Lives de Ciência

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sábado, 21 de janeiro de 2023

Divagação Científica - divulgando ciências cientificamente 40: efeito de comunicação estática e dinâmica em mídias sociais

Habibi SA & Salim L 2021. Static vs. dynamic methods of delivery for science communication: A critical analysis of user engagement with science on social media. PLoS ONE 16(3): e0248507. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0248507

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As autoras analisaram o efeito de estratégias de comunicação dinâmica e estática na interação de postagens de conteúdos científicos no Instagram e Tik Tok.

No Tik Tok, foram avaliadas as interações com três tipos de vídeos, totalizando 40 publicações:
- vídeos longos (40 a 60 segundos de duração) do tipo aula, em que conceitos científicos específicos eram explicado primariamente por meio da fala;
- vídeo curtos (~15 segundos de duração) do tipo aula, com explicações dadas como fatos rápidos;
- vídeos longos (40 a 60 s) experimentais, como demonstrações práticas e série de passos de experimentos.

No Instagram, foram dois tipos de publicações, totalizando 20 postagens:
- imagens estáticas: fotos dos pesquisadores no laboratório;
- vídeos dinâmicos: experimentos executados em ritmo rápido fora do ambiente de laboratório.

Ambos os tipos são acompanhados de descrições de 200 a 400 palavras com mais detalhes sobre o tema científico relacionado.

Os parâmetros de interação levantados foram: total de visualizações por postagem/vídeo; número de curtidas; número de comentários; número de compartilhamentos; porcentagem da duração total do vídeo assistida; número de salvar da postagem.

Tabela 1. Resultados obtidos de parâmetros de interação de publicações por tipo de conteúdo de ciências no Tik Tok e Instagram. (* - significativamente maior a alfa=0,05 do que os demais valores no mesmo grupo: mesmo parâmetro na mesma plataforma.)

Plataforma Tipo de conteúdo Visualizações totais (média)
Curtidas
(% de visualizações totais)
Comentários
(% de visualizações totais)
Compartilhamentos
(% de visualizações totais)
Tempo de visualização
(média de % da duração total)
Salvar
(% de visualizações totais)
Tik Tok aula longa 29576 9,86 0,39* 0,16 28,10 nd
aula curta 55914 10,74 0,22 0,16 68,85* nd
experimental longo 248819* 13,04 0,20 0,33* 48,62 nd
Instagram estático 14834 7,56 0,32 0,24 nd 0,36
dinâmico 14598 9,04 0,72 2,27* nd 1,87*

No Tik Tok:
- caso o objetivo seja alcançar o maior número de pessoas, vídeos experimentais têm mais chances de obter resultados melhores;
- para uma visualização mais completa, vídeos curtos de até 15 segundos têm maior retenção;
- para uma maior interação com comentários, vídeos de aulas mais longos de cerca de 40 a 60 segundos;

No Instagram:
- postagens de vídeos têm melhores resultados, em particular, em termos de compartilhamento.

Entre Tik Tok e Instagram:
- os vídeos têm mais alcance no Tik Tok, mas maior interação no Instagram.

limitações:
- as publicações foram feitas em perfis preexistentes (a conta no Instagram tinha já cerca de 2 anos e a do Tik Tok, 5 meses, no início da avaliação);
- o estudo foi feito durante o auge da pandemia de covid-19, em 2020, o que pode ter levado a um número excepcionalmente grande de acessos;
- os algoritmos de entrega das plataformas são diferentes, os perfis dos públicos não são necessariamente iguais

segunda-feira, 15 de março de 2021

Divulgação Científica em Mídias Sociais

 No dia 04.fev.2021, fiz a apresentação online abaixo para alunos da disciplina de "Divulgação Científica: Princípios e Práticas", do Programa de Pós-graduação em Biodiversidade de Ambientes Costeiros, do câmpus Litoral Paulista, da Unesp, ministrada pelos professores Odair José Garcia de Almeida e Valdir Lamim Guedes Junior, a quem agradeço o convite para a palestra.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Normas sociais nas ciências? E daí?

O jornalista especializado em ciências, saúde e viagens Chris Woolston escreveu para a seção de notícias da Nature sobre uma discussão iniciada há pouco mais de um mês.

O geneticista Yoav Gilad publicou no twitter sua reanálise dos dados publicados em um artigo da PNAS contestando as conclusões do estudo.
A isso seguiu-se toda uma discussão. Woolston crê que isso éseja uma demonstração de como as mídias sociais estão mudando o modo como a ciência é discutida. Há três anos, sobre um artigo reportando a capacidade de bactérias de usarem arsênio, a microbióloga Rosie Redfield fez boa parte da discussãocrítica em seu blogue. Para mim, então, a participação das mídias sociais no (post-publication) peer review é uma notícia um tanto velha.

O que me chamou a atenção foi a declaração de um dos co-autores do artigo para contra-argumentar Gilad. Relata Woolston: "Michael Snyder, a geneticist at Stanford University in California and co-author of the original paper, stands by his team’s study and its conclusions and says that Gilad broke the 'social norms' of science by initially posting the critique on Twitter." ["Michael Snyder, geneticista da Stanford University na Califórnia e co-autor do artigo original, defende o estudo de sua equipe e suas conclusões e diz que Gilad quebrou as 'normas sociais' da ciência ao postar inicialmente as críticas no Twitter."]

Não é novidade a identificação da existência de 'normas sociais' nas ciências. Os sociólogos das ciências, pelo menos desde Thomas Kuhn (e talvez antes), vêm denunciando a existência dela deste a década de 1960. Porém, notemos, a existência dessas normas é alvo de denúncia: não é esperado a existência de tais normas no fazer científico. O discurso é que o processo é objetivo, só os fatos contam. Ok, há questões éticas: não fazer os sujeitos experimentais sofrerem inutilmente e, no caso de humanos, sem consentimento prévio; não forjar dados, não plagiar... Há questões de validação: prioridade da descoberta para a publicação mais antiga, nome científico só válido com publicação oficial, aceitação de artigos publicados somente em revistas indexadas para fins de avaliação de produção... Mas regras sociais construídas na forma que seja um tabu abertamente reprovável a não conformidade a elas?

Não é usual o caminho da publicação de contestação pelo twitter? Não, não é. Até porque, dentro da tradição multicentenária da comunicação científica, as mídias sociais são uma novidade recentíssima. No entanto, qual é realmente o problema de tal caminho, ainda mais para se levantar a bandeira das 'normas sociais'?

Poderia se dizer que responderia após a publicação formal. Não haveria mal nisso. Contudo, ao criticar via 'normas sociais' está deixando de responder à crítica não pelo que ela realmente é - se as contestações são ou não procedentes, no caso, se a análise feita apoia ou não a conclusão -, mas simplesmente por causa da forma.

'Normas sociais' podem ser levantadas no sentido de tentar explicar a forma como determinados cientistas ou grupos de cientistas agem: compadrio, moda, formalidades, manias, rapapés... não como exatamente 'normas': regras (mais ou menos arbitrárias e não validadas cientificamente, contando apenas com o peso da tradição e da ditadura da maioria) às quais as pessoas *devem* se conformar.

Em geral, quebrar 'normas sociais', em ciências, deveria ser alvo até de admiração, não de censura.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Divagação científica - divulgando ciências cientificamente 22

Westerman et al. 2014 analisaram a influência da recentidade das atualizações e a credibilidade das informações nas mídias sociais.

Abaixo minhas anotações. Mas, sim, de modo geral, perfis oficiais de twitter que atualizam constantemente as informações são vistos como de credibilidade maior - porém, por via indireta.
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Waterman, D.; Spence, P.R. & Van der Heide, B. 2014. Social media as information source: recency of updates and credibility of information. Journal of Computer-Mediated Communication 19(2): 171-83.

Os autores testaram três hipóteses:
H1 - Recentidade da atualização em um perfil de mídia social é associado positivamente com a credibilidade da fonte.
H2 - A credibilidade é positivamente associada com elaboração cognitiva.
H3 - Há uma associação positiva entre recentidade e elaboração cognitiva.

181 cobaias sujeitos experimentais preferidos em testes dessa natureza (aka alunos de graduação - no caso, de curso introdutório de comunicação em uma grande universidade do Meio Atlântico dos EUA) foram arrolados (em troca de créditos acadêmicos).

Os alunos foram divididos em três grupos: 63 foram apresentados a uma página no twitter da American Heart Association cuja última atualização era de cerca de 1 minutos atrás; para 56 alunos a atualização era de cerca de 1 hora atrás e para 62, cerca de 1 dia atrás.

Após visualizarem as páginas fakes (naturalmente sem estarem cientes de que se tratava de uma página falsa), todos responderam a dois questionários, uma para elaboração cognitiva (5 questões como 'quando via a página, pensava a respeito dela várias e várias vezes', com as quais atribuíam um de 5 graus de concordância/discordância) e outro para medição da credibilidade da fonte (com três dimensões: competência [competence], afeição [godwill] e confiabilidade[trustworthiness]).

Tabela 1. Credibilidade e elaboração cognitiva por condição de atualização.
competência afeição confiabilidade elaboração cognitiva
rápida 4,95 (0,97) 4,83 (0,97) 5,09 (0,92) 2,98 (0,61)
média 4,70 (1,17) 4,54 (1,07) 4,74 (0,99) 2,89 (0,66)
lenta 4,92 (1,13) 4,71 (0,81) 4,96 (0,97) 2,78 (0,74)
Média (Desvio Padrão)

A hipótese H1 não é sustentada diretamente - não há uma diferença significativa em qualquer uma das dimensões de credibilidade por condição de atualização (Tabela 1).

A hipótese H2 foi mantida - houve relação positiva entre elaboração cognitiva e a credibilidade - no todo e nas dimensões.

A hipótese H3 também foi mantida - havendo associação positiva entre elaboração cognitiva e recentidade da atualização (Tabela 1).

Embora não haja uma relação direta entre recentidade da atualização e credibilidade, um modelo em que a recentidade afeta a credibilidade por meio da elaboração cognitiva apresenta uma boa aderência aos dados.

Os autores especulam que a taxa de atualização do twitter estaria por trás do crescimento do número de seus usuários. Talvez seja o caso, mas analisando o crescimento de outras mídias baseadas na internet esse fator não parece muito óbvio (Fig. 1).

Figura 1. Crescimento de número de usuários de mídias baseadas na internet. Fonte: Forbes.

Entre as limitações que os autores listam para o estudo está o pequeno efeito da recentidade na elaboração cognitiva. Pode ser que o tema escolhido - doenças coronárias - não necessite de constante atualização. Um tema que envolva mais urgência poderia ser melhor na análise da relação entre atualização e credibilidade, porém isso poderia envolver a necessidade de manipular alguma crise que levasse as pessoas a procurar por mais informações a respeito - o que não é uma tarefa muito simples. Haveria de se esperar por experimentos naturais de crise (guerra, epidemias, desastres naturais...).

Os sujeitos experimentais também limitam o alcance do estudo - embora sejam naturalmente usuários intensivos de mídias sociais, possivelmente não é um público naturalmente preocupado com doenças cardíacas.

A escala Perse (1990) usada para medir a elaboração cognitiva tem um grau de confiabilidade aceitável (0,68), mas relativamente baixa. Isso pode significar que o baixo efeito da recentidade da atualização pode, na verdade, ser maior. Em todo caso é outra limitação.
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Obs: Um tanto irônico notar o histórico da publicação do estudo - que trata da necessidade de atualização rápida:
Submissão: 08/jul/2011; Revisão: 09/mai/2012; Aceitação: 16/jun/2012; Publicação online do artigo: 08/nov/2013; Publicação online da edição: 16/jan/2014. Muito possivelmente, os estudos foram conduzidos em 2010.

Estou analisando um resultado que se refere a uma dinâmica de 4 anos atrás. A dinâmica das mídias sociais é muito mais veloz do que isso: o Whatsapp, criado em 2009, ainda estava decolando na época do estudo, pouco depois de sua publicação, seria comprado pelo Facebook - a academia precisa arranjar um meio para acompanhar essa velocidade de transformações. Claro que todo estudo científico se refere mais diretamente a um evento passado, mas, para a maioria dos fenômenos, supõe-se que seja extrapolável ao presente (quando não simplesmente transposto); mas nesta área de mídias sociais isso muitas vezes (quase sempre?) não é o caso.

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