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segunda-feira, 25 de março de 2019

Evolução dos podcasts de ciência no Brasil

Há um problema de se garantir a representatividade da amostra. Mas, *se* (e é um grande 'se') os podcasts listados no minidiretório aqui do GR forem representativos do universo de podcasts filomáticos brazucas, então parece ter havido um aumento a partir de 2008 com um maior impulso a partir de 2014. Em um movimento algo contrário ao da evolução dos blogues, que parecem ter começado a cair a partir de 2010.

Veja também:
Fabrício Marques/Pesquisa Fapesp. 14.mar.2019. Microfones abertos para a ciência.
Dantas-Queiroz, M.V. et al. 2018. Science communication podcasting in Brazil: the potential and challenges depicted by two podcasts. An. Acad. Bras. Ciênc. 90 (2): 1891-1901.
MacKenzie, L.E. 2019. Science podcasts: analysis of global production and output from 2004 to 2018. Royal Society Open Science 6(1).

Upideite(26.mar.2019):
Atualizado com mais 4 novos podcasts.

domingo, 3 de março de 2019

O que é evolução?

O texto abaixo sobre evolução biológica também estava disponível no site Feira de Ciências, que atualmente encontra-se fora do ar. Ele faz parte da complementação do texto sobre conceituação da vida.

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Introdução
No sentido usual de evolução – aquele que usamos no dia-a-dia – evolução passa a idéia de progresso, melhoria, aperfeiçoamento1.
Em Biologia, EVOLUÇÃO quer dizer apenas "herança (ou descendência) com modificação" – do ponto de vista genético poderemos dizer "alteração das proporções das variantes de um dado gene ao longo das gerações em uma determinada população" 2, 3, 4. Não há a necessidade de nenhuma melhoria em qualquer sentido. Se os indivíduos de uma população, em média, apresentam um pior desempenho5 do que a média dos indivíduos das gerações passadas em uma determinada tarefa (alimentação, reprodução, proteção contra agentes do ambiente, o que for), do ponto de vista da Biologia, ainda assim teremos EVOLUÇÃO.
Para a ocorrência então da EVOLUÇÃO BIOLÓGICA apenas três fatores são necessários: a herdabilidade, a variação e a propagação da característica ou características.
Herdabilidade
A característica ou o conjunto de características deve apresentar a tendência de passar de uma geração a outra via reprodução. Se o compartilhamento das características se deve, por exemplo, ao compartilhamento de um mesmo ambiente não teremos uma EVOLUÇÃO BIOLÓGICA, por mais que haja modificações nessas características ao longo das gerações – certamente ela irá se dever a modificações no ambiente (escassez ou abundância de alimentos, alterações climáticas, surgimento de doenças ou competidores, etc.). Por exemplo, nas últimas décadas a altura média da população humana tem aumentado, mas isso se deve principalmente a uma melhor alimentação e não a pessoas mais altas terem mais filhos do que as pessoas mais baixas.
Variação
Se a característica é biologicamente herdada, mas está presente sob a mesma forma em todos os indivíduos na população, também não pode ocorrer a EVOLUÇÃO BIOLÓGICA – afinal, ela é definida como herança com modificação. É necessário que haja duas ou mais variantes de uma característica na população – certos indivíduos portando uma variante e outros, com outras variantes. Por exemplo, se todos os indivíduos possuem a mesma cor de pêlo, e a cor de pêlo é herdada biologicamente, na geração seguinte todos os indivíduos terão a mesma cor de pêlo que a geração anterior. E com isso não teremos EVOLUÇÃO. Por outro lado, mesmo que houvesse indivíduos com cores de pêlo diferentes: digamos, pretos e brancos – pode não ocorrer a EVOLUÇÃO se a proporção de indivíduos de pêlos brancos (ou pretos) não mudar de uma geração para a outra.
Propagação
Uma variante da característica biologicamente herdada deve aumentar a sua representação na população (conseqüentemente, pelo menos uma das outras variantes deve diminuir a sua representação). Essa representação deve se dar em termos proporcionais. Se ela aumenta (ou diminui) em número de indivíduos que portam essa variante, porém proporcionalmente ela mantém a mesma representatividade na população, não ocorre EVOLUÇÃO BIOLÓGICA, mas tão somente um aumento (ou diminuição) do tamanho da população: por exemplo, se em uma população de 1.000 indivíduos, temos 500 indivíduos com uma enzima não-funcional (sendo uma característica herdada biologicamente) e outros 500 com a enzima normal, e ao longo das gerações passamos a ter 600 indivíduos com essa enzima não-funcional, mas em uma população de 1.200 indivíduos, não teremos um caso de EVOLUÇÃO BIOLÓGICA – a proporção da característica permaneceu constante (50% não-funcional, 50% funcional).

Bibliografia
Darwin, C 1994 Origem das espécies. Belo Horizonte & Rio de Janeiro, Villa Rica, 352 págs.
Freeman, S & Herron, JC 1998 Evolutionary analysis. Upper Saddle River, Prentice Hall, 786 págs.
Gould, SJ 2002 The structure of evolutionary theory. Cambridge, Belknap-Harvard Univ. Press, 1.433 págs.
Notas
Nota1: Por exemplo, a primeira acepção para o termo "evolução" no Dicionário Aurélio (2a ed. - 1986 - Ed. Nova Fronteira - Rio de Janeiro) é: "desenvolvimento progressivo duma idéia, acontecimento, ação, etc.". Cf. nota2.
Nota2: A acepção biológica dada ao termo pelo Aurélio 2a ed.: "teoria que admite a transformação dum agregado de partes homogêneas em outro mais complexo, ou dum conjunto de elementos homogêneos em um agregado de elementos mais diferenciados" passa bastante longe do real entendimento que se tem de evolução em Biologia. Nem há a necessidade de se tornar mais complexo (muitos padrões evolutivos envolvem uma simplificação das estruturas ao longo das gerações – como a perda de pigmentação e olhos de organismos colonizadores de cavernas ou parasitas internos em relação a seus ancestrais, conforme denunciado pela presença de olhos bem desenvolvidos e pele pigmentada de seus parentes próximos que vivem à superfície ou levam uma vida independente), nem uma diferenciação (a partir de uma diversidade original das características – presença de variantes na população – a evolução pode resultar em uma menor diversidade, conforme uma das variantes se espalha – ou diminui de freqüência – veja o fator propagação no texto principal).
Nota3: Após a Revolução Científica, entre os primeiros a considerarem que os organismos modificavam-se através das gerações estavam Erasmus Darwin (1731-1820), médico inglês, avô de Charles Darwin, e o cientistas francês, curador do Jardim Real da França, conde de Buffon (1707-88, Georges Louis Leclerc Buffon). O primeiro a formular uma teoria razoavelmente bem-sucedida para explicar a evolução foi o cientistas francês Jean Baptiste Lamarck (1744-1829, Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck) - em trabalhos desenvolvidos entre 1800 e 1822. Em 1858, parte do trabalho de Charles Darwin (1809-82) é publicado juntamente com os resultados de Alfred Russel Wallace (1823-1913) demonstrando a seleção natural como o motor da evolução. Até a época de Darwin, o neto, o termo utilizado mais freqüentemente era "transmutação". O termo "evolução" foi defendido pelo filósofo inglês, Herbert Spencer (1820-1903). Darwin aceitou a palavra "evolução" somente mais tarde, após a consolidação da expressão.
Nota4: "Descendência com modificação" era a definição empregada por Charles Darwin. "Alteração das proporções das variantes de um dado gene ao longo das gerações" é a definição criada com a Síntese Moderna – ou Neodarwinismo – com a conciliação entre as idéias de Darwin sobre evolução e de Gregor Mendel sobre a herança biológica.

Nota5: "um pior desempenho" – e esse desempenho deve ser herdado biologicamente, isto é, apresentar tendência de passar dos pais para os filhos via reprodução. Veja o fator herdabilidade no texto principal.
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Pra quem quiser saber mais, em nível de divulgação cientifica, recomendo também o livro "Darwin sem Frescuras", de Reinaldo José Lopes e Pirula, que será lançado em breve.

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