PESQUISA

Participe da votação sobre os melhores canais de divulgação científica em português na internet.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Ciência: a longa (longa) marcha 4

De início mesmo com a pressão do orçamento reduzido, que já se anunciava como insuficiente para cobrir, por exemplo, as bolsas durante todo o ano, o pessoal da academia parecia, sim, triste, mas também bastante desmotivado e um tanto resignado. Era o ruim, mas seria inevitável, o lance seria tentar se ajeitar com o que se desenhava - iniciativas como ciência com orçamento baixo ou zero vão um tanto nesse sentido (oquei, é algo pragmático e até prudente, porém pode soar um tanto quanto conformista). Em suma, apesar de reclamações em conversas e postagens de redes sociais a temperatura parecia baixa para protestos.

De um lado, o astronauta Marcos Pontes, titular do MCTIC, apesar de aparentemente sem poder para efetivamente reverter os cortes e contingenciamentos do orçamento na pasta, ao menos se mostrava solícito e solidário. Pelo menos tomava para si a tarefa de dialogar com os demais departamentos do governo e com o legislativo, além de representantes da comunidade científica, para minorar os efeitos. Boa vontade era demonstrada.

Do lado do MEC... o então ministro Ricardo Vélez Rodrigues se mostrava de uma inoperância que paralisava as ações do ministério da educação. Praticamente um cone fora colocado na cadeira frente à pasta. Depois de ser severamente admoestado pelos deputados em sabatina na Câmara, acabou caindo em pouco mais de três meses de governo. Já depois de criar entreveros como a desastrosa sugestão de fazer com que os alunos das escolas pronunciassem o lema de campanha do atual presidente em cerimônias de hasteamento da bandeira, num ato patentemente ilegal por personalismo vetado à administração pública; e que elas fossem filmadas cantando o hino, outra ilegalidade, já que, sem anuência dos pais, imagens de menores de idade não podem ser veiculadas.

Mal o novo ministro da educação, Abraham Weintraub, assumiu, em 8 de abril, o cargo e os atritos com a comunidade educacional e acadêmica escalaram. Inicialmente anunciou o corte (ou contingenciamento - trato como corte no restante do texto) de verbas discricionárias de três universidades federais: a de Brasília, a Fluminense e a da Bahia, supostamente por mau desempenho e por promoverem "balbúrdia", isto é, atos contrários ao governo federal. Como mau desempenho era uma mentira crassa, as federais de modo geral (inclusive as três) estão entre as melhores universidades brasileiras e estão entre as melhores do mundo e, além disso, as avaliações delas vêm melhorando; e o corte por "balbúrdia" é ilegal, seria uma represália do governo federal; anunciou-se que os cortes seriam em todas as IFES e também em institutos e colégios técnicos federais. E pouco depois o ministro falou em cortar as verbas de cursos como Sociologia e Filosofia por não serem úteis. O presidente só piorava a situação ao mentir em entrevista dizendo que pouco se faz pesquisa em universidades públicas (que estariam concentradas em instituições privadas e, depois, também em institutos militares).

A coleção de atos contra a educação e a ciência foi acumulando mal estar entre os pesquisadores e alunos.

Para o dia 8 de maio, um grupo de estudantes da USP organizou um protesto em São Paulo, - que contou com apoio da SBPC, dos Cientista Engajados e da Marcha pela Ciência em São Paulo - com concentração em frente ao Masp a partir das 14h. Entre 600 (minha contagem) e 3.000 (estimativa da organização) pessoas compareceram.

Para o dia 15 de maio, havia um protesto de Greve Geral da Educação convocada pelos sindicatos de profissionais da educação. A pauta inicialmente se referia à reforma da previdência, cujo projeto apresentado pelo atual governo é considerado deletério para a categoria. Mas, com os ataques do governo federal, a pauta se ampliou e o movimento estudantil e dos acadêmicos afluiu para o ato. Era uma defesa geral da educação contra as ações do Palácio do Planalto. Em cerca de 170 cidades houve atos que, segundo algumas estimativas, totalizaram mais de 1,5 milhão de participantes - inclusive secundaristas e estudantes de universidades particulares. O tom belicoso do governo federal se manteve, com o presidente classificando os participantes de "idiotas úteis e imbecis". À véspera chegou a circular o anúncio de que o presidente havia cancelado os cortes, desmentido logo depois por setores do governo. Deputados da base, que testemunharam o presidente anunciar o cancelamento, criticaram o desmentido do recuo e a desinformação gerada. Desinformação também foi a tática do ministro Weintraub, ao comparar o corte de cerca de 30% no orçamento discricionário - o que efetivamente entra no caixa das universidades para o custeio e outras despesas - com o orçamento total (incluindo a parte que não pode ser mexida: salários e aposentadorias) para dizer que seria um corte de apenas 3,5%, ilustrando com chocolates.

A dose se repetiu em 30 de março, com protesto convocado pela UNE e o movimento estudantil. Mais de 130 cidades registraram atos. A tática desinformacional do MEC também se repetiu, com vídeo performático de Weintraub com um guarda-chuva negando os cortes no orçamento do Museu Nacional, prontamente rebatido pela UFRJ. O ataque aos educadores também se repetiu, com o ministro enviando nota às escolas para denunciar professores e pais que divulgassem em horário de aula os protestos, atitude ilegal que fez o MPF solicitar o cancelamento da nota.

O conjunto da obra dos ataques verbais e verborrágicos do novo ministro da educação lhe rendeu um processo pelo MPF, que pede indenização de 5 milhões de reais por danos morais aos estudantes.

Enquanto isso, uma greve geral para o dia 14 de junho está convocada pelas centrais sindicais e provavelmente contará com adesão do setor da educação.

----------------
Enfim o setor acadêmico parece haver aderido às mobilizações de rua e parece contar com apoio da população em geral. Foi necessário um conjunto de ações deliberada e abertamente hostis e persecutórias contra os educadores e os cientistas para se romper a passividade - no limite de total inviabilização das atividades das universidades. Mas, é isso, agora é questão de sobrevivência. Venceremos?*

*Havemos de vencer. Como sociedade.

domingo, 19 de maio de 2019

A (re)união faz... (re)lançamento do ScienceVlogs Brasil

Comentei que novos projetos de DC na internet vêm sendo criados recentemente. Além de novos que surgem e se estabelecem, há também projetos já estabelecidos que se reafirmam.

Entre os últimos está o ScienceVlogs Brasil. Iniciativa lançada há 3 anos de um selo de qualidade de canais científicos no YouTube, o SVBR avança para uma nova fase: consolidando os canais já integrantes e os recém-incorporados ao grupo, busca para futuro breve uma nova expansão com novos parceiros.

Embora já contando com uma audiência considerável de 500 milhões de views (somando o histórico das visualizações acumuladas de todos os canais), o objetivo é expandir o alcance. Para tanto conta com os chamados patronos: personalidades e canais (participando ou não diretamente do selo) com um grande número de seguidores e/ou que atingem um público representativo de minorias (visando a aumentar a diversidade do público - furando o clube do bolinha classe média que tende a ser a maioria dos consumidores de informações de divulgação científica no Brasil e no Mundo). Os patronos irão promover os canais do selo entre seus públicos, enfatizando a necessidade de se preocupar com a qualidade da informação consumida na internet.

Um patrono de peso, p.e., é o canal do médico Dr. Drauzio Varella, que anunciou o apoio à iniciativa.

E, como uma etapa para uma possível incorporação futura, os canais participantes passarão a adotar canais amigos: canais não associados ao SVBR que contarão com a tutoria ou mentoria dos responsáveis pelo canal membro. Dicas sobre como produzir conteúdo de qualidade e embasado serão compartilhadas, aproximando-se de um padrão mínimo exigido para os parceiros da iniciativa.

Live do lançamento:

Vídeo do relançamento:

Vídeo do Dr. Drauzio Varella:

Veja também:
Reinaldo José Lopes. Darwin e Deus. 15.mai.2019. SVBR (Science Vlogs Brasil) entra em nova fase e quer a sua ajuda!
Juliana Sayuri. Nexo Jornal. 18.mai.2019. Esta é a maior rede de divulgação científica no país.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Humanas, demasiado Humanas: Daisa Teixeira Jerônimo - Cinema e Gênero

Lançada pelo biomédico Lucas Zanandrez, do Olá, Ciência!, a hashtag #MinhaPesquisaMinhaBalbúrdia pretendia divulgar a ciência produzida no Brasil e por cientistas brasileiros pelo mundo frente aos recentes cortes/contingenciamentos feitos pelo governo federal de bolsas da Capes e de verbas discricionárias das IFES. Em pouco mais de um dia, mais de 2.000 tweets com a tag foram publicados. Entre as várias linhas de pesquisa, estiveram, claro, as das áreas de Humanidades e Ciências Sociais. E estas atraíram uma certa polêmica. Em especial um tweet sobre como mulheres são representadas no cinema feito por Daisa Teixeira Jerônimo, bacharel em Cinema e Audiovisual e atualmente mestranda da Universidade Nacional de La Plata, Argentina..

Um grande número de respostas questionava a utilidade desse tipo de pesquisa. Não poucas com ataques pessoais à autora. Inclusive de um blogueiro famoso.

A entrevista abaixo com Daisa TJ, como é conhecida, foi concedida por whatsapp ao Gene Repórter e deixo aqui os agradecimentos pela paciência com que a entrevistada respondeu às perguntas.

-----------------------
GR: Oi, Daisa, você pode falar um pouquinho sobre você e sua trajetória acadêmica, como escolheu pesquisar audiovisual e cinema?
Daisa Teixeira Jerônimo: Meu nome é Daisa Teixeira Jerônimo, mas assino meus trabalhos práticos como Daisa TJ. Sou graduada em Cinema e Audiovisual pela Unisul, em Santa Catarina. Eu sempre estudei em colégios dentro de universidades, minha mãe por anos lecionou na Unesc, inclusive uma grande inspiração para mim, ela tem vários livros e artigos publicados. Desde pequena fui incentivada a me desenvolver através da arte, especialmente porque tive dificuldades quando criança com o código escrito (por assim dizer), sempre fui muito audiovisual, literalmente. O Cinema foi algo que, desde que descobri poder ser uma profissão, soou muito certo para mim.

GR: E como surgiu o tema da representação da mulher em filmes dirigidos por mulheres?
DTJ: Começando do começo, em 2013 fui contemplada com uma bolsa de pesquisa e, há 6 anos, fiz a minha primeira investigação sobre Filmes Experimentais feitos por Mulheres. O tema foi sugerido pela minha orientadora, e nos dois anos seguintes continuamos estudando sobre identidade de gênero, sexualidade e representatividade no Cinema Queer. Agora o foco é das Mulheres tanto representadas como representantes, na frente e atrás das câmeras. Isso porque como realizadora senti na pele o que é ser excluída apenas por ser o "sexo frágil", e por não me sentir representada como mulher nos filmes com narrativas e estéticas vindas de homens.

O papel da mulher na arte historicamente é de objeto, não de criador. E isso faz com que a representação que temos da mulher desde o inicio da história da arte seja idealizado, e mais que isso, seja feito por homens para ser visto por homens. No cinema não é diferente, por mais que seja uma forma de linguagem e arte nova (com pouco mais de um século), ainda se reproduzem narrativas normativas que invisibilizam, não só a mulher, mas também outras etnias, sexualidade e afins.

O objetivo da minha pesquisa é visibilizar trabalhos feitos por mulheres e como estas cineastas trabalham estética e narrativamente a construção de personagens.

GR: Você está na Argentina agora, né? Como foi parar aí?
DTJ: Sim, estou na Argentina, cursando mestrado em Estética e Teoria de Belas Artes na Universidade Nacional de La Plata.

Eu já planejava fazer um mestrado e vir a lecionar sobre cinema, porém o plano era pra fazer quando eu tivesse uns 35 anos (atualmente estou com 25). Acontece que, apesar de ter muita experiência na minha área, mudei para São Paulo e não consegui me inserir no mercado de trabalho.

Minha mãe então me incentivou a voltar para a pesquisa, voltar aos estudos. Na época o processo seletivo estava aberto para UNLP e eu resolvi participar, já que não consegui seguir com a minha carreira de realizadora, quero então poder promover o trabalho das mulheres que fazem cinema, por meio de pesquisa.


GR: Aí na Argentina também houve protestos dos cientistas recentemente por causa dos cortes, certo?
DTJ: Sim, aqui as pessoas são muito mais ativistas, os estudantes vão bastante para as ruas. No governo atual, faltando pouco menos de 5 meses para anova eleição, a educação nunca foi um ponto forte. A Argentina está em crise e houve cortes também, principalmente nas áreas de Humanas.
A grande diferença que sinto aqui é que os estudantes lutam pelos seus direitos, nas ruas, não só na internet. Fazem listas de assinaturas, buscam pessoas influentes.

Não que não seja feito no Brasil, é a minha visão de fora. Até por que quando eu estudei conseguir o Fies ou bolsa de estudos era muito mais acessível.

GR: Aqui também o pessoal da academia parece estar começando a querer tomar as ruas. Chegou a acompanhar os protestos do dia 8 de maio?
DTJ: Vi algumas imagens pelo twitter sim, mas não acompanhei diretamente.

GR: E como resolveu tomar parte na campanha da hashtag #MinhaPesquisaMinhaBalbúrdia?
DTJ: Algumas pessoas que eu sigo retuitaram e eu amei a iniciativa. Como estava achando lindo conhecer as pesquisas alheias resolvi compartilhar a minha.

Devo dizer que não esperava a atenção que recebi, muito menos a forma que recebi.

GR: Como foi isso?
DTJ: Eu postei inocentemente apenas para participar de uma #. Não costumo fazer isso e não tenho visibilidade no twitter, geralmente fico falando sozinha lá. Eu só fui ver a repercussão depois de 24h e foi um choque para mim. Eu fiquei extremamente chateada por um momento, porque absolutamente todos os comentários eram menosprezando a minha pesquisa e justificando os cortes de gastos com educação. Até que começaram a aparecer pessoas me apoiando, que foi um alívio.

Só hoje de manhã, na aula do mestrado, que eu entendi que essa reação negativa é exatamente o motivo de eu precisar continuar. As pessoas que me atacaram o fizeram por não compreender a importância de estudos sociais, culturais...

Não sou ingênua em pensar que posso ensinar algo a essas pessoas, que pouco argumentam ou ouvem. Mas posso gerar conteúdo e fomentar algo maior.

E tudo isso sendo que eu não tenho bolsa de pesquisa e nem estudo no Brasil, e ainda assim muitas pessoas vieram em busca do meu tuíte menosprezar um estudo.

GR: E para as pessoas que estão dispostas a argumentar e ouvir, como você explicaria a importância das Humanidades e de sua pesquisa?
DTJ: Para a humanidade poder evoluir precisamos romper com padrões estabelecidos, socialmente necessitamos constantemente nos questionar para encontrar estes padrões enraizados que nos são impostos indiretamente. É uma tendencia humana ter receios em relação a mudanças, especialmente quando o individuo está confortável no papel privilegiado. Minha investigação não é diferente, ela busca por meio de narrativas já existentes pontuar onde e como essa evolução vem ocorrendo (mesmo que lentamente) nos filmes. Isso serve para movimentos feministas, pois, sim, é uma forma de representar a mulher sem objetificá-la. Serve para fomentar pautas acadêmicas em torno do assunto "mulher no cinema", como igualdade de funções e salários.

E serve também para que essas realizadoras sejam reconhecidas, sejam imortalizadas de outra forma além de sua obra. Muitas vezes elas não ganham atenção e análises, e nessa pesquisa é sobre elas: as realizadoras e as obras.

GR: Você falou que estava para fechar uma parceria com uma universidade no Brasil. Seria para continuar a pesquisa aqui? Seria em co-orientação?
DTJ: Eu pretendia fazer uma ponte entre a universidade aqui com uma universidade no Brasil, inclusive ter uma orientadora argentina e outra brasileira. Porém dificilmente será possível com o cenário atual.

GR: E como está a sua situação aí? Pretende voltar ao Brasil?
DTJ: Eu tenho dinheiro para mais uns meses na Argentina, trabalho às vezes com o que aparece. Estou em contato com fundações não governamentais que podem vir a financiar minha pesquisa.

Especialmente fundações que buscam produzir conteúdo sobre igualdade de gênero, fundações feministas que reconhecem a importância de pesquisas como a minha.

Inclusive, essa é uma dica para quem perdeu a bolsa ou pretendia tentar uma bolsa. Buscar fundações não governamentais que se relacionem com o assunto.

Pretendo voltar para lecionar em universidades.

GR: Além das críticas, você mencionou que recebeu também mensagens de apoio. Pode falar mais delas?
DTJ: Fico muito feliz de algumas pessoas usarem do seu tempo para me defender, tentar explicar aos usuários ofensivos o valor da minha pesquisa. Me deu alguma esperança ver que tem gente que reconhece o valor de estudar

GR: E sobre sua pesquisa? Já tem resultados?
DTJ: Eu ainda estou na fase de escolher as obras que analisar com base nos estudos teóricos que venho acumulando.

Posso falar mais sobre as minhas pesquisas anteriores do cinema queer que já foram finalizadas. Os resultados que eu tenho com as minhas pesquisas anteriores servem mais para o meio acadêmico, pois são relacionadas análises fílmicas de filmes experimentais e cinema queer. O cinema queer é considerado um "cinema menor" (em questão de quantidade de produção, não qualidade) por ser filmes com conteúdo, e muitas vezes também em estética, diferenciados, em que quebram com a heteronormatividade, representando minorias LGBT+, além disso a mulher também faz parte deste "cinema menor".

Compreender a representatividade ao longo da história do cinema queer, a evolução e a quebra de paradigmas dentro deste cinema marginalizado é essencial para entender o cinema hoje, o cinema mainstream historicamente aprende com cinema experimental, traz conceitos e técnicas de lá. O cinema feito por mulheres é uma evolução separada do cinema mainstream, é uma revolução pelo simples fato de terem pouquíssimas mulheres nas funções de liderança no Cinema. E isso tudo (história da mulher, da mulher na arte, mulher no cinema) resulta em uma estética e narrativa diferenciada, em que tende muito a não perpetuar uma visão homogênea masculina (e caucasiana, mas isso já é outro tópico).

Pretendo tornar esses estudos mais acessíveis, no caso, não apenas dentro do mundo acadêmico ou dentro do círculo de cineastas. Por muito tempo venho pensando sobre criar um canal no youtube ou um blog, para poder falar sobre isso de forma mais abrangente.

Mas, continuando, entender essa crescente narrativa, essa revolução é benéfico para realizadoras poderem aperfeiçoar ainda mais. Afinal é muito fácil cair em representações ou esteriótipos sociais, o estudo serve para encontrá-los, entender como estão sendo quebrados e também onde ainda há resquícios desses esteriótipos.

GR: Então pretende criar um canal no YouTube? Como seria? Que canais você acompanha? 
DTJ: Eu penso em fazer um canal no YouTube, sim. Já tive uns anos atrás e falava sobre cinema em geral, mas eu não tinha a maturidade que tenho hoje e meu foco hoje em dia seria para um nicho mais restrito, focado no mesmo que minha pesquisa em cinemas menores, de identidade de gênero, sexualidade... Eu acho extremamente importante criar formas de visibilidade mais acessíveis e mais acessadas, afinal o grande público não busca por artigos acadêmicos, procuram por vídeos, o mundo atual é muito visual e eu quero aproveitar disso para criar conteúdo.

Eu faria um canal em que eu poderia abordar temas muito além de Cinema feito por mulheres, poderia ser cinema queer, gênero de filmes, filmes com temáticas queer que chegaram ao Oscar, personagens mulheres fortes em séries grandes. Análise de construção de personagens mulheres em Game of Thrones, por exemplo, daria uma série de vídeos, pois temos várias personagens incríveis e bem construídas.

Como eu já trabalhei com marketing e com youtubers diretamente eu tenho uma boa base de como fazer um conteúdo atrativo para o público, bem como editar e fazer inserts, vinhetas, trabalho de som... Meu maior desafio não é técnico nem de conteúdo, é o falar para a câmera, afinal eu normalmente estou atrás dela.

Claro que eu sei que toda visibilidade na internet culmina em haters, isso seria algo a se trabalhar, mas hoje eu me sinto madura o suficiente para lidar com isso. Como eu acredito na força e na importância dos assuntos que quero abordar, alguns espinhos não serão suficiente para me parar.

Acompanho canais como Tese Onze, Louie Ponto, Carol Moreira, Jout Jout, Pirula, como diversos outros de análises de filmes e séries, produção audiovisual.

GR: Você recebeu convites para palestrar aqui no Brasil, né?
DTJ: Estamos vendo se será possível eu ir palestrar em SP no MIS, como estou na Argentina os custos de transporte seriam muito grandes e é um evento de um coletivo feminista que não tem uma grande verba. Tenho conversado com diversos grupos e coletivos de mulheres artistas que souberam da minha pesquisa devido à exposição que tive no twitter. Como é muito recente ainda estamos conversando sobre entrevistas e palestras, eu pretendo ir para o Brasil no final do ano e assim poder realizar esses projetos. Até lá terei a possibilidade de me estabelecer melhor nas redes sociais, falar mais sobre o assunto plantar sementes para alcançar mais objetivos.

GR: Pra finalizar, o que você diria para as pessoas que acompanharam a polêmica?
DTJ: Eu agradeço a todas as pessoas que me incentivaram, que me defenderam nas redes sociais, agradeço a quem possa ter interesse na minha pesquisa. E o meu recado para toda e qualquer pessoa é que estudar nunca está fora de moda, nunca é um desperdício de tempo ou dinheiro, é um investimento.

-------------------
Os indicados...
Filmes recomendados pela Daisa TJ sobre representatividade de minorias:
Praia do Futuro (2014) e Tatuagem (2013): "ambos filmes queer que tiveram algum reconhecimento nacional".
Que Horas Ela Volta? (2015): "com a Regina Casé, filme incrível dirigido por uma mulher".
Aquarius (2016): "também é interessante de assistir em que a protagonista é uma mulher".

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Especulando: Crise das ciências, DC e ação política

Neste momento particularmente terrível para a ciência brasileira com o contingenciamento de 42% do orçamento da pasta do MCTIC - e com um orçamento que já era reduzido em relação aos anos anteriores - e várias ações do anti-intelectualismo que grassam no governo em várias esferas (de CPI das Universidades em São Paulo, campanhas para filmar e denunciar professores, mentiras ditas sem contestação a respeito da pesquisa em universidades públicas, etc.), a comunidade acadêmico-científica parece apostar em duas fichas: a divulgação científica e o ativismo político.

De um lado, acho mais do que válida e bem vinda a valorização por parte dos cientistas em geral do que muitas vezes era vista como patinho feio do trinômio universitário: a extensão. E dentro da extensão, a DC também muitas vezes gerava mal entendidos - como o famigerado (e certamente falso) "efeito Carl Sagan" - de que acadêmicos que se dedicam à divulgação tendem a ser pouco produtivos em publicações científicas.

Entre outros efeitos, isso deve (acho) redundar em: 1) mais cientistas se dedicando à atividades de DC; 2) mais oportunidades de trabalho para grupos já relativamente organizados de DC; 3) maior preocupação com capacitação e formação dos divulgadores.

Mas me preocupo um tanto com um aparente excesso de esperanças que parte da comunidade científica parece depositar na DC para angariar apoio popular - e, daí, político; e, daí, reverter cortes nos financiamentos e ações anticiência. A DC tem um papel importante a desempenhar, mas a expectativa me parece irreal. Ela não faz mágica.

A DC não é meramente um departamento de relações públicas e assessoria de imprensa e de imagem das ciências. Parte dela pode cumprir tal papel. Mas é também parte da DC desempenhar um papel de observação crítica da prática científica. Denunciar más práticas, relativizar hypes de descobertas - colocando em contexto ou até mesmo apontando possíveis consequências danosas da aplicação de um achado científico, é algo que cabe à DC (seja ou não na vertente do jornalismo científico) - ainda que não exclusivamente à DC, a própria ciência em si tem seus fóruns internos para tal discussão (p.e. a questão sobre o uso ou não de significância estatística como critério dicotômico de aceitação ou não de hipóteses tem sido feita através de artigos científicos e de opinião em publicações científicas e acadêmicas).

Mas mesmo a DC em seu papel de reforçar a confiança nas ciências é limitada. Estudos de persuasão indicam que os variados métodos como uso de humor, metáforas, elementos emotivos, admoestações peremptórias, inoculação preventiva, etc. têm resultados modestos (ainda que positivos) nas atitudes do público em relação às ciências. As pesquisas têm ajudado a conhecer as melhores práticas da DC no quesito convencimento, mas ainda estão engatinhando como uma área de ciência da divulgação de ciências.

A DC precisa vir acompanhada de muitos outros fatores a mudar a relação entre a comunidade científica e a sociedade em que ela se insere. Transparência/accountability e participação democrática são dois termos chave que vêm sendo brandidos e estudados nesse quesito. A comunidade científica se abrir mais para a participação popular na definição de prioridades das pesquisas e discussão das preocupações com as tecnologias em uso e por se introduzir - até mesmo com os não especialistas botando a mão na massa na prática da ciência cidadã. É um processo que exige humildade nem sempre fácil de se aceitar e confiança mútua nem sempre prontamente estabelecida. Porém, o contrário, a desconfiança mútua e a arrogância, trazem o afastamento e estranhamento que só prejudicam a ambos os setores como o cerco à liberdade acadêmica, de um lado, e o ressurgimento de doenças preveníveis por vacinação por conta da baixa adesão, de outro, demonstram bem.

Um outro movimento que a academia tem (re)tomado e que também em histórico recente é alvo de polêmicas internas é o do ativismo político. Marchas e protestos (ainda que de alcance limitado - em parte, justamente por essa resistência da academia a se ver em meio a algo que não é meramente a discussão racional do fazer científico), lobbies (ou, em termo socialmente mais aceitável, grupos de advocacy ou de pressão) (recentemente pelo menos três iniciativas foram organizadas - o Instituto Questão de Ciência, como associação independente de indivíduos; o Observatório do Conhecimento, uma rede de associações discentes do ensino superior; e a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento, a ICTP.br, um movimento conjunto da SBPC com outras sociedades científicas - todas com o objetivo de interlocução com parlamentares para a elaboração de políticas públicas baseadas no conhecimento científico e em defesa da ciência), e talvez num movimento mais ousado: lançando candidatos cientistas a cargos públicos representativos (embora nenhuma entidade científica - até por questões estatutárias e legais - tenha apoiado abertamente algum) cientistas.

Foram durante os anos de chumbo que a SBPC teve alguns de seus momentos de maior relevância, colocando-se como elemento de resistência à perseguição político-ideológica do regime contra acadêmicos, cientistas e intelectuais.

Um terceiro movimento, não organizado (ao menos por enquanto), é o de simplesmente (quase nunca é simples, na verdade) tentar ir buscar oportunidades (e fugir de perseguições) no exterior. Desconheço uma medida do tamanho do brain drain atual (se souberem de estudos estimando o total de cientistas brasileiros que tenham se mudado para o estrangeiro em tempos recentes, por favor, indiquem nos comentários*). É um movimento compreensível, mas, claro, que não tende a ser ativamente incentivado pela academia.

Um quarto busca articular os dois primeiros: DC e ação política. Mas é ainda mais incipiente. E igualmente (ou até mais, talvez) polêmico. É compreensível a resistência uma vez que, sim, é preciso resguardar tanto a prática científica quanto a comunicação pública a respeito dela de vieses que as distorçam. Mas, sem equacionar a questão, a máquina anti-intelectual vem fechando o cerco. Pode ser questão de sobrevivência (até literal).

*Upideite(19.mai.2019): Um grupo da Unicamp está mapeando a diáspora de cientistas brasileiros nos Estados Unidos.

terça-feira, 9 de abril de 2019

Divagação científica - O que é divulgação científica?

Segue abaixo uma pequena compilação não-exaustiva de diferentes definições de divulgação científica (aka comunicação pública de ciências ou compreensão pública de ciências). Adições serão feitas ao longo do tempo à medida em que me deparar com outras definições.

------------------
Bueno. 1988.
"... utilização de recursos, técnicas, processos e produtos (veículos ou canais) para a veiculação de informações científicas, tecnológicas ou associadas a inovações ao público leigo."

Fayard 1988.
"... engloba a soma das atividades que possuem conteúdos científicos vulgarizados e destinados ao público de não especialistas em situação não cativa. Esta definição exclui de seu campo a comunicação disciplinar entre especialistas e o ensino."

Calvo Hernando. 1992.
"... compreende toda atividade de explicação e difusão dos conhecimentos, da cultura e do pensamento científico e técnico, com duas condições, duas reservas: a primeira, que a explicação e a divulgação se façam fora do marco do ensino oficial ou equivalente, a segunda, que estas explicações extra-escolares não tenham como objetivo formar especialistas ou aperfeiçoá-los em seu próprio campo, pois o que se pretende, pelo contrário, é complementar a cultura dos especialistas fora de sua especialidade."

Bryant 2003.
"...the processes by which the scientific culture and its knowledge become incorporated into the common culture."
["... os processos pelos quais a cultura científica e seus conhecimentos se incorporam na cultura comum."]

Burns et al. 2003.
"Science communication (SciCom) is defined as the use of appropriate skills, media, activities, and dialogue to produce one or more of the following personal responses to science (the AEIOU vowel analogy): Awareness, Enjoyment, Interest, Opinion-forming, and Understanding."
["A comunicação pública de ciências é definida como o uso de habilidades, mídias, atividades e diálogos apropriados para produzir uma ou mais das seguintes respostas pessoais em relação às ciências: consciência, diversão, interesse, formação de opinião e compreensão."]

Valério 2005.
"consiste no ato de tornar públicos, popularizar e/ou vulgarizar as ciências através (ou a partir) de instrumentos e práticas sociais de comunicação, objetivando fundamentalmente a promoção da educação científica e tecnológica da audiência; um esforço dirigido àqueles sem formação específica sobre em ciência (desde o carente em educação básica até o cidadão culto, inclusive os com formação superior em áreas distintas). Ainda a esse respeito, embora congregue práticas diversas como as exposições interativas, o teatro e a literatura, as abordagens críticas à divulgação científica se direcionam principalmente a prática do jornalismo científico, sobretudo aos meios de comunicação de massa."

Ogawa 2012.
"... purposive intervention by a driving actor or a group of driving actors to alter the present state of the relationship between sciences and society toward their desired state"
["... intervenção proposital por um agente ou um grupo de agente que alteram o estado atual da relação entre as ciências e a sociedade para um estado desejado."]

Joubert & Guenther 2017.
"... the communication of scientific information - by scientists - to people not involved with research in the same field."
["... a comunicação de informações científicas - por cientistas - para pessoas não envolvidas com pesquisa no mesmo campo de conhecimento."]

NASEM 2017.
"... the exchange of information and viewpoints about science to achieve a goal or objective such as fostering greater understanding  of science and scientific methods or gaining greater insight into diverse public views and concerns about the science related to a contentious issue."
["... a troca de informações e pontos de vista sobre ciência para atingir uma meta ou objetivo tais como fomentar uma maior compreensão da ciência e métodos científicos ou ganhar um insight maior sobre as diferentes visões e preocupações do público sobre ciência relacionadas a questões polêmicas."]

Referências
Bueno, Wilson da Costa. 1988. Jornalismo científico no Brasil: aspectos teóricos e práticos. São Paulo: CJE /ECA-USP, 1988.
Bryant, C. 2003. Does Australia Need a More Effective Policy of Science Communication? International Journal for Parasitology 33 (4): 357–361.
Burns, TW, O’Connor, DJ, & Stocklmayer, S.M. 2003. Science Communication: A Contemporary Definition. Public Understanding of Science, 12(2), 183–202.
Calvo Hernando, Manuel. 1992. Periodismo Científico. Madrid: Paraninfo. Apud Beltrão & Sayago 2008.
Fayard, Pierre 1988. La Communication Scientifique Publique. De la Vulgarization a la Médiatisation, Lyon, Chronique Social, pp. 11-12.. Apud Massarani 1998.
Joubert, Marina  and  Guenther, Lars. 2017. In the footsteps of Einstein, Sagan and Barnard: Identifying South Africa's most visible scientists. S. Afr. j. sci. 113 (11-12):1-9.
NASEM. 2017. Communicating Science Effectively: A Research Agenda. National Academies Press 152 pp.
Ogawa, Masakata. 2012. Towards a 'Design Approach' to Science Communication. In Gilbert, JK. & Stocklmayer, SM. (eds) "Communication and Engagement with Science and Technology", Routledge, 352 pp.
Valério, Marcelo. 2006. Os desafios da divulgação científica sob o olhar epistemológico de Gaston Bachelard.In Nardi, R. & Borges, O. (orgs.) Atas do 5o. Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, realizado em Bauru, no ano de 2005. ABRAPEC, 2006. . http://abrapecnet.org.br/atas_enpec/venpec/conteudo/artigos/3/pdf/p153.pdf (adido em 19.abr.2019)
------------------
Veja também:
4 Curiosos. 07.abr.2019. Divagando na Divulgação.
Larissa Santana/A Ciência Explica. 21.fev.2019. O que é Divulgação Científica?

segunda-feira, 1 de abril de 2019

É mentira, Terta? - Apareceu a margarida, olê, olê, olá...

A maioria das plantas atraem polinizadores por oferta de alimentos (com néctar) ou por falsa oferta de alimentos com formas e cheiros que imitam comida (ou substrato de oviposição - que serve de alimento para as larvas). Uma menor parte explora as necessidades sexuais dos polinizadores - especialmente os machos - produzindo fragrâncias que imitam as companheiras e mesmo estruturas que se parecem com a forma da fêmea do agente.

É o caso, por exemplo, da margarida Gorteria diffusa. Ela se parece com as demais margaridas, mas algumas de suas "pétalas" (na verdade, flores do raio, as mais periféricas do capítulo floral) apresentam uma mancha escura texturizada que se parece com moscas bombyliídeas.

Margarida Gorteria diffusa com manchas escuras em algumas "pétalas" (flores do raio). Fonte: A: Wikimedia Commons; B: Wikimedia Commons.
A distribuição das manchas varia de inflorescência para inflorescência e isso se distribui ao longo de um gradiente ambiental. Nas "flores" (inflorescências) em que as manchas ocorrem em todas as "pétalas", formando um anel escuro ao redor do disco central do capítulo, as moscas atraídas exibem basicamente apenas comportamento de alimentação; nas "flores"com apenas duas ou três manchas separadas, observam-se comportamentos de cópulas entre os visitantes.

Para Ellis & Johnson 2010 a variação reflete uma eficiência estratégica na atração de polinizadores. As fêmeas são menos atraídas para as "flores" com manchas que imitam as moscas, por outro lado, os machos, ao realizarem movimentos copulatórios, acabam transferindo mais pólen entre as "flores". Assim, hipotetizam os autores, isso pode refletir uma diferença local da disponibilidade do pólen (densidade de plantas, talvez) e seu papel como fator limitante ou não para a fertilidade das flores femininas.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Evolução dos podcasts de ciência no Brasil

Há um problema de se garantir a representatividade da amostra. Mas, *se* (e é um grande 'se') os podcasts listados no minidiretório aqui do GR forem representativos do universo de podcasts filomáticos brazucas, então parece ter havido um aumento a partir de 2008 com um maior impulso a partir de 2014. Em um movimento algo contrário ao da evolução dos blogues, que parecem ter começado a cair a partir de 2010.

Veja também:
Fabrício Marques/Pesquisa Fapesp. 14.mar.2019. Microfones abertos para a ciência.
Dantas-Queiroz, M.V. et al. 2018. Science communication podcasting in Brazil: the potential and challenges depicted by two podcasts. An. Acad. Bras. Ciênc. 90 (2): 1891-1901.
MacKenzie, L.E. 2019. Science podcasts: analysis of global production and output from 2004 to 2018. Royal Society Open Science 6(1).

Upideite(26.mar.2019):
Atualizado com mais 4 novos podcasts.

domingo, 3 de março de 2019

O que é evolução?

O texto abaixo sobre evolução biológica também estava disponível no site Feira de Ciências, que atualmente encontra-se fora do ar. Ele faz parte da complementação do texto sobre conceituação da vida.

-----------------------
Introdução
No sentido usual de evolução – aquele que usamos no dia-a-dia – evolução passa a idéia de progresso, melhoria, aperfeiçoamento1.
Em Biologia, EVOLUÇÃO quer dizer apenas "herança (ou descendência) com modificação" – do ponto de vista genético poderemos dizer "alteração das proporções das variantes de um dado gene ao longo das gerações em uma determinada população" 2, 3, 4. Não há a necessidade de nenhuma melhoria em qualquer sentido. Se os indivíduos de uma população, em média, apresentam um pior desempenho5 do que a média dos indivíduos das gerações passadas em uma determinada tarefa (alimentação, reprodução, proteção contra agentes do ambiente, o que for), do ponto de vista da Biologia, ainda assim teremos EVOLUÇÃO.
Para a ocorrência então da EVOLUÇÃO BIOLÓGICA apenas três fatores são necessários: a herdabilidade, a variação e a propagação da característica ou características.
Herdabilidade
A característica ou o conjunto de características deve apresentar a tendência de passar de uma geração a outra via reprodução. Se o compartilhamento das características se deve, por exemplo, ao compartilhamento de um mesmo ambiente não teremos uma EVOLUÇÃO BIOLÓGICA, por mais que haja modificações nessas características ao longo das gerações – certamente ela irá se dever a modificações no ambiente (escassez ou abundância de alimentos, alterações climáticas, surgimento de doenças ou competidores, etc.). Por exemplo, nas últimas décadas a altura média da população humana tem aumentado, mas isso se deve principalmente a uma melhor alimentação e não a pessoas mais altas terem mais filhos do que as pessoas mais baixas.
Variação
Se a característica é biologicamente herdada, mas está presente sob a mesma forma em todos os indivíduos na população, também não pode ocorrer a EVOLUÇÃO BIOLÓGICA – afinal, ela é definida como herança com modificação. É necessário que haja duas ou mais variantes de uma característica na população – certos indivíduos portando uma variante e outros, com outras variantes. Por exemplo, se todos os indivíduos possuem a mesma cor de pêlo, e a cor de pêlo é herdada biologicamente, na geração seguinte todos os indivíduos terão a mesma cor de pêlo que a geração anterior. E com isso não teremos EVOLUÇÃO. Por outro lado, mesmo que houvesse indivíduos com cores de pêlo diferentes: digamos, pretos e brancos – pode não ocorrer a EVOLUÇÃO se a proporção de indivíduos de pêlos brancos (ou pretos) não mudar de uma geração para a outra.
Propagação
Uma variante da característica biologicamente herdada deve aumentar a sua representação na população (conseqüentemente, pelo menos uma das outras variantes deve diminuir a sua representação). Essa representação deve se dar em termos proporcionais. Se ela aumenta (ou diminui) em número de indivíduos que portam essa variante, porém proporcionalmente ela mantém a mesma representatividade na população, não ocorre EVOLUÇÃO BIOLÓGICA, mas tão somente um aumento (ou diminuição) do tamanho da população: por exemplo, se em uma população de 1.000 indivíduos, temos 500 indivíduos com uma enzima não-funcional (sendo uma característica herdada biologicamente) e outros 500 com a enzima normal, e ao longo das gerações passamos a ter 600 indivíduos com essa enzima não-funcional, mas em uma população de 1.200 indivíduos, não teremos um caso de EVOLUÇÃO BIOLÓGICA – a proporção da característica permaneceu constante (50% não-funcional, 50% funcional).

Bibliografia
Darwin, C 1994 Origem das espécies. Belo Horizonte & Rio de Janeiro, Villa Rica, 352 págs.
Freeman, S & Herron, JC 1998 Evolutionary analysis. Upper Saddle River, Prentice Hall, 786 págs.
Gould, SJ 2002 The structure of evolutionary theory. Cambridge, Belknap-Harvard Univ. Press, 1.433 págs.
Notas
Nota1: Por exemplo, a primeira acepção para o termo "evolução" no Dicionário Aurélio (2a ed. - 1986 - Ed. Nova Fronteira - Rio de Janeiro) é: "desenvolvimento progressivo duma idéia, acontecimento, ação, etc.". Cf. nota2.
Nota2: A acepção biológica dada ao termo pelo Aurélio 2a ed.: "teoria que admite a transformação dum agregado de partes homogêneas em outro mais complexo, ou dum conjunto de elementos homogêneos em um agregado de elementos mais diferenciados" passa bastante longe do real entendimento que se tem de evolução em Biologia. Nem há a necessidade de se tornar mais complexo (muitos padrões evolutivos envolvem uma simplificação das estruturas ao longo das gerações – como a perda de pigmentação e olhos de organismos colonizadores de cavernas ou parasitas internos em relação a seus ancestrais, conforme denunciado pela presença de olhos bem desenvolvidos e pele pigmentada de seus parentes próximos que vivem à superfície ou levam uma vida independente), nem uma diferenciação (a partir de uma diversidade original das características – presença de variantes na população – a evolução pode resultar em uma menor diversidade, conforme uma das variantes se espalha – ou diminui de freqüência – veja o fator propagação no texto principal).
Nota3: Após a Revolução Científica, entre os primeiros a considerarem que os organismos modificavam-se através das gerações estavam Erasmus Darwin (1731-1820), médico inglês, avô de Charles Darwin, e o cientistas francês, curador do Jardim Real da França, conde de Buffon (1707-88, Georges Louis Leclerc Buffon). O primeiro a formular uma teoria razoavelmente bem-sucedida para explicar a evolução foi o cientistas francês Jean Baptiste Lamarck (1744-1829, Jean Baptiste Pierre Antoine de Monet, Chevalier de Lamarck) - em trabalhos desenvolvidos entre 1800 e 1822. Em 1858, parte do trabalho de Charles Darwin (1809-82) é publicado juntamente com os resultados de Alfred Russel Wallace (1823-1913) demonstrando a seleção natural como o motor da evolução. Até a época de Darwin, o neto, o termo utilizado mais freqüentemente era "transmutação". O termo "evolução" foi defendido pelo filósofo inglês, Herbert Spencer (1820-1903). Darwin aceitou a palavra "evolução" somente mais tarde, após a consolidação da expressão.
Nota4: "Descendência com modificação" era a definição empregada por Charles Darwin. "Alteração das proporções das variantes de um dado gene ao longo das gerações" é a definição criada com a Síntese Moderna – ou Neodarwinismo – com a conciliação entre as idéias de Darwin sobre evolução e de Gregor Mendel sobre a herança biológica.

Nota5: "um pior desempenho" – e esse desempenho deve ser herdado biologicamente, isto é, apresentar tendência de passar dos pais para os filhos via reprodução. Veja o fator herdabilidade no texto principal.
-----------------------

Pra quem quiser saber mais, em nível de divulgação cientifica, recomendo também o livro "Darwin sem Frescuras", de Reinaldo José Lopes e Pirula, que será lançado em breve.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Não-resenha: "Darwin Sem Frescura". Reinaldo José Lopes & Pirula 2019.

Obra: "Darwin sem Frescura"
Autores: Reinaldo José Lopes & Pirula
Ano: 2019
Pp: 256.
Ed: HarperCollins
ISBN: 0000185574.

--------------------
O Reinaldo José Lopes e o Pirula escreveram um livro a... eu ia dizer que acho a expressão "a quatro mãos" engraçada porque a gente só usa uma das mãos pra escrever, mas me lembrei que o manuscrito foi escrito no computador e a maioria das pessoas usa as duas mãos (mesmo pra catar milho), então seriam mesmo "quatro mãos" como o Reinaldo fala, mas, enfim, o livro foi escrito em parceria pelos dois.

Abaixo vai uma apresentação da obra pelo próprio Pirula.


À medida que surgirem resenhas e outros vídeos, áudios e textos comentando sobre o livro ponho numa lista aqui mesmo nesta postagem. A obra já está em pré-venda na Amazon (os primeiros 1.000 exemplares vêm com direito a autógrafos).

Manterei minha política de não resenhar obras de amigos - não é uma política rija, mas, enfim, é uma politica. É o primeiro livro do Pirula (e cometo a indiscrição de dizer que não será o último) e nem de longe é o primeiro do premiado Reinaldo (como Pirula fala no vídeo), ambos são mais do que gabaritados tanto para manter a correção científica das informações apresentadas no texto como para produzir uma obra atrativa para o público não especializado (tive o privilégio de ler o manuscrito informalmente, jargões não são atirados a esmo, quando palavras mais técnicas são mencionadas, vem com a devida explicação do significado).

O que noto é que, embora livros de divulgação científica (ainda que com altos e baixos) nunca tenham deixado de ser publicados (desde a introdução da prensa de tipos móveis na Europa), mesmo obras em português e de autores brasileiros, dá pra (ao menos tentativamente) colocar esse lançamento no que identifico como um certo reaquecimento da DC brasileira - ao menos a DC internética. É meio paradoxal colocar uma obra em meio tradicional, ainda mais um físico, dentro de um movimento eminentemente digital, mas - em um contexto maior é um movimento que engloba não apenas a DC, p.e. Kéfera foi pros cinemas e TV, vários YouTubers lançaram livros... - parece estar dentro de uma possível onda de agitação entre os comunicadores de ciência e afins (dentro do quê o bochincho em torno da proposta da Nil Moretto também se encaixa). Não um movimento institucionalmente centralizado, nem mesmo motivado primordialmente pela academia, mas um sentimento que parece perpassar a comunicação entre os próprios divulgadores independentes. (Acho que interessados em estudar a DC teriam uma boa hipótese para averiguar aí, hein?)

O Atila Iamarino e a Paloma Sato abriram vagas para freelances de produtores de conteúdo e pro pessoal de animação e audiovisual. E, a novidade, para projeto que não tem relação com o Nerdologia.

Então não é apenas que novos atores estão entrando, mas o pessoal já estabelecido também está diversificando a atuação, criando novas frentes.

É chato que não tenhamos um índice, como há o PIB para medir o nível de atividade econômica, para medir o nível das atividades de divulgação. Pode ser que esses exemplos de que tenho conhecimento não reflitam o cenário geral, por exemplo. Se o cv lattes fosse mais amigável na sua aba de DC e alguém tomasse a iniciativa de monitorar a produção, poderia ser um indicador - ainda que mais restrito ao pessoal com algum vínculo acadêmico (boa parte dos jornalistas e gente sem ligação com a academia acabariam foram de tal índice).

Veja também:
Leonardo Carvalheira(Watson)/Dispersciência (07.fev.2019): Li "Darwin Sem Frescura" (de Pirula e Reinaldo) na íntegra.
Reinaldo José Lopes (12.mar.2019): "Darwin Sem Frescura", meu livro com Pirula, vem aí!!!.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Sobre a hipótese Nil Moretto: ocupar espaços com ciência combate desinformação?

A jornalista Nil Moretto, do canal Cadê a Chave?, tuitou a respeito da necessidade de cientistas e especialistas se comunicarem mais diretamente com o público:
A proposta foi bastante disseminada: mais de 4.000 retweets e 20 mil curtidas até o momento; e bastante comentada, quase 390 respostas diretas, mais RTs comentados e menções indiretas.

Vários divulgadores se apresentaram como já ocupando espaços no Youtube (como o pessoal do SVBr), twitter e outras mídias sociais. Uma compilação de podcasts e canais no YT começou a ser feita: primeiro no GDocs por iniciativa de Gabriela Sobral, dos Dragões de Garagem, e depois no GitHub (lista aqui), por @Brilvio e @ChofenAdulto.

---------------
Acho que a hipótese da Nil Moretto - de que uma participação maciça e massiva de cientistas e pesquisadores nas mídias sociais falando de ciências ajudaria a diminuir o problema das fake news, das teorias conspiratórias, da anticiência e cia. -  merece ser testada, ainda que eu seja pessoalmente reticente.

Minha reticência parte de uma discordância no diagnóstico de Moretto: de que há carência de informação. Como citei acima, vários divulgadores começaram a apresentar a si e a seus projetos aproveitando a repercussão. Há informação de qualidade presente em todas as plataformas e em uma quantidade razoável, mas, mais do que isso, facilmente localizáveis. É difícil diagnosticar exatamente por que tais informações não circulam muito pra fora das bolhas. Claro que sempre se pode alegar que é pelo simples fato de o público não se interessar pelas ciências - embora pesquisas de percepção captem uma *declaração* de interesse, a quantidade de informação retida (possivelmente refletindo o baixo consumo) é pequena (poucos conseguem nomear uma instituições brasileira de pesquisa ou um cientista nacional). De qualquer modo, embora um maior número de pontos na rede (cientistas) possam ajudar no volume de informação circulante, é um tanto duvidoso de que isso bastaria para fazê-la romper as bolhas: as conexões de cientistas tendem a ser muito similares, atraindo já um público interessado e que consome informações científicas.

Mas isso é pouco mais do que um palpite meu. Daí que acho que mereça uma investigação. Pode, sim, ser o caso de que a hipótese Moretto esteja correta.

Aqui no GR comentei anteriormente alguns pontos de potenciais vantagens: para os cientistas, para a comunidade científica/acadêmica, para o cidadão comum e para a sociedade - de haver divulgação das ciências.

Entre os ganhos potenciais, podemos destacar:
.para os cientistas: 1) maior visibilidade da pesquisa, 2) construção da reputação (virar referência para a comunidade externa), 3) melhora da habilidade comunicativa interpessoal.
.para as ciências: 1) maior apoio a ela, 2) criação de uma base de comunicação, 3) atração de talentos.
.para a sociedade: 1) aumento da confiança nas ciências, 2) população tomando decisões bem informadas.

Mas há riscos potenciais também:
.para os cientistas: 1) haters, negacionistas, anticiência, fanáticos, 2) resistência da própria comunidade científica (inclusive com risco à carreira).
.para as ciências: 1) efeito backfire (especialmente sem um preparo prévio adequado dos cientistas comunicadores), 2) queda da produção acadêmica (a boa comunicação é uma atividade que consome recursos, tempo e energia).
.para a sociedade: 1) diminuição da confiança no conhecimento científico por backfire (políticas públicas que ignoram as ciências podem dar problemas bastante graves), 2) criação de pseudoespecialistas (os que vão surfar na onda, ocorrência de efeito Dunning-Kruger), 3) queda na produção científica.

São resultados que potencialmente podem ocorrer e, ao menos em casos isolados, há registros de sua ocorrência. Mas prevalecem os efeitos benéficos ou os prejudiciais? A diversidade de vozes se torna mais democrática ou passa a ocorrer interferência e ruído?

Isso apenas testes controlados podem ajudar a responder.

Veja também:
Leitura ObrigaHistória. 05.fev.2019. Ocupando espaços virtuais com ciências: alguns apontamentos.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Um ano atribulado: retrospectiva da DC no Brasil #AmigoCientista

Vários youtubeiros de ciências se reuniram em uma brincadeira de amigo secreto e o Gene Repórter entrou nessa. Epa! Mas o GR não é vlog... TLDR: Não importa. Entramos de café com leite.

O presente é fazermos um conteúdo (vídeo para a maioria, uma postagem aqui do penetra) relacionado com o canal que tiramos no sorteio para o público tentar adivinhar quem é o presenteado. Então lá vai, quem foi que tirei?

--------------------------
*Meu amigo secreto ou minha amiga secreta participou ativamente de pelo menos um dos eventos abaixo.

O ano de 2018 foi terrível para as ciências no Brasil. Mais cortes e mais drásticos no financiamento, o anunciado incêndio do Museu Nacional com uma perda irreparável de material científico e histórico, o fim (ou ameaça de fechamento) de várias outras instituições científicas importantes (a extinção da Fundação Zoobotânica do RS está suspensa pela Justiça, mas não foi afastada de vez; também está suspenso o leilão do terreno do Planetário do Rio de Janeiro). E há um prenúncio para um ano ainda pior para 2019.

Mas quero falar de algumas coisas que podemos salvar desse desastre - como o crânio da Luzia, o meteorito Angra dos Reis e alguns outros artefatos que sobreviveram (ainda que com eventuais danos) sob os escombros do MN. Tivemos 3 eventos de divulgação científica de destaque: o Conhecer: 1o Encontro de Divulgação Científica, em 19 de maio, em São Paulo, organizado pelo pessoal do Dispersciência, que reuniu centenas de divulgadores científicos em apresentações flash e collabs; o Conhecer Eleições 2018, em 29 de julho, em São Paulo, organizado também pelo Dispersciência em conjunto com os Science Vlogs Brasil e HuffPost Brasil, em que representantes de pré-candidatos e mesmo os próprios pré-candidatos puderam apresentar seus diagnósticos e propostas para a ciência brasileira em sabatina com divulgadores, cientistas e jornalistas; e o Camp do Serrapilheira para projetos de divulgação científica, em que cerca de 850 propostas de todo o Brasil foram apresentadas e, dentre os 50 inicialmente selecionados para o Camp, 12 foram contempladas com grants de até R$ 100 mil cada (fico particularmente feliz por vários amigos meus terem emplacados seus projetos e, mais do que isso, no conjunto serem trabalhos com um potencial muito grande para avançar ainda mais a DC no país).

*Minha amiga ou meu amigo oculto tem um canal de menos de 5 anos.

Grandes eventos já estabelecidos também ocorreram: a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que chegou à 15a edição, e o Pint of Science Brasil, em sua 4a edição. Consolidação de várias outras iniciativas: o Chopp comCiência, já firme em sua base de Campinas, lançou spin-offs no Rio de Janeiro e em BH; o USP Talks chegou ao 25o encontro, e (o que me toca particularmente) a Rede de Blogs de Ciência da Unicamp foi oficialmente instituída por portaria da Reitoria da universidade (o projeto existe desde 2015). E também comemoraram-se os 70 anos da SBPC. E a volta dos que não foram, como o relançamento (em versão digital) do Ciência Hoje das Crianças.

Novas iniciativas e projetos foram lançados como Pergunte a um(a) Cientista, do Via Saber, levando pesquisadores às ruas para conversar com as pessoas; diversos canais: Nunca Vi um Cientista, Via Saber, DivulgaMicro, 37Graus, podcast do Ciência USP... E dois que destacaria: a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência (em processo de institucionalização, mas já existente de fato), uma associação de divulgadores científicos (ocupando o espaço deixado pelas finadas ABJC e Abradic) e o Instituto Questão de Ciência, que tem por objetivo promover o uso de conhecimento científico na formulação de políticas públicas. Dentro do espírito da atuação política mais ativa, vários cientistas e acadêmicos se lançaram candidatos (mas acho que nenhum se elegeu).

Novos cursos de divulgação científica também vêm sendo abertos como o do LAbI/UFSCar: Especialização em Divulgação da C&T e Promoção da Cultura Científica (que se junta a outros já tradicionais de especialização como da Fiocruz e do Labjor); do IQ/USP, com o Prof. Carlos Hotta: Divulgação Científica na Internet; e um aberto Introdução à Divulgação Científica, da Fiocruz Campus Virtual e INCT/CPCT, com as profas. Luiza Massarani e Catarina Chagas. Além de concursos, como o  LIGAndo a Ciência: 1o Concurso Nacional de Divulgação Científica, do pessoal da Liga Nacional de Divulgação Científica (há outros tradicionais como o Science Slam Brasil, organizado pela Euraxess Brasil, e o FameLab Brasil, organizado pelo BritishCouncil).

*Meu amigo ou amiga invisível (e seus comparsas de canal) usa nome artístico.

Enfim, foi um ano movimentado - apesar de as atividades aqui no GR terem diminuído, mas isso, em parte, foi exatamente pela movimentação no cenário geral (p.e. ajudei - ou atrapalhei? - na organização do Pint em Campinas) - para a divulgação científica no Brasil. Velhos projetos retomando o fôlego, novos se consolidando e sendo abertos; de iniciativa individual ou institucional, vinculada à academia ou a empresas. Em parte essa agitação parece ser reflexo exatamente dos terríveis golpes sofridos pela ciência - a necessidade de explicar ainda mais à população a importância das ciências e, por isso, de recompor os níveis de financiamento da pesquisa.

*O símbolo do canal é um capítulo de Taraxacum officinale estilizado com suas cipselas se espalhando a partir de órbitas eletrônicas de um átomo de Bohr também estilizado.

--------------------------


E, então, adivinhou quem eu tirei? E, na sua visão, quais os eventos e fatos mais marcantes das ciências e da DC no Brasil e no mundo? (Não, o filme do Aquaman não conta.)

Veja também quem me tirou e o que eles aprontaram.

-------------
Os canais participantes do Amigo Cientistas são:
A Matemaníaca - Genética ou Matemática? Sim.
Arqueologia Egípcia - Escaravelhos Carnívoros no Egito Antigo?
BláBlálogia/Há ideia 3 - A Física da Evolução
Café e Ciência - Linha de Gelo
Canal Cura Quântica - Jogaram Elementos Radioativos na sua Água (e Isso É Bom)
Delta T - Os Superlentos - Aedes aegypti em Super Câmera Lenta
Dispersciência - Como os Astros Podem Ter Influência na sua Vida
Dragões de Garagem/Notícias da Garagem - Natureza e Beleza
Olá, Ciência! - Qual a Importância das Mulheres na História da Computação?
Papo de Primata - Animais Pequenos Enxergam em Câmera Lenta!
Peixe Babel - A Computação Imita a Vida
Terra Negra

Veja a playlist.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Sim, paraquedas salvam vidas. Problemas das críticas à medicina baseada em evidência e títulos sensacionalistas.

Críticas ao fundamento da medicina baseada em evidências (EBM) usando como uma espécie de metáfora ou paradigma os estudos sobre a eficácia dos paraquedas parecem ter sido inauguradas por Smith e Pell em um artigo de 2003.

Para os autores, como não havia em bases médicas estudos sobre a eficácia dos paraquedas para diminuir injúrias por queda, se levassem os preceitos da EBM, de receitar tratamentos com base em evidências devidamente coletadas, não seria possível receitar o uso de paraquedas para saltar de aviões. Como, claro, faz todo o sentido do mundo usar paraquedas quando for saltar de uma grande altitude, para os autores, isso implicaria em uma falha da EBM.

Mas essa crítica é uma caracterização errônea da EBM. Como Sackett et al. 1996 escreveram: "Evidence based medicine is not restricted to randomised trials and meta-analyses. It involves tracking down the best external evidence with which to answer our clinical questions. To find out about the accuracy of a diagnostic test, we need to find proper cross sectional studies of patients clinically suspect of harbouring the relevant disorder, not a randomised trial. For a question about prognosis, we need proper follow up studies of patients assembled at a uniform, early point in the clinical course of their disease. And sometimes the evidence we need will come from the basic sciences such as genetics or immunology. It is when asking questions about therapy that we should try to avoid the non-experimental approaches, since these routinely lead to false positive conclusions about efficacy. Because the randomised trial, and especially the systematic review of several randomised trials, is so much more likely to inform us and so much less likely to mislead us, it has become the 'gold standard'' for judging whether a treatment does more good than harm. However, some questions about therapy do not require randomised trials (successful interventions for otherwise fatal conditions) or cannot wait for the trials to be conducted. And if no randomised trial has been carried out for our patient's predicament, we must follow the trail to the next best external evidence and work from there." ["A medicina baseada em evidência não é restrita a estudos aleatorizados e meta-análises. Ela envolve buscar indícios externos que podem responder a questões clínicas. Para encontrar a precisão de um teste diagnóstico, precisamos encontrar estudos transversais adequados de pacientes clinicamente suspeitos de terem transtornos relevantes, não de testes aleatorizados. Para uma questão sobre prognóstico, precisamos de estudos adequados de acompanhamento temporal de pacientes reunidos em um ponto inicial uniforme em relação ao desenvolvimento clínico da doença. às vezes os indícios de que necessitamos virão das ciências básicas como a genética e a imunologia. É quando elaboramos questionamentos sobre uma terapia que precisamos evitar abordagens não experimentais, já que elas levam rotineiramente a conclusões sobre a eficácia baseadas em falsos positivos. Porque os estudos aleatorizados e, especialmente, a revisão sistemática de vários estudos aleatorizados, são muito mais prováveis de nos informar e muito menos prováveis de nos enganar, que se tornaram 'padrões ouro' na hora de julgar se um tratamento faz mais bem do que mal. No entanto, algumas questões sobre uma terapia não requer estudos aleatorizados (intervenções bem sucedidas para condições, de outro modo, fatais) ou não podem esperar para que tais estudos sejam realizados. E, caso nenhum estudo aleatorizado tiver sido realizado para o azar de nosso paciente, devemos seguir a trilha dos indícios que são os melhores a partir daí."]

Ou seja, mesmo se não houver estudos que mostrem diretamente a eficácia do uso de paraquedas para saltar de uma grande altura, pode-se prescrever seu uso com base em outros indícios existentes. Tanto de um ponto de vista teórico: a lei da gravitação e mecânica newtoniana são bem estabelecidas, bem como modelagem aerodinâmica para calcular o arrasto, e prever matematicamente a velocidade terminal da pessoa ao cair de uma determinada altura - e conhecimento do estrago que altas desacelerações causam em organismos modelos e em humanos. Como em bases empíricas: o fato de a velocidade de cargas usadas em testes serem bastante reduzidas; e também pelo histórico de baixa taxa de morte entre os que usam paraquedas (virtualmente zero; com ferimentos graves a uma taxa de cerca de 1 a 2 casos a cada 1.000 saltos) em comparação com pessoas que caem sem paraquedas de alturas até menores (quedas a partir do 8o andar costumam ser 100% fatais, do 6o andar, a taxa de mortalidade é de 80%; pouco mais de 10% do 2o andar e menos de 5%, do 1o andar) - mesmo que não sejam estudos sistemáticos e aleatorizados. No caso totalmente hipotético, em que a ética permitisse realizar com humanos estudos sistemáticos aleatorizados com número suficiente, aí, sim, poderíamos nos valer disso e, garantido que a metodologia seja adequada, se os resultados indicarem o contrário do que dizem esses outros indícios mais indiretos, poderíamos confiar e declarar que os paraquedas seriam inúteis com um razoável grau de confiança.

Esses dados disponíveis da eficácia de paraquedas tornam inúteis os dados de relatos de casos como de Bekerom et al. 2016, com dois eventos em que pessoas caindo de altas altitudes sem paraquedas sobreviveram (sendo que uma caiu sobre uma rede de segurança a 60 metros de altura) ou os experimentos de Yeh et al. 2018 descrevendo o resultado de saltos de aeronaves em solo paradas. O primeiro por serem relatos de caso tipo de indícios muito mais fraco do que um do tipo caso-controle (isso de modo geral, há fatores que alteram a relevância relativa); o segundo por uma falha da metodologia, ao usar alturas não relevantes (ao menos considerando o tamanho amostral utilizado).

Embora críticas a metodologias, teorias e procedimentos científicos sejam importantes para o aperfeiçoamento, elas precisam ser relevantes. Pra começar, precisam mirar em um alvo devidamente caracterizado, não em espantalhos e estereótipos que não condizem com o objeto da crítica. Não se pode acusar a EBM de falhar ao só considerarem válidos dados que venham de estudos aleatorizados quando isso não é verdade. A metodologia dos estudos críticos também precisam ser válidas.

O efeito colateral vai muito além de simplesmente gerar uma crítica mal feita. Tais estudos chamam a atenção e espalham manchetes engraçadinhas como "estudo prova que paraquedas não servem pra nada" - mesmo quando no corpo do texto da notícia explicam os detalhes, muita gente só irá ler o título. É um risco que precisamos ponderar (talvez estudos mais sistemáticos mostrando o quanto isso afeta a percepção sobre a utilidade do paraquedas sejam necessários para uma condenação mais forte; sem falar em estudos sobre o quanto isso afeta a confiança nos prognósticos e prescrições médicos).

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails