca demonstraram conhecer a legislação; 75% dos pré-Arouca.

"3) O que mudou no seu laboratório e em suas pesquisas após a criação do comitê de ética na Universidade?"

4) Você teria feito mudanças em seu laboratório e em suas pesquisas caso não houvessem sido criados esses comitês?"

100% dos pré-Arouca mudaram procedimentos.
16,7% dos pré-Arouca disseram que mudariam mesmo sem os comitês.

"5) Durante sua carreira de pesquisador, você já mudou seus sentimentos frente ao sofrimento animal?"

25% dos pós-Arouca relataram ter mudado; 75% dos pré-Arouca.

Novamente, a conclusão dos autores vai além do que os dados permitem entender: "Portanto, conclui-se que em sua maioria, os pesquisadores concebem a ética na experimentação animal como obediência [à]s Leis instituídas e que a consciência ao bem estar animal é algo que ainda está distante e esse tema necessita ser exposto e mais debatido para que se crie uma consciência crítica a respeito". Por exemplo, para uma boa base para se afirmar que é pura obediência formal à lei, sem concordância com seu teor, a pergunta '4' deveria ser complementada com uma questão do tipo: "Se a lei fosse abolida, retornaria aos procedimentos anteriores? Por quê?"

Upideite(22/ago/2015): Levantamento para pesquisa de doutoramento na UFSC em 2012, com 185 docentes de 17 IFES.

a) Conhecimento do conceito dos 3Rs (redução, substituição/replacement, refinamento: redução de sofrimento/estresse):
Entre pesquisadores que publicaram trabalhos com uso de animais:
~80% alto/mediano;
10~20% pouco/nenhum.
Entre os que não publicaram:
40~60% alto/medino;
40~60% pouco/nenhum.

b) Importância dos princípios dos 3Rs:
Entre os docentes dos departamentos de Fisiologia (Gfis):
69% os três igualmente importantes;
12,3% redução;
11% refinamento;
8% substituição.
Entre os docentes dos departamentos de Farmacologia (Gfar):
68% os três igualmente importantes;
18,5% refinamento;
8% redução;
6% substituição.

c) Posicionamento quanto ao uso de animais:

Opção Gfis (%) Gfar (%)
"Acredito que há métodos melhores que a experimentação animal em pesquisas sobre saúde humana e animal. Estou trabalhando ativamente em pesquisas que substituem animais em alguns experimentos em minha linha de investigação" 1,3 3,8
"A experimentação animal é uma necessidade para a maioria das pesquisas atuais. Sua importância é inegável, e tem sido a responsável pela maioria dos avanços na saúde humana e animal" 44,3 38,1
"Não acredito que a pesquisa experimental abandone totalmente o uso de animais, independente de minha opinião sobre este assunto" 20,3 31,4
"Eu entendo que novas tecnologias possam vir a substituir o modelo animal em pesquisas sobre saúde humana e animal, assim como a razão disso acontecer, mas minha área de pesquisa exige usar animais como modelo" 20,3 17,1
Nenhum das opções acima 13,9 9,5

"5) Animais frequentemente utilizados na pesquisa aplicada (como camundongos e ratos) são modelos preditivos para seres humanos"
Gfis: 68% concordam; 9,4% discordam (n=53);
Gfar: 74% concordam; 10% discordam (n=81).

"6) Modelos experimentais baseados em humanos são o melhor caminho para alcançar resultados efetivos relacionados à saúde humana"
Gfis: 42% concordam; 39% discordam;
Gfar: 57,5% concordam; 29% discordam.

"7) A tecnologia aplicada à pesquisa experimental não será capaz de substituir o modelo animal"
Gfis: 63,3% concordam; 19% discordam;
Gfar: 58,5% concordam; 28,3% discordam.

"8) Abandonar a modelagem animal na pesquisa experimental causará sérios atrasos na descoberta de novas drogas e terapias, seja para humanos ou animais"
Gfis: 83,5% concordam; 11,4% discordam;
Gfar: 79,2% concordam; 14,2% discordam.

"9) É um exagero considerar a experimentação animal como principal responsável pelos avanços na saúde humana"
Gfis: 24,1% concordam; 62% discordam;
Gfar: 35,8% concordam; 49,1% discordam.

"10) Problemas éticos suscitados pela experimentação animal são superados pelo impacto positivo que a experimentação animal causa sobre a saúde humana e animal"
Gfis: 49,4% concordam; 30,4% discordam;
Gfar: 50,9% concordam; 31,1% discordam.

"11) Resultados obtidos da experimentação animal são duvidosos e confusos considerando sua aplicação em seres humanos"
Gfis: 3,8% concordam; 84,8% discordam;
Gfar: 13,2% concordam; 70,8% discordam.

"12) As descobertas científicas que mais contribuíram para prolongar a vida humana resultaram basicamente de estudos e observações clínicas, e não de testes feitos em animais vivos de outras espécies"
Gfis: 3,8% concordam; 70,9% discordam;
Gfar: 10,4% concordam; 62,3% discordam.

"13) A pesquisa científica poderá vir a substituir o uso de animais considerando-se um financiamento substancial dirigido ao desenvolvimento de outras técnicas experimentais"
Gfis: 38% concordam; 50,6% discordam;
Gfar: 44,3% concordam; 34,9% discordam.

"14) A tradição é a principal força que mantém a experimentação animal como um método científico da pesquisa experimental"
Gfis: 12,7% concordam; 82,3% discordam;
Gfar: 10,4% concordam; 82,1% discordam.

"15) A experimentação animal é essencial à ciência"
Gfis: 77,2% concordam; 13,9% discordam;
Gfar: 70,8% concordam; 12,3% discordam.

terça-feira, 28 de julho de 2015

Celebridades científicas são necessárias? - meu centavo e meio

Na postagem anterior comentei de passagem uma discussão que surgiu diante da constatação do baixo conhecimento do brasileiro a respeito de ciências, dos cientistas e das instituições científicas. Ela se conecta com as tentativas de se atrair mais pessoas para as carreiras de STEM (science, technology, engineer and mathematics).

Há várias iniciativas nesse sentido. No ensino básico por meio das "olimpiadas do conhecimento" (sim, eu sei que deveria haver acento no segundo 'i' de olimpiadas, mas como o COI e o COB são extremamente ciosos com o uso do termo e o último já chegou a notificar tais competições para que mudassem de denominação, vai sem acento mesmo) nessas áreas: na última reunião da SBPC foram premiados vencedores em várias categorias nacionais e a olimpiada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas, OBMEP, é uma das maiores do gênero. [Artur Avila, nosso medalhista Fields, levou bronze na olimpiada Brasileira de Matemática, OBM (não confundir com a OBMEP), em 1992.] E feiras de conhecimento, como a Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia), da LSI/Poli/USP. No ensino superior, o Ciência Sem Fronteiras, originalmente voltada especificamente para os STEM, e, por isso mesmo, alvo de várias críticas por não incluir ciências humanas, p.e. Para o público em geral a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia. Entre outras iniciativas locais, estaduais, federais, particulares e governamentais.

Na discussão ocorrida na reunião da SBPC a que me referi na postagem passada, surgiu o tema do "cientista celebridade" ou "celebridade cientista". Antes é preciso deixar claro que não se está dando nem um sentido negativo de celebridade (o que se acha, o que amealha para si todas as glórias mesmo a que deveria ser compartilhada ou atribuída a outros, o que trata os demais com descaso), nem o sentido que atualmente seria o mais convencional: alguém simplesmente famoso por ser famoso (e não por ser um destaque em uma área relevante na vida das pessoas - ao contrário, a ideia é exatamente que se destaquem por isso - aproximar-se do sentido anterior ligado exatamente ao termo primitivo 'célebre': no sentido, p.e., em que Einstein foi um célebre físico e não apenas um físico célebre). Em uma postagem do Rafael Bento, do RNAm, com o link para o artigo de André Rabelo, do SocialMente, um comentarista disse: "mais ego é algo que a ciência realmente não precisa".

As demais críticas têm sido: há outras coisas a se fazer (como valorizar as ciências dando melhores condições de trabalhos aos cientistas - entre salários, bolsas, direitos trabalhistas, desburocratização para a pesquisa...), linha adotada na crítica de Rabelo e também de Luiz Bento, do Discutindo Ecologia; a questão é superficial; e, para Atila Iamarino, do Rainha Vermelha e Nerdologia, é preciso que a Capes e o CNPq incentivem a divulgação científica de modo geral, reconhecendo a atividade na avaliação do pesquisador e dando verba para isso.

Como adiantei na postagem anterior, eu tendo a me alinhar mais com Stevens Rehen, da UFRJ, e com a Helena Nader, presidente da SBPC, e Jacob Palis, da ABC.

Mas, antes, abordemos as críticas: sim, há mais coisas a se fazer, apenas ter celebridades não é a solução para todos os problemas da ciência brasileira. Esse ponto é pacífico até entre os defensores de que haja mais cientistas conhecidos e admirados pelo grosso da população. Só que o fato de haver outras coisas não quer dizer que seja inútil haver os tais cientistas celebridades, ponto reconhecido pelo próprio Rabelo, crítico à ideia. Creio que esse ponto seria relevante se se propusesse que a promoção de "heróis da ciência" fosse a única ou a principal ação para a melhoria da ciência nacional. Não é o caso. Ou se fosse concorrente por recursos escassos. O que não é necessariamente o caso. A construção de reputação popular de indivíduos pode demandar muito dinheiro - como pagar anúncios em veículos de comunicação -, mas, aqui, não é algo que seja preciso. Agências de fomento, associações científicas, órgãos de governo têm seus relações públicas. E, não se trata aqui de personalismo, podemos eleger notáveis na forma de instituições ou mesmo personalidades já com boa reputação entre os pares - claro, há que se cuidar da transparência e não de fomentar panelinhas e intrigas de salão (infelizmente nada raro na comunidade científica). Bastaria, por exemplo, que órgãos de governo trabalhassem mais na promoção da *premiação* José Reis de divulgação científica junto aos veículos de comunicação (incluindo aí os social media): Artur Avila, não obstante o reconhecimento entre os pares pela qualidade de seu trabalho, ganhou boa notoriedade popular por meio da Fields - comparecendo à FLIP deste ano. Fora um Nobel, então, sua fama iria às alturas.

O ponto levantado por Atila, talvez um dos que podemos considerar o mais próximo de uma celebridade científica (é reconhecido por um bom público de jovens estudantes e alvo de tietagem), é interessante, mas também não é exatamente algo contrário à ideia de eleição de "campeões da ciência". E, sim, pode até ser, como argumenta, um meio indutor para o surgimento das celebridades.

Porém, todo esse blablablá acima serve mais como um intróito do que eu gostaria de realmente argumentar. Eu, confessadamente, não tenho conhecimento suficiente para argumentarpredicar a respeito de políticas públicas e apontar caminhos que devemos ou não trilhar. Então, mais do que apenas falar do que eu acho, é melhor eu trazer argumentos *científicos*. A questão dos "role models", dos modelos de vida, é bastante discutida mesmo na questãono problema da atração para as áreas STEM. Sapna Cheryan e colaboradores (2011) avaliaram a influência desses modelos na visão de mulheres quanto a suas possibilidades de sucesso nas STEM.

"Women who have not yet entered science, technology, engineering, and mathematics (STEM) fields underestimate how well they will perform in those fields (e.g., Correll, 2001; Meece, Parsons, Kaczala, & Goff, 1982). It is commonly assumed that female role models improve women’s beliefs that they can be successful in STEM. The current work tests this assumption. Two experiments varied role model gender and whether role models embody computer science stereotypes. Role model gender had no effect on success beliefs. However, women who interacted with nonstereotypical role models believed they would be more successful in computer science than those who interacted with stereotypical role models. Differences in women’s success beliefs were mediated by their perceived dissimilarity from stereotypical role models. When attempting to convey to women that they can be successful in STEM fields, role model gender may be less important than the extent to which role models embody current STEM stereotypes."
["Mulheres que ainda não entraram nas áreas de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) subestimam quão bem elas irão desempenhar nessas áreas. Geralmente se assume que modelos femininos de vida melhoram a crença das mulheres em que elas serão bem sucedidas nas STEM. O presente trabalho testa essa suposição. Dois experimentos variaram o gênero do modelo e se o modelo incorpora estereótipos das ciência da computação. O gênero do modelo não teve efeito sobre a crença no sucesso. No entanto, mulheres que interagiram com modelos não-estereotípicos acreditaram que elas podem ser mais bem sucedidas em ciência da computação do que as que interagiram com modelos estereotípicos. Diferenças nas crenças no sucesso das mulheres foram mediadas pela dissimilaridade percebida em relação ao modelo estereotípico. Na tentativa de convencer mulheres que elas podem ser bem sucedidas nas áreas STEM, o gênero do modelo deve ser menos importante do que a extensão em que os modelos incorporam estereótipos correntes sobre as STEM."]

Seria, claro, pretensioso acreditar que isso encerra a discussão. A literatura é extensa e nem sempre há concordância quanto a isso. Mas espero que esse exemplo sirva para demonstrar que a proposta não é despropositada. E, embora eu não queira ser pretensioso de dar a palavra final, eu sou pretensioso o suficiente para querer que esta abordagem incentive a discussão a tomar uma base mais factualmente embasada. Opiniões pessoais (e históricos de vida) e ideologias importam, no entanto, a análise fica mais rica e sólida quando podemos amarrar com base em dados e estudos.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Percepção Pública da Ciência e Tecnologia 2015

A quarta edição da pesquisa de “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil”, agora conduzida pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos coordenado pelo MCTI, não traz muitas novidades em relação a outras.

Mostra a tendência geral de melhora das atitudes em relação às ciências: mais pessoas consideram que a atividade traz só benefícios ou mais benefícios do que malefícios (o que não deixa de ser também um fato preocupante*) - tendência que se dá por motivos não muito claros. (Fig. 1.)

Figura 1. Atitude do brasileiro em relação às ciências. Percepção de benefícios x malefícios. Fonte: CGEE 2015.

Em relação ao interesse declarado, não é possível uma comparação com toda a série pela mudança na metodologia de codificação das respostas na pesquisa de 2010. Mas é possível se verificar que praticamente não há alteração pelo interesse declarado em ciências - a maior variação ocorre em relação à moda, por motivo que desconheço - em relaçãocomparação ao último levantamento.(Fig. 2a e b.)

a) 
b) 
Figura 2. Interesse declarado do brasileiro por a) temas selecionados com destaque para b) ciências. Fonte: CGEE 2015.

Como comentei em uma análise sobre os resultados do Indicador de Letramento Científico da Abramundo, esses valores devem ser tomados com um bom grau de reticências. Há incongruências quando comparamos atitudes declaradas e ações medidas. O interesse manifestado não se concretiza, por exemplo, na busca pelas informações sobre o tema - 93,3% dos entrevistados não se lembram do nome de nenhum cientista brasileiro, 87,2% não sabem o nome de nenhuma instituição de pesquisa; além disso, a visão de que a ciência só traz benefícios não se casa com a opinião de que os cientistas têm poderes que os tornam perigosos (31,5% concordam totalmente, 35,9% concorda em parte), que a C&T é responsável pela maior parte dos problemas ambientais (21,9% totalmente e 34,6% em parte)*.

Os resultados de 2015 podem ser analisados online combinando-se vários filtros por categorias socioeconômicas. Ferramente similar à disponível na base dados da GSS americana e do SIDRA do IBGE. Uma sugestão de melhoria é permitir também o cruzamento entre as perguntas, p.e., saber, dentre os que responderam que as ciências só trazem benefícios, quantos acham que os cientistas são perigosos.
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O ponto em que os entrevistados continuam a manifestar um alto grau de desconhecimento sobre cientistas e instituições científicas brasileiras é motivo de preocupação por parte de acadêmicos e autoridades. Uma discussão lateral que surge é sobre o papel que cientistas célebres - ou cientistas "celebridades" - poderiam ter na atração de novos talentos para a área de STEM (ciências naturais, tecnologia, engenharia e matemática). André Rabelo, do DivertidaSocialMente, escreve contrariamente à ideia. Não exatamente contrariamente, mas acha que a questão é outra: a atratividade passaria pela valorização profissional - salários e condições de trabalho. Já Steven Rehen da UFRJ acredita que teria um impacto positivo. Talvez mais tarde eu aborde essa questão aqui no GR. Adiando que por ora tendo a me alinhar com a visão de Rehen e Helena Nader - sem maiores prejuízos à questão da valorização do trabalho do cientista defendida por Rabelo.***

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* É legal que se tenha uma visão positiva das ciências. Sim, as ciências são muito úteis e trazem vários benefícios. Mas, de um lado, claro que é exagero se considerar que ela *só* traz benefícios. Há vários perigos embutidos na atividade científica e em seus produtos. A energia nuclear é útil e pode ser que, em uma análise ponderada sobre riscos e benefícios, conclua-se que valha a pena investir nela. No entanto, não dá para dizer que não haja perigos em sua utilização (Three Miles Island, Chernobyl e Goiânia que o digam). Que 54% acreditem que não haja malefício algum na atividade científica é, assim, problemática. O outro ponto é que, o que em parte explica os 54%, essa visão positiva não se dá através de uma análise ponderada sobre o papel das ciências na sociedade moderna e na vida cotidiana. O baixo conhecimento - declarado e medido - em relação às ciências mostra que essa visão grandemente positiva está calcada exatamente em uma ignorância quanto à questão. Claro que não é apenas uma questão de ignorância: ela provavelmente não explica, por exemplo, um aumento da visão positiva ao longo do tempo - teria o nível de ignorância sobre ciências aumentada com o tempo? Não temos dados diretos a respeito dessa questão, mas os resultados etários do ILC não parece corroborar que haja um decréscimo geracional no grau de conhecimento científico - sempre fomos tão ignorantes em relação às ciências quanto somos hoje (ao menos na janela das últimas três décadas). Retornando à visão positiva calcada na ignorância, bem, esse grau de ingenuidade é bastante perigosa: tanto na manipulação de anúncios do tipo "cientificamente comprovado" quanto em campanhas anticiência baseadas em teorias da conspiração. Verdade que a ingenuidade é longe de total: a maior parte dos entrevistados considera que os cientistas são perigosos e a ciência (e a tecnologia) causam a maior parte dos problemas ambientais**. O que, por uma feita, traz ainda outro problema para os relações públicas das ciências resolverem, e, por outra, estabelece um conundro - que se resolve pela observação da incongruência dos pensamentos da população a respeito da C&T (em parte, certamente o conhecido fenômeno das pesquisas de opinião em que o entrevistado tenta dar a resposta que acha que o entrevistador considera a correta).

Talvez esse problema pudesse ser minorado invertendo-se a ordem das perguntas. A questão sobre se consideram que as ciências trazem mais benefícios do que malefícios ficasse depois de perguntas que dão exemplos de potenciais malefícios: cientistas perigosos por deterem poder do conhecimento e conhecimento e tecnologia que resultam em danos ambientais. Claro que isso criaria outro viés. Então, talvez seja o caso de aleatorizar a ordem das perguntas. Aí seria possível se ter uma ideia de o quanto a visão positiva sobre as ciência dá-se por não se ter à mente um exemplo de malefício das ciências e o quanto dá-se por realmente desconsiderar tais malefícios.

**Upideite(27/jul/2015): corrigido a esta data.
***Upideite(28/ju/2015): meus pitacos sobre a questão de cientistas celebridades.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

O Biólogo e a Divulgação Científica 2.5

Minha apresentação no último dia 21.jul durante o XII Congresso Aberto aos Estudantes de Biologia.



As cores ficaram um pouco zoadas na conversão.

Disclêimer: As opiniões apresentadas são de exclusiva responsabilidade do autor. Não refletem necessariamente a visão institucional do Labjor. Nem da Fapesp, nem do IB/Unicamp ou outras instituições citadas.

Upideite (23/jul/2015): Agradecimentos especiais a @marifiora, @luizbento, Simone Pallone e Germana Barata pela revisão de versão preliminar da apresentação. Todos os erros que tenham persistidos são de inteira responsabilidade do autor.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ciência x Mídia x Novas Mídias: a cobertura do IBRO

O neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ, postou em seu perfil na rede do tio Zucko uma reclamação quanto à cobertura da imprensa nacional (mídia impressa e online) do IBRO 2015 - 9° Congresso Mundial da Organização Internacional de Pesquisa do Cérebro, um dos principais eventos científicos da área. Veículos das organizações Globo, onde o pesquisador tem bons contatos, cobriram o evento: CBN, Globo News, Globo Repórter, O Globo (combo quase total: rádio, cabo, tv aberta, impresso; não foi mencionado, mas suspeito que o G1 também ). mais a Record e a Revista Fapesp. (Sinceramente, no Brasil, eu já ficaria mais do que satisfeito com 'apenas' a Globo cobrindo...)

Verdade que o próprio Rehen, um dos organizadores do evento, não postou nada sobre isso em seu blogue (verdade também que eu mesmo não costumo publicar aqui no GR eventos com os quais estou envolvido, então não posso censurar ninguém quanto a isso). A última atualização é de 12/jun "US$ 28 bi jogados no lixo com artigos científicos irreproduzíveis?". Mas sua conta no twitter esteve bem ativa com detalhes sobre o evento, antes mesmo de seu início no último dia 7/jul; bem como seu perfil no facebook.

Rafael Soares, do RNAm e da Numina Labs, foi por conta própria. Mas Silmar Geremias, do SciCast, e o Carlos Cardoso, do Meio Bit, e Luiz Bento, do Discutindo Ecologia*, reclamaram que não houve nenhuma comunicação para os divulgadores científicos que utilizam as novas mídias.

A jornalista Sofia Murtinho, assessora de imprensa do evento, foi um tanto dura nas respostas (ainda que as reclamações também tenham sido duras): "Eu não entendo quem critica mídias tradicionais e fica sentado esperando um release chegar na caixa de e-mail". (Vale a pena conferir - quebrando a zerésima regra da internet - os comentários à postagem de Rehen no facebook.)

Conversando com pessoal de ciências de um importante portal brasileiro, parece que por lá também não chegou nenhuma comunicação sobre o evento.

O perfil do Scienceblogs Brasil no facebook pergunta: "Falta cobertura por falta de interesse da mídia ou dos espectadores? As pessoas gostam de ciências e de neuro!"

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Um elemento que também é preciso se considerar - afora a questão de se a comunicação foi eficiente ou não, de se os alvos escolhidos foram acertados ou não, de se há interesse ou não das mídias ditas tradicionais - é que as redações das empresas de comunicação estão muito reduzidas devido aos sucessivos cortes de pessoal. Nem sempre conseguem destacar gente para cobrir um evento ou mesmo para acompanhá-los via internet. Aí acabam se valendo mesmo de material de agências ainda que seja um evento no próprio país.

Há também um pouco da questão do timing. Parte do evento pegou o feriadão no Estado de São Paulo, da Revolução Constitucionalista de 1932, emendando desde quinta-feira (09/jul). Muitos dos principais veículos atuam de SP. Cobrir o evento em esquema de plantão também pode ser complicado, ainda mais em cenário de crise econômica.

Claro que isso, por outro lado, pode botar pressão para os organizadores apelarem para o "sexing-up". Daí pra aparecerem coisas como "10 motivos científicos por que seu cérebro não resiste a gatinhos na internet" não irá muita distância. Do chamativo ao apelativo não se requerem grandes esforços. Mas pode garantir maior cobertura da mídia (sobretudo online) e atrair mais leitores/ouvintes/espectadores (e, principalmente, clicadores).

*Upideite(10/jul/2015): adido a esta data.

domingo, 28 de junho de 2015

Identidade de Euler: a mais bela equação matemática?

"Like a Shakespearean sonnet that captures the very essence of love, or a painting that brings out the beauty of the human form that is far more than just skin deep, Euler’s equation reaches down into the very depths of existence."
["Como um soneto de Shakespeare que captura a própria essência do amor ou uma pintura que traz à tona a beleza da forma humana mais profunda, a equação de Euler alcança o âmago da existência."]
Keith Devlin

PixaçãoIntervenção artística em um ponto de ônibus na Unicamp.

"É bom saber que a equação certamente é a única a ter se tornado evidência num julgamento criminal. Em agosto de 2003, atentados ecoterroristas a uma série de revendedoras de automóveis na região de Los Angeles resultaram em prejuízo de US$ 2,3 milhões; um prédio foi incendiado e mais de cem SUVs foram destruídos ou danificados. O vandalismo incluía pichações dizendo 'BEBEDOR DE GASOLINA' e 'ASSASSINO'; e num Mitsubishi Montero escreveu-se a fórmula e^(i.π) + 1 = 0. Usando isso como pista e posteriormente como prova, o FBI prendeu William Cottrell, estudante de pós-graduação em física teórica no Instituto de Tecnologia da Califórnia, por oito acusações de incêndio criminoso e conspiração para provocar incêndio. No julgamento, que terminou com sua condenação, em novembro de 2004*, Cottrell admitiu ter escrito aquela equação no Montero. 'Eu acho que conheço aquela equação desde os cinco anos de idade', declarou Cottrell durante o julgamento. 'Todos deveriam conhecer o teorema de Euler.'" P: 81.

Crease, R.P. 2011. As grandes equações: a história das fórmulas matemáticas mais importantes e os cientistas que as criaram. Zahar. 276 p.

*Em 2009, a sentença foi anulada na apelação em função da Síndrome de Asperger de Cottrell, que, no entendimento da corte, impediria-o de atuar com dolo. A condenação por conspiração foi mantida. Cottrell foi liberado em 2011.
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Fórmula de Euler. Quando o ângulo φ é igual a 90° (π radianos) temos a identidade de Euler.Fonte: Wikimedia Commons.
A edição de outono de 1988 da The Mathematical Intelligencer perguntou a seus leitores - matemáticos industriais e acadêmicos - qual dentre 24 teoremas matemáticos listados era o mais bonito. As respostas deveriam dar notas de 0 a 10 para cada item. O resultado seria publicado no verão de 1990: em primeiro lugar com uma nota média de 7,7 foi, claro, a identidade de Euler (em segundo, com 7,5 de média, uma outra fórmula de Euler, a do poliedro: V + F = E + 2 - o número de vértices mais o de faces é igual ao número de arestas mais 2; com a mesma média, em terceiro lugar o teorema que diz que o número de números primos é infinito). Como trata-se de uma publicação matemática e não de estatística, deram apenas a média, não os desvios padrões para sabermos se são significativamente diferentes os valores (com n=68 respostas válidas). Em 2004, Robert P. Crease conduziu uma enquete em seu blogue no Physics World, sobre as maiores equações de todos os tempos (o que acabou rendendo seu livro citado mais acima), a identidade de Euler empatou em primeiro lugar juntamente com as quatro equações de Maxwell do eletromagnetismo.
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Fonte: xkcd
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O fato de a identidade envolver três (ou quatro) constantes matemáticas proeminentes é constanfrequentemente citado em sua classificação como belo. Mas apenas isso basta para justificá-lo como tal? O filósofo mexicano Ulianov Montaño Juarez considera um panorama maior:

"The aesthetic experience associated with Euler’s identity depends not only on the person’s inner events occurring during the act of contemplating the formula, but also on things like a person’s knowing the mathematics which allows us to make sense of the sign e^(i.π) + 1 = 0, the way a person’s preferences were formed, other people’s opinions, and so forth. The aesthetic experience of Euler’s identity depends on events that are not necessarily occurring at the exact moment of the experience, but which have an influence on it; that is, the process of experiencing Euler’s identity is embedded in a larger aesthetic-process." P: 86.
["A experiência estética associada à identidade de Euler depende não apenas dos eventos internos à pessoa que ocorrem durante o ato de se contemplar a fórmula, mas também de coisas como a pessoa conhecer a matemática que permite fazer sentido dos símbolos e^(i.π) + 1 = 0, o modo como as preferências da pessoa são formados, a opinião de outras pessoas e assim por diante. A experiência estética da identidade de Euler depende de eventos que não ocorrem necessariamente no momento exato da experiência, mas que têm influência sobre ela; isto é, o processo de experienciar a identidade de Euler é embutida em um processo estético mais amplo."]

Montano, U. 2014. Explaining Beauty in Mathematics: An Aesthetic Theory of Mathematics. Springer. 224 pp.
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A história da identidade de Euler é um tanto enigmática. Certamente o matemático suíço Leonhard Euler (1707-1783) foi o primeiro a obter a fórmula e^(i.v) = cos v + i.sen v e demonstrá-la com rigor matemático no capítulo 8 de seu Introductio in analysin infinitorum. Mas ele nunca escreveu a identidade e^(i.π) + 1 = 0. O mais próximo a que chegou foi o equivalente: ln(−1) = πi. (Sandifer, C.E. 2014. How Euler did even more. MAA. 240pp. Pp: 83-7.)

quinta-feira, 18 de junho de 2015

DC = RP? Leitores comentam

Subo aqui comentários à postagem em que discuto a distinção feita pelo jornalista Bernardo Esteves entre jornalismo científico e divulgação científica.

O jornalista Carlos Orsi, do blogue Olhar Cético, da revista Galileu, e da ACI da Unicamp, escreve:
"Uma coisa que me incomoda um pouco nessas discussões é o uso impreciso da palavra 'ciência'. Que pode ser referir à busca de conhecimento sobre o mundo material, pode se referir aos instrumentos e métodos usados nessa busca, pode se referir às instituições e às pessoas que, na civilização atual, são encarregadas de usar esses instrumentos e executar essa busca. Muito do debate sobre jornalismo científico, principalmente o inspirado no meio acadêmico 'de humanas', tente a tomar a terceira acepção pelo todo: a ideia da "construção social forte" das ciências ainda paira muito por aí."
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A jornalista Verônica Soares, do Minas Faz Ciência/Fapemig, diz:
"Tem um aspecto interessante nessa discussão que raramente é abordado: o fato de que muitas assessorias de imprensa e programas de divulgação das instituições se apropriam das técnicas do jornalismo para divulgar ciência (principalmente em revistas especializadas). Mas, nesses casos, nem sempre há uma busca pelo contraditório, nem sempre há um questionamento mais contundente ao cientista, porque o jornalismo praticado é um jornalismo "institucional", de release, pautado pelas instituições de fomento, por exemplo. Particularmente, acho que esse tipo de divulgação também tem seu lugar e não há demérito em fazer assessoria de imprensa para a ciência, mas o quadro demonstra que há jornalismos, plurais, ou seja, não é só uma questão de fazer a pauta, entrevistar, apurar, mas de identificar de que jornalismo estamos falando. Infelizmente, acho que há cada vez menos espaço para a produção de um jornalismo crítico como o que o Bernardo Esteves defendeu e crescem os Programas e Projetos relacionados ao jornalismo mais institucional, feito no âmbito das assessorias."

terça-feira, 16 de junho de 2015

Divulgação científica = relações públicas das ciências?

O jornalista Bernardo Esteves, da Piauí, faz uma interessante reflexão, em seu blogue "Questões da Ciência", sobre o papel do jornalista de ciências a partir de debate ocorrido na Conferência Mundial dos Jornalistas de Ciências - WCSJ 2015. A necessidade de se postar criticamente em relação ao conhecimento científico e de tornar o processo de produção desse conhecimento mais transparente ao público.

Discordo apenas de um ponto em que ele contrapõe jornalismo de ciências e divulgação científica: "Mas é importante não perder de vista que os profissionais dos dois campos atendem a interesses distintos – se os divulgadores têm como função aproximar a ciência da sociedade, aos jornalistas cabe defender os leitores e cidadãos". Esteves não é nem de longe o único a fazer, mais do que distinção, uma antítese entre os dois conceitos.

No meu entender, o jornalismo de ciências *é* uma *forma* de divulgação científica, uma modalidade dela. No GR, na primeira postagem da série sobre divulgação científica expressei a relação aninhada em termos de meios/agentes. Na terceira postagem trouxe definições acadêmicas das expressões, reproduzo-as novamente:

"Divulgação científica: todo tipo de atividade de ampliação e atualização do conhecimento. Envio de mensagens elaboradas mediante a transcodificação da linguagem técnica para uma linguagem compreensível pelo público amplo. Calvo Hernando 2006.

Também se usam as expressões: vulgarização científica, popularização científica e alfabetização científica."

"Jornalismo científico: transmissão ao público, por meio de notícias, reportagens, entrevistas e artigos, o sentido e o sabor do conhecimento científico, assim como suas crescentes implicações sociais, com papel informativo e formativo. Contribui para preencher lacunas escolares e para atualizar o cidadão. Reis 1984.

Conjunto das atividades jornalísticas que se dedica a assuntos científicos e tecnológicos e que se direciona para o grande público não-especializado, por meio de diversas mídias: rádio, televisão, jornais especializados e outras publicações de divulgação. Thiollent 1984.

Não se restringe à cobertura de assuntos específicos de CT&I, o conhecimento científico pode ser usado para compreender melhor qualquer fato, p.e. sobre uma enchente (divulgada na editoria de cidade), um jornalista pode conversar com meteorologistas para entender o fenômeno natural. Oliveira 2002."

Essas definições preservam a missão que muitos jornalistas, incluindo Esteves, atribuem ao jornalismo: de visão crítica dos processos sociais e instrumentação (atenção, não instrumentalização, que seria quase o oposto) cognitiva dos leitores para que possam se posicionar em relação aos temas que os afetam.

Mas, de um lado, não se pode dizer que seja uma missão que se possa (nem que se deva) atribuir exclusivamente ao jornalismo. De outro, não vejo como uma missão necessariamente vinculada ao jornalismo. Não entendo que a distinção seja em termos de objetivos almejados. Para mim, a distinção é tão somente de processos (a distinção mencionada acima de meio pode ser vista como condicionante do processo e/ou condicionado por este) envolvidos na elaboração do texto/mensagem. O jornalismo de ciências é uma modalidade de divulgação científica que lança mão de um conjunto de técnicas e instrumentos jornalísticos como: montagem de pauta, entrevistas com fontes, apuração das informações... (o condicionamento pelo meio pode ser visto por tais técnicas e instrumentos serem demandados pelo ofício em jornais, revistas, canais de rádio e TV em programas de jornalismo... o condicionamento do meio pode ser visto por tais técnicas transformarem os canais efetivamente em um canal jornalístico: digamos um blogue irá assumir uma cara de jornal com textos/mensagem geradas com o uso de tais instrumentos, ao mesmo tempo em que o blogueiro estará atuando como um jornalista).

A transmissão (essencialmente) passiva) do conhecimento científico, a função de aproximação entre ciência e sociedade, sim, são objetivos compatíveis com a divulgação de modo geral, mas não são definidoras dela. Isso é mais uma caracterização da ação de relações públicas. Sim, a divulgação científica *pode* assumir a forma de relações públicas das ciências, mas *não necessariamente* precisa assumir tal feição.

Se se contrapõe jornalismo de ciências à divulgação de ciências, está a se reduzir a última a ação de RP. É mais útil pensar que a DC engloba tanto o JC quanto o RPC (e mais coisas). Do mesmo modo como tanto jornalismo quanto relações públicas pertencem ao grande campo da comunicação social (que inclui ainda outras coisas como publicidade).

A DC tanto pode como muitas vezes assume a forma de crítica às ciências. P.e., o caso mais recente das declarações sexistas do nobelista Timothy Hunt, no mesmo WCSJ 2015, foi bastante analisados por vários blogues de divulgação científica. PZ Myers, em seu Pharyngula, não é e não atua como jornalista ao opinar sobre o caso. Ben Goldacre não é e geralmente não atua como jornalista ao criticar a Big Pharma e a indústria autointitulada "medicina alternativa complementar" (que, via de regra, não é nenhuma das três coisas). Mas ambos estão, sim, atuando como divulgadores de ciências.

Mostrar os intestinos das ciências é uma tarefa nobre do bom jornalismo de ciências, mas não é uma tarefa que só o JC saiba fazer, nem que só ele deva fazer. Não há oposição. Deve haver complementaridade. E essa complementaridade não se dá por um ser uma coisa e outra ser outra coisa. Se, no geral, é mais fácil ao jornalista de ciências ter o afastamento necessário; ao cientista, no geral, é mais fácil ter acesso em primeira mão. Um não jornalista e não cientista também pode contribuir com a DC fazendo a sua análise na posição de cidadão - ou de sua outra expertise (filósofo, cozinheiro, político, dono de casa, empresário, banqueiro, limpador de piscinas...). Se o cientista pode estar preso dentro dos interesses da academia  - ou do complexo político-industrial que sustenta sua pesquisa -, há que se considerar que o jornalista tampouco será necessariamente isento dos interesses que seu veículo representa. Interesses que podem perfeitamente ser legítimos, diga-se. (Idem para outros atores da DC.)

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