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quarta-feira, 14 de julho de 2010

Macacada desunida

ResearchBlogging.orgA Folha Online reproduz notícia traduzida da France Presse.

Linhagem humana separou-se dos macacos antes do que se pensava
"O último ancestral compartilhado entre macacos e humanos viveu provavelmente entre 28 e 24 milhões de anos atrás, alguns milhões de anos depois do que se pensava."

O original, reproduzido pelo Yahoo!News, conta uma história bem distinta:
Human lineage split from monkeys later than thought: study

Antes vamos dar espaço para a patrulha purista vocabular. Em inglês, há a distinção entre monkey e apes. Monkey são macacos com cauda. É um termo não-taxonômico - agrupa os platirrinos (macacos do Novo Mundo - macaco-aranha, bugio, saguis, micos...) e parte dos catarrinos: cercopitecóides (macacos de cauda do Velho Mundo - macaco-verde, cólobo, reso...). Ape designa macacos sem cauda (ou de cauda curta): os hilobatídeos (gibões e siamango) e os hominídeos (orangotando, humanos, chimpanzés, bonobos e gorilas). (Figura 1.)


Figura 1. Filogenia de primatas.

Em português não há essa distinção. Macacos (e símios) referem-se a todos esses grupos (com exceção de humanos). Então alguém que lesse a notícia em português ficaria espantado: já que Lucy e outros australopitecinos são datados em cerca de 4 milhões de anos e Ardipithecus ramidus cerca de 4,4 milhões de anos. Seria um salto gigantesco até os 24-28 milhões de anos.

O que o fóssil referido do Saadanius hijazensis, descrito por Zalmout et al. 2010, ajuda a datar é a separação entre monkeys e apes: na verdade, entre platirrinos e catarrinos cercopitecoides e hominoides*. E não entre homens e macacos. (Figura 2.)

Figura 2. Posição filogenética de Saadanius hijazensis. Fonte: Zalmout et al. 2010. www.nature.com

Agora, later é "mais tarde". A separação correu mais cedo ou mais tarde? Se os dados anteriores disponíveis eram genômicos e indicavam uma data de 29,2 a 34,5 milhões de anos atrás, 24-28 milhões de anos é um tempo mais tardio e não mais cedo. Mas, por outro lado, os paleontólogos estimavam a divergência cercopitecoidea/hominoidea entre 23 e 25 milhões de anos atrás. O intervalo 24-28 milhões de anos é um pouco mais cedo - ainda que sobreposto parcialmente. Porém, como um fóssil registra o tempo máximo de divergência, não é impossível que fósseis mais antigos sejam encontrados e o tempo recue para o intervalo apontado pelos dados genéticos.

Em suma
Quem
: grupo de pesquisadores dos EUA e da Arábia Saudita.
O quê: Fóssil de Saadanius hijazensis (do. ár. saadan, macaco e Al Hijaz, província ocidental da Arábia Saudita onde o material foi descoberto) - material cranial parcial.
Importância: preenche uma lacuna no registro fóssil entre os propliopitecóides (de 30-35 milhões de anos atrás) e os hominóides mais antigos (proconsulídeos de cerca de 23 milhões de anos atrás).

Referência
Zalmout, I., Sanders, W., MacLatchy, L., Gunnell, G., Al-Mufarreh, Y., Ali, M., Nasser, A., Al-Masari, A., Al-Sobhi, S., Nadhra, A., Matari, A., Wilson, J., & Gingerich, P. (2010). New Oligocene primate from Saudi Arabia and the divergence of apes and Old World monkeys Nature, 466 (7304), 360-364 DOI: 10.1038/nature09094

Copirraite da figura 2: 2467870826872
Rightslink: This reuse request is free of charge although you are required to obtain a license through Rightslink and comply with the license terms and conditions. You will not be charged for this order. (use on a web site > Educational web site > Other not-for-profit > Figures/table > 1)

*Upideite(16/jul/2010): corrigido a esta data.

sábado, 24 de outubro de 2009

I see your true colors*

Esta é, acho, a primeira postagem "on demand" do Gene Repórter. Não, não é um post pago. Não recebi um tostão. Apenas uma sugestão de tema feita por @mariaguimaraes com base em uma troca de tweets entre @Karl_Ecce_Med, @uoleo, @oatila e eu. Confesso que é uma área que está bastante longe de minha especialidade, de modo que tive um bom trabalho de pesquisa - ainda assim corro risco de ter escrito muitas bobagens.

Reinaldo José Lopes publicou no Laboratório da Folha Online uma postagem sobre um estudo com saguis-de-cara-branca. Mais especificamente a respeito de por que diabos nas populações desses símios há tanto indivíduos com visão dicromática (com dois tipos de cones, cada qual com pico de sensibilidade para ondas de comprimentos diferentes) quanto tricromática (claro, com três tipos de cones).

Sabia-se já, de estudos anteriores, que os com visão tricromática tinham vantagem em distinguir mais claramente objetos avermelhados de um fundo esverdeado - isso é particularmente útil na localização, por exemplo, de frutos maduros em meio à folhagem.

Se essa fosse toda a história, então, por seleção natural, a visão dicromática deveria ter desaparecido por seleção direcional[**]. Então claro que havia outra coisa.

Essa outra coisa, sugerem os resultados do novo estudo (Caine et al. 2009), é uma maior acuidade visual em um ambiente mais escuro. (Um outro estudo, do mesmo grupo de pesquisadores, analisou a vantagem dos dicromatas em termos de encontrar alimentos camuflados - com a mesma cor do ambiente: por exemplo, um objeto verde sobre fundo verde ou um objeto laranja sobre um fundo alaranjado - Caine et al 2003.)

Até aqui está tudo bem explicado na postagem de Lopes no blogue da Folha Online.

O que deve ficar claro é que não se trata de uma negação da seleção natural. Não está a ocorrer a sobrevivência diferencial dos menos aptos. Por *definição*, uma característica evolutivamente vantajosa é uma que faz com que os indivíduos que a portem tenham, em média, mais descendentes na geração seguinte do que os indivíduos que não a portem. Então, o dicromatismo *é* uma característica (ao menos para certas circunstâncias) vantajosa. (Uma certa confusão pode se dar pelo fato de Lopes ter usado uma comparação com daltônicos humanos e pelo fato de considerarmos o daltonismo um defeito visual - na *nossa* vida *atual*, os daltônicos têm uma desvantagem geral, o que explica o baixo número de daltônicos nas populações humanas atuais. Deve se lembrar ainda que uma desvantagem não é uma desvantagem absoluta - ela é uma desvantagem em um dado *ambiente*, se houver uma alteração no ambiente, uma característica que era desvantajosa pode passar a ser vantajosa e vice-versa. Um exemplo de livros-textos é o do alelo da hemoglobina que causa anemia falciforme - em dose dupla é normalmente letal, o heterozigoto pode desenvolver anemia falciforme em determinadas circunstâncias, mas confere proteção contra o Plasmodium sp.: em regiões em que a malária é endêmica, os heterozigotos têm vantagem e o alelo recessivo da anemia falciforme permanece na população; em regiões em que não há malária, pessoas homozigotas de alelos que não causam anemia falciforme têm vantagem e o alelo que causa anemia tende a ser eliminado.)

Se o dicromatismo é vantajoso, então, por que o *tricromatismo* existe? Pela vantagem exposta acima. Mas isso não pode ser a história toda. Se o tricromatismo for ligeiramente mais vantajoso do que o dicromatismo (digamos, indivíduos da espécie passem mais tempo em áreas mais claras do que em regiões mais sombreadas), então a seleção faria com que a população fosse composta inteiramente por tricromatas[**]. De modo oposto, se o dicromatismo fosse ligeiramente mais vantajoso (p.e., os indivíduos ficam mais tempo em regiões mais sombreadas), então o dicromatismo deveria estar fixado. Então ambos são igualmente vantajosos? Vejamos.

Na situação em que não há vantagem relativa, teríamos uma neutralidade efetiva. Isso resolveria o problema da fixação pela seleção. No entanto, o tamanho populacional dos saguis é limitado. Sua área de distribuição total é de cerca de 230 mil km2 (Fig. 1). Se considerarmos que eles se distribuem homogenamente por essa área e aplicarmos uma densidade média de 3,5 indivíduos/km2 (São Bernardo & Galetti 2004) teremos um total de aproximadamente 800 mil indivíduos. Esse número está certamente superestimado - os animais não devem se distribuir por toda a área do mapa.

Figura 1. Área de distribuição de sagui-de-cara-branca (Callithrix geoffroyi): +. Fonte: Grelle & Cerqueira 2006.

Mas tomando esse número de 800 mil, eles vivem em bandos de 8 a 10 indivíduos, com um casal dominante - apenas o casal se reproduz no grupo. Isso faz com que o tamanho da população efetiva seja de cerca de 200 mil indivíduos. Isso faria - usando cálculos de probabilidade de perda de mutações neutras - que em cerca de 30 gerações, a variante tricromática fosse perdida. Os saguis-de-cara branca maturam em cerca de 1 ano e meio e vivem cerca de 10 anos, com o sistema do casal dominante (os demais indivíduos terão oportunidade de se reproduzir quando o casal dominante morrer - ou quando fundarem seu próprio grupo) - em pouco menos de 300 anos haveria de se perder o polimorfismo visual entre os saguis.

A existência atualmente do polimorfismo poderia ser explicada - sob o modelo neutro - se a mutação for relativamente recente: não houve tempo ainda para nenhuma das variantes se fixar. Mas 300 anos são pouco tempo. Então teremos que assumir que na origem o tamanho efetivo da população fosse muito menor (o que não é um absurdo de se pensar - especialmente se voltarmos ao tempo muito anterior ao surgimento dos saguis-de-cara branca, na época de um ancestral em comum de vários macacos do Novo Mundo) ou uma mudança no regime seletivo ao longo do tempo.

Temos, em suma, algo ainda não muito bem entendido na evolução e manutenção do polimorfismo visual nos saguis - e nos demais primatas.

A história é ainda mais complicada pelo fato de se detectar o tricromatismo também em lêmures (Leonhardt et al. 2008), isso pode significar que a visão tricromática seja ainda mais antiga e que várias linhagens a tenham perdido ou que tenha sido adquirida várias vezes de modo independente. Como nos macacos antropóides os genes dos três pigmentos visuais ocupam lugares distintos no cromossomo X, enquanto que nos macacos do Novo Mundo, os genes de dois dos três pigmentos ocupam uma mesma posição cromossômica (loco gênico) - ou seja, são alelos, é mais provável que tenha havido pelo menos dois eventos independentes de surgimento da visão tricromática entre os primatas. O fato de nos macacos do Novo Mundo dois genes serem alelos faz com que apenas indivíduos que sejam heterozigóticos possam ser tricromatas - para isso é preciso ter dois X, ou seja, apenas fêmeas podem ser tricromatas (uma boa revisão da genética e evolução da visão tricromática em primatas é encontrada em Surridge et al. 2003).

*Verso de sucesso de Cyndi Lauper.
Upideite(27/out/2009):
**O complicador é que os tricromatas nos macacos do Novo Mundo são fêmeas heterozigóticas. Na verdade, pode estar a atuar uma seleção favorável ao heterozigoto, que propiciaria uma seleção balanceadora - como no caso dos alelos da hemoglobina em regiões com malária endêmica.

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