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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Indicador de Letramento Científico

Saiu o tão aguardado (pelos que acompanham os dramas da cultura científica no Brasil) resultado da primeira edição do Indicador de Letramento Científico, o ILC, realizado pelo Instituto Abramundo em parceria com a Ação Educativa e o Instituto Paulo Montenegro. Gostaria muito que esse tipo de levantamento fosse incluído nas pesquisas do MCTI sobre a Percepção Pública de Ciências - infelizmente o então diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do MCTI, Ildeu de Castro Moreira, foi voto vencido e o estudo sobre o conhecimento científico do brasileiro não foi incluída.

O resultado do 1° ILC não é nem um pouco diferente do que seria o esperado - o diabo é tão feio quanto pintam. Entre os entrevistados (2.002 pessoas entre 15 e 40 anos de nove regiões metropolitanas e do DF), apenas 5% apresentam o nível 4 - letramento científico proficiente: e a proficiência não é um nível particularmente alto de conhecimento, envolve coisas como interpretar gráficos de acordo com certas hipóteses (no exemplo do relatório, verificar o gráfico de projeção de temperaturas globais de acordo com as emissões de carbono em dois cenários e dizer o que significam essas duas projeções) (Tabela 1).

Tabela 1. Níveis de letramento científico dos entrevistados.
Nível Descrição %
Nível 1 "Não científico: Localiza, em contextos cotidianos, informações explícitas em textos simples (tabelas ou gráficos, textos curtos) envolvendo temas do cotidiano (consumo de energia em conta de luz, dosagem em bula de remédio, identificação de riscos imediatos à saúde), sem a exigência de domínio de conhecimentos científicos." 16
Nível 2 "Letramento científico rudimentar: Resolve problemas que envolvam a interpretação e a comparação de informações e conhecimentos científicos básicos, apresentados em textos diversos (tabelas e gráficos com mais de duas varáveis, imagens, rótulos), envolvendo temáticas presentes no cotidiano (benefícios ou riscos à saúde, adequações de soluções ambientais)." 48
Nível 3 "Letramento científico básico: Elabora propostas de resolução de problemas de maior complexidade a partir de evidências científicas apresentadas em textos técnicos e/ou científicos (manuais, esquemas, infográficos, conjunto de tabelas) estabelecendo relações intertextuais em diferentes contextos." 31
Nível 4 "Letramento científico proficiente: Avalia propostas e afirmações que exigem o domínio de conceitos e termos científicos em situações envolvendo contextos diversos (cotidianos ou científicos). Elabora argumentos sobre a confiabilidade ou veracidade de hipóteses formuladas. Demonstra domínio do uso de unidades de medida e conhece questões relacionadas ao meio ambiente, à saúde, astronomia ou genética." 5


Mesmo com metodologias distintas e público-alvo da pesquisa também totalmente diferentes, o mesmo padrão geral delineado em outras pesquisas como o PISA é obtido: um certo número de indivíduos sem nenhum conhecimento de ciências, a grande parte tendo apenas um conhecimento muito básico, e muitos poucos com conhecimentos mais avançados. (Figura 1a,b.)

a)
b)
Figura 1. a) Resultados para o Brasil do PISA 2012 de ciências (estudantes de 15 anos). b) ILC 2014 (brasileiros entre 15 e 40 anos).

Entre os que estão no ensino superior ou o completaram, apenas 11% têm nível de proficiência; entre os com nível superior completo, apenas 18% têm nível 4. Entre profissionais da administração pública, somente 6% e entre os profissionais de educação, apenas 10% (este é o ramo com maior porcentagem de indivíduos com nível 4). Entre os funcionários com altos cargos, de nível gerencial, são apenas 12% os proficientes (é a segunda categoria funcional com maior proporção de indivíduos com nível 4; a categoria com maior proporção é a dos profissionais liberais, empresários e empregadores: 15%).

Entre os com nível mais alto de letramento científico, 31% teriam problema em calcular a quantidade de combustível consumido para percorrer uma dada distância sabendo o consumo médio do veículo. Isso mesmo, entre os com maior capacidade de compreensão científica, quase 1/3 não saberia aplicar uma simples conta de multiplicação.

A pesquisa incluiu algumas perguntas sobre percepção e atitudes públicas sobre ciências, mas o relatório, infelizmente, não detalhou os resultados por nível de letramento. Entre as perguntas sobre interesses em temas científicos, os resultados poderiam ser alentadores (Tabela 2), mas a realidade sobre o grau de informação parece demonstrar que precisamos interpretar essas declarações de interesse com não apenas um grão de sal, mas com salinas inteiras (Tabela 3).

Tabela 2. Interesses declarados dos entrevistados a respeito de temas científicos.
Frase concorda (total ou parcialmente) não concorda nem discorda discorda (total ou parcialmente) ns/nr
A ciência me ajuda a compreender o mundo em que vivo 72 15 12 1
Procuro estar sempre bem informado sobre novidades no campo da ciência e da tecnologia 62 13 26 0
Gosto de ler textos sobre temas científicos 45 17 39 0
Sempre gostei de estudar ciências 44 17 39 0

Tabela 3. Conhecimento de temas científicos tratados nos meios de comunicação.
Tema Não sei nada/quase nada Conheço pouco/apenas ouvi falar Conheço bastante sobre o assunto Conheço bem o assunto e procuro estar atualizado
Mudanças climáticas/efeito estufa 24 59 14 3
Informática e tecnologia 26 48 21 6
Poluição/uso de recursos naturais/biodiversidade 27 52 17 4
Evolução das espécies; origem da vida 31 51 16 3
Cura de doenças/novos medicamentos 31 55 12 2
Fontes de energia renováveis 35 48 14 2
Animais pré-históricos, fósseis e descobertas arqueológicas 38 49 11 2
Engenharia genética/organismos geneticamente modificados/transgênicos 47 43 8 2
História do desenvolvimento científico 48 42 8 2
Exploração do universo/buracos negros/quedas de asteroides 50 41 8 2
Robótica e nanotecnologia 61 32 6 2

As opções de temas (Tabela 3) são bem abrangentes para uma interpretação de que os entrevistados consideram-se bem informados em outras áreas de ciências possa ser considerada com maior seriedade. Como compatibilizar a declaração de que se procura informar muito sobre ciências (Tabela 2) com a declaração de que se sabe pouco sobre ciências (Tabela 3)? Poderia ser por modéstia em declarar seu próprio conhecimento? Poderia ser por considerarem os textos que leem como pouco informativos? Darei a cara a bater e avançarei a hipótese de que os dados sobre interesses são pouco confiáveis: os entrevistados exageram seu grau de interesse. Alerto que pelos dados disponíveis *não* se pode testar a validade de tal interpretação que defendo aqui. É só um palpite.


Os dados mais bisonhos - ainda que não exatamente surpreendentes -:
77% dos entrevistados concordam (em parte ou totalmente) com a frase: "O governo deveria investir mais na ciência, pois ela tem importância estratégica para o país";
53% dos entrevistados concordam (em parte ou totalmente) com a frase: "O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais". (Tabela 4.)

Isso significa que entre 2430 (77-5347, no caso da sobreposição mínima entre os grupos) e 53% (sobreposição máxima) concordam *ao mesmo tempo* com as duas frases. Uma fração não desprezível dos entrevistados acham tanto que se deve aportar mais e menos dinheiro em Ciência e Tecnologia. (Incongruência presente também na pesquisa de 4 anos atrás feita sob encomenda do MCTI.) É mais um alerta de como devemos interpretar pesquisas de percepção e atitude públicas com um matacão de NaCl.

Tabela 4. Comparação da concordância dos entrevistados quanto aos investimentos em C&T e destinação dos recursos nas pesquisas do MCTI 2010 e do ILC 2014.
concorda totalmenteconcorda em partenão concorda nem discordadiscorda em partediscorda totalmentens/nrpesquisa
O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais2821-13353MCTI 2010
O dinheiro usado na pesquisa científica e tecnológica deve ser destinado para outras finalidades sociais21321814122ILC 2014
Os governos devem aumentar os recursos que destinam à pesquisa científica e tecnológica6823-423MCTI 2010
O governo deveria investir mais na ciência, pois ela tem importância estratégica para o país482915521ILC 2014

Por motivos que não entendi bem, resolveram concentrar o público na faixa entre 15 e 40 anos. Somado ao fato de restringirem às regiões metropolitanas e à capital federal, infelizmente não podemos extrapolar diretamente os resultados para a população brasileira. A comparação com os dados de atitudes e consumo de informações científicas dos levantamentos do MCTI também é prejudicada.

Seria legal se tivessem incluído perguntas utilizadas nos principais levantamentos de alfabetização científica no mundo - particularmente da NSF e da Eurobarometer. Mas é o que tem pra hoje. (De todo modo, pPelo que pudemos perceber, aparentemente os resultados do PISA, mesmo restritos à população de estudantes com 15 anos, podem ser extrapolados para a população inteira - ao menos para o Brasil em relação ao conhecimento científico.) De todo modo é o primeiro levantamento em nível nacional do letramento científico (de parte) dos brasileiros. Que venham as edições futuras.

Agora sabemos o tamanho do buraco da educação e divulgação científicas no Brasil.

Veja o que foi publicado em outros blogues:
Ceticismo - Uma catástrofe chamada letramento científico
Minas faz Ciência - Reflexões sobre o letramento científico

Upideite(25/ago/2014): Comparativo entre as categorias do PISA 2012 e o grupo de 15-19 anos do ILC 2014.
O nível abaixo de 1 do PISA parece corresponder ao nível 1 do ILC, assim como os níveis 4 e acima do PISA e o nível 4 do ILC das duas aferições parecem corresponder entre si.

2 comentários:

ciencianamidia disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
none disse...

Tatiana,

Desculpe. Eu exclui seu comentário sem querer...

O link q vc passou:
http://revistaescola.abril.com.br/blogs/eja/2014/08/20/letramento-cientifico-o-ensino-medio-faz-diferenca/
-----

eu tinha lido, mas valeu pela indicação.

Desculpe-me, de novo, por apagar seu comentário.

[]s,

Roberto Takata

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