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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Gene Repórter ano 10


Hoje completa 9 anos da primeira postagem aqui no GR. Ou seja, estamos agora no ciclo do décimo ano deste blogue.

Em uma rápida conta de engenheiro, não sou a metade da pessoa que costumava ser: cerca de 60% das células que constituíam meu corpo em 27 de novembro de 2008 foram substituídas desde então.

Ainda não existia o Whatsapp (lançado em 24 de fevereiro de 2009), possivelmente hoje, o principal serviço de comunicação instantânea entre os brasileiros, com 120 milhões de contas verde-amarelas. O sistema operacional Android (liberado em 23 de setembro de 2008) tinha poucos meses. A Uber (março de 2009) ainda seria fundada. A Tesla já existia há muito tempo (ao menos em termos tecnológicos - fundada em julho de 2003), mas Elon Musk, no pior ano de sua vida, havia acabado de assumir o comando da empresa (outubro de 2008) e entre novembro e dezembro uma injeção de 50 milhões de dólares da Daimler salvaria a empresa da falência.

A revista Ciência Hoje e Unesp Ciência ainda existiam em versões impressas. Aliás, a Unesp Ciência não, ela só seria lançada no ano seguinte. Desde então, houve um desmonte das editorias de ciência nos principais veículos (dentro de um cenário maior de crise geral no jornalismo). E mesmo os blogues passaram por sua crise de crescimento (e dos eventos mais recentes dessa crise representado pelo fim do Scienceblogs americano e ao mesmo tempo em que parece crescer os condomínios institucionais acadêmicos) e vimos uma diversificação de mídias de divulgação científica na internet: com podcasts e vlogs (a comunidade cresceu a ponto de iniciativa do ScienceVlogs surgir para congregar os vlogueiros de ciência em pt-br), e fora dela, com festivais, cafés e saraus.

O cenário atual para as ciências é tenebroso. Não apenas no Brasil, mas particularmente grave por estas bandas com sucessivos cortes bastante duros no financiamento público para as atividades de ensino e pesquisa. Suscitando vários eventos mundiais e nacionais de mobilização, particularmente no âmbito das Marchas pela Ciência.

Esta crise pelo menos estimulou um debate sobre a necessidade de maior divulgação das ciências, ainda que deva demorar uma ação mais efetiva ou mesmo um planejamento dessas ações. E, também em um cenário mais amplo da crise econômica, ela acabou afetando vários planos para canais de divulgação científica - com o encolhimento das verbas publicitárias que despontavam ao fim de 2014. Não temos ainda modelos de negócios que permitam muitos viverem disso por conta própria. Adsense e cliques não pagam mais o suficiente, veiculação direta de publicidade nos canais igualmente é limitada (em alguns casos, como podcasts as agências ainda não sabem como quantificar e qualificar a audiência; no caso do YT, as métricas são bastante ricas e detalhadas, mas os algoritmos não são muito generosos com canais de ciência - é preciso subir vídeos quase que diariamente, a economia da atenção torna a concorrência severa com distratores como mergulhos em tanques de banho recheados com compostos de propriedades reológicas e colorimétricas suspeitas).

A produção de material de DC se diversificou. Porém, a transformação passou a exigir um nível de sofisticação que envolve muito trabalho. Muito trabalho e baixa remuneração. Quando não obriga a que o divulgador pague do próprio bolso para produzir sua peça: equipamentos de áudio e vídeo, equipe para diagramação, edição e mixagem... Há poucas e concorridas bolsas e editais para DC.

O que reservará o décimo ciclo que ora se inicia? O que poderemos fazer para melhorar a conjuntura em que torna a DC tão necessária e ao mesmo tempo tão difícil?

Experimentos estão sendo feitos: vaquinhas e patronatos, o velho pedido de doação, assinaturas de newsletter, organização em cooperativas de freelances, abertura de EMEIs, venda de brindes e quinquilharias geek, cursos e palestras... Veremos o resultado deles futuramente. Que sejam positivos.

Um ótimo novo ciclo a todos!

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 32

Minhas anotações de AbiGhannam 2016 que traça alguns perfis de comunicadoras de ciências na internet.

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AbiGhannam, N. 2016. Madam science communicator: a typology of women’s experiences in online science. Science Communication 38(4): 468-94. DOI: 10.1177/1075547016655545

Entrevistas via skype com 43 comunicadoras de ciência (escolhidas em votação aberta pelo twitter: as pessoas poderiam indicar até 5 nomes que considerassem de mais destaque; de 170 citadas no total, 64 foram contatadas, com 43 aceitando responder).

Quatro perfis foram considerados (Fig. 1):
.Expressiva/escapista (E/E): comunicação sobre temas complexos por necessidade pessoal ou desejo de fugir do cotidiano;
.Advogada/normalizadora (A/N): normalização da experiência científica para os outros na sociedade para que se identifiquem mais com as ciências ou as aceitem ou defesa de uma causa científica para fazer com que as pessoas se conscientizem da importância e ajam;
.Edutainer (Et): comunicação de tópicos simples com o objetivo de educar as pessoas através do entretenimento;
.Performer/compartilhadora (P/C): comunicação de tópicos básicos de ciência, focado na própria inclinação natural de compartilhar informações com os outros.

Figura 1. Tipologia de comunicadoras científicas online. Eixo horizontal: foco da comunicação; eixo vertical: seleção de temas. Fonte: AbiGhannam 2016.

A Tabela 1 resume as características demográficas e profissionais das entrevistadas.

Tabela 1. Demografia e características das tipologias das comunicadoras. Fonte: AbiGhannam 2016.

Características demográficas Total E/E A/N Et P/C
N 43 10 11 14 8
Idade média (anos) 39,5 45,2 36,9 37,25 39,3
Mais nova 25 35 27 25 25
Mais velha 73 61 55 60 73
Não respondeu 2 0 0 0 0
Etnia
Branca 37 7 9 13 8
Afroamericana 3 2 1 0 0
Hispânica 0 0 0 0 0
Asiática 1 0 1 0 0
Indígena 1 0 0 1 0
Não respondeu 1 1 0 0 0
Estado civil
Mora junto 3 1 2 0 0
Casada 24 6 5 8 5
Solteira 14 2 4 5 3
Não respondeu 2 1 0 1 0
Filhos
Sim 20 6 3 6 5
Não 23 4 8 8 3
Comunicação online
Blog 37 10 10 10 7
Escrita 24 4 7 10 3
Extensão (outreach) 14 0 5 5 4
Formação
Ciências 35 8 9 10 8
Outra 8 2 2 4 0
Outras responsabilidades
Ainda fazendo ciências 16 7 4 2 3
Foi cientista e não é mais 19 1 5 8 5
Nunca fez ciências 8 2 2 4 0
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quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Fim de uma era.

O ScienceBlogs americano encerrou suas atividades ao fim de outubro passado, num Dia das Bruxas, antevéspera de Finados. Sem anúncios grandiloquentes, apenas murmúrios lastimosos de seus blogueiros em tweets relembrando a aventura que foi fazer parte de um marco na divulgação científica na era digital, um dos primeiros condomínios e, durante um tempo, uma das principais referências mundiais em blogues de ciências. Tendo legado deixado uma versão alemã e uma brasileira (o Lablogatórios, condomínio formando em 2008, seria renomeado ScienceBlogs Brasil em 2009 após acordo com o pessoal da SEED, responsável, então, pelo SB matriz: SB-us): ambos sobrevivem ao projeto pai e continuam (o vínculo sempre foi mais unicamente o nome, não havia nenhuma forma de controle editorial por parte da matriz - embora quando, em 2011, o SB-us passou para o controle da National Geographic, ao menos a parte comercial, havia a possibilidade dos projetos filhos também se beneficiarem do acordo: como o direito de utilizarem de imagens da NatGeo).

As postagens não são mais acessíveis no site do SB-us: clicando nos links, o leitor é redirecionado para os novos endereços dos blogues que costumavam ser hospedados no condomínio. Não há nenhum aviso oficial.

Chad Orzel, físico químico, autor do blogue "Uncertain Principle" e que esteve desde o início do SB-us, escreve sobre sua longa passagem pelo condomínio (atualmente escreve para o site da Forbes), mas aparentemente também não tem os detalhes por trás da decisão do encerramento do projeto.

A crise geral dos blogues não deixou o SB-us incólume. Dependendo do serviço utilizado, a estimativa de tráfego mensal é de cerca de 500-600 mil a 1,5-2 milhões de visitantes/mês no último ano. São números respeitáveis, mas aparentemente não o suficiente para se manter como uma empreitada economicamente viável nos Estados Unidos. De todo modo, representa uma estagnação ou declínio frente a cerca de 2 milhões visitantes/mês que havia atingido já em 2010.

Ao mesmo tempo em que quase sempre havia uma ampla liberdade editorial dos blogueiros, parece que sempre foi complicado tornar o SB-us um projeto verdadeiramente rentável. Um infame episódio foi a malfadada tentativa de atrair anunciantes permitindo que mantivessem um blogue dentro do condomínio. A Pepsi criou dentro do SB-us um blogue sobre nutrição, o que causou desconforto em vários blogueiros da casa, e muitos se desligaram do projeto. A parceria acabou naufragando. Mas para PZ Meyers, do Pharyngula, um dos principais nomes do SB-us até sua saída em 2011, o principal problema foi quando do acordo com a NatGeo. Para o biólogo, a imposição de uma padronização da diagramação e uma supervisão editorial mais estrita tolhia essa liberdade. Ele acabou fundando um novo coletivo, o Freethought Blogs. O SB-us readquiriria independência um tempo depois (não sei precisar o momento em que o acordo com a NatGeo se encerrou - se eu conseguir levantar esse dado, atualizo a postagem), mas sem o vigor inicial.

A filósofa Janet D. Stemwedel - que mantinha o blogue Adventure in Ethics and Scienc -, em seu perfil no twitter, rememorou o sentimento de comunidade que havia no início. Acabou se afastando em 2010, insatisfeita com o gerenciamento do projeto que, segundo ela, estaria mais preocupado em gerar um tráfego intenso para o SB-us, mesmo valendo-se de manter um tanto artificialmente polêmicas entre seus blogueiros e outros de fora. À época de sua saída, Bora Zivkovic, do A Blog Around the Clock, também criticava o crescimento do SB-us em número de blogues - cerca de 90 em 2010 - e a perda do sentimento de comunidade e o desgaste das relações.

Embora seja muito triste que um dos pioneiros cerre suas portas, deixa frutos importantes. Não apenas toda uma geração de importantes comunicadores e divulgadores de ciência como Ed Yong ("Not Exactly Rocket Science") e Brian Switek ("Lealaps") passou por lá, como serviu de inspiração para outros projetos, como o Blogs de Ciência da Unicamp e o próprio Lablogatório que viraria o Scienceblogs Brasil. Em tempos em que a divulgação de ciências na internet flui e se diversifica - podcasts, Youtube, facebook, twitter e outras mídias sociais... - o legado do ScienceBlogs americano fica.

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