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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Debaixo dos caracóis dos teus cabelos...

Qual o pente que te penteia?

Mauro Rebelo do Você que é Biólogo não gostou do texto da coluna Espiral de Alysson Muotri nem do artigo científico comentado na coluna sobre a possível correlação entre o sentido do redemoinho capilar e a orientação sexual masculina.

Seguramente a homossexualidade (e a sexualidade de modo geral) é um tema um tanto sensível e muitas vezes causa incômodo quando trazida à luz do dia. É preciso tato ao abordá-la e não é muito fácil atingir-se esse equilíbrio.

O artigo não é propriamente novo (ao menos em termos jornalísticos): é de 2004. Mas a questão científica parece secundária nessa celeuma. Como Muotri nos informa, o autor tentou publicar seu trabalho na Science e foi recusado. Até aí, tudo bem, pode-se alegar que não tinha o impacto que a equipe editorial da revista busca; mas ao publicar em uma revista científica de baixo impacto, o autor, Amar Klar, não pode usar como referência o endereço do departamento em que trabalha, teve que dar seu endereço residencial. A pesquisa foi financiada com dinheiro do próprio bolso do pesquisador e não, como na grande maioria dos casos de pesquisadores lotados em uma instituição científica, por verbas de um fundo científico público (geralmente) ou privado.

Rebelo enumera os problemas que, em sua visão (visão dele), há no artigo de Klar:
1) falta de embasamento teórico;
2) seleção de observação;
3) baixo número amostral;
4) má aplicação de ferramentas estatísticas;
5) conclusões tendenciosas.

Eu tendo a discordar das restrições de Rebelo.
1) Klar cita trabalhos anteriores que mostram um fundo inato da homossexualidade: como o estudo com gêmeos; cita também trabalhos anteriores que correlacionam a homossexualidade ao fato da pessoa ser destra ou canhota. E cita o artigo do próprio Klar que correlaciona o sentido de rotação do redomoinho capilar com o lado da mão "boa". Então há uma contextualização geral para o trabalho feito. Há um embasamento teórico.

Porém, o embasamento teórico é mais ou menos imprescindível apenas na fase da justificação da pesquisa: mostrar ao órgão financiador que não se está atirando a esmo. Aqui temos então que mesmo que não houvesse tal embasamento - e acima vimos que de qualquer forma existe - isso não seria problema: a) a pesquisa não precisou de dinheiro público e b) existe um dado e o dado não depende de um embasamento teórico.

2) O autor procurou comparar os dados com um grupo de controle. A constituição do grupo controle foi também criteriosa:

"Clearly the combined value of 29.8% CC orientation of three samples with preponderance of gay men should not be compared to the 8.4% reported previously for the combined sample of both males and females (Klar 2003). To avoid the possibility of recording gay men also present among men relaxing in other, ‘non-gay’ areas of the beach, data for an unselected, control group of males were not collected from the same beach. Rather, visits were made to local shopping malls, grocery stores, barber shops, gas stations, fast-food restaurants, gyms and three airports in the states of Maryland, New Hampshire and Massachusetts to collect data on males (both men and boys) randomly chosen from the general public, without enquiring about their sexual orientation; a minority of them are expected to be gays. Only 8.2% of the males in the control group exhibited the CC pattern (table 1), a percentage strikingly similar to the 8.4% value reported for the combined male and female population at large (Klar 2003).

It is formally possible that men with counterclockwise hair-whorl orientation prefer to visit the beach more often than those with the clockwise orientation for reasons unrelated to their sexual orientation. Therefore, as another control, data on men relaxing at another beach frequented by the general public, in Atlantic City in the nearby state of New Jersey, were collected. In this sample only 10.7% men showed counterclockwise orientation, a result not significantly different from the sample of males at large."

3) O número amostral não é tão baixo. Para a população gay: 272 indivíduos (somando três "populações"); para a população não-gay: 328 homens (somando duas "populações"). Mas, mesmo que fosse pequena a amostra, apenas limitaria a extensão possível das conclusões. (Vide o bafafá da Ruth de Aquino.)

4) Klar usa o teste do qui-quadrado. É um teste apropriado para comparar proporções entre duas amostras/populações. A amostra/população controle nos indica a proporção esperada. Na amostra/população teste temos a proporção observada. O qui-quadrado mostra se há ou não desvio estatisticamente significativo da proporção observada em relação à proporção esperada.

5) Consideremos a afirmação final: "Thus, a genetic factor that controls the direction of hair-whorl rotation contributes to a significant proportion of gay man’s sexual preference." Não parece que seja uma conclusão tendenciosa dentro da linha de raciocínio adotada e dos indícios trazido em suporte ao argumento pelo autor do artigo. Pode-se argumentar contrariamente e procurar rebater essa conclusão, faz parte do sadio processo científico de análise e refutação. Rebelo lembra que correlação não prova causação: "eventual existência de correlação entre 'dias de chuva x número de homens calvos' em uma cidade não demonstra qualquer relação causal". De fato, não demonstra, mas Klar não se limita apenas a fazer a correlação, procura explicar como a ligação causal deve existir - algum gene a influenciar na lateralidade cerebral que também acaba por influenciar a orientação sexual e o sentido do redemoinho capilar. Não é uma relação direta de causa-e-efeito, mas é um bom argumento de que a correlação não é fortuita. E a vantagem é que tal proposição é testável. Se fosse fortuita, outros estudos não deveriam encontrar a mesma correlação. 'Taí um bom modo de tentar refutar a conclusão de Klar.

Então a mim parece mesmo que a questão do julgamento a respeito do trabalho de Klar não é estritamente científica. Sempre lembrando que isso não quer dizer que a análise seja ilegítima se não se der exclusivamente sob a óptica das ciências. Uma análise ética é perfeitamente factível e justificável: p.e. a questão da privacidade.

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