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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 14 (parte 1 de 2)

Burns, T.W.; O'Connor, D.J. & Stocklmayer, S.M. 2003. Science communication: a contemporary definition. Public Understanding of Science 12: 183-202.

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O público

Público:
toda pessoa na sociedade. Seis grupos sobrepostos cada qual com suas necessidades, interesses, atitudes e níveis de conhecimento.
Cientistas: na indústria, comunidade acadêmica e governo;
Mediadores: comunicadores (incluindo comunicadores de ciências, jornalistas e outros membros da mídia), educadores, formadores de opinião;
Tomadores de decisão: definidores de políticas em instituições governamentais, científicas e educacionais;
Público geral: os três grupos acima, mais outros setores e grupos de interesse como alunos e trabalhadores de entidades assistenciais;
Público atento ("attentive public"): parte da comunidade geral que já tem interesse em (e é razoavelmente bem informado sobre) ciência e atividades científicas;
Público interessado ("interested public"): composto por pessoas interessadas, mas não necessariamente bem informadas sobre ciências e tecnologia.

Público leigo: pessoas, incluindo cientistas, que não são especialistas em uma dada área;
Comunidade científica ou praticantes de ciência: pessoas diretamente envolvidas com algum aspecto da prática científica.

Participantes

Participantes
: pessoas do público direta ou indiretamente envolvidas na comunicação sobre ciências. (Não é o mesmo que agentes - stakeholders - pessoas com interesses pessoais em resultados particulares, nem clients - pessoas que pagam por um serviço.)
Participante direto: e.g. quem visita um centro científico, assiste a um filme científico, escreve uma carta para o editor de um jornal sobre uma matéria relacionada às ciências.
Participante indireto: e.g. locatário do espaço de um evento científico, patrocinadores e prootores.

Resultados e respostas

Consequências ("outcomes"): os resultados de uma ação.
Respostas: ação, sentimento, movimento, mudança, etc. eliciados por estímulos ou intereferência. A resposta é mais pessoal e imediata do que as consequências.

Ciência

O Painel de Questões Públicas da Sociedade Americana de Física (Panel on Public Affairs of the American Physical Society) define ciências como:
"Empreendimento sistemático de acumular conhecimento sobre o mundo e organizá-lo e condensá-lo em leis e teorias testáveis."
"[...] o sucesso e a credibilidade das ciências são ancorados no desejo dos cientistas de exporem suas ideias e resultados ao teste e réplica independentes por outros cientistas [...e] abandonar ou modificar conclusões aceitas quando confrontadas com indícios experimentais mais completos e confiáveis." (Muitos identificam essa definição como referente às ciências puras.)

Muitos dicionários destacam o uso do método científico como um modo de identificar uma atividade como parte das ciências.

O relatório "Science for all Americans" identifica o fato de a ciência ser conduzida dentro de um contexto social ter como consequência, ela ser influenciada por este.

No contexto da comunicação sobre ciências, as ciências incluem ciências puras (como definida acima), matemática, engenharia, medicina, estatística, tecnologia e áreas afins.

Consciência ("Awareness")
A definição usual de dicionário "estar ciente, não ignorante de algo" não é suficiente no contexto de comunicação sobre ciências. É usado em um sentido mais amplo sobre a relação do público com as ciências.

Compreensão ("Understanding")
A compreensão não é algo binário - ou se tem ou não se tem -, mas é um entendimento em desenvolvimento tanto do significado quanto da implicação de certos conhecimento, ação ou processo baseados em princípios adequados comumente aceitos. No caso da compreensão de ciências, tais princípios são leis, teorias e processos identificados com a seção científica, bem como algumas de duas ramificações.
Há pouco discussão a respeito de que a compreensão seja em geral uma boa coisa, mas há indícios que sugerem que sob certas condições, as pessoas podem escolher deliberadamente pela ignorância: p.e., trabalhadores de usinas nucleares tendem a preferir confiar em seus colegas para proporcionar um ambiente seguro a eles mesmo entenderem os riscos da radiação.

Comunicação
Schirato & Yell 1997: "prática de produzir e negociar significados, sempre sob condições social, cultural e política específicas".

Consciência/Atenção Pública de Ciências ("Public Awareness of Science" - PAS)
Gilbert, Stocklmayer & Garnett 1999: "conjunto de atitudes positivas em relação às ciências (e tecnologia) que são evidenciadas por uma série de habilidades (skills) e intenções comportamentais (behavioral intensions) [...] As habilidades de acessar conhecimento científico e tecnológico e o sentido de posse desse conhecimento trará uma confiança para explorar suas ramificações. Isso levará, em algum momento, à compreensão de ideias e produtos-chave e de como eles surgiram, à avaliação do status do conhecimento científico e tecnológico e seu significado para a vida pessoal, social e econômica."

Consciência Pública de Ciências (PAS) e Compreensão Pública de Ciências (PUS) por vezes são usados como sinômicos, embora haja sobreposição de seus limites e objetivos, a PAS é predominantemente sobre atitudes. A PAS é um componente fundamental da PUS e da alfabetização científica.

Compreensão Pública de Ciências ("Public Understanding of Science" - PUS)
O relatório "Science and Society" da Câmara dos Lordes define:
"[...] compreensão de matérias científicas por não-especialistas. Isso não significa, claro, o conhecimento exaustivo de todos os ramos científicos. Isso pode, no entanto, incluir compreensão da natureza dos métodos científicos [...] consciência ("awareness") dos avanços científicos atuais e suas implicações. A compreensão pública de ciências tornou-se um termo que resume todas as formas divulgação (no Reino Unido) pela comunidade científica ou por outros em seu lugar (e.g., escritores de ciências, museus, organizadores de eventos), para o público afora, voltadas para melhorar essa compreensão."
Millar no contexto de educação científica propõe três aspectos - que podem ser generalizados para a definição da Compreensão Pública de Ciências:
1. Compreensão do conteúdo científico, ou conhecimento científico substancial (conhecido como conteúdo) - conceitual;
2. Compreensão dos métodos de pesquisa (chamados de processo) - procedimental;
3. Compreensão das ciências como um empreendimento social: consciência ("awareness") do impacto da ciência sobre indivíduos e a sociedade; uma dimensão extensa rotulada como fatores sociais - afetiva.

Alfabetização científica ("Scientific literacy" - SL)
A interpretação da alfabetização científica ao longo dos anos mudou de habilidade de ler e compreender artigos relacionados às ciências para a compreensão e aplicação dos princípios científicos no dia-a-dia.
Shen 1975 propôs três categorias mais amplas:
1. Alfabetização científica prática. Conhecimento científico aplicável na solução de problemas práticos.
2. Alfabetização científica cívica. Permite aos cidadãos "tornarem-se mais conscientes ("aware") da ciência e questões relativas às ciências de modo que eles ou seus representantes não se inibam de usar seu bom senso para apoiar tais questões e assim participar mais plenamente dos processos democráticos em uma sociedade crescentemente tecnológica".
3. Alfabetização científica cultural. Apreciação das ciências como uma grande realização da humanidade.
Miller desenvolve o conceito da SL cívica em três dimensões:
a. um vocabulário de construtos científicos básicos suficiente para ler relatos divergentes em um jornal ou revista (conteúdo);
b. compreensão do processo ou natureza da pesquisa científica (processo);
c. algum grau de compreensão do impacto das ciências e tecnologia sobre os indivíduos e a sociedade (fatores sociais).

Hacking, Goodrum & Rennie: "O fundamental para o quadro ideal é a crença que o desenvolvimento da alfabetização científica deve ser o foco da educação científica nos anos obrigatórios de estudo. A alfabetização científica é uma alta prioridade para todos os cidadãos, ajudando-os a se interessarem pelo mundo a sua volta e compreendê-lo, para participarem de discursos científicos, para serem céticos e questionarem as alegações feitas por outros sobre matéria científica, para serem capazes de identificar questões, investigar e tirar conclusões baseadas em indícios e para tomarem decisões informadas sobre o ambiente e sua própria saúde e bem-estar."
Embora o ideal de um nível alto e universal de alfabetização científica possa ser inalcançável, é um objetivo válido e criticamente importante para a sociedade moderna.

Cultura científica ("Scientific culture" - SC)
Há várias definições.
1. Conjunto de "valores e ethos, práticas, métodos e atitudes baseado no universalismo, pensamento lógico, ceticismo organizado e o caráter tentativo dos resultados empíricos" que existe dentro da comunidade científica/acadêmica.
2. Godin & Gingras: "cultura científica e tecnológica é a expressão de todos os modos através dos quais indivíduos e sociedade apropriam-se da ciência e da tecnologia".
3. A maioria dos países europeus usam "cultura científica" com o significado de PUS (no Reino Unido) e SL (nos EUA), com ênfase no ambiente cultural em que ciência e sociedade interagem. Sistema integrado de valores sociais que aprecia e promove a ciência, per se, e a alfabetização científica disseminada como objetivos importantes.
Os usos 1 e 2 contrastam no domínio: o primeiro restrito à comunidade científica, o segundo considerando o uso de toda a sociedade.

Ciência e sociedade: qual o lugar da comunicação sobre ciências?
Há um reconhecimento crescente de que vivemos em uma fase crítica da relação entre ciências e sociedade.

De um lado, as questões envolvendo ciências estão bastante excitantes, o público está mais interessado e as oportunidades mais patentes. De outro, a confiança do público nos conselhos científicos aos governos está abalada por um série de eventos, muitas pessoas estão incomodadas pelas grandes oportunidades trazidas pelas áreas científicas que parecem avançar muito além de sua consciência e consentimento.

As pesquisas indicam que o público não sabe muito de ciências, enquanto os cientistas não sabem muito sobre o público. O nível de interesse em ciências continua alto, mas o nível verificável de compreensão sobre ciências continua baixo.

O modelo do déficit nasce da interpretação das primeiras pesquisas, caracterizando-se por considerar o público com tendo conhecimento inadequado e a ciência a possuir todo o conhecimento necessário.

Críticos apontam que essas pesquisas podem não captar a verdadeira natureza complexa da questão: elas indicam um analfabetismo generalizado ou a ambivalência do público em relação as ciências (ou às questões realizadas)? é realístico testar o conhecimento do público sobre fatos científicos? por que se deve esperar que o público tenha mais conhecimento de ciências do que de política, arte, música ou literatura? como fatores sociais e culturais afetam os resultados?

A partir da década de 1990, Wynne, Irwin, Latour, Collins, Pinch, Jenkins, Layton, Yearley, McGill e Davey promoveram o modelo da abordagem contextual ("contextual approach"):
"O modelo do déficit é assimétrico, apresenta a comunicação como fluxo de via única: da ciência para o público [... enquanto que o] modelo contextual explora as ramificações de sua raiz metafórica completamente distinta, a interação entre a ciência e o público. Em consequência, o modelo contextual é simétrico: apresenta a comunicação como via de mão-dupla entre a ciência e o público. O modelo contextual implica em um público ativo: ele requer uma reconstrução retórica em que a compreensão pública é uma criação conjunta do conhecimento científico e local [...] Neste modelo, a comunicação não é apenas cognitiva, questões éticas e políticas são sempre relevantes."

No Reino Unido, no relatório "Science and Society" da Câmara dos Lordes, o título "Ciência e Sociedade" substituiu o rótulo PUS, identificando o comprometimento do país com a abordagem contextual. O objetivo é que ciência e sociedade comecem a trabalhar em conjunto de um modo positivo, inclusivo e produtivo. A comunicação sobre ciências é uma parte vital desse processo.
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