*Upideite (02/out/2009): correção a esta data. Vide aqui.
"Trabalhando com simulações em modelos matemáticos, um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos acaba de propor um mecanismo de formação de novas espécies biológicas que não envolve barreiras físicas ou isolamento geográfico. O estudo foi publicado na edição desta quinta-feira (16/7) da revista Nature."
"Segundo ele [Marcus Aloizio Martinez de Aguiar, do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp, primeiro autor do estudo], a principal contribuição do novo estudo é ter sugerido um mecanismo de especiação que prescinde das barreiras espaciais e da seleção natural, mas cujos resultados são compatíveis com os padrões de abundância de espécies observadas na natureza."
Na verdade o estudo não propõe um mecanismo, ele testa um mecanismo já proposto - a novidade é que eles demonstram a viabilidade para organismos com reprodução sexual por meio de simulação em computador. O mecanismo é de isolamento por distância, estudado teoricamente desde os anos de 1940 (vide, por exemplo, [1] e [2]).
"'O número de espécies existentes atualmente é muito grande – cerca de 100 milhões –, o que indica que a especiação é a regra e não uma exceção. Portanto, os mecanismos de especiação devem ser muito simples, embora sua compreensão não seja trivial. Um deles, sem dúvida, é o processo de isolamento geográfico, mas é improvável que seja o único. Nosso estudo aponta para a existência de um mecanismo diferente, em consonância com as observações experimentais', disse Aguiar à Agência FAPESP."
Na verdade não se sabe quantas espécies existem atualmente. As estimativas variam de 2 milhões a 100 milhões. Mas mesmo supondo que sejam 100 milhões ou mais, não se pode concluir com base nisso que os mecanismos de especiação sejam simples, quanto mais muito simples. Alguém aqui pode se lembrar da navalha de Occam. Mas por isso devemos escolher o mecanismo mais
"Além do fator relacionado à distância, o estudo determinou também que a reprodução só ocorre quando os indivíduos têm um certo grau de semelhança genética."
Na verdade o estudo parte da premissa de que indivíduos só se reproduzem com outros geneticamente similares. Basta dar uma olhada na descrição do método:
"We used agent-based simulations in which agents identified by geographical location and genotype undergo sexual reproduction in pairs limited by geographical and genetic proximity. Each offspring replaces a parent and differs in genotype according to genetic inheritance from both parents, with crossover and mutation, and in geographical location by dispersal. According to tests of multiple model variants, including parameter variation, sequential and synchronous mating, hermaphroditism and two sexes, single or multiple crossovers, direct assortative mating and separate fitness and sexual selection genetic components, our results apply quite generally, with the key properties needed being the limitations on spatial and genetic distances of mating." (Aguiar et al. 2009 [3])
Tampouco faria sentido um estudo tentar demonstrar que a distância genética leva a um isolamento reprodutivo, seria como um estudo atual tentar demonstrar que plantas fazem fotossíntese. Qualquer primeiranista do ensino médio sabe
'Além da distância espacial, há também uma distância genética crítica. O que mostramos é que, se a distância espacial ou genética for muito grande, não há formação de novas espécies. Existe uma região de parâmetros na qual a especiação ocorre e uma outra na qual não ocorre', disse."
Então o que o estudo mostra é que a especiação ocorre somente quando os indivíduos se acasalam com outros indivíduos geneticamente similares (vide figura 2 do estudo de Aguiar et al. 2009 [3]).
Em relação ao estudo, o que se pode contestar um tanto é em relação à limitação geográfica do acasalamento. Isso elimina a migração entre populações distantes (o estudo até contempla aves migratórias, mas com reprodução restrita ao local de nascimento) - e estudos teóricos demonstram que a ocorrência de uma pequena taxa de migração é o suficiente para impedir a diferenciação entre populações de outro modo isoladas: daí a ocorrência de espécies cosmopolitas como a humana, as baratas, os ratos de esgoto, pardais e outras pragas. De fato, pelo estudo, quando o parâmetro geográfico tem seu valor aumentado, deixa de se observar especiação.
Não deixa de ser um estudo interessante de todo modo. E, para nós, é importante, pois se trata de mais um cientista brasileiro emplacando trabalho em uma publicação conceituada.
[1] Wright, S. 1938. Size of population and breeding structure in relation to evolution. Science 87:430-1.
[2] Wright, S. 1943. Isolation by distance. Genetics 28: 114-38. Disponível aqui.
[3] Aguiar, MAM. et al. Global patterns of speciation and diversity. Nature 460: 384-8. doi:10.1038/nature08168
Upideite (30/jul/2009): ainda sobre a migração; o trabalho, como dito, limita migração, mas organismos reais migram, migram e se especiam (aqui sob a intervenção da seleção natural ou da pressão de mutação superando o fator de homogeneização); mas o modelo ainda assim funciona; isto é, usam uma premissa sabidamente não realista (organismos não migram) e obtêm um resultado que se ajusta ao observado; esse é um ponto intrigante para se analisar.