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domingo, 31 de outubro de 2010

Discutindo ciências palpiteiramente: resposta

Algumas observações minhas em relação ao comentário de Luiz Bento do Discutindo Ecologia que publiquei aqui.

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Luiz,

Certamente a discussão sobre alfabetização científica não é nova. De certo modo pode ser traçada até Grécia Antiga, mas na forma moderna a questão surge ali por volta da década de 60 nos EUA - por conta do lançamento pelos soviéticos do satélite Sputnik. Mas discordo que o que foi feito até aqui se baseie na premissa do "conjunto mínimo de conhecimento". Não raras vezes a premissa é de entuchar o máximo possível.

Sobre o fracasso, de modo geral podemos dizer que, sim, houve um fracasso. Mas há avanços. Especialmente em países escandinavos há um bom grau de conhecimento científico da população em geral - e não apenas científico, a educação no todo é muito boa.

Em relação à medição do conhecimento científico. Não é apenas o conteúdo programático normal que são medidos, mas também a habilidade de se conectar as informações e o entendimento da questão da necessidade de se comparar os resultados de um experimento com uma situação controle (muitas vezes chamado de "método científico"). Poderá ver nesta postagem que resume a revisão Miller sobre a compressão dos americanos sobre ciências - item "Compreensão da natureza da pesquisa e estudos científicos".

Discordo de se igualar a medição da compreensão do conteúdo com o modelo do déficit. Por um lado, outros modelos de comunicação sobre ciências valem-se desse instrumento para aferir questões importantes, uma é a própria compreensão das ciências: uma pessoa que não saiba que as populações evoluem certamente tem uma séria restrição quanto à compreensão das ciências. E, certamente você concorda, que a incompreensão de fatos básicos e o desconhecimento de teorias científicas amplamente aceitas no meio acadêmico impõem graves restrições quanto ao exercício pleno da cidadania: não saber dos perigos e dos benefícda iosbenefícios potenciais de projetos como uma nova hidrelétrica acabará por permitir escolhas erradas com graves consequências - racionamento de energia, desequilíbrio do ecossistema local, desperdício de verbas. Por outro, o modelo do déficit não se vale somente da medição da compreensão do conteúdo: a inabilidade de sua aplicação, de sua contextualização, ou da incompreensão dos processos também são compatíveis com o modelo do déficit.

De todo modo, na minha visão, há, no meio acadêmico que estuda a questão da compreensão pública de ciências, um certo exagero nas críticas sobre o modelo do déficit. Ele certamente é muito limitado, mas não dá uma descrição completamente errada do quadro nem gera soluções completamente incompatíveis. Há um erro que o torna inválido na questão da ligação entre compreensão e atitude: o modelo pressupõe que a melhor compreensão se liga a uma melhor atitude em relação às ciências e os resultados indicam claramente que ocorre o oposto - de modo geral, quanto maior a compreensão dos processos científicos, mais críticas são as atitudes. Mas o modelo funciona para certos grupos anticientíficos: a uma atitude negativa, acompanha uma compreensão menor.

Não cheguei ainda a ler nada de Durant e Lévy-Leblond de modo que não sei qual a proposta de integração da questão sociocultural. Se pudesse detalhá-la poderíamos discuti-la.

Mas a proposta/desafio aqui não é traçar uma estratégia oficial de governos e instituições para melhorar o conhecimento ou as atitudes do público em relação às ciências, mas sim o que uma pessoa pode fazer para ela conhecer o que é necessário conhecer de ciências.
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Luiz Bento responde nos comentários e aqui.

2 comentários:

Luiz Bento disse...

Olá Takata,

Quando falei no modelo de déficit estava discutindo exatamente as políticas públicas que utilizaram este modelo como base para programas como o CoPUS no Reino Unido na década de 80. A premissa do americano E. D. Hirsch e o seu famoso "Cultural Literacy: What every amerian needs to know" leva a uma ideia de que o conteúdo é o mais importante. E este é o problema.

Nunca li nenhum autor que defenda que as pessoas não tenham que saber conteúdo científico. Claro que é importante mas focar apenas nisso pode ter efeitos não significativos. Foi o que aconteceu com o programa europeu. Depois de 10 anos eles perceberam que a compreensão da população sobre ciência permaneceu a mesma, depois de grandes investimentos tanto de recursos financeiros como de profissionais voltados para este tema. Isso foi bem descrito por Steve Miller no artigo "Os cientistas e a compreensão pública da ciência", também no livro "Terra Incógnita".

O principal argumento do Durant é que o conhecimento científico é muito dinâmico e que valeria mais a pena investir no que ele chama de "conhecimento sobre a gestação ou embriologia da ciência". Ele e outros autores da área são contra também investir em ensinar o método científico da forma clássica. A ideia é que as pseudociências podem usar essas "regras" em benefício próprio, se fantasiando de ciência e confundindo ainda mais o público.

Em outro livro (Cultura científica - desafios, Editora EDUSP, 2006) tem um artigo do Levy-Leblond bem interessante intitulado "Cultura científica: impossível e necessária". No último parágrafo tem um trecho que resume um pouco a ideia dele:

"(...) acredito que o objetivo da divulgação científica não pode ser mais pensado em termos de transmissão do conhecimento científico dos especialistas para os leigos; ao contrário, seu objetivo deve ser trabalhar para que todos os membros da nossa sociedade passem a ter uma melhor compreensão, não só dos resultados da pesquisa científica, mas da própria natureza da atividade científica. A perspectiva mais distante, ainda que neste momento possa parecer utópica, é mudar a ciência de forma que ela possa finalmente diluir-se na democracia."

A crítica em relação ao modelo de déficit é achar que apenas o conhecimento da "verdade" científica fará com que as pessoas sejam mais críticas. As pessoas realmente acham que a ciência é feita por "verdades" e por isso temos crises persistentes de descrédito da ciência perante a sociedade. Posso citar o caso do mal da vaca loura (muito bem descrito pelo Steve Miller no artigo que citei no começo) e o atual "Climategate". Enquanto investirmos apenas em passagem do conhecimento científico estaremos somente adiando a próxima crise de descrédito da ciência.

Luiz Bento disse...

Para fechar um trecho do artigo "O que é alfabetização científica" do John Durant (Terra Incógnita, Editora Vieira e Lent, 2005):

"Para entender ciência avançada o público precisa de algo além do que o mero conhecimento dos fatos. (...) Precisa mais do que imagens idealizadas da "atitude científica" e do "método científico". O que ele necessita, com certeza, é uma percepção sobre o modo pelo qual o sistema social da ciência realmente funciona para divulgar o que é usualmente conhecimento confiável a respeito do mundo natural. O público precisa compreender que às vezes a ciência funciona, não por causa de, mas, sim, apesar dos indivíduos envolvidos no processo de produção e disseminação do conhecimento."


Como mostra o quadro do American museum of natural history no início do post temos que dividir com o resto da sociedade como a ciência realmente funciona. Precisamos largar o nosso medo de que o público "não vai entender" essa estrutura, que a ciência perderá a confiança do público. Na verdade é a falta de conhecimento do público de como a ciência funciona que torna a sua imagem tão frágil. As pessoas precisam conhecer a fundo como funciona o chamado por John Durant de "sistema de controle de qualidade da ciência". Como diria Carl Sagan, "A ciência não é perfeita. Mas é de longe a melhor ferramenta que temos". E sem entender a ferramenta o público em geral nunca entenderá verdadeiramente a sua importância e os seus novos resultados, principalmente os mais controversos.

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