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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Uma história de João

O euclipo começou já na sexta. Eu, porém, tinha coleta (saída a campo para obtenção de material a ser estudado em laboratório) para fazer, de modo que só cheguei a Arraial do Cabo no sábado. Um bate e volta de São Paulo até Ubatuba, passando pelas cidades do litoral norte do estado (mas sem poder apreciar a paisagem... trabalho). Das sete da matina na USP, saindo às sete e meia, estrada toda vida, voltando às seis e meia da tarde à sampa, mais uma hora até a USP pelas marginais (engarrafadas, claro), descarregar o material. Oito e tanto da noite na pensão, ducha rápida para readquirir um pouco de humanidade (em que condições deploráveis ficamos nessas viagens), dez para as dez na rodoviária do Tietê. Ônibus das 22h45 para o Rio. 5h00 da matina no terminal Novo Rio. 5h15 partindo para Arraial do Cabo. Chegando lá finalmente às 8h30 da manhã de sábado. Fui estropiado ao evento (barba de oito dias...).

Mas quero falar um pouco da coleta. De um episódio dela.
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Seu João (nome fictício) saiu do fundo de sua casa para ver quem acabava de adentrar sua propriedade.

Meu colega se apresentou: "Somos da USP, a gente está procurando por bichinhos que dão na goiaba e nos frutos..."

- Eu me lembro de vocês, respondeu João.

De fato estivéramos ali ao fim do ano passado. Seu pequeno terreno fica em São Luís (ou Luiz) do Paraitinga, na região do Vale do Paraíba, SP, à beira da estrada. Como da primeira vez, em que ainda éramos estranhos desconhecidos, recebeu-nos com toda a cortesia. Rapidamente guiou-nos por seu pomar, ajudando-nos a recolher aqui e ali uns poucos frutos caídos a apodrecer. Não havia muitos - apenas dois caixotes (bandejas) -, mas uma certa surpresa que ainda houvesse laranjas na época.

Enquanto nos contava, todo orgulhoso, de seus cinco (acho que eram cinco) filhos - todos feitos e encaminhados na vida (um que é gerente em uma empresa, uma que é coordenadora de escola, outro que é dono de padaria...) -, começou a retirar laranjas do próprio pé.

- Mas, seu João, a gente quer só os frutos estragados, disse eu. (Pois é, há esse lado pouco glamoroso na vida de pesquisadores: botar a mão na massa, enfiar o pé na lama, catar frutos apodrecidos cheios de larvas de moscas...)

- É pra vocês levaram para casa.

Meio constrangidos - embora da outra vez também seu João fizesse questão de que levássemos para provar o, literalmente, fruto de seu trabalho - pegamos uma bandeja. Rapidamente ela ficou cheia e depois uma segunda.

- Seu João, muito obrigado!

- Calma que tem mais.

- Mas seu João, não queremos dar prejuízo para o senhor... falamos.

- Que prejuízo? Eu acabei de doar cinco sacas para uma creche da cidade.

E, quase tão orgulhoso quanto dos filhos, apresenta-nos o pomar. Já o víramos na vez anterior, mas as pequenas mudas agoram eram vigorosas e carregadas arvoretas. Vindo do mato-grosso, trabalhou a vida inteira em São Paulo como ajudante e depois pedreiro e mestre-de-obras. Com a lida e os ganhos honestos criou os filhos. Agora aposentado, fugindo do agito da cidade grande, estabeleceu-se no interior. Cidadezinha com seus pouco mais de 10 mil habitantes, pacata no mais das vezes. Só no carnaval, no famoso carnaval de rua de S. Luís do Paraitinga, que os turistas chegam às pencas a ponto de tornar a fuzarca um tanto insuportável aos locais - preferem alugar suas casas e sair enquanto duram as festas. (Infelizmente, no último carnaval, os foliões forasteiros andaram a quebrar os bens. Há dúvida sobre se vale a pena tudo isso.) Tenta convencer os filhos a irem para lá. Mas todos têm suas próprias vidas e parecem preferir o dinamismo da cidade grande. A alegria maior de João é quando eles o visitam com seus netinhos.

A casa dos fundos da propriedade, construído por ele mesmo, muito maior do que as necessidades de um homem solitário, é para receber a comitiva familiar.

No resto do tempo dedica-se ao seu cultivo - principalmente laranja, de todo tipo: pera, pera Rio, lima, uma que se parece com uma toranja no interior (arroxeado), mas menor... Pretende ainda plantar caqui. Ladeando as duas parcelas de laranjeiras, mudas de araucária - daqui a alguns anos, João planeja ter uma boa produção garantida de pinhões. Rodeando o terreno pelo lado mais alto, pinheiros que impede que o gado do terreno ao lado invadam a cerca e tentem pastar de sua plantação. Pelo lado da rodovia, mais abaixo, cerca viva de Hibiscus em plena floração. Com seu jeito pacato, cordato, João explica como capinou todo o terreno, à mão, sozinho. Cavou cada cova, curtiu serragem com esterco para preencher as covas e só depois de 30 dias para completar o processo é que plantou as mudas. Pela quantidade de laranjas que temos à mão - a essa altura já íamos pela quarta bandeja - toda a trabalheira valeu a pena.

- O senhor aluga colmeias para polinizar as laranjeiras? pergunto.

- Ah! Tem uma colmeia ali para cima, em um cupinzeiro. Já me picaram. Pensei em chamar os bombeiros para tirar, mas pensando melhor, elas ajudam aqui a produzir os frutos. Então, não tem problema me picarem de vez em quando. Dói bastante, mas não fico todo inchado, não.

Quase que como se tivesse entreouvido nosso diálogo, uma abelha abelhuda se intromete e adeja perto de meu rosto. Fico ligeiramente apreensivo, no entanto, ela logo se cansa e vai embora.

Apanhando mais frutos, seu João explica o sistema de irrigação que desenvolveu, de modo que a água não se perca escorrendo terreno abaixo - ele tem uma inclinação razoável (e o jardim e o pomar de seu João ajudam a estabilizar). Ela corre pelos canais e vai a todas as covas, que não foram enchidas de terra até o topo, de modo que cada uma retém a água para as plantas. Há ainda sulcos que impedem que a água da chuva também escoe diretamente para a rodovia. Retém a umidade no solo e diminui o escoamento superficial. Isso (o escoamento) seria terrível para seu João, toda a camada superficial do solo acabaria sobre a pista de rodagem.

Tudo isso aprendeu e aprende aqui e ali, em conversas com amigos e técnicos. Prudente, testa cada sugestão antes de aplicar em toda a cultura. Comento que os produtores de laranja aplicam ácido giberélico nos frutos de modo que sua casca permaneça verde, mas continue a amadurecer por dentro - evitando a infestação por moscas-das-frutas e obtendo uma produção mais valorizada (com um maior teor de Brix, o preço a ser pago pela indústria de sucos é maior). João acha interessante, toma nota mental. Vai procurar saber mais sobre isso e deixa escapar uma observação:

- Ah! Por isso que a laranja deles é diferente...

Estamos - sujeitos da cidade grande - com certa pressa para voltar. Pegaremos São Paulo bem na hora do rush, no anoitecer de sexta-feira...

Voltamos à sampa com cinco bandejas repletas da melhor laranja. Mas o melhor mesmo que levamos é a boa conversa de seu João.

Pé na lama, mão na massa, frutos podres... e gente de primeiríssima - sem glamor, mas quem precisa? Como é bom ser pesquisador e poder encontrar com pessoas como seu João. Tomara que a gente consiga - um dia (eu sei, distante) - controlar as moscas-das-frutas nos cultivos, especialmente dos pequenos produtores, que mais sofrem com essas perdas.
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Nota: os diálogos são reconstituídos a partir da memória, procuram ser fiéis aos acontecimentos, mas não são transcrições literais do que foi dito.

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