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sexta-feira, 1 de março de 2013

Entrevista com um neurocientista - Antonio Carlos Roque da Silva Filho

Ainda em relação aos desdobramentos do manifesto "Eu apoio a Ciência Brasileira" e da entrevista com o Prof. Dr. Márcio Moraes, por email, no dia 25/fev/2013, entrei em contato com o Prof. Dr. Antonio Carlos Roque da Silva Filho, da USP de Ribeirão Preto. Abaixo segue a entrevista gentilmente concedida pelo Dr. Antonio Roque.

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GR. Poderia descrever resumidamente sua linha de pesquisa? Bem como como surgiu o convite para integrar o comitê gestor do INCeMaq?

AR. Minha área de pesquisa é a neurociência computacional, que é o nome utilizado atualmente para se referir à neurociência teórica abordada segundo técnicas e ferramentas matemáticas e de simulação computacional. Dentro dessa grande área, desenvolvo duas linhas de pesquisa: (i) simulação computacional de modelos matemáticos de neurônios e estruturas neurais, p. ex. retina, bulbo olfatório; e (ii) modelagem matemática de comportamento de animais. O convite para integrar o INCeMaq deu-se em setembro de 2008. Meu nome foi sugerido ao Prof. Sidarta Ribeiro por colegas (eu não conhecia o Prof. Ribeiro à época) e ele me convidou. Durante a elaboração do projeto enviado ao CNPq, meu nome foi incluído como pesquisador principal do INCeMaq e membro do comitê gestor. 

GR. As decisões sobre a gestão do INCeMaq eram tomadas somente nas reuniões formais ou havia consultas por outros meios como email e telefone?

AR. Só tomei parte em discussões sobre a gestão do INCeMaq na segunda reunião, em 12/04/2011. Por e-mail, recebi apenas informações sobre a aprovação do projeto, remanejamento de recursos, datas das reuniões e solicitações sobre detalhes dos equipamentos (computadores) que deveriam ser comprados com a parte do orçamento relativa ao meu projeto.

GR. Na primeira reunião do CG, foi apenas de apresentação de projetos. O que foi tratado na segunda reunião? Algo referente a uma divisão de linhas de trabalho?

AR. Os temas tratados na segunda reunião estão listados abaixo, na ordem em que foram discutidos:
a) Informe do Prof. Miguel Nicolelis sobre sua participação na reunião dos INCTs em Brasília em novembro de 2010.
b) Criação do regimento interno do comitê gestor.
c) Leitura e aprovação da ata da primeira reunião do comitê gestor.
d) Apresentação da prestação de contas e aprovação da mesma pelo comitê gestor.
e) Distribuição das bolsas do projeto entre os laboratórios participantes.
f) Planejamento de ações para se atingir as metas científicas do projeto original. Foi discutida a organização de uma reunião de caráter exclusivamente científico, reunindo os pesquisadores principais envolvidos no projeto e alguns alunos, para promover a integração entre eles e buscar convergências de linhas de pesquisa. Me propus a organizar essa reunião em Ribeirão Preto entre 27 e 28 de junho de 2011 e todos aprovaram a ideia. Infelizmente, a reunião não ocorreu.
g) Gestão dos recursos financeiros e de bolsas do INCeMaq.
h) Apresentação da Diretora dos Centros de Educação Científica da AASDAP sobre o projeto cientistas do futuro.
i) Apresentação do Prof. Sidarta Ribeiro sobre o projeto semente (que dá atendimento a crianças de risco de uma favela de Natal).

GR. Houve tentativa anterior de encaminhar os questionamentos feitos no manifesto pessoalmente ao Dr. Nicolelis? Em caso positivo, qual a resposta? Em caso negativo, por que não foi feito?

AR. Com relação especificamente às questões feitas no quarto parágrafo do manifesto, não houve tentativa de encaminhá-las ao Prof. Miguel Nicolelis. Com relação ao questionamento geral sobre a atuação do Prof. Nicolelis como gestor do INCeMaq, enviamos um e-mail ao Coordenador e Vice-Coordenador do INCeMaq, Profs. Nicolelis e Manoel Jacobsen, em 10/03/2011. O mesmo foi respondido pelo Prof. Nicolelis em 11/03/2011. Durante a segunda reunião, também houve questionamentos sobre a gestão do INCeMaq por seu Coordenador. O Prof. Nicolelis nos deu respostas sobre algumas demandas na própria reunião e em e-mail datado de 04/08/2011. Como consideramos que os problemas não foram solucionados, enviamos uma carta ao Presidente do CNPq em 27/09/2011 contendo pontos que julgávamos insatisfatórios na gestão do Prof. Nicolelis (nada a respeito da sua competência científica ou ataques pessoais) e solicitando a substituição do Coordenador pelo Vice-Coordenador, Prof. Jacobsen. É importante frisar que não solicitamos o desligamento do Prof. Nicolelis do INCeNaq, apenas a troca do Coordenador. Nunca obtivemos resposta a essa carta. Em 26/07/2012, recebemos e-mail do Prof. Nicolelis nos informando que fomos desligados do INCeMaq. É por essas razões que resolvemos encaminhar o manifesto ao Jornal da Ciência, à SBPC e à ABC.

GR. Considerando-se as respostas dada pela equipe do Prof. Nicolelis (publicadas em https://www.facebook.com/iinnels/posts/350890325027145* e https://www.facebook.com/iinnels/posts/350894151693429), V. Sra. considera satisfatória e esclarecida a questão do experimento com sensores de infravermelho?

AR. Sim, foi esclarecido que o Prof. Nicolelis e sua equipe já trabalhavam no experimento desde novembro de 2006 na Universidade de Duke. Em entrevista ao repórter Herton Escobar d'O Estado de São Paulo, em 26/02/2013, o Prof. Nicolelis também esclareceu que não tem nenhuma lembrança da apresentação do Prof. Márcio Moraes na primeira reunião do comitê gestor em julho de 2010. Portanto, está esclarecido que o Prof. Nicolelis, enquanto Coordenador do INCeMaq, não procurou envolver o Prof. Moraes em uma colaboração, mesmo que mínima, a respeito desse experimento.

GR. O que pensa, de modo geral, do teor das respostas? (Especialmente: sobre as razões alegadas para o pedido de afastamento dos signatários do manifesto do comitê gestor do INCeMaq; e as motivações para o manifesto.)

AR. Considero as respostas um pouco exaltadas em alguns trechos, mas, de maneira geral, elas esclarecem as perguntas feitas. Os signatários do manifesto não pediram para ser afastados do comitê gestor do INCeMaq. Aliás, os signatários não pediram o afastamento de nenhum membro do comitê gestor. Eles apenas pediram ao CNPq a troca do membro que ocupa o cargo de Coordenador, propondo a substituição do Prof. Nicolelis pelo Prof. Jacobsen. Não enviamos a carta ao CNPq em solidariedade ao Prof. Ribeiro, mas por julgarmos que a gestão do Prof. Nicolelis não estava sendo satisfatória.

GR. Gostaria de complementar com algo que não foi abordado nas questões acima?

AR. Aquilo que poderia acrescentar ou elaborar já está contido no comentário que enviei nesta madrugada ao blog da SBNeC (http://blog.sbnec.org.br/2013/02/eu-apoio-a-ciencia-brasileira/).

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*Upideite(01/mar/2013): Link atualmente quebrado. O mesmo teor está agora em outra postagem no facebook - com arrumação na separação dos parágrafos.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Entrevista com um neurocientista - Márcio Flávio Dutra Moraes

Com a publicação do manifesto "Eu apoio a Ciência Brasileira" em que um grupo de pesquisadores brasileiros na área de neurociências criticam o Prof. Dr. Miguel Nicolelis, quis esclarecer alguns pontos.

Por email, entrei em contato no dia 23/fev/2013 com um dos signatários do manifesto, o Prof. Dr. Márcio Flávio Dutra Moraes, da UFMG, cuja equipe também desenvolve projeto de neuroprótese de sensor de infravermelho. Abaixo segue a entrevista gentilmente concedida pelo Dr. Moraes.

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GR. Antes de mais nada, poderia nos contar resumidamente a trajetória de Núcleo de Neurociências da UFMG e como foi o convite para sua participação no comitê gestor do INCeMaq?

MM. Muito resumidamente, o NNC é um grupo de pesquisa multidisciplinar formado atualmente por 5 docentes, 17 alunos de pós-graduação, 3 pós-docs além de vários alunos de IC e estagiários. O grupo foi formalmente criado em 2000 com o seu credenciamento no Diretório de Grupos de pesquisa do CNPq. (ver www.nnc.ufmg.br para mais detalhes). O grupo possui diversas cooperações nacionais e internacionais, está vinculado a uma PG nível 7 CAPES e possui diversos projetos aprovados em andamento (p.e. participação na criação-implementação e coordenação do Centro de Tecnologia e Pesquisa em Magneto Ressonância – CTPMAG: http://www.nnc.ufmg.br/CTPMAG).
Quanto ao convite, eu estava fazendo um sabático na Inglaterra (King’s College London) quando fui convidado pelo Prof. Dr. Sidarta Ribeiro para fazer parte da escrita e submissão ao CNPq de um projeto para o INCT (o INCeMaq). Para contextualizar, na época, um ex-aluno meu de doutorado realizava seu Pós-Doutorado no ELS-IINN; hoje o Prof. Dr. Vinícius Rosa Cota é docente da Universidade Federal de São João del Rei. Uma vez aprovado o INCT, os líderes de grupos de pesquisa que empenharam suas equipes para executar partes do projeto foram convidados a compor o CG.

GR. Quais eram exatamente as atribuições e o modo de funcionamento do comitê gestor do INCeMaq? Somente o coordenador convocava as reuniões? Havia comunicação fora das reuniões - por meio de e-mails, telefones, pessoalmente?

MM. Quanto às atribuições do CG de qualquer INCT, peço gentilmente que consulte o CNPq e/ou outros INCTs que possuam páginas na internet. O INCeMaq foi formado por um grupo de colegas pesquisadores com os quais me sentia muitíssimo à vontade, extremamente competentes, abertos à colaboração e promoviam um ambiente informal e agradável. Já conhecia pessoalmente alguns dos membros do CG; os demais conhecia pela reputação na comunidade científica nacional. Dito isto, apesar das comunicações e convocações formais serem feitas pelo coordenador, que era também muito acessível, todos mantínhamos um relacionamento profissional e pessoal muito saudável.

GR. No manifesto é revelado que houve apenas duas reuniões entre 2010 e 2012. O que foi tratado na segunda reunião?

MM. Sobre o assunto do INCT, especificamente, peço que procure o Prof. Dr. Antônio Roque (também do CG) para esclarecimentos. Sinto-me pouco à vontade de falar sobre reuniões reservadas que envolvem outros colegas cientistas colaboradores do INCeMaq.

GR. No comunicado do desligamento dos membros do comitê gestor foi mencionada a razão do ato? O senhor tem informações a respeito do funcionamento atual do INCeMaq? Houve algum desentendimento anterior ao desligamento entre os membros do comitê gestor e o coordenador do INCeMaq?

MM. Novamente, não gostaria de mudar o foco do problema em questão. A carta divulgada não fala sobre isto.

GR. Qual foi a reação de V. Sra. e equipe diante do anúncio do trabalho de Nicolelis com implantes intracranianos ligados a sensores de infravermelho? O senhor chegou a entrar em contato com Nicolelis?

MM. Fiquei muito surpreso. O trabalho que vinculamos ao INCeMaq no início da escrita do projeto (meados de 2008) estava relacionado à utilização de estimulação elétrica profunda para supressão e predição de crises epilépticas. Esta escolha era mais lógica pois já tínhamos resultados positivos e, portanto, uma maior segurança quanto à prestação de contas do projeto. De fato, publicamos vários trabalhos com esta ideia nos anos seguintes, todos com reconhecimento declarado ao INCT (ver publicações no meu CV). Contudo, depois da aprovação do INCeMaq, nos reunimos em 2010 e decidi mostrar algo em que estávamos (no NNC) trabalhando, que considerávamos de mais alto risco de sucesso mas de grande repercussão para as neurociências. Não houve apoio para incorporar isto ao INCT e portanto, retornei para meu grupo de pesquisa dizendo que não havia interesse de vincular o referido projeto ao INCT. Não escrevi diretamente para o Prof. Nicolelis pois considerei que não havia muito o que conversar. Entenda, os aspectos legais deste processo me interessam muito pouco, estava entre colegas de trabalho, comungando de um mesmo projeto, com financiamento comum e, sem nenhum outro comunicado, vi uma de nossas linhas de pesquisa publicadas em âmbito internacional. Nossa equipe de trabalho no NNC é muito motivada, o que ajuda a lidar com o baque desta ordem, mas ainda assim é muito desagradável. Se o Prof. Nicolelis tivesse me dito na época que a ideia era interessante e que gostaria de compartilhar resultados, o que era exatamente o que eu estava fazendo (reunião de 2010) sobre uma linha que NÃO SABIA E AINDA NÃO POSSO AFIRMAR QUE ESTAVA SENDO FEITA EM QUALQUER OUTRO LUGAR DO GLOBO, nós poderíamos ter discutido parcerias e estreitado colaborações. Nunca sofri situação parecida na minha carreira (sou Pesquisador Produtividade I do CNPq), não é o caso de publicar em congresso e ter seu trabalho feito por outro grupo, o trabalho foi apresentado a portas fechadas para colegas colaboradores de um mesmo projeto INCT.

GR. Como surgiu a ideia em sua equipe do experimento de neuroprótese com sensor de infravermelho? No projeto de sua equipe, o estímulo dá-se na região do complexo amigdaloide; no trabalho da equipe de Nicolelis, na região do córtex táctil. Essa diferença pode ser considerada significativa nos designs dos projetos?

MM. A realidade da pesquisa em território brasileiro é bem diferente. A UFMG não tem ainda uma estrutura de apoio técnico em bio-engenharia para construir equipamentos, software e eletrônica embarcada para um experimento customizado em neurociências. Desta forma, os amplificadores que registram o sinal captado do receptor de IV(infra-vermelho), os estimuladores de IV, o sistema de recompensa e estimuladores elétricos controlado por computador tiveram que ser desenhados e construídos no NNC. A ideia do experimento é antiga, anterior a 2009, discutida em reuniões com alunos de PG do NNC na época; contudo, os primeiros resultados são de 2009 quando a primeira versão do Harware e Software ficaram prontas. Com relação à sua pergunta sobre a metodologia e o alvo anatômico da estimulação, permita-me fazer uma analogia didática da razão da escolha de uma área poli-modal. Imagine se você tivesse um celular que vibrasse toda vez que você apontasse ele para um determinado emissor de IV, mexendo o celular seria possível encontrar a origem do sinal emitido, correto? Contudo, isto não seria exatamente um sexto-sentido, pois o que existe é a percepção de um tremor (estímulo tátil) que controla sua interação sensório-motora para otimizar a resposta do sinal captado pelo sensor. O experimento do Prof. Nicolelis estimula diretamente o córtex primário deste sentido sensorial. Nossa escolha de uma área poli-sensorial, que recebe informação de todos os demais sistemas sensoriais, foi baseada na ideia de verdadeiramente construir um sentido sensorial novo (artificial) que poderia se integrar aos demais 5 sentidos. Nesta linha de raciocínio, o termo sexto-sentido para o caso de estimulação de uma área sensorial primária seria inadequado; sinestesia, ainda que discorde, talvez fosse mais apropriado. Apesar desta ser uma importante diferença conceitual, a metodologia é muito parecida e se baseia fortemente em uma integração sensório-motora complexa que resulta do implante físico do receptor de IV cirurgicamente na cabeça do animal. Uma informação importante sobre a metodologia é que posso garantir e comprovar que o que foi feito e está em andamento na UFMG não recebeu qualquer interferência internacional e, sem questionar o mérito de uma afirmação de igual teor de outros grupos, é original e concebida integralmente em território nacional.

GR. Os pesquisadores signatários do manifesto mantêm alguma rede entre suas equipes coordenando seus trabalhos em um projeto maior fora do INCeMaq?

MM. Não posso e não devo responder em nome dos outros signatários. Mas posso dizer que o NNC possui vários projetos financiados, que somados são muitíssimo inferiores ao liberado para qualquer INCT, mas que nos permitem investir em alguns protocolos/experimentos de alto risco.

GR. Gostaria de acrescentar alguma observação a respeito do que não foi abordado acima?

MM. Não quero deixar você esperando mais tempo por uma resposta, por isto paro por aqui. Mas me faço disponível para continuar esta conversa em outra ocasião. Ressalto, contudo, que o objetivo de divulgar o incidente não foi a de contestar o trabalho científico de um excelente pesquisador (prova disto é que o Prof. Nicolelis é uma das principais referencias citadas em nossos trabalhos e é citado em diversas palestras que dou ao redor do Brasil); mas de proteger grupos de pesquisa brasileiros muito competentes, assegurando um financiamento contínuo e duradouro, que independa do Líder ou do indivíduo para garantir seu sucesso. O INCT foi idealizado exatamente para este fim, o episódio mostra que o Brasil tem que tomar muito cuidado com investimentos que podem acarretar conflito de interesse entre a promoção pessoal do coordenador e a finalidade última de crescimento institucional com formação de recursos humanos (no caso, alunos envolvidos no projeto aqui no NNC).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Um encontro com um possível nobel

O livro "Muito Além do Nosso Eu" de Miguel Nicolelis [sempre apontado como possível candidato para o Nobel de Fisiologia e Medicina (2008, 2009, 2010), articulador da Comissão do Futuro da Ciência Brasileira, idealizador e diretor científico do Instituto Internacional de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra... é, não perdi o hábito de dar o currículo de personalidades mais do que conhecidas] será oficialmente lançado em 22 de junho agora.



Fui convocado pelo próprio para ler, então vai pro topo da fila de leitura.

Bônus: Entrevista de Nicolelis a Jon Stewart no Daily Show no lançamento do original Beyond Bondaries.

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