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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Da alegada edição genética de bebês chineses

Manterei aqui uma lista de textos de análise pela DCsfera sobre o caso da edição gênica de embriões humanos pela tecnologia CRISPR por um cientista chinês - em que pelo menos dois foram implantados e deram origem a dois bebês gêmeos.

Lygia da Veiga Pereira. (O Globo). 27/nov/18. O limite entre ousadia e irresponsabilidade.
Mayana Zatz. (Rádio USP) 28/nov/18. Arriscada, edição gênica de bebês chineses desconsiderou ética (áudio)
(Dispersciência) 29/nov/18. Bebês modificados geneticamente/DisperDebate. (vídeo)
Ed Yong. (The Atlantic) 03/dez/18. The CRISPR baby scandal gets worse by the day
Pirula. (Canal do Pirula) 04/dezq18. CRISPR/Cas9 e os bebês geneticamente modificados na China (vídeo)
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Eu recomendo particularmente o artigo de Ed Yong, que compila os principais pontos problemáticos do feito.

(A lista será atualizada à medida que eu souber de mais textos.)

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

#EleNão

Sempre procurei não abordar a questão política diretamente aqui - existem diferença de visões de mundo que não são diretamente tratáveis com ciência e o direito de as pessoas terem tais diferenças de visões deve ser respeitado. Claro que, de um modo, a política está presente em tudo. Inclusive nas ciências.

A escolha de se ouvirem ou não os cientistas na hora de se definir políticas públicas como o Código Florestal, assinar tratados sobre controle de emissões de gases de efeito-estufa, o currículo nacional nas escolas públicas, as vacinas que serão incluídas na calendário de imunização, etc, etc. é uma decisão política. O quanto se irá investir em P&D, se irão organizar um ministério próprio de C&T ou misturá-lo com outras pastas, se irão priorizar um campo de conhecimento, etc, etc. é uma decisão política.

Mas estamos em um momento em que isso tudo pode ser afetado de modo dramático. E, não apenas isso, valores fundamentais como liberdade individual (direito à expressão, à sexualidade, à informação, à religiosidade ou à não-religiosidade, etc, etc.) estão em jogo. Valores tão básicos como direito à vida estão em jogo. Pessoas já morreram indubitavelmente por motivação calcada nos discursos de um dos candidatos. Um discurso contra as minorias, um discurso de defesa da violência física contra adversários, a apologia à tortura, um discurso de desprezo à democracia.

Omitir-se quanto a isso é dizer que isso é uma alternativa aceitável. Tão aceitável quanto a outra, que não prega nada disso - por mais divergências que alguém possa ter a respeito de outros aspectos ideológicos e visão sobre questões como a economia.

Não é. Não é uma alternativa aceitável. Mesmo na hipótese de que tal candidato seja apenas um bufão e não pense de verdade o que diz, o que diz já está causando efeitos terríveis sobre a vida e a liberdade das pessoas que pensam diferente, que são diferentes. O discurso desse candidato é tão claramente violento e antidemocrático, que é de grupos violentos e antidemocráticos que têm recebido apoio (mesmo que o candidato recuse).

E não apenas o candidato diz coisas terríveis. Todos os sinais das pessoas ao seu redor: seu vice, seus potenciais ministros e coordenadores de campanha - são péssimos sinais no que diz respeito à manutenção da liberdade e da democracia.

Este é e será sempre um blogue de ciências. Mas agora não é apenas questão de ciências - que, a propósito, também indicam que o candidato é a pior escolha possível: por seus feitos e propostas que devem piorar a própria ciência brasileira, e também por um programa que vai contra o que indicam os melhores dados científicos (p.e. armar a população tende a piorar a violência: casas com armas têm uma probabilidade *maior* de que seus moradores morram vítimas de homicídios) -, é mais do que isso. É a civilização contra a barbárie. É a vida contra a violência.

#EleNão
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Veja também:
Dragões de Garagem (17.out.2018): Dragões de Garagem em Defesa da Democracia.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

"Por que e como investir em divulgação científica?"

No dia 29 de julho, foi realizado o Conhecer Eleições 2018 uma série de sabatinas com, então, pré-candidatos à Presidência da República e representantes, a respeito de propostas e plataformas para a Ciência. Organizado conjuntamente pela equipe do DispersciênciaScience Vlogs Brasil e Huffpost Brasil (HPB), contou com a participação de jornalistas, cientistas e divulgadores científicos nas bancas de entrevistadores, a íntegra pode ser vista no YouTube.

Como preparação para o evento, uma série de artigos foram publicados no HPB com análises e diagnósticos dos problemas da ciência e da divulgação científica brasileira que poderiam ser abordados pelos projetos dos (pré-)candidatos. A mim foi encomendado um texto sobre "por que e como investir em divulgação científica?". A versão final saiu com o título: "O papel da ciência e dos divulgadores científicos no desenvolvimento da sociedade".

Abaixo reproduzo não essa versão publicada, mas (com pequenas modificações) a inicial - realmente era inadequada ao canal (não tinha captado bem a proposta nesse primeiro momento, pensei mais nos próprios divulgadores e não no público geral), que, não obstante, creio trazer mais detalhes pertinentes aqui.

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"Por que e como investir em divulgação científica?"

[...] Confesso, no entanto, que não me considero habilitado a dar respostas definitivas a elas, em particular para a segunda. Mas podemos nos aventurar em algumas tentativas de respostas.

"Por que investir em divulgação científica?" é, das duas, a pergunta mais fácil... ou menos difícil. Sim, não há um consenso entre as pessoas que estudam e praticam a ciência e a arte de trazer para o público temas relacionados às ciências de qual é, afinal, a importância da atividade. No entanto, embora as respostas eventualmente ocasionem brigas de foices entre os especialistas, podemos mapear as motivações preferenciais dos diferentes autores, grupos e comunicadores. P.e. Thomas & Durant 1987 agruparam os motivos para se fazer divulgação científica em 9 classes; Martín-Sempere  et al. 2008, em 4; Semir & Revuelta 2010, em 5; Besley et al 2017, em 8. Aqui proponho apenas três (e um quarto de miscelâneas).

Um pacote de respostas podemos classificar bem grosseiramente como de natureza egoísta corporativista: elas apontam as vantagens da comunicação para a própria comunidade científica e acadêmica. Por exemplo, as atividades de divulgação podem ajudar a atrair novos talentos (muitos da geração atual de divulgadores e de cientistas - ali na casa dos trintas anos - tiveram como inspiração inicial "O Mundo de Beakman"), podem ajudar a manter ou aumentar a confiança pública na comunidade científica (o que é bem preocupante em relação a certos temas como mudanças climáticas em que certos grupos resistem a aceitar as conclusões defendidas pela quase totalidade dos pesquisadores) ou aumentar a visibilidade do trabalho (alguns estudos indicam que artigos científicos que recebem cobertura midiática acabam sendo mais citados - na média - do que artigos ignorados pela mídia). Por egoísta corporativista não quero dizer que sejam motivações ruins ou erradas, apenas que o objetivo é voltado mais para os interesses dos próprios cientistas - mas que podem beneficiar também a sociedade e indivíduos não ligados à academia.

Outro conjunto de respostas podemos nomear de cívico democrático: os argumentos gravitam em torno de questões de benefícios do público e da sociedade. Muitas decisões importantes, como regulamentação de novas tecnologias, protocolos de mitigação de efeitos do aquecimento global ou inclusão de novas vacinas no calendário de imunização nacional, passam por se ter conhecimentos científicos embasados. A divulgação científica pode ajudar a população trazendo não apenas informações a respeito, mas a ajudando a contextualizar tais informações: que interesses estão em jogo, quais os riscos, qual o grau de incerteza em torno dos resultados? Nesta linha também incluímos correlações entre desenvolvimento econômico e o grau de conhecimento científico da população ou a necessidade de se prestar contas à sociedade, que financia as ciências. Possivelmente uma das variantes mais conhecidas desta modalidade seja a de Carl Sagan em seu clássico "O Mundo Assombrado pelos Demônios": "Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e toda as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara." O cívico democrático não deixa de ser algo egoísta na medida em que, se as coisas desandarem como os que sustentam esses argumentos sugerem, também seria contra os interesses destes.

E um terceiro, denominável de festivo cultural. Argumentos dessa estirpe enfatizam o conhecimento pelo conhecimento, a diversão proporcionada tanto pelo que se sabe sobre ciências quanto pelo próprio processo de aquisição de informações por meio do chamado edutainment, o apelo estético e as relações com as artes.

Podemos notar que os argumentos podem se prestar a mais de uma categoria: o citado "O Mundo de Beakman" objetiva mais à educação informal por meio da diversão, mas com consequências previsíveis de encantar parte da audiência e induzi-la a seguir carreira em alguma área científica. Alguns eventualmente não se encaixarão nessas grandes categorias mais gerais.

Ok, mesmo não havendo consenso, há vários tipos de argumentos para por que investir em divulgação científica que podemos escolher, isoladamente ou em conjunto (ou em baciada). E quanto à segunda pergunta?

De um jeito ou de outro é importante comunicarmos sobre ciência ao público, mas como fazer isso? Embora estudos sobre a comunicação de ciências ao público venham sendo feitos há bem uns 60 anos; somente há coisa de 10 anos o corpo de conhecimentos acumulados sobre o que funciona ou não na divulgação científica começou a ser sistematizado com tentativas de criação de modelos de comunicação que mapeiam importantes fatores que influenciam - positiva ou negativamente - a troca de informações sobre ciências (vide, por exemplo, Trench 2008 ou Eveland et al. 2013).

Certamente ainda há muita coisa que falta se estudar mais e a maior parte do que se sabe é baseada em estudos com alunos de universidades americanas atrás de créditos para se formarem. O que representa um porção bastante restrita da diversidade de público que encontraremos na população em geral. Além disso, as mudanças da paisagem de comunicação, com uma maior segmentação ocasionada pela ascensão das mídias sociais frente às mídias tradicionais, tem trazido novos desafios, em que estratégias de comunicação em massa - sobre as quais a maior parte do conhecimento acumulado recai - podem não mais funcionar. Mas não devemos ignorar esse tanto que se sabe, mesmo que não haja garantias de que funcionará em um contexto diferente. P.e. pelos estudos sabemos que a forma mais comum com que enfrentamos uma notícia falsa ou hoax: geralmente apresentando primeiro o boato - descrevendo em detalhes a história que circula - e só depois tratar da refutação, pode ter um efeito contrário ao aumentar a crença das pessoas na história que se deseja demonstrar falsa. Reapresentar o boato acaba ajudando a fixá-lo na memória dos incautos e, mais tarde, poderá tomar o fato de ele lhe ser familiar como indicador de que seja verdadeiro. Há alguma discussão a respeito de qual a melhor maneira de enfrentar esse problema (Peter & Koch 2016 propõem fazer com que o receptor da informação julgue o boato tão logo seja informado da história e de sua refutação; o relatório de consenso sobre comunicação pública efetiva de ciências da Academia Americana de Ciências, Engenharia e Medicina, de 2017, propõe que se evite uma refutação longa e complexa de um boato originalmente curto e simples; Bastian 2017 defende que não há ainda um caso forte para se defender nenhum tipo de recomendação específica). De todo modo, pelo menos à primeira vista, essas conclusões sobre a necessidade de se atentar para esses fenômenos não devem se alterar pela mudança dos meios de comunicação.

Dos estudos de psicologia cognitiva e social, um modelo do funcionamento de nossa mente tem sido bastante defendido entre os especialistas: o das duas vias de processamento de informações. Uma rápida, mais intuitiva, e uma mais lenta, mais analítica. Nós usamos na maior parte do tempo a primeira via, que, aparentemente, demanda menos energia e esforço. Ela nos ajuda a tomar decisões rápidas, porém está sujeita a muitos erros induzidos pelos atalhos utilizados - o efeito mencionado mais acima sobre notícias falsas da familiaridade de uma informação levar a se tomá-la como verdadeira é um desses atalhos com grande potencial a levar a erros de julgamentos. Certas condições experimentais parecem induzir a ativação da segunda via. Por exemplo, fazer com que uma pessoa resolva determinados tipos de exercícios matemáticos de comparação de proporções parece levar a que ela examine mais atenta e detidamente alegações que lhe são apresentadas logo em seguida. Potencialmente, comunicações que se aproveitem dessas características para gerar mensagens que, ou seja mais facilmente assimiladas pela via rápida, ou que ativem a via analítica para tentar barrar a aceitação de dadas alegações sem exame prévio poderiam ser mais eficientes.

Somando às mencionadas incertezas quanto à aplicabilidade dessas conclusões para grupos culturalmente distintos dos sujeitos experimentais em que tais estudos foram validados, é difícil dar uma receita de qual o melhor modo de se fazer a divulgação científica em casos concretos. Esse conhecimento parcialmente consolidado, no entanto, é muito útil ao fornecer parâmetros em que devemos prestar atenção ao desenvolvermos nossas estratégias e trabalhos de comunicação. Idealmente, para cada caso devemos fazer pequenos estudos pilotos e avaliações periódicas para verificar o que funciona para a situação específica: aquele tema para aquela população com aquelas mídias disponíveis com aquela quantidade de dinheiro que temos para investir no projeto, etc. Na impossibilidade disso, podemos usar como guia, mais do que nossas intuições, preconcepções e experiências pessoais, esse conjunto sempre crescente de conhecimento científico da nascente área da ciência da comunicação de ciências. Se não há uma receita pronta de bolo, há um conjunto de utensílios e ingredientes pré-testados para cada qual preparar seu próprio confeito personalizado.

Respeitando o estilo pessoal de cada divulgador e mirando as características particulares de cada grupo, vejo a divulgação científica cada vez mais como um ecossistema com cada divulgador ou projeto atendendo um nicho, uma especialidade, e eventualmente "concorrendo" entre si, numa grande teia de colaborações diretas e indiretas.

Mas temos que notar que esse tipo de conhecimento leva a questionamentos éticos bastante sérios. O quanto se valer desses macetes corresponde uma tentativa de manipulação do público?

Então, como devemos fazer divulgação de ciências? Uma tentativa de resposta (admito, um tanto elusiva) é: cientificamente, mas também eticamente.

Divulgador de ciências freelancer e autor do blog Gene Repórter, colabora com vários projetos de divulgação científica: Blogs de Ciência da Unicamp (ASCOM/Labjor-Unicamp), podcast Oxigênio (Labjor/RTV Unicamp), Pint of Science Campinas.
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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Museu Nacional (1818-2018)

"Só espero que não seja necessário ocorrer algum desastre provocado por problemas de manutenção para que as autoridades resolvam tomar medidas positivas para a mudança do quadro atual."
Alexander Kellner, 13.jan.2012 
"O Brasil não sabe da grandeza, da riqueza disso aqui. Se soubesse, não deixaria chegar neste estado."
AK, mai.2018

Aqui um registro dos depoimentos, relatos e análises dos divulgadores de ciência sobre o desastre do incêndio do Museu Nacional. À medida em que souber de mais materiais, acrescento aqui.
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Walter Neves. Cientistas Engajados (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Pirula. Canal do Pirula (02/set/2018): Fim do Museu Nacional. (vídeo)
Isis Nóbile Diniz. Xis-Xis (02/set/2018): Museu Nacional pega fogo. Fim.
Sabine Righetti. Abecedário (02/set/2018): Perda de acervo raro do Museu Nacional afeta ciência e educação básica do país.
Hugo Fernandes-Ferreira. (02/set/2018): depoimento (vídeo)
Emílio Garcia. 120 segundos (02/set/2018): Incêndio do Museu Nacional!!! (vídeo)
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (02/set/2018): É a sua história que está queimando.
SciCast. Spin #296. (03.set.2018) Museu Nacional - 21|18.
Ciência Explica (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional: reflexo de um governo que não se importa com ciência e cultura.
Luiz Bento (03.set.2018): Uma carta para minha filha sobre o Museu Nacional.
Camila Laranjeira. Peixe Babel (03.set.2018): [Luto] Museu Nacional. (vídeo)
Maurício Tuffani. Direto da Ciência (03.set.2018): Tragédia do Museu Nacional mostra déficit civilizatório do Brasil.
Ana Arnt. PEmCie (03.set.2018): A casa de Luzia (ou sobre o Luto pelo Museu Nacional).
Sérgio Sacani. Space Today (03.set.2018): Bate-Papo Sobre o Museu Nacionall. (vídeo)
Aline Ghilardi & Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (03.set.2018): A Queda do Museu Nacional: desabafo de dois cientistas. (vídeo)
Millor Fernandes. Normose (03.set.2018): Incêndio no Museu Nacional - Você sabe quem é o culpado? (vídeo)
Estêvão Slow. Canal do Slow (03.set.218): Museu Nacional em Chamas!!! (e daí?) (vídeo)
Caio Gomes. O Físico Turista (03.set.2018): Destruição do Museu Nacional. (vídeo)
Meteoro (04.set.2018): "Museu Nacional: encontre o culpado". (vídeo)
Orlando Calheiros. Ciência na Rua (04.set.2018): Aquilo que se perdeu com o Museu Nacional.
Davi Simões. Primata Falante (05.set.2018): "Incêndio do Museu Nacional: Tragédia inesperada ou projeto de sociedade?"
Tito Aureliano. Colecionadores de Ossos (05.set.2018): Sr. Prefeito, não basta só reconstruir o Museu. (vídeo)
Maíra Padgurschi. Biota+10 (05.set.2018). Museu Nacional (1818*-2018†).
Jefferson Picança. PaleoMundo (05.set.2018): O Museu, você e eu.
Filipe Figueiredo. Xadrez Verbal (11.set.2018): Museu Nacional: Perguntas, respostas e lições, um compilado de (quase) tudo.
Filipe Figueiredo. Nerdologia (11.set.2018): O nosso Museu Nacional. (vídeo)
Atila Iamarino. Nerdologia (13.set.2018): O passado perdido do Museu Nacional. (vídeo)
Davi Calazans. Ponto em Comum (13.set.2018): O incêndio do Museu Nacional: onde eu estava? (vídeo)
Pedro Loos. Ciência todo Dia (13.set.2018): O Dia em que a Nossa História Queimou. (vídeo)
Sidcley Lyra (14.set.2018): O dia em que eu chorei com o diretor do Museu Nacional.
Dispersciência (15.set.2018): Memórias vivas do Museu Nacional. (vídeo)
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Labjor (03.set.2018): Nota de pesar – incêndio no Museu Nacional/UFRJ.
Daniela Klebis (03.set.2018): Perda inestimável: entidades científicas lamentam incêndio no Museu Nacional.
Jornal da USP. (03.set.2018): Um retrato do descaso com a cultura e a pesquisa no Brasil.

Manifesto SBPC, ABC e outras. (04.set.2018): "A Vida e a Morte da Ciência e da Memória Nacionais"
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Alguns textos sobre o bicentenário do MN anteriores ao incêndio.
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Rodrigo de Oliveira Andrade. Pesquisa Fapesp. mai/2018. Para voltar aos velhos tempos.
Allison Almeida. Ciência e Cultura. jul/set. 2018: Museu Nacional celebra 200 anos.
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Conhecendo Museus (06.ago.2012): Episódio 13: Museu Nacional -- UFRJ.

Turma do Penadinho (21.set.2018): Insubstituível!

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Minha cordial (e natural) mas marcada e severa divergência do Dr. Max Langer

Na edição de 28 de julho do caderno Ilustríssima, o Prof. Dr. Max Langer, eminente paleontólogo brasileiro, publicou sua visão (cuidado! contém paywall poroso!) a respeito da ação humana no ambiente, particularmente no efeito sobre outras espécies, levadas a ou em vias de desaparecer por culpa direta e indireta de nossa atuação: poluição, desmatamento, caça, pesca, introdução de doenças, predadores e competidores... Fiquei um tempo pensando se respondia ou não - alguns amigos meus ficaram de responder também, achei que seria redundante - e, como se percebe, acabei optando por fazê-lo.

A divergência começa logo na primeira frase. "Vivemos um momento na história da humanidade em que as atitudes ditas ambientalmente corretas são aceitas de forma quase unânime e sem maiores questionamentos, seja na esfera científica, seja na política, na educacional ou na social."

Fiquei pelo menos uns 5 minutos pensando e não consegui encontrar muita coisa de que eu pudesse factualmente discordar mais - sei lá, talvez se ele tivesse dito que a evolução não ocorre. A situação atual de mudanças climáticas e acelerada taxa de extinção (muito mais alta do que a taxa normal - de fundo) de espécies só ocorre exatamente porque somos ambientalmente *IN*corretos. Cada mudança na legislação para diminuir nosso impacto deletério sobre o ambiente é uma batalha e muitas são perdidas (retrocesso do código florestal alguém?). A despeito das inúmeras cúpulas, tratados e relatórios do IPCC, as emissões dos gases de efeito estufa só aumentam ano a ano (Fig. 1).

Figura 1. Emissões globais anuais de equivalentes de carbono. Fonte: CDIAC.

Conhecedor da história geológica da Terra que é, Langer desfila a relação de algumas mudanças dramáticas nas condições de clima e composição atmosférica pela qual o planeta passou conforme podemos ler nos registros geológicos e fossilíferos. Tais mudanças deixam marcas na composição química dos minerais - como ferro oxidado indicando uma maior quantidade de oxigênio na atmosfera -, e nas características dos fósseis - por exemplo, espécies tropicais em latitudes mais altas nos fazem suspeitar que a temperatura global era maior (e isso pode ser verificado independentemente com a composição de isótopos de oxigênio, por exemplo, em calcário: temperaturas mais altas diminuem a solubilidade mais de um isótopo do que de outro). Estão também registrados intensos episódios de extinção, quando fósseis de grupos abundantes em camadas mais profundas de rochas deixam de ser encontrados em camadas logo acima.

Aqui um ponto de concordância com o professor. Sim, isso mostra que episódios de alterações ambientais são recorrentes e que, sim, extinções são naturais. Concordo até com o elemento-chave de sua argumentação: "A resposta é simples: as extinções em curso não diferem dessas outras, a não ser pelo agente causador."

Mas, então, qual o babado? O babado é o truque semântico ao se usar a palavra "natural". Sim, nossas ações são naturais no sentido de que ocorrem na natureza, de que estão de acordo com as leis físicas, químicas e biológicas conhecidas. Porém, do mesmo modo, a violência é natural. Animais praticam violência: primatas cometem infanticídio, guerras, roubos, estupros. E os humanos, uma espécie de primata, também. E isso não viola nenhuma lei física ou química. E segue até uma explicação de natureza biológica - um certo nível de violência, do ponto de vista evolutivo, é até adaptativo: ajuda a deixar mais descendentes na próxima geração.

Agora, isso significa que, como a violência é natural, devemos aceitá-la? Oras, a história da civilização - entre indas e vindas - é exatamente a de se conter tal violência. Em alguns casos ritualizá-la como em demonstrações esportivas. Mas no geral contê-la por meio de punições convencionadas: prisões e, em alguns lugares, inclusive a pena capital. Até mesmo quando o agente violento, ao contrário de nós, é incapaz de refletir a respeito de suas próprias ações, nós atuamos para conter tal violência: capturamos animais perigosos que apareçam nas imediações de povoados (não raro os sacrificamos), marcamos culturalmente certas plantas como inadequadas ao consumo, criamos serviços de alertas de tsunamis, tempestades e deslizamentos e investimos milhões em pesquisas para previsão de terremotos.

A palavra "natural" tem uma pluralidade de sentidos e validá-la em um não implica na validação automática em outros. Há até um termo lógico-filosófico para isso: a falácia naturalista ou apelo à natureza. O "a não ser pelo agente causador" é fundamental aqui em um ponto: o tal agente somos nós e nós somos dotados de uma capacidade intelectiva que permite prever e avaliar as consequências dos atos. Nós, ao contrário de uma tempestade que destrói casas e ceifa vidas, podemos ser responsabilizados.

Isto é, independentemente da natureza da causa isso não é um impeditivo para que atuemos para evitar as consequências e, se possível, debelar a causa. E, ligado à natureza da causa, podemos - e devemos - responsabilizar o agente quando este é consciente.

Langer pontua a respeito das incertezas existentes em relação ao nível da taxa de extinção atual. Mas, embora, sim, mais estudos devam continuar a serem feitos para refinar as estimativas, isso não deve ser um convite à inação. Há dados suficientes para um cálculo, ainda que os números comportem uma faixa de incógnita - sim, pode ser sensivelmente mais baixo; e, sim, pode ser sensivelmente mais alto. Há um risco e tal risco deve ser abordado. Especialmente porque as consequências são bem danosas (a extinção de anfíbios pode levar a um grande aumento de vetores de doenças, p.e.). Além disso, há casos bem documentados de animais que foram extintos mais diretamente por ação humana: como o dodô, a vaca-marina-de-steller, o pombo passageiro, a alca-gigante... Sem falar em populações locais. Temos responsabilidade direta sobre isso. Por mais natural que seja a caça, por mais natural que seja derrubar florestas para construir casas.

Assim, em resposta à conclusão de Langer: "Se, nesse processo, levarmos algumas à extinção, certamente não seremos os primeiros" - devo dizer que, tanto quanto os registros geológicos e paleontológicos nos permitem saber, somos os primeiros seres conscientes a fazê-lo (e serão bem mais do que "algumas"). E grande é a nossa responsabilidade, como diria um certo amigo da vizinhança.

Veja também:
24.ago Darwin & Deus/Alex Hubbe & Olívia Mendonça-Furtado: "Não fazer nada é o melhor que podemos fazer sobre o nosso futuro?" (cuidado! contém paywall poroso)
26.ago Folha/Reinaldo José Lopes: "Homem não pode ignorar efeitos das transformações que causa no planeta" (cuidado! contém paywall poroso)

sábado, 11 de agosto de 2018

Como é que é? - Não tem urso na América Latina?

Alguns memes e postagens têm sugerido que ursos são animais restritos ao Hemisfério Norte, não representando a fauna sul-americana nem a latino-americana.

Mesmo descontando o fato de haver populações de ursos pretos no México, há populações de uma espécie exclusiva da América no Sul - o urso-de-óculos (Tremarctus ornatus) - na região norte dos Andes, da Bolívia à Venezuela, passando por Peru, Equador e Colômbia - e aparentemente presente também na Argentina. (Fig. 1 e 2.)

Figura 1. Distribuição mundial de espécie de ursos. Ursus maritimus: urso polar; U. artcos: urso pardo; U. americanus: urso negro; U. malayanus: urso-malaio; U. ursinus: urso-preguiça; U. thibetanus: urso negro asiático; Tremarctos ornatus: urso-de-óculos. Não mostrado na figura, Ailuropoda melanoleuca: panda gigante (restrito a florestas de bambu na China). Fonte: Kumar et al. 2017.

Figura 2. Urso-de-óculos (Tremarctos ornatus), única espécie atual de urso nativo da América do Sul. Fonte. Wikimedia Commons.

Embora as relações entre as espécies atuais de ursos seja mais ou menos bem resolvida: a linhagem dos pandas divergindo da que daria a origem às demais entre 18 e 22 milhões de anos atrás (Maa), e a linhagem dos ursos-de-óculos divergindo da dos outros ursos 12 a 16 Maa; a história da família dos ursos é um pouco mais nebulosa. Os ursídeos devem ter se separado da linhagem que levaria às focas entre 26 e 48 Maa. (Krause et al. 2008.)

A subfamília do urso-de-óculos: a Tremarctinae, pode ter aparecido na América do Norte num período em que a América do Sul era uma gigantesca ilha-continente separada do resto (ela começou a se separar da África por volta de 120 Maa). Quando a América do Sul se aproximou da América do Norte, a América Central começou a se soerguer - por volta de 4,5 a 15 Maa (Montes et al. 2015). A conexão levou a uma intensa troca de espécies entre as duas porções, num evento chamado de Grande Intercâmbio Biótico Americano. E os ursos não ficaram de fora.

Fósseis de ursos mais antigos na América do Sul são de cerca de 1,5 a 2 Maa; mas outra espécie do mesmo gênero do urso sul-americano era encontrada onde hoje é o sul dos EUA, da Flórida à Califórnia (e se estendendo a área até o Tennessse ao norte): T. floridanus - atualmente extinta, os fósseis mais antigos são de cerca de 3 Maa. Um outro gênero da subfamília, próximo ao gênero Tremarctos, é o Arctotherium e os fósseis destes são encontrados apenas na América do Sul. A separação entre os dois gêneros deve ter ocorrido por volta de 4 Maa (Fig 3.). Então a migração dos ursos da América do Norte para a América do Sul deve ter pelo menos essa idade. (Mitchell et al. 2016.)

Figura 3. Distribuição temporal e relações de parentescos entre ursos da subfamília Tremarctinae. Em azul, espécies da América do Norte; em vermelho, da América do Sul. Borophagus e Chapalmalania não são da família dos ursos - são respectivamente da família dos cães e dos guaxinins; Agriotherium é um urso de outra subfamília. Fonte: Mitchell et al. 2016.

Os ursos, assim, estão há pelo menos 4 milhões de anos na América do Sul - muito antes da nossa espécie aparecer na face da Terra. E, embora hoje reste apenas uma espécie, sua diversidade foi maior por aqui - pelo menos 6 espécies (praticamente a mesma diversidade de ursos atual em todo o mundo!) e estiveram distribuídos por todo o (sub)continente: no Nordeste e Sudeste brasileiros, no Uruguai e noroeste da Argentina e no sul da Patagônia (Soibelzon & Bond 2005).

Não é justo negar cidadania ao urso-de-óculos. É mais latino-americano e sul-americano do que nós.

Infelizmente sua situação ecológica inspira cuidados devido à perda de hábitat e às mudanças climáticas. A União Internacional para a Conservação da Natureza a considera uma espécie vulnerável.

sábado, 4 de agosto de 2018

Ciência: a longa (longa) marcha 4

Em 2 de agosto, veio à tona uma carta escrita de véspera pelo presidente da Capes dirigida ao Ministro da Educação Rossieli Sorares, alertando para a possibilidade de suspensão de mais de 200 mil bolsas de pós-graduação e de iniciação à docência (Pibid), além do funcionamento da Universidade Aberta do Brasil e cooperações internacionais a partir de agosto de 2019 em função do teto orçamentário repassado ao órgão pelo MEC que é inferior ao orçamento de 2018.

A notícia repercutiu fortemente na comunidade científica e, particularmente, entre os pós-graduandos. Tão intenso foi o processo que se decidiu marcar uma manifestação já no dia seguinte, no vão do Masp. Sem organização central, o evento contou com a participação de várias instituições: ANPG, UNE, Cientistas Engajados, Pesquisadorxs em Luta (que convocou a manifestação), além do apoio na divulgação de vários divulgadores científicos.

A despeito do pouquíssimo tempo e da chuva que caiu o dia inteiro, acabou comparecendo um bom público: alguma coisa entre 200 e 500 pessoas. (Na minha estimativa, cerca de 230-250 participantes.) Que decidiram in loco sair em marcha do vão do Masp até o prédio onde fica o escritório da Presidência da República. Duas faixas da avenida Paulista foram ocupadas pela passeata, escoltada por batedores e viaturas da PM e do CET. A manifestação durou das 16 até mais ou menos 19h30 e recebeu boa cobertura da mídia.

Abaixo, meu registro do protesto:


Mais ou menos ao mesmo tempo, um ato foi realizado também no Rio de Janeiro.

Outros atos já foram agendados e novos deverão ser realizados.
05.ago. São Paulo/SP. Av. Paulista, 2.163. 15h. 
06 ago. Manaus/AM. FACED/UFAM. 12h.
06.ago. Porto Alegre/RS. APG/UFRGS. 19h.
08.ago. Ribeirão Preto/SP. USP/RP. 14h.
09.ago. São Paulo/SP. FFLCH/USP. 19h.
10.ago. São Paulo/SP. EACH/USP. 13h.

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03.ago.2018
Estado de S. Paulo. "Entidade científicas e universidades se manifestam contra os cortes na Capes" (cuidado, contém paywall poroso.)

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Camp do Serrapilheira e o Jamboree (Jam Session) do DoSSHel*

Saiu o resultado da seleção da primeira chamada do Camp da Serrapilheira para divulgação científica.

Foram 871 projetos para as 50 vagas da primeira fase. Fico com um orgulho alheio besta por muitos amigos meus terem sido contemplados - nem dá pra ficar triste de não eu mesmo não ter sido aprovado: pelo menos a metade dos listados eu conheço ou o proponente ou o projeto a que se vincula ou os dois. (E ainda tem o extra de a outra metade serem projetos em que a gente pode passar a prestar atenção também.)

Pela qualidade dos trabalhos de uma parte dos 50 dá pra antecipar que o Camp será fantástico e sairão projetos espetaculares.

O lado ruim é que com a limitação de vagas, muitos projetos igualmente excelentes acabaram de fora (não, não é o meu caso - eu sou um tipo de pato: ando, nado e voo, mas nada particularmente bem; pro Camp chamaram avestruzes, pinguins, águias, mergulhões... e algumas aves que fazem tudo isso impecavelmente: gente com alto impacto acadêmico, com alto impacto de público...).

Bem, o adágio diz "sapo de fora não chia", mas Calíquio sabe que a validade dos ditos populares não reside nos próprios ditados, mas na adequação à situação. De todo modo não se trata de chiar, já que não tem como chiar diante da qualidade dos vencedores, e, sim, de propor um jeito de não desperdiçar a qualidade dos que acabaram não entrando.

Proponho, então, a realização de um camp informal, um jamboree (plus jam session), de adesão livre entre aqueles que não tiveram a proposta selecionada. Mas aberto para o público em geral e para os que foram aprovados. Com entrada online para a participação dos que estiverem longe das sedes.

O Jamboree do DoSSHel* (um complemento informal, sem vínculo com o Serrapilheira, ao camp do instituto) já tem pelo menos três sedes: Aracaju-SE; Boston-MA, EUA; e São Paulo, SP - e está aberto pra mais.

A ideia é que os participantes possam falar de suas propostas (ou outros projetos) de DC, trocar ideias e, quem sabe, induzir colaborações para que possamos viabilizar pelo menos um desses projetos (ou mesmo juntar vários projetos).

Se esta sugestão de jamboree vingar, o formato, a(s) data(s), etc. estão também bem abertos para que os interessados possamos definir em conjunto. Uma proposta inicial é para novembro.

*O nome DoSSHel é uma brincadeira homenagem ao Serrapilheira. A serapilheira é uma camada de folhas, galhos e restos orgânicos caídos sobre o solo, que contribui com a proteção e o enriquecimento dele. O dossel é a cobertura das matas formada pelo conjunto das copas das árvores (de onde caem as folhas e galhos para a serapilheira). SSH é a sigla em inglês para Ciências Sociais e Humanidades - o jamboree não irá se restringir a essas áreas, claro, mas é, de novo, a complementaridade com as ações do Serrapilheira (que, legitimamente, afinal, não dá pra abacar o Universo, concentra em estimular as STEM, sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharias e Matemática).

sexta-feira, 27 de julho de 2018

A câmara que mostra o encontro da clara e do ovo (sic) dentro do bolo

Na manhã do dia 25 de julho de 2018, o apresentador Fernando Rocha iniciou o programa Bem Estar, da Rede Globo, com uma história inusitada.

"Bom dia! Hoje é terça-feira, né? É terça-feira. Todo mundo sabe, desde que o mundo é mundo, que a vida é feita de encontros e despedidas. Despedidas são mais tristes, né? Emocionantes, né? E eu fiquei sabendo de uma história de despedida tão emocionante, tão sofrida. Sabe qual é a despedida? Da clara com o ovo. A despedida da clara com o ovo. Mas aí ela só não é tão triste porque a clara chega pro ovo e fala assim: 'Não fica triste, não. A gente se vê dentro do bolo! [risos] A gente vai se encontrar dentro do bolo!' Agora você imagina o encontro da clara com o ovo dentro do bolo! Infelizmente o homem ainda não foi capaz de inventar uma câmera que mostre esse encontro da clara e o ovo dentro do bolo! [risos] Dr. Kalil, o senhor já imaginou esse encontro? A gente tem hoje imagens impressionantes, e que a gente vai mostrar, que podem salvar vidas! Dr. Kalil, está com essa cara de um encontro de clara com ovo dentro de um ovo. Oi?"

O colega do apresentador, o médico Roberto Kalil, sério até o momento: "Não foi muito legal esse começo de programa. Não deu muito certo."

"Eu vou ser mais feliz. É que eu não parabéns pra ele no dia 7 de julho, que ele estava viajando e não deu certo. O Bem Estar vai falar hoje de exames que podem salvar o coração."

Verdade que a clara, pelo que se sabe, não fala. Mas não é tecnicamente correto dizer que ainda não foi inventada uma câmara que possa filmar o encontro da clara com a gema dentro da massa do bolo.

Engenheiros de alimentos e cientistas de áreas afins, levam tão a sério o papel do ovo na obtenção de bolos bem desenvolvidos, macios, de textura adequada, que criaram vários equipamentos para analisar e registrar os processos que levam de uma massa pastosa ou fluida a uma bela esponja. Inclusive câmaras.

Mizukoshi e colaboradores publicaram em 1979 um diagrama de um complexo dispositivo para medir e registrar o processo de gelatinização do amido e coagulação das proteínas durante o assamento do bolo. (Fig. 1.)

Figura 1. Diagrama esquemático de equipamento para registro de assamento de bolo. Medidores de volume, termômetros, viscosímetros e microscópio com câmara são alguns dos dispositivos que compõem o equipamento. Fonte: Mizukoshi et al. 1979.

Conforme a temperatura atinge um ponto crítico, a proteína do ovo coagula e o amido derrete, alterando as propriedades ópticas da massa - deixando passar mais luz polarizada, que é detectada pelas câmaras acopladas.

O papel da clara do ovo, especialmente da ovalbumina, é de ajudar a produzir a textura esponjosa. As proteínas da clara, ao serem batidas, formam uma espuma retendo bolhas de ar. Nos bolos que levam gorduras como manteiga, óleo ou margarina, os fosfolipídeos presentes na gema ajudam no processo de emulsificação, permitindo a dispersão homogênea das gorduras na massa. Porém, os componentes da gema tendem a impedir a aeração adequada da massa, mas ajudam a estabilizar a espuma, uma vez formada. Por isso, algumas preparações separam a clara da gema e os incorporam em momentos diferentes: fazendo a clara ser batida antes, permitindo o desenvolvimento da espuma, posteriormente adicionando a gema - misturada previamente com as gorduras - para estabilizar a espuma.

Esse encontro na massa antes de assar é mais acessível de ser registrado por câmaras acopladas a microscópios. Para o desenvolvimento durante o processo de assamento, equipamentos como o acima ajudam a acompanhar.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Desenevoando a rede de neblina: sobre segurança e ética de captura de animais para pesquisa

Em o que me remete ao caso do Instituto Royal, uma docente universitária atacou a pesquisa de outros pesquisadores universitários que usam a rede de neblina - uma rede de malha bem fina fios bem finos para captura de aves e morcegos para fins de estudo.

Quando utilizada por pessoal devidamente autorizado e treinado, o instrumento é bastante seguro para os animais que acabam se emaranhando na rede.

Embora algum nível de estresse deva ser inevitável, segundo dados disponíveis, é bastante raro ocorrer ferimento - apenas 0,59% (± 0,68%) dos indivíduos capturados acabam sofrendo alguma injúria física - e mais raro ainda que algum morra - uma probabilidade de 0,23% (± 0,15%; menos de 3 indivíduos a cada 1.000 capturados morrem). E não parece interferir no sucesso reprodutivo das aves capturadas e liberadas em seguida.

A técnica pode aumentar a exposição dos indivíduos presos a predadores, mas isso pode ser controlado diminuindo-se o intervalo entre as visitas às redes para verificar se houve alguma captura. Tal cuidado também pode diminuir o grau de emaranhamento dos indivíduos na rede - o que pode levar a cortes e estrangulamentos, além de estresse mais alto. Protocolos geralmente garantem prioridade para a remoção da rede de indivíduos que pareçam estar em condições mais precárias ou potencialmente precárias (risco de ferimentos ao se debater, p.e.).

O uso da rede é necessário para estudo de espécies de hábitos noturnos - já que a simples observação com binóculos é bastante prejudicada - e também para a captura para aquisição de dados biométricos como peso corporal ou envergadura da asa; amostras biológicas como sangue e tecido; e marcação como anilhamento. Esses estudos permitem acompanhar a saúde das populações locais - quantos indivíduos são? estão diminuindo em número? estão conseguindo obter alimentos suficientes? qual o grau de cruzamento entre indivíduos proximamente aparentados? eles migram para outros locais? Essas e outras informações são fundamentais para não apenas se entender a biologia básica e o estado da população dos organismos, mas para a própria conservação das espécies - mapear áreas que são vitais para a sobrevivência (onde ocorrem os alimentos, p.e.), o tamanho da área necessária, que manejos podem ser necessários (controlar predadores? parasitas? trazer indivíduos de outros locais para repopular e aumentar a variabilidade genética?), etc.

Esses dados são essenciais para saber que espécies preservar e como preservar. Esse planejamento não é possível com simples achismos. Há outras técnicas que poderiam substituir as redes, mas com impacto definitivamente maior - como o abate de espécimes (que é praticado em algumas circunstâncias, como para obter espécimes de referência para museus) ou uso de armadilhas de gaiola (que podem acabar capturando outros organismos, como pequenos mamíferos arborícolas; e causar mais ferimentos no organismos que se debate em seu interior, já que não são tão flexíveis quanto redes).

A vigilância e o questionamento são necessários. É verdade que a rede de neblina foi utilizada por décadas sem que houvesse estudos sistemáticos sobre seu impacto e segurança - em parte porque os pesquisadores, na prática, não notavam um número muito grande de animais feridos ou mortos -, mas agora há. Podem ser necessários mais estudos? Talvez seja prudente - ainda que as mais de 600.000 capturas incluídas no estudo sejam uma amostra respeitável, pode ser que seja necessário estudar em mais locais.

Porém a simples destruição das instalações, a difusão impensada de opiniões mal embasadas - inclusive com mensagens agressivas e até xenofóbicas (um dos pesquisadores acusados é de origem peruana, ao que parece) -, não contribui nem com um eventual aperfeiçoamento das técnicas de estudo e muito menos com a conservação adequada das espécies. Incute também um espírito de caça às bruxas, como a que resultou na destruição do Instituto Royal - e consequente interrupção de importantes pesquisas.

Veja também:
Canal do Slow (14.jun.2018): A UERJ e a 'matança' de aves!
Jornal da Ciência (14.jun.2018): Entidades científicas divulgam manifestações em apoio à pesquisadora Maria Alice dos Santos Alves e equipe da Uerj
Canal do Pirula (15.jun.2018): Sabotagem à pesquisa e 'crueldade com animais'
BBC (21.jun.2018): Ativistas destroem experimento científico para libertar pássaros na Ilha Grande
Grrlscientist (01.jul.2011): How safe is mist netting for birds?

A péssima ideia de Thanos

Como já se passou um tempo desde a estreia de Vingadores: Guerra Infinita, em 23 de abril (dia seguinte ao Dia da Terra), acho que dá pra comentar uma parte principal do enredo sem que se caracterize como spoiler - se alguém ainda não viu (ainda está em cartaz em alguns cinemas no Brasil), então fica o alerta de spoiler.

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SPOILER ALERT!!!!!
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O plano de Thanos de usar as joias do infinito para sumir com metade da vida (sensciente) do Universo - no filme só falam genericamente em "vida", nos quadrinhos especificam "vida sensciente" -, além de eticamente absolutamente revoltante, não faz sentido racional.

Nos quadrinhos, ainda a intenção é de agradar a dona Morte, crush do titão louco; mas, no filme, o objetivo é trazer o equilíbrio ao Universo: os trilhões de habitantes estão consumindo recursos a um ritmo insustentável, o que logo causaria guerras e fomes (Malthus, alguém?). Em um verniz "humanitário", Thanos, então, elimina 50% dos seres sem distinção de sexo, raça, credo, cor, idade, status socioeconômico, ideologia política, sistema operacional de preferência, se marvete ou decenauta... (ele pode ser um vilão abjeto, mas preconceituoso pelo menos ele não é).

Mas isso traz equilíbrio para o Universo? Outro spoiler alert: não!

Peguemos o exemplo da Terra e seus primatas glabros. Em 1950, a população humana era estimada em torno de 2,5 bilhões de habitantes; em 1987, foi estimada em 5 bilhões de pessoas. Simplesmente dobramos em pouco mais de 35 anos.* (Fig. 1.) Se nos outros planetas a dinâmica demográfica for mais ou menos a mesma, em algumas dezenas de anos voltaríamos à mesma situação.

O tempo poderia ser até menor, porque hoje a tecnologia está muito mais avançada. E, depois de se recuperar do baque econômico que provavelmente adviria com o desaparecimento súbito de 50% da força de trabalho e do mercado consumidor, poderíamos ter um crescimento vertiginoso com o excesso de recursos por habitantes. Se eu sobrevivesse ao dustening, investiria todos os meus proventos no mercado ligado à maternidade e cuidados com bebês e crianças.
Figura 1. Tamanho estimado da população humana na Terra ao longo do tempo.

A perda súbita de um grande número de indivíduos pode colocar espécies em risco de extinção apenas se a população restante tem um número muito baixo de indivíduos reprodutivamente aptos. A população viável mínima (MVP - minimum viable population) varia de espécie para espécie - alguns invertebrados marinhos podem reconstituir a população inteira a partir de apenas um casal de indivíduos sobreviventes. Em humanos seria complicado porque significaria que irmãos procriariam com irmãos (e/ou com os pais), o que tornaria o risco de gerar descendentes com problemas genéticos (pela homozigose de alelos disfuncionais) muito alto e rapidamente inviabilizaria a continuidade reprodutiva. Em certos invertebrados isso não é um problema - com uma prole muito grande, a pequena fração de indivíduos que escapam de herdar cópias defeituosas já seria suficiente para garantir a continuidade reprodutiva. Mas para mamíferos, com taxas reprodutivas médias um pouco mais baixa do que de invertebrados, o MVP é mais alto - uma média de 95 indivíduos. Em humanos, com taxa reprodutiva menor do que a média dos mamíferos, o número deve ser em torno de 160 indivíduos. Ou seja, mesmo com a catastrófica redução da população atual à metade, ainda estaríamos longe, muito longe do risco de extinção.

Se o titã não fosse louco e obcecado com um plot destinado a fracassar (ao menos se a biologia reprodutiva dos demais seres senscientes do Universo for, grosso modo, similar à nossa - o que pode ser o caso para que híbridos interespecíficos como o Senhor das Estrelas possam existir) - mesmo que os Vingadores não fossem capazes de revertê-lo na continuação (e serão, óbvio; a Disney/Marvel não deixaria uma personagem que acabou de faturar mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria relegada ao pó) -, ele bem poderia usar a joia da mente combinada com o poder das outras para convencer toda a população sensível do Universo a adotarem medidas menos consumistas, a aproveitarem mais inteligentemente os recursos, valendo-se dos 4R (reduzir, reaproveitar, repensar, reciclar), desenvolvendo fontes de energia alternativas, e revertendo os danos causados ao ambiente, além de adotar práticas de planejamento reprodutivo - isso teria um efeito permanente sem o fim catastrófico de fome, miséria, doenças e guerras.

Com o devido pedido de desculpas à Marvel...
...(Acho que nunca me contratariam de roteirista em Oliúde.)

*Upideite(14.jun.2018): Outra comparação, por volta de 1971, a população era de cerca de 3,7 bilhões de pessoas, hoje somos cerca de 7,5 bilhões - uma janela de cerca de 50 anos.

Mas o impacto psicológico não afetaria as taxas reprodutivas? Alguns indícios disponíveis apontam que após desastres como guerras, terremotos e furacões, a população sobrevivente tem um *aumento* na taxa de nascimentos. Na cidade britânica de Aberfan, País de Gales, após a tragédia causada pelo desmoronamento do monte de rejeito de minério de carvão, em 1966, durante cinco anos foi notado um aumento da taxa de nascimentos na comunidade local - tanto em famílias que perderam como entre as que não perderam parentes. Também foi detectado aumento de taxas de nascimentos (e de casamentos - e de divórcios) em condados do estado americano da Carolina do Sul após a passagem do furacão Hugo, em 1989. O mesmo efeito foi observado na cidade de Oklahoma nos Estados Unidos, após o atentado a bomba em 1995. Após o tsunami de 2004 que devastou amplas áreas das costas no Oceano Índico, a taxa de natalidade em diversas comunidades na Indonésia aumentou significativamente.Nos meses seguintes ao terremoto da comuna italiana de Áquila em 2009, também foi detectado um aumento de nascimentos - aparentemente a decisão de ter filhos foi um ato consciente das mulheres como mecanismo de lidar com o estresse pós-traumático. O efeito parece ser variável, no entanto, após serem atingidos pelo furacão Katrina em 2004, cidades da região da costa do Golfo nos EUA apresentaram diferenças nas taxas de natalidade - houve queda em paróquias de Louisina e Mississippi, e aumento em Alabama. De qualquer forma, tomado em conjunto, esses dados parecem indicar que seria uma boa aposta que a recuperação populacional pós-dustening poderia ser acelerada (ao menos aqui na Terra).

Mas e as mudanças nas tecnologias assistivas de planejamento familiar? Novas gerações de anticoncepcionais, uma maior liberalização geral do aborto no mundo em relação há 50, 70 anos atrás, e maior renda e acesso à educação, certamente diminuíram as taxas de natalidade. Se levou 37 anos de 1950 a 1987 para dobrar a população, levou 47 anos de 1971 a 2018. Mas consideremos as projeções de que a população humana deverá ser algo em torno de 12 bilhões por volta do ano 2100. Se usarmos essa taxa mais lenta futura, para ir de 3,7 para 7,5 bilhões de pessoas, ainda assim levaria pouco menos de 70 anos.

Upideite(22/jul/2018): Veja também:
Atila Iamarino/Nerdologia 14.jun.2018: "Porque a história de Thanos não faz sentido" (vídeo)

domingo, 3 de junho de 2018

Especulando: Algumas sugestões de propostas para ciências e divulgação

A SBPC e a ABC, como já é tradição, lançaram propostas para serem encampadas por candidatos nas eleições deste ano.

Na onda o GR também gostaria de sugerir algumas - bem mais modestas no tamanho e alcance - como complemento. Publiquei alhures e reproduzo abaixo as propostas. Algumas já havia sugerido para o então ministro de CT&I em 2011.
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Aproveitando que temos um certo número de pré-candidatos cientistas, algumas propostas - que não necessariamente envolvem mudanças na legislação - pra considerarem e levarem a suas universidades.
1. Desenvolvimento de indicadores de retorno social de investimentos em P&D e nas universidades públicas. Talvez algo na linha do Balanço Social da Embrapa - mas que certamente precisaria ser adaptado. A discutir se se deveria estabelecer metas de indicadores ao longo do tempo - para unidades individuais ou pro sistema de ciência e tecnologia como um todo.
2. Criação de um banco da dados nacional que colija os microdados - com proteção da identificação de respondentes individuais - de toda pesquisa eleitoral e de toda pesquisa de opinião financiada por órgãos públicos (exceto talvez o IBGE, que publica em meios próprios). A se ver se ficaria aberta ao público - acho que deveria, com restrições de granulação (p.e. células que retornassem menos de 10 respostas não seriam disponibilizadas) - ou com acesso apenas a pessoal cadastrado: cientistas sociais, p.e. Seria necessária uma lei para obrigar os institutos de pesquisa de opinião a enviarem os microdados em formato determinado. (Seria preciso um trabalho prévio de definição de ontologia para uniformizar categorias de dados.)
3. (Se eu for selecionado, esta vou apresentar no Camp do Serrapilheira primeiro.)*
4. Criação de uma rede nacional de divulgação científica em instituições públicas de ensino e pesquisa. Uma coordenação leve - essencialmente disponibilização em agenda única online de todas as atividades de divulgação científica; talvez fornecimento de infraestrutura para disponibilizar o material online. Serviria de base também para trocas de experiências entre as instituições. Poderia se ampliar em uma rede de comunicação das instituições - incluindo comunicação institucional, p.e. Potenciais vantagens: uma instituição A vai trazer um palestrante X pro dia Z; uma instituição B, perto de A, poderia se oferecer a rachar a despesa de trazer o mesmo palestrante, e ter também uma palestra em outro dia próximo (ou talvez no mesmo); uma instituição que vai realizar um evento de um dado tema, já terá uma série de sugestões de possíveis convidados... poderá ver qual o melhor dia para realizar o evento, etc.
5. Criação de um banco de dados unificado de tecnologias e serviços dos IFES. A USP e, principalmente, a Unicamp têm um cadastro de inovações que podem servir de modelo; o Banco do Brasil também tem um inventário de tecnologias sociais. As pesquisas aplicadas ou com potencial de aplicação desenvolvidas nas universidades federais seriam mapeadas e seu grau de desenvolvimento e características poderiam ser consultadas pelo banco de dados por eventuais parceiros que queiram financiar a pesquisa ou licenciar o uso. Poderia envolver a criação de um showroom tecnológico - virtual ou mesmo físico - e realização de feiras periódicas. (Alguns dados poderiam ficar sob proteção de sigilo, como tecnologias a serem patenteadas.)
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*Se minha submissão ao camp for rejeitada, o que é mais provável, atualizo a postagem com a proposta.**

**Upideite(12.ago.2018): A minha proposta foi rejeitada. A que apresentei era a formação de um painel de análise e consolidação da literatura disponível a respeito da divulgação científica: o que funciona, o que não funciona, sob quais circunstâncias. Meio ao estilo IPCC para as mudança climáticas. Apontando também quais áreas são prioritárias para pesquisas mais aprofundadas.

domingo, 20 de maio de 2018

Do Euclipo ao Conhecer: uma década da (nova) DC na internet

Entre 11 e 12 de dezembro de 2008, em Ribeirão Preto, SP, era realizado o 1o Euclipo (Encontro de Weblogs Científicos de Língua Portuguesa). Como o nome indica o evento se concentrava na divulgação científica por meio de blogs, um meio relativamente novo à época (nem tããão novo - existem desde pelo menos o fim da década de 1990).

Participantes do 1o Euclipo: 11 e 12 de dezembro de 2008. Fonte: Charles Morphy.
No ano seguinte, de 25 a 27 de setembro, em Arraial do Cabo, RJ, seria realizado o 2o Euclipo.
Participantes do 2o Euclipo: 25 a 27 de setembro de 2009. Crédito: Thiago Camelo?/Ciência Hoje.
Nessa época, vários blogueiros já estavam organizados em um condomínio, o Lablogatórios, criado por Carlos Hotta e Atila Iamarino, que logo se tornaria o Scienceblogs Brasil.

O terceiro Euclipo nunca chegou a ser realizado. Talvez uma grande crise tenha ocorrido nessa época: seja com a migração para novas mídias, seja apenas pelos pioneiros estarem abandonando a empreitada.

Em 2016, uma reunião em Campinas, entre 23 e 24 de janeiro, marcava ao mesmo tempo o início e a consolidação de uma rede de vlogueiros de ciência: o selo ScienceVlogs Brasil e o canal BláBláLogia. Muitos já tinham seus próprios canais no YouTube, alguns ainda blogavam.

Participantes da reunião de lançamento do ScienceVlogs Brasil e criação do BláBláLogia: 23 e 24 de janeiro de 2016. Crédito: CR Dias.

Agora em 19 de maio de 2018, foi realizado o Conhecer: 1o Encontro Nacional de Divulgação Científica, em São Paulo. Ele marca a presença de uma grande diversidade de iniciativas de divulgação científica - a maioria online (e presença massiva de vlogs e de podcasts), mas algumas offlines.
Participantes do Conhecer, 19 de maio de 2018. Fonte: Vivi/Bit de Prosa.



A despeito do hiato de eventos, talvez em função de uma crise na blogosfera filomática, entre 2009 e 2016, dá pra se notar um aumento do número de participantes, possivelmente refletindo o aumento da comunidade de divulgação científica nas novas mídias no Brasil - a exploração de mídias tem se diversificado também (texto, fotos, áudio, vídeos...) à medida que os custos vão se reduzindo. Ainda é um clube do bolinha, mas a presença feminina tem sido maior e mais ativa. No entanto, a presença de negros e indígenas ainda é muito baixa.

Pioneiros como o Carlos Hotta, Atila Iamarino, Luiz Bento, Ísis Nóbile Diniz, Rafael Bento, Reinaldo José Lopes, Osame Kinouchi, Luís Brudna e outros ainda estão na ativa: vários migrando de mídia.

Avanços têm sido feitos, mas alguns desafios permanecem: como alcançar o público não "iniciado". No 2o Euclipo falava-se em monetização, no Conhecer falaram em profissionalização. O financiamento dos projetos e remuneração dos divulgadores também são outros desafios que permanecem.

Seria o caso de discutir também uma institucionalização com a formação de uma associação formal?

Upideite(24.mai.2018): Veja também:
Noêmia Lopes/Agência Fapesp (23.mai.2018): Divulgadores de ciência fortalecem redes e diversificam atuação.

domingo, 13 de maio de 2018

Especulando: Tolerância zero para pseudo e anticiências?

Lucas Camargo, do Dragões de Garagem e da UFSC, apresentou uma hipótese que gerou uma discussão no twitter que acho que merece ser acompanhada. Compilei os tweets num moments.





Fiquem à vontade para contribuir no twitter ou nos comentários aqui.

(Peço desculpas por eventuais erros gramaticas que eu tenha cometido.)

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Como é que é? - Molho de soja (shoyu) é feito com milho no Brasil? (Sim, mas...)

Causou alvoroço a notícia sobre um estudo brasileiro da composição isotópica (variantes de um mesmo elemento químico) do carbono em molhos de soja produzidos no Brasil, indicando uma grande presença provavelmente de derivado de milho na mistura.

Ocorre que é absolutamente normal o uso de outros componentes para a produção do molho além da soja (e sal e água). Geralmente é adicionada uma fonte de amido para promover o crescimento do fungo e a produção de suas enzimas - no Japão e outros países orientais é comum a adição de trigo.

O ministério da agricultura do Japão padroniza cinco tipos entre os principais, mas há variantes por todo o país. O tipo mais comum de shoyu comercializado no Japão é koikuchishoyu (濃口醤油), com uma proporção de 1:1 entre soja e trigo. O shiroshoyu (白醤油), shoyu branco, pode ser feito totalmente de trigo, mas o mais comum tem uma proporção de cerca de 75% (1 parte de soja para 3 de trigo). O usukuchishoyu (薄口醤油) tem uma coloração intermediária entre o shiroshoyu e o koikuchishoyu, tendo cerca de 66% de trigo. Quanto maior a proporção de soja, geralmente, maior o teor de glutamato (e outros aminoácidos livres), que confere(m) o umami ao molho. Quanto maior a proporção de fontes de amido, maior o teor de açúcares, que conferem um toque adocicado. (Veja na tabela 1 algumas das principais características de cada tipo.)

Tabela 1. Características de composição e coloração dos cinco tipos padronizados de shoyu japonês. (Modificado de: O'Toole 2004.)
tipo sal (g/100 ml) nitrogênio total (g/100 ml) açúcares redutores (g/100 ml) álcool (ml/100 ml) cor razão soja:trigo
koikuchi 16,9 1,57 3 2,3 marrom escuro 1:1 mais vendido no Japão (>80% do mercado)
usukuchi 18,9 1,19 4,2 2,1 marrom claro mais trigo
tamari 19 2,25 5,3 0,1 quase preto 10:1 principal tipo consumido na China
saishikomi 18,6 2,39 7,5 - quase preto 1:1 uso de shoyu cru no lugar da salmoura para fermentação líquida
shiro 19 0,5 20,2 - amarelado muito mais trigo

A figura abaixo representa simplificadamente o processo industrial de produção do koikuchishoyu.

Figura 1. Esquema simplificado da fabricação industrial do shoyu tipo koikuchi. Koji (ou kouji, ), o bolor de Aspergillus spp. sobre grãos e sementes para a iniciação da fermentação;  moromi (諸味), o mosto de fermentação do shoyu (Modificado de Luh 1995.)

Então é preciso observar- que: 1) não há proibição na legislação brasileira de adição de milho nem estabelecimento de limites para seu uso no molho de soja (como é comentado de passagem nas reportagens como a do UOL); 2) elementos amiláceos que não a soja são acrescentados normalmente na produção de shoyu, inclusive no Japão; 3) a presença de milho (e outros ingredientes) *está* indicada normalmente nos rótulos de shoyu nacionais, como determina a lei.

A única restrição que se poderia fazer é se a *ordem* dos ingredientes nos rótulos está de acordo com a quantidade de milho: se há mais milho do que soja, o milho precisa estar listado antes da soja nos ingredientes.

Os autores do estudo observam que a maioria das amostras estudadas (40 de 70 amostras de marcas brasileiras) apresentou um teor estimado de soja menor do que 20%. É preciso observar que o que o estudo determinou mais diretamente é a proporção de isótopos de carbono-13 (C-13). O milho, ao contrário da maioria das plantas, inclusive soja (e também trigo), tem o chamado metabolismo C4, em que o carbono é inicialmente fixado (incorporado) em um composto de quatro átomos de carbono (a maioria tem um metabolismo chamado de C3, que, como se pode deduzir, fixa o carbono inicialmente em um composto com três átomos de carbono). Nas plantas com metabolismo C4, ocorre uma fixação de gás carbônico com isótopo C-13 em proporção ligeiramente superior às plantas C3. Um nível mais elevado de C-13 indicaria o uso em maior quantidade de uma fonte como o milho. A metodologia, então, é bem indireta para se estabelecer a quantidade exata de milho usado - tanto é que, para pelo menos um dos pontos, a extrapolação a partir da medição de C-13 indicaria uma quantidade superior a 100% de soja, o que não faz sentido a não ser considerando-se as incertezas da avaliação para o teor de milho.

Para os pesquisadores, a possível alta quantidade de milho poderia se dever ao fato dos preços desses grãos serem, na média, menores do que os da soja. É possível e faz muito sentido (mesmo que correspondendo a alguns centavos por frasco). Mas um fator a se considerar é a diferença de gosto entre brasileiros e japoneses. Será que, em tudo o mais sendo igual (preço, quantidade de sal, cor...), o brasileiro preferiria um molho com maior umami ou um com mais açúcares? É possível que haja estudos de mercado sobre a preferência do consumidor, no entanto, como não sou da área, não tenho conhecimento a respeito.

Seria o caso de promover uma padronização do shoyu brasileiro? Não sei. Em termos de saúde - tirante legislações mais genéricas como em relação ao uso de sal, aviso de alergênicos, data de validade, tabela nutricional... -, não parece haver necessidade em função de um eventual risco pelo uso de milho. Em termos econômicos: em 2013, as vendas totais de shoyu no Brasil eram o equivalente a cerca de R$ 180 milhões/ano, não chega a ser insignificante (para fins de comparação, o ketchup movimentou cerca de 500 milhões BRL/ano em 2016); mas há lesão ao consumidor - exceto se no rótulo não for indicado o uso do milho ou a listagem sugerir um uso menor -? Essa discussão deixo para a leitora ou o leitor do GR.

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Algumas manchetes, excertos e comentários:
Exame 25.abr.2018: Estudo mostra que shoyu brasileiro é feito à base de milho
"Foram feitas análises com 70 amostras do condimento vendidas no Brasil. A presença média de soja nos produtos avaliados era de menos de 20%. Apesar de normalmente ser à base de soja no Oriente, ele é feito com milho no mercado nacional. O trigo e a cevada podem ser misturados ao shoyu, mas não fazem parte da composição principal do produto."
UOL 25.abr.2018: Shoyu produzido no Brasil não é de soja, é feito à base de milho
"Em países como Japão, China e Coreia do Sul, o molho shoyu é feito de soja com proporções pequenas de outros cereais como trigo ou cevada."
.O shoyu mais comumente vendido no Japão, por exemplo, leva 50% de trigo, o que é longe de pequeno e pode ser qualificado como fazendo parte da composição principal. Há variações que têm até 100% de trigo na composição (excetuando-se água e sal).
Terra 26.abr.2018: Estudo revela real composição do Shoyu fabricado no Brasil.
"O molho fabricado pelas indústrias brasileiras é composto por milho, e não por soja. [...] Já o milho, nesse mesmo processo apresenta o sistema de fotossíntese de C4 por gerar moléculas de açúcar que contêm quatro átomos de carbono. Essas moléculas de açúcar continuam presentes nos alimentos mesmo após seu processamento, portanto torna-se mais fácil identificar cada um deles."
.Embora o milho fosse o principal componente, havia soja - mesmo que apenas 5% (o menor teor estimado para algumas amostras), não houve nenhuma em que o molho tivesse apenas milho. O método usado não tem a ver com a quantidade de átomos de carbono nas moléculas de açúcares - porque, embora inicialmente nas plantas de metabolismo C4 o carbono seja fixado em uma molécula de 4 átomos de carbono, essa molécula é processada depois e a via fotossintética é muito similar às plantas C3; a diferença é pela fração de isótopos de carbono-13 que são incorporados (devido a afinidades das enzimas que realizam a reação).

domingo, 1 de abril de 2018

É mentira, Terta? - flor que se cheire

O gênero Rafflesia, consistindo atualmente de cerca de 28 espécies conhecidas de plantas parasitas do Sudeste Asiático, foi descrito pela primeira vez em 1820 pelo botânico britânico Robert Brown - o descobridor do movimento browniano.

As Rafflesia não têm folhas, caules nem raízes verdadeiras, parasitando cipós do gênero Tetrastigma do qual suga a seiva por meio de estruturas especializadas denominadas haustórios. A espécie R. arnoldii possui uma das maiores flores do mundo, com mais de 1 metro de diâmetro (mesmo a espécie com a menor flor conhecida, R. baletei, tem um órgão reprodutivo com respeitáveis 12 cm de diâmetro).

Além da redução extrema das porções vegetativas, a alta especialização e modificação e o fato de apresentar um alto grau de transferência horizontal - cerca de 3% do genoma nuclear e 50% do mitocondrial parecem ter origem do hospedeiro - tornam sua classificação especialmente complicada. Análises genéticas indicam que pertençam à ordem Malpighiales (que inclui de violetas a maracujazeiros e outras 16 mil espécies conhecidas) e possivelmente esteja aninhada dentro da família Euphorbiaceae - que, em contraste com as Rafflesia, possuem flores bem mais modestas, entre 0,07 e 2 cm (Barkman et al. 2004; Davis & Wurdack 2004; Davis 2008).

Figura 1. Flor e botões de R. arnoldii. Fonte: Wikimedia Commons.
Mas um aspecto que talvez seja o mais distintivo seja a intensa cor vermelha salpicada de pontos brancos e o pungente cheiro de carne pútrida das flores. (Fig.1)

Beaman et al. 1988 descreveram o processo de polinização da R. pricei. As flores são visitadas por moscas verejeiras dos gênero Lucilia e Chrysomya.

As moscas, especialmente as fêmeas, visitam as flores machos, voando em seu interior aleatoriamente até encontrarem a coluna central com os estames. As moscas sobem, guiadas por uma fenda, até as anteras, que grudam massas de polén no tórax dos insetos.

Para testar o efeito das cores e do odor, Beaman et al. 1988 cobriram algumas flores fêmeas com tecido escuro - mantendo a abertura da região do diagrama - e cobrindo com folhas secas e outras com filme plástico transparente. Aparentemente tanto as cores (e os padrões visuais) e o cheiro são importantes para atrair moscas. Não devendo ser uma mera coincidência que as flores lembrem a corpos de tetrápodos terrestres (em particular mamíferos) em decomposição.

Talvez não seja a flor mais popular para se dar no dia dos namorados. E nem deveria. Lamentavelmente, as Rafflesia e espécies próximas estão seriamente ameaçadas de extinção por perda de hábitat.

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