Às vezes estamos tão mergulhados nos jargões de nossa ocupação que mal nos damos conta deles. É preciso uma voz externa a nos perguntar: "o que você disse?" para nos despertar de um certo transe ocupacional.
Por exemplo, nunca me preocupei em explicar o nome "Gene Repórter" para este blogue. Para mim, era um trocadilho mais ou menos óbvio com uma técnica da biologia molecular e o ato de reportar ou relatar fatos, ocorrências, fenômenos, etc. para quem não estava no local.
Mas várias pessoas procuram, segundo o Google Analytics delata, por "gene repórter". Sei que elas devem ficar frustradas.
Sendo bem sucinto, um gene-repórter é um gene que, na técnica de engenharia genética (como transgenia), é inserido conjuntamente com outros genes (ou sequências) de interesse. A atividade do gene repórter pode ser acompanhada mais facilmente - por exemplo, o gene da aquaporina produz uma proteína fluorescente verde (ela brilha no escuro e produz uma luz esverdeada), se esse gene é colocado junto com um outro gene A, se a célula (ou o organismo) apresentar um brilho esverdeado, então é quase certo que o gene A também estará presente. Então esse gene reporta - daí o nome - a presença de outro gene, que é o de interesse. (Não precisa ser exatamente um gene, pode ser uma sequência qualquer - por exemplo, uma que *iniba* a atividade de outro gene.) Aqui tem um vídeo com mais detalhes da técnica.
O scibling (agora acho que posso chamá-lo de scibling) Igor Zolnerkevic (do Universo Físico) quem me chamou a atenção. Ele é divulgador de ciências, mas só foi saber o que era gene-repórter quando fez uma reportagem sobre a bioluminescência do Phrixothrix hirtus - seu gene de luciferina leva à produção de um brilho avermelhado e pode ser utilizado nas pesquisas sobre câncer (leia a reportagem aqui - só uma picuinha da patrulha purista vocabular, lagarta é o nome da larva de lepidópteros - mariposas e borboletas -, o P. hirtus é um coleóptero - besouro vagalume fengodídeo). Claro, ele é físico de formação. Eu certamente ignoro um monte de nome de fenômenos, técnicas e efeitos da física (e de química, da história, da farmacêutica, da geologia, da geografia, da sociologia, da matemática... e mesmo de várias áreas da biologia).
Pronto, aos paraquedistas que contribuem involuntariamente com a audiência deste blogue, espero ter pagado minha dívida.
Isso explicado o leitor notará que o que menos se fala neste blogue é de genes e, somado ao fato de eu não ser jornalista, o nome "Gene Repórter" pode soar enganoso. Minhas desculpas por isso também.
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quarta-feira, 23 de junho de 2010
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