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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Especulando: Crise das ciências, DC e ação política

Neste momento particularmente terrível para a ciência brasileira com o contingenciamento de 42% do orçamento da pasta do MCTIC - e com um orçamento que já era reduzido em relação aos anos anteriores - e várias ações do anti-intelectualismo que grassam no governo em várias esferas (de CPI das Universidades em São Paulo, campanhas para filmar e denunciar professores, mentiras ditas sem contestação a respeito da pesquisa em universidades públicas, etc.), a comunidade acadêmico-científica parece apostar em duas fichas: a divulgação científica e o ativismo político.

De um lado, acho mais do que válida e bem vinda a valorização por parte dos cientistas em geral do que muitas vezes era vista como patinho feio do trinômio universitário: a extensão. E dentro da extensão, a DC também muitas vezes gerava mal entendidos - como o famigerado (e certamente falso) "efeito Carl Sagan" - de que acadêmicos que se dedicam à divulgação tendem a ser pouco produtivos em publicações científicas.

Entre outros efeitos, isso deve (acho) redundar em: 1) mais cientistas se dedicando à atividades de DC; 2) mais oportunidades de trabalho para grupos já relativamente organizados de DC; 3) maior preocupação com capacitação e formação dos divulgadores.

Mas me preocupo um tanto com um aparente excesso de esperanças que parte da comunidade científica parece depositar na DC para angariar apoio popular - e, daí, político; e, daí, reverter cortes nos financiamentos e ações anticiência. A DC tem um papel importante a desempenhar, mas a expectativa me parece irreal. Ela não faz mágica.

A DC não é meramente um departamento de relações públicas e assessoria de imprensa e de imagem das ciências. Parte dela pode cumprir tal papel. Mas é também parte da DC desempenhar um papel de observação crítica da prática científica. Denunciar más práticas, relativizar hypes de descobertas - colocando em contexto ou até mesmo apontando possíveis consequências danosas da aplicação de um achado científico, é algo que cabe à DC (seja ou não na vertente do jornalismo científico) - ainda que não exclusivamente à DC, a própria ciência em si tem seus fóruns internos para tal discussão (p.e. a questão sobre o uso ou não de significância estatística como critério dicotômico de aceitação ou não de hipóteses tem sido feita através de artigos científicos e de opinião em publicações científicas e acadêmicas).

Mas mesmo a DC em seu papel de reforçar a confiança nas ciências é limitada. Estudos de persuasão indicam que os variados métodos como uso de humor, metáforas, elementos emotivos, admoestações peremptórias, inoculação preventiva, etc. têm resultados modestos (ainda que positivos) nas atitudes do público em relação às ciências. As pesquisas têm ajudado a conhecer as melhores práticas da DC no quesito convencimento, mas ainda estão engatinhando como uma área de ciência da divulgação de ciências.

A DC precisa vir acompanhada de muitos outros fatores a mudar a relação entre a comunidade científica e a sociedade em que ela se insere. Transparência/accountability e participação democrática são dois termos chave que vêm sendo brandidos e estudados nesse quesito. A comunidade científica se abrir mais para a participação popular na definição de prioridades das pesquisas e discussão das preocupações com as tecnologias em uso e por se introduzir - até mesmo com os não especialistas botando a mão na massa na prática da ciência cidadã. É um processo que exige humildade nem sempre fácil de se aceitar e confiança mútua nem sempre prontamente estabelecida. Porém, o contrário, a desconfiança mútua e a arrogância, trazem o afastamento e estranhamento que só prejudicam a ambos os setores como o cerco à liberdade acadêmica, de um lado, e o ressurgimento de doenças preveníveis por vacinação por conta da baixa adesão, de outro, demonstram bem.

Um outro movimento que a academia tem (re)tomado e que também em histórico recente é alvo de polêmicas internas é o do ativismo político. Marchas e protestos (ainda que de alcance limitado - em parte, justamente por essa resistência da academia a se ver em meio a algo que não é meramente a discussão racional do fazer científico), lobbies (ou, em termo socialmente mais aceitável, grupos de advocacy ou de pressão) (recentemente pelo menos três iniciativas foram organizadas - o Instituto Questão de Ciência, como associação independente de indivíduos; o Observatório do Conhecimento, uma rede de associações discentes do ensino superior; e a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento, a ICTP.br, um movimento conjunto da SBPC com outras sociedades científicas - todas com o objetivo de interlocução com parlamentares para a elaboração de políticas públicas baseadas no conhecimento científico e em defesa da ciência), e talvez num movimento mais ousado: lançando candidatos cientistas a cargos públicos representativos (embora nenhuma entidade científica - até por questões estatutárias e legais - tenha apoiado abertamente algum) cientistas.

Foram durante os anos de chumbo que a SBPC teve alguns de seus momentos de maior relevância, colocando-se como elemento de resistência à perseguição político-ideológica do regime contra acadêmicos, cientistas e intelectuais.

Um terceiro movimento, não organizado (ao menos por enquanto), é o de simplesmente (quase nunca é simples, na verdade) tentar ir buscar oportunidades (e fugir de perseguições) no exterior. Desconheço uma medida do tamanho do brain drain atual (se souberem de estudos estimando o total de cientistas brasileiros que tenham se mudado para o estrangeiro em tempos recentes, por favor, indiquem nos comentários*). É um movimento compreensível, mas, claro, que não tende a ser ativamente incentivado pela academia.

Um quarto busca articular os dois primeiros: DC e ação política. Mas é ainda mais incipiente. E igualmente (ou até mais, talvez) polêmico. É compreensível a resistência uma vez que, sim, é preciso resguardar tanto a prática científica quanto a comunicação pública a respeito dela de vieses que as distorçam. Mas, sem equacionar a questão, a máquina anti-intelectual vem fechando o cerco. Pode ser questão de sobrevivência (até literal).

*Upideite(19.mai.2019): Um grupo da Unicamp está mapeando a diáspora de cientistas brasileiros nos Estados Unidos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A importância das redes de pesquisa no desenvolvimento da ciência

No começo de agosto participei de um evento sobre Genômica Translacional na Unicamp para cobri-lo dentro do projeto que estou desenvolvendo. Produzi o texto abaixo para a seção de notícias da Com Ciência, mas acabou não sendo publicado.

Mais abaixo publico na íntegra (ou quase, parte da entrevista acabou não sendo gravada) transcrição do depoimento de Glaucius Oliva sobre pesquisa em rede e internacionalização da ciência brasileira - tema da palestra que deu no evento.

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Cientistas ressaltam importância de redes de pesquisa em evento na Unicamp
Entre os dias 4 e 6 de agosto, o Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética (CBMEG) e o Laboratório Central de Tecnologias de Alto Desempenho em Ciências da Vida (LaCTAD) realizaram o Advanced Topics in Genomics and Cell Biology (“Tópicos Avançados em Genômica e Biologia Celular”) no Centro de Convenções da Unicamp. Na edição deste ano, o tema foi a genômica translacional – área relativamente nova da pesquisa genética que procura integrar os conhecimentos genômicos no entendimento dos mecanismos moleculares de desenvolvimento de doenças. Em seu primeiro dia, o principal tópico destacado foi a formação de redes de pesquisa e sua importância para o desenvolvimento da ciência atual.

O presidente do CNPq, o físico Glaucius Oliva, em sua palestra destacou as ações do governo federal para a indução de formação de redes de pesquisa e seu fortalecimento. “Você não pode pensar em fazer ciência hoje sem ser em rede”, disse Oliva. Dentre os desafios do sistema de Ciência e Tecnologia no Brasil que podem ser enfrentados pela pesquisa em rede listados pelo dirigente estão a qualidade e o impacto social, econômico e educacional dos estudos, o melhor uso da infraestrutura científico-acadêmica, a internacionalização da ciência brasileira e a inovação. “Em função da necessidade do crescimento interno, nós perdemos muito da nossa capacidade de cooperação internacional nos anos recentes e por isso a participação em redes internacional é extremamente importante”, reconheceu Oliva em entrevista exclusiva ao Com Ciência Notícia. Mas esse processo de integração a redes internacionais tem seus próprios desafios. “Um exemplo recente é o do ESO [Observatório Europeu do Sul, principal organização astronômica intergovernamental da Europa]; há uma proposta de participação brasileira, mas que a própria comunidade científica discutia, porque achava que era muito dinheiro num laboratório internacional, quando devia colocar esse dinheiro para os laboratórios do próprio país”, disse completando: “A gente tem que, de fato, olhar de uma forma mais abrangente a interação dentro do país e, principalmente, fora do país no formato de redes.


O biólogo Wen Hwa Lee, do Structural Genomic Consortium (consório de pesquisa em parceira público-privada com sede em Toronto, Canadá), apontou a necessidade da realização da pesquisa dentro do modelo de “Ciência Aberta” com uma rede de pesquisadores sem o envolvimento de propriedade intelectual sobre as ferramentas de pesquisa e outros insumos, diferentemente da pesquisa farmacêutica tradicional.

Elise Feingold, bióloga, líder do Projeto ENCODE de anotação do genoma humano, não pôde comparecer ao evento em que palestraria sobre o papel da integração de dados no entendimento das doenças humanas. Mas, em entrevista por e-mail, Feingold apontou que ferramentas disponíveis na internet como wikis, compartilhamento de documentos na nuvem para edição coletiva e teleconferências ajudam a reduzir a necessidade de encontros presenciais – nem sempre possíveis dado o fato de que os cientistas em geral estão bastante atarefados desenvolvendo suas pesquisas.
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Depoimento de Glaucius Oliva sobre a importância das redes de pesquisa no Brasil e o papel da internacionalização da ciência brasileira.
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[…] habilidades instrumentais, elas requerem uma forte interação com o mundo exterior aonde os problemas importantes estão aí para serem resolvidos, e por isso, no mundo todo, os principais projetos hoje têm sido desenvolvido sempre nesse formato de redes. No Brasil, esse programa foi pioneiramente desenvolvimento pela Fapesp, que ao longo de sua história foi antecipando, no nível nacional, várias modalidades de apoio a redes, inicialmente apoiava projetos individuais. Projetos temáticos já foi uma forma de introduzir redes. Programas multiusuários, uma outra forma de introduzir redes. E depois os CEPIDs, já no final da década de 90, quando ela lança o programa para terem redes maiores neste caso. No nível nacional, nós também fomos tendo diversos programas para apoiar redes, desde o programa Pronex, Grupos de Excelência, depois o programa dos Institutos do Milênio, depois o programa dos INCTs, que agora está sendo renovado, e todos eles requerendo essa conjugação de grupos mais consolidados com grupos emergentes no país. Evidente que hoje o grande desafio da ciência brasileira é também se internacionalizar mais. Em função da necessidade de crescimento interno, nós perdemos muito da nossa capacidade de cooperação internacional nos anos recentes e por isso a participação em redes internacionais é, de fato, extremamente importante, embora isso mesmo dentro das comunidades às vezes gera olhares contraditórios, nós tivemos um exemplo recente que é o do ESO, European Southern Observatory, que, enfim, há uma proposta de participação brasileira, que evidentemente tem que ser aprovada pelo Congresso Nacional, se a gente quer aportar recursos vultosos, mas que a própria comunidade científica discutia, porque achava que era muito dinheiro num laboratório internacional, quando devia colocar esse dinheiro para os laboratórios do próprio país. O programa Ciência sem Fronteiras também gerou esse tipo de reação: “ah, será que vale a pena pagar para estudantes brasileiros irem para o exterior quando a gente podia pegar esse mesmo dinheiro e botar nos laboratórios de ensino das universidades brasileiras”, mas essas coisas tem que ser completares, entendeu? A gente tem que, de fato, olhar de uma forma mais abrangente a interação dentro do país e, principalmente, fora do país no formato de redes.

Tem duas modalidades no Ciência sem Fronteiras para atrair pesquisadores do exterior. Uma é para jovens talentos, que são pós-docs diferenciados, com uma bolsa diferenciada com auxílio à pesquisa. Equivalente ao Jovem Pesquisador aqui da Fapesp. Nós já temos 500 bolsas dessa modalidade concedidas nos últimos três anos. E o outro programa é o programa de Professor Visitante Especial, esse é um programa bem interessante, porque você pega um pesquisador sênior, cientista de alto nível internacional, e que está disposto a vir ao Brasil, um, dois meses por ano, por um período de três anos inicial[mente]. Ele ganha uma bela bolsa pelo mês que passa aqui. São 14 mil reais pessoais, por mês. Esse mês não precisa ser contínuo, pode ser dividido em estágios. Ele ganha uma bolsa de pós-doc, para deixar um pós-doc aqui trabalhando durante três anos. Uma bolsa de doutorado sanduíche para cada vez que vem levar um estudante junto com ele de volta para seu país de origem. E 50 mil reais por ano para fazer pesquisas aqui no laboratório que o hospeda. E um acordo com agências de fomentos locais, estaduais e federais de que esses indivíduos nesses programas podem pedir projetos maiores nas agências liderando esses projetos. Porque eles têm um certo vínculo, então, com as instituições que os hospedam. Nós já temos 8 centros desses pesquisadores no Brasil trabalhando hoje em dia.

Não, não [não temos metas numéricas para esses programas]. Nós temos agora a renovação do programa Ciência sem Fronteiras pelos próximos 4 anos. Mais 100 mil bolsas. E portanto a gente espera ter aí um número maior para os próximos anos a seguir.
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Agradecimentos: Aos entrevistados; à comissão organizadora do evento. Às orientadoras Profa. Dra. Simone Pallone e Dra. Katlin Massirer.

Este trabalho foi produzido sob financiamento da Fapesp (Bolsa Mídia Ciência).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

No slogans?

Via SemCiênciaSemciência* tomei conhecimento da reportagem de Fábio de Castro da Agência Fapesp sobre um estudo a respeito de especiação sem seleção natural e sem barreiras geográficas.

*Upideite (02/out/2009): correção a esta data. Vide aqui.

"Trabalhando com simulações em modelos matemáticos, um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos acaba de propor um mecanismo de formação de novas espécies biológicas que não envolve barreiras físicas ou isolamento geográfico. O estudo foi publicado na edição desta quinta-feira (16/7) da revista Nature."

"Segundo ele [Marcus Aloizio Martinez de Aguiar, do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp, primeiro autor do estudo], a principal contribuição do novo estudo é ter sugerido um mecanismo de especiação que prescinde das barreiras espaciais e da seleção natural, mas cujos resultados são compatíveis com os padrões de abundância de espécies observadas na natureza."

Na verdade o estudo não propõe um mecanismo, ele testa um mecanismo já proposto - a novidade é que eles demonstram a viabilidade para organismos com reprodução sexual por meio de simulação em computador. O mecanismo é de isolamento por distância, estudado teoricamente desde os anos de 1940 (vide, por exemplo, [1] e [2]).

"'O número de espécies existentes atualmente é muito grande – cerca de 100 milhões –, o que indica que a especiação é a regra e não uma exceção. Portanto, os mecanismos de especiação devem ser muito simples, embora sua compreensão não seja trivial. Um deles, sem dúvida, é o processo de isolamento geográfico, mas é improvável que seja o único. Nosso estudo aponta para a existência de um mecanismo diferente, em consonância com as observações experimentais', disse Aguiar à Agência FAPESP."

Na verdade não se sabe quantas espécies existem atualmente. As estimativas variam de 2 milhões a 100 milhões. Mas mesmo supondo que sejam 100 milhões ou mais, não se pode concluir com base nisso que os mecanismos de especiação sejam simples, quanto mais muito simples. Alguém aqui pode se lembrar da navalha de Occam. Mas por isso devemos escolher o mecanismo mais muito simples (dentre os que explicam bem algum fenômeno) independentemente da frequência do fenômeno: fenômenos raros ou comuníssimos devem ser explicados por mecanismos tão simples quanto possível. No entanto, tão simples quanto possível não quer dizer que seja intrinsecamente simples, apenas que é relativamente mais simples do que alguma outra explicação alternativa. P.e., a produção de biomassa com o uso da energia solar é algo extremamente comum em nosso planeta, porém o fenômeno da fotossíntese é bastante complexo.

"Além do fator relacionado à distância, o estudo determinou também que a reprodução só ocorre quando os indivíduos têm um certo grau de semelhança genética."

Na verdade o estudo parte da premissa de que indivíduos só se reproduzem com outros geneticamente similares. Basta dar uma olhada na descrição do método:

"We used agent-based simulations in which agents identified by geographical location and genotype undergo sexual reproduction in pairs limited by geographical and genetic proximity. Each offspring replaces a parent and differs in genotype according to genetic inheritance from both parents, with crossover and mutation, and in geographical location by dispersal. According to tests of multiple model variants, including parameter variation, sequential and synchronous mating, hermaphroditism and two sexes, single or multiple crossovers, direct assortative mating and separate fitness and sexual selection genetic components, our results apply quite generally, with the key properties needed being the limitations on spatial and genetic distances of mating." (Aguiar et al. 2009 [3])

Tampouco faria sentido um estudo tentar demonstrar que a distância genética leva a um isolamento reprodutivo, seria como um estudo atual tentar demonstrar que plantas fazem fotossíntese. Qualquer primeiranista do ensino médio sabem que indivíduos se reproduzem com indivíduos geneticamente similares. E a leitura do parágrafo seguinte da reportagem da Agência Fapesp confirma:

'Além da distância espacial, há também uma distância genética crítica. O que mostramos é que, se a distância espacial ou genética for muito grande, não há formação de novas espécies. Existe uma região de parâmetros na qual a especiação ocorre e uma outra na qual não ocorre', disse."

Então o que o estudo mostra é que a especiação ocorre somente quando os indivíduos se acasalam com outros indivíduos geneticamente similares (vide figura 2 do estudo de Aguiar et al. 2009 [3]).

Em relação ao estudo, o que se pode contestar um tanto é em relação à limitação geográfica do acasalamento. Isso elimina a migração entre populações distantes (o estudo até contempla aves migratórias, mas com reprodução restrita ao local de nascimento) - e estudos teóricos demonstram que a ocorrência de uma pequena taxa de migração é o suficiente para impedir a diferenciação entre populações de outro modo isoladas: daí a ocorrência de espécies cosmopolitas como a humana, as baratas, os ratos de esgoto, pardais e outras pragas. De fato, pelo estudo, quando o parâmetro geográfico tem seu valor aumentado, deixa de se observar especiação.

Não deixa de ser um estudo interessante de todo modo. E, para nós, é importante, pois se trata de mais um cientista brasileiro emplacando trabalho em uma publicação conceituada.

[1] Wright, S. 1938. Size of population and breeding structure in relation to evolution. Science 87:430-1.
[2] Wright, S. 1943. Isolation by distance. Genetics 28: 114-38. Disponível aqui.
[3] Aguiar, MAM. et al. Global patterns of speciation and diversity. Nature 460: 384-8. doi:10.1038/nature08168

Upideite (30/jul/2009): ainda sobre a migração; o trabalho, como dito, limita migração, mas organismos reais migram, migram e se especiam (aqui sob a intervenção da seleção natural ou da pressão de mutação superando o fator de homogeneização); mas o modelo ainda assim funciona; isto é, usam uma premissa sabidamente não realista (organismos não migram) e obtêm um resultado que se ajusta ao observado; esse é um ponto intrigante para se analisar.

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