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sábado, 23 de fevereiro de 2013

Ex-integrantes do comitê gestor do INCeMaq lançam séria acusação contra Miguel Nicolelis

Em manifesto reproduzido no blogue coNeCte (da Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento), pesquisadores brasileiros, ex-integrantes do comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) "Interfaces Cérebro-Máquina" (INCeMaq), acusam o neurocientista Prof. Dr. Miguel Nicolelis, coordenador do INCeMaq, de agir em proveito próprio em prejuízo da ciência brasileira. Textualmente, dizem: "Ao privar a Ciência Brasileira de uma parceria justa e prometida, o INCeMaq, na figura do seu coordenador Prof. Miguel Nicolelis, não agiu pelo interesse coletivo, como seria de se esperar de um coordenador de Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, mas exclusivamente em proveito próprio."

Um projeto similar ao divulgado recentemente pela equipe de Nicolelis sobre implante de sensor de infravermelho conectado ao cérebro teria sido apresentado em 1 de julho de 2010 durante reunião inicial do comitê gestor do INCeMaq. Pelo manifesto, Nicolelis à ocasião nada teria comentado a respeito de desenvolvimento do trabalho que viria a ser publicado na Nature Communications.

Os pesquisadores tomam o cuidado de não imputar acusação de plágio ou roubo de ideias. Mas se questionam por que Nicolelis nada teria dito, nem proposto uma parceria com a equipe do Prof. Dr. Márcio Flávio Dutra Moraes da UFMG.

A perna de indício que usam para sustentar a acusação de se aproveitar do INCeMaq para proveito próprio, no entanto, parece-me infundada. Diz o manifesto: "Utilizar a produção de um laboratório no exterior como justificativa para prestação de contas de um financiamento nacional tem grande potencial de comprometer o trabalho sério e sólido das agências de fomento brasileiras nas últimas décadas" - em relação à indicação da afiliação do primeiro autor, Eric Thomson, como quadro do IINN-ELS. Em primeiro lugar, Eric Thomson faz parte do quadro do IINN-ELS como pesquisador associado desde agostosetembro de 2011*. Mas, principalmente, qual o indicador de que Nicolelis esteja utilizando produção no exterior como justificativa em prestação de contas de financiamento nacional?

Tentarei obter mais detalhes com os envolvidos. Caso consiga, publicarei as informações e versões aqui  no GR.

(Via @besteves.)

Upideite(23/fev/2013): Nicolelis informa, via twitter, que enviará resposta para o blogue da SBNEC.
Upideite(25/fev/2013): Na página do IINN-ELS no facebook, a equipe de Nicolelis publica respostas ao manifesto dos ex-integrantes do INCeMaq. Um assinado pelo diretor do instituto, Rômulo Fuentes**, e outro, por Eric Thomson. Em relação à neuroprótese de sensor de infravermelho, o grupo de Nicolelis vêm desenvolvendo a ideia desde pelo menos 2006.
Upideite(25/fev/2013): corrigido a esta data.
Upideite(25/fev/2013): O Prof. Dr. Márcio Dutra dá mais detalhes sobre a questão.
Upideite(26/fev/2013): Herton Escobar, do Estadão, publica reportagem sobre o manifesto e entrevista com Nicolelis.
Upideite(26/fev/2013): Herton Escobar publica resposta do CNPq referente ao INCeMaq.
Upideite(27/fev/2013): Prof. Dr. Vinícius Rosa Cota (orientado do Prof. Dr. Márcio Dutra e do Prof. Dr. Sidarta Ribeiro*), da UFSJ, faz sua análise do caso.
Upideite(01/mar/2013): O Prof. Dr. Antonio Roque dá mais detalhes da questão.
*Upideite(01/mar/2013): adido a esta data.
**Upideite(01/mar/2013): O texto de Fuentes foi editado para correção da separação dos parágrafos e republicado aqui.
Upideite(03/mar/2013): Reportagem da Folha de São Paulo sobre o caso.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Brasil precisa de um apagão científico como o do IINN-ELS

Antes de mais nada, dois avisos necessários: respeito o trabalho do jornalista Herton Escobar, a quem não conheço pessoalmente (só assisti a uma palestra dele em um evento sobre Origem da Vida na USP e acompanho seus textos no Estadão e ocasionalmente comento suas postagens no blogue Imagine Só!) e respeito o trabalho do Prof. Dr. Miguel Nicolelis, a quem também não conheço pessoalmente (só assisti a uma palestra dele no lançamento de Muito Além de Nosso Eu em Belo Horizonte e converso por meio do twitter).

O Estadão publicou uma matéria a respeito da produção científica do Instituto Internacional de Neurociências de Natal - Edmond e Lily Safra - IINN-ELS após a saída de pesquisadores em meados de 2011 por uma série de divergências. Um ano e meio depois ainda há disputa entre o que podemos chamar de dissidentes e a equipe de Nicolelis, por exemplo, em relação a alguns equipamentos.

Mas, palavras da reportagem do jornal paulista: "Após saída de boa parte da equipe, há 18 meses, IINN nada produziu, mas neurocientista continua recebendo volumosas verbas do governo." e "Desde então, o IINN não publicou nenhum trabalho científico novo." Para o Estadão, isso seria o "apagão científico".

Em resposta, Nicolelis divulgou no sítio web do IINN-ELS lista dos artigos publicados entre 2011 e 2012.

O Estadão voltou à carga, dizendo que os artigos são referentes aos trabalhos pré-racha.

Bem ,o fato é que o IINN-ELS *publicou* artigo novo. Sim, são referentes a trabalhos pré-racha. Porém, o que era de se esperar? Há um lapso de tempo provocado pelo processo de submissão e análise de manuscritos até a publicação - só entre a recepção e aceite, em uma Nature, o tempo médio é de cerca de 200 dias, mas pode passar de 20 meses para outras publicações.

Considere então o cenário: há um racha, chegam novos integrantes, que começam a fazer seus trabalhos, obtêm seus resultados, preparam seus manuscritos, submetem, fazem as correções e finalmente é publicado (isso sem contar eventuais rejeições dos manuscritos). Não é mesmo de se esperar que trabalhos iniciados pós-racha sejam publicados em revistas indexadas antes de 2012 - devem começar a ser publicados a partir de 2013.

Assim, o melhor indicador da produção pós-racha são os resumos em congressos, são 16 no período: 10 em congressos internacionais, 6 em nacionais. Isso em 18 meses para uma equipa de 6 pesquisadores e 3 pós-graduandos: 1,18 resumo por integrante-ano.

Sério, isso é apagão onde? Bom seria se tivéssemos esse índice de produtividade em boa parte dos laboratórios e institutos de ciências - públicos ou privados.

Só posso expressar minha perplexidade com a má vontade do Estadão (aumentada justamente pelo meu respeito ao trabalho de Herton Escobar). Ok, o Dr. Nicolelis não quis responder às perguntas feitas e para algumas seria muito interessante que houvesse uma resposta (por exemplo, a Raytheon está bloqueando a publicação dos dados sobre pernas robóticas controladas a distância com ondas cerebrais de uma macaca na esteira? - isso tem implicações bastante sérias); no entanto, não é dizendo mentiras como "Nicolelis usa trabalhos antigos para mostrar nova produção de instituto" que se vai resolver a questão.

Upideite(19/dez/2012): Profa. Dra. Ângela Paiva, reitora da UFRN, fala sobre o rompimento entre os professores da universidade e a equipe de Nicolelis.
Upideite(19/dez/2012): Vale muito a pena ler também o texto de Bernardo Esteves para a Revista Piauí de um ano atrás sobre a "mitose" dos grupos e os planos de Nicolelis.
Upideite(21/dez/2012): Herton Escobar responde a algumas questões que fiz sobre o desenvolvimento da reportagem.
Upideite(14/fev/2013): Herton Escobar volta à carga. Segundo o jornalista, o recente trabalho sobre processamento pelo córtex tátil de ratos de sinais infravermelhos captados por sensores artificiais não teria sido produzido em Natal, a despeito da filiação dos autores indicada no artigo. Nicolelis responde que daqui a duas semanas sairá artigo na Nature com resultados de trabalhos em Duke e em Natal.
Upideite(14/fev/2013) Segundo Miguel Nicolelis, essas acusações levaram à perda de doação de R$ 300 mil ao programa de pré-natal de alto risco.

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