Lives de Ciência

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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Especulando: Crise das ciências, DC e ação política

Neste momento particularmente terrível para a ciência brasileira com o contingenciamento de 42% do orçamento da pasta do MCTIC - e com um orçamento que já era reduzido em relação aos anos anteriores - e várias ações do anti-intelectualismo que grassam no governo em várias esferas (de CPI das Universidades em São Paulo, campanhas para filmar e denunciar professores, mentiras ditas sem contestação a respeito da pesquisa em universidades públicas, etc.), a comunidade acadêmico-científica parece apostar em duas fichas: a divulgação científica e o ativismo político.

De um lado, acho mais do que válida e bem vinda a valorização por parte dos cientistas em geral do que muitas vezes era vista como patinho feio do trinômio universitário: a extensão. E dentro da extensão, a DC também muitas vezes gerava mal entendidos - como o famigerado (e certamente falso) "efeito Carl Sagan" - de que acadêmicos que se dedicam à divulgação tendem a ser pouco produtivos em publicações científicas.

Entre outros efeitos, isso deve (acho) redundar em: 1) mais cientistas se dedicando à atividades de DC; 2) mais oportunidades de trabalho para grupos já relativamente organizados de DC; 3) maior preocupação com capacitação e formação dos divulgadores.

Mas me preocupo um tanto com um aparente excesso de esperanças que parte da comunidade científica parece depositar na DC para angariar apoio popular - e, daí, político; e, daí, reverter cortes nos financiamentos e ações anticiência. A DC tem um papel importante a desempenhar, mas a expectativa me parece irreal. Ela não faz mágica.

A DC não é meramente um departamento de relações públicas e assessoria de imprensa e de imagem das ciências. Parte dela pode cumprir tal papel. Mas é também parte da DC desempenhar um papel de observação crítica da prática científica. Denunciar más práticas, relativizar hypes de descobertas - colocando em contexto ou até mesmo apontando possíveis consequências danosas da aplicação de um achado científico, é algo que cabe à DC (seja ou não na vertente do jornalismo científico) - ainda que não exclusivamente à DC, a própria ciência em si tem seus fóruns internos para tal discussão (p.e. a questão sobre o uso ou não de significância estatística como critério dicotômico de aceitação ou não de hipóteses tem sido feita através de artigos científicos e de opinião em publicações científicas e acadêmicas).

Mas mesmo a DC em seu papel de reforçar a confiança nas ciências é limitada. Estudos de persuasão indicam que os variados métodos como uso de humor, metáforas, elementos emotivos, admoestações peremptórias, inoculação preventiva, etc. têm resultados modestos (ainda que positivos) nas atitudes do público em relação às ciências. As pesquisas têm ajudado a conhecer as melhores práticas da DC no quesito convencimento, mas ainda estão engatinhando como uma área de ciência da divulgação de ciências.

A DC precisa vir acompanhada de muitos outros fatores a mudar a relação entre a comunidade científica e a sociedade em que ela se insere. Transparência/accountability e participação democrática são dois termos chave que vêm sendo brandidos e estudados nesse quesito. A comunidade científica se abrir mais para a participação popular na definição de prioridades das pesquisas e discussão das preocupações com as tecnologias em uso e por se introduzir - até mesmo com os não especialistas botando a mão na massa na prática da ciência cidadã. É um processo que exige humildade nem sempre fácil de se aceitar e confiança mútua nem sempre prontamente estabelecida. Porém, o contrário, a desconfiança mútua e a arrogância, trazem o afastamento e estranhamento que só prejudicam a ambos os setores como o cerco à liberdade acadêmica, de um lado, e o ressurgimento de doenças preveníveis por vacinação por conta da baixa adesão, de outro, demonstram bem.

Um outro movimento que a academia tem (re)tomado e que também em histórico recente é alvo de polêmicas internas é o do ativismo político. Marchas e protestos (ainda que de alcance limitado - em parte, justamente por essa resistência da academia a se ver em meio a algo que não é meramente a discussão racional do fazer científico), lobbies (ou, em termo socialmente mais aceitável, grupos de advocacy ou de pressão) (recentemente pelo menos três iniciativas foram organizadas - o Instituto Questão de Ciência, como associação independente de indivíduos; o Observatório do Conhecimento, uma rede de associações discentes do ensino superior; e a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento, a ICTP.br, um movimento conjunto da SBPC com outras sociedades científicas - todas com o objetivo de interlocução com parlamentares para a elaboração de políticas públicas baseadas no conhecimento científico e em defesa da ciência), e talvez num movimento mais ousado: lançando candidatos cientistas a cargos públicos representativos (embora nenhuma entidade científica - até por questões estatutárias e legais - tenha apoiado abertamente algum) cientistas.

Foram durante os anos de chumbo que a SBPC teve alguns de seus momentos de maior relevância, colocando-se como elemento de resistência à perseguição político-ideológica do regime contra acadêmicos, cientistas e intelectuais.

Um terceiro movimento, não organizado (ao menos por enquanto), é o de simplesmente (quase nunca é simples, na verdade) tentar ir buscar oportunidades (e fugir de perseguições) no exterior. Desconheço uma medida do tamanho do brain drain atual (se souberem de estudos estimando o total de cientistas brasileiros que tenham se mudado para o estrangeiro em tempos recentes, por favor, indiquem nos comentários*). É um movimento compreensível, mas, claro, que não tende a ser ativamente incentivado pela academia.

Um quarto busca articular os dois primeiros: DC e ação política. Mas é ainda mais incipiente. E igualmente (ou até mais, talvez) polêmico. É compreensível a resistência uma vez que, sim, é preciso resguardar tanto a prática científica quanto a comunicação pública a respeito dela de vieses que as distorçam. Mas, sem equacionar a questão, a máquina anti-intelectual vem fechando o cerco. Pode ser questão de sobrevivência (até literal).

*Upideite(19.mai.2019): Um grupo da Unicamp está mapeando a diáspora de cientistas brasileiros nos Estados Unidos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Crise na ciência brasileira

Não tenho muitas condições para opinar por falta de conhecimento suficiente sobre o tema. Os cortes me geram insatisfação não apenas por ser uma área pessoalmente cara a mim, mas por considerar que C&TI seja essencial para o desenvolvimento do país. O problema é saber exatamente quais as limitações técnicas e políticas para o desenho dos cortes orçamentários necessários em um momento de forte crise econômica. (Os cortes poderiam ser evitados? De onde viriam os recursos? Não faltaria em outras áreas? Poderiam cortar em outras áreas? etc.)

Compilo aqui links para alguns textos na blogocúndia cientófila discutindo as consequências dessa crise econômica no financiamento da ciência no Brasil - e as ações que devem ser tomadas pelo governo e pela comunidade científica.
Outras leituras:
Science 27/ago/2015: Fiscal crisis has Brazilian scientists scrambling"*
Época Negócios 30/ago/2015: "Ciência do país vive pior crise em 20 anos"
Zero Hora 26/set/2015: "Suzana Herculano-Houzel: Fazer ciência no Brasil é inviável"
Nature 30/set/2015: "Brazilian science paralysed by economic slump"
Jornal da Ciência 30/set/2015: "Manifesto de vigília pela Ciência, Tecnologia e Inovação"
Época 06/out/2015: "Brasil está à beira de apagação científico"**
MCTI 06/out/2015: "Aldo atuou para recompor o orçamento do MCTI"**

*Upideite(05/out/2015): adido a esta data.
**Upideite(06/out/2015): adido a esta data.
***Upideite(08/out/2015): adido a esta data.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Percepção Pública da Ciência e Tecnologia 2015

A quarta edição da pesquisa de “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil”, agora conduzida pelo Centro de Gestão de Estudos Estratégicos coordenado pelo MCTI, não traz muitas novidades em relação a outras.

Mostra a tendência geral de melhora das atitudes em relação às ciências: mais pessoas consideram que a atividade traz só benefícios ou mais benefícios do que malefícios (o que não deixa de ser também um fato preocupante*) - tendência que se dá por motivos não muito claros. (Fig. 1.)

Figura 1. Atitude do brasileiro em relação às ciências. Percepção de benefícios x malefícios. Fonte: CGEE 2015.

Em relação ao interesse declarado, não é possível uma comparação com toda a série pela mudança na metodologia de codificação das respostas na pesquisa de 2010. Mas é possível se verificar que praticamente não há alteração pelo interesse declarado em ciências - a maior variação ocorre em relação à moda, por motivo que desconheço - em relaçãocomparação ao último levantamento.(Fig. 2a e b.)

a) 
b) 
Figura 2. Interesse declarado do brasileiro por a) temas selecionados com destaque para b) ciências. Fonte: CGEE 2015.

Como comentei em uma análise sobre os resultados do Indicador de Letramento Científico da Abramundo, esses valores devem ser tomados com um bom grau de reticências. Há incongruências quando comparamos atitudes declaradas e ações medidas. O interesse manifestado não se concretiza, por exemplo, na busca pelas informações sobre o tema - 93,3% dos entrevistados não se lembram do nome de nenhum cientista brasileiro, 87,2% não sabem o nome de nenhuma instituição de pesquisa; além disso, a visão de que a ciência só traz benefícios não se casa com a opinião de que os cientistas têm poderes que os tornam perigosos (31,5% concordam totalmente, 35,9% concorda em parte), que a C&T é responsável pela maior parte dos problemas ambientais (21,9% totalmente e 34,6% em parte)*.

Os resultados de 2015 podem ser analisados online combinando-se vários filtros por categorias socioeconômicas. Ferramente similar à disponível na base dados da GSS americana e do SIDRA do IBGE. Uma sugestão de melhoria é permitir também o cruzamento entre as perguntas, p.e., saber, dentre os que responderam que as ciências só trazem benefícios, quantos acham que os cientistas são perigosos.
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O ponto em que os entrevistados continuam a manifestar um alto grau de desconhecimento sobre cientistas e instituições científicas brasileiras é motivo de preocupação por parte de acadêmicos e autoridades. Uma discussão lateral que surge é sobre o papel que cientistas célebres - ou cientistas "celebridades" - poderiam ter na atração de novos talentos para a área de STEM (ciências naturais, tecnologia, engenharia e matemática). André Rabelo, do DivertidaSocialMente, escreve contrariamente à ideia. Não exatamente contrariamente, mas acha que a questão é outra: a atratividade passaria pela valorização profissional - salários e condições de trabalho. Já Steven Rehen da UFRJ acredita que teria um impacto positivo. Talvez mais tarde eu aborde essa questão aqui no GR. Adiando que por ora tendo a me alinhar com a visão de Rehen e Helena Nader - sem maiores prejuízos à questão da valorização do trabalho do cientista defendida por Rabelo.***

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* É legal que se tenha uma visão positiva das ciências. Sim, as ciências são muito úteis e trazem vários benefícios. Mas, de um lado, claro que é exagero se considerar que ela *só* traz benefícios. Há vários perigos embutidos na atividade científica e em seus produtos. A energia nuclear é útil e pode ser que, em uma análise ponderada sobre riscos e benefícios, conclua-se que valha a pena investir nela. No entanto, não dá para dizer que não haja perigos em sua utilização (Three Miles Island, Chernobyl e Goiânia que o digam). Que 54% acreditem que não haja malefício algum na atividade científica é, assim, problemática. O outro ponto é que, o que em parte explica os 54%, essa visão positiva não se dá através de uma análise ponderada sobre o papel das ciências na sociedade moderna e na vida cotidiana. O baixo conhecimento - declarado e medido - em relação às ciências mostra que essa visão grandemente positiva está calcada exatamente em uma ignorância quanto à questão. Claro que não é apenas uma questão de ignorância: ela provavelmente não explica, por exemplo, um aumento da visão positiva ao longo do tempo - teria o nível de ignorância sobre ciências aumentada com o tempo? Não temos dados diretos a respeito dessa questão, mas os resultados etários do ILC não parece corroborar que haja um decréscimo geracional no grau de conhecimento científico - sempre fomos tão ignorantes em relação às ciências quanto somos hoje (ao menos na janela das últimas três décadas). Retornando à visão positiva calcada na ignorância, bem, esse grau de ingenuidade é bastante perigosa: tanto na manipulação de anúncios do tipo "cientificamente comprovado" quanto em campanhas anticiência baseadas em teorias da conspiração. Verdade que a ingenuidade é longe de total: a maior parte dos entrevistados considera que os cientistas são perigosos e a ciência (e a tecnologia) causam a maior parte dos problemas ambientais**. O que, por uma feita, traz ainda outro problema para os relações públicas das ciências resolverem, e, por outra, estabelece um conundro - que se resolve pela observação da incongruência dos pensamentos da população a respeito da C&T (em parte, certamente o conhecido fenômeno das pesquisas de opinião em que o entrevistado tenta dar a resposta que acha que o entrevistador considera a correta).

Talvez esse problema pudesse ser minorado invertendo-se a ordem das perguntas. A questão sobre se consideram que as ciências trazem mais benefícios do que malefícios ficasse depois de perguntas que dão exemplos de potenciais malefícios: cientistas perigosos por deterem poder do conhecimento e conhecimento e tecnologia que resultam em danos ambientais. Claro que isso criaria outro viés. Então, talvez seja o caso de aleatorizar a ordem das perguntas. Aí seria possível se ter uma ideia de o quanto a visão positiva sobre as ciência dá-se por não se ter à mente um exemplo de malefício das ciências e o quanto dá-se por realmente desconsiderar tais malefícios.

**Upideite(27/jul/2015): corrigido a esta data.
***Upideite(28/ju/2015): meus pitacos sobre a questão de cientistas celebridades.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

O criptoesqueleto da Copa: não é só pelos 3 segundos #robocopa

Já disse antes, sou admirador confesso do trabalho de Miguel Nicolelis - mesmo ele tendo me bloqueado no twitter. Então sou suspeito para falar sobre o exoesqueleto (quase não) apresentado na abertura da Copa 2014 (veja os detalhes nos textos listados abaixo), de todo modo, há algumas críticas que avalio como exageradas ao projeto WalkAgain.

Precisamos ter em mente que os 33 x 10^6 BRL investidos pela Finep no projeto *não* foram só para essa apresentação. A pesquisa segue, o desenvolvimento do BRA-Santos Dumont 1 (e 2, e 3, e 4...) também. Para equipamentos de uso corrente, o prazo estimado por Nicolelis é de 10 anos,

Há, claro, desvios do que foi anunciado inicialmente: a) o sinal usado foi de EEG, não de sinais de implantes cerebrais de microeletrodos; b) o paciente é um adulto, não um adolescente; c) não houve caminhada (embora, segundo o diretor da Finep a coba... o paciente tenha andado); d) não foi um chute no meio do campo logo antes da partida; e) o rapaz não tirou um boné do bicampeão brasileiro da Série B para colocá-lo na cabeça.

Mas isso ocorre rotineiramente em qualquer projeto de P&D. Sempre há problemas não previstos, há a necessidade de se adaptar às circunstâncias que surgem. (A questão de uso de implante cerebral e, especialmente, de um menor de idade sempre foram motivos de ceticismo para mim - duvidava que o comitê de ética permitisse isso em uma fase tão inicial do projeto, ainda mais em demonstração pública, não sei se Nicolelis chegou a apresentar o projeto nesses moldes para o comitê - em entrevista ao SciAm, ele afirmou que o uso de implantes de microeletrodos em humanos ainda demanda pesquisa. Embora, pela inteligência do bom doutor, eu tenha certeza de que o item 'e' foi deixado de lado após uma boa reflexão. Houvera tempo para uma reflexão mais profunda, chegariam à conclusão de que o boné a ser usado seria o do dono do estádio. ) O prazo anunciado por Nicolelis foi desafiador. Propositadamente.

Foi a partir de meados de 2009 que o neurocientista passou a cogitar a fazer a apresentação pública. O financiamento da Finep saiu em janeiro de 2013 (não é a única fonte de verbas do projeto, mas certamente é uma das mais substanciais). Em fins do ano passado, o exoesqueleto começou a ser testado em humanos.

Em um ano e meio, o projeto produziu um aparato mecânico que permite uma pessoa paraplégica caminhar comandando os movimentos por meio de sinais de seu cérebro (captados por uma toca com sensores e processados por um computador) e receber de volta sinais de sensores no aparato. "Realmente naquele momento eu voltei a ter a sensação de andar novamente", disse o voluntário Juliano Alves Pinto (escolhido apenas horas antes da cerimônia de abertura, entre os pré-selecionados que haviam testado o protótipo em laboratório), que pilotou o exoesqueleto BRA-Santos Dumont 1 para uma entrevista à Folha de São Paulo. É mesmo pouco isso?

O objetivo era mostrar o feito para o mundo. Escondido na lateral do campo, longe da apresentação no meio do gramado, e passando só de relance - menos de 3 segundos de tela - foi frustrante. Mas mesmo assim o noticiário internacional registrou e destacou o chute dado com o exoesqueleto.

BBC: Paraplegic in robotic suit kicks off World Cup
Bloomberg: Formidable Brain Makes First Kick of World Cup
CBC: Mind-controlled exoskeleton kicks off World Cup
CBS: World Cup 2014: First kick made by mind-controlled exoskeleton
Clarín: Un puntapié muy especial
CNN: Mind-controlled exoskeleton kicks off World Cup
Die Welt: Mit "Iron Man" sollen Gelähmte wieder gehen
El Comercio: Parapléjico dio play de honor en inauguración de Brasil 2014
El Observador: Brasil 2014: una cerimonia inaugural con críticas y sin exoesqueleto
El Mercurio: Ausencia de exoesqueleto marca largada del Mundial e indigna a los televidentes
El Nacional: El exoesqueleto: autogol de la neurociencia
Het Belang Van Limburg: Verlamde jongen kleurt voetbalfeest
Materia: El exoesqueleto de Brasil,¿un timo?
NBC: 'We Did It!' Brain-Controlled 'Iron Man' Suit Kicks Off World Cup
          Paraplegic to Kick Off Soccer World Cup After Medical Miracle
Neue Zürcher Zeitung: Wissenschaft an der WM: kick-off eines Gelähmten
Repubblica: Brasile 2014, il tiro di un paraplegico inaugura i Mondiali
Univisión: El momento más esperado de la inauguración del Mundial dejó a todos con las ganas
Vozpópuli: La verdad sobre el exoesqueleto del Mundial de Brasil 2014: más espectáculo que ciencia

The Scientist: Paralyzed Man Kicks Off World Cup

KSJ Tracker: Decepcionante saque inaugural por parapléjico em Mundial
La Razón: Mundial Brasil 2014: dos segundos de exoesqueleto
NIH Director's Blog: Neuroscience Research Kicks Off World Cup
Scope (Stanford Medicine): World Cup debut of robotic exoskeleton grounded in more than two decades of scientific research

O tom pessimista é marcado na imprensa nacional e na hispanofônica (seria por influência da imprensa brasileira?), já a anglogermanófona (em especial a americana) é francamente otimista (e tendendo ao ufanismo). Nem sempre a verdade está no meio, mas a minha avaliação do projeto até aqui, neste caso, é intermediária, tendendo ao otimismo, mas sem vê-lo como "milagre", "formidável". É um avanço no aspecto de incluir o feedback sensório. Mas mesmo sem isso já é um pequeno feito de engenharia pelo tempo - 16 meses - e mesmo que não acrescentasse em nada, haver projetos paralelos tem seu valor: se houver patentes, a concorrência tende a evitar que os preços finais sejam exorbitantemente caros; não havendo, projetos concorrentes chegarão a soluções diferentes para o mesmo problema geral, elas poderão ser mescladas para uma solução superior, ou elas pode ser melhores para casos específicos.

Como disse antes, o projeto segue. Foi só um marco - importante - no cronograma. Os próximos passos (com e sem trocadilho) devem incluir a incorporação dos implantes cerebrais (que permitem uma coleção de sinais mais ricos, essencial para um controle mais fino e variado do equipamento), redução do tamanho, aumento da autonomia da bateria...

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Em uma observação secundária, uma das polêmicas em torno da apresentação é sobre a razão dada pela Fifa para que o exoesqueleto ficasse de fora dos gramados: o peso. Algumas críticas a respeito compararam a massa total do paciente+aparelho (~70+~70 ~ 140 kg) com o da bola digital/palco+cantores (provavelmente entre várias centenas de quilogramas a algumas toneladas). Não devemos comparar apenas as massas, mas, sim, a pressão sobre o gramado. Se o exoesqueleto seguramente tem um peso muito menor do que a bola palco, certamente sua base de apoio também é muito menor. Seria o suficiente para exercer uma pressão que pudesse danificar o gramado? Muito provavelmente não. Mesmo desconsiderando-se a lona estendida durante a apresentação de abertura, usada justamente para proteger o gramado. Durante as partidas, é frequente que um jogador suba apoiando-se no ombro de outro. Isso gera pressões sobre o gramado muito mais elevadas do que as que seriam geradas pelo exoesqueleto. Claro, isso gera algum dano ao gramado, mas nada terrivelmente catastrófico. Corridas, saltos e pousos durante o jogo também produzem pressões mais elevadas, com danos relativamente pequenos ao gramado.
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Considerar que os 33 mi BRL serviram só pra comprar 3 segundos de tela é tão correto quanto dizer que os 150 bi USD da ISS foram usados para produzir o video clipe mais caro da história.
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Biorritmo - E a ciência passou em branco...
Ciência na Mídia - A polêmica saga do exoesqueleto que apareceu invisível
Contraditorium - Exoesqueleto da Copa - Brasileiro sendo viralata até o osso
Devaneios Biológicos - Copa do Mundo com golaço da ciência (postagem de antes da abertura)
Geek Café - Copa do Mundo e o marco científico de Nicolelis que o Brasil não viu
Herton Escobar - Exoesqueleto toca bola na abertura da Copa
                           Andar de Novo: O que a TV não mostrou
Meio Bit (Carlos Cardoso) - Globo e FIFA dão rasteira em paraplégico
Meio Bit (Caio Gomes) - Robocopa: incrível? Sim. Polêmico? Também.
Papo de Homem - O que o exoesqueleto do Nicolelis diz sobre ele e nós mesmos
Pirulla (videoblog) - Keep walking, Nicolelis
Teoria de Tudo - O espetáculo da ciência
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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Dia Nacional da Ciência - o que temos a comemorar e o que havemos de esperar?

Hoje, 8 de julho, comemoramos o Dia Nacional da Ciência (instituída pela Lei 10.221/2001).

A data foi criada para celebrar o 50o aniversário da SBPC (o projeto de lei é de 1998):
"Como a fundação da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência se deu no dia 8 de julho e sendo esta entidade um marco de referência da ciência no Brasil, acolhendo sugestão de sua Assembléia Geral, apresentamos o presente projeto de Lei, que por sua relevância, estamos cenas de encontrar apoio em nossos pares para sua aprovação."

E, neste mês, em sua 65a. reunião anual, a entidade discutirá a "Ciência para o Novo Brasil".

Que Ciência emergirá desse "novo" Brasil? Há um "novo" Brasil?

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Por enquanto a Ciência brasileira tem ficado um tanto à mercê de vicissitudes econômicas. Depois de dois anos de cortes duros, quando se reduziu o valor orçamentário de R$ 8,9 bi em 2010 para R$ 5,2 bi em 2012 (o valor efetivamente realizado em 2012 foi maior, com liberação de verbas ao longo do ano, totalizando R$ 8,8 bi), este ano o MCTI teve uma trégua não sendo vítima do contingenciamento de R$ 28 bi anunciado pelo governo federal - o valor anunciado de 2013 para a pasta foi de R$ 10,2 bi.
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Entre 2005 e 2010, o país investiu em média, 1,1% do PIB em Ciência e Tecnologia. Atrás apenas da Federação Russa (1,3%) entre os países com IDH alto e bem acima da média do grupo: 0,47±0,36%. E dentro da média de paises com IDH muito alto: 1,78±1,07%.
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55.047 doutores e mestres foram formados em 2011. Contra 13.219 em 1996. Com 695,7 pesquisadores por milhão de habitantes está dentro da média dos países de IDH alto: 661,1±732,5. E bem abaixo da média dos países de IDH muito alto: 3.352,6±1.849,5
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Em 2011, o país publicou 49.664 artigos científicos, ficando entre os 15 maiores produtores. Compare-se com 13.846 trabalhos em 2001, 3.755 em 1991 e 1.924 em 1981. Ainda há discussões a respeito da qualidade, no entanto. Embora seja um fator de muito difícil avaliação.
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De modo não surpreendente, mas contraditório com as opiniões declaradas dos brasileiros, o financiamento de Ciências é um tema essencialmente ausente nos recentes protestos que pedem mais verbas e recursos pra saúde, educação, transporte/mobilidade urbana, segurança... Em 2010 (antes dos cortes orçamentários, portanto), 68% dos brasileiros concordavam que o governo deveria aumentar os recursos pras ciências; mesmo que os manifestantes não representem a totalidade da população - são em sua maioria jovens universitários da classe média tradicional urbana -, representam um recorte em que provavelmente há apoio substancial para um maior investimento em ciências.
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Um projeto bastante ousado implementado pelo governo federal é o Ciência sem Fronteiras. Focado em engenharia, TI, saúde e energia, o programa atende às expectativas de áreas prioritárias dos brasileiros. Infelizmente tem havido problemas como atrasos de bolsas e questionamentos sobre contabilização de benefícios
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O panorama geral é que há avanços e avanços substanciais nas últimas décadas, mas ainda figuramos em posição intermediária nos indicadores. As atitudes da população em relação às ciências são positivas; no entanto, essas atitudes ainda não se convertem em engajamento.

O novo Brasil que se desenha, de acordo com indicadores socioeconômicos, é mais rico, mais escolarizado e menos desigual, mas também mais obeso e envelhecido, mais urbanizado. Se tem algo que estudos comparativos entre atitudes sobre ciências e desenvolvimento socioeconômico indicam é que maior desenvolvimento econômico acaba correlacionado com atitudes *menos* positivas em relação às ciências.

Possivelmente estamos em uma janela não apenas do bônus populacional (ou bônus demográfico) - apesar de opiniões em contrário - , mas também de bônus atitudinal. Precisamos aproveitá-lo para converter em engajamento com efetivo suporte às ciências: de modo que possamos desenvolver uma "nova" ciência que atenda às demandas futuras desse novo Brasil (maior incidência de doenças cardiovasculares e crônicas associadas à velhice, problemas ambientais e de geração de energia, planejamento urbano e mobilidade, preenchimento de vagas em ocupações de menor especialização, estruturas de telecomunicações, etc...)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Entrevista com uma integrante da Comissão do Futuro - Débora Calheiros

Em 2011, o MCTI anunciou o estabelecimento da Comissão do Futuro, órgão consultivo formado por cientistas e personalidades brasileiros e estrangeiros voluntários com a missão de sugerir melhorias para a Ciência brasileira.

Presidida pelo Prof. Dr. Miguel Nicolelis, uma das primeiras ações da comissão foi a criação de uma rede social. Há também um processo de diagnóstico dos gargalos à prática científica em fase de finalização.

Abaixo, segue uma breve entrevista via email gentilmente concedida por uma das integrantes, a Profa. Dra. Débora Fernandes Calheiros, da Embrapa Pantanal e da UFMT (uma das vozes ativas a questionar as alterações do Código Florestal que fragilizam a proteção à cobertura vegetal nativa).

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GR.  Como foi o convite para participar da Comissão do Futuro?

DC. Foi através do MCTI, por indicação do Dr. Miguel Nicolelis.

GR. Quantas reuniões (presenciais ou por videoconferência) foram realizadas desde a instalação da comissão? Quais foram as pautas?

DC. Foram várias reuniões, abordando sobre questões envolvendo a otimização da prática científica no país, valorização do pesquisador e do professor universitário, como, por exemplo, tirar o ônus de toda a administração e contabilidade dos projetos científicos ficarem a cargo unicamente do professor, como ocorre na maioria das instituições de pesquisa, entre outros aspectos.

GR. Existe alguma metodologia dos trabalhos da comissão: Reuniões ou contatos regulares entre os membros ou com representantes do MCTI; acolhimento de sugestões da comunidade científica e acadêmica; levantamento de problemas na pesquisa nacional, etc.?

DC. Cada membro ficou responsável por fazer uma amostragem em sua área de atuação específica. Eu, por exemplo, solicitei informações aos pesquisadores da Embrapa, tendo repassado os resultados à coordenação.

GR. Foi produzido algum documento ou trabalho de aconselhamento para o MCTI? Em caso positivo, qual foi a recepção? Sugestões foram implantadas? Neste momento a comissão está engajada na discussão de algum tema?

DC. Um relatório está sendo finalizado pelo coordenador e em breve será entregue ao governo, sendo informado à sociedade por meio de anúncio público.

GR. Gostaria de acrescentar alguma observação de uma questão que não foi abordada acima?

DC. Obrigada pelo interesse! Maiores detalhes o senhor conseguirá quando o relatório em questão for disponibilizado.

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sexta-feira, 1 de março de 2013

Entrevista com um neurocientista - Antonio Carlos Roque da Silva Filho

Ainda em relação aos desdobramentos do manifesto "Eu apoio a Ciência Brasileira" e da entrevista com o Prof. Dr. Márcio Moraes, por email, no dia 25/fev/2013, entrei em contato com o Prof. Dr. Antonio Carlos Roque da Silva Filho, da USP de Ribeirão Preto. Abaixo segue a entrevista gentilmente concedida pelo Dr. Antonio Roque.

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GR. Poderia descrever resumidamente sua linha de pesquisa? Bem como como surgiu o convite para integrar o comitê gestor do INCeMaq?

AR. Minha área de pesquisa é a neurociência computacional, que é o nome utilizado atualmente para se referir à neurociência teórica abordada segundo técnicas e ferramentas matemáticas e de simulação computacional. Dentro dessa grande área, desenvolvo duas linhas de pesquisa: (i) simulação computacional de modelos matemáticos de neurônios e estruturas neurais, p. ex. retina, bulbo olfatório; e (ii) modelagem matemática de comportamento de animais. O convite para integrar o INCeMaq deu-se em setembro de 2008. Meu nome foi sugerido ao Prof. Sidarta Ribeiro por colegas (eu não conhecia o Prof. Ribeiro à época) e ele me convidou. Durante a elaboração do projeto enviado ao CNPq, meu nome foi incluído como pesquisador principal do INCeMaq e membro do comitê gestor. 

GR. As decisões sobre a gestão do INCeMaq eram tomadas somente nas reuniões formais ou havia consultas por outros meios como email e telefone?

AR. Só tomei parte em discussões sobre a gestão do INCeMaq na segunda reunião, em 12/04/2011. Por e-mail, recebi apenas informações sobre a aprovação do projeto, remanejamento de recursos, datas das reuniões e solicitações sobre detalhes dos equipamentos (computadores) que deveriam ser comprados com a parte do orçamento relativa ao meu projeto.

GR. Na primeira reunião do CG, foi apenas de apresentação de projetos. O que foi tratado na segunda reunião? Algo referente a uma divisão de linhas de trabalho?

AR. Os temas tratados na segunda reunião estão listados abaixo, na ordem em que foram discutidos:
a) Informe do Prof. Miguel Nicolelis sobre sua participação na reunião dos INCTs em Brasília em novembro de 2010.
b) Criação do regimento interno do comitê gestor.
c) Leitura e aprovação da ata da primeira reunião do comitê gestor.
d) Apresentação da prestação de contas e aprovação da mesma pelo comitê gestor.
e) Distribuição das bolsas do projeto entre os laboratórios participantes.
f) Planejamento de ações para se atingir as metas científicas do projeto original. Foi discutida a organização de uma reunião de caráter exclusivamente científico, reunindo os pesquisadores principais envolvidos no projeto e alguns alunos, para promover a integração entre eles e buscar convergências de linhas de pesquisa. Me propus a organizar essa reunião em Ribeirão Preto entre 27 e 28 de junho de 2011 e todos aprovaram a ideia. Infelizmente, a reunião não ocorreu.
g) Gestão dos recursos financeiros e de bolsas do INCeMaq.
h) Apresentação da Diretora dos Centros de Educação Científica da AASDAP sobre o projeto cientistas do futuro.
i) Apresentação do Prof. Sidarta Ribeiro sobre o projeto semente (que dá atendimento a crianças de risco de uma favela de Natal).

GR. Houve tentativa anterior de encaminhar os questionamentos feitos no manifesto pessoalmente ao Dr. Nicolelis? Em caso positivo, qual a resposta? Em caso negativo, por que não foi feito?

AR. Com relação especificamente às questões feitas no quarto parágrafo do manifesto, não houve tentativa de encaminhá-las ao Prof. Miguel Nicolelis. Com relação ao questionamento geral sobre a atuação do Prof. Nicolelis como gestor do INCeMaq, enviamos um e-mail ao Coordenador e Vice-Coordenador do INCeMaq, Profs. Nicolelis e Manoel Jacobsen, em 10/03/2011. O mesmo foi respondido pelo Prof. Nicolelis em 11/03/2011. Durante a segunda reunião, também houve questionamentos sobre a gestão do INCeMaq por seu Coordenador. O Prof. Nicolelis nos deu respostas sobre algumas demandas na própria reunião e em e-mail datado de 04/08/2011. Como consideramos que os problemas não foram solucionados, enviamos uma carta ao Presidente do CNPq em 27/09/2011 contendo pontos que julgávamos insatisfatórios na gestão do Prof. Nicolelis (nada a respeito da sua competência científica ou ataques pessoais) e solicitando a substituição do Coordenador pelo Vice-Coordenador, Prof. Jacobsen. É importante frisar que não solicitamos o desligamento do Prof. Nicolelis do INCeNaq, apenas a troca do Coordenador. Nunca obtivemos resposta a essa carta. Em 26/07/2012, recebemos e-mail do Prof. Nicolelis nos informando que fomos desligados do INCeMaq. É por essas razões que resolvemos encaminhar o manifesto ao Jornal da Ciência, à SBPC e à ABC.

GR. Considerando-se as respostas dada pela equipe do Prof. Nicolelis (publicadas em https://www.facebook.com/iinnels/posts/350890325027145* e https://www.facebook.com/iinnels/posts/350894151693429), V. Sra. considera satisfatória e esclarecida a questão do experimento com sensores de infravermelho?

AR. Sim, foi esclarecido que o Prof. Nicolelis e sua equipe já trabalhavam no experimento desde novembro de 2006 na Universidade de Duke. Em entrevista ao repórter Herton Escobar d'O Estado de São Paulo, em 26/02/2013, o Prof. Nicolelis também esclareceu que não tem nenhuma lembrança da apresentação do Prof. Márcio Moraes na primeira reunião do comitê gestor em julho de 2010. Portanto, está esclarecido que o Prof. Nicolelis, enquanto Coordenador do INCeMaq, não procurou envolver o Prof. Moraes em uma colaboração, mesmo que mínima, a respeito desse experimento.

GR. O que pensa, de modo geral, do teor das respostas? (Especialmente: sobre as razões alegadas para o pedido de afastamento dos signatários do manifesto do comitê gestor do INCeMaq; e as motivações para o manifesto.)

AR. Considero as respostas um pouco exaltadas em alguns trechos, mas, de maneira geral, elas esclarecem as perguntas feitas. Os signatários do manifesto não pediram para ser afastados do comitê gestor do INCeMaq. Aliás, os signatários não pediram o afastamento de nenhum membro do comitê gestor. Eles apenas pediram ao CNPq a troca do membro que ocupa o cargo de Coordenador, propondo a substituição do Prof. Nicolelis pelo Prof. Jacobsen. Não enviamos a carta ao CNPq em solidariedade ao Prof. Ribeiro, mas por julgarmos que a gestão do Prof. Nicolelis não estava sendo satisfatória.

GR. Gostaria de complementar com algo que não foi abordado nas questões acima?

AR. Aquilo que poderia acrescentar ou elaborar já está contido no comentário que enviei nesta madrugada ao blog da SBNeC (http://blog.sbnec.org.br/2013/02/eu-apoio-a-ciencia-brasileira/).

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*Upideite(01/mar/2013): Link atualmente quebrado. O mesmo teor está agora em outra postagem no facebook - com arrumação na separação dos parágrafos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Entrevista com um neurocientista - Márcio Flávio Dutra Moraes

Com a publicação do manifesto "Eu apoio a Ciência Brasileira" em que um grupo de pesquisadores brasileiros na área de neurociências criticam o Prof. Dr. Miguel Nicolelis, quis esclarecer alguns pontos.

Por email, entrei em contato no dia 23/fev/2013 com um dos signatários do manifesto, o Prof. Dr. Márcio Flávio Dutra Moraes, da UFMG, cuja equipe também desenvolve projeto de neuroprótese de sensor de infravermelho. Abaixo segue a entrevista gentilmente concedida pelo Dr. Moraes.

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GR. Antes de mais nada, poderia nos contar resumidamente a trajetória de Núcleo de Neurociências da UFMG e como foi o convite para sua participação no comitê gestor do INCeMaq?

MM. Muito resumidamente, o NNC é um grupo de pesquisa multidisciplinar formado atualmente por 5 docentes, 17 alunos de pós-graduação, 3 pós-docs além de vários alunos de IC e estagiários. O grupo foi formalmente criado em 2000 com o seu credenciamento no Diretório de Grupos de pesquisa do CNPq. (ver www.nnc.ufmg.br para mais detalhes). O grupo possui diversas cooperações nacionais e internacionais, está vinculado a uma PG nível 7 CAPES e possui diversos projetos aprovados em andamento (p.e. participação na criação-implementação e coordenação do Centro de Tecnologia e Pesquisa em Magneto Ressonância – CTPMAG: http://www.nnc.ufmg.br/CTPMAG).
Quanto ao convite, eu estava fazendo um sabático na Inglaterra (King’s College London) quando fui convidado pelo Prof. Dr. Sidarta Ribeiro para fazer parte da escrita e submissão ao CNPq de um projeto para o INCT (o INCeMaq). Para contextualizar, na época, um ex-aluno meu de doutorado realizava seu Pós-Doutorado no ELS-IINN; hoje o Prof. Dr. Vinícius Rosa Cota é docente da Universidade Federal de São João del Rei. Uma vez aprovado o INCT, os líderes de grupos de pesquisa que empenharam suas equipes para executar partes do projeto foram convidados a compor o CG.

GR. Quais eram exatamente as atribuições e o modo de funcionamento do comitê gestor do INCeMaq? Somente o coordenador convocava as reuniões? Havia comunicação fora das reuniões - por meio de e-mails, telefones, pessoalmente?

MM. Quanto às atribuições do CG de qualquer INCT, peço gentilmente que consulte o CNPq e/ou outros INCTs que possuam páginas na internet. O INCeMaq foi formado por um grupo de colegas pesquisadores com os quais me sentia muitíssimo à vontade, extremamente competentes, abertos à colaboração e promoviam um ambiente informal e agradável. Já conhecia pessoalmente alguns dos membros do CG; os demais conhecia pela reputação na comunidade científica nacional. Dito isto, apesar das comunicações e convocações formais serem feitas pelo coordenador, que era também muito acessível, todos mantínhamos um relacionamento profissional e pessoal muito saudável.

GR. No manifesto é revelado que houve apenas duas reuniões entre 2010 e 2012. O que foi tratado na segunda reunião?

MM. Sobre o assunto do INCT, especificamente, peço que procure o Prof. Dr. Antônio Roque (também do CG) para esclarecimentos. Sinto-me pouco à vontade de falar sobre reuniões reservadas que envolvem outros colegas cientistas colaboradores do INCeMaq.

GR. No comunicado do desligamento dos membros do comitê gestor foi mencionada a razão do ato? O senhor tem informações a respeito do funcionamento atual do INCeMaq? Houve algum desentendimento anterior ao desligamento entre os membros do comitê gestor e o coordenador do INCeMaq?

MM. Novamente, não gostaria de mudar o foco do problema em questão. A carta divulgada não fala sobre isto.

GR. Qual foi a reação de V. Sra. e equipe diante do anúncio do trabalho de Nicolelis com implantes intracranianos ligados a sensores de infravermelho? O senhor chegou a entrar em contato com Nicolelis?

MM. Fiquei muito surpreso. O trabalho que vinculamos ao INCeMaq no início da escrita do projeto (meados de 2008) estava relacionado à utilização de estimulação elétrica profunda para supressão e predição de crises epilépticas. Esta escolha era mais lógica pois já tínhamos resultados positivos e, portanto, uma maior segurança quanto à prestação de contas do projeto. De fato, publicamos vários trabalhos com esta ideia nos anos seguintes, todos com reconhecimento declarado ao INCT (ver publicações no meu CV). Contudo, depois da aprovação do INCeMaq, nos reunimos em 2010 e decidi mostrar algo em que estávamos (no NNC) trabalhando, que considerávamos de mais alto risco de sucesso mas de grande repercussão para as neurociências. Não houve apoio para incorporar isto ao INCT e portanto, retornei para meu grupo de pesquisa dizendo que não havia interesse de vincular o referido projeto ao INCT. Não escrevi diretamente para o Prof. Nicolelis pois considerei que não havia muito o que conversar. Entenda, os aspectos legais deste processo me interessam muito pouco, estava entre colegas de trabalho, comungando de um mesmo projeto, com financiamento comum e, sem nenhum outro comunicado, vi uma de nossas linhas de pesquisa publicadas em âmbito internacional. Nossa equipe de trabalho no NNC é muito motivada, o que ajuda a lidar com o baque desta ordem, mas ainda assim é muito desagradável. Se o Prof. Nicolelis tivesse me dito na época que a ideia era interessante e que gostaria de compartilhar resultados, o que era exatamente o que eu estava fazendo (reunião de 2010) sobre uma linha que NÃO SABIA E AINDA NÃO POSSO AFIRMAR QUE ESTAVA SENDO FEITA EM QUALQUER OUTRO LUGAR DO GLOBO, nós poderíamos ter discutido parcerias e estreitado colaborações. Nunca sofri situação parecida na minha carreira (sou Pesquisador Produtividade I do CNPq), não é o caso de publicar em congresso e ter seu trabalho feito por outro grupo, o trabalho foi apresentado a portas fechadas para colegas colaboradores de um mesmo projeto INCT.

GR. Como surgiu a ideia em sua equipe do experimento de neuroprótese com sensor de infravermelho? No projeto de sua equipe, o estímulo dá-se na região do complexo amigdaloide; no trabalho da equipe de Nicolelis, na região do córtex táctil. Essa diferença pode ser considerada significativa nos designs dos projetos?

MM. A realidade da pesquisa em território brasileiro é bem diferente. A UFMG não tem ainda uma estrutura de apoio técnico em bio-engenharia para construir equipamentos, software e eletrônica embarcada para um experimento customizado em neurociências. Desta forma, os amplificadores que registram o sinal captado do receptor de IV(infra-vermelho), os estimuladores de IV, o sistema de recompensa e estimuladores elétricos controlado por computador tiveram que ser desenhados e construídos no NNC. A ideia do experimento é antiga, anterior a 2009, discutida em reuniões com alunos de PG do NNC na época; contudo, os primeiros resultados são de 2009 quando a primeira versão do Harware e Software ficaram prontas. Com relação à sua pergunta sobre a metodologia e o alvo anatômico da estimulação, permita-me fazer uma analogia didática da razão da escolha de uma área poli-modal. Imagine se você tivesse um celular que vibrasse toda vez que você apontasse ele para um determinado emissor de IV, mexendo o celular seria possível encontrar a origem do sinal emitido, correto? Contudo, isto não seria exatamente um sexto-sentido, pois o que existe é a percepção de um tremor (estímulo tátil) que controla sua interação sensório-motora para otimizar a resposta do sinal captado pelo sensor. O experimento do Prof. Nicolelis estimula diretamente o córtex primário deste sentido sensorial. Nossa escolha de uma área poli-sensorial, que recebe informação de todos os demais sistemas sensoriais, foi baseada na ideia de verdadeiramente construir um sentido sensorial novo (artificial) que poderia se integrar aos demais 5 sentidos. Nesta linha de raciocínio, o termo sexto-sentido para o caso de estimulação de uma área sensorial primária seria inadequado; sinestesia, ainda que discorde, talvez fosse mais apropriado. Apesar desta ser uma importante diferença conceitual, a metodologia é muito parecida e se baseia fortemente em uma integração sensório-motora complexa que resulta do implante físico do receptor de IV cirurgicamente na cabeça do animal. Uma informação importante sobre a metodologia é que posso garantir e comprovar que o que foi feito e está em andamento na UFMG não recebeu qualquer interferência internacional e, sem questionar o mérito de uma afirmação de igual teor de outros grupos, é original e concebida integralmente em território nacional.

GR. Os pesquisadores signatários do manifesto mantêm alguma rede entre suas equipes coordenando seus trabalhos em um projeto maior fora do INCeMaq?

MM. Não posso e não devo responder em nome dos outros signatários. Mas posso dizer que o NNC possui vários projetos financiados, que somados são muitíssimo inferiores ao liberado para qualquer INCT, mas que nos permitem investir em alguns protocolos/experimentos de alto risco.

GR. Gostaria de acrescentar alguma observação a respeito do que não foi abordado acima?

MM. Não quero deixar você esperando mais tempo por uma resposta, por isto paro por aqui. Mas me faço disponível para continuar esta conversa em outra ocasião. Ressalto, contudo, que o objetivo de divulgar o incidente não foi a de contestar o trabalho científico de um excelente pesquisador (prova disto é que o Prof. Nicolelis é uma das principais referencias citadas em nossos trabalhos e é citado em diversas palestras que dou ao redor do Brasil); mas de proteger grupos de pesquisa brasileiros muito competentes, assegurando um financiamento contínuo e duradouro, que independa do Líder ou do indivíduo para garantir seu sucesso. O INCT foi idealizado exatamente para este fim, o episódio mostra que o Brasil tem que tomar muito cuidado com investimentos que podem acarretar conflito de interesse entre a promoção pessoal do coordenador e a finalidade última de crescimento institucional com formação de recursos humanos (no caso, alunos envolvidos no projeto aqui no NNC).

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ex-integrantes do comitê gestor do INCeMaq lançam séria acusação contra Miguel Nicolelis

Em manifesto reproduzido no blogue coNeCte (da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento), pesquisadores brasileiros, ex-integrantes do comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) "Interfaces Cérebro-Máquina" (INCeMaq), acusam o neurocientista Prof. Dr. Miguel Nicolelis, coordenador do INCeMaq, de agir em proveito próprio em prejuízo da ciência brasileira. Textualmente, dizem: "Ao privar a Ciência Brasileira de uma parceria justa e prometida, o INCeMaq, na figura do seu coordenador Prof. Miguel Nicolelis, não agiu pelo interesse coletivo, como seria de se esperar de um coordenador de Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, mas exclusivamente em proveito próprio."

Um projeto similar ao divulgado recentemente pela equipe de Nicolelis sobre implante de sensor de infravermelho conectado ao cérebro teria sido apresentado em 1 de julho de 2010 durante reunião inicial do comitê gestor do INCeMaq. Pelo manifesto, Nicolelis à ocasião nada teria comentado a respeito de desenvolvimento do trabalho que viria a ser publicado na Nature Communications.

Os pesquisadores tomam o cuidado de não imputar acusação de plágio ou roubo de ideias. Mas se questionam por que Nicolelis nada teria dito, nem proposto uma parceria com a equipe do Prof. Dr. Márcio Flávio Dutra Moraes da UFMG.

A perna de indício que usam para sustentar a acusação de se aproveitar do INCeMaq para proveito próprio, no entanto, parece-me infundada. Diz o manifesto: "Utilizar a produção de um laboratório no exterior como justificativa para prestação de contas de um financiamento nacional tem grande potencial de comprometer o trabalho sério e sólido das agências de fomento brasileiras nas últimas décadas" - em relação à indicação da afiliação do primeiro autor, Eric Thomson, como quadro do IINN-ELS. Em primeiro lugar, Eric Thomson faz parte do quadro do IINN-ELS como pesquisador associado desde agostosetembro de 2011*. Mas, principalmente, qual o indicador de que Nicolelis esteja utilizando produção no exterior como justificativa em prestação de contas de financiamento nacional?

Tentarei obter mais detalhes com os envolvidos. Caso consiga, publicarei as informações e versões aqui  no GR.

(Via @besteves.)

Upideite(23/fev/2013): Nicolelis informa, via twitter, que enviará resposta para o blogue da SBNEC.
Upideite(25/fev/2013): Na página do IINN-ELS no facebook, a equipe de Nicolelis publica respostas ao manifesto dos ex-integrantes do INCeMaq. Um assinado pelo diretor do instituto, Rômulo Fuentes**, e outro, por Eric Thomson. Em relação à neuroprótese de sensor de infravermelho, o grupo de Nicolelis vêm desenvolvendo a ideia desde pelo menos 2006.
Upideite(25/fev/2013): corrigido a esta data.
Upideite(25/fev/2013): O Prof. Dr. Márcio Dutra dá mais detalhes sobre a questão.
Upideite(26/fev/2013): Herton Escobar, do Estadão, publica reportagem sobre o manifesto e entrevista com Nicolelis.
Upideite(26/fev/2013): Herton Escobar publica resposta do CNPq referente ao INCeMaq.
Upideite(27/fev/2013): Prof. Dr. Vinícius Rosa Cota (orientado do Prof. Dr. Márcio Dutra e do Prof. Dr. Sidarta Ribeiro*), da UFSJ, faz sua análise do caso.
Upideite(01/mar/2013): O Prof. Dr. Antonio Roque dá mais detalhes da questão.
*Upideite(01/mar/2013): adido a esta data.
**Upideite(01/mar/2013): O texto de Fuentes foi editado para correção da separação dos parágrafos e republicado aqui.
Upideite(03/mar/2013): Reportagem da Folha de São Paulo sobre o caso.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Satélite Coletor de Dados 1: 20 por 1

O Satélite Coletor de Dados 1 (SCD-1) completou, dia 9 de fevereiro, 20 anos do lançamento. E continua na ativa, coletando e retransmitindo dados ambientais de mais de 500 plataformas terrestres em território brasileiro. 19 anos além do projetado inicialmente.


Não é o primeiro satélite brasileiro em órbita - em 1985 o satélite Brasilsat 1 (mais tarde renomeado Brasilsat A1) foi lançado por um foguete francês Ariane 2/3 a partir da Guiana Francesa. Mas o Brasilsat 1, assim como o 2, foi comprado de uma empresa canadense (Spar Aerospace). Os quatro satélites Brasilsat da série B foram parcialmente construídos no Brasil - sendo os B1 e B2 testados no Laboratório de Integração e Teste do Inpe. O SCD-1 foi o primeiro totalmente produzido no Brasil.

Até agora o SCD-1 é o ponto alto do Programa Espacial Brasileiro, iniciado em 1961 como Missão Espacial Brasileira e substituída em 1979 pela Missão Espacial Completa Brasileira, que tinha como um de seus objetivos, o desenvolvimento de quatro satélites inteiramente nacionais: na concepção, produção e lançamento. Embora concebido, produzido, testado e operado em solo nacional, o lançamento foi realizado pela Nasa por meio de um foguete Pegasus disparado a partir de um B52, por conta dos atrasos no desenvolvimento do Veículo Lançador de Satélite nacional.

Seu irmão gêmeo, o SCD-2 foi lançado com sucesso em 22 de outubro de 1998. A bordo de um Pegasus.

O domínio do ciclo completo, com lançamento através de tecnologia nacional tem encontrado vários problemas: de contratempos a desastres. Em 2 de novembro de 1997, o SCD-2A foi destruído junto com o VLS-1 logo após lançamento. Em 11 de dezembro de 1999, o Satélite de Aplicações Científicas 2 (Saci-2) foi perdido com a destruição do VLS-1 também pouco após o lançamento. (O Saci-1 havia sido perdido pouco antes, após uma lançamento bem sucedido, a bordo do foguete chinês Longa Marcha 4B, em em 14 de outubro de 1999.) A tragédia sobreveio em 22 de agosto de 2003, com a explosão em solo do VLS-1 na base de Alcântara-MA, matando 21 pessoas participantes do projeto. De acordo com o Programa Nacional de Atividades Espaciais 2005-2014, o VLS-1 deveria estar operacional a partir de 2007, o que, sabemos, não ocorreu. Em 2010, a nova previsão para o primeiro lançamento do VLS-1 com colocação de satélite em órbita era para 2014.

Considerando-se, ainda, todas as limitações orçamentárias ao longo desses anos e os embargos das nações detentoras da tecnologia, o fato de haver dois satélites inteiramente tupiniquins em órbita - um deles há duas décadas - é surpreendente. Não fora essa hora extra, hoje não haveria mais nenhum satélite 100% brazuca funcional em órbita - os CBERS, família bem mais sofisticada, são fruto da cooperação sino-brasileira.

A saga do Programa Espacial Brasileiro é uma grande representação da capacidade brasileira em C&T. De um lado mostra a qualidade e capacidade dos recursos humanos - que extraem leite de pedra conseguindo resultados inacreditáveis frente ao que tem disponível; de outro, mostra toda a limitação material e financeira a que está sujeita a ciência verde-amarela, mesmo em áreas consideradas sensíveis e estratégicas.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Instituto Butantan: tragédia anunciada

Seguem trechos da nota conjunta dos professores Hussam Zaher e Miguel Trefaut sobre o incêndio que atingiu o Instituto Butantan no último sábado e destruiu sua coleção de serpentes e artrópodos.

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[...]
Infelizmente, esta foi uma tragédia anunciada pois a coleção carecia de condições de segurança adequadas. Uma situação nunca resolvida, apesar dos inúmeros alertas feitos por pesquisadores.
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Lamentamos profundamente o ocorrido e esperamos que o País passe a dar atenção devida às nossas coleções. [...] Coleções centenárias como as do Museu de Zoologia da USP, Museu Nacional da UFRJ e Museu Goeldi, no Pará, carecem de prédios adequados, e estão na mesma situação de risco.

Sem esta tomada de consciência, de nada vale ostentarmos o título de país detentor da maior biodiversidade do planeta. Perdemos nessa tragédia parte importante da memória nacional e a chave para compreender muito de nosso passado e nosso futuro. É fútil falar em preservar a biodiversidade se não assumirmos que nossos museus precisam de condições adequadas para que o seu patrimônio não encontre o mesmo destino das coleções do Butantã. Que essa tragédia sirva de lição.

Hussam Zaher, diretor do Museu de Zoologia da USP.
Miguel Trefaut Rodrigues, professor do Instituto de Biociências da USP.
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Upideite(21/mai/2010): Resistirei ao trocadilho óbvio sobre "pegar fogo", mas uma discussão bastante acrimoniosa foi instalada depois das declarações do ex-presidente da Fundação Butantan, Isaías Raw. Aqui tem mais informações. Questões obscuras finalmente começam a vir à tona. Aguardemos.

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