Lives de Ciência

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terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Da alegada edição genética de bebês chineses

Manterei aqui uma lista de textos de análise pela DCsfera sobre o caso da edição gênica de embriões humanos pela tecnologia CRISPR por um cientista chinês - em que pelo menos dois foram implantados e deram origem a dois bebês gêmeos.

Lygia da Veiga Pereira. (O Globo). 27/nov/18. O limite entre ousadia e irresponsabilidade.
Mayana Zatz. (Rádio USP) 28/nov/18. Arriscada, edição gênica de bebês chineses desconsiderou ética (áudio)
(Dispersciência) 29/nov/18. Bebês modificados geneticamente/DisperDebate. (vídeo)
Ed Yong. (The Atlantic) 03/dez/18. The CRISPR baby scandal gets worse by the day
Pirula. (Canal do Pirula) 04/dez/18. CRISPR/Cas9 e os bebês geneticamente modificados na China (vídeo)
Dragões de Garagem 15/jan/19. Dragões de Garagem #148 CRISPR.
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Eu recomendo particularmente o artigo de Ed Yong, que compila os principais pontos problemáticos do feito.

(A lista será atualizada à medida que eu souber de mais textos.)

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Cronologia
.David Cyranoski & Heidi Ledford. Nature. 26/nov/18. Genome-edited baby claim provokes international outcry. He Jiankui alega haver editado, pela tecnologia CRISPR, o genoma de embrião desativando o gene CCR5 em duas gêmeas.
.David Cyranoski. Nature. 28/nov/18. CRISPR-baby scientist fails to satisfy critics. He Jiankui apresenta os dados de seu experimento. Cientistas tendem a acreditar que o procedimento foi realizado, mas têm dúvidas de se a técnica foi corretamente aplicada e, principalmente, se os princípios éticos foram observados.
.Elsie Chen & Paul Mozur. New York Times. 28/dez/2018. Chinese Scientist Who Claimed to Make Genetically Edited Babies Is Kept Under Guard. Aparentemente, He é mantido em prisão domiciliar na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China.
.David Cyranoski. Nature. 22/jan/2019. CRISPR-baby scientist fired by university. Um comitê avaliou que He violou legislação chinesa e o pesquisador foi demitido da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China. Não sabemos se ele foi libertado, mas deve sofrer um processo pelo governo chinês.
.Emiliano Rodríguez Mega. Nature. 17/abr/2019. US university clears three scientists in CRISPR-babies probe. A Universidade de Stanford investigou três pesquisadores, cujos nomes não foram revelados, que interagiram com He e considerou que não cometeram nenhum ato ilícito.
.Sara Reardon. Nature. 03/jun/19. Gene edits to ‘CRISPR babies’ might have shortened their life expectancy. Estudo indica que a alteração que He Jiankui alega haver promovido no genoma das gêmeas pode ter efeito deletério, diminuindo a expectativa de vida.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Epigenética. "Cesse tudo o que a musa antiga canta"?

Com um certo grau de exagero é possível que a epigenética esteja para a genética como a mecânica quântica está para a física clássica. Nem tanto pela alteração da compreensão de aspectos fundamentais do funcionamento do Universo (ou de parte dele) - que, sim, é necessária -, quanto pelos abusos perpretados atribuindo-se uma série de fenômenos não bem estabelecidos (ou bem estabelecidos como ausentes) por conta de um mecanismos relativamente mal compreendido - no limite, nas explorações misticóides pseudocientíficas.

Mesmo especialistas podem ser tentados a cair em exageros a respeito do quão revolucionária à compreensão da evolução da a epigenética seria.

Um artigo de divulgação do Prof. Kevin Laland, originalmente publicado no site Aeon, foi recentemente traduzido para a Folha de S. Paulo. A versão brazuca dá um título diferente e amplamente enganador. O título original: "Science in flux: is a revolution brewing in evolutionary theory?" ["Ciência em transformação: estaria uma revolução sendo gestada na teoria da evolução?"] é mais comedido (a começar pela interrogação - ainda que, no texto, o autor procure responder positivamente) do que a afirmação do título da tradução: "Descobertas contestam hegemonia de Darwin e recuperam Lamarck".

O próprio autor, embora faça menção a Lamarck, reconhece que não dá pra cravar que a herança epigenética seja uma herança de caracteres adquiridos como teria sido proposta pelo naturalista francês: "Biologists dispute whether epigenetic inheritance is truly Lamarckian or only superficially resembles it [...]" ["Biólogos argumentam discutem se a herança genética é verdadeiramente lamarquiana ou apenas superficialmente se parece com ela [...]", o que é longe de "recuperar Lamarck" como o título brazuca diz. Cabe salientar que o mecanismos de herança é totalmente secundário tanto na teoria evolutiva de Lamarck quanto na de Darwin - que aceitava a possibilidade da ocorrência de herança de características adquiridas - de modo que é muita forçação de barra contrapor os dois gigantes com base nos achados sobre a epigenética.

Mas, afinal, o que é a epigenética?

O termo é ambíguo e com várias definições, de modo que o potencial de confusão é ainda maior, mas, grosso modo, pode-se referir a uma camada de informação além da codificada no ADN que permite que células e organismos com o mesmo conteúdo genético exibam características diferentes.

Na origem, o biólogo britânico Conrad H. Waddington, estudando a diferenciação celular (epigênese), definiu a epigenética, na década de 1940, como "estudo dos mecanismos causais pelos quais os genes de um genótipo levam a seus efeitos fenotípicos" (Haig 2004). Na década seguinte, o geneticista americano David L. Nanney redifiniu mecanismos epigenéticos como aqueles que permitem a perpetuação de diferença fenotípicas na ausência de diferenças na sequência de ADN, uma "persistência homeostática" não-genética (Greally 2018).

No uso mais recente - que emergiu nos últimos 30 a 40 anos -, a epigenética pode ser definida como o ramo da biologia que estuda fenômenos de alterações estruturais em partes dos cromossomos em resposta a fatores ambientais que registra, sinaliza ou perpetua alterações no estado de atividade de um ou mais genes [Bird 2007] - tais alterações podem ser transmitidas ao longo de várias gerações.

O geneticista médico americano John M. Greally (2018) propôs a seguinte lista de conferência para se decidir pelo uso do termo "epigenética" e correlatos:
"1) Você quer usar o termo 'epigenética' para descrever a memória celular, homeostase persistente na ausência da perturbação original ou o efeito sobre o destino celular que não é atribuível a mudanças na sequência de ADN?
Vá em frente. Waddington e Nanney ficariam orgulhosos de você.
2) Você quer descrever um nível mais elevado de informação que existe além do genoma e instrui aos genes como e quando se ativarem ou desativarem?
Você está descrevendo a regulação de transcrição. A menos que você esteja também descrevendo a situação do primeiro ponto, você não deve chamar isso de epigenética, ainda que você ache que isso faça sua pesquisa soar mais sexy. Aplique a precisão científica e use termos como 'regulação da transcrição'.
3) Você encontrou diferenças na metilação do ADN ao comparar dois conjuntos de amostras, mas não controlou influências que podem confundir como a proporção de subtipos celulares, polimorfismo da sequência de ADN ou causação reversa. Você quer chamar isso de 'epigenético'?
Não. Você não pode.
4) Se você quer saber se é OK acrescentar geleia real a geleia de petróleo e comercializar isso como 'creme facial epigenético'?
Se você puder vender isso para os otários, vá em frente. Mas não poderemos mais ser amigos."

Qual é a da epigenética?

Os fenômenos a que Laland se refere em seu texto são todos epigenéticos do tipo 1 de Greally? Nem todos foram estudados a ponto de isolar adequadamente os fatores de confusão.

A frase do autor em que reconhece a disputa que há entre biólogos para classificar os fenômenos como lamarckianos termina com: "[...] but there is no getting away from the fact that the inheritance of acquired characteristics really does happen" ("[...] mas não há como negar o fato de que a herança de características adquiridas realmente ocorrem"). Que pode ocorrer - como herança cultural e mesmo por marcações epigenéticas - é razoavelmente bem estabelecido. Porém, o quão frequente e distribuído é esse tipo de herança entre os organismos, isto é, o quão significativo é para se clamar por revolução ou contestação de hegemonia é algo por ser estabelecido.

Um dos estudos citados por Laland, de aparente transmissão de comportamento diante de um cheiro a que os ancestrais foram expostos (Dias & Ressler 2014), sofre do problema de ausência de mecanismos conhecidos em que a exposição a um cheiro e associação a uma situação traumática possa influenciar a gametogênese - especialmente resultando em uma marcação específica (os descendentes não parecem responder do mesmo modo a estímulos diversos dos apresentados à geração original). De modo geral, vários casos propostos de herança epigenética padecem do mesmo problema (Isbel & Whitelaw 2015).

De todo modo, as enzimas que controlam as modificações estruturais nos cromossomos - isto é, as marcações epigenéticas - são codificadas por genes e estão sob controle da expressão de outros genes. O processo de transdução do sinal também envolve a ação de produtos de outros genes. (Uma pena que a expressão 'hipogenética' já seja empregada como 'desenvolvimento abaixo do normal', daria um bom trocadilho para enfatizar que as alterações epigenéticas estão em grande parte sob controle genético.)

E, independentemente disso, os fenótipos resultantes das marcações epigenéticas estarão sujeitos aos mesmos processos evolutivos dos resultantes das mutações genéticas: seleção natural, deriva, migração, seleção sexual...

Nos animais, em que as células que darão origem aos gametas são segregadas muito cedo durante o desenvolvimento (ao contrário das plantas em que virtualmente qualquer célula pode acabar dando origem a um novo indivíduo), há mais fatores complicadores para estabelecer a marcação epigenética como um fator de alto potencial evolutivo. Durante a gametogênese e nos estágios iniciais do desenvolvimento embrionário, costuma ocorrer um amplo "apagamento" das marcações, restabelecendo um estado padrão de metilação do ADN; algumas regiões, como áreas de ADN repetitivo, resistem ao apagamento, mas não está bem estabelecido que a metilação dessas áreas seja responsiva a sinais ambientais (Isbel & Whitelaw 2015).

Porém, mais do que tudo, ainda faltam exemplos de efeitos evolutivos de longo prazo.

A herança epigenética pode eventualmente se mostrar relevante e realmente provocar uma significativa modificação na compreensão da evolução biológica. Mas clamar vitória, pelo menos até o momento, parece-me ainda altamente precipitado.

domingo, 18 de setembro de 2016

Um, dois, quatro, seis, oito... a confusa vida taxonômica da dona girafa

A recente publicação do resultado de uma análise genética que concluiu pela existência de quatro espécies distintas de girafas teve uma boa repercussão - considerando que é um trabalho científico (claro que não dá pra competir com a atenção dispensada a divórcios de personalidades).

Ficando só na primeira página de resultados do Google pra "girafa quatro espécies" (sem aspas) entre sites noticiosos:
08.set.2016. Terra. Análise genética revela a existência de 4 espécies de girafas
08.set.2016 Estadão. Cientistas descobrem que existem quatro espécies de girafas
08.set.2016 Yahoo! Existem quatro espécies de girafa e não uma como se pensava
09.set.2016 Correio Braziliense. Cientistas descobrem que existem quatro espécies de girafas
12.set.2016 Superinteressante. Existem quatro espécies de girafa - e não uma só
12.set.2016 BuzzFeed. Cientistas acabaram de descobrir que existem quatro espécies diferentes de girafa

Todos destacaram a implicação que a descoberta pode ter para a conservação - sendo várias espécies com populações restritas e não uma única com diferenciações regionais, os esforços devem ser aumentados para preservar a biodiversidade; programas de reprodução em cativeiro também podem necessitar de maior atenção quanto às características genéticas dos indivíduos (e, além disso, o reconhecimento de uma nova espécie pode despertar a sanha de colecionadores de troféus de caça como anotam Zachos et al. 2013). Mas, desses seis veículos, somente o (quem diria) BuzzFeed destacou que foi um resultado na verdade já previsto.

A culpa da ênfase no ineditismo do achado da multiplicidade de espécies parece se dever ao press release da Cell, cujo resumo é: "Up until now, scientists had only recognized a single species of giraffe made up of several subspecies. But, according to the most inclusive genetic analysis of giraffe relationships to date, giraffes actually aren't one species, but four. The unexpected findings highlight the urgent need for further study of the four genetically isolated species and for greater conservation efforts for the world's tallest mammal, the researchers say." ["Até hoje, os cientistas têm reconhecido apenas uma única espécie de girafa composta de várias subespécies. Mas, de acordo com a análise genética mais abrangente até agora das relações das girafas, elas na verdade não são uma espécie, mas quadro. O achando inesperado destaca a necessidade urgente de se estudar mais a fundo as quadro espécies geneticamente isoladas e de maiores esforços de conservação do mamífero mais alto do mundo, dizem os pesquisadores."] (grifos meus.)

O fato é que o estudo de 2007 de Brown e cols. (citado pelo artigo de Fennessy et al. 2016, que ganhou as manchetes agora) com genes mitocondriais e regiões de microssatélites do ADN nuclear (pequenas sequências repetitivas e que podem variar bastante de indivíduo para indivíduo ou de população para população, servindo de marcadores genéticos) havia identificado 5 linhagens que se constituíam em populações discretas - isto é, com fluxo gênico muito restrito, se não ausente. Padrões de pelagem ou diferenças no tempo de reprodução poderiam levar a acasalamentos preferenciais na ausência de barreiras físicas. Groves & Grubb 2011 listam oito espécies. O trabalho de Fennessy et al. 2016 utilizou também genes mitocondriais, mas também nucleares, e basicamente corroborou os achados de Brown e cia., mas confirmou apenas quatro - e talvez uma quinta. Se Fennessy e cia.incluíram sequências intrônicas de genes nucleares e amostras da girafa núbia; a amostragem de Brown e colegas foi maior: 266 contra 105 nuclear e 190 mitocondrial de Fennessy et al.

A história taxonômica da girafa é bastante convoluta conforme resumida por Seymour 2012 e Peterson 2015. Inicialmente, foi classificado por Lineu em 1758 como Cervus camelopardalis baseado em uma descrição feita pelo viajante e naturalista francês Pierre Belon de um exemplar em cativeiro que viu no Cairo, Egito, por volta de 1547*. Sim, Lineu agrupou  a girafa junto com outros cervídeos, como o veado vermelho. Coube ao zoólogo francês Mathurin Jacques Brisson, em 1762, atribuir um gênero próprio à girafa: Giraffa. (Brisson nomeou a espécie G. giraffa. Só em 1848 corrigiram para G. camelopardalis seguindo as regras da nomenclatura zoológica - quando uma espécie ganha um próprio gênero ou é transferido para outro, o epíteto específico válido mais antigo é conservado)  O vice-rei do Egito sob o Império Otomano, Muhammad Ali (não confundir com um famoso boxeador), havia enviado de presente três girafas para a Europa (as últimas girafas vivas na Europa eram do tempo da Florença de Medici, presentadas ao todo poderoso florentino por volta de 1486); uma fêmea foi dada para o Carlos X da França (os outros foram parar nas cortes de Jorge IV do Reino Unido e Francisco I da Áustria). A 'le bel animal du roi' ('belo animal do rei', como a chamou Saint-Hilaire) foi acompanhada em seu deslocamento de Marselha para Paris em 1827 por ninguém menos que Geoffroy Saint-Hilaire. Comparando o animal com peles preservadas num museu parisiense provenientes da África do Sul, o naturalista francês concluiu pela existência de duas espécies de girafas. Outros, no entanto, como o zoólogo sueco Carl Jakob Sundevall, consideravam que eram apenas duas raças ou subespécies - a diferença seria apenas do comprimento do pelo. A disputa entre um ou duas espécies adentrou o século 20 e prosseguiu. A partir de 1971, com a revisão da zoóloga canadense Anne Innis Dagg, passou a predominar o consenso pela monotipia do gênero Giraffa. Seymour, em sua tese de 2001 (cujos resultados seriam publicados em 2007), concluiu pela análise morfológica, de padrões de pelagem e dados moleculares a partir de espécimes de museu que seriam duas espécies.

O fato de a maioria dos zoólogos classificarem como uma única espécie não deve mascarar o reconhecimento de uma diversidade interna - pelas mais de seis (até 27) denominações específicas e subespecíficas propostas ao longo do tempo.

Um ponto que cabe ressaltar também é que não parece haver isolamento reprodutivo absoluto entre as populações das espécies propostas. Em cativeiro, certamente há intercruzamento com a produção de híbridos viáveis (fato notado por Fennessy et al. 2016 e listado como motivo para considerar o resultado deles como "inesperado"). Há também registros de híbridos na natureza. Lönnig 2008 cita vários exemplos. Isso não inviabiliza a existência de espécies distintas, mas depende da definição de espécie adotada - a mais restritiva do chamado "conceito biológico de espécie" (que se baseia em um isolamento reprodutivo completo) certamente não cabe. O fluxo, no entanto, parece ser baixo o suficiente para que as populações sejam geneticamente distintas. O fato de Fennessy et al. 2016 terem utilizados sequências nucleares intrônicas (partes dos genes que normalmente não contribuem com a sequência das proteínas codificadas) diminui a possibilidade de as diferenças detectadas no estudo deverem-se diretamente à seleção diferencial dos genes estudados - embora não elimine de todo, poderia se dar por efeito carona: isto é, regiões mais ou menos neutras são mantidas distintas entre as populações por causa de regiões não-neutras (selecionadas positiva ou negativamente) adjacentes. Os autores, no entanto, não discutem a seleção no estudo.

Fennessy et al. 2016 estimam o tempo de divergência entre espécies entre 1,25 e 2 milhões de anos atrás, mas também não discutem as causas dessa divergência. O estabelecimento das savanas no leste da África dá se entre 8 e 5 milhões de anos atrás; com três breves períodos úmidos (entre 2,7 e 2,5 maa; 1,9 e 1,7 maa e 1,1 e 0,9 maa) interrompendo a tendência geral à aridificação. Embora não seja necessário um fator externo para a especiação, é tentador associar a diversificação intra e/ou interespecífica da girafa a essa alteração paleoclimática: que pode alterar a distribuição das florestas e rios - tanto modificando a disponibilidade de recursos quanto podendo isolar populações.

Veja também
22.dez.2007. GrrlScientist. Living the Scientific Life. There Are More Giraffe Species Than You Think.
13.set.2016 Reinaldo J. Lopes. Darwin e Deus. As quatro girafas. (Cuidado! Contém paywall poroso.)
19.set.2016 Cientistas Feministas. E aí, e as girafas?
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Fonte: Staxx
*Belon 1554 descreveu mais ou menos assim: "Vi um animal no castelo de Cairo, chamado comumente de Zurnapa, os antigos romanos chamavam-no de Camelopardalis, nome composto de leopardo e camelo, por ser salpicado de manchas como o primeiro e ter um longo pescoço como o último. É um animal de bela forma, delicado como um carneiro, e mais manso que qualquer besta selvagem: sua cabeça é quase igual a de um veado, exceto pelo tamanho; sobre ela há dois pequenos cornos, cerca de um pé de comprimento, coberto de pelos; os do macho mais longo do que os da fêmea: ambos têm suas orelhas tão grandes quanto as de uma vaca; a língua é preta e similar a de um boi; a cauda é longa, reta e fina; sua crina é solta e 'rond' ['redonda'?]; suas pernas são finas e longas, altas na frente e se rebaixam atrás; seus pés são como as do boi; sua cauda desce quase até seu casco; é cilíndrica e seus pelos são três vezes mais espessos do que os de um cavalo; seu corpo é bastante esguio, e a cor dos pelos é branco e vermelho; sua maneira de lutar é como a dos camelos;  quando corre, suas duas pernas dianteiras vão juntas; ele se deita com a barriga no chão, e tem uma substância calosa em seu peito e articulações como aquele animal. Quando pasta, é obrigado a espalhar bem suas pernas dianteiras, e mesmo assim alimenta-se com grande dificuldade; então devemos imaginar que prefira as folhas das árvores para se alimentar do que pastar nos campos, especialmente porque seu pescoço é muito comprido e pode atingir a altura de uma lança."

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Como é que é? - Sexo não tem a ver com o tipo de brinquedo?

Parece haver uma opinião (geralmente não técnica) crescente - embora possivelmente ainda minoritária (não vi dados de pesquisa de opinião para sustentar isso, apenas de modo indireto baseio-me nas práticas comerciais predominantes como um indicador da cultura prevalente - o que é sujeito a erros, claro) - de que os tipos de brinquedos (carrinhos e revólver vs. bonecas e eletrodomésticos em miniatura) preferidos por meninos e meninas são produtos meramente de fatores culturais.

Por exemplo:
["Acha que a astromancia é zoada? Alguns pais acreditam que a forma dos genitais de um bebê prediz seu brinquedo, passatempos e cores preferidos."]

Figura 1. Fluxograma que se baseia na ideia de não se fazer distinção de sexo/gênero quanto a brinquedos infantis. ["Como saber se um brinquedo é de menino ou de menina. O brinquedo é acionado com os genitais? Sim. Não é para crianças. Não. É tanto para meninos quanto para meninas."] Fonte: Dueling Analogs.

Pessoalmente sou simpático à ideia de que na criação (dos próprios filhos) evite-se a distinção entre tipos de brinquedos.

Agora, isso não quer dizer que não haja nenhuma tendência inata de preferência por parte das crianças a certos tipos de brinquedos de acordo com seu sexo.

Ao contrário, há vários indícios de que *existe* essa preferência inata.

Meninos com comportamento mais associado a garotas (usar roupas femininas, socializar-se mais com garotas, comentar sobre a roupa da mãe, verbalizar que gostaria de haver nascido menina, ter a mãe como modelo de vida,uso de joias e cosméticos, brincar de casinha) e meninos com comportamento mais associado a garotos (brincadeira física, socializar-se mais com outros meninos, prefere o pai ou gosta igualmente de ambos) foram acompanhados ao longo de 7 (sete) anos. No primeiro grupo, 17% tinham como brinquedo preferido boneca do tipo feminina; no segundo grupo: 0%. (Green 1976.)

Em primatas como chimpanzés e macacos verdes, cativos e selvagens, é detectada a preferência dos filhotes por brinquedos de acordo com o sexo similar a de crianças humanas.

Meninas com hiperplasia adrenal congênita (CAH) são expostas tanto no útero como após o nascimento a níveis mais elevados de androgênios do que as meninas sem essa condição. Garotas com CAH têm maior tendência a brincarem com brinquedos associados a meninos e menos com os associados a meninas. Garotos com CAH não apresentam alterações em relação aos meninos sem a condição. (Barenbaun & Hines 1992.)

Alexander (2003) defende que essa preferência diferencial envolve dimorfismo sexual do sistema visual. Para os homens, com o sistema visual ligado às células-M, envolvidas no rastreamento de movimentos, mais desenvolvido (selecionado em função das atividades de caça, reservadas primordialmente aos primatas do sexo masculino): brinquedos associados a meninos, como carrinhos e bola, estimulariam tal via. Já para as mulheres, com o sistema visual sendo ligado mais às células-P, envolvidas com cores e formas (que ajudariam na tarefa de forrageamento de plantas e frutos e cuidado de crianças- como reconhecimento de expressões faciais): brinquedos associados a meninas, como bonecas coloridas e cheias de expressões, estimulariam essa via.

Incorreríamos na falácia naturalista se, constatada essa base biológica inata, insistíssemos que seria errado meninos brincarem com bonecas e meninas com carrinhos. Mas, dado que existem esses indícios, não faz sentido simplesmente ignorá-los para sustentar a tese de que as diferenças são meramente culturais.

Não se trata aqui tampouco de negar o peso cultural nessa preferência. E sim de reconhecer, como em tantas outras características dos seres vivos em geral e dos humanos em particular, uma interação entre fatores genéticos e ambientais (incluindo o modo de criação e socialização).

sábado, 18 de maio de 2013

Her eyes are a blue million miles - A garota chinesa de olhos azuis

Plínio, o Velho, em seu "Naturalis Historia", descreveu os seros, habitantes da Sérica, região himalaia que hoje pertence à China, baseado em relato do embaixador Rachias da Taprobana ao imperador Cláudio: "Eles informaram-nos também que o lado de sua ilha que fica defronte à Índia tem um comprimento de dez estádios e se estende na direção sudeste e que além das Montanhas Emodianas [Himalaias] estão os Seros, de quem tomaram conhecimento com o propósito de comércio; e o pai de Rachias tem visitado com frequência suas terras e os seros sempre vêm ao seu encontro quando de sua chegada. Esse povo, dizem, excedem o homem ordinário em altura, têm cabelos avermelhados e olhos azuis, e um produzem um tipo rústico de ruído ao falar, não tendo nenhuma língua própria para o propósito de comunicar seus pensamentos." (Cap. 24, Taprobana).

Não há uma confirmação da acuidade desses relatos. Mas há registros de chineses han (e não caucasianos como parecem os seros descritos por Plínio) de olhos azuis. Um caso recente relatado na imprensa é de uma garotinha de 11 anos - encontrei referências apenas em sítios web em português e um em espanhol, nenhum na imprensa anglófona ou de outras línguas (nem mesmo na agência citada como fonte da notícia, Barcroft Media).

Diz a matéria no blog Page Not Found:
"A menina nasceu com olhos azuis. [...] Os pais têm olhos castanhos e não há qualquer registro na família de olhos azuis. / A cor da pele e dos cabelos de Chen é a mesma de outras crianças chinesas. Mas a chinesinha, que é surda, tem grande dificuldade de fazer amizades por causa da cor dos olhos. [...] Segundo eles [os médicos que examinaram a garota], a paciente enxerga normalmente mas o fato de ela ter olhos azuis continua sem explicação, de acordo com a agência Barcroft Media."

O relato soa crível - e é tristíssimo o registro da reação dos colegas de escola e dos vizinhos - e as fotos não aparentam manipulação.

É possível que seja o caso da Síndrome de Waardenburg (WS). Trata-se de uma alteração genética rara: acomete cerca de 1 a cada 40.000* nascidos vivos, associada a distúrbio pigmentar e deficiênciaperda auditiva causada por deficiência na migração de células da crista neural durante o desenvolvimento embrionário e na síntese da melanina. Há quatro tipos descritos: nos tipos I, III e IV, ocorre o deslocamento do canto interno do olho (dystopia canthorum), característica ausente no tipo II. No tipo III, há anomalias musculoesquelética nos membros superiores e retardo mental com microcefalia; no tipo IV, há um megacolo aganglionar. Os tipos I e III estão associados a mutações no gene PAX3 - que codifica uma proteína que se liga ao ADN regulando a expressão gênica durante o desenvolvimento; o tipo II, à mutação no gene da microftalmia MITF, a proteína é um fator de transcrição que controla o desenvolvimento de osteoclasto e de melanócitos; o do tipo IV, a mutações em genes da endotelina-3, que controlam o desenvolvimento de células neurais e neurônios entéricos. (Singh et al. 2006, Read & Newton 1997.)

Pelas fotos, a garota não apresenta o deslocamento do canto do olho, parece ser, assim, WS-2. Para o diagnóstico de casos isolados de WS-2, o indivíduo deve apresentar pelo menos duas de quatro características:  (1) perda auditiva sensorineural congênita; (2) distúrbio pigmentar da íris; (3) distúrbio pigmentar do cabelo e (4) parente de primeiro ou segundo grau com duas ou mais das características anteriores (1-3). (Singh et al. 2006, Tassabehji et al. 1994.)

A menina parece ter as características 1 e 2; pela descrição e pela foto, o cabelo é preto sem alteração (assim, o item 3 não se aplica) e não há caso registrado na família (o item 4 também não se aplica).

As células das cristas neurais dão origem a diversas células. Entre elas, as células pigmentares - o que explica os olhos azuis -; e células nervosas - o que explica a surdez.

Um outro relato, mais antigo, envolve um menino, também chinês. Mas há elementos que tornam o caso mais suspeito - como a alegação de que os olhos do garoto brilham no escuro e que ele é capaz de enxergar no escuro. De todo modo, não há uma confirmação de que seja uma história verídica.

Via: ciencialist.

Referências
Read., A.P. & Newton, V.E. 1997. Waardenburg syndrome. J. Med. Genet. 34: 656-665.

Singh I, Maharjan M, Gautam DK, Mehar R, Gathwala G. 2006 Waardenburg syndrome Type II. Kathmandu University Medical Journal. 4(4): 506-9

Tassabehji, M.; Newton, V.E. & Read, A. P. 1994. Waardenburg syndrome type 2 caused by mutations in the human microphthalmia (MITF) gene. Nature Genetics 8, 251 - 255

*Upideite(19/mai/2013): Em Singh et al. 2006 o número é de 1/4.000, mas, apesar de ser mais recente, o valor deve ser mesmo de cerca de 1/42.000 como indicado por Read & Newton 1997 - deve ter havido um erro que suprimiu um '0' no número apresentado por Singh et al. 2006.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Filhos brancos de pais negros: o que Mendel tem a nos dizer?

Mais um caso de filho branco (no caso, uma filha) de pais negros.

G1: Filha com pele branca e olhos azuis de casal negro intriga especialistas. "Nascida em Londres, 'Nmachi' é filha de pais nigerianos. Albinismo e mutação genética exclusiva são explicações possíveis."

Nem tão remotamente no tempo, outros casos foram noticiados. Ano passado houve um caso no Rio de Janeiro.

G1: Bebê branco de pais negros será registrado na próxima segunda-feira. "Segundo casal, eles estavam aguardando resultado do exame de DNA. Criança continuará a se chamar Gabriel, em homenagem ao anjo."

(Um dado sociológico curioso é a associação de anjos com bebês de pele clara...)

No caso brasileiro é facilmente explicável pela genética mendeliana - no Brasil há uma miscigenação relativamente intensa, como a cor da pele é uma característica multigênica aditiva, há uma probabilidade baixa, mas não nula de que um casal de pele escura gere filhos de pele clara (como a cor dos olhos e do cabelo também dependem da melanina como a cor da pele, são características interligadas).

Considere um único loco gênico: um casal heterozigótico Aa x Aa. Considerando-se uma herança dominante: 3/4 de chance de gerar um filho A_ (negro) e 1/4 de gerar um filho branco (aa). Se for em dois locos: AaBb x AaBb: 1/16 chance de gerar um filho branco (aabb). As chances são dadas pela fórmula: (1/4)^n, em que n é o número de locos, de que o filho herde somente alelos recessivos (podemos afrouxar a restrição - desde que um número baixo de alelos sejam dominantes, o efeito total será pequeno, assim a probabilidade aumenta um pouco).

Isso explica tanto a raridade do evento como sua ocorrência esporádica.

Na Nigéria aparentemente a miscigenação não é tão intensa. Mas ainda assim não causa surpresas - surpresa seria se a taxa fosse elevada (maior do que a que seria esperada pela genética e pelas leis da probabilidade).

O bebê nigeriano não aparenta ser albino - seu cabelo não é totalmente branco, mas loiro, o que indica um certo nível de melanina. Mutação genética exclusiva pode ocorrer, mas não é uma explicação necessária (ela se torna viável se a probabilidade de ocorrer a herança de um conjunto grande de alelos recessivos for muito mais baixa do que a taxa de mutação no loco adequado).

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