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sábado, 1 de abril de 2017

É mentira, Terta? - Semente animal

Insetos da ordem Phasmatodea são um dos exemplos mais populares de camuflagem, com espécies que assemelham a ramos verdes ou secos de plantas - conhecidos como bichos-pau - ou a folhas, igualmente verdes ou secas - conhecidos como bichos-folha.

Mas a camuflagem não se restringe à fase móvel. Os ovos também apresentam adaptações que emulam partes de plantas - no caso, sementes.
Figura 1. Semente de mamona (Ricinus communis) com
elaiossomo em forma de carúncula. Fonte: Wikimedia
Commons
.

Figura 2. Ovos de fastamatódeos.
Fonte: Wikimedia Commons.
Muitas espécies de plantas são adaptadas de modo a terem suas sementes dispersas por formigas - são  mirmecocóricas. As sementes possuem uma estrutura carnuda conhecida como elaiossomo, rica em óleos (Fig. 1). Essas sementes são carregadas pelas formigas até os formigueiros, onde os elaiossomos são consumidos e as sementes são descartadas - ou acumuladas em câmaras do próprio formigueiro, ou em montículos do lado de fora. Assim as sementes são protegidas de predadores, de incêndios florestais e são espalhadas pela mata.
Figura 3. Estrutura do ovo de Haaniella erringtoniae,
espécie malaia. Fonte: Wikimedia Commons.

Ovos de fasmatódeos (Fig. 2, 3) apresentam uma estrutura similar, denominado capitulo, que também é rico em óleos. Pelo menos para algumas espécies, os ovos costumam ser carregados pelas formigas. Mas os detalhes da relação entre os fasmatódeos e as formigas ainda não estão completamente esclarecidos.

Figura 4. Fêmea de bicho-pau golias,
espécie australiana: Eurycnema goliath.
Fonte: Wikimedia Commons.
Stantom et al. (2015) testaram o papel dos capítulos dos ovos da espécie australiana Eurycnema goliath (Fig. 4), bicho-pau golias, removendo a estrutura dos ovos e anexando-as a esferas de poliestiremo. Os ovos (19 de 50) e as esferas (27 de 50) com o capítulo anexado foram transportados pelas formigas, enquanto os ovos (2 de 50 transportadas) e esferas (1 de 50 transportadas) sem o capítulo foram ignorados.

O grupo analisou também a composição dos óleos presentes nos capítulos dos ovos e constatou que é muito similar aos óleos nos elaiossomos das sementes mirmecocóricas, com predominância de ácido oleico, palmítico, linoleico, esteárico e γ-linoleico.

Não se sabe ainda o destino dos ovos carregados pelas formigas - se permanecem nos formigueiros e lá eclodem ou se são removidos ou mesmo se consumidos pelas formigas (embora, neste caso, a taxa não deve ser muito alta, do contrário, a característica tenderia ser eliminada evolutivamente). Há ainda o rsico de ser predado por aves granívoras - e não parece haver resistência dos ovos à passagem pelo trato digestório (Shelomi 2012).

quarta-feira, 1 de abril de 2015

É mentira, Terta? - Folha seca

É possível que poucas coisas sejam maismenos apetitosas do que uma folha seca encarquilhada, cheia de lignina (fibra indigesta), tanino (composto amargo). Presente em grande quantidade em certos ambientes - sobre o solo de florestas, em galhos, e no fundo de rios próximo a áreas florestadas - e com alguma mobilidade ao sabor dos ventos e das correntes de água, passa a ser um interessante alvo de imitação por certos organismos, permitindo a estes ao mesmo tempo: confundirem-se com o ambiente, não despertarem interesse de predadores e deslocarem-se sem chamar a atenção.

Lagartixa-satânica-cauda-de-folha. Fonte: Wired.
Um dos imitadores de folha seca que considero dos mais impressionantes é o Uroplatus phantasticus (à esquerda). Não apenas por sua aparência bastante convincente, como pelo nome - tanto o científico, quanto o popular: lagartixa-satânica-cauda-de-folha.

É um lagarto de hábitos arborícolas endêmico de Madagascar, vivendo nas florestas (no pouco que resta delas) do norte e da região central.

Seu nome popular deriva, além da óbvia referência ao formato da cauda (e não apenas dela), a seus olhos vermelhos e protuberâncias sobre eles parecendo chifres.

Peixe-folha-amazônico. Foto: Peter Pfeiffer.
O peixe-folha-amazônico, Monocirrhus polyacanthus, (à direita) não tem um nome tão impressionante. Mas sua imitação é também digna de nota. Projeção em sua mandíbula inferior parece com o pecíolo partido de uma folha caída.

Assemelha-se não apenas no aspecto, mas o peixe também nada imitando o movimento das folhas ao sabor do fluxo da água.

Sua distribuição abrange as águas claras e túrbidas dos rios da bacia Amazônica no na Bolívia, Brasil, na Colômbia, no Peru e na Venezuela.

Sapo gigante africano. Foto: Vaclav Gvozdik.
O sapo gigante africano, Amietophrynus superciliaris, (à esquerda) é encontradiço na região central e ocidental da África.

O uso de seus ossos para medicina tradicional e o desaparecimento de seu hábitat são motivos de alguma preocupação quanto a seu futuro - mesmo que sua área de distribuição seja relativamente grande.


Tetigoniídeos do gênero Mimetica. Foto: James Castner.
Sem contar a variedade de insetos: lepidópteros, fasmatódeos, mantódeos, ortópteros... Alguns imitam até danos às folhas: partes comidas por lagartas, manchas de fungos, quebra mecânica... e em diversos estágios de ressecamento.

Como tetigoniídeos do gênero apropriadamente denominado Mimetica (à esquerda).

quinta-feira, 1 de abril de 2010

É mentira, Terta?

Um dos organismos que mais admiro é o polvo imitador indomalaio (Thaumoctopus mimicus) descoberto apenas em 1998 e descrito formalmente em 2005 por Norman e Hochberg.

Vários organismos - plantas, fungos, animais, bactérias... (até vírus) -, por meio da seleção natural, adquiriram características similares a algum objeto do ambiente: parte de cenários ou outro organismos, de modo que aumentam suas chances de sobrevivência e reprodução - seja por se tornarem menos visíveis a predadores e presas, seja por se parecerem com algo ameaçador, inocente ou apetitoso. (Não apenas visualmente, mas em termos de som, bioquímica, cheiro, etc.)

O polvo imitador é capaz de quase todas essas variações. São conhecidos outros organismos, inclusive polvos (como o Macrotritopus defilippi, que nada como um linguado), a imitar o aspecto e comportamento de outros organismos; mas o 'taumato' não apenas copia o linguado (ou melhor, a solha), como peixes-leões, serpentes do mar e vários outros, adaptando-se às situações (Norman et al. 2001, Nabhitabhata & Sukhsangchan 2007). (Veja vídeo abaixo e há mais aqui.)



É um sistema dinâmico de imitação. Sobre o qual, infelizmente, ainda se sabe muito pouco. Qual será todo seu repertório? Será um comportamento totalmente inato ou aprendido em alguma extensão? (O fato de haver outras espécies, ainda que não com a mesma extensão, capazes de realizar proezas de mesma natureza sugere que haja um grande componente inato nessa habilidade.) São eles mesmos organismos venenosos?

Sim, há incorporações mais impressionantes em termos de similaridade física e comportamental. O que faz do 'taumato' realmente uma maravilha ([pedantry mode on]'thaûmatos' é grego que significa 'prodígio, milagre, maravilha'[/pedandry mode off]) são: a diversidade de organismos imitados (não apenas em número, mas nas diferenças filogenéticas, morfológicas e comportamentais) e a capacidade de alternar rapidamente de um para outro. Um Lon Chaney do mundo animal.

Referências
D. Norman, Julian Finn, Tom Tregenz, M. (2001). Dynamic mimicry in an Indo-Malayan octopus Proceedings: Biological Sciences, 268 (1478), 1755-1758 DOI: 10.1098/rspb.2001.1708

D. Norman & Hochberg, F. G. (2005): The "Mimic Octopus" (Thaumoctopus mimicus n. gen. et sp.), a new octopus from the tropical Indo-West Pacific (Cephalopoda: Octopodidae) Abstract

J. Nabhitabhata & Sukhsangchan, C. (2007). New phtographic record of mimic octopus in the gulf of Thailand Phuket mar. biol. Cent. Res. Bull. 68: 31–34 Disponível em: http://www.pmbc.go.th/webpmbc/RE/pdf/Nabhitabhata.pdf

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