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domingo, 1 de abril de 2018

É mentira, Terta? - flor que se cheire

O gênero Rafflesia, consistindo atualmente de cerca de 28 espécies conhecidas de plantas parasitas do Sudeste Asiático, foi descrito pela primeira vez em 1820 pelo botânico britânico Robert Brown - o descobridor do movimento browniano.

As Rafflesia não têm folhas, caules nem raízes verdadeiras, parasitando cipós do gênero Tetrastigma do qual suga a seiva por meio de estruturas especializadas denominadas haustórios. A espécie R. arnoldii possui uma das maiores flores do mundo, com mais de 1 metro de diâmetro (mesmo a espécie com a menor flor conhecida, R. baletei, tem um órgão reprodutivo com respeitáveis 12 cm de diâmetro).

Além da redução extrema das porções vegetativas, a alta especialização e modificação e o fato de apresentar um alto grau de transferência horizontal - cerca de 3% do genoma nuclear e 50% do mitocondrial parecem ter origem do hospedeiro - tornam sua classificação especialmente complicada. Análises genéticas indicam que pertençam à ordem Malpighiales (que inclui de violetas a maracujazeiros e outras 16 mil espécies conhecidas) e possivelmente esteja aninhada dentro da família Euphorbiaceae - que, em contraste com as Rafflesia, possuem flores bem mais modestas, entre 0,07 e 2 cm (Barkman et al. 2004; Davis & Wurdack 2004; Davis 2008).

Figura 1. Flor e botões de R. arnoldii. Fonte: Wikimedia Commons.
Mas um aspecto que talvez seja o mais distintivo seja a intensa cor vermelha salpicada de pontos brancos e o pungente cheiro de carne pútrida das flores. (Fig.1)

Beaman et al. 1988 descreveram o processo de polinização da R. pricei. As flores são visitadas por moscas verejeiras dos gênero Lucilia e Chrysomya.

As moscas, especialmente as fêmeas, visitam as flores machos, voando em seu interior aleatoriamente até encontrarem a coluna central com os estames. As moscas sobem, guiadas por uma fenda, até as anteras, que grudam massas de polén no tórax dos insetos.

Para testar o efeito das cores e do odor, Beaman et al. 1988 cobriram algumas flores fêmeas com tecido escuro - mantendo a abertura da região do diagrama - e cobrindo com folhas secas e outras com filme plástico transparente. Aparentemente tanto as cores (e os padrões visuais) e o cheiro são importantes para atrair moscas. Não devendo ser uma mera coincidência que as flores lembrem a corpos de tetrápodos terrestres (em particular mamíferos) em decomposição.

Talvez não seja a flor mais popular para se dar no dia dos namorados. E nem deveria. Lamentavelmente, as Rafflesia e espécies próximas estão seriamente ameaçadas de extinção por perda de hábitat.

sábado, 1 de abril de 2017

É mentira, Terta? - Semente animal

Insetos da ordem Phasmatodea são um dos exemplos mais populares de camuflagem, com espécies que assemelham a ramos verdes ou secos de plantas - conhecidos como bichos-pau - ou a folhas, igualmente verdes ou secas - conhecidos como bichos-folha.

Mas a camuflagem não se restringe à fase móvel. Os ovos também apresentam adaptações que emulam partes de plantas - no caso, sementes.
Figura 1. Semente de mamona (Ricinus communis) com
elaiossomo em forma de carúncula. Fonte: Wikimedia
Commons
.

Figura 2. Ovos de fastamatódeos.
Fonte: Wikimedia Commons.
Muitas espécies de plantas são adaptadas de modo a terem suas sementes dispersas por formigas - são  mirmecocóricas. As sementes possuem uma estrutura carnuda conhecida como elaiossomo, rica em óleos (Fig. 1). Essas sementes são carregadas pelas formigas até os formigueiros, onde os elaiossomos são consumidos e as sementes são descartadas - ou acumuladas em câmaras do próprio formigueiro, ou em montículos do lado de fora. Assim as sementes são protegidas de predadores, de incêndios florestais e são espalhadas pela mata.
Figura 3. Estrutura do ovo de Haaniella erringtoniae,
espécie malaia. Fonte: Wikimedia Commons.

Ovos de fasmatódeos (Fig. 2, 3) apresentam uma estrutura similar, denominado capitulo, que também é rico em óleos. Pelo menos para algumas espécies, os ovos costumam ser carregados pelas formigas. Mas os detalhes da relação entre os fasmatódeos e as formigas ainda não estão completamente esclarecidos.

Figura 4. Fêmea de bicho-pau golias,
espécie australiana: Eurycnema goliath.
Fonte: Wikimedia Commons.
Stantom et al. (2015) testaram o papel dos capítulos dos ovos da espécie australiana Eurycnema goliath (Fig. 4), bicho-pau golias, removendo a estrutura dos ovos e anexando-as a esferas de poliestiremo. Os ovos (19 de 50) e as esferas (27 de 50) com o capítulo anexado foram transportados pelas formigas, enquanto os ovos (2 de 50 transportadas) e esferas (1 de 50 transportadas) sem o capítulo foram ignorados.

O grupo analisou também a composição dos óleos presentes nos capítulos dos ovos e constatou que é muito similar aos óleos nos elaiossomos das sementes mirmecocóricas, com predominância de ácido oleico, palmítico, linoleico, esteárico e γ-linoleico.

Não se sabe ainda o destino dos ovos carregados pelas formigas - se permanecem nos formigueiros e lá eclodem ou se são removidos ou mesmo se consumidos pelas formigas (embora, neste caso, a taxa não deve ser muito alta, do contrário, a característica tenderia ser eliminada evolutivamente). Há ainda o rsico de ser predado por aves granívoras - e não parece haver resistência dos ovos à passagem pelo trato digestório (Shelomi 2012).

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