Resposta curta: NÃO MATEM OS MACACOS!
Resposta longa:
Com o recente surto de febre amarela e diversos casos reportados da doença em *macacos* na cidade de São Paulo, infelizmente os primatas vêm sendo alvo de ataques e vários foram encontrados mortos com sinais de violência e envenenamento.
A imprensa e várias autoridades sanitárias vêm alertando que tais atos de crueldade não têm fundamento uma vez que os macacos não transmitem a febre amarela. Isso é correto? Afinal, qual o papel dos primatas na doença?
Existem dois ciclos da doença. O ciclo urbano - ausente no Brasil desde 1942 - envolve a transmissão do vírus amarílico de uma pessoa infectada para outra não infectada através da picada do mosquito do gênero Aedes: Aedes aegypti e Aedes albopictus principalmente. No ciclo silvestre - endêmico e virtualmente impossível de erradicar, presente no Brasil - o vírus circula de um mamífero, especialmente macacos, mas também alguns marsupiais e roedores, para outro tendo como vetor mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes. Todos os casos no país são do tipo silvestre. Ocasionalmente, pessoas que se embrenham nas matas ou em seu entorno (trabalhadores rurais, campistas e turistas, soldados...) são picadas por um mosquito Haemagogus ou Sabethes contaminado e são infectadas. (Para uma revisão, veja Monath e Vasconcelos 2015.)
Macacos não são considerados reservatórios do vírus porque normalmente adoecem e morrem. Os reservatórios acabam sendo os próprios vetores, onde a população de vírus se mantém em um certo nível; podendo ocorrer inclusive transmissão vertical - da fêmea para seus descendentes - por infecção transovariana (o vírus acaba penetrando os ovos que se desenvolvem dentro do corpo da fêmea). Mas os macacos são considerados um dos principais amplificadores. Quando um símio é infectado, o vírus se multiplica em seu organismo, podendo infectar vários mosquitos que se alimentam de seu sangue e com cargas virais mais altas.
Não está absolutamente claro o papel da transmissão vertical na manutenção do ciclo silvestre; os especialistas tendem a dar mais importância à população de macacos de uma região. Surtos epizoóticos (grande aumento do número de casos em animais não humanos) ocorrem em intervalos de cinco a oito anos em uma região; a população de mosquitos não se altera tanto, mas é possível que o período decorra em função do tempo que leva para a população de macacos se recuperar - já que os que são afetados pela doença frequentemente morrem, diminuindo muito o número de animais na área. Na maior parte dos casos, tais surtos se deslocam por áreas contíguas, o que possivelmente se deve ao deslocamento de macacos contaminados por um novo local em que há animais não afetados.
Ocorre também casos em que o vírus de uma linhagem, subitamente, aparece em uma nova área muito distante de onde normalmente circula. Geralmente isso é interpretado pelo deslocamento de pessoas infectadas - os macacos e os mosquitos têm um deslocamento mais limitado - ou, de modo não mutuamente incompatível - pelo tráfico de animais silvestres (com indivíduos virêmicos - com vírus no sangue).
Então, os casos humanos no Brasil - e onde não há o ciclo urbano - ocorre quando um mosquito selvático que se alimentou previamente do sangue de um macaco infectado eventualmente pica uma pessoa. O macaco não transmite a febre amarela diretamente, mas por meio do vetor - os mosquitos.
A população de macacos é um fator de risco para a ocorrência de febre amarela em humanos. Hamrick et al. 2017 analisaram vários fatores: coordenadas geográficas, tipo de hábitat predominante (floresta, campo, cerrado...), temperatura, pluviosidade, intensidade de uso do solo (como áreas agrícolas), perda de dossel (desmatamento), presença de primatas não-humanos. O principal fator de risco são as chuvas: pluviosidade de 1.000 a 1.700 mm/ano aumenta o risco em mais de 7 vezes em relação a regiões com índices de chuva menores; regiões com pluviosidade superior a 2.700 mm/ano tem um risco quase 20 vezes maior de haver casos de febre amarela em humanos. Altitudes abaixo de 800 m têm um risco de cerca de 5 vezes maior do que em áreas de altitude superior a 1.800 m. Regiões com temperaturas médias superior a 20°C têm risco de 2 vezes ou mais de regiões com temperaturas abaixo de 15°C. E a diversidade de primatas na região também afeta: a presença de um gênero de macaco aumenta as chances em mais de 3 vezes em relação a áreas sem sua presença.
Isso, no entanto, de modo algum justifica a crueldade com os primatas, nem mesmo um abate humanitário. Boa parte dos primatas são espécies vulneráveis - estão em algum grau em risco de extinção -, eles têm um importante papel ecológico ao predarem pequenos artrópodos e vertebrados e dispersarem sementes; são também espécies capazes de sentir dor e têm alguma habilidade cognitiva.
Como os mosquitos selváticos têm uma limitada capacidade de deslocamento e não se aventuram para fora de áreas de mata, as pessoas podem evitar de pegar a febre amarela não se aproximando de regiões de mata em que há registros da doença. As pessoas que moram no entorno podem ser perfeitamente protegidas por meio da vacinação, que é altamente eficaz e suficientemente segura.
Assim, uma vez que existem outros meios e muito mais eficientes de se evitar a febre amarela em humanos e considerando as características biológicas e seu status de conservação, razões éticas, legais e ecológicas muito fortes contra a matança dos macacos existem.
Resumo: NÃO MATEM OS MACACOS!
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quarta-feira, 24 de janeiro de 2018
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Como é que é? - Zoológicos fazem mais mal do que bem para a conservação? O caso do gorila Harambe.
Na trilha do triste episódio do abatimento de um gorila no zoológico de Cincinnati para o resgate de um menino de quatro anos, alguns protestos foram gerados tanto em relação ao sacrifício do animal quanto, mais genericamente, aos zoológicos.
Já tratei aqui no GR a respeito das críticas aos zoos; mas volto ao tema em função de um texto que vi compartilhado no facebook.
Antes, duas observações menores. A primeira: O texto diz que há somente 700 gorilas no mundo. Parece que confundiram com o gorila das montanhas (Gorilla beringei beringei), com uma população em torno de 880 indivíduos. Mas o gorila das montanhas *não* é mantido em zoos. Programas de captura para criação em cativeiro fracassaram. A espécie de gorila que vemos nos zoos é o das planícies (Gorilla gorilla),é espécie criticamente ameaçada, mas tem uma população provavelmente muito maior do que 700 indivíduos na natureza. A subespécie ocidental (G. g. gorilla) parece ter uma população de cerca de 90.000 a 100.000 indivíduos.
A segunda: Também é dito que o gorila não agrediu o garoto nos 10 minutos em que ele ficou no habitáculo dos animais. É verdade, mas bom dizer que embora o gorila não tenha agredido o menino, estava arrastando-o pra lá e pra cá, inclusive na água, onde a criança corria o risco de se afogar. Se a decisão de abater o animal em vez de tentar sedá-lo (o argumento é que levaria tempo até o efeito se fazer notar) ou descer pessoal para tentar afastar o bicho do garoto (com o risco de assustar o animal e ferir o menino) foi a melhor, é passível de discussão. Embora meu desejo seja de que o primata não fosse morto, não tenho condição de avaliar a correção da decisão pelos elementos disponíveis.*
Agora o ponto principal. Para o autor do texto, o incidente é um exemplo de que os zoológicos são danosos à preservação dos animais. Bem o parque zoológico (e botânico) de Cincinnati é dos zoos modernos (apesar de ser o segundo mais antigo dos EUA) com ambientes enriquecidos e 'humanizados'. Um de seus programas de conservação envolve a reabilitação e liberação de manatis. Outro projeto é o de reprodução de gorilas. E, em agosto de 2015, comemorou-se o nascimento do 50o. (quinquagésimo) bebê gorila no zoo de Cincinnati desde o início do programa de reprodução da espécie em 1970. O tamanho do sucesso levou à necessidade de *desacelerar* o programa para impedir a introdução de um número grande de indivíduos geneticamente próximos, o que poderia reduzir a variabilidade genética da população de gorilas mantida nos EUA.
Quando se pensa no fechamento de zoos, pensa-se em sua substituição por santuários - basicamente áreas protegidas particulares. A comparação normalmente é feita com base em zoos precários contra santuários bem estruturados. Mas assim como há zoos em condições terríveis e zoos bem estruturados (caso do de Cincinnati), também há uma variedade de condições entre os santuários: dos com boa infraestrutura e pessoal capacitado a meros depósitos de animais.
Em uma análise das reservas privadas, Langholz & Lassoie (2001) concluem:
"Private reserves are no panacea for the world's biodiversity conservation woes. The total amount of land they currently protect is unknown, but it certainly represents less than 1% of the Earth's land area, with undetermined potential for expansion. As is the case with community-based natural resource management, integrated conservation and development projects, and other recent conservation themes, private protected areas represent but one option in the conservation toolbox. Like all tools, they are best used in situations that maximize their particular strengths while minimizing their weaknesses.
Privately owned parks will not and should not replace government parks. Likewise, governments should resist pressure to privatize existing public protected areas. Biodiversity benefits from having a core constituency within the government, a public agency capable of battling against competing ministries such as forestry, mining, fishing, agriculture, tourism, and other sectors that can disrupt park protection. Too much reliance on the private sector could erode crucial internal support provided by a fully staffed park agency. Similarly, excessive clamoring over private parks runs the risk of lowering political will to support publicly protected areas."
["Reservas particulares não são nenhuma panaceia para as misérias da conservação da biodiversidade mundial. A área total atualmente protegida por essas reservas é desconhecida, mas certamente representa menos de 1% da área total da Terra, com potencial não determinado para expansão. Como é o caso de manejo de recursos naturais centrado nas comunidades, projetos integrados de conservação e desenvolvimento e outros temas recentes de conservação, áreas protegidas particulares são apenas uma das opções na caixa de ferramentas da conservação. Como toda ferramenta, elas são mais bem utilizadas em situações que maximizem seus pontos fortes e minimizem seus pontos fracos.
Parques privados não devem e não irão substituir parques estatais. Assim, os governos devem resistir à pressão de privatizar as áreas públicas protegidas existentes. A biodiversidade se beneficia da existência de um núcleo representante permanente no governo, uma agência pública capaz de lutar contra ministérios adversários como das florestas, minas, pesca, agricultura, turismo e outros setores que podem contestar a proteção do parque. A dependência excessiva do setor privado pode corroer o apoio interno crucial dado por uma agência de parques completamente provida de recursos humanos. Igualmente, a grita excessiva em prol de parques privados leva ao risco de diminuir a vontade política em apoio a áreas públicas protegidas."]
Nota: O material genético do corpo de Harambe, o gorila morto, foi recolhido e pode ajudar no programa de reprodução da espécie.
*Upideite(31/mai/2016): O primatólogo Frans de Waal fala mais em sua página no facebook sobre a dificuldade da decisão tomada pela direção do zoo em sacrificar o gorila. via Andressa Menezes fb.
Upideite(31/mai/2016): O que a DCsfera está falando sobre o assunto?
31.mai.2016 Papo de Primata: Quem será responsabilizado pela morte do gorila Harambe?
02.jun.2016 Canal do Pirula: O gorila e o dilema dos zoológicos (vídeo, não vi)
Upideite(31/mai/2016): Yara de Melo Barros, do Parque das Aves, também fala sobre o episódio, sobre as dificuldades da decisão tomada e da importância dos zoo na conservação dos gorilas. via @discutindoeco tw.
Já tratei aqui no GR a respeito das críticas aos zoos; mas volto ao tema em função de um texto que vi compartilhado no facebook.
Antes, duas observações menores. A primeira: O texto diz que há somente 700 gorilas no mundo. Parece que confundiram com o gorila das montanhas (Gorilla beringei beringei), com uma população em torno de 880 indivíduos. Mas o gorila das montanhas *não* é mantido em zoos. Programas de captura para criação em cativeiro fracassaram. A espécie de gorila que vemos nos zoos é o das planícies (Gorilla gorilla),
A segunda: Também é dito que o gorila não agrediu o garoto nos 10 minutos em que ele ficou no habitáculo dos animais. É verdade, mas bom dizer que embora o gorila não tenha agredido o menino, estava arrastando-o pra lá e pra cá, inclusive na água, onde a criança corria o risco de se afogar. Se a decisão de abater o animal em vez de tentar sedá-lo (o argumento é que levaria tempo até o efeito se fazer notar) ou descer pessoal para tentar afastar o bicho do garoto (com o risco de assustar o animal e ferir o menino) foi a melhor, é passível de discussão. Embora meu desejo seja de que o primata não fosse morto, não tenho condição de avaliar a correção da decisão pelos elementos disponíveis.*
Agora o ponto principal. Para o autor do texto, o incidente é um exemplo de que os zoológicos são danosos à preservação dos animais. Bem o parque zoológico (e botânico) de Cincinnati é dos zoos modernos (apesar de ser o segundo mais antigo dos EUA) com ambientes enriquecidos e 'humanizados'. Um de seus programas de conservação envolve a reabilitação e liberação de manatis. Outro projeto é o de reprodução de gorilas. E, em agosto de 2015, comemorou-se o nascimento do 50o. (quinquagésimo) bebê gorila no zoo de Cincinnati desde o início do programa de reprodução da espécie em 1970. O tamanho do sucesso levou à necessidade de *desacelerar* o programa para impedir a introdução de um número grande de indivíduos geneticamente próximos, o que poderia reduzir a variabilidade genética da população de gorilas mantida nos EUA.
Quando se pensa no fechamento de zoos, pensa-se em sua substituição por santuários - basicamente áreas protegidas particulares. A comparação normalmente é feita com base em zoos precários contra santuários bem estruturados. Mas assim como há zoos em condições terríveis e zoos bem estruturados (caso do de Cincinnati), também há uma variedade de condições entre os santuários: dos com boa infraestrutura e pessoal capacitado a meros depósitos de animais.
Em uma análise das reservas privadas, Langholz & Lassoie (2001) concluem:
"Private reserves are no panacea for the world's biodiversity conservation woes. The total amount of land they currently protect is unknown, but it certainly represents less than 1% of the Earth's land area, with undetermined potential for expansion. As is the case with community-based natural resource management, integrated conservation and development projects, and other recent conservation themes, private protected areas represent but one option in the conservation toolbox. Like all tools, they are best used in situations that maximize their particular strengths while minimizing their weaknesses.
Privately owned parks will not and should not replace government parks. Likewise, governments should resist pressure to privatize existing public protected areas. Biodiversity benefits from having a core constituency within the government, a public agency capable of battling against competing ministries such as forestry, mining, fishing, agriculture, tourism, and other sectors that can disrupt park protection. Too much reliance on the private sector could erode crucial internal support provided by a fully staffed park agency. Similarly, excessive clamoring over private parks runs the risk of lowering political will to support publicly protected areas."
["Reservas particulares não são nenhuma panaceia para as misérias da conservação da biodiversidade mundial. A área total atualmente protegida por essas reservas é desconhecida, mas certamente representa menos de 1% da área total da Terra, com potencial não determinado para expansão. Como é o caso de manejo de recursos naturais centrado nas comunidades, projetos integrados de conservação e desenvolvimento e outros temas recentes de conservação, áreas protegidas particulares são apenas uma das opções na caixa de ferramentas da conservação. Como toda ferramenta, elas são mais bem utilizadas em situações que maximizem seus pontos fortes e minimizem seus pontos fracos.
Parques privados não devem e não irão substituir parques estatais. Assim, os governos devem resistir à pressão de privatizar as áreas públicas protegidas existentes. A biodiversidade se beneficia da existência de um núcleo representante permanente no governo, uma agência pública capaz de lutar contra ministérios adversários como das florestas, minas, pesca, agricultura, turismo e outros setores que podem contestar a proteção do parque. A dependência excessiva do setor privado pode corroer o apoio interno crucial dado por uma agência de parques completamente provida de recursos humanos. Igualmente, a grita excessiva em prol de parques privados leva ao risco de diminuir a vontade política em apoio a áreas públicas protegidas."]
Nota: O material genético do corpo de Harambe, o gorila morto, foi recolhido e pode ajudar no programa de reprodução da espécie.
*Upideite(31/mai/2016): O primatólogo Frans de Waal fala mais em sua página no facebook sobre a dificuldade da decisão tomada pela direção do zoo em sacrificar o gorila. via Andressa Menezes fb.
Upideite(31/mai/2016): O que a DCsfera está falando sobre o assunto?
31.mai.2016 Papo de Primata: Quem será responsabilizado pela morte do gorila Harambe?
02.jun.2016 Canal do Pirula: O gorila e o dilema dos zoológicos (vídeo, não vi)
Upideite(31/mai/2016): Yara de Melo Barros, do Parque das Aves, também fala sobre o episódio, sobre as dificuldades da decisão tomada e da importância dos zoo na conservação dos gorilas. via @discutindoeco tw.
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