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segunda-feira, 13 de maio de 2019

Humanas, demasiado Humanas: Daisa Teixeira Jerônimo - Cinema e Gênero

Lançada pelo biomédico Lucas Zanandrez, do Olá, Ciência!, a hashtag #MinhaPesquisaMinhaBalbúrdia pretendia divulgar a ciência produzida no Brasil e por cientistas brasileiros pelo mundo frente aos recentes cortes/contingenciamentos feitos pelo governo federal de bolsas da Capes e de verbas discricionárias das IFES. Em pouco mais de um dia, mais de 2.000 tweets com a tag foram publicados. Entre as várias linhas de pesquisa, estiveram, claro, as das áreas de Humanidades e Ciências Sociais. E estas atraíram uma certa polêmica. Em especial um tweet sobre como mulheres são representadas no cinema feito por Daisa Teixeira Jerônimo, bacharel em Cinema e Audiovisual e atualmente mestranda da Universidade Nacional de La Plata, Argentina..

Um grande número de respostas questionava a utilidade desse tipo de pesquisa. Não poucas com ataques pessoais à autora. Inclusive de um blogueiro famoso.

A entrevista abaixo com Daisa TJ, como é conhecida, foi concedida por whatsapp ao Gene Repórter e deixo aqui os agradecimentos pela paciência com que a entrevistada respondeu às perguntas.

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GR: Oi, Daisa, você pode falar um pouquinho sobre você e sua trajetória acadêmica, como escolheu pesquisar audiovisual e cinema?
Daisa Teixeira Jerônimo: Meu nome é Daisa Teixeira Jerônimo, mas assino meus trabalhos práticos como Daisa TJ. Sou graduada em Cinema e Audiovisual pela Unisul, em Santa Catarina. Eu sempre estudei em colégios dentro de universidades, minha mãe por anos lecionou na Unesc, inclusive uma grande inspiração para mim, ela tem vários livros e artigos publicados. Desde pequena fui incentivada a me desenvolver através da arte, especialmente porque tive dificuldades quando criança com o código escrito (por assim dizer), sempre fui muito audiovisual, literalmente. O Cinema foi algo que, desde que descobri poder ser uma profissão, soou muito certo para mim.

GR: E como surgiu o tema da representação da mulher em filmes dirigidos por mulheres?
DTJ: Começando do começo, em 2013 fui contemplada com uma bolsa de pesquisa e, há 6 anos, fiz a minha primeira investigação sobre Filmes Experimentais feitos por Mulheres. O tema foi sugerido pela minha orientadora, e nos dois anos seguintes continuamos estudando sobre identidade de gênero, sexualidade e representatividade no Cinema Queer. Agora o foco é das Mulheres tanto representadas como representantes, na frente e atrás das câmeras. Isso porque como realizadora senti na pele o que é ser excluída apenas por ser o "sexo frágil", e por não me sentir representada como mulher nos filmes com narrativas e estéticas vindas de homens.

O papel da mulher na arte historicamente é de objeto, não de criador. E isso faz com que a representação que temos da mulher desde o inicio da história da arte seja idealizado, e mais que isso, seja feito por homens para ser visto por homens. No cinema não é diferente, por mais que seja uma forma de linguagem e arte nova (com pouco mais de um século), ainda se reproduzem narrativas normativas que invisibilizam, não só a mulher, mas também outras etnias, sexualidade e afins.

O objetivo da minha pesquisa é visibilizar trabalhos feitos por mulheres e como estas cineastas trabalham estética e narrativamente a construção de personagens.

GR: Você está na Argentina agora, né? Como foi parar aí?
DTJ: Sim, estou na Argentina, cursando mestrado em Estética e Teoria de Belas Artes na Universidade Nacional de La Plata.

Eu já planejava fazer um mestrado e vir a lecionar sobre cinema, porém o plano era pra fazer quando eu tivesse uns 35 anos (atualmente estou com 25). Acontece que, apesar de ter muita experiência na minha área, mudei para São Paulo e não consegui me inserir no mercado de trabalho.

Minha mãe então me incentivou a voltar para a pesquisa, voltar aos estudos. Na época o processo seletivo estava aberto para UNLP e eu resolvi participar, já que não consegui seguir com a minha carreira de realizadora, quero então poder promover o trabalho das mulheres que fazem cinema, por meio de pesquisa.


GR: Aí na Argentina também houve protestos dos cientistas recentemente por causa dos cortes, certo?
DTJ: Sim, aqui as pessoas são muito mais ativistas, os estudantes vão bastante para as ruas. No governo atual, faltando pouco menos de 5 meses para anova eleição, a educação nunca foi um ponto forte. A Argentina está em crise e houve cortes também, principalmente nas áreas de Humanas.
A grande diferença que sinto aqui é que os estudantes lutam pelos seus direitos, nas ruas, não só na internet. Fazem listas de assinaturas, buscam pessoas influentes.

Não que não seja feito no Brasil, é a minha visão de fora. Até por que quando eu estudei conseguir o Fies ou bolsa de estudos era muito mais acessível.

GR: Aqui também o pessoal da academia parece estar começando a querer tomar as ruas. Chegou a acompanhar os protestos do dia 8 de maio?
DTJ: Vi algumas imagens pelo twitter sim, mas não acompanhei diretamente.

GR: E como resolveu tomar parte na campanha da hashtag #MinhaPesquisaMinhaBalbúrdia?
DTJ: Algumas pessoas que eu sigo retuitaram e eu amei a iniciativa. Como estava achando lindo conhecer as pesquisas alheias resolvi compartilhar a minha.

Devo dizer que não esperava a atenção que recebi, muito menos a forma que recebi.

GR: Como foi isso?
DTJ: Eu postei inocentemente apenas para participar de uma #. Não costumo fazer isso e não tenho visibilidade no twitter, geralmente fico falando sozinha lá. Eu só fui ver a repercussão depois de 24h e foi um choque para mim. Eu fiquei extremamente chateada por um momento, porque absolutamente todos os comentários eram menosprezando a minha pesquisa e justificando os cortes de gastos com educação. Até que começaram a aparecer pessoas me apoiando, que foi um alívio.

Só hoje de manhã, na aula do mestrado, que eu entendi que essa reação negativa é exatamente o motivo de eu precisar continuar. As pessoas que me atacaram o fizeram por não compreender a importância de estudos sociais, culturais...

Não sou ingênua em pensar que posso ensinar algo a essas pessoas, que pouco argumentam ou ouvem. Mas posso gerar conteúdo e fomentar algo maior.

E tudo isso sendo que eu não tenho bolsa de pesquisa e nem estudo no Brasil, e ainda assim muitas pessoas vieram em busca do meu tuíte menosprezar um estudo.

GR: E para as pessoas que estão dispostas a argumentar e ouvir, como você explicaria a importância das Humanidades e de sua pesquisa?
DTJ: Para a humanidade poder evoluir precisamos romper com padrões estabelecidos, socialmente necessitamos constantemente nos questionar para encontrar estes padrões enraizados que nos são impostos indiretamente. É uma tendencia humana ter receios em relação a mudanças, especialmente quando o individuo está confortável no papel privilegiado. Minha investigação não é diferente, ela busca por meio de narrativas já existentes pontuar onde e como essa evolução vem ocorrendo (mesmo que lentamente) nos filmes. Isso serve para movimentos feministas, pois, sim, é uma forma de representar a mulher sem objetificá-la. Serve para fomentar pautas acadêmicas em torno do assunto "mulher no cinema", como igualdade de funções e salários.

E serve também para que essas realizadoras sejam reconhecidas, sejam imortalizadas de outra forma além de sua obra. Muitas vezes elas não ganham atenção e análises, e nessa pesquisa é sobre elas: as realizadoras e as obras.

GR: Você falou que estava para fechar uma parceria com uma universidade no Brasil. Seria para continuar a pesquisa aqui? Seria em co-orientação?
DTJ: Eu pretendia fazer uma ponte entre a universidade aqui com uma universidade no Brasil, inclusive ter uma orientadora argentina e outra brasileira. Porém dificilmente será possível com o cenário atual.

GR: E como está a sua situação aí? Pretende voltar ao Brasil?
DTJ: Eu tenho dinheiro para mais uns meses na Argentina, trabalho às vezes com o que aparece. Estou em contato com fundações não governamentais que podem vir a financiar minha pesquisa.

Especialmente fundações que buscam produzir conteúdo sobre igualdade de gênero, fundações feministas que reconhecem a importância de pesquisas como a minha.

Inclusive, essa é uma dica para quem perdeu a bolsa ou pretendia tentar uma bolsa. Buscar fundações não governamentais que se relacionem com o assunto.

Pretendo voltar para lecionar em universidades.

GR: Além das críticas, você mencionou que recebeu também mensagens de apoio. Pode falar mais delas?
DTJ: Fico muito feliz de algumas pessoas usarem do seu tempo para me defender, tentar explicar aos usuários ofensivos o valor da minha pesquisa. Me deu alguma esperança ver que tem gente que reconhece o valor de estudar

GR: E sobre sua pesquisa? Já tem resultados?
DTJ: Eu ainda estou na fase de escolher as obras que analisar com base nos estudos teóricos que venho acumulando.

Posso falar mais sobre as minhas pesquisas anteriores do cinema queer que já foram finalizadas. Os resultados que eu tenho com as minhas pesquisas anteriores servem mais para o meio acadêmico, pois são relacionadas análises fílmicas de filmes experimentais e cinema queer. O cinema queer é considerado um "cinema menor" (em questão de quantidade de produção, não qualidade) por ser filmes com conteúdo, e muitas vezes também em estética, diferenciados, em que quebram com a heteronormatividade, representando minorias LGBT+, além disso a mulher também faz parte deste "cinema menor".

Compreender a representatividade ao longo da história do cinema queer, a evolução e a quebra de paradigmas dentro deste cinema marginalizado é essencial para entender o cinema hoje, o cinema mainstream historicamente aprende com cinema experimental, traz conceitos e técnicas de lá. O cinema feito por mulheres é uma evolução separada do cinema mainstream, é uma revolução pelo simples fato de terem pouquíssimas mulheres nas funções de liderança no Cinema. E isso tudo (história da mulher, da mulher na arte, mulher no cinema) resulta em uma estética e narrativa diferenciada, em que tende muito a não perpetuar uma visão homogênea masculina (e caucasiana, mas isso já é outro tópico).

Pretendo tornar esses estudos mais acessíveis, no caso, não apenas dentro do mundo acadêmico ou dentro do círculo de cineastas. Por muito tempo venho pensando sobre criar um canal no youtube ou um blog, para poder falar sobre isso de forma mais abrangente.

Mas, continuando, entender essa crescente narrativa, essa revolução é benéfico para realizadoras poderem aperfeiçoar ainda mais. Afinal é muito fácil cair em representações ou esteriótipos sociais, o estudo serve para encontrá-los, entender como estão sendo quebrados e também onde ainda há resquícios desses esteriótipos.

GR: Então pretende criar um canal no YouTube? Como seria? Que canais você acompanha? 
DTJ: Eu penso em fazer um canal no YouTube, sim. Já tive uns anos atrás e falava sobre cinema em geral, mas eu não tinha a maturidade que tenho hoje e meu foco hoje em dia seria para um nicho mais restrito, focado no mesmo que minha pesquisa em cinemas menores, de identidade de gênero, sexualidade... Eu acho extremamente importante criar formas de visibilidade mais acessíveis e mais acessadas, afinal o grande público não busca por artigos acadêmicos, procuram por vídeos, o mundo atual é muito visual e eu quero aproveitar disso para criar conteúdo.

Eu faria um canal em que eu poderia abordar temas muito além de Cinema feito por mulheres, poderia ser cinema queer, gênero de filmes, filmes com temáticas queer que chegaram ao Oscar, personagens mulheres fortes em séries grandes. Análise de construção de personagens mulheres em Game of Thrones, por exemplo, daria uma série de vídeos, pois temos várias personagens incríveis e bem construídas.

Como eu já trabalhei com marketing e com youtubers diretamente eu tenho uma boa base de como fazer um conteúdo atrativo para o público, bem como editar e fazer inserts, vinhetas, trabalho de som... Meu maior desafio não é técnico nem de conteúdo, é o falar para a câmera, afinal eu normalmente estou atrás dela.

Claro que eu sei que toda visibilidade na internet culmina em haters, isso seria algo a se trabalhar, mas hoje eu me sinto madura o suficiente para lidar com isso. Como eu acredito na força e na importância dos assuntos que quero abordar, alguns espinhos não serão suficiente para me parar.

Acompanho canais como Tese Onze, Louie Ponto, Carol Moreira, Jout Jout, Pirula, como diversos outros de análises de filmes e séries, produção audiovisual.

GR: Você recebeu convites para palestrar aqui no Brasil, né?
DTJ: Estamos vendo se será possível eu ir palestrar em SP no MIS, como estou na Argentina os custos de transporte seriam muito grandes e é um evento de um coletivo feminista que não tem uma grande verba. Tenho conversado com diversos grupos e coletivos de mulheres artistas que souberam da minha pesquisa devido à exposição que tive no twitter. Como é muito recente ainda estamos conversando sobre entrevistas e palestras, eu pretendo ir para o Brasil no final do ano e assim poder realizar esses projetos. Até lá terei a possibilidade de me estabelecer melhor nas redes sociais, falar mais sobre o assunto plantar sementes para alcançar mais objetivos.

GR: Pra finalizar, o que você diria para as pessoas que acompanharam a polêmica?
DTJ: Eu agradeço a todas as pessoas que me incentivaram, que me defenderam nas redes sociais, agradeço a quem possa ter interesse na minha pesquisa. E o meu recado para toda e qualquer pessoa é que estudar nunca está fora de moda, nunca é um desperdício de tempo ou dinheiro, é um investimento.

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Os indicados...
Filmes recomendados pela Daisa TJ sobre representatividade de minorias:
Praia do Futuro (2014) e Tatuagem (2013): "ambos filmes queer que tiveram algum reconhecimento nacional".
Que Horas Ela Volta? (2015): "com a Regina Casé, filme incrível dirigido por uma mulher".
Aquarius (2016): "também é interessante de assistir em que a protagonista é uma mulher".

3 comentários:

Rosa Nadir Teixeira Jerônimo disse...

Essa é a força e coragem de Daisa TJ. Uma mulher à frente destes tempos em que humanas e sociais são excluídas ou pouco favorecidas nos meios científicos onde há crise ideológica política. Agradeço como mulher todas as pesquisas e fontes de conhecimento bem fundamentadas que empoderam as mulheres em todas as áreas bem como as minorias.

Haida Blum disse...

O que aconteceu com essa moça (e com muitas outras pessoas de Humanas, depois fui ver outros tweets), uma coisa absolutamente triste, é muito sintomático do fundo do poço em que estamos como país. Todos apostando apenas na utilidade prática do esforço acadêmico, e ninguém se importando com a cultura e como tratá-la... é lamentável.

none disse...

Jerônimo, Blum,

Muito obrigado pela visita e comentários.

[]s,

Roberto Takata

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