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quarta-feira, 13 de junho de 2018

A péssima ideia de Thanos

Como já se passou um tempo desde a estreia de Vingadores: Guerra Infinita, em 23 de abril (dia seguinte ao Dia da Terra), acho que dá pra comentar uma parte principal do enredo sem que se caracterize como spoiler - se alguém ainda não viu (ainda está em cartaz em alguns cinemas no Brasil), então fica o alerta de spoiler.

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SPOILER ALERT!!!!!
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O plano de Thanos de usar as joias do infinito para sumir com metade da vida (sensciente) do Universo - no filme só falam genericamente em "vida", nos quadrinhos especificam "vida sensciente" -, além de eticamente absolutamente revoltante, não faz sentido racional.

Nos quadrinhos, ainda a intenção é de agradar a dona Morte, crush do titão louco; mas, no filme, o objetivo é trazer o equilíbrio ao Universo: os trilhões de habitantes estão consumindo recursos a um ritmo insustentável, o que logo causaria guerras e fomes (Malthus, alguém?). Em um verniz "humanitário", Thanos, então, elimina 50% dos seres sem distinção de sexo, raça, credo, cor, idade, status socioeconômico, ideologia política, sistema operacional de preferência, se marvete ou decenauta... (ele pode ser um vilão abjeto, mas preconceituoso pelo menos ele não é).

Mas isso traz equilíbrio para o Universo? Outro spoiler alert: não!

Peguemos o exemplo da Terra e seus primatas glabros. Em 1950, a população humana era estimada em torno de 2,5 bilhões de habitantes; em 1987, foi estimada em 5 bilhões de pessoas. Simplesmente dobramos em pouco mais de 35 anos.* (Fig. 1.) Se nos outros planetas a dinâmica demográfica for mais ou menos a mesma, em algumas dezenas de anos voltaríamos à mesma situação.

O tempo poderia ser até menor, porque hoje a tecnologia está muito mais avançada. E, depois de se recuperar do baque econômico que provavelmente adviria com o desaparecimento súbito de 50% da força de trabalho e do mercado consumidor, poderíamos ter um crescimento vertiginoso com o excesso de recursos por habitantes. Se eu sobrevivesse ao dustening, investiria todos os meus proventos no mercado ligado à maternidade e cuidados com bebês e crianças.
Figura 1. Tamanho estimado da população humana na Terra ao longo do tempo.

A perda súbita de um grande número de indivíduos pode colocar espécies em risco de extinção apenas se a população restante tem um número muito baixo de indivíduos reprodutivamente aptos. A população viável mínima (MVP - minimum viable population) varia de espécie para espécie - alguns invertebrados marinhos podem reconstituir a população inteira a partir de apenas um casal de indivíduos sobreviventes. Em humanos seria complicado porque significaria que irmãos procriariam com irmãos (e/ou com os pais), o que tornaria o risco de gerar descendentes com problemas genéticos (pela homozigose de alelos disfuncionais) muito alto e rapidamente inviabilizaria a continuidade reprodutiva. Em certos invertebrados isso não é um problema - com uma prole muito grande, a pequena fração de indivíduos que escapam de herdar cópias defeituosas já seria suficiente para garantir a continuidade reprodutiva. Mas para mamíferos, com taxas reprodutivas médias um pouco mais baixa do que de invertebrados, o MVP é mais alto - uma média de 95 indivíduos. Em humanos, com taxa reprodutiva menor do que a média dos mamíferos, o número deve ser em torno de 160 indivíduos. Ou seja, mesmo com a catastrófica redução da população atual à metade, ainda estaríamos longe, muito longe do risco de extinção.

Se o titã não fosse louco e obcecado com um plot destinado a fracassar (ao menos se a biologia reprodutiva dos demais seres senscientes do Universo for, grosso modo, similar à nossa - o que pode ser o caso para que híbridos interespecíficos como o Senhor das Estrelas possam existir) - mesmo que os Vingadores não fossem capazes de revertê-lo na continuação (e serão, óbvio; a Disney/Marvel não deixaria uma personagem que acabou de faturar mais de 1 bilhão de dólares em bilheteria relegada ao pó) -, ele bem poderia usar a joia da mente combinada com o poder das outras para convencer toda a população sensível do Universo a adotarem medidas menos consumistas, a aproveitarem mais inteligentemente os recursos, valendo-se dos 4R (reduzir, reaproveitar, repensar, reciclar), desenvolvendo fontes de energia alternativas, e revertendo os danos causados ao ambiente, além de adotar práticas de planejamento reprodutivo - isso teria um efeito permanente sem o fim catastrófico de fome, miséria, doenças e guerras.

Com o devido pedido de desculpas à Marvel...
...(Acho que nunca me contratariam de roteirista em Oliúde.)

*Upideite(14.jun.2018): Outra comparação, por volta de 1971, a população era de cerca de 3,7 bilhões de pessoas, hoje somos cerca de 7,5 bilhões - uma janela de cerca de 50 anos.

Mas o impacto psicológico não afetaria as taxas reprodutivas? Alguns indícios disponíveis apontam que após desastres como guerras, terremotos e furacões, a população sobrevivente tem um *aumento* na taxa de nascimentos. Na cidade britânica de Aberfan, País de Gales, após a tragédia causada pelo desmoronamento do monte de rejeito de minério de carvão, em 1966, durante cinco anos foi notado um aumento da taxa de nascimentos na comunidade local - tanto em famílias que perderam como entre as que não perderam parentes. Também foi detectado aumento de taxas de nascimentos (e de casamentos - e de divórcios) em condados do estado americano da Carolina do Sul após a passagem do furacão Hugo, em 1989. O mesmo efeito foi observado na cidade de Oklahoma nos Estados Unidos, após o atentado a bomba em 1995. Após o tsunami de 2004 que devastou amplas áreas das costas no Oceano Índico, a taxa de natalidade em diversas comunidades na Indonésia aumentou significativamente.Nos meses seguintes ao terremoto da comuna italiana de Áquila em 2009, também foi detectado um aumento de nascimentos - aparentemente a decisão de ter filhos foi um ato consciente das mulheres como mecanismo de lidar com o estresse pós-traumático. O efeito parece ser variável, no entanto, após serem atingidos pelo furacão Katrina em 2004, cidades da região da costa do Golfo nos EUA apresentaram diferenças nas taxas de natalidade - houve queda em paróquias de Louisina e Mississippi, e aumento em Alabama. De qualquer forma, tomado em conjunto, esses dados parecem indicar que seria uma boa aposta que a recuperação populacional pós-dustening poderia ser acelerada (ao menos aqui na Terra).

Mas e as mudanças nas tecnologias assistivas de planejamento familiar? Novas gerações de anticoncepcionais, uma maior liberalização geral do aborto no mundo em relação há 50, 70 anos atrás, e maior renda e acesso à educação, certamente diminuíram as taxas de natalidade. Se levou 37 anos de 1950 a 1987 para dobrar a população, levou 47 anos de 1971 a 2018. Mas consideremos as projeções de que a população humana deverá ser algo em torno de 12 bilhões por volta do ano 2100. Se usarmos essa taxa mais lenta futura, para ir de 3,7 para 7,5 bilhões de pessoas, ainda assim levaria pouco menos de 70 anos.

Upideite(22/jul/2018): Veja também:
Atila Iamarino/Nerdologia 14.jun.2018: "Porque a história de Thanos não faz sentido" (vídeo)

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